Capítulo 5
Capítulo 5
5. Outro contador de historias
Em algum lugar do Japão, numa certa fábrica abandonada...
“Bat, você está bem?!”
Com a chuva tamborilando no telhado da fábrica, a garota de olhos safira chamou meu nome. Ela não precisava gritar; eu ouvia perfeitamente bem, mas aparentemente meus ferimentos estavam feios o suficiente para deixá-la realmente abalada.
“...Ha! Isso não é nada.”
Dito isso, eu estava praticamente cego, então nem conseguia ver como estavam os ferimentos. Tínhamos nos refugiado nessa fábrica abandonada, e eu me apoiava contra uma coluna enferrujada, sorrindo. Havíamos deixado a residência dos Saikawa e estávamos fugindo do inimigo há mais de meio dia.
Eles haviam nos atacado do nada. Seed parecia querer seu novo receptáculo com mais urgência do que imaginávamos.
Apesar disso, ele ainda não tinha se mostrado. Eu tinha ficado nesse estado por causa de um mero sobrevivente da SPES. Ao que parece, meu tempo na prisão afetou bastante minhas habilidades.
“As pessoas não sangram tanto quando não é nada!” por algum motivo, a garota de olhos safira gritava comigo.
Ela havia encontrado um ponto onde o sangramento era mais intenso e tentava estancá-lo com seu lenço.
“Quem de nós é superprotetor, hein?” brinquei. Era constrangedor ser cuidado por uma garota vinte e poucos anos mais nova que eu.
“Você não pode chamar isso de ‘superproteção’. Se fosse o Kimizuka, eu teria que abraçá-lo e fazer carinho na cabeça pra ele não cair no choro.”
O que será que esse cara faz da vida?
“Bem, pra ser honesto, perder a audição do ouvido direito é um problema.”
Era nesse ouvido que o seed estava alojado. Se ele estivesse danificado, eu não poderia usar minha audição de morcego. Quando o inimigo atacasse, eu mal perceberia.
“Acho que é o que eu mereço por ter deixado aquele cara escapar na época. Fui negligente. O que vai, volta.”
O sobrevivente da SPES que nos perseguia era o mesmo homem que havia tentado atacar a garota com uma besta no show. Se eu tivesse usado o tempo do cigarro para ir atrás dele, talvez as coisas fossem diferentes.
“Ele também é um pseudohumano? Quando estávamos fugindo, vi algo que parecia um tentáculo.”
“Ele é um meio-pseudohumano como eu. Só que prendeu o seed em si mesmo à força. Na época em que eu ainda estava na organização, ouvi dizer que a habilidade dele era com veneno.”
A flecha que tinha atingido de raspão meu ouvido direito estava envenenada. Um truque bem típico de quem está na corrida. Não lembrava se o codinome dele era Homem-Água-Viva ou algo um pouco mais decente, mas, de qualquer forma, seu papel nesta história era insignificante. Então talvez eu não estivesse tão errado ao escolher fumar em vez de persegui-lo. Ha-ha!
“Espero que o Kimizuka chegue logo...”, murmurou a garota de olhos safira, enquanto cuidava dos meus ferimentos. A mensagem de texto havia, ao menos, nos dado um alerta antecipado sobre o ataque.
“Você é bem honesta sobre seus sentimentos quando ele não está por perto.”
“...Você não tem permissão pra me provocar. Você é um homem mais velho e maduro; deveria saber dessas coisas.” Falando rapidamente, ela apertou firme o lenço sobre meu ferimento. Ela era um livro aberto.
“Você acha mesmo que ele vai voltar com um jeito de derrotar o Seed?” Eu queria saber se ela confiava tanto assim nele.
“Sim, eu confio nele”, disse ela imediatamente. “Por isso escolhi o microfone em vez da arma. Porque acreditei nele.”
“...Ah, é mesmo.” Ela podia dizer isso porque havia decidido caminhar ao lado dos amigos, e não viver pela vingança.
Podia sorrir agora porque não guardou rancor, não duvidou. Perdoou, acreditou e deixou a hesitação para trás. Muitos provavelmente revirariam os olhos e diriam que ela só falava bonito, mas Yui Saikawa calaria todos com um único microfone. Ela tinha força para isso. E eu, definitivamente, nunca tive.
“Saikawa! Você tá bem?!” Nesse momento, a pesada porta da fábrica se abriu.
“Kimizuka!”
Aquele timing parecia um lembreteq de que quem tem fé será salvo. Embora a garota de olhos safira não tivesse parado de cuidar de mim para correr até ele, gritou animadamente para o messias que acabara de entrar.
“Estava esperando você há séculos... Sério! Já fazem três dias que não conseguimos conversar, então quero que me mime bastante. E sobre a briga, vou deixar passar.”
“Ha-ha. Foi mal por isso.”
“? Kimizuka, você está sendo sincero... Acho que isso acontece, de vez em quando.”
A garota parecia confusa, mas o retorno do amigo a havia aliviado. Nossa, ela confia tanto assim nele? Deveria me sentir com ciúmes?
“Hã? Onde está a Nagisa?”
“Ah, ela está vindo logo atrás. Vai chegar daqui a pouco.” Enquanto falava, dava pra ouvir a voz de Kimihiko Kimizuka se aproximando. Sem a visão ou meu ouvido direito, estava difícil julgar a distância.
“Desculpa. Acho que o lenço que voqcê amarrou no meu ferimento está se soltando”, disse à garota, pedindo indiretamente que ela o ajustasse.
“Hã? Ah, francamente. Você também dá trabalho, hein, Bat?” ...Mas, por algum motivo, ao vir até mim, a voz dela estava leve e feliz.
Desculpa, mas essa garota eu não vou te dar , pensei em silêncio, olhando para o cara parado à nossa frente.
“Bat, obrigado por proteger a Saikawa esse tempo todo.”
“Ha-ha! Ei, não fiz isso por você.” Parecia até uma disputa por uma garota, cheia de piadinhas. Puxa, por que eu tenho que passar por isso? pensei, mas entrei no papel.
“Somos inimigos desde que nos conhecemos, você e eu. Não tem a menor chance de eu ter feito algo para te ajudar.” Eu jamais ficaria do lado desse cara, e o mesmo valia para ele. Sempre foi assim.
“Mas você cortou os laços com a SPES, não foi, Bat? Nesse caso...”, disse Yui.
“Ha! Eu só entrei na SPES porque tinha algo que precisava fazer de qualquer jeito.” Vou confessar de novo: nunca senti nada parecido com lealdade pela SPES.
