Capítulo 170 – Chá puro e uma boa conversa
Capítulo 170 – Chá puro e uma boa conversa
Quando Rubi chega à mesa, puxa uma cadeira e se senta, bem de frente à Chloe.
A elfa pega o bule da bandeja. “Posso te servir um pouco de chá?”, oferece ela, olhando para Rubi.
“Eu aceito experimentar, obrigada.”
Amila despeja o chá na xícara e pega a pinça de açúcar. “Quantos cubos gostaria?”, pergunta ela.
“Nenhum. Pode ser puro mesmo”, Rubi responde e pega o pires com o chá preparado pela elfa.
A diaba aproxima a xícara do rosto e sente o aroma das ervas misturado ao vapor. Parece bom , ela pensa. Deve fazer muito tempo desde a última vez que provei algo assim.
“Entendi. Prefere amargo”, Amila questiona.
“Não é isso. Eu não consigo perceber o sabor do açúcar, então não faz diferença”, Rubi responde.
Chloe para de tomar seu chá, travando na metade do gole. Ela coloca a xícara sobre a mesa, com a testa enrugada como a de uma velhinha. “Não consegue nem provar dos doces que trouxemos para você?”, ela pergunta, engasgando.
“Não”, responde Rubi, direta. “Demônios não precisam nem têm o costume de comer, ao menos os que eu conheço. Eu como porque eu gosto, mas só consigo captar o sabor de coisas mais amargas ou carnes.”
“Poxa, eles são tão gostosos”, lamenta Chloe.
“Vou tomar providências quanto a isso no almoço”, diz Amila.
A diaba prova o chá e sente o gosto das folhas cozidas na água quente, com um final seco e áspero. Um sutil amargor que aquece a garganta e agrada seu paladar. “Só essa bebida já está bom para mim”, ela comenta, suspirando o vapor, satisfeita.
Amila também puxa uma cadeira, senta-se ao lado de Chloe e serve-se com o bule.
Nesse tempo, a garota mantém os olhos em Rubi. Ela quase abre a boca para falar, mas acaba hesitando.
Por fim, Chloe suspira baixo e decide deixar a incerteza de lado.
“Sobre os poderes que você me deu. Tem alguma coisa que eu deva saber?”, pergunta ela, encarando a diaba.
“Em que sentido?”, Rubi indaga.
Amila coloca a xícara sobre o pires. “A senhorita Chloe tem medo de entrar em uma igreja e entrar em combustão instantânea”, resume ela.
A garota fica vermelha no mesmo instante. “Não é isso!”, afirma ela. “Eu quero saber sobre as coisas que eu consigo fazer ou as coisas que eu não devia fazer!”
“Hum…”, murmura a diaba, enquanto toma mais um pouco do chá. “É difícil dizer com exatidão todas as características…”
Nem eu sei de verdade todas as implicações da minha bênção , ela pensa, tentando disfarçar.
“O mais correto seria dizer que varia de pessoa para pessoa”, continua ela. “Como você é uma conjuradora, vai realçar as suas características mágicas. Também deve fortalecer o seu corpo fisicamente. Ao menos um pouco resistente à feridas também.”
Isso parecia um ponto comum entre todos os cultistas e o Brok , ela conclui.
“Mas, mesmo com a minha bênção, você ainda é humana. Se sofrer muitos ferimentos, ainda pode se dar mal”, complementa a diaba. “Sobre a última parte, não consigo lembrar de nenhum ponto fraco.”
Os olhos da garota brilham e ela respira aliviada. “Isso é bom de ouvir”, ela indaga.
“Acha que ela pode conseguir utilizar algum dos seus feitiços?”, Amila pergunta. “Como aquele feitiço que usou para encantá-la.”
Rubi fica um pouco quieta, pensando antes de responder. “Talvez. A resistência que falei tecnicamente já é uma habilidade minha”, diz ela. “Ah, e só para explicar, aquele encantamento não era um feitiço, era uma habilidade. Eu sou uma succubus.”
Chloe curva o cenho. “O quê?”, ela pergunta, mais como um reflexo.
“Ah. Entendo”, comenta Amila, calma, tomando mais um gole de chá. “Isso explica algumas coisas.”
O rosto da garota fica sutilmente vermelho de novo. “Quer dizer que… você pega os homens… e… faz…?”, pergunta ela, formulando a frase, como se pisasse em ovos.
