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Capítulo 4

A Detetive Já Está Morta — novelmania.com.br · All chapters

Capítulo 4

4.Uma jornada para recuperar o que esquecemos

Depois de obtermos algum resultado, de certa forma, Natsunagi e eu deixamos Londres e seguimos para nosso próximo destino, na esperança de encontrar uma maneira de subjugar a SPES.

“Ugh, estou enjoada...”, murmurou Natsunagi, levando a mão à boca. No entanto, ela definitivamente (provavelmente) não estava me criticando. Era enjoo do mar.

Lá estava ela, agarrada desesperadamente ao balaústre de um pequeno barco, já meio grogue, balançando sobre as ondas.

Esfreguei suas costas. “Você está bem? Precisa vomitar? Se quiser, eu finjo que nem vi, então não se preocupe com isso.”

“Vomitar aqui pode arruinar meu apelo como heroína, então vou aguentar...”

“Você é hilária.”

Já havia estado em um barco com Natsunagi antes, mas na época era um grande navio de cruzeiro, então ela tinha ficado bem.

“Já consigo ver a ilha. Logo vai acabar.”

Sim: estávamos a caminho da ilha que a SPES havia usado como esconderijo secreto, há algum tempo. Fomos até lá para saber mais sobre nosso inimigo, Seed. Um ano atrás, aquele encontro completamente inesperado com ele nos impediu de investigar adequadamente. Desta vez, talvez encontrássemos algo útil.

Com esse pensamento em mente, decidimos deixar a Inglaterra e partir para a ilha, e foi assim que viemos parar aqui. Uma certa pessoa teve a gentileza de nos trazer até este ponto.

“Chegaremos em cerca de quinze minutos. Detetive e Assistente, preparem-se, por favor.” Olivia, a serva da Oráculo, saiu da casa de comando. Ela não apenas organizou nosso voo a partir de Londres, como também pilotou o barco até aqui.

“Eu não fazia ideia de que você sabia navegar.”

“Sim. Se eu me empenhar, consigo até pilotar um caça.” Nesse nível, acho que ela deveria trocar de carreira, de comissária de bordo para piloto.

“Mesmo assim, não sei como agradecer por ter feito isso por nós,” disse Natsunagi, mesmo com o rosto ainda pálido.

“Está tudo bem. Servir à minha senhora me acostumou a lidar com pedidos caprichosos.” Com um sorriso discreto, Olivia retornou à casa de comando. No entanto, logo parou e falou conosco sem se virar.

“Além disso, acredito que vocês dois vão criar o futuro que a Senhorita Mia deseja.” Algum tempo depois, nos despedimos temporariamente de Olivia e pisamos na ilha.

Já fazia um ano que eu não via aquele lugar: uma ilha pequena, remota e desolada, que parecia completamente desabitada. Ainda assim, seguimos para o interior, em busca da instalação de pesquisa que sabíamos estar ali.

“Andar assim é difícil...” No ano anterior, eu havia feito esse trajeto na garupa da moto que Charlie pilotava como uma profissional.

“O que me diz, Natsunagi? Não está na hora de você tirar sua habilitação?”

“Ah, não conte comigo para isso. Esse é mais o seu papel, Kimizuka.” Natsunagi me lançou um olhar de desprezo agora que o enjoo do mar havia passado.

“Hmm... Um cara que não se interessa por carros... não vejo futuro nisso...”

“Por que você está pensando em um futuro comigo, Natsunagi?” Pessoalmente, gostaria de passar meu futuro no banco do passageiro do carro de uma mulher competente. Afinal, eu sou o assistente, né?

“Na verdade, é meio tarde para levantar isso, mas,” continuou Natsunagi, mudando de assunto enquanto caminhávamos lado a lado.

“você acha que ainda tem alguma informação nova sobre a SPES nesta ilha? Quer dizer, parece algo que a Charlie ou alguém parecido já teria checado.”

Ela tinha razão... Na verdade, eu nem precisava perguntar a Charlie, era quase certo que ela já havia passado por aqui. Enquanto eu passava o último ano sem fazer nada, ela estava caçando o legado da Siesta e se preparando para enfrentar a SPES.

“Mas a Charlie não é muito boa com trabalho intelectual.”

“Se ela estivesse aqui agora, acabava com você por dizer isso.” ...Bem, esses sempre foram nossos papéis, Charlie e eu.

“Além disso, achei que talvez houvesse algo que só nós pudéssemos perceber.”