“Há muito tempo, eu tinha uma irmã mais nova do que eu. A família em que nascemos era um lixo, então, no dia em que ela completou seis anos, foi enviada para um certo orfanato, uma boca a menos pra alimentar em casa. Quem vive na favela conhece bem esse tipo de história.”
Enquanto falava sobre o passado, acendi meu último cigarro, só pelo tato.
“Mas eu era muito ingênuo naquela época. Acreditava mesmo que um dia ia sair daquele buraco e buscar minha irmã. Nem cheguei a frequentar a escola; só trabalhava. Quando fiz treze anos, comecei a fazer uns trampos por baixo dos panos também, pra juntar grana mais rápido. Aí, enquanto trabalhava como mula, foi quando descobri a SPES.”
Inclinei a cabeça para trás e soltei uma longa coluna de fumaça.
“Logo percebi que aqueles caras comandavam o orfanato onde minha irmã estava. Achei suspeito e me infiltrei na SPES.”
“E foi por isso que você entrou...”
“Isso. Mas quanto mais eu investigava, mais certeza eu tinha de que minha irmã estava em perigo, e não podia perder tempo. Então recorri a um método proibido.”
“Você roubou uma das sementes do Seed?” desta vez, quem perguntou foi Kimihiko Kimizuka.
“Sim. Achei que, se eu tivesse ouvidos capazes de captar vozes a cem quilômetros de distância, um dia reencontraria minha irmã. E, de fato, usei esse poder pra coletar informações e localizar o orfanato... mas ela não estava mais lá. Mesmo assim, acreditei que, se obedecesse as ordens e continuasse viajando pelo mundo, um dia acabaria encontrando-a de novo. Depois de mais de dez anos….”
Minha irmã já estava morta.
“Ou melhor dizendo, ela já estava morta desde o início. Passei mais de uma década reunindo informações, e no fim, descobri que minha irmã tinha morrido em um experimento, muitos anos atrás. Foi também quando perceberam meu plano e decidiram me punir, dez anos depois.”
O resultado foi aquele sequestro, quatro anos atrás.
Foi assim que, de verdade, cortei laços com a SPES.
“Mesmo assim, eu não desisti. Tinha jurado a mim mesmo que não morreria até ver minha irmã novamente. Vê, enquanto eu viajava o mundo como membro da SPES, ouvi um certo boato.”
“O vampiro...” murmurou Yui, suavemente. Ela também o tinha visto.
“Isso mesmo. Diziam que ele tinha o poder de trazer os mortos de volta à vida. Se isso fosse verdade, eu poderia rever minha irmã.”
“Mas essa habilidade não é...”
“Isso. A habilidade de ressuscitar os mortos não era o que eu esperava.”
Os ‘mortos-vivos’ de Scarlet tinham perdido tudo, exceto o instinto mais forte que possuíam em vida. Eram apenas zumbis. Não havia como meu desejo se realizar daquela forma.
“E assim, meu sonho finalmente desmoronou. Nunca vai se tornar realidade.”
“E por isso você disse que nos ajudaria?” perguntou a voz de Kimizuka.
Se meu desejo não podia se cumprir, pelo menos tentei ajudar alguém?
“Ha-ha! Ei, fala sério. Você acha que sou tão nobre assim?”
Nunca pensei que ele fosse o tipo que soltava piadas ruins. Apaguei o cigarro no chão de concreto.
“Fui espremido como um pano de prato. Só restou isso de mim, essa teimosia míope. Nem sei se posso chamar de ‘vontade’, na real. Se tivesse que dar um nome, o que me move agora é um impulso interno, um desejo mesquinho de vingança.” Meu corpo já tinha se recuperado um pouco, e me obriguei a ficar de pé.
“Bat...?”
“Fica atrás de mim.”
Protegi Yui Saikawa, que soava confusa, ficando entre ela e o inimigo.
“A única coisa que ainda me restava fazer era….”
Apontei minha arma para o homem que vinha se passando por Kimihiko Kimizuka o tempo todo.
“...te matar com as minhas próprias mãos, Seed.”
Vilão.
Disparei sem hesitar, e a bala atravessou a testa de Seed.
Exceto que...
“Entendo. Então você percebeu”, ele disse calmamente. Mal reagiu ao disparo. Aparentemente, abrir um buraco no crânio dele não era suficiente para impedir que se movesse.
No entanto, o tom e o jeito de falar haviam mudado completamente. Meus olhos cegos não podiam vê-lo, mas provavelmente ele já havia abandonado a forma de Kimihiko Kimizuka e retornado à sua própria. Se bem me lembrava, seu visual padrão era o de um jovem de cabelos brancos.
“Não...” ao meu lado, Yui parecia atônita.
Sua excelente visão só facilitou que fosse enganada. O homem à nossa frente era Seed: o pai de todos os pseudohumanos, nosso maior inimigo. Ele podia mudar de forma à vontade, e tinha vindo roubar Yui Saikawa, sua receptora, disfarçado de salvador.
“Como você soube?” perguntou Seed, em voz baixa. Minha arma ainda estava apontada para ele.
“É verdade que não consigo mais ouvir sons a cem quilômetros de distância. Em teoria, eu não devia ter conseguido desmascarar você neste ponto.”
Mas azar o seu, Seed. Você é especial.
“Cada célula do meu corpo, cada gota do meu sangue, tem gritado esse tempo todo. Nunca me deixaria perder o batimento do meu inimigo jurado. Mesmo que você fuja pro outro lado do inferno, essa vibração não vai parar.”
Disparei novamente, mirando no ponto onde senti a presença do inimigo.
"E por que eu precisaria fugir?"
Não tive a sensação de ter acertado nada. Tudo o que retornou para mim foi uma voz fria e sem emoção. E então….
"Cuidado!"
Senti um leve impacto na parte inferior do abdômen. Mas não era um ataque inimigo... Era a garota de safira? Deixei que ela me derrubasse.
"...Eu empurrei um adulto."
"Não, foi uma boa iniciativa. Você me salvou." Acariciando a cabeça dela de maneira despreocupada, me levantei novamente.
"Entendo. Então a garota também começou a usar corretamente a minha semente?"
Pude ouvir um zumbido, algo cortando o ar. Era provavelmente Seed girando seus tentáculos. A garota de safira havia detectado o ataque antes de mim, e sua reação rápida evitou que eu sofresse um ferimento fatal.
"Foi graças ao treinamento especial do Bat, e não por sua causa", Yui respondeu a Seed.
"Meu olho esquerdo agora pode ler perfeitamente seus movimentos...!"
Esse era o novo modo que Yui havia aprendido para usar seu olho esquerdo. Normalmente, quando uma pessoa começa a se mover, ela ativa certos músculos do corpo antes de agir.
