Capítulo 1
Capítulo 1
DEPOIS DE UM ANO,A AVENTURA RECOMEÇA.
“Já se acalmou um pouco?” perguntou Siesta do lado de fora do banheiro.
“...Sim.”
Na banheira, soltei um breve suspiro de alívio. Enquanto me dava um sermão sobre como eu não poderia ter uma mente saudável vivendo em um corpo debilitado, Siesta praticamente me empurrou para dentro do banho. Ela tinha razão; minha exaustão física e mental estava diminuindo, e a névoa na minha cabeça começava a se dissipar.
“Aproveite e raspe essa barba por fazer.”
“Tá.”
“Consegue lavar as costas sozinho?”
“Sim.”
“E não faça xixi na banheira.”
“...Por favor, né? Eu sou uma criança?” sorri de maneira forçada. Quantos anos ela achava que eu tinha, afinal?
“Bem, eu não sei o quanto você cresceu.” Siesta se sentou, e eu podia ver suas costas através do vidro fosco da porta.
“ ‘Dê três dias para um homem crescer e talvez você nem o reconheça depois.’ ... Lembra? Foi você quem disse isso”, ela comentou.
Eu tinha esquecido até ela mencionar. “É, acho que é verdade.”
No nosso caso, já tinha passado muito mais que três dias. Hoje, Siesta e eu realmente nos reencontramos pela primeira vez em um ano.
“Eu nunca imaginei que você ainda estaria morando neste apartamento.”
A risada leve de Siesta chegou até mim do vestiário. Ela usou a chave mestra, uma de suas Sete Ferramentas, e entrou no meu apartamento como se fosse dona do lugar. Exatamente como antes.
“...Esse ‘nunca imaginei’ deveria ser eu dizendo.”
Na manhã do dia em que lutei contra a Srta. Fuubi, jurei que algum dia traria Siesta de volta. Claro, eu sabia que não seria fácil. Por isso estava preparado para colocar tudo em jogo. Mas, naquele momento, esse desejo havia realmente—
“Você... não é a SIESTA, certo?”
Uma lembrança da empregada passou pela minha mente, e a pergunta escapou sem pensar. Afinal, não dava para distinguir as duas apenas pela aparência.
“Você é idiota, Kimi?” veio a velha resposta de sempre lá do vestiário.
“A gente já conversou até agora e você ainda não tem certeza?”
“...É, verdade.”
Só existe uma pessoa no mundo que briga comigo daquele jeito, e é você, Siesta. Isso significava que meu desejo havia se concretizado.
Mesmo assim, eu não conseguia ficar cem por cento feliz. Tinha perdido algo insubstituível em troca.
“Mas parece que ela realmente entrou em contato com você.”
Justo quando meus olhos começavam a marejar, a voz de Siesta me trouxe de volta. Pelo contexto, imaginei que ela estivesse falando da SIESTA, a empregada.
“Sim. Consegui resolver aquele problema que você me deu.”
Por meio da empregada, Siesta havia nos dado tarefas para enfrentar, mostrando o caminho para lidarmos com nossas preocupações. Seu único erro de cálculo foi que o futuro que escolhemos tinha sido diferente do fim que ela havia imaginado.
“Onde ela está agora?” perguntei à Siesta original. Quando encontrei SIESTA nas antigas instalações da SPES alguns dias antes, ela estava vivendo dentro de um terminal de computador, mas...
“Cumprindo outra tarefa. Foi ela quem me deu a chave mestra antes de eu vir até aqui.”
Pensando bem, eu tinha devolvido a chave a ela no laboratório. Isso significava que ela já sabia que Siesta acordaria?
“Siesta...” Como, afinal, você despertou? Eu estava prestes a perguntar, mas engoli a dúvida.
Não precisava perguntar. Eu sabia. E Siesta provavelmente também sabia. Por isso ela estava ali.
“O que preciso fazer agora é resgatar nossos amigos. Esse é mais um motivo para derrotar Seed o quanto antes.”
Esse tinha sido o desejo mais profundo de Siesta por quatro anos, por seis. Antes de me conhecer, ela havia encontrado Seed naquela ilha. Ele a derrotou e roubou todas as memórias dela sobre a instalação, sua organização e seus companheiros. Ainda assim, ela não esqueceu sua missão; perseguiu Seed e passou três anos lutando contra a SPES ao meu lado.
No final dessa história, Siesta perdeu a vida. Entretanto, conseguiu transferir seu coração e sua mente para o corpo de sua inimiga Hel, também conhecida como Natsunagi. Depois disso, Siesta e Hel consolidaram suas memórias, e Siesta recuperou aquelas que havia perdido.
“Eu tinha esquecido de coisas importantes”, disse Siesta, em voz baixa, do outro lado da porta fina.
“O fato de ter conhecido Nagisa seis anos atrás. O fato de ter perdido Alicia. Esse passado era a última coisa que eu podia me dar ao luxo de esquecer, e mesmo assim...” Sua voz estava contida.
Ainda assim, eu sabia melhor do que qualquer um que Siesta não recuaria.
“Não vou esquecer mais nada. Não vou deixar que tirem mais nada de mim. Não vou hesitar. Não vou perder. Então, Kimi...”
A voz intensa de Siesta parecia atravessar a porta e ecoar pelo banheiro.
“Quero que você seja meu assistente mais uma vez.”
Eu podia ver sua silhueta familiar através do vidro fosco. Tínhamos tido uma conversa parecida ali quatro anos antes. Naquele dia, eu recusei. Respirei fundo, joguei água quente no rosto e dei minha resposta:
“Sim. Me deixe ser seu assistente de novo.” Já estava mais do que na hora de eu sair daquela água morna.
“Então, por favor, Siesta. Me ajude a encontrar um jeito de salvar Saikawa.”
Alguns dias antes, Seed tinha levado Saikawa para usá-la como possível receptáculo para a semente primordial. No entanto, se ele planejava utilizá-la dessa forma, provavelmente não iria matá-la.
“Sim. Seed sempre quis um receptáculo perfeito. Hel e eu éramos as principais candidatas. Se ele vai usar Yui Saikawa no lugar, isso provavelmente vai exigir certa preparação. Tenho certeza de que ainda temos uma chance de salvá-la.”
“! Então….”
“Está tudo bem. Vamos salvar Yui também, é claro,” afirmou Siesta com firmeza. Mas...
“Saikawa ‘também’?”
Algo na forma como ela disse aquilo me pareceu estranho. Era como se ela achasse que havia alguém além de Saikawa que precisava ser salvo... Ela estava falando de Charlie? Mas Charlie estava na UTI e, por mais frustrante que fosse, não havia nada que pudéssemos fazer por ela.
“Você não quer dizer...”
Meu coração batia tão alto que parecia ecoar no peito. Balancei a cabeça; não podia ser aquilo. Mas se fosse... Se algo assim realmente fosse possível... Era uma centelha de esperança, e eu não pude evitar me agarrar a ela. Após um silêncio que pareceu interminável, Siesta disse:
“Eu não vou desistir de Nagisa Natsunagi.”
Memórias Frias
“Siesta, o que significa isso?”
Logo depois, saí do banho e encontrei Siesta na sala. Eu precisava entender o que ela queria dizer com “não desistir de Natsunagi”.
Mas tudo o que ela disse foi: “Se você não secar o cabelo, vai acabar pegando um resfriado.”
Ela deu tapinhas em uma almofada no chão, indicando que eu me sentasse ali.
“Aqui, me dê sua toalha.”
Sentei-me de pernas cruzadas na almofada, e Siesta se posicionou atrás de mim, esfregando a toalha no meu cabelo para secá-lo. Quando olhei para a mesinha baixa, notei uma caixa de pizza por cima. Siesta devia ter feito o pedido enquanto eu estava no banho.
“Afinal, você não pode ter pensamentos saudáveis com um corpo debilitado.”
Então, agora que eu estava limpo, iríamos comer? Lembrando que eu não colocava nada na boca fazia três dias, abri a caixa.
“...As pizzas sempre tiveram esse formato de Pac-Man?”
“Eu não consegui esperar até você sair do banho.” Quando olhei melhor para Siesta, vi um pedacinho de queijo preso no canto da boca.
Ela não tinha mudado. Sorri de leve, e então nos sentamos frente a frente para comer a pizza. Era a primeira vez em um ano que fazíamos uma refeição juntos.
“...Está ótima,” eu disse.
A comida reconfortante parecia ainda mais deliciosa para meu corpo exausto. Eu também tinha comido pizza com Siesta na minha casa quatro anos antes. Depois disso, parti em uma aventura com ela, e passamos três anos deslumbrantes e extraordinários juntos.
Sempre que sobreviveríamos a uma das muitas lutas contra pseudohumanos ou a incidentes inesperados, brindávamos com Coca-Cola e nos entupíamos de comida.
...Aquilo era tudo o que eu queria, pensei. Tomar um banho, comer e conversar com alguém importante para mim. Mas esses eram privilégios exclusivos dos vivos. E os que não estavam vivos... Natsunagi….
“Assistente.”
Quando percebi, Siesta estava enxugando suavemente meus olhos com a ponta dos dedos. Será que eu sempre fui tão fraco assim?
“...Desculpa.”
“Isso não é novidade.” Siesta e eu trocamos um sorriso sem graça.
“Eu sei tudo sobre você, Kimi, inclusive suas fraquezas. Está tudo bem,” ela disse. Estava agindo como se fosse minha nova mãe.
“Mas você não sabe sobre este último ano.”
“É verdade. Mas...” O sorriso de Siesta ficou levemente preocupado.
“Eu sei que você estava tentando me trazer de volta à vida.”
Ah, certo. Ao amanhecer, logo depois da minha luta com a Srta. Fuubi, cerca de dez dias atrás, fiz um juramento para SIESTA e para o coração de Natsunagi. Deve ter chegado até ela.
“Você não vai dizer?” perguntei.
“Dizer o quê?”
“O de sempre.”
Ela poderia facilmente me chamar de idiota por aquilo. E honestamente, eu achava que devia. Considerando o que aquele desejo acabou causando.
“Eu não vou dizer,” respondeu Siesta. Eu não conseguia encará-la.
“Eu não deveria.”
Isso me fez levantar o rosto. Siesta olhava diretamente para mim. Talvez fosse imaginação minha, mas seus olhos pareciam um pouco úmidos.
“...Eu não achei que tinha o direito de dizer isso agora.” Ficar calado seria o mesmo que mentir, então finalmente coloquei para fora o que vinha guardando.
“Eu estou feliz por ter te visto de novo.”
“Eu também.”
Siesta recebeu minhas palavras com um sorriso, sem me provocar como costumava. Nenhum de nós conseguia ficar verdadeiramente alegre com a situação. Sim, eu consegui realizar meu desejo, mas esse não era o desfecho que eu queria.
Eu realmente não podia chamar isso de um “final feliz”. Então perguntei mais uma vez:
“Ei, Siesta. O que você quis dizer com ‘não desistir de Natsunagi’?”
“Ainda não posso afirmar nada com certeza, mas... alguém realmente viu o corpo dela?”
Era isso... Então Siesta ainda não sabia sobre aquilo... A pequena fagulha de esperança dentro de mim se apagou de imediato.
“Eu vi. Eu segurei a mão dela e senti enquanto ela ficava mais fria.”
O que eu vira três dias antes voltou imediatamente à minha mente. Uma sensação amarga subiu do fundo do estômago.
Naquele dia, deitado em um leito de hospital, ouvi da Srta. Fuubi sobre a morte de Natsunagi. Eu não quis acreditar. Mesmo deixando meus sentimentos de lado, acreditar naquilo parecia errado.
Afinal, um ano antes, eu havia cometido um grande erro em relação à morte de Siesta. Na época, eu havia perdido parte das minhas memórias por causa do pólen de Betelgeuse; a Srta. Fuubi me contou sobre a morte dela depois, mas o que eu ouvi não era a verdade.
Por causa disso, decidi que não poderia aceitar as palavras da Srta. Fuubi sem questionar e fugi do meu quarto de hospital. ...E então encontrei um médico. O homem disse ser o diretor do hospital e me levou até um determinado quarto. E lá...
“Natsunagi estava deitada em uma cama, inconsciente, ligada a um ventilador mecânico.”
Havia vários tipos de tubos conectados ao corpo dela. Era como se toda tecnologia científica disponível estivesse tentando preservar a vida daquela única garota.
“Então Nagisa realmente ainda...”
“Viva? Foi o que eu pensei também.”
Era verdade que não havia como saber como a situação iria se desenvolver, mas Natsunagi não estava morta. Tinha de existir uma possibilidade de salvá-la. ...Ou pelo menos era o que eu acreditava, até o médico continuar falando:
“Nagisa Natsunagi está com morte cerebral.”
O termo queria dizer exatamente o que se imaginava: o cérebro perdera todas as funções, e a possibilidade de recuperação era zero. A paciente jamais voltaria a acordar. Em muitos países do mundo, uma pessoa é considerada oficialmente morta quando o cérebro morre.
Graças ao ventilador e à medicação, seus batimentos cardíacos ainda oscilavam de forma suave no monitor, mas até isso não duraria muito. Como Natsunagi não tinha parentes, não havia ninguém para decidir desligar o respirador, então ela simplesmente continuava mantida ali.
Seu estado piorou de repente, e o quarto fora fechado para visitantes. Pouco antes disso, eu segurara sua mão pela última vez. Ela estava fria como gelo, o que parecia errado para uma garota com um nome tão primaveril.
“Entendo...” Depois de ouvir minha história, Siesta baixou os olhos, pensativa.
“Então não podemos confirmar o estado atual de Nagisa.”
Exatamente. Como eu havia dito, ninguém podia visitá-la naquele ponto. Na verdade, se considerássemos o que significava impedir visitas, eu conseguia imaginar o que acontecera. Natsunagi realmente estava….
“Nós não sabemos em que estado ela está.” Respondendo a Siesta, apaguei a conclusão que minha mente já tinha formado.
“Mas eu conheço alguém que talvez saiba como ela acabou assim.”
“Você quer dizer...” Pelo olhar de Siesta, ela pensou na mesma pessoa. Suas sobrancelhas se franziram.
“Exato. Sua subordinada, Mia Whitlock.” A empregada dança na calada da noite
“Entendo. Então você encontrou a Mia também.”
Siesta e eu estávamos no banco de trás de um carro, indo para um certo destino. Mia Whitlock era a Oráculo, uma das doze Reguladoras que protegiam o mundo. Ela tinha a capacidade de prever grandes pontos de virada na história. Cerca de uma semana antes, em busca de uma forma de trazer Siesta de volta à vida, Natsunagi e eu voamos para Londres para encontrá-la.
“Sim, conversamos bastante sobre você.”
Eu me lembrava da conversa que tive com Mia naquele dia, a garota que, ao que parecia, era subordinada de Siesta. Falamos sobre como a SPES havia obtido o texto sagrado e sobre a resolução que Siesta tomara nos bastidores….
“Está com raiva?” perguntou Siesta, sem olhar para mim.
“Por eu ter escondido tantas coisas durante aqueles três anos.”
...Ela realmente tinha escondido muita coisa. A verdadeira natureza do inimigo que combatíamos, por exemplo. Chamava-se de Detetive As e nunca explicou o que isso significava. Suas amizades, também, ela nunca me falou das coisas importantes.
“Se havia um motivo para você manter segredo, eu nunca poderia ficar bravo. Mas...”
Senti Siesta se virar para mim.
“Sacrificar a si mesma, isso é a única coisa com a qual eu não consigo lidar.” Eu queria dizer aquilo para as duas detetives, não apenas para esta.
“...Você tem razão,” murmurou Siesta, voltando o olhar para a janela e para o sol poente.
“Ainda assim, quem diria que a Mia estaria no Japão?” Mudando o rumo da conversa, ela sorriu.
“Faz um ano que não a vejo.”
Da última vez que um futuro previsto por Mia mudou, ela veio ao Japão para confirmar pessoalmente. Desta vez, a Detetive As havia voltado à vida e o mundo chegara a um grande ponto de virada; não havia possibilidade de a Oráculo deixar de vir observar.
