Capítulo 3
Capítulo 3
“A verdadeira conclusão da Rota X.”
“O quê?! Como assim a senhorita sumiu?!”
Furiosa, Charlie agarrou a frente da minha camisa. Seus cabelos loiros estavam desgrenhados, e seus olhos afiados, cheios de raiva, perfuravam os meus.
“…É exatamente como eu disse.” Não tentei resistir. Apenas relatei os fatos.
“Siesta deixou uma carta dizendo que não vai voltar para nós.”
Minha mente voltou à manhã de ontem. No instante em que acordei, percebi que Siesta não estava deitada ao meu lado. Em seu lugar, havia uma carta sobre a escrivaninha. O conteúdo era composto por suas provocações de sempre, um simples agradecimento por tudo e uma despedida.
Mesmo tendo passado dias inteiros dormindo profundamente até o fim da tarde, quando desapareceu, isso aconteceu num piscar de olhos. Encontrei um mosquete familiar encostado na parede ao lado da cama. Era como se ela estivesse dizendo que não precisaria mais dele.
Na carta, Siesta não mencionava o mais importante: o motivo de sua partida.
…Não, tecnicamente, havia algo parecido com isso.
Ela dizia que, como estava se aposentando do cargo de Detetive Ás e voltando a ser uma detetive comum, pretendia viajar sozinha por um tempo. Segundo ela, eu havia amadurecido o bastante como assistente, então deveria apoiar Natsunagi, que um dia se tornaria a nova Detetive Ás.
As palavras eram coerentes, difíceis de contestar, e justamente por isso eu senti, instintivamente, que não eram verdadeiras. Não era apenas intuição; era experiência. Os três anos que passei ao lado dela me diziam isso.
Ainda assim, era um fato inegável que Siesta não estava mais por perto. Voltei ao Japão antes do fim do dia, levando apenas o mosquete dela comigo, e hoje reuni Charlie e os outros para relatar a situação.
“Então você simplesmente leu a carta e voltou sozinho, sem nem entender o que a senhorita realmente queria?! Nesse último ano, você não mudou nada, Kimizuka!”
“Por favor, se acalme, Charlie!” Uma garota se colocou entre nós, tentando intervir.
“Kimizuka, diga mais uma vez… A Siesta realmente deixou você… deixou todos nós?”
Saikawa fixou em mim um olhar vacilante. Estávamos em uma das salas de sua mansão.
“Você voltou a andar. Isso é incrível.”
Até poucos dias atrás, Saikawa estava em uma cadeira de rodas, mas agora se mantinha firme sobre as próprias pernas.
“Não tente mudar de assunto. Isso não importa agora. Sobre a Siesta…” Havia um pouco de raiva em sua voz; parecia que ela ia me repreender… mas não o fez.
“Kimizuka, você está péssimo.”
“Ha-ha. Agora vai me insultar também?”
“Não precisa forçar uma piada. Por favor, sente-se.” Saikawa indicou a cadeira.
“…Pensando bem, havia sinais vagos de que isso iria acontecer.”
Afundei-me fracamente no assento e contei a eles tudo o que havia pensado no caminho até ali. Sobre como as palavras e atitudes recentes de Siesta pareciam, de algum modo, deslocadas.
Por exemplo, mesmo tendo voltado à vida, ela repetia constantemente coisas como: “Não há tempo.” Talvez não estivesse se referindo apenas à necessidade de derrotar Seed rapidamente ou de despertar Natsunagi.
Além disso, embora demonstrasse suas inseguranças comigo, Siesta me levou a um país distante, colocou-me em contato com novos Tuners, convidou-me para musicais e começou a relembrar o passado… Um ano antes, eu já havia sentido a mesma contradição entre suas palavras e suas ações.
Acima de tudo, ela havia renunciado ao cargo e indicado Natsunagi como a nova Detetive Ás. Disse que, mesmo sem o título, continuaria trabalhando como uma detetive comum; porém, diante da situação atual, essa aposentadoria ganhava um significado diferente.
“Talvez a Siesta esteja….”
“....! Isso não pode ser verdade!” Depois de me ouvir, Charlie abaixou a cabeça e gritou.
“A senhorita finalmente voltou à vida! Nós derrotamos o Seed! A Nagisa vai acordar, e então finalmente teremos aquele final feliz de que você falava, não é?! E agora a senhorita… a senhorita desaparece de novo, sozinha?! Isso não pode ser…!”
“Seu raciocínio pode estar correto, Kimihiko.”
Nesse momento, outra pessoa entrou na sala. Era Noches, a antiga SIESTA de aparência de criada. Ela tinha assuntos a resolver e pediu desculpas pelo atraso. Em seguida, começou a contar algo que parecia reforçar minha teoria.
“Como Charlotte disse, o Seed primordial foi destruído. No entanto, fragmentos de sua semente ainda permanecem, inclusive dentro do peito da senhorita Siesta.”
…Ela estava certa. Saikawa, Natsunagi e eu tivemos nossas sementes extraídas durante a batalha contra Seed outro dia, mas a de Siesta ainda permanecia em seu coração. Até então, ela havia se beneficiado do poder que isso lhe concedia, lutando contra os inimigos do mundo com capacidades físicas além das de uma pessoa comum.
“Entretanto, essas sementes são espadas de dois gumes. Como preço, elas consomem a visão, a audição ou parte da vida de quem as ingere. E, eventualmente….”
“Espere!” Saikawa interrompeu Noches às pressas.
“Nós já sabemos o resto. Albert nos contou o que acontece com humanos corroídos por uma semente. Mas a Siesta era originalmente a candidata escolhida pelo Seed, não era? Então….”
“…Entendi. Então a Siesta não era totalmente compatível”, murmurei. Noches assentiu em silêncio.
Antes de Siesta e Mia tramarem enganar Seed, o texto sagrado já previa um futuro no qual Siesta perderia para Hel. Isso nos dizia uma coisa: como receptáculo da semente primordial, Hel era ligeiramente superior a Siesta.
“Como a única hospedeira totalmente compatível com a semente primordial, Nagisa Natsunagi pode ter….”
Uma observação que Stephen, o Inventor, fizera de passagem uma semana antes cruzou minha mente. Natsunagi era a mais adequada para ser o receptáculo de Seed, enquanto o corpo de Siesta estava destinado a ser lentamente corroído pela semente em seu coração….
“Não me diga que a senhora está…” Charlie foi direto ao ponto.
“Ela está tentando desaparecer antes de se transformar em um monstro?”
Pessoas cujos corpos eram completamente devorados pelas sementes acabavam se degradando. Foi o que aconteceu com o Camaleão, que perdeu o controle quando lutamos contra ele no cruzeiro, e com Betelgeuse, que desde o início havia sido criado como uma arma biológica. Esse era o destino daqueles dominados pelas sementes.
Siesta sabia que isso aconteceria com ela algum dia. E, por isso, havia nos deixado antes que seu tempo se esgotasse.
“Espere um minuto. Se a senhora sabe que vai se tornar um monstro algum dia… se isso for verdade…” Charlie não precisou concluir a frase. Antes que isso acontecesse, Siesta teria….
“.…!” Charlie disparou em direção à porta.
“Onde você pensa que vai?”
“Precisa mesmo perguntar?! Eu vou atrás da senhora!”
“Ela….!” gritei, sem perceber, fazendo Charlie estremecer.
“Ela entendeu tudo isso e, mesmo assim, escolheu esse caminho.”
“Mas, ainda assim! Só porque sabe que um dia vai virar um monstro, o suicídio não é…;!”
“Não é isso.” respondi, mantendo os olhos fixos no chão.
“Siesta sabe o quanto nós nos importamos com ela e o quanto ficamos felizes por tê-la de volta. E, mesmo sabendo de tudo isso, ela ainda assim fez essa escolha.”
“……!” Isso significava que agora lidávamos com uma situação completamente diferente.
É verdade que havíamos trazido Siesta de volta contrariando sua vontade e suas intenções. Porém, desta vez, ela conhecia nossos sentimentos. Além disso, decidiu que essa era a única saída e se afastou de nós por conta própria. Não podíamos simplesmente ignorar esse desejo silencioso.
“Está tudo bem. Por enquanto, se acalme.” Senti algo quente tocar minha mão.
“Aperte as mãos. Relaxe os ombros. Respire ritmadamente. Feche os olhos, inspire fundo e depois expire. O sangue começa a circular. Quando abrir os olhos, sua visão turva estará clara.” Era o encanto habitual de Saikawa. Minha mão pendia sem forças, e ela a segurou com delicadeza.
“Siesta já fez a escolha dela. Agora é a sua vez de escolher, Kimizuka.” Ela havia retirado o tapa-olho, e os olhos que me fitavam tinham cores diferentes.
“…Ainda posso escolher?”
“Claro. Afinal, esta é a sua vida.” Por algum motivo, o sorriso de Saikawa parecia prestes a se desfazer em lágrimas.
Ainda assim, considerando que meu próprio ego havia criado essa situação, eu não conseguia responder com facilidade.
“Nós sempre fomos assim, não fomos?” murmurou Charlie, desviando o olhar com tristeza.
“Brigávamos em batalha, falhávamos, depois ficávamos ainda mais desunidos… e repetíamos tudo de novo.”
Ela tinha razão. Sempre que isso acontecia, Siesta nos repreendia, suspirando e perguntando se éramos idiotas. Mesmo assim, no fim, ela sorria e nos apontava o caminho certo. .…Mas Siesta já não estava mais ali. Tudo por causa do meu desejo egoísta.
“Desculpa, Charlotte.” A pessoa que nos guiava rumo ao amanhã já não—
“Nós ainda temos uma detetive!”
Com raiva, ou talvez com lágrimas, Charlie avançou até mim. Colocando as mãos sobre meus ombros, ela gritou:
“Nós temos outra amiga que é detetive! Ela mesma disse isso naquele dia! Disse que era a detetive ás que herdaria o último desejo da senhora!”
A cena no cruzeiro passou pela minha mente. Naquela época, Charlie se recusara veementemente a reconhecer Natsunagi como a detetive ás. Ela acreditava ser a pessoa mais adequada para herdar o último desejo de Siesta.
Mas agora, Charlie havia confiado isso a ela. Havia confiado nosso futuro, o futuro de Siesta, à outra detetive ás. Aquela que ainda dormia.
“Kimihiko.” chamou Noches. Ela segurava uma chave de carro.
Eu encontraria a resposta no lugar onde Natsunagi dormia? Ou apenas encararíamos mais uma realidade cruel? Eu não sabia.
“Se você não sabe, então vamos.”
Noches, cuja consciência já havia habitado o corpo de Siesta, falou comigo por cima do ombro. Senti a sombra da detetive ás nela e, antes que percebesse, dei um passo à frente.
Cliente e detetive substituto
Quando abri a porta do quarto do hospital, a garota estava deitada na cama, exatamente como antes.
“Eu voltei.” disse a ela, observando seu rosto adormecido.
Já haviam se passado duas semanas desde a batalha final contra Seed, e Nagisa Natsunagi ainda não demonstrava qualquer sinal de despertar.
“Acho que não ia ser tão conveniente assim, né…?”
Saikawa e Charlie haviam me incentivado a vir até ali, mas Natsunagi continuava inconsciente. Nenhum milagre havia ocorrido. Mesmo assim, eu queria falar com ela, então me sentei em uma cadeira próxima.
Fazia quatro dias desde minha última visita. Eu viera a esse quarto várias vezes antes de partir para Nova York e, nessas ocasiões, havia ralhado bastante com ela. Ela tentara se sacrificar no lugar de Siesta e, como assistente dela, eu e apenas eu, precisava repreendê-la por isso.
“Você entende, Natsunagi?” Ao encarar seu rosto imóvel, pensei nisso mais uma vez e não consegui evitar reclamar.
“Eu disse que queria reviver Siesta… mas você sabe que não estava certo você desaparecer no lugar dela.”
Minha raiva, no entanto, não a afetou em nada. Natsunagi continuava dormindo, respirando tranquilamente.
“ …Natsunagi, o que você acha que eu deveria fazer?”
Um suspiro escapou de mim. Foi então que a fita vermelha ao lado de seu travesseiro chamou minha atenção.
Siesta havia voltado à vida e, em seu lugar, Natsunagi havia morrido. Ainda assim, Natsunagi herdara as vidas e as vontades de Alicia e de Hel e retornara até nós uma vez… e agora estava ali novamente, adormecida. Enquanto isso, Siesta nos deixara e provavelmente tentava desaparecer do mundo por completo.
“O que há de errado com vocês?”