O olho de safira consegue registrar esses sinais prévios, esses pequenos "aquecimentos", com alguns segundos de antecedência. É uma habilidade que ela domina porque consegue enxergar cada fibra muscular do oponente. Claro, ainda não havia recebido treinamento suficiente para usar todo o potencial dessa habilidade.
"Com esse poder, posso desviar de qualquer ataque. Você pode ser um pseudohumano ou um alienígena, mas nunca perderemos para você."
Mesmo assim, Yui blefou e declarou sua intenção de lutar ao meu lado.
E o que eu disse àquela aliada fiel?
"Não, você deve fugir agora mesmo." Disse a ela, de forma breve, que recuar diante do inimigo era a melhor opção. "Vou ganhar tempo. Posso ao menos fazer isso. O que significa, senhorita, que você deve…."
"Não!" Ela já devia saber que eu diria isso. Mesmo sem usar o olho esquerdo.
"O quê? Não me diga que esse é o clássico ‘Você vai na frente, eu cuido disso’? Isso está tão batido hoje em dia", disse Yui, como se uma represa tivesse se rompido dentro dela.
"Não combina com você, Bat. Parece um impostor. As únicas pessoas que têm permissão para dizer esse tipo de coisa são, tipo, veteranos do ensino médio que têm aquele tipo de personalidade de protagonista: caras que se acham onipotentes a ponto de ser meio vergonhoso, mas nem percebem. Você, Bat, é um veterano durão e legal que antes era nosso inimigo, mas gentilmente escolheu ficar do nosso lado. E pessoas como você não devem dizer esse tipo de coisa. Porque, quero dizer…."
"Baixa!"
Aparentemente, só desta vez, minha intuição foi mais rápida que o olho esquerdo dela. Enquanto protegia Yui Saikawa, o tentáculo me confirmou isso ao perfurar minhas costas.
"Quero dizer, parece que você decidiu que é aqui que vai morrer, sabe?"
Yui parecia estar chorando. Isso é estranho. Sempre achei que as pessoas ficavam felizes quando alguém salvava suas vidas.
"Cada um tem um papel a cumprir." A dor intensa tentava fazer minha mente apagar, mas me esforcei para falar com calma.
"Nagisa Natsunagi herdou o desejo da antiga Detetive Lendária e está enfrentando os inimigos do mundo. Yui Saikawa, você carrega os sentimentos de seus pais e continua cantando. E eu tenho a missão de ser o último a permanecer no campo de batalha."
"Isso tudo é só... Tudo isso, só para me proteger...?"
"...Ha-ha! Não entenda errado. Não é para te proteger, senhorita." Endireitei minha postura, dando as costas a Yui.
"Estou ficando aqui por um único motivo: eliminar aquele cara com minhas próprias mãos."
Eu não estava me sacrificando para salvar alguém. Meu papel era derrotar pessoalmente meu inimigo jurado, ali mesmo.
"Entendo. Então você também é um tipo defeituoso?"
No momento seguinte, Seed começou a irradiar uma aura densa como uma névoa tóxica, tão intensa que nem precisava de olhos para percebê-la. Imaginei que inúmeros tentáculos estavam vindo em minha direção.
"Então, como seu criador, devo podá-lo do galho."
As pontas daqueles tentáculos afiados avançaram sobre mim como chicotes. —No entanto:
"Quem deve ser cortado é você, Seed."
Ouvi algo semelhante a fluido corporal sendo espirrado. Uma lâmina afiada havia cortado os tentáculos com um único golpe.
"Charlie...!" Yui parecia aliviada ao ver sua companheira chegar.
"Desculpe. Um ataque inimigo me atrasou." A garota loira balançou sua espada, limpando os fluidos de Seed da lâmina.
"Em troca, eliminei todos os sobreviventes." Entendo. Então ela também cuidou do desgraçado que destruiu meu ouvido. A chegada dela tornaria possível meu desejo agora.
"Posso contar com você?"
"...Você quer dizer que esse é o meu papel nesta situação, não é?"
É ótimo que ela entenda tão rápido. Aquela policial rabugenta sabe mesmo formar bons agentes.
"...! Charlie, por quê?!" Enquanto sua amiga a levantava nos braços, Yui gritou, confusa.
"Desculpe, Yui. Pode me bater quantas vezes quiser depois." E, com isso, carregando Yui Saikawa, a garota que apareceu para ajudar virou as costas para mim.
"Espero que você cumpra sua missão com segurança." Com essa clássica fala de agente, ela partiu.
O único som que ainda ecoava nos meus ouvidos eram os soluços de uma jovem garota.
"Esse é o desfecho que você esperava?"
Achei que podia ouvir algo queimando, mas reconheci aquele som. Era o sinal de que os tentáculos de Seed estavam se regenerando.
"Se for assim, foi um movimento tolo. Se você deixa o receptáculo escapar quando está à beira da morte, os instintos de sobrevivência da semente dentro dela se fortalecem, e isso a torna mais compatível como meu hospedeiro."
Sim, provavelmente. O ataque a Yui no show dela no domo, outro dia, tinha sido apenas uma ameaça. Ao expô-la ao perigo mortal, Seed havia intensificado seus instintos de sobrevivência, tornando-a uma recipiente mais resistente. No entanto, isso não tinha qualquer importância nesta situação.
"Ha-ha! Quantas vezes você vai me fazer repetir? Fiquei aqui por um único motivo: matar você com as minhas próprias mãos."
Apontei a ponta do tentáculo que crescia do meu ouvido direito para Seed.
"Ah. Então essa semente ainda não está completamente morta?"
Não importava o quão desesperadora fosse minha situação, eu ainda tinha isso. Um filho matando seu próprio criador, é um desenvolvimento estranhamente divertido, não acha?... Ha-ha. Legal. No finalzinho, isso até ficou interessante. Pelo menos até a cortina se fechar, podia me dar ao luxo de interpretar o protagonista desta história e agir como um herói.
"Obedeça às leis da natureza e dê seu último suspiro." Os inúmeros tentáculos afiados de Seed avançaram contra mim em alta velocidade.
E, encarando minha última luta, o que foi que eu disse?
"Ha-ha! Quem vai morrer é você!"
É. Pelo visto, uma vez vilão... sempre vilão. É difícil abandonar esse papel. O último instinto de sobrevivência.