“E você acha que a Mia pode explicar o estado atual de Natsunagi?”
“Sim. Pelo menos ela deve saber o que está acontecendo que eu ainda não entendi.”
Por isso estávamos indo encontrá-la. Cerca de uma semana antes, no alto daquele relógio em Londres, Mia e Natsunagi tiveram uma conversa secreta. Agora estávamos a caminho de um lugar onde talvez encontrássemos Mia e pudéssemos descobrir o que elas discutiram.
“Mas, Siesta, você está bem?” Siesta inclinou a cabeça, como se não entendesse a pergunta.
“Quero dizer, você acabou de acordar, e já estamos na correria...” Percebi tarde demais que a arrastei para fora sem considerar seu estado físico.
“Eu não estou tão debilitada a ponto de você precisar se preocupar comigo, Kimi,” murmurou, olhos fechados. Aparentemente, eu estava preocupado à toa.
“Além disso, não há muito tempo.”
“Verdade.” Seed provavelmente faria de Saikawa seu receptáculo muito em breve.
“Podemos ir um pouco mais rápido, SIESTA?” perguntei à nossa motorista.
Ele prendeu um grampo de cabelo em forma de lua nos pálidos fios prateados de SIESTA. “Seu nome é Noches”, disse ele.
Para uma garota que havia sido sobrecarregada com um nome ligado ao dia até então, aquele realmente parecia um nome adequado.
A verdade daquele dia, o último desejo
“Já faz uma semana, hein, Mia?”
A pessoa que esperávamos encontrar estava lá quando chegamos ao nosso destino, e eu soltei um suspiro de alívio.
“Você realmente não tem modos, não é? Aparecer dizendo que quer me ver do nada...” Mia Whitlock lançou-me um olhar enquanto afastava seus cabelos azul-claro com uma das mãos.
Ela vestia o traje de miko que sempre usava ao desempenhar suas funções.
“Acredito que tínhamos combinado que eu entraria em contato caso houvesse algum desenvolvimento.”
Além da questão envolvendo Natsunagi, eu havia pedido a Mia um certo favor. Queria que ela ficasse de olho na próxima crise mundial... na aparição de Seed. Sabia que não seria fácil, mas recorri a ela mesmo assim, confiando que isso me ajudaria a encontrar Saikawa.
“Desculpe. A situação mudou um pouco.”
Com alguns metros entre nós, encarei Mia. À sua frente, a capital do Japão se estendia até onde a vista alcançava. Estávamos no deque de observação da torre de rádio mais alta do país; assim como no relógio de Londres, Mia Whitlock realizava suas funções em um local de onde podia observar toda a cidade.
“...Só você?” perguntou Mia, olhando pelas janelas para a paisagem urbana banhada pelo brilho quente do pôr do sol.
Só nós dois estávamos ali, e não havia mais ninguém na galeria. Em outras palavras:
“Se está procurando pela Siesta, ela não está aqui agora.”
Quando eu disse isso, seus ombros estremeceram levemente. Mesmo sem perguntar, eu sabia que esse era seu principal motivo para ter vindo ao Japão.
“Nós nos envolvemos em um pequeno incidente no caminho. Siesta está resolvendo isso.”
“Então, nada mudou nesse ponto.” Com um leve suspiro, Mia voltou seu olhar para mim.
“E? Por que você realmente veio até aqui?” Seus olhos lilases e diretos me atravessaram. A partir dali, mentiras e evasivas não seriam toleradas e, na verdade, era exatamente assim que eu queria.
“Bem, havia algo que eu queria confirmar.” Respirei fundo algumas vezes e, então, fiz minha pergunta:
“O coração da Natsunagi foi o que trouxe Siesta de volta à vida, certo?”
Siesta e eu havíamos chegado a essa conclusão sem sequer conversar sobre isso. Um ano antes, quando Siesta perdera o coração e a vida, seu corpo fora colocado em estase, preservado por congelamento. Isso significava que apenas uma peça era necessária para realmente trazê-la de volta: o seu coração.
Siesta usara o poder de sua “semente” para transferir sua própria consciência ao coração. Então, se ele fosse devolvido ao corpo... se corpo e espírito fossem reunidos, Siesta voltaria à vida. A ideia em si era simples.
No entanto, havia um grande problema: o coração essencial estava no corpo de Natsunagi. Quando ela havia lutado contra Siesta como Hel, seu coração fora danificado, e ela atacara pessoas indiscriminadamente em Londres enquanto buscava um substituto. O coração que finalmente encontrara fora o de Siesta. Se Natsunagi o perdesse de novo, ela...
“Isso mesmo.” Mia me encarou, sem alterar sua expressão.
“Nagisa Natsunagi percebeu essa possibilidade. Ela me perguntou se, caso morresse e o coração fosse devolvido à sua dona, a Detetive Lendária voltaria à vida.”
Então eu havia adivinhado certo. Naquele momento, Natsunagi já tinha se preparado. Ela acreditava que sua morte poderia trazer Siesta de volta.
Foi por isso que ela fez aquela promessa para mim, na semana passada, em Londres: “Vou trazer Siesta de volta, não importa o que eu tenha que fazer.”
Não importa o que tivesse que fazer. Mesmo que isso significasse sacrificar a própria vida.
“E você não a impediu, Mia?” Apertei os punhos até sentir as unhas se cravando nas palmas.
“Não.”
“Por que não...?!”
“Bem, porque….!” O protesto de Mia ecoou pelo deque de observação. “É isso que acontece quando você muda o futuro!”
Seus ombros tremiam. Ela estava mais irritada do que eu jamais a vira e chorava mais do que nunca. Com lágrimas escorrendo pelo rosto, ela gritava para mim — ou talvez para si mesma:
“Não importa o quão difícil seja a escolha, se existe um desejo que realmente queremos, nós….”
...Entendi. Era isso que eu havia pedido a Mia. Pedi que ela me ajudasse a trazer Siesta de volta à vida. Pedi que me ajudasse a encontrar uma nova rota que tornasse isso possível. E estas eram as consequências.
Um ano atrás, Siesta morreu, e seu coração manteve Natsunagi viva.
Agora, Natsunagi estava morta, e seu coração havia trazido Siesta de volta.
A Rota X era a única capaz de produzir o milagre que eu desejava, e foi assim que tudo terminou.
“Acho que fui eu quem fez você fazer isso.”
Isso era verdade tanto para Mia quanto para Natsunagi. Não havia como culpar nenhuma das duas.
“Não importa o que você sacrifique, não importa o preço que pague, continue tentando realizar esse seu desejo.” Essas haviam sido as últimas palavras de Bat para mim.
Eu achava que já havia me preparado para o pior há muito tempo, mas o que eu tinha decidido fazer era engolir aquela semente. Me sacrificar, basicamente. Mesmo que a semente tomasse parte do meu corpo ou alguns anos da minha vida, se isso tornasse possível trazer Siesta de volta, eu teria ficado feliz em pagar esse preço.
...Mas eu não percebi que Natsunagi provavelmente pensava do mesmo jeito. Não percebi o quanto ela queria Siesta de volta, nem percebi sua determinação.
Natsunagi conhecera Siesta seis anos atrás, muito antes de mim. Depois, Seed havia roubado as memórias de ambas; elas se encontraram como inimigas e, por fim, se separaram pela morte.
Contudo, aquela separação resultara da devoção de Siesta a Natsunagi. Natsunagi queria reviver sua vida, experimentar ir à escola, e Siesta usou o próprio coração para realizar esse desejo. Quando Natsunagi recuperou suas lembranças daquele incidente, decidiu salvar Siesta mesmo que isso custasse a própria vida. Nada mais natural.
“Nagisa sorriu. Parecia aliviada”, contou Mia, enxugando as lágrimas repetidas vezes. “Ela não pretendia morrer originalmente, claro. Mesmo assim, disse que finalmente poderia cumprir o papel que precisava como detetive. Que poderia retribuir a dívida dela com você e com Siesta.”
“......!” Isso não estava certo. Não era Natsunagi quem não havia pago sua dívida. Era eu.
“Eu perguntei a Nagisa se ela não estava com medo, se realmente estava bem com isso. E ela disse...” Mia olhou para fora, para o horizonte distante.
“Ela disse que só estava devolvendo o que havia emprestado. Que aquele era o caminho correto.”
“Isso não pode ser. Por que diabos eu iria querer esse futuro?”
“Também achei que não era o caminho correto. Como poderia ser?” Ainda observando o pôr do sol, Mia falou suavemente.
“Essa escolha não podia ser a certa. Pelo menos, eu sabia que não seria o futuro que você queria, Kimihiko Kimizuka. Você se esforçou tanto para me convencer... e conseguiu. Eu queria ajudar você... e se esse foi o resultado, depois de tudo isso, eu não culparia você se quisesse me bater. E ainda assim”, continuou ela, “eu não consegui negar a escolha de Nagisa. A determinação dela.”
Uma única lágrima escorreu pela bochecha de Mia.
Será que ela chorou assim um ano e meio atrás, quando não conseguiu impedir o sacrifício de Siesta?
“Não sei como encarar a Chefe. Traí o desejo dela e priorizei o de Nagisa. E então….”
“Isso está errado.”
Nesse instante, uma voz que não era nem minha nem de Mia ecoou pelo deque de observação. Mia se virou. Seu olhar se fixou num ponto bem ao meu lado.
“Faz muito tempo, Mia.”
As duas heroínas, a Oráculo e a Detetive Lendária, reuniam-se pela primeira vez em um ano.
O juramento renovado da Detetive Lendária
“Chefe...” Mia Whitlock encarou a detetive de cabelos brancos, atônita.
Ela sabia que Siesta havia voltado à vida, ou ao menos que essa possibilidade existia. Mas só compreendia isso de forma lógica, em teoria.
Aquele reencontro era algo que não deveria acontecer. Mia permaneceu paralisada, lágrimas escorrendo pelo rosto.
“Vejo que você continua uma chorona.” Ao meu lado, Siesta sorria.
“...Não me lembro de ter chorado tanto assim na sua frente, Chefe.” Mia desviou o olhar, envergonhada.
Siesta a observou. Depois, por algum motivo, suspirou e lançou um olhar severo para mim.
“Kimi, acho que você deveria parar de fazer garotas chorarem. É um hábito ruim.”
“Quem faria isso de propósito? Ninguém quer ver algo assim.”
“Admito que o fato de você não ter mudado nem um pouco é, de certa forma, um alívio...”
“Isso é uma coisa terrível para se sentir aliviada.” Embora, considerando minha tendência, eu realmente tenha causado problemas a ela um minuto atrás.
“Além disso, é aqui que eu entro em momentos como este.” Siesta deu um passo na direção de Mia.
“......!” O rosto de Mia se contorceu. Ela acreditava que não tinha o direito de olhar para Siesta agora.
“Eu rejeitei o futuro que você queria proteger, Chefe. A nova rota que eu encontrei tirou outra vida. Eu sabia que ninguém ficaria feliz desse jeito, e mesmo assim...”
Mia também não acreditava que esse resultado fosse o correto. Mas, naquela época, ela não tivera opção. Não conseguira ignorar os sentimentos de Natsunagi e recebera a chance de superar o arrependimento de não ter sido capaz de salvar sua benfeitora... mas outra detetive pagara o preço.
Uma semana antes, em Londres, Mia havia dado um passo adiante. Contudo, não necessariamente estava caminhando rumo ao futuro que desejava.
“Me desculpe.” Mia falou com sinceridade. Seus olhos estavam vermelhos, e sua cabeça permanecia baixa.
“Mais uma vez, eu falhei em impedir a aposta da Detetive Lendária. Eu sabia que poderia ser um erro, mas não consegui fazer nada. Eu... eu...”
“Não é isso.” Interrompendo Mia, Siesta puxou-a para um abraço. De onde eu estava, pude ver o rosto surpreso de Mia entre os braços de Siesta.
“Antes de tudo, sou eu quem precisa pedir desculpas. Me desculpe, Mia.”
“Chefe, por que você...?” Mia não parecia compreender o que Siesta queria dizer. Seus olhos grandes, da cor de lilás, vacilavam.
“Fiz você seguir um pedido egoísta meu e você acabou se machucando. Quero me desculpar apropriadamente por isso.”
Um ano e meio atrás, Siesta havia elaborado um plano para fazer o inimigo roubar o texto sagrado, um plano que incluía a possibilidade de que ela própria fosse sacrificada. Para colocar essa estratégia em prática, ela havia pedido a ajuda de Mia.

“...Você só estava tentando cumprir sua missão como Ajustadora, Chefe. Eu é que não estava preparada.” Mia murmurou isso enquanto chorava nos braços de Siesta.
“E desta vez, de novo, eu...”
“Como eu disse, você está errada nisso também.” Siesta segurou-a pelos ombros, falando com firmeza.
“Isso ainda não acabou.” Os olhos de Mia se arregalaram.
“É verdade que o sacrifício da Nagisa me trouxe de volta à vida. Mas quem decidiu que era aqui que tudo acabaria?”
Mia e eu estremecemos diante de suas palavras. Assim como eu havia jurado que não deixaria a história terminar antes de trazer Siesta de volta, mesmo naquela situação desesperadora, Siesta não estava desistindo de Natsunagi.
“Escute, Mia.” Ali, naquele deque de observação no coração do Japão, Siesta fez uma declaração.
“Eu juro que vou salvar Nagisa Natsunagi. Afinal, ela não desistiu de mim.” Siesta estava fazendo aquele juramento a nós dois, e talvez para si mesma.
“...Sério?” A voz do Oráculo soou quase infantil. Enquanto enxugava as lágrimas de Mia, Siesta sorriu.
“Sim. Eu prefiro histórias com finais felizes.”
A ordem ecoa
“Me desculpem.”
Algum tempo depois, Mia inclinou a cabeça para nós novamente. Mas não era uma continuação do assunto anterior.
“Por mais que eu tente, não consigo ver o futuro que foi afetado pela semente primordial.”
Eu queria que Mia analisasse o futuro que girava em torno de Seed, mas não tinha funcionado.
“Isso não pode ser evitado. Eu sei que você não consegue simplesmente ver o que quer ver.”
“Isso também é verdade, mas...” Mia continuava lançando olhares rápidos na minha direção, como se tivesse algo mais a dizer.
“O que foi? Difícil falar sobre isso?” Não que as pessoas ao meu redor fossem tímidas.
“Acho que ela está tentando dizer que é sua culpa, Kimi.” ...A primeira e melhor prova disso era a garota de cabelos brancos ao meu lado.
“Está dizendo que eu sou o motivo pelo qual a Mia não consegue ver o futuro? Isso é absurdo.” Mas, quando olhei para Mia, ela desviou o olhar com desconforto. ...Espera. Sério?
“O que eu fiz?”
“Você mudou o futuro”, Siesta respondeu de modo conciso.
“No futuro que eu imaginava, você e Nagisa, Charlie e Yui derrotariam a SPES. Ou Seed, no caso. Era apenas o que eu esperava que acontecesse, mas mesmo assim.”
Esse era o último desejo de Siesta, e Natsunagi, Charlie, Saikawa e eu éramos o legado que ela havia deixado.
“Mas, a partir daí, você começou a trilhar um caminho que nem eu havia previsto.”
...É. Eu não tinha conseguido desistir dela, então comecei a procurar alternativas com Natsunagi e os outros. Nem o Oráculo, nem a grande detetive tinham previsto isso.
Foi isso que nos trouxe até o momento atual: Natsunagi estava morta, Saikawa tinha sido capturada pelo inimigo e Charlie estava em estado crítico. Nada nesse caminho se aproximava do que Siesta desejava, ou do meu ideal.
“O futuro está extremamente instável agora.” Mia nos ouvia de olhos fechados; quando voltou a falar, abriu-os lentamente.
“Por causa das suas ações, não existe mais uma rota definida para a batalha contra Seed. Não há nada que eu consiga observar agora, nem quem vencerá, nem como acontecerá.”
Esse era o veredito de Mia Whitlock, a Oráculo. Nem mesmo uma Ajustadora capaz de ver o futuro conseguia enxergar o desfecho dessa história. Mas...