Por que brincavam assim com o meu coração? Por que me faziam sofrer desse jeito? Por que eu não podia simplesmente tê-las ambas a salvo? Por que não podiam apenas sorrir, ficar bem e ser felizes?
Vocês, detetives ás, sempre….
“Não, eu sei. Sei que o errado aqui sou eu.”
A razão de Natsunagi ter acabado daquele jeito fora o meu erro de julgamento quanto à sua determinação. Eu quisera trazer Siesta de volta à vida a qualquer custo, e Natsunagi desejara exatamente a mesma coisa… e, ainda assim….
E então havia Siesta. Ela carregava aquela semente dentro de si, mas eu nunca havia pensado no que isso realmente significava para ela. Eu a trouxe de volta à vida por puro egoísmo, e esse foi o resultado. Agora, ela tentava desaparecer antes de se transformar em um monstro.
“Apenas duas semanas.”
Foi só isso que consegui passar com ela. E, mesmo assim, mal conseguimos conversar durante a primeira semana, já que passamos todo esse tempo internados, nos recuperando da luta contra Seed. No fim das contas, tudo o que obtive ao sacrificar tantas coisas foram alguns poucos dias de lembranças, usadas apenas para aliviar meus arrependimentos e a dor de uma segunda despedida.
“O que eu devo fazer, Natsunagi?” Eu sabia que ela não responderia, mas perguntei mesmo assim.
Consegui dizer a Siesta coisas que não havia conseguido antes, e ela aceitou meus sentimentos… ainda assim, escolheu nos deixar.
Saikawa havia me dito que, se aquela fosse a escolha de Siesta, então eu também podia fazer as minhas próprias escolhas. .…Mas será que podia mesmo?
Não que o conselho de Saikawa estivesse errado, mas… eu hesitava em contrariar Siesta mais uma vez. Já havia insistido na minha decisão e passado por cima da vontade dela uma vez. E, diante desse resultado, eu precisava admitir, por mais relutante que fosse: a decisão dela havia sido melhor do que a minha.
“Acho que eu já tenho a resposta, não é?”
O conflito dentro de mim se resolveu de uma vez. Eu estava errado, e Siesta estava certa. Nem precisei pensar muito. Durante aqueles três anos, ela nunca estivera errada sequer uma vez…
Mas, no dia em que Siesta morreu, um ano atrás, eu tive um pensamento. Não me orgulho dele; pela primeira vez, eu quis que ela estivesse enganada. Claro que isso fora infantil. Eu não precisava que ninguém me dissesse isso.
“Mas eu ainda quero que Siesta viva…!”
Eu sabia perfeitamente que esse desejo era um erro, que não passava de arrogância da minha parte. Era óbvio demais. Ainda assim, não conseguia enxergar nenhuma forma de torná-lo realidade agora.
Mordi o lábio. Minhas unhas cravaram nas palmas das mãos. Não havia nada que pudéssemos fazer diante da situação atual, e minha visão escureceu.
“…O que eu devo fazer, detetive ás?”
Se morder o lábio não mudaria nada, então ao menos eu precisava fazer a pergunta.
Isso mesmo. Antes de vir até aqui, eu estava devastado, mas Charlie me repreendera e me encorajara. Dissera que, se eu não conseguisse encontrar a resposta, deveria confiar na outra detetive ás.
Era por isso que eu me agarrava a ela agora, mesmo sabendo que estava errado. Se cravar as unhas nas mãos não mudaria nada, então ao meno….
“Por favor, detetive ás. Salve a Siesta.” Soltando os punhos rígidos e cerrados, apertei a mão esquerda de Natsunagi.
“Se uma detetive substituta for suficiente, eu aceito o trabalho.” De repente, ouvi uma voz familiar.
Soava como aquela troca de palavras que tivemos uma vez, naquela sala de aula banhada pela luz do pôr do sol. Na verdade, talvez tivesse sido eu quem dissera algo parecido naquela ocasião. A mão que eu segurava apertou a minha em resposta.
“Você segurou minha mão assim antes, não foi?” Quando levantei a cabeça, a garota me encarava. Ela sorriu, aliviada.
Aquelas palavras me lembraram de outro dia, da noite em que segurei sua mão no hospital, mais de um ano atrás, quando ela ainda tinha a aparência de Alicia.
“Natsu… nagi…?” Minha voz saiu rouca, mas consegui dizer seu nome.
Olhando para mim deitada na cama, Natsunagi abriu um sorriso irônico.
“Você é mesmo um idiota, Kimizuka.” Soltando minha mão lentamente, ela estalou minha testa com o dedo médio.
“Não venha me visitar no hospital só para passar o tempo inteiro falando de outra garota.”
Colocando Nagisa em movimento
“Natsunagi…” Atordoado, chamei seu nome mais uma vez.
Nagisa Natsunagi, uma garota da minha série, minha parceira. A morte nos separara uma vez, ou assim eu pensara. Depois disso, ela passara o que parecia uma eternidade adormecida. E agora estava ali, piscando diante de mim.
“Sim, meu nome é Nagisa Natsunagi.” Ela deu uma risadinha.
“Heh-heh… quanto tempo, hein?” Sentando-se lentamente, abriu um sorriso bobo e fez um sinal de paz com os dedos.
“…Hã? Kimizuka, você está chorando?”
“Ah-ha-ha! Então você queria me ver tanto assim, é?” Eu a abracei com toda a força que tinha.
“Espera, o quê? …Hã? K-Kimizuka…?”
A voz atrapalhada de Natsunagi soava bem junto ao meu ouvido, mas eu não tinha condições de olhar para o rosto dela nem de perguntar se estava bem. Se ela permitisse, eu queria ficar assim para sempre.
“Nossa… eu realmente não esperava por isso… U-um, Kimizuka? …O que diabos…?” Confusa, Natsunagi ficou completamente rígida, sem saber como reagir.
“Escuta, eu acho que você está saindo do personagem. Você não é do tipo que faz esse tipo de coisa, é?”

“...Cala a boca.”
Não adiantava. Só de falar, meu nariz já ficava congestionado. Abracei-a com força, impedindo que ela visse meu rosto.
“...Ai, céus. Sinceramente. O que é que a gente vai fazer com você?” Um calor suave envolveu minhas costas. Natsunagi também estava me abraçando.
“Ah, entendi. Claro. Era isso que você queria, não era?”
Aquilo parecia uma reencenação do dia em que conheci Natsunagi naquela sala de aula. Naquela época, ela esperava que eu assumisse o papel de detetive e encontrasse o dono do coração dela. No entanto, a verdade era que aquele coração já tinha realizado seu desejo, e Natsunagi simplesmente fizera o que ele queria: me abraçou.
“Uhm, como era mesmo? Sério, você está todo lambuzado de lágrimas e catarro, e ainda quer chorar e fazer birra? Não tinha outras formas de brincar? …Acho que foi mais ou menos assim.”
“……! Você não precisava reencenar essa parte!” Afastei-me dos braços dela, e finalmente conseguimos olhar um para o outro.
“Pfft!”
“Heh.” Então, os dois caímos na gargalhada. Há quanto tempo eu não via Natsunagi sorrir daquele jeito?
“Kimizuka, você está horrível.” Ela apontou para meus olhos vermelhos.
“Você queria tanto assim me ver, hein?”, provocou.
“Queria. Queria mesmo.” Respondi com sinceridade.
“Eu queria te ver… e fazer você chorar.”
“…Mgh.” Natsunagi devia já saber o motivo. Ela desviou o olhar, parecendo culpada.
Quando Natsunagi acordasse, eu pretendia dar uma bronca nela imediatamente. Sacrificar a própria vida para salvar os amigos jamais poderia ser a resposta certa. Aquilo nunca poderia ser o futuro que todos desejavam.
…Mas…
“No fim das contas, acho que eu não estou em posição de te dar lição nenhuma.” Quando eu disse isso, Natsunagi voltou a me encarar.
Eu não podia negar: se estivesse no lugar dela, talvez tivesse feito o mesmo. Afinal, eu próprio havia engolido aquela semente, preparado para me sacrificar.
“Eu fiquei tão feliz por você estar viva que nem consegui sentir raiva.”
“…O que isso quer dizer?” Natsunagi soltou uma risadinha desconcertada e enxugou as lágrimas dos cantos dos olhos com a ponta dos dedos.
“Mas, Natsunagi… por que você acordou de repente?” É claro que eu não tinha do que reclamar, mas não dava para simplesmente tratar aquilo como uma coincidência. Perguntei como aquele milagre tinha acontecido.
“Eu não sei.” Natsunagi desviou o olhar, encarando a janela do quarto do hospital.
“Enquanto eu estava inconsciente, fiquei em uma praia linda. Não era escuro como antes, e eu não estava presa em uma gaiola que me impedia de ir a qualquer lugar. Era só o oceano azul e limpo, e uma praia de areia branca que dava vontade de sair correndo descalça. Eu fiquei ali, na beira d’água, olhando para o mar.”
Devia ser o mundo do subconsciente de Natsunagi. Diferente das vezes em que Hel controlava sua mente, agora ela parecia sentir que sua missão tinha sido cumprida. Aquela praia era a imagem mental de seu objetivo.
“Enquanto eu olhava para o oceano, uma mãozinha bateu nas minhas costas.” Natsunagi pousou a mão sobre o lado esquerdo do peito.
“Quando me virei, vi uma garotinha fofa, com aparência de boneca, como se tivesse saído direto do País das Maravilhas. Ela tentava desesperadamente me dizer alguma coisa, mas, por algum motivo, eu não conseguia ouvir sua voz.”
Enquanto recordava, Natsunagi cerrou o punho com força sobre o peito, apertando o coração que batia ali dentro. Ela certamente sabia quem estava lá.
“Então, ouvi a voz de outra garota sair da boca dela. Era uma voz extremamente familiar, uma parte inseparável de mim… e, quando percebi, já estava obedecendo e começando a me mover.”
…É. Sempre fomos assim. Tanto como inimiga quanto como aliada, aquela voz sempre nos colocara em movimento. Ela, aquela que carregava o nome da rainha dos mortos, tentara empurrar Natsunagi de volta a este mundo. Seu poder de palavra-alma falara pela garota de cabelos rosados que não tinha voz.
“O que ela disse?”, perguntei. Natsunagi ergueu a cabeça.
“Ela me disse para começar a correr.”
A expressão digna no rosto de Natsunagi era algo que eu nunca tinha visto antes. O coração, as memórias e a consciência dela abrigavam muitas outras pessoas. Eu tinha certeza de que aceitar completamente a vontade de todas elas lhe dera uma nova vida. A garota que sofrera por não ter identidade já não existia mais.
“Depois disso, tudo aconteceu muito rápido.” Sua expressão suavizou.
“Cada célula deste corpo gritava que queria te ver. Então eu corri por aquela praia, corri e corri, até alcançar… você.” Natsunagi bateu de leve o punho contra meu peito.
“Por que eu?”
“Bom, você estava completamente arrasado. Mesmo dormindo, eu conseguia perceber.” Ela sorriu de forma irônica.
“Foi por isso que você…”
Lembrei-me do que Scarlet dissera naquela noite: que o instinto humano estava gravado no DNA, espalhado por todo o corpo, circulando como o sangue; e que aqueles que retornavam da morte ressuscitavam com esse instinto intacto.
Eu não sabia onde, no corpo de Natsunagi, dormiam sua mente, sua alma ou sua consciência, se no cérebro, no coração ou em cada uma de suas células. Mas eu sabia exatamente qual era o instinto dela: sua paixão como detetive.
Por muito tempo, ela não fora ninguém. Então, um dia, ao herdar o papel de detetive, encontrou o caminho que deveria seguir. Às vezes seguira Siesta; em outras, escolhera uma rota diferente. Mas nunca perdera de vista o orgulho que carregava como detetive.
Assim, quando eu, seu cliente a chamei, Natsunagi, a detetive, respondeu despertando. Foi exatamente como na luta contra Chameleon, naquele navio. A mente de Siesta permanecera adormecida dentro de Natsunagi, mas, quando eu estava em perigo, ela despertara e entrara em ação. Desta vez, quem respondeu foi Natsunagi.
“Acho que vocês duas gostam demais de mim”, brinquei, sentindo como se um enorme peso tivesse sido retirado dos meus ombros.
“Então, sobre o seu problema atual.”
“……Ei.” Natsunagi riu baixinho, puxando os lençóis para cobrir metade do rosto.
“Infelizmente, eu não gosto de você nem nada disso, Kimizuka.”