Nossos tentáculos se chocaram, as pontas mirando o coração, a garganta, a cabeça do oponente. Ouvi o som de fluidos sendo espirrados e senti o cheiro de sangue. O fato de meu tentáculo ser do mesmo tipo que o de Seed impedia que eu ficasse para trás. Mas Seed era o original, o progenitor de todos os pseudohumanos, e possuía todos os órgãos especiais e habilidades que Camaleão e os outros clones tinham.
Eu passei vinte anos aperfeiçoando constantemente minha audição, os ouvidos de morcego, mas, diante de um monstro avassalador como aquele, eu era apenas um ex-humano. Quantos minutos... quantos segundos... eu ainda conseguiria me manter de pé?
"É inútil. Você não vai durar muito mais tempo."
A voz sem emoção de Seed soava distante. Mas isso não era porque ele realmente estivesse longe. Minha consciência estava se apagando. Eu estava de joelhos, tentando me levantar apoiando-me no braço direito. Foi então que me lembrei: já tinha perdido aquele braço.
"...Ha-ha! Cruel..."
O tentáculo de Seed havia arrancado meu braço direito na altura do ombro. Mesmo sentindo o sangue espesso e morno escorrer do coto, consegui me levantar.
"...Mas eu arranquei sua orelha direita."
Meu tentáculo havia cortado uma das orelhas de Seed, e eu a joguei de lado. Sabia que ela cresceria de novo em pouco tempo, claro. Mesmo assim, a habilidade que mais me incomodava era a que espelhava a minha. Por isso, tive que tirá-la dele.
"Por que foi tão longe apenas para lutar?", perguntou Seed, de forma impassível.
Eu não enxergava mais, havia um buraco em meu abdômen, e eu tinha perdido um braço... mas ainda estava de pé. Ele parecia verdadeiramente confuso, perplexo, até, do fundo do que quer que fosse seu ser.
...Não, ele nem ao menos tinha um coração. Era só uma semente que veio voando do espaço. Não fazia muito sentido tentar dialogar com algo assim.
"Essa sede de vingança é o meu instinto de sobrevivência. É ela que está me mantendo vivo agora", respondi.
Pensei sobre o significado dessas palavras, vingança, retaliação, desforra. Será que essas coisas tinham algum valor, mesmo?... Eu achava que sim.
Foi por isso que eu falei com a garota de safira. Disse a ela para atirar no inimigo que matou seus pais com uma bala de vingança. Para exorcizar o arrependimento deles.
Mas ela não o fez. Em vez de uma pistola, ela escolheu um microfone. Quero dizer, não estou dizendo que ela errou agora, justo agora. Nem teria o direito de dizer isso.
O problema é: o que isso significa pra mim? O que eu deveria fazer? Certo. Era só disso que se tratava.
"O que achou engraçado?", perguntou Seed, do nada.
Ah. Eu estava sorrindo? A dor lancinante estava me deixando atordoado, então nem percebi.
"Ah, sabe como é. Estava me lembrando de uma frase que ouvi em algum lugar."
Vingança não leva a nada. Ninguém quer vingança. O ódio só gera mais ódio. Eu queria socar qualquer hipócrita que viesse me dizer algo assim. Os mortos não querem vingança?
Quem você pensa que é, hein? Por que está falando em nome dos mortos? Se os mortos não falam, então cale-se também. Eu cumpriria meu desejo de vingança sem receber ordens de ninguém.
"Entendo. Então, continuamos até que encontre seu fim?", murmurou Seed, soando levemente decepcionado. Provavelmente havia percebido o tentáculo se regenerando do meu ouvido direito.
Eu não tinha conseguido dar a resposta que ele queria. Mas, no fundo, eu nunca quis conversar. Eu queria combate mortal. E não demoraria muito para isso acabar também.
"Sim, mas não tenha tanta pressa. Você vai encontrar seu fim junto comigo, Seed."
O celular no meu bolso interno vibrou, indicando que os preparativos estavam completos. Peguei o detonador que estava escondido e apertei o botão.
Instantaneamente, o que estava enterrado bem debaixo dos pés de Seed explodiu, engolindo o inimigo em chamas antes mesmo que eu pudesse piscar.
Você acertou: eu não tinha corrido para essa fábrica abandonada porque estava perdendo.
Eu tinha feito o dever de casa e armado uma cilada ali para encurralar Seed.
“....Uma bomba, hmm? Se eu fosse humano, isso até que teria sido um bom movimento.”
Mas a voz grave de Seed soou de dentro das chamas. E então….
“......! Ha...”
Um tentáculo em chamas disparou do meio do fogo e atravessou meu peito. Ele queimou minha traqueia, e respirar ficou muito mais difícil. Eu nem sabia mais quantos buracos havia em mim.
“...Acho que realmente não sou páreo para você.” A voz estava tão rouca que mal parecia minha. Ainda assim, segurei o tentáculo com a mão esquerda e enterrei os dedos nele.
“Por conta própria, eu não consigo te matar. Nem te queimar com essas chamas.”
A semente primordial não era apenas uma planta, e fogo que não atingisse pelo menos dois mil graus Celsius não conseguiria queimá-lo.
Foi por isso que elaboramos um plano específico.
Nosso primeiro e último trabalho em equipe: usar essa armadilha para derrotar um mal colossal.
O tentáculo que saía do meu ouvido direito se estendeu, prendendo Seed,chamas e tudo.
“Bat, pretende morrer aqui também?”
“Quase perdi essa vida há quatro anos mesmo.”
Mas se isso acabasse realizando o desejo que carreguei por tanto tempo... significaria que aquela detetive de cabelos brancos teria cumprido meu pedido também? Se fosse esse o caso... que ironia, pensei, rindo por dentro.
“Desculpa, Seed. Quem vai te matar não sou eu. Nem as chamas dessa bomba.”
No momento seguinte, a bomba-relógio que eu havia instalado no teto da fábrica explodiu, arrancando o telhado metálico. E, espreitando por entre a estrutura destruída e a fumaça preta, estava...
“O que vai te queimar é... o sol.”
Microfone e pistola
“O que é isso...?”
Quando cheguei à fábrica abandonada que Saikawa me indicou, fiquei sem palavras com o que vi. Exceto por alguns pilares, o prédio tinha sido demolido, reduzido a escombros.
“Ele explodiu... A fábrica inteira...” Natsunagi mal conseguiu pronunciar as palavras. Ela estava ao meu lado, protegendo os olhos da fumaça densa.
No centro de pesquisas da SPES, desenvolvemos a teoria de que o ponto fraco de Seed era o sol. Antes de chegar à fábrica, montamos um plano: atrair Seed para um local específico, e, enquanto Bat o mantinha preso, Natsunagi e eu explodiríamos o teto com uma bomba, banhando-o em luz solar.