“Também não está decidido que vamos perder.” De fato, nada disso era como eu havia imaginado.
Eu perdera três amigos preciosos. Mas nossa última esperança ainda estava ao meu lado.
“Não é verdade, Siesta?” Olhei para essa “esperança”: a Detetive Lendária.
Se o futuro estava indefinido, então derrotaríamos o inimigo do mundo com nossas próprias mãos e salvaríamos todos os nossos amigos. Esse era o final pelo qual Siesta lutava.
“Sim. É por isso que eu voltei.”
O sorriso fugaz de Siesta não era confiante como o de um herói de história. Mas, naquele momento em que não conseguíamos ver a luz, só o fato de ela estar ali me fazia acreditar que eu ainda podia seguir até o amanhã.
“Assistente.” Siesta apontou para o meu peito, e percebi que meu celular estava vibrando no bolso interno do casaco. Olhei o nome no visor e atendi.
“E aí, seu moleque. Finalmente resolveu sair da cama, hein?” Ouvi alguém soprar fumaça de cigarro do outro lado da linha.
Era Fuubi Kase, a pessoa que primeiro me dissera que Nagisa Natsunagi estava morta.
“Srta. Fuubi. É como eu pensei, nós não podemos desistir da Natsunagi...”
“Kimihiko Kimizuka”, respondeu uma voz gélida ao telefone.
“Se você tem tempo pra se agarrar à esperança, então pegue sua arma.” ...É. Esse era exatamente o tipo de pessoa que Fuubi Kase era.
Ela havia sido designada como Assassina, uma aliada da justiça, não, uma inimiga do mal, encarregada de eliminar as crises do mundo. Não se apegava a emoções temporárias ou a 1% de esperança.
Acreditava apenas na lógica sólida e na força que ela mesma havia construído, e usava isso para derrotar os inimigos do mundo.
Não demorou para percebemos que uma situação que exigiria essas habilidades estava prestes a nos atingir.
“.......!” A crise começou com um súbito zumbido em meus ouvidos.
Era como se um sino gigantesco estivesse repicando bem ao meu lado. Minha cabeça latejou, meu estômago embrulhou. O celular caiu da minha mão, e eu desabei de joelhos.
“Kimihiko?... Chefe!” Mia correu até mim, mas seus olhos logo se voltaram para Siesta. Aparentemente, apenas nós dois estávamos sendo afetados por aquele fenômeno misterioso.
“O que... é isso...?” Assim como eu, Siesta estava ajoelhada no chão, fazendo uma careta enquanto segurava o peito.
“O inimigo está atacando”, informou a Srta. Fuubi, cuja voz vinha do smartphone que eu havia deixado cair.
No instante seguinte, ouvi uma explosão distante.
“Mas o que...?” A dor de cabeça e o enjoo finalmente haviam diminuído, então me levantei e olhei para fora.
“O que... está acontecendo?”
Do alto, a cerca de quatrocentos e cinquenta metros de altura, vi tentáculos enormes atacando um conjunto de arranha-céus.
Cidade Planta 20XX
“O que diabos é isso?”
Depois que Siesta e eu nos recuperamos da estranha náusea, deixamos a torre de rádio e corremos até o local. Porém, o cenário à nossa frente era tão absurdo que eu parei sem querer.
O sol já havia se posto. Raízes longas e espessas, como tentáculos gigantes, se enrolavam nos arranha-céus. Uma quantidade absurda de vinhas prendia uma linha férrea suspensa, aprisionando um trem. As ruas estavam em completo caos: pessoas em pânico corriam de um lado para o outro, acidentes ocorriam por toda parte, fumaça se espalhava enquanto chamas subiam.
“Assistente!” Nesse momento, um impacto violento me atingiu.
“...?!”
Quando percebi, estava caído no asfalto, com Siesta protegendo meu corpo. Um segundo depois, um semáforo de pedestres despencou ao nosso lado. As plantas estranhas estavam enroladas em seu suporte. Eu deveria ter pensado melhor no motivo de haver tantos acidentes.
“O que está acontecendo?”
Segurando a mão de Siesta e me levantando, examinei o cenário novamente. O solo estava rachado, raízes sufocavam prédios inteiros. Semáforos e placas estavam destruídos, e muitos já haviam abandonado seus carros. A cidade estava sendo tomada por plantas... ou melhor, pela semente primordial.
“Assistente, olhe.” Siesta apontou, aflita. Um tentáculo atacava um jovem que não conseguiu evacuar a tempo. Ele se enrolou ao redor do rapaz, camada após camada, antes de carregá-lo para longe.
“Siesta, vamos atrás!”
O que o inimigo pretendia fazer sequestrando civis a essa altura do jogo? O objetivo de Seed não era atacar a humanidade...
“Nunca vamos alcançá-lo se só corrermos atrás.” Puxando-me pela mão, Siesta subiu as escadas de incêndio de um prédio próximo. De lá do alto, ela observou para onde o tentáculo se dirigia.
“Isso é...”
Um prédio comercial, mais alto que os outros, havia sido atravessado por uma árvore colossal. No topo da árvore, havia um enorme fruto maduro e inchado.
“Yui Saikawa está ali.” Siesta observava com binóculos. Ela apontou para os andares superiores.
“Ela e vários civis estão presos dentro daquele fruto gigante.”
“Ela está bem?!”
“Parece desacordada. Pode estar inconsciente.”
Ainda assim, pelo menos sabíamos para onde ir.
“Aqueles civis presos provavelmente estão servindo de alimento. Os nutrientes deles estão sendo drenados para cultivar Saikawa, o receptáculo.”
Entendi. Cultivar o receptáculo... ou talvez repará-lo.
Na luta de alguns dias atrás, Saikawa havia sofrido ferimentos que nem Seed previra. Ele provavelmente tentava curar o corpo dela, restaurar sua resistência como receptáculo. A essa altura, o processo provavelmente estava na fase final.
“Siesta, vamos logo.” Nós já sabíamos o objetivo do inimigo e onde estava nossa amiga. Não havia tempo para ficar ali observando.
“Precisamos chegar até a Saikawa.”
Antes mesmo de terminar a frase, meu corpo foi lançado no ar.
“Assistente!” Siesta gritou, olhando para baixo. Só então percebi que estava caindo. Ao mesmo tempo, uma vinha subiu do chão e destruiu a escada pela qual havíamos subido.
“.....!”
Mesmo que eu tentasse cair de forma correta, estava despencando dez metros direto para o concreto. Seria possível sobreviver? Torcendo para que a semente que eu havia engolido tornasse meu corpo um pouco mais resistente, continuei caindo….
“Hm?”
Alguns segundos depois, colidi com algo mas o impacto foi muito menor do que eu imaginara. Quando abri os olhos, incrédulo, vi...
“Ei, seu moleque. Agora você me deve essa pelo resto da vida.” A irritante policial ruiva me segurava nos braços, triunfante.
“...Quantos quilos de força foram esses? Cem? Duzentos?” Olhando para o rosto da Srta. Fuubi de tão perto, forcei um sorriso. Eu tinha pouco menos de sessenta quilos. Sem contar a altura da queda...
“Não subestime a polícia. Eu aguento um elefante africano com uma mão.” ...Isso é realmente assustador. Acho que nunca mais vou contrariá-la.
“Assistente!”
Siesta pousou no asfalto com perfeição. Talvez um pouco atrasada, mas ainda assim realizando um feito super-humano com naturalidade.
“Faz tempo, Detetive Lendária.” A Srta. Fuubi sorriu de lado. Ela não parecia nem um pouco surpresa ao vê-la. Era como se já soubesse que Siesta havia ressuscitado.
“ Eu realmente me sinto mal por ter causado problemas para você após a minha morte.” Siesta fez um pedido de desculpas que só alguém que tivesse sido ressuscitado poderia fazer. “Também sou grata por você ter protegido os outros, inclusive o Charlie.” Porém, mesmo enquanto falava com a Srta. Fuubi, seus olhos permaneciam frios.
“Hm? Ah, sim, vou devolver ele.” Brincando, a Srta. Fuubi me colocou de volta no chão.
“E então? Qual é a situação?” perguntou Siesta. Como a Srta. Fuubi havia nos chamado, certamente sabia de algo.
“Pelo que ouvi, tudo começou do nada. Uma árvore gigantesca brotou de dentro de um prédio bem no centro da cidade; depois, o chão rachou e plantas começaram a atacar as pessoas. No momento, até a polícia está em pânico.” A Srta. Fuubi suspirou.
“E o Seed está por perto também?” perguntei. Se nosso inimigo havia desencadeado algo tão grande, eu não conseguia acreditar que ele não estivesse ali.
“Boa pergunta. Não faço ideia de como ele é.”
“Por acaso você é o Seed?” indagou Siesta casualmente. Pensando bem, cerca de um ano atrás, em Londres, o Seed havia feito contato conosco disfarçado como a própria Srta. Fuubi.
“Ha! Suas habilidades de dedução ficaram enferrujadas enquanto você estava morta?” A Srta. Fuubi rejeitou a suspeita com uma risada.
“Se eu fosse o inimigo, já teria matado esse pirralho um segundo atrás.” É, verdade. Então essa era a verdadeira Fuubi Kase.
“Nesse caso, tem certeza de que está bem com isso?” Siesta a observou com desconfiança.
“A missão de derrotar a SPES foi atribuída a mim, a Detetive Ás. Você é a Assassina; normalmente, não teria permissão para me ajudar nisso.”
Essa era uma regra estabelecida por algo chamado Carta Federal. Como existiam inúmeras crises globais, cada uma era designada a um Tuner específico. O ataque do Seed havia sido atribuído à Detetive Ás.
“Ajudar você? Não. Só estou limpando a bagunça que vocês deixaram.” A Srta. Fuubi deu um sorriso maldoso.
“Por enquanto, estou tirando uma folga temporária do meu trabalho de Assassina. Vou evacuar os civis; vocês devem se concentrar em resgatar Yui Saikawa e derrotar o inimigo.”
Então ela jogou sua faca de sobrevivência para mim. “Vou cumprir meu dever como policial”, declarou, com seu rabo de cavalo vermelho balançando. A confiança transbordava de sua expressão.
“Vamos, Assistente”, disse Siesta, e nós dois partimos novamente em direção a Saikawa. Estávamos indo para o edifício comercial que tínhamos visto das escadas, aquele que havia se fundido com a enorme árvore. Lutando contra a multidão que fugia, avançamos até o local.
“Como vamos resgatar a Saikawa?”
“Acho que teremos de escalar a lateral do prédio... Espere, me lembre: você consegue fazer coisas assim?”
“Estou surpreso que você achou que havia sequer um por cento de chance de eu conseguir.”
“Humm. Talvez eu devesse ter roubado a habilidade daquele sujeito-aranha”, disse Siesta. Ela falava de um pseudohumano que havíamos derrotado há muito tempo.
Pensando bem... será que Siesta sabia que eu havia engolido a semente do Camaleão? A semente era uma arma de dois gumes: concedia habilidades especiais, mas em troca exigia o sacrifício de algum sentido ou alguns anos de vida. Se Siesta soubesse que eu a tinha ingerido apenas para trazê-la de volta, o que ela diria? Ficaria preocupada comigo ou...?
“Assistente?” Meu silêncio pareceu estranho para Siesta. Ela se virou e me encarou.
“Não, não é nada. Vamos depressa”, respondi, correndo em direção à minha amiga.
“Sim. Sério, apresse-se. Estou acompanhando o seu ritmo o caminho todo.”
“...Estou começando a achar que seria mais rápido se você me carregasse nas costas.” Era assim que fazíamos as coisas.
Do cruzamento principal, olhamos para o shopping de oito andares. Uma árvore gigantesca crescia diretamente através do centro da estrutura, e galhos grossos haviam rompido janelas e paredes.
“Saikawa...”
No topo da árvore, praticamente parte do prédio agora, podíamos ver um objeto parecido com um fruto. Saikawa e outros civis estavam presos dentro de sua casca vermelha e chamativa.
“Parece que escalar por fora não vai funcionar.”
“Então teremos de passar por dentro, certo?”
Aquela árvore colossal havia brotado e perfurado o prédio de repente. Não havia como saber como estaria o interior. Mesmo que conseguíssemos chegar ao fruto, não poderíamos resgatar todas as pessoas ao mesmo tempo. Mas se conseguíssemos tirar Saikawa, o fluxo de nutrientes deveria parar, o que salvaria os civis.
Enquanto pensava nisso, olhei novamente para o prédio e avistei um helicóptero no céu escuro. Estariam fazendo uma análise aérea dos danos?
“...Hm?”
De repente, um tentáculo longo e fino surgiu do nada e agarrou o rotor traseiro do helicóptero. Só havia uma forma de aquilo terminar.
“Assistente!”
Antes que eu pudesse me mover, a voz cortante de Siesta me atingiu — seguida por ela mesma: ela me derrubou no chão, protegendo-me. No instante seguinte, uma explosão ensurdecedora rasgou o ar.
“......! Siesta!”
Estávamos a uma boa distância da queda, mas mesmo assim uma onda de calor intensa nos atingiu. A fumaça negra era tão espessa que eu não conseguia abrir os olhos. Chamei pela detetive... mas não houve resposta. Eu não conseguia nem sentir sua presença.
Não... impossível. Levantei a cabeça, e então um tiro ecoou. A bala rasgou o vento, cortando a fumaça.
“É cedo demais, cem anos cedo demais, para você se preocupar comigo.”
Siesta estava à minha frente, espingarda em mãos. Ela sabia que eu jamais conseguiria alcançá-la.
Além das chamas distantes da explosão, avistei a silhueta de um inimigo que eu tinha visto no dia anterior.
“Faz muito tempo, mas vejo que você não mudou.” Da fumaça que se dissipava pouco a pouco, Seed falou com Siesta.
Normalmente, ele não conseguia diferenciar seres humanos, mas Siesta havia sido uma candidata a receptáculo, então talvez fosse uma exceção.
“Você, por outro lado, assume uma forma diferente cada vez que o vejo.” Siesta estava sem expressão. Ela devia ter observado seu inimigo se transformar desde o primeiro encontro, seis anos atrás.
No entanto, Seed parecia quase o mesmo de quando o conheci uma semana antes. Seus longos cabelos brancos tinham fios cinzentos misturados, e ele usava uma armadura que lhe cobria o pescoço. Seu rosto parecia morto, com traços andróginos. Ele tinha os olhos de uma criatura que havia abandonado todas as emoções e todo o resto, como se os tivesse cortado e descartado.
“Ainda acho que você costumava ser um pouco mais humano”, disse Siesta de repente. Mesmo que Seed fosse uma planta vinda do espaço, Siesta parecia insinuar que ele já tivera uma forma mais parecida com a nossa.
“O que você quer dizer com isso?” Seed inclinou a cabeça, confuso. De fato, ele não parecia entender palavras humanas.
Ele não estava fingindo ignorância. Também não estava agindo como Hel, que fingiu não reconhecer seus próprios sentimentos de amor. O fato de Natsunagi tê-lo bombardeado com fortes emoções e ainda assim não ter conseguido derrotá-lo era prova suficiente: a semente primordial não possuía nada que se parecesse com sentimentos.
“Chega de discussões. Já dei a ordem.” Quatro tentáculos se estenderam das costas de Seed, e grossos espinhos surgiram do chão rachado. As sementes que ele espalhara pelo mundo estavam prontas para germinar.
“O receptáculo ficará completo em breve. Por ora, eliminarei os inimigos que ameaçam meu instinto de sobrevivência.”
Os tentáculos de Seed e as pontas de todas as plantas sob seu comando avançaram contra nós. Como ele dissera, não havia chance de resolver aquilo por meio de diálogo. Estávamos entrando no confronto final de verdade.
Ainda assim, mesmo que ele estivesse ferido desde o outro dia, será que teríamos chance real contra ele? Era noite, então não podíamos contar com a luz solar, a única fraqueza de Seed.
“O que fazemos, Siesta?” perguntei, aproximando-me para ficar ao lado da parceira mais confiável do mundo.