Sim, eu sabia. Era recíproco. Eu também não gostava nem um pouquinho dela, nem de Siesta.
“Mas, se você precisar de nós, iremos correndo até você, não importa onde esteja.” Natsunagi me encarou com aqueles olhos rubros.
“Vamos ignorar o bom senso, sair das linhas, substituir ‘deus ex machina’ por milagre e ir ao seu encontro… se for isso que você quiser.”
Ela falava também pela outra detetive, aquela que não estava ali conosco.
“…Diga, Natsunagi?”
“Hm?” Ela me olhou com gentileza.
“E se eu dissesse que quero ver a Siesta mais uma vez…”
“Claro!” Ainda sentada na cama, ela apoiou as mãos na cintura com confiança.
“Foi por isso que você veio até aqui, não foi?”
“…Você sabia?” Isso era bem coisa de uma Ace Detective. Natsunagi sorriu e disse:
“O ritmo é importante para esse tipo de coisa.” Era uma frase que eu já tinha ouvido antes.
“Na verdade, eu ouvi você falando sozinho mais cedo.”
“…Então acorda mais cedo da próxima vez.” Acabei pagando mico à toa.
“Basicamente, Kimizuka, você está em dúvida se é certo rejeitar a resposta da Siesta outra vez, não é?”
Era exatamente isso. Siesta conhecia nossos sentimentos e desejos melhor do que ninguém. Ainda assim, seria correto sobrepor a decisão que ela tomara… apenas para satisfazer meu desejo egoísta?
“Nesse caso…” A voz de Natsunagi cortou minha hesitação.
“Por que não parar de depender de coisas incertas como sentimentos e desejos?”
Abdicando voluntariamente de sua maior arma, sua paixão , ela declarou:
“Vamos trabalhar juntos e superar a Siesta mais uma vez. Não só com emoção… mas com habilidade de verdade.” Assim teve início nosso conselho de guerra para transcender a Ace Detective.
Para onde esta mira aponta
Após conversar com Natsunagi, fiz tudo o que estava ao meu alcance para me preparar. No dia seguinte, parti rumo a um determinado bairro.
“Quase nada mudou.”
Ultrapassando a fita amarela da polícia, entrei na cidade abandonada. Caminhei com cuidado pelo chão rachado até avistar, por fim, uma árvore colossal, muito maior do que as demais, a mesma que havia engolido o shopping center.
Era a cidade tomada por plantas, onde havíamos enfrentado Seed duas semanas antes. Muitos prédios haviam desmoronado, e placas de PROIBIDA A ENTRADA estavam espalhadas por toda parte. Civis não tinham permissão para entrar ali.
Eu estava ali por um único motivo.
“Ei, que coincidência.” Chamei uma garota solitária, de costas para mim.
Ela estava parada, olhando para a árvore gigantesca. Cabelos curtos e prateados, pele pálida e um vestido inspirado em um uniforme militar. Não havia como confundir.
“O que você está fazendo aqui, Siesta?” Ao se virar, ela parecia já ter se preparado. Ostentava o sorriso sereno de sempre.
“Não achei que nos encontraríamos novamente, Assistente.” Codinome: Siesta.
Minha parceira havia desaparecido… e reaparecido.
“Sério. Você é o quê, um gato?”
Dizem que gatos domésticos, ao pressentirem a morte, abandonam seus donos antes de morrer.
“E quem exatamente está dizendo que me possui?”
Siesta respondeu com um olhar frio e cortante. Em seguida, soltou um suspiro de desagrado.
“Parece que alguém armou para mim.” Erguendo o olhar para a árvore colossal, murmurou:
“Ouvi dizer que o selo da semente primordial estava se desfazendo.”
Aquilo fazia parte dos meus preparativos. Se eu quisesse convencer Siesta, primeiro precisava encontrá-la, e não adiantaria simplesmente ligar e pedir para vê-la.
Se fosse assim, pensei, era melhor convocar a Ace Detective, não a Siesta.
Natsunagi ainda não havia assumido oficialmente o cargo. Isso significava que Siesta continuava sendo a Ace Detective, e abandonar uma missão era a última coisa que ela faria.
Por isso, fiz Mia Whitlock, a Oráculo, mentir dizendo que havia sinais de que o selo de Seed estava se rompendo. Isso a atrairia até aquele lugar.
“Dizem que isso pode acontecer algum dia.”
“Então, no mínimo, não é um perigo imediato.”
“Exato. Na verdade, isso pode acabar se tornando indispensável para a humanidade.”Contei a ela o que ouvira de Ms. Fuubi na noite anterior.
“Dizem que essa árvore está emitindo átomos desconhecidos, que não constam na tabela periódica. Os pesquisadores vão ficar ocupados analisando isso.”
Esse era o principal motivo para a área estar isolada. O que aquela árvore colossal, o selo da semente primordial, significaria para o futuro da humanidade?
“Entendo. Nesse caso, não há nada que eu precise fazer aqui.” Siesta falou, tentando encerrar a conversa. Encerrar esta história.
“O que quer dizer com ‘tudo bem’, hein?” Quando ela se virou para ir embora, chamei-a.
“Você está planejando morrer?” Ela parou no meio do caminho.
“No futuro não muito distante, vou me transformar em um monstro.”
Siesta se virou para me encarar. Seu sorriso parecia um pouco solitário.
“Eu percebi pela primeira vez que talvez não fosse o receptáculo mais compatível para a semente primordial quando vi um texto sagrado escrito há muito tempo. Entendi que a semente adormecida dentro de mim poderia começar a me consumir algum dia.”
“...Você está me dizendo que, durante aqueles três anos em que viajamos juntos, você carregou essa bomba sozinha?”
“Minha semente está no meu coração. Talvez seja por isso que eu tenha uma vaga noção do seu limite de tempo. Por enquanto, ainda estou bem, mas esse dia é inevitável.”
Siesta colocou a mão no lado esquerdo do peito.
“Num futuro próximo, vou deixar de conseguir ver ou ouvir você, mesmo tendo estado ao seu lado o tempo todo. Perderei a voz de que preciso para lutar com você. Vou esquecer você e... algum dia, vou matá-lo. E, por isso...”
Mesmo numa situação como aquela, o sorriso de Siesta era belo.
“Vou deixar este mundo antes que isso aconteça.”
Essa era a minha suposição. Eu não precisava estar certo. Na verdade, eu não queria estar. Mas as próprias palavras de Siesta acabaram com qualquer dúvida.
“Seus sentimentos realmente me fizeram feliz.” Enquanto eu permanecia em silêncio, Siesta continuou a falar com eloquência:
“As únicas palavras que consigo encontrar são simples, mas eu fui feliz. Você ficou com raiva por minha causa. Você chorou por mim. Então, tenho certeza de que... eu fui feliz.”
Uma detetive lendária era brilhante, calma, fria e controlada. Por isso, Siesta às vezes priorizava a lógica em detrimento da emoção. Ela esvaziava o próprio coração, buscando apenas resultados. Eu sabia disso, e justamente por isso, o que ela acabara de dizer soava como seus sentimentos genuínos, sem exageros.
“Então você está dizendo que não tem arrependimentos?” Era uma pergunta cruel demais, mas eu a fiz mesmo assim.
“Talvez eu tivesse alguns no ano passado.” O cabelo prateado e pálido de Siesta tremulou ao vento. Ela sorriu de forma torta e discreta.
“Naquela época, ainda havia coisas que eu queria perguntar a você. Mas...” Ela ajeitou o cabelo atrás das orelhas.
“Eu sei que agora você me considera preciosa. Sei que gostou daqueles três anos. E então, mesmo sem jamais ter esperado por isso, pude voltar ao seu apartamento, comer pizza com você... depois lutar contra o inimigo, viajar de avião, resolver um caso, assistir a um musical e te abraçar. Não tenho mais arrependimentos.”
Siesta falou com firmeza. Não havia hesitação alguma em seu rosto.
Nesse caso, minha resposta foi….
“Então por que você está tentando me impedir?” Eu havia sacado minha arma, e Siesta me lançou um olhar frio e penetrante.
“Desculpe por ser uma assistente que não faz o que você quer.”
Eu vim aqui para impedi-la. Não para matá-la nem machucá-la. Apontei minha arma para Siesta para protegê-la, para mantê-la viva.
“Quem disse que eu tenho que seguir o seu roteiro?”
Siesta ignorou completamente minha determinação, o que era natural. Por que ela se daria ao trabalho de lidar com a minha rebeldia? Não havia nada a ganhar com isso.
Se eu abaixasse a arma, ou se a conversa se encerrasse ali, Siesta nos deixaria para sempre. Mesmo assim….
“Não adianta fugir. Eu vou atrás de você não importa o que seja preciso, mesmo que eu tenha que usar a fortuna da família Saikawa ou pedir ajuda à antiga unidade do Charlie. Os confins da terra, as profundezas do oceano, dez mil metros acima, eu vou te seguir em qualquer lugar.”
Afinal, a detetive lendária odiava desistir, mas eu podia dar trabalho a ela.
“E se isso parecer complicado demais, devo lutar com você aqui?” Olhando para o cano da minha arma, Siesta entendeu o que eu estava insinuando.
“Isso mesmo. Vamos resolver tudo aqui. Se você vencer, eu não vou mais interferir.”
“Não existe nenhuma possibilidade de você e eu termos algo que se pareça com uma luta de verdade, e você sabe disso. Além disso….”
Siesta virou as costas para mim, desafiando meu blefe.
“Você e seus amigos podem me perseguir o quanto quiserem, mas nunca vão me alcançar. Vou encontrar um lugar e um momento desertos e concluir minha história sozinha.”
Após dizer isso, ela começou a ir embora.
Onde havia começado a história de Siesta como detetive lendária? Teria sido quando ela nasceu? Ou naquele laboratório, seis anos atrás, quando sua batalha contra a semente primordial teve início? Eu era apenas seu assistente, e não sabia.
Mas quando havia começado a minha história como assistente dela? Ou melhor, a nossa história, a de Siesta e a minha?
Essa, eu sabia com certeza.
Foi naquele dia. Aquele único dia, quatro anos atrás.
“Ah, entendi. Siesta, você...”
O que eu precisava dizer ali e naquele momento já estava decidido desde então.
“Você ficou com medo de mim, do seu assistente. Está fingindo que a disputa já foi resolvida sem luta para me forçar a admitir a derrota e encerrar o jogo. Em outras palavras, você está com medo.”
No instante em que disse isso, Siesta parou. Não havia como ela ter esquecido de quem era aquela provocação original, nem quando a havia feito.
“Você é idiota, Kimi?” Ela me repreendeu como sempre fazia.
Mas naquele campo de batalha, sua voz parecia um pouco mais viva.
“Falta mil anos para você conseguir me provocar.”
Quando ela se virou para me encarar, segurava uma pequena pistola na mão esquerda.
“Pensando bem, nós nunca tentamos realmente nos matar antes, não é?”
“Não. Embora você quase tenha me matado sozinha.”
Mesmo nessas circunstâncias, ou talvez por causa delas, Siesta e eu sorrimos um para o outro.
“Pois bem.” Mas quase imediatamente, nossos olhares se tornaram frios.
“Você está pronta para isso, Siesta?”
“Eu poderia perguntar o mesmo, Assistente.”
Então, aos pés da grande árvore que se erguia sobre toda a humanidade, Siesta e eu apontamos nossas armas um para o outro.

Foi a primeira, e também a última grande briga que tivemos. O nome desse sentimento…
“Se é assim, não vou pegar leve.”
Mal Siesta murmurou essas palavras, ela desapareceu.
“......!”
Eu sabia melhor do que qualquer pessoa no mundo o quão forte ela era. Siesta se movia tão rápido que parecia estar se teleportando. Escolhi uma direção aleatória e me esquivei; quase imediatamente, um disparo ecoou bem ao meu lado.
“Parece que não vai ser possível acabar com você com apenas um tiro.”
Dessa vez, a sorte do diabo esteve do meu lado. Eu estava rolando pelo chão, mas tinha conseguido desviar da bala. Me escondi atrás de um ônibus abandonado.
“Não podia me dar pelo menos uma pequena vantagem inicial?”
“Não existe ‘tempo técnico’ em guerra. Esqueça isso. O que eu preciso fazer para vencer essa luta?”
“Olha, não atire e confirme as coisas depois. …Você vence se eu admitir que perdi.”
“Entendo. Então vamos chamar isso de uma batalha contra o tempo. Considerando sua personalidade, tenho a sensação de que isso pode se arrastar por um bom tempo.”
Siesta sequer cogitava a possibilidade de perder. Não só isso, ela ainda conseguiu me insultar indiretamente por não saber a hora de desistir.