No entanto, para garantir o sucesso da missão, e confirmar nossa hipótese, Bat agiu sozinho... e explodiu toda a fábrica. A essa altura, a luta parecia ter terminado. O vencedor era….
“Bat...?”
Em meio à fumaça e às chamas oscilantes, um homem de terno rasgado permanecia de pé, de costas para nós. Quando olhei melhor, percebi que ele havia perdido o braço direito.
“......!” Dei um passo instintivo em sua direção, mas…..
“Esse não é mais o Bat.”
Uma voz feminina me deteve. Bem na minha frente, cabelos loiros esvoaçaram ao vento, e uma esguia espada dourada cortou o tentáculo que avançava em minha direção.
“Charlie...?”
Charlotte Arisaka Anderson, agente extraordinária, mantinha a espada erguida e fitava o alvo com firmeza.
“Ele foi tomado pela semente primordial. Falhamos. Eu sabia que Yui não era a única que Seed poderia usar como hospedeiro, e mesmo assim...”
“...! Seed está usando o Bat como hospedeiro temporário?”
Por quê? Simples: para se proteger do sol.
Dias atrás, Seed havia planejado tirar Bat da prisão e mantê-lo por perto. Talvez fosse isso que ele queria desde o começo. Para Seed, Bat era comida de emergência.
“Bat...”
Meu antigo rival se virou. A cabeça pendia num ângulo antinatural, e seus olhos roxos, sem foco, se fixaram em mim. Nosso plano e a aposta de Bat não haviam conseguido eliminar o inimigo completamente.
“...! Kimizuka, Nagisa, recuem!” Antes mesmo que Charlie gritasse, o tentáculo que brotava das costas de Bat não, de Seed. Se dividiu em três e avançou contra todos nós.
“Não me lembro de ter dito que nunca mais empunharia uma arma.”
Nesse instante, um disparo ecoou.
Um breve grito, e Seed cuspiu sangue vermelho.
Lentamente, ele se virou. Yui Saikawa estava lá. Em vez de um microfone, ela segurava uma pistola com as duas mãos.
“Eu vou vingá-lo.” Ela deu um pequeno sorriso triste.
Eu tinha certeza de que o que ela sentia era mais complexo do que “vingança”. Como jurara naquela noite, ela não deixaria mágoas ou ódio aprisioná-la novamente. Mesmo assim, Saikawa disparou uma bala cheia de determinação por aqueles que estavam ao seu lado, para ligar nossa história ao futuro.
“Se eu não tiver tempo para me recuperar, isso vai se complicar.”
Enquanto Seed murmurava, olhava para o novo buraco de bala em seu estômago.
Antes de tomar Bat como receptáculo, será que ele havia recebido ao menos alguns segundos de dano solar?
Usando os tentáculos como molas, Seed saltou para o céu. E então desapareceu, sua figura se fundindo ao ar ao redor. Exatamente como Chameleon.
Assim que ele desapareceu, nós quatro nos reunimos lentamente em um canto do antigo campo de batalha.
“Está todo mundo bem?” perguntou Charlie.
Não nos víamos há alguns dias, mas todos estávamos tão acabados que parecia que havíamos lutado por anos.
“Sim, estamos vivos.” Mas...
“Só sobreviver não era o objetivo.” O que queríamos de verdade era derrotar Seed.
Sim, o inimigo havia atacado de surpresa, mas nossa intenção era pegá-lo desprevenido e derrotá-lo aqui. Faltou precisão. Ficamos a um passo de conseguir, e nosso pior inimigo escapou novamente. Minha cabeça se curvou, tomada pela frustração.
“Ainda assim, estamos vivos.” Levantei os olhos. Seria aquilo a habilidade de "palavra-alma" da Natsunagi?
Não, eu tinha certeza de que não. Aquilo era algo que só ela possuía.
“Enquanto estivermos vivos, podemos continuar tentando. Podemos lutar quantas vezes for preciso. Podemos nos levantar, de novo, de novo e de novo.” Natsunagi exibia um sorriso meio travesso.
Era um clichê total. Se eu tivesse dito algo assim, com certeza diriam que era brega, mas vindo dela, soava perfeito. Isso me incomodava um pouco, mas era a verdade. O som da voz dela, suas palavras... focaram nosso olhar no futuro de uma forma que eu não conseguia explicar.
Não tinha nada a ver com seus olhos vermelhos ou sua habilidade especial. Era a paixão da Natsunagi, e sua vontade forte, fortíssima.
“O sol é mesmo a fraqueza de Seed?” Charlie perguntou. Ela queria entender o que havia por trás da manobra.
“Sim. Natsunagi e eu formulamos essa teoria com base nos dados que encontramos no laboratório da SPES... e Bat arriscou a vida para prová-la.”
Com a ajuda de SIESTA, investigamos os movimentos de Seed e seus clones. Descobrimos que qualquer ação óbvia deles sempre acontecia à noite ou sob tempo ruim.
Pensando bem, em Londres, um ano atrás, Cerberus atacava as pessoas pela escuridão, à caça de seus corações. Tentou me matar tarde da noite também. Depois, lembrei que, no dia em que Seed apareceu em nosso apartamento disfarçado como a Srta. Fuubi, caiu uma chuva repentina. E, há um mês, no navio de cruzeiro, Chameleon só deu as caras depois do pôr do sol, mesmo tendo sequestrado Natsunagi durante o dia.
Tudo indicava que Seed e seus clones evitavam a luz solar.
Provavelmente não podiam existir sob o sol. E em qualquer lugar do planeta, o sol era a única coisa da qual não se podia escapar.
Por isso Seed criou a SPES. Por isso usou Bat e Hel para fazer o trabalho sujo,seus corpos eram originalmente humanos, e o sol não os afetava. Depois, passou a desenvolver receptáculos humanos, para um dia conquistar o sol também.
Mas tudo isso era só teoria...
...até agora. Quando Bat arriscou a vida para provar que era verdade.
“Que céu azul bonito.” Saikawa olhou para o alto, pensativa.
A chuva daquela manhã tinha cessado completamente.
Mas aquilo era uma abertura no céu feita por nós. Criamos essa brecha de sol para o plano funcionar. Seed era cauteloso; não se mostraria facilmente. Ele só atacou hoje de manhã porque as nuvens pesadas cobriam o céu. Mas….
“É, mil mísseis acabaram com as nuvens.”
Foi uma técnica adaptada da semeadura de nuvens, que já era usada na prática na Rússia e em alguns outros países. Aviões militares dispersaram nitrogênio líquido para afastar as nuvens, enquanto mísseis com iodeto de prata destruíram as nuvens ativas. A policial ruiva organizou tudo isso; eu teria que agradecê-la depois.