Eu havia perdido a Siesta nesta ilha, um ano atrás. Eu tinha história aqui. E Natsunagi passou a infância no centro de testes da SPES. Considerando que ambos tínhamos memórias ausentes, poderíamos captar algum novo indício.

“Entendo...” Natsunagi levou o dedo ao queixo, pensativa. “Nesse caso, antes de irmos ao laboratório de pesquisa, tem um lugar onde gostaria de passar primeiro.” Ela mencionou um certo local que não visitava há muito tempo.

O primeiro trio

“É aqui o lugar de que você nos falou antes?”

“Sim. Não mudou em seis anos... Embora o teto pareça um pouco mais baixo, acho,” disse Natsunagi, explorando o cômodo.

Estávamos na pequena base secreta de papelão que ela conhecia tão bem seis anos atrás.

“Foi aqui que nós três traçamos o plano de batalha para derrotar os pseudohumanos,” disse ela, pegando um dos bichos de pelúcia que ficavam na janela.

Os “três” a que ela se referia eram Natsunagi, Siesta e Alicia. Ela mesma havia contado isso, durante a conversa que teve com Hel no espelho, outro dia.

A rebelião contra a SPES começara ali, com aquelas três.

“A Ali sempre teve suspeitas sobre essa instalação e investigava várias coisas por conta própria.”

Natsunagi tirou uma pasta grossa de uma estante. Os papéis ali continham o que pareciam ser informações pessoais das crianças criadas naquele local. Enquanto ela folheava os documentos, eu vi de relance a foto de uma garotinha com lindos cabelos loiros. Será que uma criança tão pequena quanto ela também foi submetida aos experimentos de receptáculo do Seed?

“Mas seis anos atrás, a Ali….  Alicia  morreu. Depois, a Siesta morreu no ano passado. Só restou eu.” Natsunagi mordeu o lábio.

Ela carregava um passado que havia esquecido, uma missão que não conseguiu cumprir.

Eu também tinha me preparado para esse tipo de coisa, como ela, mas não conseguia imaginar facilmente o peso que descansava sobre os pequenos ombros de Nagisa Natsunagi.

“Desculpa por fazer vocês perderem tempo com isso.”

Natsunagi devolveu a pasta à estante e deu dois tapas firmes nas bochechas, tentando se recompor. Renovar sua determinação devia ser parte do motivo pelo qual quis vir aqui, a este lugar repleto de lembranças de Alicia e Siesta.

“Sem problema.” Abri a caixa de papelão mais próxima.

Eu meio que suspeitava que poderia haver alguma pista ali, mas tudo o que encontrei foram algumas das pequenas armas que a Alicia tinha fabricado.

“Agora que penso nisso, foi a Alicia quem criou o modelo básico do mosquete da Siesta, não foi?”

“Sim, a Ali realmente conseguia fazer qualquer coisa. Era como mágica.” Natsunagi sorriu, lembrando-se dela.

Ela devia ter sido uma garota tão nobre e corajosa que só de ouvir falar dela eu já desejava tê-la conhecido.

“Ah, tem uma bomba aqui. Quer levar?”

“...Sua amiga tinha licença para lidar com substâncias perigosas?”

Cruzando os dedos e esperando o melhor

Pouco depois, chegamos à instalação de testes da SPES. Como era a base de operações deles, pensei que ainda poderia haver alguma informação sobre Seed por lá, mas...

“Quer dar uma volta por aqui?”

Natsunagi e eu exploramos o prédio, que lembrava um hospital. Quase não entrava luz natural. Os cômodos eram sombrios e o lugar inteiro parecia abandonado. Quando comecei a achar que estávamos só vagando à toa, prestes a sugerir que seguíssemos para o outro local...

“Natsunagi?” ...percebi que ela estava segurando a manga da minha camisa com a ponta dos dedos.

“...Desculpa.” Havia uma sombra nos olhos dela e um leve, quase imperceptível tremor nas mãos.

...Ah, claro. Que tipo de lugar essa instalação tinha sido para ela? Como ela se sentia aqui? Não era surpresa nenhuma que Natsunagi estivesse assim.

“Está tudo bem,” eu disse. “Não há mais inimigos aqui para te machucar.”

Um ano atrás, a SPES já quase tinha abandonado este lugar. E como a própria Natsunagi disse, a Charlie provavelmente já tinha vindo investigar. Não precisávamos mais estar tão alerta; não era tão perigoso assim.

“...Sim, eu sei. Racionalmente, eu entendo isso.” Mas Natsunagi não conseguia mover os pés.