“Está tudo bem. Tenho uma ideia.”
Sim, era esse sentimento. Essa sensação tranquilizadora. Ela sempre me protegera daquela forma, com aquele grande guarda-chuva metafórico. Sim, ela tinha me levantado exatamente assim, e...
“...Hã?”
Jogando-me por cima do ombro, Siesta avançou enquanto desviava com habilidade dos tentáculos que perfuravam o chão. Então, saltando como se estivesse decolando, ela me lançou para além de Seed.
“Ei, isso não vale!”
Rolei até cair na entrada de um prédio. Justamente o prédio que estávamos procurando, então….
“Cuide da Yui.”
“...Por uma vez, você poderia explicar o que está fazendo antes de simplesmente fazer?”
Olhando para trás, percebi que sempre que Siesta dizia que tinha uma boa ideia, normalmente era algo ruim para mim. Mas eu não tinha tempo para reclamar agora.
“Volto em dez minutos.” Virando as costas para o campo de batalha, parti para resgatar Saikawa.
Dez minutos. Será que Siesta conseguiria resistir aos ataques do inimigo por tanto tempo? Por ora, eu precisava acreditar nela. Ela havia escolhido me enviar, e eu precisava respeitar sua decisão. Além disso... a essa altura, eu duvidava muito que ela escolheria se sacrificar.
Atravessei o shopping, outrora um ponto de encontro para adolescentes. Algumas horas antes, o lugar certamente estava cheio de gente, mas agora estava irreconhecível.
“Então não posso usar as escadas rolantes nem os elevadores.”
A energia do prédio tinha acabado, e tudo estava escuro. A enorme árvore crescia pelo centro das lajes, e plantas trepadeiras cobriam grande parte do espaço. Forçando caminho entre elas, encontrei uma escadaria.
Eu tinha quase certeza de que o prédio possuía oito andares. De lá, eu precisaria alcançar o telhado e depois pular até aquele fruto gigantesco. Eu tinha uma ideia geral do que fazer, mas... seria realmente tão simples resgatar Saikawa? Havia tantas preocupações que minha cabeça começava a doer.
Siesta estava lutando contra Seed. Saikawa havia sido capturada. Charlie ainda estava no hospital, em estado crítico, e Natsunagi….
“.........!”
No geral, nada do que eu fizesse poderia mudar o destino delas, e eu sabia que não adiantava pensar nisso agora. Ainda assim, enquanto subia os degraus de dois em dois, os rostos das garotas vieram à minha mente.
Eu tinha estado sozinho. Mas quando percebi, elas estavam ali, ao meu lado. Sem querer, eu havia ganhado tantas coisas preciosas.
Quando as pessoas encontravam algo mais valioso do que si mesmas, eu tinha certeza de que elas….
“!” Avistei uma figura agachada no patamar entre o quarto e o quinto andares.
“Você está bem?”
Seria um cliente que não conseguiu escapar a tempo, ou talvez um civil capturado por um tentáculo? Eu não conseguia ver direito no escuro, mas estendi a mão em direção às costas encolhidas.
“Gah, aaaaaaaaah!”
A figura agachada soltou um grito estridente, virou-se num movimento brusco e pulou em minha direção.
Como um zumbi, tentou me agarrar. Mas não era tão forte quanto eu imaginava. Derrubei-a com uma rasteira, a imobilizei e apontei uma arma para sua cabeça.
“Você é...” Minha arma estava apontada para um inimigo que eu já havia encontrado muitas vezes no campo de batalha: Chameleon.
“...Não.”
Não demorou para eu perceber que aquele não era o verdadeiro Chameleon contra quem eu lutara. Era uma réplica. Quando encontrei Seed no laboratório da SPES um ano antes, ele cortava partes do próprio corpo para criar clones temporários.
Essa réplica provavelmente era algo semelhante; não possuía a mesma força de um pseudohumano, e era difícil definir se era animal ou planta.
“Perdoe-me.”
Ainda assim, murmurei isso brevemente antes de atirar em sua cabeça. A réplica de Chameleon encolheu; parecia uma planta morrendo em um vídeo acelerado.
“Eu, q….” Por fim, com um gemido abafado, a réplica desapareceu.
“Ai?”
Pensei no que aquela expressão de dor significava. Seria o impulso de gritar por dor diferente de “emoção”? Seed não possuía emoção alguma. Nesse caso, os clones que ele criava.
“Complete a missão”, disse uma voz atrás de mim. Quando me virei, garras enormes e afiadas estavam bem diante do meu rosto.
“—!” Perdi o equilíbrio, mas consegui desviar, e enfim pude ver meu atacante.
“Você continua enorme como sempre, Cerberus.”
O pseudohumano Cerberus era um homem corpulento, com aparência sacerdotal, que tinha cerca de dois metros de altura. Assim como durante nosso encontro anterior, ele havia se transformado completamente em uma criatura bestial.
“Desculpe, mas eu também não tenho tempo para lidar com você.” Sem hesitar, apertei o gatilho e finalizei o inimigo com três tiros.
“Eu, qu….”, chorou Cerberus com uma voz frágil. Era outra réplica vegetal feita às pressas.
O verdadeiro Cerberus exigiria muito mais para ser detido, mas com aqueles três tiros, ele caiu sobre mim, aparentemente morto.
Apesar de ter dois metros de altura, seu corpo quase não pesava ao cair contra mim. Ele começou a secar e se desfazer. No instante final, o orgulhoso lobo murmurou algo em meu ouvido.
“....Eu quero viver.” Eu quero viver.
Não era “Ai”. Eles estavam dizendo que queriam viver.
Tanto Chameleon quanto Cerberus. Todas as criaturas vivas. Todas querem sobreviver, viver. Assim como eu quis trazer Siesta de volta da morte e quis que Natsunagi sobrevivesse.
“Todos são assim.”
Percebi tardiamente. O medo da morte era uma emoção básica, um instinto que ninguém podia negar. Réplicas, plantas, pseudohumanos... Ao deixar essas palavras me atingirem, quase esqueci.
Hel e Bat, claro, mas também Chameleon e Cerberus, e todos os clones contra os quais eu lutara até agora, todos eles temiam a morte como seres humanos comuns. Eles sentiam raiva e, por vezes, demonstravam outras emoções.
A lealdade que Cerberus sentia por Seed, o sadismo que Chameleon infligira a Natsunagi, e a hostilidade que ele demonstrara para comigo. Todos eram exemplos claros de sentimentos. Isso mesmo: ao contrário da semente primordial, os clones tinham emoções inconfundíve….
“Não, isso está errado.”
Como um choque elétrico, uma teoria atravessou minha mente. Talvez eu, talvez nós, tivéssemos interpretado tudo errado o tempo todo.
“É por isso que você...”
Nesse momento, um tremor me fez cambalear. Uma batalha feroz acontecia lá fora, e eu não tinha tempo a perder. Apressei-me em direção ao telhado.
Até o dia em que levarmos todos eles de volta para casa.
Subi as escadas às pressas e finalmente alcancei a porta no topo. Atirei no trinco, arrombei a porta com um chute e saí.
“! Aqui também?”
A copa da grande árvore havia explodido para fora do telhado, cobrindo todo o espaço com galhos e folhas espessas. Abrindo caminho entre eles, avancei até a borda.
“Saikawa!”
Quando olhei para baixo, vi o enorme fruto preso à parede do prédio alguns metros abaixo. De longe, parecia um semicírculo distorcido, mas dali parecia mais uma romã aberta ao meio. Saikawa e outras figuras adormecidas estavam cercados por glóbulos de polpa vermelha-escura.
Respirando fundo, saltei até o fruto e, por sorte, ele era resistente o bastante para suportar o peso de outro humano, permitindo-me pousar sem cair.
“Se eu cortar esses caules...”
Caules grossos envolviam Saikawa e os corpos de vários civis; pareciam transportar nutrientes, como se fossem tubos. Puxei a faca de sobrevivência que a Srta. Fuubi havia me emprestado e comecei a cortá-los um a um. Contudo, o processo era de tentativa e erro.
“Ah, me dá um tempo!”
Um tentáculo que havia atravessado a parede do prédio avançou em minha direção. Parecia ter nascido da grande árvore que atravessava o shopping, e eu deduzi que fosse um sistema de defesa, criado para afastar intrusos.
“!”
Agora havia três tentáculos no total. Apontei a arma às pressas, disparei uma vez, depois outra... e percebi que estava sem balas. Não tinha como evitar o terceiro tentáculo. Isso não é bom, pensei, mas então notei que eu tinha uma chamada entrando.
“Você salvou minha pele, Charlotte.” A terceira bala rasgou o vento e destruiu o último tentáculo.
“Como esperado de você. Deve estar a quinhentos metros daqui.”
Avaliando sua posição com base no ângulo do disparo, falei com ela pelo fone sem fio, mantendo meus olhos fixos no prédio distante.
“Isso não foi nada”, ela respondeu depois de alguns segundos.
“Um atirador de elite de primeira classe pode eliminar um inimigo a dois quilômetros de distância.”
Ela era extremamente exigente consigo mesma, como se espera de uma agente que treinava sob as ordens da chefe mais dura do mundo.
“Charlie, você está bem? A senhorita Fuubi não disse nada...”
Faziam três dias desde que eu soubera que Charlie estava em coma, e a senhorita Fuubi deveria me avisar caso seu estado mudasse.
“Você acha mesmo que aquela mulher cuidaria de mim por três dias inteiros?” ...Aquilo era perturbadoramente convincente.
“Ainda não estou totalmente bem, então isso é o máximo que consigo fazer.” Ela riu de si mesma. Ainda não conseguia se mover tão bem quanto gostaria.
“Isso já ajudou bastante. Mas como você conseguiu sair do hospital e chegar até esse prédio?”
“Ela me trouxe.”
Charlie se referia a Noches, que provavelmente também lhe contara sobre Natsunagi e Siesta.
“Entendi. Certo, Charlie, vá para um lugar seguro agora.”
“Kimizuka.” Quando eu estava prestes a encerrar a chamada, ela disse meu nome.
“Cuide de nossa companheira.” Era uma frase comum. Para qualquer pessoa que trabalhasse em equipe, seria uma troca totalmente natural. No entanto, vinda de Charlotte Arisaka Anderson, aquelas palavras carregavam várias vezes mais peso que o normal.
“Sim, eu sei.” Ao encerrar a ligação, certifiquei-me de que minha resposta curta também carregasse anos de sentimentos.
“Saikawa, é hora de acordar.”

Cortei o último talo, o que conectava Saikawa ao fruto e a sacudi para acordá-la.
“...Kimi...zuka...?”
Os olhos de Saikawa se abriram um pouco. Ela não usava o tapa-olho, e pude ver um vislumbre daquele azul oceânico tão característico.
“Sim, eu sou um dos Kimizuka. Kimihiko, para ser exato.”Peguei Saikawa nos braços, no estilo princesa.
“Você veio... me resgatar?”
“Enquanto também era resgatado, sim.”
A senhorita Fuubi e Siesta tinham acabado de me tirar de enrascadas sérias. Charlotte também, há pouco. Eu ainda não era forte o bastante para proteger sozinho tudo o que era importante para mim. Mesmo agora, eu apenas havia tido a sorte de fazer o papel de herói.
“...Você não mudou nada, Kimizuka.”
Saikawa esboçou um sorriso irônico e levemente constrangido.
“Tudo bem. Você não precisa ter sempre uma frase de efeito pronta.”
“Está dizendo que posso bancar o herói galante de vez em quando?”
Fazia alguns dias desde nossa última troca de provocações. Precisaríamos terminar essa conversa depois que descêssemos... depois que tudo acabasse. Segurando Saikawa, preparei-me para saltar.
“Sim, mas você não precisa atuar.”
Saikawa se agarrou a mim e... “Você tem sido galante desde que o conheci, Kimizuka.” Ela murmurou algo em voz muito baixa, mas o vento levou as palavras.
O desejo primordial
“Siesta!”
Quando voltei ao campo de batalha, encontrei Siesta a alguns metros do prédio. Ela tinha cortes superficiais na testa e nos ombros, mas se mantinha firme.
“Isso não levou tanto tempo quanto eu esperava. Achei que você só voltaria daqui a duas horas.”
Como sempre, sua opinião sobre mim era baixa demais. Eu talvez estivesse dois minutos atrasado.
“E então? E a Yui?”
“Ela está segura... Embora nós meio que tenhamos brigado no final.”
No fim, eu havia desistido da ideia de saltar heroicamente do prédio e optado por voltar pela janela — mais seguro. Aparentemente, a opinião dela sobre mim tinha despencado de vez. Injusto.
“A senhorita Fuubi está cuidando dela agora, então está em boas mãos.”
No caminho para baixo, com Saikawa nas costas, eu havia encontrado a policial ruiva, que havia prendido um dispositivo semelhante a uma âncora na parede externa do prédio. Ela me pedira para resgatar as outras pessoas presas no fruto, e naquele momento coordenava a evacuação de Saikawa e dos demais.
“Então, Siesta... qual é a situação aqui?”
Observei o cenário novamente. A maioria dos prédios estava meio demolida e coberta de vinhas, e as rachaduras no chão aumentavam. Aquele lugar já não funcionava mais como uma cidade.
“Eu diria que estamos entrando no Segundo Round.”
De repente, Siesta lançou um olhar afiado para um dos prédios destruídos. Logo, entre nuvens de poeira, alguém apareceu.
“Seed...”
Seed cambaleava, e parte da sua armadura estava destruída. O Detetive Lendário e o inimigo do mundo deviam ter se igualado durante aqueles dez minutos.
“Resgatamos a Saikawa”, anunciei, ficando ao lado de Siesta. “Nunca mais vamos deixá-lo tocá-la. Você não tem mais pseudohumanos para ajudá-lo. Seed, seus planos acabam aqui.”
Apontei meu Magnum para o inimigo. No mesmo instante, Siesta mirou seu mosquete na direção dele.
“—Sim, eu sei. Por isso, recuperei aquela semente há pouco.”
Por uma fração de segundo, pensei ver um brilho azul no fundo dos olhos incolores de Seed. ...Ele não podia estar dizendo que havia usado o fruto da grande árvore para extrair a semente de dentro de Saikawa, podia?
“O receptáculo que este corpo desejava originalmente está aqui.”
Oito tentáculos se estenderam das costas de Seed, todos alcançando Siesta. Eram tentos demais para repelir com balas, e além disso regeneravam rapidamente. Escondemo-nos atrás da sombra de um prédio demolido para suportar o ataque.
“Então é isso.”
Limpando o suor e o sangue da testa, Siesta completou a explicação de Seed:
“Ele está tentando repetir o que tentou no ano passado. Meu coração está dentro de mim agora, e meu corpo está intacto. Seed quer me garantir como receptáculo.”
“Entendo...”
Um ano antes, Siesta havia morrido e perdido o direito de servir de receptáculo para Seed. Porém, agora que havia voltado à vida, ela era qualificada novamente.
“Mas não se preocupe. Eu não me tornarei um receptáculo.”
A voz de Siesta era firme, e sua expressão, destemida.
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“Enquanto você estava fora, Kimi, eu percebi algo.”
“Percebeu, é? Que coincidência. Eu também.”
Trocamos olhares e acenamos com a cabeça. Eu não sabia se pensávamos exatamente na mesma coisa, mas não devíamos estar tão distantes.
“Assistente.”
Siesta empurrou minha cabeça para baixo no exato momento em que um dos tentáculos pulverizou a parede externa do prédio. Usando as nuvens de poeira como cobertura, ela disparou em direção ao inimigo.
“Eu já havia previsto esse ataque.”
Os oito tentáculos de Seed se contorceram como serpentes, tentando capturá-la em meio à poeira, mas Siesta saltou de um para outro, avançando pelo ar em direção ao inimigo.
“Siesta!”
No instante em que ela chegou ao ponto diretamente acima de Seed, os tentáculos se agruparam, formando a boca aberta de uma planta carnívora, tentando devorar a intrusa. Cercada por uma parede sólida de tentáculos, Siesta disse….
“Agora sou forte demais para você.”