“Sinceramente, Kimizuka. Você nunca liga para o clima da cena,” resmungou Saikawa, me lançando um olhar gélido e soltando um suspiro profundo.
Pô, isso não é justo.
Mesmo assim, fazia tempo que eu não via aquela expressão. E isso... me fez sorrir.
“Temos mais um motivo para continuar lutando,” declarei, olhando para a bituca de cigarro no chão de concreto.
“Bat me protegeu até o fim.” Saikawa voltou os olhos para o céu distante.
“Perdi o inimigo de vista, mas meu olho esquerdo sabe para onde ele foi.”
Não precisávamos perguntar o que ela queria dizer. Quando percebi, Natsunagi e Charlie já olhavam na mesma direção, para o céu de verão.
Sim, eu sei.
Essa história começou há quatro anos para mim, e agora, eu vou encerrá-la.
“Hoje, nós quatro vamos derrotar Seed.”
Se você prometer não morrer
Um sedã avançava por uma estrada costeira.
“Charlie, vira à esquerda na próxima, depois segue reto por um tempo.”
“Valeu, Yui. Vou acelerar um pouco.”
Charlie estava ao volante, com Saikawa no banco da frente, guiando o caminho. As nuvens tinham coberto o céu de novo, e a chuva recomeçara. Os quatro estávamos seguindo a direção que Seed tomara.
“Vamos mesmo fazer isso? Só nós quatro?” Charlie me olhou pelo retrovisor.
“Sim. Não dá pra saber qual vai ser o próximo movimento de Seed, ou o que ele pode estar tramando. Já que sabemos que ele se feriu pelo menos um pouco, essa é nossa chance de derrubá-lo.”
A Srta. Fuubi não estava aqui, e, naturalmente, Siesta não havia voltado à vida. Para piorar, perdemos Bat, nosso novo aliado.
Mas se esperássemos para traçar planos detalhados, Seed teria tempo de bolar outro esquema. E todo o dano que conseguimos causar hoje... teria sido em vão.
“Nós vamos acabar com Seed por conta própria. Vamos aniquilar a SPES. Vamos encerrar tudo hoje.”
Siesta disse que éramos sua última esperança. Tínhamos que fazer isso. Hoje seria o confronto final contra a SPES.
“Está tudo certo com isso... certo?” Olhei para os outros três. Pensando bem, eu ainda não tinha confirmado com eles se estavam mesmo comigo nisso.
“Claro que está.” Saikawa se virou, olhando para o banco de trás.
“Como eu disse antes, Kimizuka, eu não sou seu braço direito, sou seu olho esquerdo! Tenho certeza de que a próxima coisa que esse olho vai ver é um final feliz perfeito!”
“...Fico feliz em ouvir isso.”
Saikawa podia ser a mais nova ali, mas era a mais madura. E sempre esteve ao meu lado. Depois de descobrir o que aconteceu entre seus pais e a SPES, ela superou os conflitos internos e escolheu o futuro em vez do passado. E se esse futuro tivesse que ser brilhante, não podíamos perder essa luta.
“Eu já tinha me decidido a fazer isso desde o começo,” disse Charlie, sem olhar para trás. “Foi por isso que vim num carro cheio de armas.”
“Isso é que é estar preparada. Aposto que aprendeu isso com a Siesta.”
Quando Charlie disse que já tinha se decidido, com certeza não queria dizer que sempre esteve do meu lado. Mas isso era aceitável entre nós dois. Nunca nos demos bem, mas mesmo que seguíssemos trilhos paralelos o tempo todo, contanto que estivéssemos indo na mesma direção, já era o bastante. Para o que precisávamos, isso bastava.
“E você? Está bem com isso?” Por fim, me virei para Natsunagi, que estava comigo no banco de trás.
“Hmm, vejamos...”
...Não era a resposta que eu esperava. Natsunagi se espreguiçou, como se estivesse pensando.
“Contanto que você prometa não morrer, acho que tudo bem.” Ela me lançou um sorriso estranhamente maduro.
“Certo. Em troca, se eu sair vivo dessa, você vai ter que fazer o que eu mandar uma vez,” brinquei. Uma bandeira da morte intencional. Quando são óbvias assim, elas viram bandeiras de sobrevivência.
“Vindo de você, isso assusta, Kimizuka... O que exatamente você planeja pedir?”
“Classificação ‘+17’ é fraca. Se prepara para algo tipo ‘+70’.”
“Que tipo de diversão adulta só é permitida depois dos setenta?!”
“Uma partida de shogi e um chá na varanda cercados pelos netos, talvez?”
“Isso... na verdade é um tipo de diversão adulta que só dá pra ter depois dos setenta. ...Espera, então você quer que a gente fique junto mesmo quando formos velhinhos? Isso foi uma proposta indireta...?”
“Casar com você, Natsunagi? .....................É, não.”
“É ainda pior quando você recusa depois de pensar! Eu nem estava pedindo em casamento, caramba!” Natsunagi gritou, me socando no ombro.
Foi então que percebi que Saikawa nos observava, entediada, pelo retrovisor.
“Hmm? Essa briguinha de casal tá ainda mais ensaiada que as anteriores. Aconteceu algo em Londres, não foi? Vocês se tornaram adultos?”
“Sério mesmo. Enquanto a gente ralava, o que vocês estavam fazendo?” Até Charlie lançou um olhar frio para nós...
...Ah, elas não têm ideia. A gente também passou por maus bocados.
“Aliás, me obrigar a dirigir enquanto vocês dois ficam no maior clima aí atrás é extremamente irritante.”
“Haaah. Charlie, parece que você e eu nunca estivemos na lista de interesses românticos do Kimizuka. Somos só sub-heroínas.”
“Eu nunca quis ser heroína do Kimizuka, pra começo de conversa.” Charlie recusou com firmeza, mantendo a expressão séria.
“E vou defender isso até a morte.”
“Ah, verdade, Charlie. Você e a Nagisa são parecidas, ambas agressivas, mas ficam meio frágeis quando pressionadas, só que tem uma diferença: você não suporta o Kimizuka, e a Nagisa ama ele. Pensando por esse lado, fica tudo bem simples.”
“Yui, de vez em quando você solta umas bombas absurdas sem pestanejar. Tô com medo de olhar pro banco de trás agora. Nem quero imaginar o clima depois disso.”
“Tudo bem, Charlie. Quando se entra numa fase de comédia romântica, os protagonistas costumam desenvolver problemas de audição, então com certeza eles nem ouviram.”