Ela sabia que o lugar era seguro, tanto quanto eu. Mas a dor e o medo que sentira aqui no passado tinham deixado uma marca profunda. Foi por isso que Natsunagi criou, inconscientemente, a Hel: para carregar essa dor e essas memórias por ela. Nesse caso...

“Aqui.” Virei as costas para Natsunagi e estendi os braços para trás.

“U-um... cavalinho?” Natsunagi soou confusa.

Argh. Ela precisava mesmo falar desse jeito? Que vergonha. “Bom, sabe como é. Não posso te dar carona numa moto agora, mas posso te carregar.”

Incentivei Natsunagi a subir nas minhas costas.

“...Pfft!”

“Ei, para com isso. Por que está rindo?”

Ela tinha percebido minha tentativa fracassada de parecer legal? Tomara que não. E mesmo que tenha percebido... não ria do fracasso dos outros, por favor.

“Heh-heh, não... É que essa frase soou muito como você. Não que isso seja um elogio.”

“Como assim não é ?! Por quê?!” Enfim, deixa isso pra lá. Sobe logo. Ficar parado aqui nessa pose é constrangedor.

“Se disser que estou pesada, eu te mato duas vezes.”

“Eu tenho esse mínimo de bom senso.”

“Então tá... obrigada,” murmurou Natsunagi, em voz baixinha. E então pulou nas minhas costas.

“Hmm. Você está em melhor forma do que eu esperava.” O sussurro veio bem atrás da minha orelha.

“Hel, né?”

A voz era um pouco mais grave que a da Natsunagi, e o jeito de falar... Tudo indicava que agora eu tinha a segunda personalidade dela nas minhas costas.

“O que você está fazendo aqui? Consegue simplesmente sair assim, do nada?”

“Este é um caso especial. Como sabe, este lugar é... um pouco difícil para a minha mestra.”

Será que Hel apareceu porque percebeu o medo da Natsunagi? Do mesmo jeito que sempre tomava para si a dor e o sofrimento dela?

“Eu achei que tinha conseguido acalmá-la direito.”

“Não, tenha bom senso. Um cavalinho não resolve nada. É ridículo. Minha mestra é gentil, por isso foi junto com a sua ideia só para não ferir seus sentimentos, foi só isso.”

Ela tinha acabado de soltar uma bomba completa. Só podia estar brincando. Natsunagi estava sempre cuidando dos meus sentimentos assim? Eu achava que estávamos tendo conversas divertidas, será que tudo era coisa da minha cabeça?

Talvez a idade mental das garotas seja mesmo mais alta do que aparentam... Com exceção de Charlotte Arisaka Anderson, claro...

“Não, espera. Nesse caso, por que você ainda está nas minhas costas, Hel?”

Eu achava que cavalinho era algo meio bobo.

“Ah, é que eu não queria ter o trabalho de descer. Além disso...” Hel deu um sorriso irônico. “Pensei que talvez fosse aceitável agir como sua parceira, só desta vez.”

Pensando bem, lembrei que ela já havia tentado me convencer a ser seu parceiro em algum momento... embora eu não conseguisse imaginar que as palavras do texto sagrado tivessem sido escritas com essa situação em mente.

“E você ajudou a Natsunagi ontem também, não foi?”

Ela me contou que Hel havia sido a verdadeira razão pela qual o incidente com a Medusa foi resolvido. Por cima do ombro, agradeci por ter ajudado minha parceira.

“É impressionante. Você tem dois Detetives de Elite à disposição e mesmo assim recorre a mim.”

Bem perto do meu ouvido, Hel soltou uma risada suave e resignada.

“Eu não tenho um forte senso de justiça nem paixões intensas que resistam às circunstâncias, como aqueles dois tinham. No entanto, aparentemente existem lugares onde até demônios podem ser úteis sendo apenas o que são.”

Sua autodepreciação não era um ódio genuíno de si mesma. Hel já havia se chamado de monstro, mas foi salva através de sua conversa no espelho com Natsunagi. Natsunagi lhe disse que ela certamente não era um monstro ou demônio, ela sempre teve um jeito particular de amar. Ser guiada por emoções triviais era prova de que era humana.

“Bem, não acho que seja um tipo de artifício que possamos usar muitas vezes. De qualquer forma, meu mestre está bem forte agora, mesmo sem mim por perto”, disse Hel.

“Se você consegue se manifestar no corpo da Natsunagi, e a Siesta? Ela poderia aparecer quando quisesse?”  perguntei, enquanto seguia caminhando com Hel nas costas.