“Desculpe, mas hoje eu vou inverter nossa relação de forças.” Atirei de trás do ônibus… mas Siesta se esquivou com um salto acrobático.
“Mirando nas minhas pernas. Que gentileza.”
“Não. É que não é normal mirar direto na cabeça logo de início, como você fez.”
“Mas você não vai admitir derrota a menos que eu cause um ferimento letal, não é?”
Enquanto trocávamos esse tipo de provocação própria de combate, recuperei o controle da respiração atrás do ônibus e tracei uma estratégia. Aquele lugar havia sido bem destruído durante a luta contra a Seed duas semanas antes, então pelo menos eu tinha cobertura garantida.
“Acha mesmo que pode me vencer desse jeito?”
“......!”
Eu tinha acabado de acionar minha própria bandeira da morte. Ouvi a voz da detetive lendária acima de mim. Siesta havia subido no teto do ônibus e saltado sem hesitar, desferindo um chute forte no meu braço direito e arrancando a pistola da minha mão.
“…! Na verdade, eu já superei suas intenções uma vez, lembra?”
Sem sequer olhar para a arma que havia deixado cair, me abaixei e passei por baixo do ônibus.
“Em termos de sentimentos, sim. Mas, se você não conseguir me vencer com habilidade de verdade agora, isso não significa nada.”
Ela estava certa outra vez. Eu sabia disso, tinha me angustiado com isso, e mesmo assim havia pisado naquele campo de batalha. Não havia como simplesmente recuar depois disso.
“......!”
Avistando as pernas de Siesta por baixo do ônibus, saltei para fora, saquei minha segunda arma, mirei e atirei. Mas…
“…Eu quase morri agora.”
Como se tivesse previsto meu movimento, Siesta também disparou, e a bala passou zunindo ao lado da minha cabeça. Não, talvez tivesse até raspado por alguns milímetros. Um fino filete de sangue escorreu pela minha bochecha.
“Você quer morrer?” Siesta inclinou a cabeça com uma expressão inocente. Ainda fria como sempre, hein? Nesse caso…
“Bom, você mesma disse, isto é guerra.”
Sem hesitar nem mirar direito, disparei uma sequência de tiros contra Siesta. É claro que eu não pretendia matá-la; isso anularia completamente o propósito dessa luta. Meus ataques se baseavam na confiança de que ela iria se esquivar. Mas, se ao menos um daqueles disparos a atingisse de raspão, como o dela havia feito comigo…
“Entendo.”
Siesta desviou da chuva de balas com movimentos dignos de uma estrela de filme de ação. Em seguida, deu um salto tão alto que parecia ter se lançado de um trampolim, aterrissando no topo de um monte de escombros com vários metros de altura. Ela olhou para mim de cima, com o rosto inexpressivo.
“Essas suas balas têm tranquilizante?” Ela havia percebido tudo.
“......!”
“Sua expressão é sempre muito fácil de ler.”
Com uma observação descontraída de que eu deveria treinar minha cara de pôquer, Siesta desviou de mais um disparo ao saltar para baixo.
“Suas condições de vitória não incluem me matar. Você só está tentando me imobilizar temporariamente.”
…Ela tinha sacado meu plano quando eu perdi a paciência e comecei a atirar sem pensar? Ainda assim….
“Sim. Todas as armas que estou usando têm essa droga. Apenas 0,01 miligrama disso é suficiente para derrubar um elefante africano ou uma baleia-azul. Em outras palavras, se um único disparo sequer te arranhar, eu ganho.”
Esqueça ferimentos letais: ela não podia se dar ao luxo de nem mesmo ser arranhada. Em um campo de batalha, essa limitação impunha a maior pressão possível. Ela podia ter lido minhas cartas, mas eu podia usar isso contra ela.
“Desde o início, eu nunca planejei deixar que nenhum dos seus ataques me atingisse.”
No instante seguinte, senti uma presença humana logo atrás de mim. Quando percebi que era Siesta, ela já havia chutado meu braço direito outra vez, lançando minha arma para longe.
“…! Olha o que você fez! A gente mal começou, e agora meu braço direito já era.” Com a mão esquerda, saquei imediatamente uma faca do casaco e apontei para ela.
“A ponta dessa faca também está coberta com o tranquilizante?”
O punho de Siesta veio direto contra o meu rosto; ela segurava uma caneta esferográfica. Afastei o golpe com a faca, mas, dessa vez, ela acertou um potente chute giratório na minha lateral.
“…! …Hff.”
Ela havia tirado todo o ar dos meus pulmões, e eu rolei pelo asfalto obedecendo às leis da física. Nem preciso dizer que meu corpo inteiro doía. Ainda assim, aquela dor não se comparava à minha teimosia em não desistir.
Estendi a mão para pegar a arma que havia deixado cair….
“Eee… você está morto.”
Ao mesmo tempo… não. Siesta havia apontado sua arma um instante antes de mim e falou de cima, interrompendo meu movimento.
Quando ergui a cabeça lentamente, vi Siesta com a arma apontada para mim.
Ela a segurava com a mão esquerda.
“Se eu puxar o gatilho agora, você morre. Mas eu não vou fazer isso. E não acho que você seja burro a ponto de não entender o que isso significa, Kimi.”
Lentamente, Siesta estreitou os olhos azuis. Assim como eu havia iniciado aquela luta por causa do incidente do sequestro, Siesta agora tentava me fazer admitir a derrota ao recriar a forma como havia imobilizado Bat.
“…Você me chama de idiota o tempo todo, e vai terminar assim?”
Como ela mesma dissera, se eu não quisesse me machucar, se não quisesse acabar com um ferimento fatal, precisava recuar ali. Mas Siesta segurava a arma com a mão esquerda e, ao encará-la, uma conversa que havíamos tido certa vez me veio à mente.
Tinha sido um dia comum. Como sempre, estávamos sem dinheiro e sentados à mesa de jantar de um apartamento barato em algum país estrangeiro. Como a maioria dos japoneses, Siesta beliscava os acompanhamentos com os hashis na mão direita, quando eu lhe perguntei:
“Siesta, você não era canhota?”
Era uma pergunta tardia, e ela me olhou confusa. Afinal, ela sempre comia daquele jeito e, quando lutava, também segurava a arma com a mão direita. Ainda assim, eu tinha a impressão de que ela era canhota, porque fora com a mão esquerda que ela havia me puxado para aquele mundo.
“Vamos viajar juntos”, ela dissera. Sempre estendia a mão esquerda para mim, sorrindo com aquele sorriso de cem milhões de watts. Por isso, eu tinha entendido tudo errado.
“Você é idiota, Kimi?”, Siesta respondeu, como sempre.
“Eu seguro a arma com a mão direita.”
“Achei que você estivesse tentando usar os hashis.” Depois de trocarmos algumas provocações, por algum motivo, Siesta sorriu.
“É por isso que minha mão esquerda é a única que eu vou estender para você.”
Era a filosofia de Siesta. Eu entendia em parte e, em parte, não. Se tentasse explicar, provavelmente reduziria aquilo a algo banal. Enquanto eu mantivesse a resposta guardada dentro de mim, porém, poderia continuar segurando a mão esquerda que ela me oferecia. Por isso, naquele dia, não pedi que ela explicasse melhor.
Se havia algo que eu compreendia agora, era que Siesta estava ali, diante de mim, segurando uma arma justamente com a mão que deveria estar estendida para mim. Para usar as próprias palavras dela: eu já não era burro demais para entender o que aquilo significava.
“…É, você está certa. Eu perdi.”
De joelhos, com Siesta apontando a arma para mim, admiti a derrota de forma patética. Mas…
“Posso dizer só mais uma coisa?”
No centro de um grande cruzamento, livre de obstáculos, erguendo ambas as mãos para mostrar que não resistiria mais, levantei-me lentamente.
“Vai implorar pela sua vida?”
“Não vai me matar depois de eu ter admitido a derrota, vai?” Olhei para os olhos de Siesta; ainda havia perigo neles. Suspirei.
“Não é isso. Eu só percebi que você perguntou por que eu estava tentando te impedir, e eu não respondi.”
Era a pergunta que Siesta fizera logo antes de começarmos essa luta. Por que eu não a deixaria morrer, se um dia ela acabaria se tornando um monstro? Por que eu a seguia com tanta insistência, tentando permanecer ao seu lado?
Na minha cabeça, a resposta era óbvia demais, mas eu nunca a tinha colocado em palavras para Siesta.
Pensando bem, sempre fomos assim. Nunca dizíamos um ao outro o que realmente importava; assumíamos que o outro sabia, e acabávamos sempre nos desencontrando. Acreditávamos em nosso vínculo invisível, não, nós definitivamente tínhamos um desses. O problema era que, em algum ponto do caminho, passamos a confiar demais nele.
Nunca confirmamos esse laço com palavras. Achávamos que não era necessário. Pensávamos que, quando ficássemos de costas um para o outro no meio de um tiroteio, o outro simplesmente entenderia.
“Pensamentos transcendem palavras. Quando se coloca assim, soa bonito.”
Sem desviar da arma apontada para mim, dei um passo em direção a Siesta, depois outro.
“O que você está fazendo…?”, ela perguntou, sem conseguir entender minhas intenções. Apertou com mais força o punho da arma.
“Eu percebi que algumas coisas só são transmitidas de verdade quando são ditas em palavras.”
Tínhamos tido três anos inteiros. Trocamos provocações o tempo todo. Ainda assim, deixamos de lado esse tipo de conversa mais vezes do que deveríamos.
“Por que eu quis trazer você de volta à vida? Por que achei divertidos aqueles três anos cheios de problemas? Você sabe que só existe uma resposta.”
Eram palavras simples, mas eu nunca as havia dito. Dizê-las em voz alta soava clichê, pelo menos para mim.
“É porque eu te amo.” Ao ouvir isso, os olhos azuis de Siesta se arregalaram.
Eu não iria explicar se aquele “amor” era romântico, familiar ou algo parecido com carinho entre vizinhos. Eu mesmo ainda não tinha dado um nome a ele. Ainda assim, aquele sentimento esteve comigo durante todos aqueles três anos, sem mudar nem um pouco, e aquela era a palavra mais clara e direta para descrevê-lo.
“Isso é… O que eu deveria dizer? Eu não esperava por isso.”
Siesta havia abaixado a arma, embora provavelmente nem tivesse percebido. Sua voz soava confusa.
“Você passou todo esse tempo sem perceber algo assim? A própria detetive lendária?”
“…O problema é que o seu comportamento tsundere foge completamente do normal.” Nós dois brincamos com isso e, então, sorrimos de leve.
Dessa vez, minhas palavras realmente tinham alcançado Siesta.
“Mas…” De repente, chamas azuladas voltaram a cintilar nos olhos dela.
“Alguns problemas não podem ser superados apenas com sentimentos.” Um disparo ecoou. A bala passou zunindo rente à minha bochecha.
“Você sabia disso também. Receber uma confissão romântica sua não vai ser suficiente para me convencer agora.”
“Não me lembro de ter feito uma confissão dessas.”
“Ah, entendi. Então você estava me pedindo em casamento?” Por que essas eram as minhas únicas opções?
Sorrindo de maneira sem graça, levantei as mãos mais uma vez. Eu já havia admitido a derrota. Minhas armas não estavam por perto, então resistir sequer era uma opção.
“Eu sabia que não teria chances contra você.” Era algo que eu sabia desde o começo. E então…
“Daqui em diante, nós vamos atrás de você.” No instante seguinte, uma explosão ensurdecedora sacudiu o local, e uma fumaça negra subiu aos céus.
“! Uma granada!”
Ao detectar um intruso, Siesta deu um grande salto para trás, abrindo distância.
No entanto, uma garota interrompeu nosso confronto, atravessando a fumaça em perseguição a Siesta.
“Nem sequer se despedir da sua criada uma última vez, depois de todo o trabalho que deu a ela? Não acha isso um pouco cruel?”
A criada se voltou contra sua própria mestra, empunhando um florete. Uma rajada de vento agitou seus cabelos prateados e pálidos. Então….
“Charlie! Agora!”
Do telefone no bolso interno do meu paletó, a voz de uma garota ecoou pelo campo de batalha. Em seguida, ouvi um disparo. Era o som de uma agente solitária atirando da cobertura de um prédio distante, mirando a detetive lendária.
“......! Então era isso…”
No último segundo, Siesta conseguiu se esquivar da bala tranquilizante, que acabou arrancando um pedaço do asfalto. Ainda assim, ela havia percebido o meu, ou melhor, o nosso plano, e fez uma careta.