Rubi fecha o rosto. “Calma lá. Não é tão assim. Tem muito exagero no que contam sobre o meu tipo”, retruca ela, fazendo Chloe hesitar. “É muito mais sobre manipulação e estratégia do que qualquer coisa.”
Ao menos é o que dá pra concluir. Ainda não precisei recorrer a métodos mais íntimos pra conseguir meus objetivos , a succubus constata. Mas, em contrapartida, eu consegui meus pactos mais por ser diabo do que por ser uma succubus mesmo. Ainda preciso evoluir um pouco mais nesse quesito.
A garota baixa a cabeça. “Perdão”, diz ela.
A expressão de Rubi se acalma. “Tudo bem”, responde ela. “Falando nisso, o que tem para me falar sobre aquele mago que vendeu a moeda a vocês?”
“O nome dele é Rosok”, a elfa responde. “É um homem mesquinho que trabalha vendendo artigos mágicos e alquímicos.”
“A loja dele é bem popular entre os alunos”, Chloe acrescenta.
“É ele quem fornece as coisas que vocês usam nas aulas?”, Rubi pergunta.
A jovem deixa o pires sobre a mesa e encara seu próprio reflexo sobre o líquido. “Na verdade, o colégio tem uma lista de lugares recomendados para se comprar o material letivo, mas a loja dele está fora dela”, comenta ela. “Ele é popular porque ele não faz muitas perguntas, nem objeções quando se quer comprar algo.”
“As lojas credenciadas têm um controle rígido do que é vendido aos alunos ou exigem formalmente autorização dos responsáveis para a compra de determinados itens”, acrescenta a elfa.
Rubi toma mais um gole do chá. “E é assim que uma jovem discretamente consegue a moeda de um demônio maior e se mete em uma baita confusão”, ela pontua.
Chloe baixa o olhar, com um semblante ressentido. “Ele prometeu que era seguro”, diz ela, cabisbaixa e fragilizada. “Disse que, no final, qualquer demônio aceitaria.”
Amila gentilmente coloca a mão nas costas da garota, num gesto de consolo. “Foi ele quem também nos mostrou o passo à passo de como agir”, pontua ela, olhando para a diaba. “Aquele círculo mágico deveria aplicar uma série de restrições pesadas a qualquer ser invocado que ficasse sobre ele, mas, no final, foi inútil.”
A não ser pela barreira, eu não senti tantas restrições assim , constata a diaba, tomando a última gota da bebida na xícara. Talvez o Byron também pudesse resistir. Quando ele se transforma, ele tem uma resistência mágica quase tão boa quanto a minha. E isso antes de ele ser promovido.
Rubi se levanta e pega o bule para se servir. “Nosso encontro não pode não ter sido como vocês queriam, mas as coisas poderiam ter terminado bem piores”, diz ela, enquanto enche a xícara. “Desde que eu e os outros lordes aparecemos neste mundo, a tendência é que os demônios em geral sejam bem mais fortes. É bem possível que até um demônio maior pudesse resistir àquele feitiço de restrição. E, no meu lugar, qualquer diabo que eu conheço teria dado um fim em vocês na hora.”
Chloe coloca os braços sobre a mesa e dobra a cabeça em cima deles. “Acho que não havia um cenário onde eu sairia de lá com um familiar, não é?”, ela questiona, com a voz abafada.
Já é difícil pensar num outro cenário em que você sairia viva , Rubi pensa.
“Enfim, se vamos procurar pelas moedas, é por ele que devemos começar”, diz Amila.
“Qual a chance de vocês conseguirem informações só perguntando?”, indaga a diaba.
“Nenhuma”, Chloe responde. “Ele nunca fala onde consegue as coisas que vende. Provavelmente nem se pagarmos pela informação. Faz parte dos termos dele. Você encomenda, ele consegue e ninguém faz perguntas.”
“Não é estranho pensar que ele consegue boa parte de seus produtos com fornecedores que trabalham com negócios tão sujos quanto os dele”, Amila acrescenta.
A diaba toma mais um pouco do chá e deixa o ar quente sair pela boca. “Já entendi a situação”, diz ela. “Ao que tudo indica, vou ter que encontrar esse homem pessoalmente.”
Chloe engole seco. “Vai… matá-lo… ou…?”, ela pergunta.
Rubi coloca a xícara sobre a mesa, antes de responder. “Não. Pode ficar tranquila. Chegar matando não faz muito o meu estilo. Só vou trocar uma palavrinha com ele.”