“Aquela Detetive de Elite e eu temos origens diferentes, então é difícil dizer com certeza”, ela respondeu, evasiva. “Ainda assim, não a vejo tomando o controle deste corpo novamente. Provavelmente, ela decidiu que estava tudo bem afrouxar um pouco minhas amarras, e o alívio a fez cair em um sono mais profundo. Além disso...”

Ela soltou um pequeno suspiro, bem ao lado do meu ouvido.

“Hel?”

“...Ah, nada. Só pensei que a Detetive de Elite é mesmo a única coisa em que você pensa, em qualquer situação”, Hel sussurrou, tirando sarro de mim. Nossa, isso é extremamente injusto.

“O quê, está com ciúmes?”

“Vou te jogar no inferno.”

“Por que você é mais cruel do que as detetives...?” Suas ameaças faziam palavras como ‘idiota’ ou ‘duplo assassinato’ parecerem fofas.

“Já que você é um humano que teve a gentileza de se aproximar da minha mestra, estou apenas tentando garantir você como parceiro dela. Pessoalmente, não tenho interesse nenhum em você.”

“Essa não cola. Você disputou comigo com a Siesta.”

“Por que você é a princesa da história?” Hel suspirou, claramente irritada. Agora ela conseguia expressar uma variedade de emoções, hein?

“Na verdade, estou profundamente irritada com você neste momento.” Dessa vez, sua voz foi fria. “Você é livre para amar aquela Detetive de Elite, mas….”

“Eu não amo ela.”

“Mas”, repetiu Hel com firmeza, me interrompendo.

“Se você fizer minha mestra chorar, haverá consequências.”

Esses eram os sentimentos inabaláveis de Hel em relação a Natsunagi. Mesmo que tivesse que sujar as próprias mãos, ela protegeria a vida de sua mestra. Para ela, era um juramento absoluto e imutável.

“Sim, eu sei.” Assenti sem hesitar. Fiz isso por Nagisa Natsunagi, é claro.

Ou talvez por Hel, que poderia ter se tornado minha parceira de verdade em uma daquelas inúmeras rotas possíveis.

“Então está prometido”, disse Hel. Ela aproximou os lábios do meu ouvido.

“Se mentir... vou te matar duas vezes.”

Com uma voz que entorpeceu meu cérebro, ela firmou uma promessa entre nós dois.

“...Hã...? Eu...” No momento seguinte, a voz com a qual eu já estava acostumado voltou.

“Você está bem, Natsunagi? Estamos quase chegando”, falei por cima do ombro.

“Ah... Oh, sim... Entendi.”

Ela deve ter percebido por que suas memórias do último minuto estavam ausentes, mas seu suspiro trouxe um leve alívio.

“Ah, desculpa. Você me carregou o tempo todo.”

“Não se preocupe com isso. Mas seus peitos estão encostando mais em mim do que eu imaginei.”

“Você não disse que tinha bom senso?!”

Segui em frente com Natsunagi ainda nas minhas costas, enquanto ela gritava para eu colocá-la no chão, e entrei no elevador que levava ao subsolo.

“Será que isso ainda funciona?”

“Sei lá. Funcionava no ano passado, mas...”

Esse era o elevador que Charlie e eu havíamos usado para ir ao subsolo um ano atrás. Lá embaixo, encontramos Seed, o líder da SPES.

“Hmm?”

No entanto, no instante em que as portas do elevador se fecharam, ficou óbvio que desta vez seria diferente. Luzes alaranjadas atravessaram o interior da cabine mecânica em padrões labirínticos, e então os botões do painel ganharam destaque, como imagens em 3D.

“...Então temos duas opções, hein?”

Apenas dois andares estavam disponíveis: B1 e B2. Eu não sabia por que esse sistema havia sido ativado, mas... Não lembrava de o botão B2 estar lá da última vez.

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Achando melhor escolher a opção mais segura primeiro, apertei o botão “B1”  e, com um ruído surdo, o elevador começou a descer.

“Escuta, se isso ainda tem energia... não há chance de alguém estar aqui?”

Natsunagi sussurrou, apreensiva, no meu ouvido.

Sim, talvez fosse uma boa ideia nos prepararmos para essa possibilidade. Mas só havíamos trazido o mínimo de armamento. Natsunagi tinha deixado o mosquete no barco. A tensão ao nosso redor aumentava.

“Natsunagi, consegue andar sozinha?”

“Sim. Temos que estar prontos para correr, se for preciso.”