“Desculpa, Siesta. O verdadeiro confronto final começa agora.” Até salvarmos a detetive lendária, não iríamos parar.
A lembrança de um certo garoto
“Por que você é tão ruim em trabalhar em equipe?”
O sol já estava quase se pondo, e Siesta seguia alguns passos à minha frente pela rua estreita, suspirando. Em termos de velocidade, nenhum de nós tentava se adaptar ao ritmo do outro… mas provavelmente não era a isso que ela se referia.
Estávamos voltando para casa depois de fracassarmos, com segurança em uma certa missão. O motivo do fracasso era claro: minha completa incapacidade de me dar bem com Charlotte Arisaka Anderson, que havia se juntado a nós naquela operação.
Não importava quantas vezes fôssemos repreendidos pelo mesmo erro, não havia esperança de melhora enquanto a causa permanecesse.
“Eu nunca trabalhei em equipe com ninguém, nunca mesmo. Você pode me pedir agora para acompanhar o ritmo de outra pessoa, mas esse obstáculo é alto demais.”
Siesta e eu tínhamos começado nossa viagem pelo mundo cerca de um ano antes. E mesmo antes disso, infelizmente devo dizer, eu nunca tivera uma única pessoa que pudesse chamar de amigo.
Isso se devia à minha irritante predisposição inata para me meter em confusão. As pessoas queriam evitar problemas e, por isso, acabavam me evitando. Quando percebi, quinze anos já haviam se passado.
“Você está bem com isso?”
“O que eu quero não tem nada a ver com isso”, respondi, sem rodeios.
Ainda assim, eu já havia pensado em mudar várias vezes. Mesmo aos quinze anos, às vezes eu suspirava e me perguntava se não existiria uma forma um pouco melhor de viver. Mas, enquanto eu tivesse essa predisposição, não conseguiria trabalhar em equipe com ninguém, e ninguém conseguiria acompanhar meu ritmo.
“Bom, eu já me acostumei.”
Forçando um sorriso, caminhei sobre o asfalto. Esqueça amigos, eu nunca sequer tivera pais. Isso significava que eu aprendera a viver sozinho desde muito cedo.
“Mesmo assim, existem coisas que você não consegue resolver sozinho. Como hoje, por exemplo.”
Por cima do ombro, Siesta parecia insinuar que eu deveria fazer alguns amigos. Por não ter conseguido me entender com Charlie naquele dia, eu quase tinha levado um tiro inimigo. Ainda assim, no fim, Siesta havia intervindo e me salvado.
“Eu não vou estar sempre por perto, sabia?”
…A mulher que tinha me arrastado para aquela jornada agora fazia comentários irresponsáveis do nada.
“Dito isso, se eu encontrar companheiros, talvez acabe colocando todos eles em perigo.”
Considerando minha habilidade especial de atrair confusão, essa possibilidade era bem alta. Aquelas eram as estrelas sob as quais Kimihiko Kimizuka havia nascido. Em vez de simplesmente aceitar esse destino, eu havia alcançado uma espécie de iluminação. Eu não precisava de amigos que caminhassem ao meu lado.
“Onde você está indo?” Antes que eu percebesse, ouvi a voz de Siesta atrás de mim.
“Você é idiota, Kimi?” Ela então surgiu ao meu lado esquerdo.
“Viu como é fácil caminhar junto com alguém?” O sol poente tingia o asfalto de laranja, e duas sombras negras se alongavam sobre ele.
“Claro que eu não sou sua amante, e tenho certeza de que nem sequer sou sua amiga. Nem sei se você poderia me chamar de companheira. Mas…” Siesta falou olhando para frente.
“Agora, eu estou caminhando ao seu lado.” A luz alaranjada iluminava suavemente seus cabelos prateados.
Quando roubei um olhar para o perfil dela, ele me pareceu mais digno e belo do que qualquer pintura ou escultura famosa.
“Um dia, você também terá companheiros.” Olhando para mim, Siesta sorriu de forma gentil.
“E tenho certeza de que vocês vão unir forças para realizar algo.”
…Não sei. Não consigo imaginar isso direito. Além disso, havia aquela minha predisposição. Mesmo que Siesta estivesse certa, esses futuros companheiros provavelmente seriam todos uns esquisitos.
“Bom, se isso acontecer algum dia, eu te apresento.”
“Sim, vou aguardar ansiosamente.”
Pisando sobre nossas longas sombras, seguimos pela rua banhada pelo pôr do sol, lado a lado.
Um tiro em branco de um juramento, contado a dez mil metros de altura
A granada havia envolvido o campo de batalha em uma espessa fumaça negra. Uma garota solitária saltou através dela, com o uniforme de criada tremulando ao vento.
“Estamos contando com você, Noches.” Segurando meu braço direito inutilizado, me enfiei à sombra de alguns escombros.
“Entendo. Então esses são os seus companheiros agora.”
Pouco antes de eu conseguir me esconder, por apenas um instante, os olhos azuis de Siesta me encontraram através de uma brecha na fumaça levada pelo vento.
O desejo de impedi-la de morrer pertencia a todos nós. Se companheiros fossem definidos como pessoas que compartilham um objetivo comum, então a garota que avançava correndo com uma espada em uma das mãos certamente se enquadrava nisso.
“Ainda assim, nunca imaginei que você se rebelaria contra mim.” Siesta apontou a arma para Noches, preparando-se para reagir… mas a pistola voou de sua mão, atingida por um disparo vindo de longe.
“Charlotte, Yui. Vocês também?” Siesta lançou um olhar rápido para o prédio na direção de onde viera o tiro, mas logo voltou sua atenção para a oponente imediata.
“Noches, não acredito que você tenha sido feita para o combate”, resmungou ela à ex-criada, desviando de um golpe de espada desferido com apenas uma mão.
“Mm, sim. Eu previ essa situação e blefei.”
“Você quer dizer que preparou tudo isso duas semanas atrás para me fazer baixar a guarda? Que preparação absurdamente minuciosa.”
A resposta de Siesta foi fria; provavelmente ela não estava levando Noches totalmente a sério. Será que já havia percebido que tínhamos recorrido novamente ao poder de uma certa Inventora?
“Minha antiga mestra me ensinou a me preparar para resolver um incidente antes mesmo que ele aconteça.” Noches se abaixou e, num ímpeto, encurtou a distância entre as duas.
“Essa espada também está coberta com tranquilizante?” Estava. Se ela sequer arranhasse Siesta, venceríamos aquela luta na hora.
“…! Posso ser um androide, mas acho que a senhora é ainda mais desumana do que eu, Mestra.” Siesta havia sacado novamente aquela caneta esferográfica e a usou para arrancar a espada da mão de Noches.
“Oh? Dizem mesmo que a caneta é mais poderosa que a espada.”
“…Você sempre tem uma resposta pronta, não é?”
Diante disso, Noches sacou um par de pistolas. Disparando dois tiros em uma demonstração magnífica de ambidestria, ela acertaria seu alvo preso ao chão… se esse alvo fosse qualquer outra pessoa.
“Nenhum dos seus ataques jamais vai funcionar contra mim.”
Impulsionando-se do chão, Siesta lançou o corpo para trás como se executasse um salto Fosbury flop. As balas cortaram o espaço logo abaixo dela.
“Então vamos continuar até que um funcione.”
Noches manteve uma rajada incessante de tiros, como se nossas vidas dependessem disso. Ela retirava uma sequência interminável de armamentos pesados de dentro do uniforme de criada. Enquanto avaliava a situação, pensei no que deveria fazer e tentei mudar de posição.
“Uma disputa de resistência? Isso não é muito inteligente.”
Enquanto isso, Siesta continuava a se esquivar dos disparos de Noches com uma precisão incomparável. Saltou do asfalto, correu pelas paredes dos prédios, atravessou telhados em disparada, lançou-se no vazio e, por fim, alcançou os trilhos elevados do trem.
O ataque da semente primordial os havia deixado completamente cobertos por vinhas, e nenhum trem circulava por aqueles trilhos abandonados.
“Eu não vou deixar você escapar.” Noches perseguiu Siesta, usando carros abandonados e postes telefônicos como apoio para os saltos.
“…Elas estão me ignorando completamente.” O que, para mim, era conveniente.
Eu não conseguia seguir o caminho mais curto até os trilhos como elas. Corri pela cidade vazia e destruída por vários minutos, até finalmente chegar à estação.
Saltei a catraca sem vigilância, subi as escadas correndo sem sequer recuperar o fôlego e avancei até o fim da plataforma, tropeçando no caminho. Então, com os olhos marejados, olhei para os trilhos, e vi Noches ajoelhada no chão, com Siesta apontando uma arma para ela. Devia ter tomado suas pistolas e a mantinha imobilizada.
“Charlie! O vento parou!”
Naquele instante, a voz de uma certa idol ecoou pelo campo de batalha através do fone sem fio que Noches havia deixado cair. Um tiro disparado de lugar nenhum passou raspando, abaixo de Siesta.
O atirador havia disparado de um prédio a várias centenas de metros de distância. Com o olho esquerdo de Saikawa lendo as correntes de vento, a pontaria de Charlotte Arisaka Anderson tornara-se ainda mais precisa.
É verdade que a Seed havia recuperado a semente de Saikawa, mas a habilidade que residia em seu olho esquerdo permanecera. Era como se a Seed tivesse tentado deixar aquele olho de safira neste mundo por conta própria.
Agora, se ao menos a pressão do ataque combinado conseguisse desacelerar Siesta.
“Duas vezes. Esse ataque também não vai funcionar.”
Minhas esperanças foram despedaçadas imediatamente. Primeiro, Siesta chutou Noches para longe. Em seguida, virou-se e apontou a arma para a agente loira que se aproximava furtivamente por trás.
“…Senhora. A senhora não parece surpresa.” Charlie congelou, com uma adaga em posição de ataque.
Como Charlie vinha atirando de um prédio distante, não havia como Siesta prever que ela subiria até os trilhos. No entanto….
“Eu sabia que meu assistente e Noches estavam me deixando ouvir a voz da Yui de propósito. As instruções que ela estava passando eram um blefe. Você esteve escondida aqui o tempo todo, esperando uma oportunidade.”
Ela havia percebido. Encarando o cano da arma, Charlie mordeu o lábio e lançou a faca para longe.
“Eu nunca imaginei que você também se voltaria contra mim, Charlie.”
“Aprendizes sempre acabam superando seus mestres.” Nesse instante, outro disparo ecoou, e uma bala passou raspando sob Siesta.
“É impressionante ela conseguir fazer tudo isso tendo apenas o olho esquerdo como guia.”
O projétil atingiu os trilhos com um estrondo metálico intenso, desviando a atenção de Siesta por um breve momento. Charlie aproveitou a oportunidade para recuar, criando distância entre elas. Em seguida, sacou sua arma e a apontou para Siesta.
“Achou que poderia me vencer num saque rápido?” Siesta também estendeu o braço direito, apontando sua própria arma para Charlie.
“...Você tem razão. Talvez eu ainda não consiga vencê-la, senhora. Mas...” A voz de Charlie ganhou firmeza.
“Talvez nós consigamos.” Esse foi o sinal.
“Por que fui designado para esse trabalho se nem carteira de motorista eu tenho?”
Montado na moto que havíamos preparado, balancei a cabeça e acelerei. O motor rugiu enquanto eu saltava da plataforma para os trilhos. E então….
“...! Por que você está com isso, Kimi?”
Charlie se lançou para fora dos trilhos. Em seu lugar, avancei contra Siesta, segurando o mosquete da Detetive Ás, pronto para disparar.
“...Não me lembro de ter lhe entregado isso.”
“Não. Só estou aqui para devolver.”
Desde aquele dia, há quatro anos, como seu assistente, sempre foi meu trabalho devolver isso a você.
“Mas antes...”
Meu alvo estava a vinte metros. Guiando a moto com os joelhos, segurei o mosquete com ambas as mãos e atirei.
“Entendo. Realmente não esperava por essa. ...Ainda assim.”
Os olhos azuis de Siesta se voltaram para mim enquanto eu avançava pelos trilhos desertos com a motocicleta.
“Essa foi a terceira. Eu acreditei que vocês se uniriam.”
Siesta puxou o gatilho da arma em sua mão esquerda. O disparo foi tão preciso que poderia atravessar o buraco de uma agulha. As balas que disparamos colidiram no ar com um estrondo, anulando-se mutuamente.
Quando isso aconteceu, minha motocicleta já estava bem diante de Siesta. Se eu usasse o impulso para colidir contra ela….