Ela abriu caminho à força, espalhando fragmentos de tentáculos em todas as direções. Mergulhando diretamente contra o inimigo, Siesta disparou um tiro no pescoço de Seed.
“....!”
Talvez até Seed fosse capaz de sentir dor: seu rosto se contorceu levemente. A armadura do pescoço, atingida pelo disparo de Siesta, se despedaçou, expondo a pele por baixo. Além do ferimento causado pela bala, havia também um talho profundo, como se ele tivesse sido golpeado por uma lâmina enorme.
“Você está perdendo a capacidade de regeneração”, disse Siesta. Ela recuou com leveza, apesar do solo destruído sob seus pés.
“Ouvi dizer que você recebeu uma dose completa de luz solar e sofreu um ferimento mortal durante sua luta contra Bat. Isso danificou a capacidade regenerativa das suas células. Além disso”, continuou ela, revelando outra hipótese que formulara durante a batalha.
“Ao compartilhar suas habilidades com seus companheiros, você acabou se enfraquecendo.”
Não estava claro se Seed a escutava ou não. Um fluido espesso e viscoso escorria de seu pescoço, e ele cambaleava.
“Então, mesmo criando clones, ele não estava simplesmente se replicando”, eu disse. Siesta assentiu.
“Exatamente. Seed cria clones distribuindo suas sementes entre eles. Isso significa que, quanto mais clones ele cria, mais poder ele perde.”
Seed vinha apenas transferindo seu próprio poder. À medida que compartilhava suas habilidades com os subordinados e espalhava sementes pelo mundo, tornava-se cada vez mais fraco. Siesta percebeu isso porque já havia lutado contra ele anos atrás, e agora, novamente, ali.
Ainda assim, ele deveria ser muito mais forte do que um pseudohumano comum, mas foi aí que entrou a jogada desesperada de Bat: após ser atingido pela luz solar, o corpo de Seed passou a ter dificuldades para se regenerar. Agora que a Detetive Ás havia ressuscitado, ela podia enfrentá-lo de igual para igual.
“Eu não entendo”, disse Seed. Ele curvou o corpo para a frente, com o rosto voltado para o chão. “Por que meu poder precisa ser tirado de mim e dado aos meus clones?”
Ele não estava tentando nos enganar, nem se fazendo de desentendido. Ele realmente não compreendia.
“Porque era isso que você queria, não era?” Eu o fiz lembrar do desejo que havia esquecido.
“Seed, o seu desejo. Esse instinto de sobrevivência….” Então, apresentei a hipótese que havia formulado dentro daquele prédio.
“O verdadeiro propósito disso era garantir a sobrevivência dos seus descendentes, não era?” Um tentáculo de Seed voou em minha direção.
“......!”
Siesta avançou e o bloqueou, brandindo o mosquete como se fosse uma espada. Não vi raiva no rosto de Seed. O ataque parecera mais uma reação defensiva, o que sugeria que eu havia acertado em cheio.
“Quer dizer que esse instinto de sobrevivência não existe por minha causa? Que eu o possuo apenas para que aquelas coisas vivam?”, perguntou Seed, interrompendo o ataque por um momento.
Ele falava de Cerberus e Chameleon. Questionava-se se criar aqueles clones e deixá-los neste planeta sempre fora seu verdadeiro desejo.
“E é por isso que, sem perceber, compartilhei meu poder com eles? Você está dizendo que fiz isso sabendo que isso me envelheceria? Um sacrifício assim nunca poderia….”
“O que ha de tão estranho nisso? Quero dizer...” respondi à pergunta dele.
“Você é o pai deles, não é?” Ao ouvir isso, os olhos desfocados de Seed se arregalaram.
“Foi por isso que você compartilhou sua força e suas emoções com seus filhos.”
Durante todo esse tempo, havíamos entendido tudo errado. Era verdade que Seed agora não possuía emoções, mas isso não significava que sempre tivesse sido assim. Seed fizera um pouso de emergência na Terra cinquenta anos atrás e, depois disso, infiltrara-se em corpos humanos, estudando sua estrutura. Tendo aprendido a se disfarçar como humano, não seria estranho que também tivesse adquirido emoções humanas.
Na verdade, eu já havia visto sinais disso. Um ano antes, quando encontrei Seed no esconderijo da SPES naquela ilha deserta, ele havia se enfurecido com Chameleon por interromper sua conversa. Fora algo pequeno, mas provava que Seed era capaz de sentir raiva. Além disso…
“Chameleon e Cerberus nasceram de você, Seed. Se eles tinham emoções, isso obviamente veio da influência do pai.”
Essencialmente, havíamos observado tudo sob a perspectiva errada. Os pseudohumanos não adquiriam sentimentos ou personalidades à medida que cresciam. Eles os herdavam de Seed, seu progenitor.
Pensando bem, o tom de voz e as expressões de Seed estavam realmente mais vazios do que um ano atrás. Cada vez que ele concedia poder aos seus filhos, arrancava de si mesmo uma parte das próprias emoções. Ele sacrificava esses fragmentos por um único motivo.
“Você não queria garantir a própria sobrevivência. Você só queria deixar suas sementes para trás.”
Para os seres vivos, esse era um instinto natural. Uma emoção primitiva e inexorável: o desejo de deixar descendentes superava o desejo de sobreviver. No entanto, Seed não havia percebido isso… ou melhor, havia se esquecido. Um ano antes, naquele laboratório, Seed declarara que enterraria este planeta com suas sementes, chamando isso de “nosso objetivo”.
À medida que criava mais clones, ele continuava a perder poder e sentimentos, até que, por fim, perdeu de vista até mesmo seu objetivo original. Seus cabelos desbotados, aqueles olhos sem qualquer vestígio de emoção, antes que percebesse, Seed já havia perdido sua humanidade.
“É por isso, Seed”, continuei.
“Você não busca autopreservação. Você só quer que seus filhos, suas sementes, sobrevivam neste planeta.” Essa foi a dedução final a que Siesta e eu chegamos sobre a história da SPES.
“Entendo”, disse Seed em voz baixa. Ele estava parado a certa distância de nós.
“Então essa é a minha ambição. O objetivo que eu havia esquecido. Minha razão de viver. O significado de semear sementes. Meu instinto de sobrevivência… Entendo. Agora compreendo tudo.”
Agora, quando já era tarde demais, ele compreendeu. Se ainda lhe restasse emoção suficiente para se depreciar, Seed provavelmente teria cuspido aquelas palavras com um sorriso triste.
Ele acabara de provar a nossa hipótese. Pela primeira vez, humanos e a semente primordial compartilhavam uma mesma consciência. Havíamos alcançado um entendimento mútuo. Ainda assim, logo percebi que aquela quietude temporária não significava o fim da batalha.
“Se a missão deste corpo é deixar descendentes, então eu não posso morrer aqui.”
Fazendo brotar um tentáculo espesso das costas, Seed o cravou no próprio abdômen. Ele soltou um breve uivo, mas se manteve firme.
“Erga-se novamente, meu companheiro.”
O fluido que jorrou de seu estômago se espalhou por uma grande área do chão rachado, infiltrando-se nas fendas. E então…
“Gugyaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!”
Como se os portões do inferno estivessem se abrindo com estrondo, o desastre emergiu das profundezas da terra. A princípio, a substância que vazava parecia líquida, mas, pouco a pouco, assumiu a forma de uma gigantesca criatura quadrúpede.
Um corpo negro colossal: a arma biológica Betelgeuse.
A criatura não possuía nada que lembrasse olhos, mas, ao soltar um rugido ensurdecedor, era evidente que estava nos encarando. Meus pés ficaram cravados no chão, mas não por medo daquele monstro. Memórias de um ano atrás invadiram minha mente, e eu não conseguia detê-las. Naquela ilha, aquela criatura havia levado Siesta e….
“Assistente!”
A voz que me puxou de volta ao presente era real, não parte de uma lembrança distante.
“......! Desculpa.”
Ergui novamente o olhar para o monstro. Ele estava ainda maior do que da última vez, e seu corpo agora era coberto por escamas negras que eu nunca tinha visto.
“Gaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!”
A besta devia ter ao menos dez metros de comprimento. Ela derrubou um semáforo congelado, esmagou um carro abandonado sob as patas e avançou direto contra nós.
“......!”
Definitivamente, não era um oponente que pudéssemos enfrentar com armas de fogo comuns. Siesta e eu saímos em disparada do caminho; incapaz de parar, Betelgeuse atravessou o prédio atrás de nós. Ainda assim, virou-se imediatamente e voltou a nos mirar, como se tivesse farejado sangue. Se aquilo continuasse, acabaríamos exaustos.
“Assistente.” Nesse instante, Siesta apontou para cima.
Ouvi o som de motores vindo do céu. Reforços. Teria sido a srta. Fuubi quem os organizara, ou era o exército oficial? Um enxame de drones de combate surgiu do lado distante da lua, preparando-se para disparar mísseis.
“Isso é muito gentil da parte deles, mas...”
“Eles vão nos atingir também.”
Siesta e eu trocamos um aceno de cabeça e fugimos dali o mais rápido possível.
Poucos instantes depois, ouvimos explosões caírem atrás de nós e sentimos o calor das chamas. Um cheiro de algo queimando tomou o ar. Então…
“Gugyaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!”
O rugido foi tão alto que teria estourado nossos tímpanos se não tivéssemos tapado os ouvidos. Ainda assim, era a prova de que os mísseis haviam atingido o monstro. Mergulhamos em um monte de escombros, protegendo-nos do vento abrasador, e observamos a fumaça espessa se dissipar, mas…
“Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!”
Em poucos segundos, o monstro já uivava novamente. Talvez aquelas escamas negras impedissem que os ataques surtissem efeito. Ignorando o redemoinho de chamas, Betelgeuse lançou dezenas de tentáculos por todo o corpo, golpeando as aeronaves não tripuladas.
“Se algum deles cair por aqui, vamos estar em apuros...”
Os tentáculos de Betelgeuse perseguiram os drones em fuga pelo céu noturno, arremessando um após o outro para longe.
“Agora é a minha chance.” Ao meu lado, Siesta se moveu.
“Se eu conseguir fazer esta bala penetrar...”
Uma bala vermelha. Era a arma que Siesta havia usado contra Bat quatro anos antes. Se acertasse o alvo, os tentáculos de Betelgeuse não seriam mais capazes de atacá-la.
Enquanto aqueles tentáculos lutavam contra o último drone restante, ela correu novamente em direção ao inimigo.
“Siesta!”
No entanto, naquele instante, senti os olhos inexistentes de Betelgeuse se voltarem para nós. Seus tentáculos se ajustaram automaticamente… A atenção da besta sempre estivera focada em nós.
“......!”
Decidindo não recuar, Siesta disparou a bala vermelha contra o inimigo colossal. Porém, as escamas do monstro a repeliram.
“Siesta!”
Meus pés se moveram antes mesmo que eu pudesse pensar. Ou melhor, quando gritei o nome dela, eu já estava ao seu lado.
“......!”
Eu me coloquei à frente de Siesta, mas não havia como protegê-la completamente daquele ataque. Preparei-me para morrer quando….
Skash.
Soou como uma lâmina enorme rasgando algo ao meio. Não senti dor alguma. Isso significava que não haviam sido as garras do monstro a dilacerar minhas costas. Nesse caso….
“Não acha que, afinal, deveria ser meu parceiro?”
Uma garota usando um sobretudo preto varreu o ar com um sabre vermelho brilhante.
Seus cabelos longos ondulavam ao vento. Entre as mechas, vislumbrei seu perfil. Era o rosto de uma garota que eu teria arriscado tudo para ver novamente.
“É, isso não seria nada mau, Hel.”
Com um uivo de dor, Betelgeuse recuou. Havia um grande ferimento em sua pata dianteira direita; o sabre vermelho de Hel havia estilhaçado suas escamas.
“Esta espada foi projetada especificamente para destruir células replicadas pela semente primordial.”
Naquele campo de batalha de terra queimada, a garota se virou, abaixando a ponta do sabre. Seus longos cabelos eram de um negro lustroso, e seus olhos cor de carmesim ardiam intensamente. Ela vestia um sobretudo preto e vermelho de estilo militar, exatamente como quando eu a encontrara um ano antes.
“Pensando bem, você usou essa espada contra Cerberus antes...”
Lembrei-me de algo que acontecera na noite em que conheci Hel pela primeira vez. Naquela ocasião, ela havia decapitado o pseudohumano Cerberus com um único golpe de espada.
“Sim, e também contra o meu próprio coração”, disse Hel, rindo de si mesma.
No dia em que Siesta usara sua habilidade de lavagem cerebral contra a garota de cabelos negros, Hel perdera o coração para a própria lâmina.

“Originalmente, meu pai me deu isso para impedir uma rebelião entre os da nossa espécie.”
Ele olhou além do monstro gigante, para onde Seed estava caído de forma lânguida, com um buraco no abdômen, inconsciente, mas ainda de pé. Os olhos dela se estreitaram com tristeza.
“Eu nunca imaginei que acabaria usando isso contra ele.”
A armadura ao redor do pescoço de Seed estava quebrada, e havia um grande corte que ainda não cicatrizara. Quem, afinal, teria feito aquilo com ele, e quando...? A essa altura, eu nem precisava perguntar.
Alguns dias antes, em um prédio abandonado, uma garota havia arriscado a própria vida para enfrentar Seed enquanto eu estava inconsciente. Aquela garota de uniforme militar era mais do que um simples reforço, ela era um raio de esperança.
“Então você não morreu, hein, Natsunagi?”
Minha voz tremia. Na verdade, não era só a voz: minhas pernas estavam tremendo tanto que eu não tinha certeza se conseguiria permanecer em pé, e acabei caindo de joelhos. Nagisa Natsunagi estava viva. Ela havia sobrevivido.
“Não se alivie tão cedo.” A garota de uniforme militar embainhou a espada e se aproximou.
“Eu sou apenas eu mesma, não a Nagisa Natsunagi.”
Com os olhos vermelhos semicerrados, ela expôs os fatos com calma. Natsunagi não havia voltado dos mortos.
“Além disso… tudo bem pensar na minha mestra, mas, agora, eu gostaria que você olhasse para mim.”
Ajoelhando-se, Hel colocou um dedo sob o meu queixo e me encarou a poucos centímetros de distância.
“Hel.” A detetive de cabelos brancos falou. Ela havia observado a troca à distância.
“Olá. Quanto tempo, detetive.” Hel se levantou, e ela e Siesta se encararam em silêncio.
Um ano antes, aquelas duas haviam lutado até quase a morte. Agora, estavam frente a frente novamente.
“Hel, por que você está aqui? Siesta perguntou o motivo de ela estar nos ajudando não, não era só isso. Ela queria saber que milagre havia permitido que Hel sobrevivesse.
“Eu também recebi uma ordem do meu pai. Acredito que vocês duas saibam do que estou falando.”
“……! Aquele zumbido nos ouvidos?”
Lembrei-me do som que ouvira na torre de rádio, como o eco distante de um sino. Por que Mia não sentira nada estranho? Por que apenas Siesta e eu tínhamos ouvido aquele som? Devia ser porque ambos carregávamos uma semente dentro de nós.
“Minha mestra sofreu um ferimento fatal, então o corpo dela entrou temporariamente em estado de dormência. A semente de meu pai reagiu em legítima defesa.”
“Plantas em dormência… entendo…”
Informações que eu havia lido em algum lugar começaram a se organizar na minha mente. Estados assim eram um sistema de defesa usado por plantas e outros seres vivos para reduzir o consumo de energia ao mínimo, mantendo apenas as funções vitais essenciais. Assim como ursos e toupeiras hibernam durante o inverno, criaturas vivas recorrem ao “sono” para sobreviver a mudanças bruscas e ameaças fatais ao ambiente.
Esse sistema também devia ter se manifestado em Natsunagi, já que ela possuía o instinto de sobrevivência de Seed na forma de sua semente. Quando ele a feriu mortalmente, ela provavelmente interrompeu, de forma inconsciente, a maior parte das funções físicas, inclusive as do tronco encefálico, tentando preservar a própria vida ao reduzir o gasto de energia ao mínimo absoluto.