“É. E, além disso, você está ficando meio pesada.”

“Sabe, acho que talvez eu te odeie de verdade, Kimizuka.” Enquanto conversávamos, o elevador chegou ao primeiro subsolo.

Era o núcleo da instalação de pesquisas, o lugar onde ambos havíamos encontrado Seed: seis anos atrás para Natsunagi, um ano atrás para mim. Embora não devesse haver mais nenhum membro da SPES ali, o que encontramos foi….

“...! Por que você está aqui?”

A sala estava cheia de tanques de cultura enfileirados, e dentro de um deles... estava o corpo de uma detetive de cabelos brancos muito familiar.

Ela está ali, ao meu lado, sempre.

“Siesta!” Sem pensar, corri até ela.

O conteúdo da maioria dos tanques cilíndricos não era visível do lado de fora. No entanto, um deles estava preenchido com uma névoa branca e, dentro dele, eu tinha vislumbrado um rosto que conhecia e amava.

Cabelos prateados pálidos. Cílios longos, evidenciados pelos olhos fechados. E uma beleza que só podia pertencer a uma única pessoa. Eu tinha certeza: o nome dela era….

“Não, não olhe!”

“Ai, ai, ai! Seu dedo! Tá enfiando no meu olho!”

Natsunagi cobriu meus olhos com força por trás, e parecia que ela queria esmagar meus globos oculares.

“Que diabos você está fazendo?!”

“A Siesta está sem roupa! Não olha!”

...Ah, entendi. Não tinha notado à primeira vista por causa da fumaça, mas aparentemente, ela estava mesmo nua.

“Mas o que ela está fazendo aqui?” Afastando-me um pouco do tanque, comecei a pensar.

Siesta havia morrido um ano atrás. No entanto, seu corpo foi colocado em criogenia e, mais tarde, equipado com uma inteligência artificial, renascendo como SIESTA, a empregada. O coração artificial da SIESTA havia sido danificado em combate dias atrás, e ela havia sido transportada para um hospital.

“Ela deveria estar em tratamento agora...” Justo quando me perguntava sobre isso….

“Sim, e este é o hospital, Kimihiko.” Uma terceira voz se manifestou.

Involuntariamente, olhei para Natsunagi. Seus olhos também estavam arregalados, e ela olhava ao redor da sala.

Não me diga que,  Ao me virar novamente para observar melhor a garota adormecida no tanque...

“Onde você está olhando? Estou aqui. Bem aqui.”

A voz vinha do bolso frontal do meu paletó. Meu smartphone estava lá. Tirei-o, um pouco apreensivo, e...

“Você é mesmo idiota, Kimihiko?”

Na tela, havia uma garota vestida com uniforme de empregada, e a primeira coisa que fez foi me xingar.

“...O que você está fazendo, SIESTA?”

A garota de cabelos brancos bebia chá elegantemente, como se estivesse vivendo dentro do telefone.

“Por que está tão surpreso? Sou apenas uma inteligência artificial, então consigo migrar para dispositivos digitais.”

“Quando foi que você hackeou meu celular...?”

“Não hackeei. Só estou transmitindo meus dados via Bluetooth.”

“Isso foi fácil demais!” Será que ativei a conexão ao entrar na sala onde estava sua unidade principal?

“Hã... Então, se eu enviasse um e-mail para um dos computadores da instalação, você conseguiria ler, SIESTA?”

“Sim. Com certeza. Aliás, Nagisa, mais tarde poderíamos discutir tópicos como: ‘Qual é a quinquagésima terceira coisa que você não suporta no Kimihiko?’ Vai ser divertido.”

“Não organize eventos de comédia com temas horríveis, e pare de pensar em cinquenta coisas que você detesta em mim!” ...Aff. Nunca pensei que teria que responder piadas em um lugar como este.

“Aliás, de onde você tirou esse chá que está bebendo?”

“Função de compra de itens virtuais. A cobrança será incluída na sua conta telefônica no fim do mês, então não se preocupe.”

“Como isso sequer funciona...? Haaah. Mas, enfim, parece que você está bem. Isso é bom.”

“Sim, felizmente.” Na minha mão, SIESTA sorriu. O corpo físico de Siesta aparentemente ainda estava em tratamento, mas, ao menos, a inteligência artificial SIESTA estava bem.

“Mas SIESTA, você disse que isto é um hospital?” Natsunagi apoiou a mão no meu ombro, espiando o smartphone.

“Isso mesmo. O médico que está cuidando de mim está morando aqui no momento.”