“...Droga!” Puxando o guidão para o lado, joguei meu peso à direita na tentativa de evitar o impacto. Naturalmente, fui arremessado para o vazio.
“Você é idiota, Kimi?”
Tive a sensação de ouvir uma voz me repreendendo pela imprudência. Por um instante, meu corpo pareceu suspenso no ar, leve, imóvel.
“...Ai.”
Logo depois, rolei pelos trilhos. Foi como se tivesse levado uma surra no corpo inteiro com um chicote. Mas não havia tempo para gemer de dor ou recuperar o fôlego. Levantando o rosto do cascalho, avaliei a situação, e o que vi foi...
“Este é um campo de batalha, Charlotte.”
“....!” A bala de Siesta raspou o ombro direito de Charlie. Aquele tiro provavelmente era a cortesia mínima concedida a uma agente que arriscava a vida em combate.
“...Ainda não. Senhora... eu ainda...”
Charlie se levantou. Seu ombro sangrava, mas ela continuava segurando a arma, tentando corrigir o erro de sua mestra. Enquanto Siesta observava sua aprendiz, por um breve instante, o cano da arma pareceu vacilar. Ela estaria pensando em onde deveria atirar para garantir a imobilização do alvo ou….
“...! Charlie!”
Nesse momento, a sombra de uma garota surgiu. A voz pertencia a certa idol, a mesma que eu ouvira pelo comunicador instantes antes. Agora, eu a escutava de verdade, a apenas dez metros de distância.
Siesta suspirou e murmurou:
“Quarta vez. Eu também sabia dessa devoção.”
Ela devia estar observando os intervalos entre os disparos e os impactos, percebendo que a atiradora estava se aproximando aos poucos. Saikawa se colocou à frente de Charlie, arma em punho. Siesta apontou a sua para ela.
“Eu não vou permitir.”
Nesse instante, Noches surgiu como o vento e chutou a mão direita de Siesta para cima. A arma voou alto no ar.
“Desculpe, mas o seu timing foi perfeito.” Em vez de recuar, Siesta acertou um chute preciso no abdômen de Noches.
“....!”
Alguém gritou, mas não consegui identificar quem. Noches foi lançada para longe, colidindo com Saikawa e Charlie, derrubando as duas. As três rolaram pelo lastro de pedras entre os trilhos. Por fim, ninguém mais bloqueava o caminho de Siesta.
“Acabamos agora?”
Siesta fechou os olhos e respirou fundo, lenta e profundamente. Após algum tempo, voltou a abri-los. Não havia emoção alguma neles. A Detetive Ás era a mesma de sempre.
“Nagisa ainda está dormindo; ela não pode vir. Nesse caso, quem será o próximo? O Oráculo ou o Assassino...? A Vampira? Bem, não importa quem seja. Eu não vou perder.”
Com a mão esquerda, Siesta apanhou o mosquete que eu havia deixado cair sobre os trilhos e disparou para o céu.
“Para proteger o mundo, eu matarei a mim mesma. Para alcançar isso, eu derrotarei vocês. Ao derrotá-los, eu posso protegê-los. Este é meu último trabalho como a Detetive Ás.”
Siesta era uma Tuner , uma das guardiãs do mundo, e aquilo era o juramento de uma heroína. Dentro dela, dormia uma seed capaz de destruir o mundo. Para impedir que germinasse, ela encerraria sua própria história com as próprias mãos.
“E assim, você é o meu inimigo final, Kimihiko Kimizuka.” Siesta apontou o mosquete para mim. Eu já estava de pé novamente.
“Poxa… você diz meu nome completo pela primeira vez justamente numa situação dessas?” Sorri, com um quê de resignação, enquanto apontava minha própria arma para Siesta.
Ainda assim, para a impecável Detetive Ás, aquilo era incomum. Aquele juramento precisava de duas correções. A primeira era….
“...Seus companheiros nunca aprendem, não é?” Três figuras haviam se levantado atrás de mim, e Siesta suspirou.
Não era só eu. Ninguém ali havia desistido de impedi-la. E havia mais uma coisa em que ela estava errada.
“Siesta, nós não vamos deixar você concluir esse trabalho final.” Eu já tinha enxergado um caminho para a vitória.
A lembrança de uma certa garota
“E então? Que tipo de parceiro você acha que daria certo?” perguntei ao meu assistente.
Estávamos tomando chá-preto em um café ao ar livre. Naquele dia, ele havia cometido um erro em uma missão específica, e resolvemos fazer uma análise pós-ação no caminho de volta para casa. Na verdade, ainda não havíamos terminado. Continuei, direcionando a conversa para ele, na esperança de convencê-lo a fazer alguns amigos.
“Que tipo de pessoa eu conseguiria me dar bem…?” sentado à minha frente, meu assistente refletiu com uma seriedade inesperada.
“Alguém gentil, com jeito de irmã mais velha, que consiga aceitar todos os meus defeitos com tolerância”, respondeu por fim.
“Você está descrevendo seu gosto por garotas, não um companheiro.” Sinceramente. E eu tentando ter uma conversa séria.
“Além disso, você acabou de me descrever perfeitamente.”
“Como assim? Você é o completo oposto disso.” Eu não estava me fazendo de desentendida, mas ele retrucou mesmo assim. Não entendo esse garoto.
“Você fica falando de mim, mas e você, Siesta?” ele perguntou.
“Você tem companheiros?”
Vários rostos surgiram em minha mente o de Charlie, é claro. A Oráculo em sua alta torre do relógio. A policial ruiva… ou talvez ela fosse mais uma camarada do que uma amiga.
Além disso…
Eu tinha a sensação de que existiam outros. Pessoas que eu definitivamente poderia chamar de companheiras, muito tempo atrás. No entanto, minhas lembranças eram estranhamente nebulosas, como se alguém as tivesse selado. Eu sabia que elas existiram, mas já não conseguia recordar seus nomes nem seus rostos.
“...Talvez seja por isso que eu fique tanto no seu pé sobre esse assunto.” Porque eu havia perdido os meus. Em troca, queria que meu assistente os tivesse.
“Eu nem entendo direito o que você quer dizer com ‘amigo’ ou ‘companheiro’.” Meu assistente parecia não ter me ouvido.
Falava como um estudante do ensino fundamental tomado por delírios de onipotência embora, pela idade, ele realmente devesse estar no fundamental.
“Às vezes, você coloca a outra pessoa em primeiro lugar… porque quer.” Ele fez uma pausa.
“Acho que esse tipo de relação conta como ‘amizade’ ou ‘companheirismo’, não acha?”
Não existiam critérios claros, é verdade. Ainda assim, senti que, de vez em quando, era necessário tentar dar forma às ideias abstratas.
“Então… não é isso que nós somos?” Eu não esperava aquela pergunta, e minha mão congelou a meio caminho da xícara de chá.
“...Hoje, quando você não conseguiu se entender com a Charlie e quase levou um tiro, você se colocou em risco para me proteger. Isso significa que você pensa em mim como, bem… quer dizer…”
Os olhos do meu assistente se voltaram para meu ombro esquerdo enfaixado. Sua expressão era um misto complicado de emoções. Embora, para mim, aquele ferimento não fosse nada digno de nota.
“Eu te protegi por causa do nosso contrato.”
Era uma promessa que eu havia feito ao meu assistente um ano antes. Eu lhe dissera que o protegeria. Foi com essa condição que o trouxe nessa jornada. Isso significava que me colocar em risco quando ele estivesse em perigo era simplesmente o meu trabalho…
“Ainda assim, você parecia bem desesperada hoje.” Por algum motivo, meu assistente me encarava como se tivesse descoberto algo curioso.
“Na verdade, Siesta, você sempre fica bastante abalada quando eu estou realmente em perigo.”
“....!” Que assistente atrevido. Eu só, eu apenas….
“Haah…”
Não consegui reunir energia para responder. Em vez disso, soltei um suspiro pesado. O mais importante para mim sempre foi proteger os interesses de meus clientes. Enquanto eu pudesse fazer isso, já estava satisfeita.
“Pensando bem, Kimi, você não pediu café. Isso é estranho.”
De repente curiosa e, na verdade, querendo mudar de assunto, apontei isso para meu assistente. Ele geralmente pedia café quente, mas daquela vez estava tomando chá, assim como eu.
“Hoje é um dia de chá-preto.”
“Entendo.”
Ficamos sentados na varanda, bebendo o mesmo chá e observando o mesmo pôr do sol.
É assim que eu defino “viver”.
“Siesta, nós não vamos deixar você concluir esse trabalho final.”
No alto dos longos trilhos elevados, meu assistente apontou a arma para mim. Seguindo o exemplo dele, os outros três me cercaram. Os quatro formaram um quadrado oco, posicionando-se em diagonais uns em relação aos outros, claramente decididos a não me deixar escapar.
“...Vocês são idiotas?”
“Se fizerem isso, mesmo que realizem o desejo de vocês, a semente de seed continuará me corroendo até que eu me torne um monstro. Não há como impedir isso.”
“Vocês não entendem que desaparecer é o último trabalho que sou capaz de cumprir?”
Meu dever final.
Na verdade, isso tudo já deveria ter acabado há muito tempo. Mais precisamente, no ano passado, quando morri para selar Hel. Confiei meu último desejo ao meu assistente, bem como a Nagisa, Yui e Charlie. Por meio de Noches, eu os libertei dos problemas e das maldições que os prendiam. Depois disso, meu trabalho deveria estar concluído.
No entanto, meu assistente e Nagisa sobrepujaram o futuro que eu havia visualizado. O resultado foi uma sucessão de caos, e Nagisa acabou vítima da distorção. Ainda assim, embora eu tivesse pretendido selar Hel como meu último trabalho, ela derrotou a seed primordial e encerrou a história de uma nova maneira.
Isso significava que o fato de eu ainda estar ali era apenas uma extensão daquela batalha. Algo redundante. Um epílogo que nunca precisou ser escrito.
…Mesmo assim.
Eu estava naquele campo de batalha. Havia empunhado aquela arma mais uma vez. E, portanto….
“Jamais abandonarei meu trabalho. Colocarei minha vida em risco e cumprirei meu dever como a Detetive Ás.” Vários disparos ecoaram, e a batalha final começou de verdade.
“Eu já estava cansada de ver balas há cerca de quatro anos.”
Projéteis vinham em minha direção de quatro lados diferentes, mas, se alguém compreendesse o ângulo do cano até o milímetro exato, era possível ser mais rápida que uma arma de fogo. As balas acabaram atingindo apenas o cascalho entre os trilhos, ou o nada, enquanto eu corria com o vento, deixando-as para trás.
Eu enfrentava quatro inimigos, mas todos já estavam feridos. Se os neutralizasse um a um, não seriam um problema. Primeiro, com todo respeito, mas….
“Yui Saikawa. Seu olho esquerdo é um problema.”
“......!”
A capacidade de visão cinética daquele olho superava em muito a dos humanos comuns. Em combate, seria mais útil do que qualquer armamento pesado. Com a intenção de privá-los dessa vantagem, corri em direção a Yui. Ela pareceu surpresa.
É claro que eu não pretendia matá-la, nem danificar aquele olho azul. O mosquete que eu segurava havia sido trazido por meu assistente. Isso significava que, muito provavelmente, estava carregado com balas tranquilizantes.
…Ou talvez ele tivesse presumido que eu tomaria a arma, e, nesse caso, apenas o primeiro disparo seria tranquilizante. Não havia como saber. Eu teria de testar.
Planejei apenas tocar Yui com um tiro; se tudo desse certo, ela dormiria por um tempo. Chegando rapidamente a essa conclusão, comecei a apertar o gatilho….
“....!”
Nesse instante, Charlie se lançou à frente de Yui, protegendo-a. Naquele ângulo, eu a atingiria, e acertaria sua cabeça. Um tiro no ombro seria aceitável, mas um ferimento na cabeça poderia ser fatal.
“...Isso não combina nada com você, Charlie.”
Resmungando diante da péssima decisão da minha aprendiz, abaixei a arma temporariamente e recuei alguns passos.
“Senhora Siesta. Este é um campo de batalha. Aqui lidamos com vidas, correto?”
Subitamente, senti alguém se aproximando para um golpe mortal. Girei o corpo, e a espada de Noches varreu o espaço onde eu estivera um instante antes. A lâmina estava revestida com tranquilizante; se me tocasse, seria o fim.
O número de restrições era enlouquecedor. Apontei minha arma para ela. Seu corpo era mecânico e, salvo algumas exceções, qualquer ponto atingido não lhe causaria danos graves. Dessa vez, relaxei e….