“Kimizuka! Seu alarme do celular tá tocando! Alto demais!”
“Ah, ainda tá ajustado no horário de Londres. Foi mal... A propósito, Saikawa, você ia dizer alguma coisa?”
“Não, nada.”
“Foi magnífico.”
Por alguma razão, Saikawa e Charlie pareciam estar se dando bem, mas o alarme tinha sido tão alto que eu não consegui ouvir nada. O que será que estavam falando?
“Vocês têm certeza de que dá pra ficar tão tranquilos assim?” Charlie suspirou. Provavelmente estava preocupada com o fato de estarmos agindo de forma tão natural, mesmo prestes a entrar numa batalha final.
“Tá tudo certo. Da última vez, foi assim também.”
Provavelmente essa é a melhor abordagem pra nós. Afinal, antes de Siesta partir para sua batalha final, há um ano, ela aproveitou seu chá com toda calma, do jeito que sempre fazia.
“Bom, se pra vocês tá tudo bem, então tá certo.” Charlie deu um leve sorriso torto.
“Mas daqui pra frente, nada de piadas.” O tom da voz dela mudou o clima.
Segundo Saikawa, o salto de Seed deveria tê-lo levado para esta área.
“Ali!” disse Saikawa, apontando.
Uma grande ponte atravessava o oceano, e sobre ela havia um engavetamento envolvendo vários carros. Além da fumaça negra, bem no meio da ponte, estava uma figura cambaleante.
“Bat...”
A silhueta do outro lado da fumaça densa pertencia a um homem loiro de terno. No entanto, era Seed quem estava dentro dele... ou pelo menos, era o que eu achava.
Por outro lado, era difícil imaginar que Seed nos esperaria ali sem algum plano. Era mais provável que ele tivesse descartado Bat, seu receptáculo temporário, já quase inutilizado.
“O que devemos fazer?! Yui, Seed está por perto?”
“No momento, nem meu olho esquerdo consegue ver Seed. Mas ele pode ter ficado invisível, então não posso garantir nada...” A expressão de Saikawa era sombria.
“Vamos sair. Charlie, pare o carro.”
De qualquer forma, não podíamos ignorar Bat naquele estado. Saímos do carro cerca de dez metros à frente dele. Não havia mais ninguém na ponte; talvez o monstro tivesse espantado todos.
“Bat...”
Aproximei-me, carregando minha arma enquanto caminhava. Seu braço direito havia sido decepado na altura do ombro, e havia perfurações no peito e no abdômen causadas pelos tentáculos de Seed. De algum modo, ele conseguia se manter de pé, mas cambaleava de forma dramática. Com a cabeça baixa, não nos olhava.
“Kimizuka, cuidado! Bat não está!” gritou Saikawa.
Como ela havia previsto, um tentáculo surgiu de seu ouvido direito.
“AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!” Bat se curvou para trás, uivando.
Provavelmente era a semente fora de controle; eu já tinha visto isso acontecer com Chameleon antes, durante a batalha no navio de cruzeiro.
Além de estar coberto de sangue e ferido por todo o corpo, seu corpo havia sido tomado como receptáculo por Seed e banhado com grande quantidade de seu sangue. Como resultado, a semente o devorava de dentro para fora.
“Eu vou acabar com isso agora.” Caminhei em direção a Bat, mantendo os olhos fixos nele.
“Kimizuka.” Natsunagi me observava com preocupação.
Ei, está tudo bem. De qualquer forma, sou eu quem deve fazer isso. Não é coincidência. Só acho que a palavra “destino” não combina com o que existe entre mim e esse cara. Então, sim... Isso é provavelmente apenas, história.
“Esta é a segunda vez que lutamos, Bat.”
Apontei minha arma para o homem que havia sido meu inimigo jurado por quatro anos.
Albert Coleman.
Essa luta vai ser infernal, foi o que pensei quando mirei no meu alvo. Exceto que...
“Bat, você...”
Bat já não tinha mais condições de lutar. A ausência do braço dificultava seu equilíbrio, e ele caía repetidamente. O tentáculo que saía de sua orelha se agitava fracamente, mas mesmo sem a agilidade de Charlie, consegui desviar com facilidade.
Na verdade, isso me fez hesitar em atacá-lo. A luta estava tão desigual que comecei a pensar se não deveria apenas acabar logo com aquilo. Ele já havia perdido toda a noção de si. Meu antigo inimigo, enfurecido de forma patética, parecia um dos mortos-vivos de Scarlet.
“AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!” No entanto, até mesmo essa batalha cambaleante estava chegando ao fim.
Os olhos de Bat reviraram, e enquanto ele uivava, tentáculos irromperam de ambas as orelhas. As pontas afiadas se voltaram para mim. Toda a força restante dele devia estar concentrada naqueles ataques. Isso significava que era o fim. Disparei contra os tentáculos que vinham em minha direção.
“...Gakh, ah!” Eles explodiram, espalhando fluido. Com um grito curto, Bat caiu de joelhos. Será que eu tinha conseguido destruir também a semente dentro dele?
“Me perdoe, Bat.” Apontei minha arma para a cabeça do homem caído.
Meu antigo inimigo jurado, a quem não via havia quatro anos. De certa forma, o sequestro que Bat cometeu naquele dia foi o que deu início à minha jornada pelo extraordinário. Se eu fosse chamar o encontro com Siesta de “destino”, então realmente deveria chamar o encontro com ele de uma “conexão fatídica”.
No entanto, isso também terminaria hoje. E seria com minhas próprias mãos.
Tudo o que eu precisava fazer era aplicar mais algumas centenas de gramas de pressão sobre o gatilho….
“...Ha-ha. Que irônico.”
“...!” Nesse instante, Bat ergueu lentamente a cabeça. Destruir a semente parecia ter restaurado sua consciência. Ele me olhou com aqueles olhos sem vida e sorriu fracamente.

“Bat! Aguente firme, vamos cuidar de você!”
“Ei, ei, a gente estava lutando até a morte um segundo atrás. Não vem com esse papo agora. Você sabe que não tem como eu sair vivo dessa”, disse Bat, olhando para o próprio corpo ensanguentado com um sorriso sarcástico. Rachaduras começavam a surgir por todo o seu corpo, como preço por ter sido usado como receptáculo de Seed.
“Juro... achei que tivesse morrido lá na fábrica e saído de cena de forma incrível, e agora estou aqui, um verdadeiro desastre.”
Enquanto ria de si mesmo, eu o ajudei a se encostar no parapeito da ponte.
“! Está tudo bem, você não precisa falar mais.”