Aqui? No antigo esconderijo da SPES? Isso parecia incrivelmente descuidado.

“Esta instalação, ou hospital, é particularmente adequada para tratar entidades irregulares como eu. Afinal, foi aqui que os pseudohumanos foram desenvolvidos.”

...Entendo. Então este era mesmo o lugar ideal para tratá-la. Parecia que o médico dela não estava presente no momento, porém.

“A propósito, aquela chave foi útil?” Do nada, SIESTA perguntou sobre a chave mestra. A jornada em que estávamos havia começado, dias atrás, quando ela me entregou aquele objeto.

“Sim, ela nos deu uma pista. Ainda temos problemas a resolver, no entanto.”

Enquanto falava, balancei a chave para ela ver.

“Fico feliz em ouvir isso. Nesse caso, devolva a chave pela bandeja ali.”

“Dá pra ser um pouco menos fria...? Bom, provavelmente não vamos mais precisar dela mesmo.”

Agora que Siesta não pretendia mais invadir minha casa com ela, devolver não seria problema.

“E então? Pode parecer tarde pra perguntar, mas o que trouxe vocês dois aqui?”

Na tela, SIESTA inclinou a cabeça. Pensando bem, ainda não havíamos explicado isso.

“Kimizuka e eu estamos viajando pelo mundo em busca de informações sobre como derrotar Seed... ou algo assim.”

Natsunagi abriu os braços num gesto cansado e exagerado. Ela parecia estar se divertindo bastante até agora, ou seria impressão minha?

“Oh? Só você e Kimihiko, sozinhos, hmm?” Os cantos dos lábios de SIESTA se curvaram levemente, enquanto ela olhava para Natsunagi através da tela.

“...Bom, já que não parece haver mais nada aqui, é hora de seguirmos em frente.”

Natsunagi desviou o olhar propositalmente, examinando a sala.

Sim, a melhor forma de lidar com as provocações da empregada de cabelos brancos era ignorá-las. Não dá pra saber com quem ela aprendeu isso, mas ela consegue tirar você do sério por horas.

“Certo, vamos descer mais um andar. Quero que venha conosco, SIESTA.”

Seja lá o que fosse aquela mudança no elevador, meu instinto dizia que poderia nos levar à resposta que estávamos buscando. Cerrei os punhos, silenciosamente.

“Claro, por mim tudo bem. Mas, mais importante... A distância física entre você e Nagisa está ainda menor do que antes. Aconteceu algo nessa viagem, enquanto estavam sozinhos?”

“Não precisa incluir piadas agora! Olha pro Kimizuka! Ele tá encarando o elevador com expressão determinada, tá? Tá no modo ‘herói de ação’!”

“Natsunagi, não use minha cara de concentração como piada.”

E assim nasceu o inimigo do mundo.

“Então... Este é o sistema nervoso central deles, hein...?” Observando o enorme sistema mecânico alguns metros à frente, suspirei.

Vários monitores enormes estavam enfileirados contra a parede, com teclados e painéis de controle que não pareceriam fora de lugar na cabine de um jato posicionados à frente. Havíamos voltado ao elevador e descido ao segundo subsolo. Este parecia ser um dos pontos vitais da instalação.

“Eu não fazia ideia de que isso existia. Será que é um banco de dados da SPES?”

SIESTA, que ainda estava no meu smartphone, observava aquelas máquinas enigmáticas com grande interesse. Ainda era apenas uma possibilidade, mas a informação sobre Seed que precisávamos podia estar ali.

“Como se usa isso? Nem consigo ver onde está a fonte de energia.” Natsunagi parecia confusa. Sim, precisaríamos ligar o sistema antes de fazer qualquer coisa.

“Autenticação biométrica”, disse. Os olhos de Natsunagi se arregalaram ligeiramente.

“Acho que o mecanismo que despertou no elevador antes pode ter sido ativado por um sistema de autenticação do tipo.”

Eu tinha usado aquele elevador um ano atrás, e uma coisa estava diferente agora: eu tinha aquela semente. O sistema de autenticação do elevador podia ter me confundido com Chameleon, um dos executivos da SPES.

“Isso significa que há uma boa chance de conseguirmos acessar isso também.”

Caminhei até ficar em frente às máquinas. Estava prestes a enganar o sistema.

“.........” Nada. Ok. Só por experiência, comecei a digitar aleatoriamente em um dos teclados, encerrando com um clack dramático. Apenas o som seco das teclas ecoou no silêncio.