“Noches!” Como se fosse protegê-la, meu assistente saltou para a frente dela.
“...! Você é idiota, Kimi?!”
No último instante, atirei no vazio. Não havia como prever o que meu assistente faria, e, se eu o atingisse no lugar errado, poderia matá-lo.
“Seus instintos continuam péssimos, Kimi.”
Ao pensar nos acontecimentos recentes, lembrei-me da batalha dele contra o Camaleão no navio de cruzeiro. Naquela ocasião também se colocara no lugar errado e acabara recebendo o ataque do inimigo. Sob qualquer ponto de vista, eu ou, naquele caso, Noches éramos muito mais adequadas para absorver golpes do que ele. E, ainda assim….
“...É isso, então?”
Naquele momento, um pressentimento terrível me atravessou a mente. Ao mesmo tempo, uma bala passou zunindo bem diante do meu rosto.
“Sinto muito, Charlie. Parece que a Siesta percebeu tudo mais rápido do que esperávamos.”
“Bem, ela é a primeira e única professora que decidi respeitar até a morte.”
Alguns metros à frente, Charlie sorria com orgulho. Ela apontou a arma novamente para mim.
“Se você não desviar, eu vou acertar.” Ficou imediatamente claro que ela não estava falando comigo.
“É. Mas acho que vai ficar tudo bem.”
“….!” Bang!
Meu assistente estava atrás de mim. No exato momento em que o disparo ecoou, agarrei-o pela frente da camisa, e caímos juntos, desviando da bala de Charlie.
“Porque a Siesta vai me salvar. Está vendo?”
Deitado no chão, meu assistente abriu um sorriso. Em seguida, sentou-se e apontou sua arma para mim.
“Vocês são todos completamente idiotas…?!” Girei o corpo, encarando meus quatro inimigos.
“Então esse é o plano final de vocês para me encurralar?”
Se eu tentasse atacar qualquer um deles, outro se colocaria à frente para protegê-lo. Ainda assim, puxariam o gatilho sem hesitar, mesmo correndo o risco de atingir um companheiro. Era um plano tolo, cheio de contradições. Eles queriam se proteger… ou me deter a qualquer custo?
À primeira vista, não dava para saber. Mas, se existia uma resposta capaz de resolver essas inconsistências.
“É isso mesmo, Siesta. Não existe absolutamente nenhuma chance de você nos matar.” No instante seguinte, a bala de Noches veio em minha direção…
…e também na direção do meu assistente, logo atrás de mim.
“....!”
Desviando o mosquete para o lado, eu o afastei com um golpe. Ao mesmo tempo, Yui mirou em Charlie, que estava do meu outro lado.
“Eu já disse….!”
Não houve sequer tempo para continuar falando. Quando Yui disparou, apertei meu gatilho também; nossos tiros colidiram no ar, e o projétil que seguia em direção a Charlie foi desviado de sua trajetória.
Embora eu tivesse declarado que aquilo era uma guerra, vinha me movendo de forma a evitar que os outros morressem. Mais cedo ou mais tarde, a quantidade incontável de balas cruzando o campo de batalha acabaria ferindo-os mortalmente. Eu vinha instintivamente evitando esse desfecho.
No entanto, os quatro estavam se aproveitando da minha hesitação, colocando-se deliberadamente em perigo para me confundir e limitar meus movimentos.
“Você hesitou especialmente quando atacou Saikawa, que não está acostumada a lutar, e quando eu quase desmaiei na motocicleta, você me salvou por reflexo. Você é mole. Não conseguir matar seus companheiros é, ao mesmo tempo, sua maior força e sua maior fraqueza.”
…A antiga eu não teria hesitado numa situação como aquela. Eu priorizava o cumprimento do meu dever, acreditando que isso traria felicidade ao maior número possível de pessoas. Na verdade, eu tinha certeza de que essa postura havia protegido os interesses de muitos dos meus clientes.
Como resultado, a antiga eu considerava esse tipo de hesitação um ato de autopiedade. E, ainda assim, para uma pessoa, aquilo era gentileza; para outra, podia até ser chamado de paixão.
Sem perceber, eu havia aprendido essas coisas. Aquela hesitação era o motivo pelo qual meu coração ainda batia com tanta força. A essa altura, ela já fazia parte dele.
“…Que atitude covarde. Vocês não acham que estão tratando suas próprias vidas com descaso?”
“Antes de tudo, senhora, a sua vida está em jogo nesta batalha. Seria falta de educação não colocarmos as nossas também”, declarou Charlie com bravura. Ela soava como uma agente de verdade.
Seguindo essa mesma lógica, eu já havia atirado no ombro dela uma vez, e não conseguia pensar em uma resposta para aquilo. Nesse caso, o que eu precisava fazer agora era….
“Não vou deixar você escapar!”
O olho esquerdo de Yui previu meu movimento. No instante em que eu estava prestes a saltar da via elevada, um estrondo ensurdecedor me distraiu. O chão sob meus pés tremeu violentamente e, em seguida, começou a desmoronar com um rugido contínuo.
“......! Explosivos.”
Teria sido obra de Noches? Não havia tempo para confirmar, e isso tampouco importava. A via elevada onde eu estivera segundos antes havia se transformado em escombros, e fui lançado ao ar, envolto numa chuva de cascalho e sucata metálica.
“....!”
A queda livre durou cerca de dez metros. Não havia obstáculos; se eu tivesse me preparado para saltar, teria pousado sem problemas. No entanto, fui pega de surpresa e soterrada por uma avalanche de pedras. Embora tenha conseguido realizar o pouso mais seguro possível, bati com força no asfalto.
A estratégia que eles haviam montado só podia ter sido baseada na confiança de que eu sobreviveria a algo assim. …Mas, mesmo que eu tivesse escapado ilesa, eles….
“…Assistente!”
“Eu juro… você nunca pensa em si mesma primeiro.”
Apontei meu mosquete na direção da voz e vi meu assistente além da nuvem de poeira, segurando uma arma com a mão esquerda. A essa altura, já havia perdido a conta de quantas vezes tinha visto aquela cena. Atrás dele, os outros três emergiam dos escombros. Presumi que Noches tivesse protegido meu assistente, enquanto Charlie mantinha Yui em segurança.
“Haah…! Você está… horrível…”
O braço direito do meu assistente pendia sem força, e ele sangrava pela cabeça. O casaco preto do qual tanto se orgulhava estava em farrapos.
“…Haah… Então… você também.” Ele não sabia que havia coisas que jamais se dizem a uma garota? Francamente!
“…! ……Haah.” Ainda assim, eu não conseguia esconder minha respiração irregular nem os batimentos acelerados do meu coração.
O pior de tudo era que eu havia torcido a perna. Agora, não seria capaz de fazer uma retirada limpa de forma alguma.
“…Como foi que isso acabou assim?”
Não deveria ter sido desse jeito. Por que meu assistente e eu precisávamos apontar armas um para o outro, em primeiro lugar? Essa história deveria ter terminado quando a seed primordial foi selada. Mas eu não queria que Nagisa permanecesse inconsciente, e decidi observar a história por mais um pouco, até o fim da rota X do meu assistente.
Embarquei num avião com ele, decidida a que aquela fosse a última vez.
Viajamos para o exterior, nos envolvemos num incidente inesperado e encontramos um novo inimigo. Meu assistente considerava a luta contra o Ladrão Fantasma uma continuação da crise da seed primordial. Sendo assim, eu continuaria sendo a detetive, Kimihiko Kimizuka continuaria sendo meu assistente, e nós dois seguiríamos combatendo os inimigos do mundo, incluindo o Ladrão Fantasma… Se eu dissesse que não havia imaginado esse futuro nem por um instante, estaria mentindo.
Ainda assim, eu estava certa desde o começo: não podia ir além disso. Não podia passar a eternidade imersa naquele epílogo morno. Eu apenas cumpriria meu papel como peça da rota X , na posição de Detetive Ás. Tecnicamente, eu deveria ter morrido um ano antes. O simples fato de ainda estar envolvida em tudo aquilo já era, por si só, um milagre.
E assim, enfrentei Kimihiko Kimizuka, meu inimigo fina, não, o protagonista.
Eu não tinha qualquer intenção de perder. É claro que não. Perder significaria ser salva pelo protagonista. Eu não permitiria que uma história tão insossa se encerrasse dessa forma.
“Você é a justiça, e eu sou o mal. Está tudo bem assim. Sempre foi isso que eu quis.”
Usando apenas a perna que ainda funcionava, impulsionei meu corpo para frente. Aquela batalha terminaria em breve. Arma em punho, avancei em direção ao meu último oponente.
“Kimizuka, para a direita!”
Era a voz de Yui. Seguindo as instruções dela à distância, meu assistente se lançou para o lado, desviando da minha bala.
“…! Você está mesmo de acordo com isso?!”
Mesmo rolando pelo chão, ele atirou em minha direção. Eu me esquivei, movendo apenas a parte superior do corpo.
“Siesta, me diga. Qual é o seu desejo?”
Ouvi mais disparos, desta vez, vindos de Noches e Charlie, bem atrás de mim. Se ao menos me atingissem de raspão, eu perderia.
“Tenho apenas um desejo: quero que vocês vivam. Todos vocês.”
Foi por isso que apontei minha arma de cano longo para as garotas: para disparar as balas que lhes permitiriam viver.
“Não pode ser só isso!”
Teimoso. Meu assistente bloqueou meu caminho novamente, e minhas mãos começaram a tremer levemente. Meu coração batia com força, e a respiração curta tornava minha visão turva.
“Como você saberia?!”
“Você mesma disse isso!”, ele gritou. A dor em seu rosto era intensa. Disse que aquilo havia acontecido um ano antes, depois da luta contra Hel, quando o pólen o fizera adormecer. A frase devia ter escapado pouco antes de minha consciência se apagar, um pensamento que eu jamais tivera a intenção de que ele ouvisse.
“Não me lembro de nada disso”, respondi, atirando para afastar minha hesitação. Não mirei, e errei por muito. Ainda assim, fortaleci minha determinação. Desviando dos tiros que Charlie e os outros disparavam à distância, iniciei meu confronto final com meu assistente.
“O quê? Está dizendo que não se lembra do que você mesma disse?” Ele certamente não tinha tempo para conversa fiada, mas continuava falando enquanto atirava.
“Se você não disser, eu direi.”
[...]
“Você não quer morrer, quer?” Impossível. Um desejo como esse, agora?
“Nós vamos dar um jeito.”
Você não pode.
“Eu vou encontrar uma maneira de fazer você viver!” Escute, eu já disse que isso não é possível.
“Você sempre desejou felicidade para seus clientes, e esses clientes são todas as pessoas deste planeta. Como pode ser a única que não conta? Isso não está certo!”
Você está enganado. Eu era feliz.
Eu estava satisfeita, ou deveria estar. E, ainda assim...
“Siesta, eu quero que você viva.” Se você me diz algo assim, eu...
“....!”
Meu assistente atirou contra meu braço esquerdo; era um disparo feito para me manter viva. Por reflexo, movi o braço, varrendo o mosquete para o lado e repelindo a bala no ar.
...Mesmo assim, meus pensamentos contraditórios faziam a mesma pergunta à minha mente:
Qual é o seu verdadeiro desejo?
“Eu...”
Perguntei a mim mesma mais uma vez. Eu já havia morrido uma vez. Não havia necessidade de manter aparências, nem de preservar o orgulho. Eu abandonaria a vergonha e a reputação, deixaria de lado cálculos e enganos.
Por ora, esqueceria meu papel e a posição que ocupava; fingiria que minha história e minhas palavras jamais existiram. Não havia sentido em pensar em um futuro nebuloso. Apenas por agora, fingiria não enxergar minha responsabilidade para com este mundo.
Suponha que eu fosse a única pessoa existente neste instante. O que eu desejaria? Que sonho eu gostaria de realizar? Não importava se era possível ou impossível. Não se tratava de imprudência ou viabilidade. Se houvesse apenas uma coisa que eu quisesse, a resposta era simples.
“Quero tomar chá com você outra vez.” Eu queria viver.
“Certo. Desejo aceito.” Meu assistente apontou a arma para o meu rosto.
Entendo. Então é assim que você sorri agora.
“Você fala como um detetive”, respondi com leveza. Se eu não fizesse nada, o tiro apenas roçaria minha bochecha.
Se isso acontecesse, meu desejo se realizaria. Meu parceiro mais querido, o protagonista, me salvaria. Esse devia ser o final feliz que todos esperavam.