“Ha-ha! Estou de saída. Me deixa falar o quanto quiser.” Mesmo naquela situação, Bat ainda fazia piada com aquele seu sorriso sombrio. “Mas a verdade é que minha cabeça não está funcionando muito bem. Tenho quase certeza de que tinha algo que precisava te dizer, mas...”
Seu corpo começava a se desintegrar, começando pelas rachaduras.
“Ah... teria gostado de fumar um cigarro antes de morrer... Mas acho que isso não vai rolar.”
Com os dedos trêmulos, Bat jogou fora um cigarro ensanguentado. Provavelmente tinha se molhado durante a luta. Não havia como acendê-lo.
“Tome isto.” Dedos delicados estenderam um cigarro para ele.
Era Charlotte Arisaka Anderson. Ela e as outras duas garotas tinham assistido à nossa luta e se aproximaram sem que eu percebesse.
“Pertencia àquela mulher, no entanto.”
Entendi. Ela havia pego da senhorita Fuubi. Sim, eu também achava que estava na hora dela parar com essa encenação de que tinha parado de fumar.
“Bom, isso torna ainda melhor. Ha-ha! Vou fumar por ela.” Bat colocou o cigarro entre os lábios, e Charlie o acendeu para ele.
“Isso é bom demais”, murmurou, como se tivesse se perdido no sabor, soltando uma grande nuvem de fumaça.
“Tem algo que eu queria muito te dizer.” Natsunagi se aproximou.
“Obrigada por me contar quem era a dona do meu coração.”
Isso havia acontecido cerca de um mês atrás, quando Natsunagi e eu visitamos a prisão onde Bat estava preso. Ele usou seus ouvidos aumentados para descobrir que a doadora do coração de Natsunagi havia sido Siesta.
“Naquele dia, minha vida voltou a andar. Se eu nunca tivesse descoberto isso, não teria conseguido encarar meu passado. Eu não teria lembrado de nada. E por isso... obrigada”, disse Natsunagi mais uma vez.
“Ha-ha! Não me lembro de ter vivido uma vida digna de gratidão de ninguém. Mas... não é uma sensação ruim.” Os olhos de Bat estavam sem foco, mas mesmo assim ele olhou na direção de Natsunagi.
“Você e esse coração... cumpram sua missão”, disse ele, encorajando-a com uma voz firme e direta.
Natsunagi retribuiu com um sorriso suave e cedeu seu lugar para mim.
“...Ah, isso me lembrou do que eu precisava te dizer.” Bat agarrou meu ombro com sua única mão restante.
“Não desista.” Ele falou como se estivesse me confiando algo pessoal.
“Eu fracassei. Mas você ainda pode conseguir. Não importa o que tenha que sacrificar, nem o preço que tenha que pagar, continue perseguindo esse seu desejo. Não pare de pensar. As pessoas vão te dizer para desistir, que isso é proibido. Vão rir de você por escolher um caminho infernal. Mas se esse desejo que te consome for verdadeiro, se for algo que você quer de verdade, não importa o que tenha que colocar em risco, então se agarre a ele. Segure firme, Kimihiko Kimizuka.”
Era a primeira vez que Bat dizia meu nome.
“Sim, eu vou.” Ao ouvir isso, Bat sorriu.
“Bom, parece que enquanto a gente conversava, meu tempo acabou.” O cigarro escorregou dos dedos de Bat.
“Não consigo dizer se estou com frio ou calor, e está ficando difícil de ouvir. Então é isso, morrer, hein?”
“! Bat. Eu... Nós juramos que vamos derrotar Seed. Então….”
“‘Então descanse em paz’? Puxa, tanta piedade vinda de um inimigo. Que tipo de agente de elite eu fui, hein? Ha-ha!” Bat riu como sempre fazia. Uma garota se ajoelhou ao lado dele.
“Bat...” Yui Saikawa apertou a mão de Bat. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
“Ha! Por que está chorando, garota de safira?”
“Isso aconteceu porque você me protegeu... Além disso, ainda tem tantas coisas que quero que me ensine!”
“Quantas vezes vou ter que repetir isso?” Apesar das palavras duras, parecia que Bat queria que Saikawa entendesse.
“Eu só fiz o que quis fazer naquele momento.”
Essa era uma história que eu desconhecia, algo que pertencia apenas a Bat e Saikawa. Eu tinha certeza de que era porque os dois estavam lidando com a questão da vingança. Mesmo que tivessem encontrado respostas diferentes, havia algo que puderam compartilhar.
“Mais um conselho. Quando apontar uma arma para o inimigo, não hesite. Atire na cabeça. Essa é uma regra de ferro. Ah, e quando chegar em casa hoje, recomendo comer pizza e assistir a um monte de filmes de zumbi.”
O rosto de Saikawa se contorceu de dor, e Bat lhe deu um leve sorriso.
“Eu vou lembrar...!” As lágrimas agora escorriam em grandes gotas pelo rosto de Saikawa, e sua voz começava a se elevar.
“Isso mesmo. Basta um momento de hesitação, um pequeno erro, e você pode acabar em sérios apuros...”
“Não é isso! Eu quis dizer você, Bat! Eu sempre vou lembrar de você!” gritou Saikawa. Os olhos sem vida de Bat se arregalaram.
“Assim como você lembrou da sua irmãzinha por vinte anos, sem esquecê-la nem por um momento! Assim como eu lembro dos meus pais toda vez que fecho os olhos! Eu nunca vou esquecer de você! Meu olho esquerdo sempre, sempre vai se lembrar do seu rosto! E eu, todos nós! Nós sempre vamos lembrar do que você quis proteger! E por isso….”
O rosto de Saikawa estava manchado e inchado de tanto chorar, mas, mesmo assim, no fim, ela sorriu.
“Então, por favor, não se preocupe Albert.”
Provavelmente, esse era o verdadeiro nome de Bat.
“Entendo,” murmurou Bat, a voz agora apenas um fio tênue. Encostado no parapeito, ele levantou uma mão trêmula em direção ao sol.
“Então os sentimentos não desaparecem?”
Sim. Mesmo que o corpo seja destruído, os sentimentos não desaparecem. Enquanto alguém se lembrar deles, o último desejo de uma pessoa nunca morre.
“Ha-ha. Eu não... sabia disso. Estou feliz por ter descoberto isso antes do fim,” disse ele.
Seu sorriso parecia juvenil, como se os últimos vinte anos tivessem desaparecido de repente.
Então, banhado pela luz do sol, como se pudesse ver alguém além daquela claridade, Bat murmurou suas últimas palavras:
“Senti sua falta, Ellie.”
Traduzido por Moonlight Valley
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