“...Nada está acontecendo.” Esperei mais dez segundos. As máquinas permaneceram inertes.

“Bom, quando o Kimihiko tenta bancar o legal, quase nunca dá certo. Nada surpreendente.”

“Por que sou o único que nunca é o MVP?!”

“Estou prestes... a enganar o sistema.”

“Para de me imitar, para de ler meus pensamentos e para de tirar sarro de todos os meus momentos embaraçosos!”

Falei tudo de uma vez, exasperado com a empregada irritante de cabelos brancos na tela.

“Kimizuka, pode dar licença um pouquinho?” Natsunagi acenou, pedindo que eu saísse da frente, e ocupou meu lugar diante das máquinas. E no momento em que o fez….

“...! Ligou...?”

Por um instante, aquela luz alaranjada percorreu o gigantesco painel de controle em forma de teclado, e então incontáveis linhas de texto começaram a correr pelas telas acima. A autenticação biométrica funcionou... mas para Natsunagi? Por quê? Ela só havia herdado uma semente, como eu... Ah. Entendi.

Ela é Hel. A única executiva em quem Seed confiava.

Confiança. Considerando que Seed planejava usar Hel como receptáculo, não achava que aquela palavra de cinco letras descrevesse bem o relacionamento deles. Mas Natsunagi usara esse termo. Devia ser porque sabia que Hel queria ser amada por Seed.

“Bom, isso ativou o sistema. SIESTA, posso deixar o resto com você?”

“Sim, agora que passamos pela primeira barreira, consigo infiltrar o banco de dados.”

Assumindo o lugar de Natsunagi, SIESTA desapareceu do meu smartphone. Um momento depois, ela surgiu na tela diante de nós.

“Parece que posso acessar a lista das sementes que Seed possui, os dados dos experimentos com as crianças que foram candidatas a receptáculo, e várias outras informações sobre a SPES. Há algo específico em que queiram focar?”

Ela ia de uma tela a outra, extraindo arquivos. Parecia que estava literalmente hackeando o sistema.

“Nosso objetivo principal agora é descobrir as fraquezas de Seed.” Lembrei da carta que Siesta havia deixado para mim em Londres, aquela que li antes de vir para esta ilha.

Siesta estava tentando descobrir o motivo específico pelo qual Seed não conseguia se adaptar ao ambiente da Terra. Isso deveria ser a chave para subjugá-lo, e era exatamente o que mais precisávamos saber no momento.

“Vou tentar acessar as informações pessoais de Seed.” Dizendo isso, SIESTA desapareceu temporariamente da tela. Pouco depois, um modelo 3D com um padrão geométrico surgiu na tela preta.

“A semente primordial, hein?”

Essa semente era o corpo principal de Seed e o progenitor de todos os clones.

No entanto, enquanto observava o modelo girar, percebi que a semente primordial era um pouco diferente da semente de Chameleon. Havia uma camada externa envolvendo a parte principal. O que aquela camada estaria protegendo?

“Seed planeja tomar a forma dessa semente, entrar em um corpo humano e então assumi-lo como receptáculo.” Natsunagi ergueu os olhos para a tela, estreitando-os.

“Ele já tentou isso muitas vezes e falhou. É por isso que criou essa instalação de pesquisa: para cultivar um receptáculo resistente que pudesse suportar sua semente.”

Ela mordeu o lábio. Estava se lembrando de quem já havia sido, e dos amigos que haviam caído vítimas dele.

Como ela disse, corpos humanos não se adaptavam facilmente à semente primordial. Bath nem sequer conseguiu se ajustar completamente a uma semente comum e perdeu a visão como efeito colateral.

A semente primordial provavelmente exigiria um preço ainda maior, e uma quantidade imensa de nutrientes do corpo que a recebesse. Isso significava que Seed estava sempre procurando por um receptáculo humano que não fosse sobrepujado, que não definhasse.

“É provável que Seed tenha se tornado ainda mais poderoso nesse processo.”

De repente, ouvimos a voz de SIESTA vinda de dentro da máquina.

“Acredito que, ao entrar nos corpos de seres vivos na forma de semente, ele estudou sua composição a nível celular... e eventualmente, adquiriu a capacidade de tomar forma humana. É também por isso que consegue criar clones com órgãos especiais.”

...Entendo. Seed vinha evoluindo constantemente desde que chegou a este planeta.

Isso também devia ser fruto de seu instinto de sobrevivência.

“Ainda assim, ele deve ter uma fraqueza.”