“Agora que penso nisso, a Siesta também…”
Um ano atrás, Siesta havia parado o próprio pulso e entrado em animação suspensa para resistir ao ataque do Camaleão. Será que ela havia usado o mesmo sistema, à sua maneira?
“Quando recebeu a ordem do meu pai, a semente neste corpo começou a despertar novamente”, explicou Hel, colocando a mão sobre o peito.
A ordem da semente primordial havia ressoado em todas as sementes espalhadas pelo planeta. Hel não fora exceção: a semente dentro dela colocara seu corpo novamente em movimento, empurrando-a para o campo de batalha.
Exceto…
“Mas, agora, o seu coração está…” Siesta fitou o lado esquerdo do peito de Hel; sua expressão estava carregada de dor.
Ela estava certa. Mesmo que Hel tivesse conseguido manter um fio de vida ao entrar em dormência, e mesmo que a semente tivesse poderes regenerativos extraordinários, naquele momento, o coração dela não estava….
“Antes de responder a isso, precisamos resolver isto aqui.”
O olhar de Hel voltou-se para o monstro. O ferimento grave havia ameaçado seu instinto de sobrevivência, e ele tremia de fúria. Betelgeuse soltou um rosnado baixo, babando, e fixou seus olhos invisíveis em nós três.
“Se você quiser que aquela bala vermelha funcione, vai precisar destruir essas escamas primeiro… Então? O que pretende fazer, senhorita detetive ás?” perguntou Hel a Siesta.
“Eu realmente não acho que algum dia serei sua amiga.” Sem sequer olhar para ela, Siesta soltou um suspiro.
“Por favor, Hel. Quero que você abra um caminho para mim.”
Ela pedia ajuda a uma antiga inimiga.
Por um instante, os olhos de Hel se arregalaram em surpresa, mas foi só por um instante.
“Eu sabia. É bastante gratificante ver você me pedindo favores.” Os cantos de sua boca se ergueram em um sorriso satisfeito.
“…Não tire conclusões erradas. Não tenho a menor intenção de me dar bem com você.” Elas não haviam feito as pazes, muito menos se tornado companheiras.
O inimigo do meu inimigo é meu aliado.
As garotas de cabelos brancos e negros, que um dia haviam lutado uma contra a outra com espada e mosquete, agora enfrentavam o monstro juntas.
“Então… o que eu devo fazer?” gritei para elas. Já devia ser aceitável eu entrar na conversa.
“Hm? Bem, é claro, Kimi….”
“Você fica onde está, fora do caminho.” Oof. Totalmente injusto.
“Gugyaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!”
Naquele instante, aparentemente cansado de esperar, Betelgeuse rugiu e avançou, mesmo com a perna dianteira ferida. A cada passo, o chão tremia violentamente.
“Francamente… E eu que passei tanto tempo treinando essa coisa…”, suspirou Hel, levando a mão ao sabre, e então desapareceu.
No instante seguinte, a lâmina vermelha cortou a outra perna dianteira do monstro.
“O que aconteceu com lutar lado a lado?”, resmungou Siesta. Aquilo teria sido uma ótima oportunidade para ela entender como eu me sentia.
“Se isso te incomoda, tente acompanhar.” Hel lançou um olhar por cima do ombro para Siesta e sorriu.
“…Talvez eu acabe derrotando você primeiro, afinal.” Mesmo dizendo isso, Siesta já havia se lançado para frente e disparado uma bala na área onde as escamas estavam ausentes.
“Com esse corpo enorme, um único tiro não vai fazer diferença alguma.”
“Não preciso que você me diga isso.”
Trocando farpas enquanto lutavam, as duas se jogaram contra o monstro. Vistas de fora, pareciam quase irmãs brigando. Como ambas haviam herdado o DNA do mesmo progenitor por meio de suas sementes, não seria exagero chamá-las de irmãs.
“O mesmo DNA, hein…?”
De repente, lembrei-me do confronto que elas tiveram naquela ilha isolada no ano anterior. Ao final da luta, Hel havia roubado o coração de Siesta e o transplantado para o próprio corpo. Contudo, o plano de Natsunagi o devolvera a Siesta. Nesse caso… que coração Hel estava usando agora?
“.....! Gaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!”
O grito do monstro era agudo e estridente.
Desviando e serpenteando entre os inúmeros tentáculos, Hel e Siesta continuaram infligindo danos irreparáveis a Betelgeuse, como se estivessem competindo entre si.
“Então, Hel… como exatamente você está se movendo agora?” Mantendo o mosquete apontado para o inimigo, Siesta lançou um olhar ao peito de Hel, como se tentasse enxergar o novo coração ali dentro e identificar sua origem.
“Eu, nós, estamos emprestando a vida daquela garota.”
“…Daquela garota?” Siesta franziu a testa. Deixando-a para trás, Hel avançou em direção ao inimigo.
“Então é isso?”
Pensei em uma possibilidade para a identidade daquela “garota”. Ela havia participado de testes clínicos no laboratório da SPES e, assim, adquirido o mesmo DNA de Seed que Natsunagi possuía…
“Agora vai ficar um pouco mais silencioso, não vai?”
Com golpes tão rápidos que nenhum olho comum conseguiria acompanhar, Hel finalmente derrubou o monstro. Quando voltou a ficar ao meu lado, meus olhos se fixaram no lado esquerdo de seu peito. Eu tinha um pressentimento.
“Hel… o coração que você tem agora é o da Alicia, não é?” Antes mesmo de Hel reagir, os olhos de Siesta se arregalaram.
Hel piscou lentamente. Quando seus olhos vermelhos se abriram novamente, ardiam com uma chama silenciosa.
“Sim. No momento, é o pulso dela que está nos mantendo vivas.”
“…Por quê?” Os olhos azuis de Siesta vacilaram.
“Por que o coração da Alicia? Seis anos atrás, ela….”
Alicia havia morrido protegendo Natsunagi e Siesta no laboratório da SPES. Então… por que o coração dela estava dentro de Hel?
“Ela também era, originalmente, uma das candidatas a receptáculo do meu pai. Por isso, quando aquilo aconteceu, medidas especiais foram tomadas.”
Hel relatou informações de seis anos atrás, fatos que aprendera durante seu tempo como executiva da SPES. “Naquele dia, o corpo dela rejeitou a semente de meu pai e morreu.
No entanto, por ter sido uma candidata, seus órgãos eram considerados espécimes valiosos. Assim como o seu corpo sobreviveu graças à criogenia, o coração dela foi preservado em um ambiente especial.”
Ao ouvir isso, lembrei-me da visita que fizera àquele laboratório alguns dias antes. Siesta não fora a única a dormir ali; a vontade de Alicia também permanecera adormecida naquele lugar.
“O coração da Alicia tem o DNA de Seed. Imagino que seja por isso que foi compatível com você.”
Seis anos antes, no laboratório da SPES, Siesta, Natsunagi e Alicia haviam sido informadas de que participariam de testes clínicos e receberam medicações. O objetivo era claro: impedir que seus corpos rejeitassem Seed caso um dia se tornassem receptáculos dele. Talvez células dele tivessem sido implantadas nelas para agir como anticorpos.
“Sim, exatamente. Mas esse coração pertencia a uma garota de doze anos. Ele ainda não está completamente desenvolvido, o que significa que não posso me forçar demais.” …Apesar disso, Hel acabara de travar uma luta extremamente intensa.
“Como resultado, não tenho tanto poder à disposição quanto antes, mas….”
Hel ia continuar quando, de repente, seus olhos se arregalaram em surpresa. Ela estava olhando para Siesta, que chorava.
“Sinto muito, Alicia.” Uma única lágrima escorreu dos olhos azuis da detetive.
“Seis anos atrás, eu não consegui salvar você…”
Aquilo acontecera antes de ela se tornar a Detetive Ás. Era seu único arrependimento, a única coisa que não podia desfazer. Aquele dia foi o que impulsionou Siesta a iniciar sua jornada para enfrentar os inimigos do mundo.
“Eu era fraca naquela época. Não consegui te proteger, mas…” Mesmo com lágrimas ainda escorrendo pelo rosto, a voz de Siesta era firme e digna.
“Isso não é mais verdade. Não vou deixar ninguém tirar de mim mais nada que seja precioso. Quero que você lute ao meu lado outra vez.”
A detetive estendeu a mão esquerda para a companheira de suas memórias distantes.
“Meu nome é Hel. Codinome: Hel. Digo estas palavras como a rainha que governa a terra dos mortos.” Hel encarou Siesta diretamente. “Obrigada por se lembrar de mim.”
Era o inverso do último desejo de Alicia. Ainda assim, eu sabia que Hel havia captado a voz em seu coração e a transmitido a Siesta.
Logo em seguida, o monstro uivou mais uma vez. Como se estivesse se preparando para seu ataque final, dezenas de tentáculos em suas costas chicotearam o ar. No entanto, eles haviam sido atingidos pela bala vermelha e apenas golpearam o vazio: Siesta estava à nossa frente, e eles não conseguiam atacá-la.
“Essa história de seis anos está prestes a chegar ao clímax.”
“Sim. Vamos acabar com isso juntos.”
As garotas de cabelos brancos e negros estavam lado a lado, uma empunhando o mosquete, a outra a espada. Talvez fosse apenas imaginação minha, mas tive a impressão de ver outra silhueta menor, posicionada entre elas.
O futuro confiado a um vizinho
A luta pareceu durar uma eternidade; não podíamos baixar a guarda nem por um segundo. Em termos de tempo real, porém, a batalha não durou sequer alguns minutos. Por fim, com um breve uivo do monstro, tudo chegou ao fim.
“Será que acabou?”
Siesta e Hel ofegavam, os ombros subindo e descendo com dificuldade. Observando suas costas, relaxei lentamente os punhos que eu mantivera cerrados.
“…Hff… hff… Seu bichinho é… indisciplinado… demais.”
“……! …Hff. Dizem que os pequenos que mais dão trabalho são os mais fofos.”
Enquanto trocavam provocações, seus olhares permaneciam fixos no shopping center fundido à árvore gigantesca. Betelgeuse jazia aos seus pés. As balas de Siesta e os golpes de Hel finalmente haviam feito o desastre ambulante parar de se mover.
“Fiquei impressionada com você deslizando até o inimigo e acertando aquele tiro final.”
“Bem, eu não queria deixar você ficar com toda a glória.”
“Você sempre odiou perder, heroína.”
Mesmo discutindo, Hel e Siesta trocaram um cumprimento discreto com as mãos, sem sequer se virar para se encarar. Não eram inimigas, mas tampouco aliadas. Apenas haviam compartilhado um objetivo em comum por um breve momento, e essa união temporária havia sido bem-sucedida. Mas agora…
“Cuidado”, eu as avisei, aproximando-me. O que aconteceria depois de termos derrotado a arma biológica? Eu sabia melhor do que ninguém: já havia sido afetado por ela antes.
“O pólen.” Siesta estreitou os olhos, fitando a distância. Grandes botões de flores começavam a brotar do cadáver de Betelgeuse.
Um ano antes, após a luta contra Hel, eu havia sido atingido pelo pólen daquelas flores e perdido a memória das horas anteriores. Esquecera a verdade sobre a morte de Siesta e os sentimentos que ela me confiara, passando um ano inteiro preso a uma rotina morna e vazia.
A mesma coisa estava prestes a acontecer agora. Precisávamos destruir aqueles botões antes que se abrissem.
“Algo está errado.”
No momento em que eu ia me mover, Hel me deteve. No instante seguinte, os botões que haviam surgido por todo o corpo de Betelgeuse começaram a murchar de uma só vez.
A princípio, pensei que Siesta e Hel tivessem derrotado Betelgeuse de forma tão completa que ele já não tinha forças para fazê-los florescer. Mas, ao lembrar quem havia criado Betelgeuse em primeiro lugar, a resposta tornou-se óbvia.
“Seed.”
Sob a grande árvore, uma silhueta humanoide instável surgiu ao lado do monstro derrotado. Era Seed, o progenitor de todos os clones.
O buraco em seu abdômen começava a se fechar, como se as células estivessem se regenerando. Alguns de seus tentáculos rastejaram pelo chão e absorveram energia de Betelgeuse. Seed era capaz de compartilhar seu poder com os pseudo-humanos, e também de retomá-lo quando quisesse.
“Pai…”, murmurou Hel. Seus cabelos negros ondulavam ao vento, e eu não conseguia ver seu rosto.
“Por quê?” A voz de Seed soava carregada de estática.
“Hel, por que você está do lado deles? O que aconteceu com sua missão? Você pretende exterminar nossas sementes?”
Era o reencontro com sua antiga braço direito após um ano inteiro, mas Seed não demonstrava emoção alguma. Falava com frieza absoluta.
“Venha lutar por mim mais uma vez.”
“Esse sempre foi o meu plano… Pelo menos, eu gostaria de poder dizer isso.”
Hel deu alguns passos em direção a Seed.
“Infelizmente, não posso derrotar essa detetive ás. Observei-a bem durante a luta e tenho certeza disso. Do jeito que estou agora, não consigo infligir sequer um ferimento letal nela.”
Enquanto analisava friamente a diferença de poder entre ela e Siesta, a expressão de Hel suavizou-se. Ninguém sabia melhor do que ela que estava ferida.
“Pai, nós perdemos.” Com isso, Hel anunciou o desfecho final da longa batalha entre a SPES e a Detetive Ás. Ela havia concluído que, naquele momento, Seed também não poderia derrotar Siesta.
“Nesse caso, Hel, torne-se meu receptáculo.”
A resposta que Seed encontrou, porém, foi outra. Por um instante, nós três ficamos paralisados.
“Essa é a sua missão. E a razão da sua existência.”
…Ele estava certo. Hel havia sido, desde o início, uma candidata a receptáculo de Seed. Até então, Siesta estivera dentro dela, mantendo Seed afastado, mas agora que as duas haviam se separado, Seed poderia usar qualquer uma delas.
“Eu… ser o seu receptáculo, pai…?” Os olhos vermelhos de Hel vacilaram.
Desde o nascimento, desde que surgira como uma nova personalidade dentro de Natsunagi, as ordens de Seed haviam sido sua única estrela-guia.
Para Hel, elas sempre foram um feitiço absoluto e imutável que a prendia. Todos os seus princípios pessoais haviam sido moldados por ele.
Agora, após um ano inteiro, Seed lhe entregava uma nova missão. Em teoria, lutar contra Siesta e vencer era impossível, e ela poderia recusar. No entanto, ainda era possível servir como base para Seed. Portanto, a ideia de Hel rejeitar a ordem de Seed era….
“Eu me recuso.”
Não foi Hel quem respondeu. Surpresa, ela se virou e encarou a detetive de cabelos brancos.
“Por que você…?” Hel não entendia por que Siesta a estava protegendo. Que situação justificaria colocar-se como escudo diante de uma antiga inimiga?
“Não faço ideia.” De forma incomum, o tom de Siesta soou quase infantil.
“Eu não quero isso. Só isso.”
A Siesta que sempre agira com base na lógica teria considerado aquela conclusão irracional. Mas Siesta agora compreendia as emoções humanas.
Isso só podia ser resultado de ter passado o último ano dentro da mente de uma garota cujos sentimentos eram mais intensos do que os de qualquer outra pessoa.
“....Entendo.”
Ao ouvir aquilo, Hel sorriu. Não era o sorriso ardiloso de alguém tramando algo. Seu rosto estava leve, como se um grande peso tivesse sido retirado de seus ombros.
“Sinto muito, pai. Quer dizer… Seed.”
Então, Hel finalmente deu uma resposta à missão que carregara dentro de si por todos esses anos.
“Eu escolho um futuro em que as pessoas ao meu redor possam sorrir.” O sabre na mão direita de Hel se voltou para Seed.
Aquela era a conclusão a que ela havia chegado. No passado, ela sofrera por acreditar que não era ninguém, perguntando-se por que havia nascido. Mas agora, ao confiar a prova de sua existência aos outros, encontrara sua resposta.