Com a bala que encerraria tudo bem diante de mim, eu lhe disse:
“Mas uma detetive não pode perder para seu assistente.” Eu jamais lhe daria as costas.
Não era correto permitir que o assistente visse sua detetive admitir a derrota.
Desviei da bala e, em seguida, apontei contra ele o mosquete que empunhei durante toda a minha vida como a Detetive Ás.
“Sim, é verdade. Eu realmente não sou páreo para você. Por isso...” Os lábios do meu assistente se moveram.
“Ela vai assumir esse seu desejo por mim, Siesta.”
No instante seguinte, percebendo a presença de alguém atrás de mim, virei-me e preparei o mosquete.
“... Por que você está aqui?” Meus olhos se arregalaram.
“Como rainha da terra dos mortos, eu proíbo você de vir a este mundo.”
À minha frente estava uma garota de cabelos curtos e negros, vestindo uniforme militar.
“Por que você...? Hel?” No instante seguinte...
A garota de uniforme lançou os braços ao meu redor, abraçando-me com força.
“Te enganei. Desculpe. Sou eu, Nagisa. Buenas noches.”
“P-por quê...?”, murmurei. Na verdade, porém, eu já esperava que Nagisa viesse até aqui.
Uma vez, tomei seu corpo emprestado e despertei para ajudar meu assistente. Da mesma forma, se fosse por ele, Nagisa correria ao seu encontro, não importava onde estivesse. Alguns poderiam chamar isso de “conveniência improvável” e rir, mas era assim que estávamos ligadas.
“Faz muito tempo, Siesta.” Seus braços afrouxaram o abraço e me soltaram com delicadeza.
O sorriso suave de Nagisa estava bem diante de mim. Ela havia cortado o cabelo longo.
Dessa vez, fui completamente enganada. Quem imaginaria que ela apareceria disfarçada de Hel?
“Você não mudou nada, Nagisa”, comentei, com um leve tom de despeito. Eu estava um pouco contrariada por ter sido passada para trás.

“É mesmo? Eu acho que mudei bastante o visual.”
“Eu estava falando por dentro. E o que é isso, afinal? Te partiram o coração ou algo assim?”
“...Eu realmente queria que você parasse de me colocar automaticamente no papel da heroína derrotada.”
Nagisa lançou-me um longo olhar de olhos semicerrados e, em seguida, sorrimos uma para a outra.
Mas...
“...Hm? Hã?” De repente, senti meu corpo fraquejar, e meus joelhos cederam.
“Opa!” Nagisa me segurou outra vez, desta vez para impedir que eu caísse. Eu não me lembrava de ter sido atingida por um dardo tranquilizante, mas... por algum motivo, um sono avassalador me dominava.
“Desculpe”, sussurrou Nagisa, bem junto ao meu ouvido. Eu já não conseguia me manter em pé e acabei de joelhos, ainda apoiada nela.
“O que está acontecendo...?”
Pensando bem, senti uma leve pontada no braço esquerdo, na parte superior. Forcei as pálpebras pesadas a se abrirem e examinei o local. Não havia sangue. Quando Nagisa me abraçou pela primeira vez, algo havia….
“É um tranquilizante.” Era a voz do meu assistente.
Ele se aproximou de nós, ainda vestindo o casaco rasgado, apoiado em Noches para conseguir andar.
“É uma droga especial que um certo médico do submundo preparou para nós. Ouvi dizer que foi desenvolvida com base no pólen que me fez dormir.”
“...Então era isso.”
As armas que meu assistente e os outros usaram deviam estar impregnadas com a substância.
O Inventor havia nos deixado uma semana atrás, mas aparentemente retornara. Provavelmente soubera que Nagisa despertara e quis acompanhar sua recuperação. Então, quando meu assistente propôs esse plano, ele decidiu ajudar.
“E depois? O que vocês pretendem fazer comigo quando eu estiver dormindo e incapaz de resistir?” Provoquei meu assistente, frustrada por ter caído em seu plano, repousando a cabeça no colo de Nagisa.
“Não diga besteira. Depois de tudo isso, você ainda não confia em mim?” Sim... era essa expressão que eu queria ver.
Ao sorrir, meu assistente suspirou e também sorriu. Contudo, quando começou a explicar o motivo de terem me feito dormir, seu semblante voltou a ficar sério.
“Assim, devemos conseguir impedir temporariamente que a semente em seu coração continue crescendo.” Eu sabia….
Fechei os olhos e escutei sua voz firme, um tanto brusca, mas ainda assim gentil.
“Ontem, depois que Natsunagi acordou, nós dois ficamos pensando em maneiras de salvar você e percebemos algo estranho. Enquanto você estava adormecida no coração da Natsunagi, quando o Chameleon quase me matou, você despertou para me salvar, mas apenas uma vez.”
Aquilo acontecera há mais de um mês. Em um grande navio de cruzeiro, eu tomara o corpo de Nagisa emprestado e lutara contra Chameleon ao lado do meu assistente. Foi Nagisa quem me convenceu a usar seu corpo.
“O problema é justamente esse ‘apenas uma vez’”, continuou ele, com um tom carregado de tristeza.
“Por que você despertou só naquela ocasião? Por que não tentou de novo...? Foi para evitar ativar a semente que criou raízes em seu coração. Ou seja, enquanto você estiver dormindo, enquanto permanecer inconsciente, essa semente não crescerá.” Ele estava certo.
Teria sido Nagisa quem percebera isso? Talvez não. Pode ter sido meu assistente, já que passara os últimos dias comigo. Durante nossa viagem a Nova York, eu dormira ainda mais do que antes. Fora uma reação defensiva, uma tentativa inconsciente de me proteger.
“Mas, Assistente... você também percebeu que isso não resolve o problema, não é?”
Ergui as pálpebras pesadas e vi que Noches, Charlie e Yui haviam se aproximado. Todos me observavam, o que me deixava um pouco constrangida.
...Ainda assim, eu entendia. Aqueles eram os companheiros atuais do meu assistente.
Está tudo bem. Ele está bem agora. Aliviada, disse-lhe que não precisava fazer aquilo.
“Me colocar para dormir é apenas uma medida temporária. Além disso, não há garantia de que isso impedirá completamente o crescimento da semente. Daqui a alguns anos, a semente que destruirá o mundo pode germinar e me transformar em um monstro. Talvez eu acabe matando todos vocês um dia. Portanto, na verdade.”
“Nós sabíamos disso quando escolhemos esse caminho”, interrompeu meu assistente, ajoelhando-se ao meu lado.
“E foi o próprio Stephen quem me deu esse tranquilizante. Você sabe o que isso significa, não sabe?”
“...Entendo. Você realmente não faz mais nada pela metade, não é?”
O Inventor, Stephen Bluefield, recusava-se a trabalhar em casos sem esperança. Assim, podia concentrar seus esforços em vidas que ainda podiam ser salvas. Se ele havia prescrito aquela droga para mim, então eu ainda tinha uma chance. Ele jamais me perdoaria por desistir de viver, afinal, fui eu mesma quem citou a filosofia dele momentos atrás.
“Parece que fui completamente derrotada.” Um detetive deve proteger os interesses de seus clientes e realizar seus desejos.
Nagisa conseguira realizar, ao mesmo tempo, o meu desejo e o dela que a outra vivesse.
Era algo que a antiga eu não fora capaz de fazer. Eu só conseguira alcançar isso à custa da própria morte. Contudo, Nagisa cometera o mesmo erro que eu... e, depois, encontrara esta resposta. Ela definitivamente me superara.
“Senhora! Senhora...!”
Minha mão direita estava quente, das lágrimas e do calor de outro corpo. Charlie segurava minha mão com as duas, incapaz de conter o choro.
Não importava quanto tempo passasse, minha primeira aprendiz sempre seria adorável.
“...Heh-heh. Entendo. No fim das contas, vocês duas também me superaram.”
O efeito da droga se intensificava, e minhas pálpebras pesavam cada vez mais. Ainda assim, fingindo olhar para o céu, espiei os rostos do meu assistente e de Charlie.
Será que vocês dois começaram a se entender um pouco melhor?
Eu não sabia. Mas havia uma coisa da qual eu tinha certeza.
“Você ficou mais forte, não ficou?” Forte o bastante para me superar.
Meu comentário pareceu surpreender meu assistente; seus olhos se arregalaram. Logo depois, sua expressão se suavizou.
“É... na verdade, a Charlie e eu estávamos fingindo que não nos dávamos bem. Fazia parte do plano. Na verdade, somos uma ótima dupla e grandes amigos. Não é?”
“Ah, hã...? ...S-Sim, isso mesmo! Eu, eu amo o Kimizuka!”
Em resposta à deixa forçada do meu assistente, Charlie abriu um sorriso extremamente rígido.
“...Heh, heh-heh. Entendo. Que bom.”
Nunca imaginei que veria aqueles dois com os braços sobre os ombros um do outro, ainda que fosse só encenação. Acabei rindo, apesar de tudo.
“Você também não tem vida fácil, Nagisa. Com todas essas rivais.”
“Aaaaah! Aaaaah! Eu não estou ouvindo nadaaa!”
Quando a provoquei, Nagisa tapou os ouvidos de forma exagerada... e então, como meu assistente, abriu um largo sorriso.
“Ei, Siesta?”
“Hum?” O vento bagunçou o cabelo curto de Nagisa.
“Obrigada por ter me dado um lugar ao qual eu pertenço, Detetive Ás”, disse ela, sorrindo em meio às lágrimas. Aquilo me soava familiar.
“Você roubou as palavras da minha boca.”
Com certa dificuldade, estendi a mão e enxuguei suas lágrimas com a ponta dos dedos.
“Obrigada por me ensinar sobre emoções, Detetive Ás.”
Porque Nagisa estava ali... tenho certeza de que consigo sorrir agora, cercada por essa felicidade insubstituível, graças à sua paixão.
“Siesta.” Ao incentivo gentil de Yui e Noches, meu assistente segurou minha mão esquerda.
“Assistente.” Apertando sua mão de volta, disse as palavras que me vieram à mente de repente:
“Se algum dia você perder as energias, a primeira coisa que deve fazer é dormir bastante.”
Ele pareceu confuso; ainda assim, enquanto eu piscava lentamente, ele me observava.
Havia mais algumas coisas que eu queria garantir que ele ouvisse. Já não conseguia organizar pensamentos complexos, então recorri às lembranças recentes.
“Depois, tome um banho, está bem? Purifique o corpo, purifique a mente. E então coma bastante.”
“...Certo, como mais cedo.”
“Mas não fique só na pizza. Tente manter uma alimentação equilibrada e faça exercícios moderados. E então... isso mesmo. Você tem muitos companheiros, então, se estiver preocupado com algo, converse com eles imediatamente. Você tem a tendência de guardar tudo para si.”
“Ei, você não tem o direito de me dizer isso.”
Meu assistente preparou o dedo médio para dar um peteleco na minha testa, como fizera antes, mas em vez disso, afastou delicadamente minha franja com a ponta dos dedos.
“Você só fala de mim.”
“É mesmo? Estou com sono. Não consigo pensar direito.”
Quanto a arrependimentos... era basicamente isso que me restava. Desde que meu assistente comesse bem, risse com os amigos e vivesse dias comuns, tranquilos e extraordinários, isso já seria suficiente para mim.
“Haaah. Francamente.” Pelo olhar dele, parecia que estava me testando.
“Você gosta de mim demais, não gosta?”, perguntou, tentando me dar uma revanche em grande estilo.
“Sim, você está certo. Eu gosto de você.”
“...Não seja assim tão direta.” Mm-hmm. Como Detetive Ás, não posso deixar meu assistente levar vantagem.
Com a ajuda de Nagisa, sentei-me ao lado dele. Ele suspirou profundamente e então sorriu de lado.
“Você é mesmo uma idiota, Siesta?” Minha resposta era óbvia.
“Ah, qual é. Isso não é justo.”
Nós dois caímos na risada e, em seguida, Nagisa, Charlie, Yui e Noches também estavam rindo, mesmo com lágrimas escorrendo por seus rostos.
“Um dia eu vou... não, nós vamos acordar você. Eu prometo. E, até lá….” Meu assistente apertou minha mão esquerda.
“Boa noite, Detetive Ás.”

Aquelas foram as últimas palavras que meu assistente sussurrou para mim — a garota que adorava cochilos.
Um raio de sol atravessou as nuvens densas e nos envolveu em uma luz cálida.
“Sim, estarei esperando.”
Mais uma vez. Algum dia. No céu, a dez mil metros de altitude.
Traduzido por Moonlight Valley
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