Se não tivesse, não desejaria um corpo humano tão desesperadamente a ponto de fazer tudo isso. O que o impedia de se adaptar ao ambiente terrestre devia ser seu ponto fraco.

“Sim. Porém, neste momento, não encontro nenhum dado que se encaixe nessa descrição.” SIESTA, que havia retornado ao meu celular, balançou a cabeça.

Bom, nunca seria tão simples assim. Nesse caso...

“SIESTA, você pode verificar os movimentos passados de Seed e seus clones?”

Mesmo que não encontrássemos exatamente a informação desejada, com um banco de dados vasto como esse, certamente haveria algo que pudéssemos captar de forma indireta.

Se Seed estava usando o texto sagrado para emitir ordens aos seus subordinados, não seria estranho que tivesse deixado um certo nível de dados detalhados para trás.

“Parece ser possível... mas é um pouco assustador ouvir você dizer isso, Kimihiko. Soa meio... perseguidor, sabe?”

“Quem perseguiria o inimigo? Vasculhar o lixo de uma colega de classe é uma coisa, mas...”

“Ah, não, isso definitivamente também não é normal. E, Kimizuka, você realmente parece do tipo que faria isso, então é ainda mais assustador.”

Natsunagi abraçou os próprios ombros e deu um salto para trás. Que estranho. Por que ela estaria com tanto medo de mim?

“...Ah, espera. Se você estivesse perseguindo alguém e fuçando no lixo dela, seria porque não conseguia tirá-la da cabeça? Porque ela era o foco de um amor incrivelmente intenso e desesperado? ...Se for por isso, então... talvez?”

“Não. E eu estava sendo sarcástico; não desperdice isso.”

Mesmo durante essa troca inútil, SIESTA continuava analisando os dados, e um registro detalhado das ações de Seed e dos demais membros da SPES começou a rolar pelas telas.

“....É a Hel.” Natsunagi avistara o nome de sua outra identidade.

“Ela fez mais do que qualquer outro, hein,” murmurei. A tela estava cheia das ações passadas de Hel ao longo de vários anos.

Como executiva da SPES, como braço direito de Seed, ela havia cumprido seu papel com mais fidelidade que qualquer outro. Ela não podia saber que, um dia, seria consumida como receptáculo de Seed.

“Os outros executivos não parecem ter feito nada muito marcante, no entanto.” Enquanto examinava os dados, Natsunagi parecia ter notado algo. Sua voz carregava uma leve perplexidade.

“Você quer dizer Cerberus e Chameleon? Bom, eles realmente pareciam menos cautelosos e mais do tipo que operam nas sombras, infiltrados, mas... Não, espera.”

Naquele momento, uma ideia me atravessou a mente como um raio.

“É isso?”

Fitei os monitores e revisei os padrões de ação dos clones. “SIESTA, analise novamente os históricos de Seed e seus clones... verifique horários, locais e como estava o tempo em cada ocasião.”

“Entendido. Vou trabalhar o suficiente para pagar pelos meus itens virtuais.” SIESTA mergulhou de volta no banco de dados e começou a acessar as informações.

“Kimizuka, você não quer dizer que...” Os olhos vermelhos de Natsunagi estavam arregalados. Aparentemente, ela chegara à mesma conclusão que eu.

“Sim. Podemos ter encontrado a fraqueza de Seed.”

Claro, ainda era apenas uma teoria. Sem exemplos suficientes e provas concretas, provavelmente não passaria de um devaneio. Ainda assim, vislumbrei uma fagulha de esperança.

Se organizássemos os dados, deduzíssemos, testássemos novamente e depois verificássemos tudo... Eu tinha certeza de que conseguiríamos.

“Kimihiko, sinto muito. Posso continuar extraindo dados, mas talvez não tenhamos muito tempo,”  disse SIESTA, do meu smartphone. No momento seguinte, recebi uma ligação de um número desconhecido.

“...Com esse timing, acho melhor você atender,” sugeriu Natsunagi. Ela estava com uma expressão séria.

Apertei o botão de ATENDER. “Alô?”

Do outro lado da linha, ouvi: “Kimihiko? Escute com atenção.”

Era a voz de uma garota com quem eu havia falado recentemente. Ela parecia estar tentando manter a calma, mas dava para notar o pânico contido em seu tom.

“Volte para casa imediatamente. Dentro das próximas vinte e quatro horas, Seed vai atacar o Japão.” Era o Oráculo, Mia Whitlock, profetizando uma crise de escala global.

Traduzido por Moonlight Valley

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