Para Hel, esses “outros” eram espelhos que refletiam um eu que ela mesma não conseguia enxergar, oferecendo-lhe uma perspectiva diferente de si.
Assim como Siesta tentara protegê-la do inimigo. Assim como Natsunagi lhe ensinara sobre a paixão que ela abrigava inconscientemente.
Hel confiara seu caminho àqueles que a compreendiam melhor do que ela própria.
“Seed. Com a espada que você me deu, eu vou pôr um fim em você.”
Os olhos vermelhos de Hel brilharam, e aquelas palavras ganharam alma. Não tinha relação com o poder de sua semente. Hel havia decidido conduzir essa história até o seu desfecho.
“Então é como eu pensava.”
Ao lado do corpo murchando de Betelgeuse, Seed aceitou silenciosamente a deserção de Hel. Já não havia mais ninguém no campo de batalha para ajudá-lo. Ainda assim, ele permanecia ali.
O instinto de Seed era deixar descendentes. Que futuro ele escolheria naquele campo de batalha?
“Se o progenitor morrer, não poderá deixar filhos.” Os olhos sem luz de Seed começaram a brilhar em um violeta escuro.
“Assistente, você está pronto?”
“Sim. Estou há um ano.” Assim começava a batalha final entre a SPES e a Detetive Ás.
O príncipe infeliz
Seed declarou sua intenção de lutar mais uma vez, determinado a proteger seu instinto de perpetuar a própria espécie. Ele parecia ter concluído a absorção da energia da arma biológica: seu corpo se expandiu, vasos sanguíneos espessos pulsaram sob a pele, e tentáculos gigantes brotaram de seus ombros. Ele me lembrava um dragão chinês.
“Siesta!” Observando o inimigo se preparar para a guerra, segurei minha arma com força. Já não era mais o momento de ser um peso morto.
“Sim. Vamos lá.”
Siesta e eu atacamos pelo lado direito, enquanto Hel avançou pela esquerda, mantendo o sabre à altura da cintura. No momento, lidar com aqueles tentáculos vinha em primeiro lugar. Separando-nos, cada um escolheu um alvo e….
“Não preciso mais desta orelha direita.”
No instante seguinte, a orelha direita de Seed foi arrancada e lançada longe. Por um breve momento, a cena nos paralisou, mas então….
“Não vou deixar você fazer isso.” Percebendo o que estava acontecendo, Siesta atirou em Seed.
“Aquela orelha já havia cumprido seu propósito. É melhor usar sua energia para outras coisas.”
Antes mesmo de Seed terminar de falar, o tentáculo que brotava de seu ombro direito se transformou em uma enorme espada prateada e desviou o disparo de Siesta.
“Então tome isso!”
Com um estrondo metálico, o sabre vermelho de Hel repeliu o tentáculo. Foi só isso, porém, ela não conseguiu cortá-lo.
“......!”
O tentáculo era ainda mais resistente do que as escamas de Betelgeuse, e Hel foi forçada a entrar em uma batalha puramente defensiva.
“Agora, meu olho esquerdo. Também não preciso mais dele.” Enquanto falava, a luz se apagou em seu olho violeta.
“De qualquer forma, ele já havia perdido seu poder há sete anos.”
Em seguida, o tentáculo de seu ombro esquerdo se dividiu em uma dúzia de filamentos. Como se tivessem vontade própria, eles avançaram sobre Siesta.
“! São muitos!”
Siesta tentou reagir com o mosquete, mas, mesmo quando os destruía com tiros, os inúmeros apêndices finos se regeneravam em questão de segundos. Assim como Hel, ela foi obrigada a se concentrar apenas na defesa.
“…Então sobrou só eu, hein?”
Com Hel e Siesta imobilizadas, eu era o único restante na ofensiva. Usando a habilidade de transformação do Camaleão, misturei-me ao ambiente. A orelha direita de Seed tinha uma audição extremamente aguçada, como a de Bat.
Agora que ele a perdera, não conseguiria me localizar com facilidade. Invisível, avancei em disparada contra o inimigo.
“E meu olho direito. Também vou descartá-lo”, murmurou Seed, enquanto seus tentáculos continuavam o ataque. A luz violeta desapareceu de seu olho direito e….
“……?!” Nesse instante, o chão tremeu sob meus pés. Uma fissura? Talvez as sementes que ele espalhara tivessem brotado novamente. Tropecei no solo rachado e, então….
“……! Ghk, Ai…” Um espinho fino irrompeu do chão e atravessou meu pé direito.
“Assistente!”
Siesta tentou correr em minha direção, mas uma onda massiva de tentáculos bloqueou seu caminho. Assim como eu, Hel também fora presa pelo solo rachado e lutava desesperadamente contra o tentáculo prateado.
“…Então ele não precisa de visão nem de audição, é isso?”
Usando minha faca, cortei o espinheiro e, de algum jeito, consegui me pôr de pé novamente. Nesse caso…
“Agora é com você, Siesta.”
Depois de tudo o que passamos, não precisávamos de palavras. Bastou trocarmos um olhar para que eu me lançasse do asfalto em direção a um dos tentáculos.
“……!”
Uma dor aguda percorreu meu pé direito ferido. Não importava. Natsunagi devia ter sentido a mesma agonia feroz quando enfrentou aquele mal colossal completamente sozinha.
Ignorei a dor e continuei avançando, usando os inúmeros tentáculos como apoio. Seguindo o caminho que Siesta havia aberto até o inimigo, eu….
“Eu consigo sentir o cheiro de sangue humano, não importa onde esteja.”
Pouco antes de alcançar Seed, um tentáculo perfurou meu flanco. Ele havia perdido a visão, mas seu olfato era tão aguçado quanto o de Cérbero, e foi assim que me localizou.
“Você não é aquele a quem eu dei isso. Vou tomá-lo de volta.”
“……! Gahk, Hah…”
O tentáculo fino de Seed rasgou meu interior e arrancou algo de dentro de mim. Cuspi sangue vermelho-escuro; minhas entranhas estavam dilaceradas.
“A semente… do Camaleão…”
Ao extrair o nódulo negro que estava enterrado em meu corpo, Seed o absorveu por meio do tentáculo. Caí antes mesmo de conseguir alcançá-lo.
“…! Assistente!”
Era a voz de Siesta. Ela correu em minha direção, desviando da horda de tentáculos.
“N-não.”
Aquilo era conveniente demais, meu perigo servindo de gatilho para que Siesta ganhasse ímpeto e afastasse todos os tentáculos. Se os ataques do inimigo diminuíam justamente agora, isso só podia significar….
“……Ah.”
Talvez fosse o efeito da semente do réptil, que ele havia arrancado de mim e absorvido. Os tentáculos de Seed se fundiram em um só, transformando-se em uma enorme serpente que saltou por trás de Siesta e mordeu seu pescoço.
“S-Siesta…” Ela caiu ao meu lado, o sangue escorrendo do pescoço até os ombros.
“…Parece que… eu estraguei tudo.”
“Eu te avisei… você sempre entra em pânico quando eu me machuco…”
Quando Hel havia me sequestrado, Siesta perdera completamente a compostura ao correr para me salvar. A Detetive Ás costuma ser fria e controlada, mas, nessas horas, tudo isso ia por água abaixo. Sério…
“…Acho que você gosta de mim até demais.”
“Você é idiota, Kimi?” Mesmo trocando provocações, estávamos estendidos no asfalto, os rostos retorcidos de dor.
“Eu sabia.”
Minha visão estava turva, mas consegui enxergar Seed nos observando com seus olhos cegos.
“Por causa das emoções, vocês, humanos, se expõem a perigos mortais. Elas ameaçam o instinto de sobrevivência de vocês. Que tolice.”
Não havia raiva nem piedade em sua voz. Ele falava friamente, como se apenas enunciasse um fato simples.
“Você também já teve emoções, lembra?” Eu rangia os dentes com tanta força que achei que fossem quebrar, enquanto tentava me levantar.
“Você as abandonou ao criar descendentes… e depois esqueceu. Muito tempo atrás, até você.”
“Sim, exatamente. E foi assim que a semente primordial evoluiu.”
“…?” Minha mente começava a se turvar por causa da dor no flanco, e eu não conseguia acompanhar seu raciocínio.
“Quando se trata de proteger o instinto de sobrevivência, emoções são desnecessárias. Na verdade, elas são contraproducentes. Foi por isso que este corpo as descartou ao longo de sua evolução.”
…Então era assim que Seed enxergava as coisas. Instinto e emoção eram diferentes.
Mais do que isso, as emoções ameaçavam o instinto de sobrevivência, aquilo que era mais importante para Seed… ou, na verdade, para qualquer ser vivo. Sob essa perspectiva, perdê-las era um avanço.
Eu não tinha palavras capazes de refutá-lo. Se eu não estivesse sangrando, se meu corpo ainda obedecesse às minhas ordens, eu teria conseguido discutir?
…Não. Provavelmente nada do que eu dissesse de forma lógica surtiria efeito.
O que aquela garota faria numa situação como essa? Nagisa Natsunagi, que sempre lutara movida pela paixão.
“Você ainda não perdeu todas as suas emoções.”
Uma voz firme rasgou o ar. Ainda de joelhos, virei-me para trás. A garota que estava ali tinha o mesmo rosto da pessoa em quem eu pensava.
Ela cravara a espada vermelha no chão e segurava o punho com ambas as mãos.
“Você ainda tem uma. Só uma.”
A garota de uniforme estava coberta de ferimentos, mas enfrentava o inimigo do mundo com dignidade. Ao seu lado jazia o tentáculo prateado, finalmente destruído.
“O que você está dizendo?” Os olhos cegos de Seed se voltaram para Hel.
Mordendo o lábio, Hel falou sobre o que acontecera naquela época, contando coisas que nem eu sabia.
“Naquele dia, quando Nagisa Natsunagi te feriu, você disse: ‘Até você, Hel?’ Isso significa…”
Ela apertou o punho do sabre, a mesma lâmina que Natsunagi havia usado naquele dia, e declarou sua conclusão:
“Você foi pego de surpresa pela minha traição… e isso te deixou triste.”
No instante em que Hel disse isso, todas as plantas de Seed começaram a murchar de uma só vez. Seus olhos sem visão se arregalaram.
“Nossa relação sempre foi feita de ordens. Você dava; eu obedecia. Era só isso.”
Com calma, Hel descreveu o vínculo que ela e Seed haviam construído ao longo de anos. Era semelhante ao que existia entre mim e Siesta: não éramos amantes nem amigos, apenas parceiros estranhos de trabalho.
“Para você, eu era apenas uma peça conveniente. Você nunca me contou o que realmente era o texto sagrado. Eu nem sequer sabia que pretendia me usar como seu receptáculo.”
“...Então ele não precisa da visão nem da audição, é isso?”
Com a faca, cortei os espinheiros e, de algum jeito, consegui me levantar novamente. Nesse caso...
“Está tudo nas suas mãos, Siesta.”
Depois de tudo o que passamos, não precisávamos de palavras. Bastou trocar um olhar com ela antes de me lançar do asfalto em direção a um tentáculo.
“......!”
Uma dor aguda percorreu meu pé direito ferido. Não importava. Natsunagi deve ter sentido a mesma agonia feroz quando enfrentou aquele mal gigantesco completamente sozinha.
Ignorei a dor e continuei avançando, usando os inúmeros tentáculos como apoio. Seguindo o caminho que Siesta havia criado até o inimigo, eu….
“Consigo sentir o cheiro de sangue humano, não importa onde esteja.”
Pouco antes de alcançar Seed, um tentáculo se cravou em meu flanco. Ele havia perdido a visão, mas seu olfato era tão apurado quanto o de Cérbero, e foi assim que me localizou.
“Você não é aquele a quem eu dei isto. Vou retomá-lo.”
“...! Gah, Hah...”
O tentáculo fino de Seed rasgou minhas entranhas e arrancou algo de dentro de mim. Cuspi sangue escuro; minhas vísceras estavam dilaceradas.
“...A semente do camaleão...”
Ao extrair o caroço negro que estava enterrado em mim, Seed o absorveu em seu próprio corpo através do tentáculo. Caí antes mesmo de conseguir alcançá-lo.
“...! Assistente!” Era a voz de Siesta. Ela correu até mim, desviando da horda de tentáculos.
“N-não...”
Era conveniente demais, minha crise dando forças a Siesta e permitindo que ela afastasse todos os tentáculos. Se os ataques do inimigo haviam diminuído naquele momento, só podia significar uma coisa...
“......Ah.”
Talvez fosse efeito da semente reptiliana que Seed havia retirado de mim e absorvido. Seus tentáculos se fundiram em um só e se transformaram numa enorme serpente que saltou por trás de Siesta e mordeu seu pescoço.
“S-Siesta...” Ela caiu ao meu lado, sangrando do pescoço até os ombros.
“...Parece que... eu estraguei tudo.”
“Eu te disse... você entra em pânico demais quando eu estou em perigo...”
Quando Hel me sequestrou, Siesta perdeu completamente o controle enquanto corria para me resgatar. A detetive genial costuma ser fria e calculista, mas, nessas situações, tudo isso vai por água abaixo. Sério...
“...Acho que você gosta demais de mim.”
“Você é idiota, Kimi?” Mesmo trocando piadas, estávamos estendidos no asfalto, os rostos retorcidos de dor.
“Eu sabia.” Minha visão estava turva, mas consegui ver Seed nos observando com olhos cegos.
“Por causa das emoções, vocês, humanos, se expõem ao perigo mortal. Elas ameaçam o instinto de sobrevivência. Que tolice.”
Não havia raiva nem piedade em sua voz. Ele falava friamente, como se estivesse apenas constatando um fato.
“Você também já teve emoções, lembra?”, rosnei, rangendo os dentes enquanto tentava me levantar.
“Você as entregou todas ao criar descendentes, e então esqueceu. Lá atrás, até você.”
“Sim, é verdade. E foi assim que a semente primordial evoluiu.”
“...?” Minha mente começava a se apagar por causa da dor no flanco, e eu já não conseguia acompanhar seu raciocínio.
“Para proteger o instinto de sobrevivência, emoções são desnecessárias. Na verdade, são contraproducentes. Por isso, este corpo as descartou ao longo de sua evolução.”
Era assim que Seed via as coisas. Instinto e emoção eram diferentes. Para ele, e de certo modo, para qualquer ser vivo, as emoções ameaçavam aquilo que era mais importante: sobreviver. Perdê-las foi, em sua visão, um avanço.
Eu não tinha palavras que pudessem convencê-lo do contrário. Se não estivesse sangrando, se meu corpo ainda obedecesse à minha vontade, eu teria conseguido argumentar?
Não. Provavelmente nada lógico funcionaria. O que aquela garota teria feito numa situação dessas? Nagisa Natsunagi, que sempre lutou com paixão….
“Você ainda não perdeu todas as suas emoções.”
Uma voz firme cortou o ar. Ainda de joelhos, virei-me para trás. A garota que estava ali tinha o mesmo rosto de quem eu pensava. Ela cravou sua espada vermelha no chão e segurou o punho com as duas mãos.
“Você ainda tem uma. Só uma.” A garota uniformizada estava coberta de ferimentos, mas encarava o inimigo do mundo com dignidade. Ao seu lado, o tentáculo prateado jazia finalmente destruído.
“O que você está dizendo?”, perguntou Seed, seus olhos cegos voltados para Hel.
Mordendo o lábio, Hel contou o que havia acontecido naquele dia, revelando coisas que nem eu sabia.
“Naquele dia, quando Nagisa Natsunagi o feriu, você disse: ‘Você também, Hel?’. Isso significa...”
Ela apertou o punho da espada, a mesma lâmina usada por Natsunagi naquele dia, e concluiu:
“Você foi pego de surpresa pela minha rebelião, e isso te deixou triste.”
No instante em que Hel disse isso, todas as plantas de Seed começaram a murchar de uma só vez. Seus olhos sem visão se arregalaram.
“Nossa relação era feita de ordens. Você mandava, eu obedecia. Só isso”, disse Hel calmamente, descrevendo o vínculo que construíram ao longo dos anos.
Era parecido com a relação entre Siesta e eu: não éramos amantes nem amigos, apenas parceiros estranhos de trabalho.
“Para você, eu era apenas uma peça conveniente. Nunca me contou o que realmente era o texto sagrado. Eu nem sabia que planejava me usar como seu receptáculo.”
Ela estava certa.
Quando conheci Hel, um ano atrás, ela acreditava cegamente em Seed. Como uma personalidade separada que habitava Natsunagi, não tinha escolha. Sem criar algum tipo de vínculo, não conseguiria encontrar sentido para sua própria existência.
No entanto, quando Natsunagi adquiriu o coração de Siesta, a Hel inconsciente compartilhou as memórias dela e percebeu que Seed a estava usando o tempo todo.
“Eu fiquei com raiva. Me senti traída. Talvez por isso eu não tenha resistido muito quando a detetive me selou dentro de Natsunagi, e talvez seja por isso que agora estou apontando minha lâmina contra você. Mas...”
Hel abaixou o sabre.
“Percebi que nós dois éramos iguais. Tentei conquistar sua confiança para ter algum laço que me prendesse a este mundo. Da mesma forma, você só queria alguém que ficasse ao seu lado.”
Foi um erro de cálculo de Seed: para sobreviver neste planeta, ele se aproximou demais da humanidade. Acabou adquirindo emoções humanas, mesmo que elas entrassem em conflito com seu instinto de sobrevivência. Depois, ao criar os pseudo-humanos, perdeu gradualmente tanto seu poder quanto esses sentimentos.
O vazio deixado por essa perda foi maior do que quando não tinha nada. Era como quando eu perdi as memórias da verdadeira morte de Siesta. Ou quando Siesta esqueceu que conhecia Alicia e Natsunagi. Ou quando Natsunagi passou tanto tempo sem saber quem era.
Seed era como nós. A cada filho que criava, perdia emoções, e o buraco crescente em seu coração o afetava mais do que a qualquer outro.
“Pai.” Hel voltou a chamá-lo assim.
Largando a arma, deu um passo em sua direção, depois outro. Os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar, ela gritou:
“Você confiou em mim, então eu direi por você: Pai, você não é um monstro! Você queria ser humano; não poderia ser um monstro! Perdeu a visão, a força, reduziu sua própria vida para proteger seus filhos. A emoção que te moveu se chama….”
Nesse instante, um tentáculo que já não era prateado disparou do ombro direito de Seed e atravessou o esquerdo de Hel.
“....!”
Com o rosto contorcido de dor, Hel ainda conseguiu pegar o sabre e cortar o tentáculo.
“Pa... pai...”
“Não”, murmurou Siesta, com as mãos pressionando o pescoço ferido.
“Aquilo já não é mais Seed. A mente dele foi tomada... pelo Ouroboros.” Ela ergueu o olhar para a “serpente” que crescia do ombro esquerdo de Seed.
“Ouvido direito, olho esquerdo, olho direito e, por fim... a mente.”
Com uma voz semelhante a uma estática baixa, a serpente falou. Era como se tivesse apagado o pouco de consciência e emoção que restava em Seed e agora estivesse no controle. Ouroboros era o próprio instinto de sobrevivência de Seed.
“Sangue. Não há sangue suficiente.” A cabeça de Seed pendia inerte. Em seu lugar, os olhos dourados de Ouroboros nos encaravam.
“Assistente...”
“Siesta...” Tentamos alcançar um ao outro, mas nenhum de nós conseguia se levantar.
“......Ghk.”
Hel ficou à nossa frente, nos protegendo. Ouroboros saltou sobre ela, exibindo suas enormes presas venenosas, e no instante em que meus olhos turvos viram o jorro de sangue, tudo ficou escuro.
A história da andorinha feliz
Eu estava imersa, profundamente imersa na luz.
Virei o rosto e apertei os olhos, mas a claridade era tão intensa que parecia atravessar minhas pálpebras.
Nasci como um ser terrivelmente indefinido: a segunda personalidade de uma garota. Essa garota, minha mestra era fisicamente frágil desde pequena e me criou numa tentativa de escapar da dor dos tratamentos médicos.
Enquanto compartilhava seu sofrimento, eu me encolhia, abraçando os joelhos, presa em um mundo onde só existia eu. Ainda assim, o que mais me doía era a “luz” que ela irradiava.
Aquele sorriso, brilhante como o sol de verão. Ela só conseguia sorrir assim porque eu carregava metade de sua dor, mas, enquanto conversava alegremente com os amigos, não fazia ideia disso. Eu não poderia odiá-la mais.
Éramos duas faces da mesma moeda e, um dia, finalmente trocamos de lugar.
“Seu nome é Hel. Codinome: Hel.” Quando abri os olhos, a primeira voz que ouvi foi a de Seed.
Meu nome era Hel…. Codinome: Hel.
Quando ele pronunciou meu nome, quando eu, que não era ninguém, tive minha existência reconhecida, foi como se um raio de escuridão tivesse surgido dentro da luz. Nada poderia ser mais agradável do que o frio daquela escuridão.
“Você tem uma missão. Para proteger seus companheiros, destrua o mundo.” Com isso, Seed me entregou um livro.
“Destruir o mundo é o meu dever?”
“Destruir o mundo é o nosso método.” Inclinei a cabeça, confusa, e Seed, Pai continuou:
“Você tem apenas um dever. Não importa o que aconteça, seu dever é sobreviver.”
Olhando agora, talvez ele só tenha dito isso para tornar seu plano realidade. Uma mentira conveniente, para que pudesse me usar como receptáculo um dia.
Mesmo assim, naquele momento, algo se instalou dentro de mim. Adquiri um vínculo, um desejo de viver. E, assim, comecei a destruir o mundo de acordo com o livro.
Mais tarde, eu aprenderia que aquele livro era um tomo de profecias conhecido como “o texto sagrado”.
“Eu sei que isso não está certo.” Mesmo dizendo isso a mim mesma, balancei a espada vermelha que Pai havia me dado.
Achei que era melhor assim. Uma única gota negra havia caído naquela luz ofuscante, e eu me agarrei àquela mancha. Se fazer isso fizesse com que este mundo, e Pai, me reconhecessem... Se minha missão era ser a inimiga do mundo, então eu viveria apenas para isso.
Se cometi um erro de cálculo, foi este: apesar de odiar aquela luz e minha mestra mais do que qualquer coisa, em algum momento passei a estimá-las. Essa hesitação, essa fraqueza, deu origem a este campo de batalha, e pensar nisso me fez sorrir amargamente da minha própria inutilidade.
“Não. Não foi ‘em algum momento’.”
Sempre foi assim. Nagisa e eu éramos duas faces da mesma moeda, um reflexo no espelho. Minha inveja apenas escondia meu afeto.
“Você ainda está viva?”
Caí de joelhos. Bem acima de mim, os olhos dourados de Ouroboros me observavam. Aquilo era o instinto de sobrevivência de Pai, sua manifestação física. Isso significava que eu teria de decepar sua cabeça antes que qualquer palavra minha pudesse alcançá-lo?
“Vai se levantar de novo? Vai me dar mais sangue?”
A serpente se contorceu no ar, sua língua vermelha tremulando. Meu sangue continha o DNA de Pai; provavelmente ela queria absorvê-lo para recuperar forças.
“Não me entenda mal, está bem?”
Cravando o sabre no chão para usá-lo como apoio, consegui me levantar. Como eu poderia voltar a lutar contra aquilo?
Como poderia me erguer outra vez? Ao que parecia, a serpente não sabia. Bem, ela era apenas instinto, sem memórias, sem emoções, então não havia muito o que fazer. Mas aquela pessoa definitivamente havia dito aquilo:
“Pai me ordenou que vivesse, não importa o quê.” Desculpe, mas eu prometi.
Erguendo a espada vermelha que Pai me dera, avancei contra o inimigo que dominava o espaço sob a grande árvore.
“Não se preocupe, Pai. Você não precisa mais fazer isso. Seu primeiro instinto de sobrevivência já foi satisfeito.” Cortando os espinheiros que brotavam do chão para me deter, corri em sua direção.
Ele ainda estava de pé, inconsciente. A maior parte de sua armadura havia se esfarelado, e seu corpo estava coberto de rachaduras. Seus olhos estavam cegos, e eu não sabia se o único ouvido que restava ainda podia ouvir.
Ele havia perdido a consciência e as emoções. Apenas esperava secar e definhar. Mesmo assim, gritei para ele:
“O que você quis deixar para trás está vivo neste planeta! O olho de safira, a espada rubi, o coração de chumbo, todos eles estão aqui!”
Os pseudo-humanos não eram as únicas coisas que Pai havia deixado no mundo.
Um olho de safira capaz de enxergar tudo, até mesmo o coração humano. Uma espada rubi, acesa pelas chamas da paixão.
Um coração de chumbo que não se partiu, nem mesmo após a morte. Pai realmente queria proteger tudo isso.
“Os ouvidos que poderiam ter te escutado já se foram.”
A cauda de Ouroboros chicoteou em minha direção, cortando o vento. Tive certeza de ver a serpente sorrir, mas, no instante seguinte, seus olhos dourados se arregalaram de surpresa.
O ataque fora direcionado ao meu coração, mas parou a poucos centímetros do meu peito.
Por que a lâmina não me atingiu? Quem exatamente a havia detido? Eu nem precisava explicar.
“O instinto de sobrevivência que você sempre priorizou permanecerá neste planeta como seu legado imortal: o amor que protegeu seus filhos até o fim! Esse último desejo jamais morrerá!”
Essa era a verdadeira essência do primeiro instinto de sobrevivência da semente primordial. O nome da emoção que Pai havia perdido há tanto tempo.
“......! Não se meta nisso...!”
Ouroboros lançou um olhar furioso ao seu hospedeiro. Eu já estava a poucos metros quando ele avançou com suas presas gigantes. Apartei o golpe com meu sabre, mas fui lançada para longe.
“...Talvez eu tenha ido longe demais.”
Caí sobre o concreto. Ao tentar me levantar, minhas forças falharam, e voltei a cair de joelhos.
Eu não estava com o coração de Alicia havia muito tempo, e, poucos dias atrás, este corpo estava praticamente morto. O simples fato de eu ter conseguido me levantar já era um milagre.
“Ha... ha-ha.”
A serpente riu, como se estivesse corroendo os últimos vestígios de emoção que havia absorvido de Pai.
“Aqueles que violaram os princípios da vida não têm o direito de viver novamente, nem de desafiar este instinto de sobrevivência.”
Então Ouroboros soltou um uivo estrondoso. Atacou repetidas vezes com suas presas venenosas, e mais uma vez fui arremessada para longe.
“Desculpa, Hel. Dormi demais.” …Mas, dessa vez, quem me lançou ao chão foi o assistente da detetive.
“Isso é bem a sua cara, parceiro. Veio me salvar.” Com um sorriso deliberadamente falso, deixei que ele me ajudasse a ficar de pé.
Então ouvi um disparo. A detetive também havia despertado de seu descanso e agora enfrentava Ouroboros com seu mosquete.
“Poxa… vocês dois também não estão exatamente inteiros, sabiam?”, suspirei, olhando para o garoto. Ele sangrava pela testa e pelo estômago.
“É… pois é. Eu não consegui cumprir aquela promessa.” Ele mordeu o lábio.
Promessa. Sem dúvida, referia-se à que havia feito alguns dias antes, enquanto carregava Nagisa Natsunagi nas costas, no laboratório.
Se ele fizesse qualquer coisa que levasse minha mestra a chorar… Eu o mataria duas vezes.
Isso significava que ele estava tentando protegê-la por meu intermédio agora? Se fosse assim...
“Essa promessa nunca vai expirar. Fique ao lado da minha mestra de agora em diante.” Apertei novamente a espada vermelha e me virei para encarar o inimigo.
“Você vai mesmo?”, perguntou o garoto, percebendo o que eu estava prestes a fazer, enquanto me segurava por um instante.
“Sim. Você também deveria ir até sua parceira. Tenho certeza de que ela vai precisar de ajuda.”
“...É. Mas você...” Para minha surpresa, os olhos dele estavam marejados.
Ele não podia estar sentindo pena de mim, da inimiga, podia? Se estivesse, talvez eu até risse um pouco... Mas não, não tinha graça. Eu só esperava que a hesitação dele não o atrasasse. De qualquer forma, isso poderia ser resolvido se a parceira dele o treinasse direito.
Comecei a caminhar novamente em direção à semente primordial, mas me virei mais uma vez para o garoto.
“Eu estou feliz por ter nascido.”
Quando disse isso, por um instante, os olhos dele se arregalaram. Em seguida, ele sorriu suavemente.
Por que eu quis lhe dizer aquilo justamente agora? Não tinha certeza, mas meu coração estava tranquilo.
“Cuide da minha mestra, Kimihiko Kimizuka.” Com o nome dele como minhas últimas palavras, corri como o vento.
No caminho, meus olhos encontraram os da garota de cabelos brancos, aquele azul profundo.
Um ano atrás, eu havia perguntado àquela dupla de inimigos que se colocara no meu caminho como conseguiam confiar tanto um no outro. Fui selada dentro do corpo da minha mestra antes de entender a resposta. Mas agora eu entendia. Não… eles já tinham me dito naquela época.
“Era o laço deles.”
A cauda de Ouroboros surgiu bem à minha frente e, ao murmurar essas palavras, cortei-a instintivamente com a espada vermelha reluzente. Trocando um último olhar silencioso com a Detetive Ás, impulsionei-me do chão.
“É assim que ela e eu deveríamos ser.”
Talvez fosse outro tipo de laço, embora isso deixasse tudo organizado demais, pensei, sorrindo de lado.
No fim das contas, pelo menos, eu havia criado um laço com Nagisa Natsunagi. Agora, precisava contar isso a Pai. Essa era a minha missão final.
“Minhas pernas não vão parar.”
Usando minha habilidade de palavra-alma, dei uma ordem a mim mesma. Em resposta, a espada em minhas mãos incendiou-se em vermelho.
Eu havia canalizado todo o poder da minha semente, e até minha própria mente, naquela lâmina rubra. Com ela, destruiria a própria semente primordial. Ouroboros também estava condenado.
Corri em direção a Seed com pernas que jamais parariam.
Pai estava aos pés do prédio perfurado pela árvore. Ela havia crescido ainda mais; naquele momento, já quase engolia a construção de cinquenta metros.
“Eu assumirei a responsabilidade por todos os nossos crimes.” As feridas que infligimos a este mundo jamais cicatrizariam por completo.
Carregando todos os pecados, o derramamento de sangue e o peso da vida, atravessei o campo de batalha.
Todas as células do meu corpo. O poder da semente gravado em cada uma delas. Minha própria consciência. Concentrei tudo na palma da mão, canalizando para a espada rubi.
“Eu acredito que isso tenha sido amor.” E então…
“Hel...!”
Com Kimihiko Kimizuka gritando atrás de mim, atravessei o estômago da semente primordial com minha espada.
“Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!”
Que emoção era aquela? Não era raiva, nem tristeza, mas eu precisava gritar. Não havia como conter.
Com uma força capaz de despedaçar todos os ossos do meu corpo, empalei Seed e o preguei à árvore gigantesca.
“! Hah...”
Um leve gemido escapou dos lábios de Pai, logo acima da minha cabeça. Ao mesmo tempo, ouvi os gritos agonizantes do monstro atrás de mim. Nosso inimigo final havia sido derrotado.
“H... Hel?”
Ouvi uma voz familiar, querida. Era a voz que havia me dado um nome seis anos atrás.
“Sim. Codinome: Hel. Eu estou aqui.”
Respondi da mesma forma que naquele dia, mas minhas palavras agora eram diferentes.
“Pai, vamos para casa. Para o mundo ao qual pertencemos.”
Quando ergui o olhar, teria sido imaginação minha?, achei que seus lábios esboçavam um leve sorriso.
“...Sim. Estou um pouco cansado.”
Pai soou quase como um humano comum, e aquelas foram as últimas palavras que ouvi. Caindo contra o peito dele, fechei os olhos, devagar… muito devagar.

Traduzido por Moonlight Valley
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