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Capítulo 7: O Ex-Casal Retorna à Cidade Natal 3 (Cicatrizes do primeiro amor)

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Capítulo 7: O Ex-Casal Retorna à Cidade Natal 3 (Cicatrizes do primeiro amor)

Parecia que, no geral, ter o primeiro amor apenas na oitava série do ensino fundamental era considerado tarde.

Podia ser um professor no jardim de infância, um colega no ensino fundamental I, ou— antes mesmo de perceber, até um parente.

É fácil assumir que esses eram os mais comuns antes do ensino fundamental II, mas é extremamente raro encontrar alguém que tenha tido um primeiro amor correspondido sem nem ter passado por uma paixão unilateral.

[Kura: Preciso lembrar que o ensino fundamental 1 é a escolinha, e o fundamental 2 vai até o nono ano, no Brasil.| Paiva: fundamental 1 é do primeiro até o quinto]

...Bom, também existiam alunos do primeiro ano do ensino médio que nem sabiam escrever a palavra “romance”.

Esses eram exceções.

O normal é que as pessoas se tornem conscientes de seus sentimentos amorosos ao chegarem à puberdade.

E então—Mizuto Irido pode ter gostado de outra garota antes de mim.

...Eu sabia o quão superficial esse pensamento era.

Não era desonesto nem imoral, e, mais importante, não tinha nada a ver comigo agora.

Mas— mesmo assim.

Eu tinha um sonho.

Eu sonhava com aquele ano e meio desde as férias de verão do meu segundo ano— até agora—

Para mim e para ele, aqueles dias de lua de mel foram o primeiro amor das nossas vidas.

Mesmo que esse amor já tenha acabado.

Eu sempre imaginei que tinha um lugar especial ali, chamado primeiro amor.

...Isso é nojento da minha parte.

É cansativo, irritante, pesado e frágil—

—É inacreditável pensar que exista um cara que se apaixonaria por uma mulher assim.

"...Uu~..."

Me escondi atrás de um fino painel de shoji e estremeci com meu estado deplorável.

Coloquei a cabeça para fora e espreitei o escritório escuro e empoeirado.

Meu meio-irmão mais novo — e ex — Mizuto Irido estava sentado no fundo do cômodo, praticamente enterrado sob uma pilha de livros antigos.

Eu tinha uma tarefa simples.

O tio Mineaki me pediu para chamar o Mizuto, pois precisava dele, então eu vim até aqui.

Ou seja, tudo que eu precisava fazer era falar com ele e dizer “o tio Mineaki está te chamando”.

E, ainda assim, eu estava escondida ali há minutos— ou talvez dezenas deles, como se tivesse encontrado um inimigo mortal de um pequeno animal.

Mizuto não me notava, provavelmente porque estava completamente concentrado na leitura.

Metade de mim achava que ele já devia ter me notado, e a outra metade pensava no que eu faria se ele percebesse— esses pensamentos giravam dentro do meu peito.

De novo esse problema de comunicação...

Até o ensino fundamental II, era normal eu demorar dezenas de minutos para conseguir falar com alguém, e eu nem tinha coragem de entrar na sala dos professores. Mas com o treino mais eficiente de todos — o amor — achei que tinha superado isso.

Eu já tinha aceitado que minha personalidade sombria era algo com que nasci, que não podia mudar, mas me orgulhava de ter melhorado muito minhas habilidades de comunicação.

Então por que isso está acontecendo de novo...?

É irritante, mas eu sabia o motivo. Só conseguia pensar no que Mizuto disse enquanto voltávamos da margem do rio.

—Alguém com o riso fácil.

De quem ele estava se lembrando ao dizer aquilo com nostalgia... não havia nem necessidade de perguntar.

O pressentimento que tive quando nos reencontramos estava certo.

O primeiro amor de Mizuto era—

"—Eh? Yume-chan, o que você está fazendo?"

Assustada, meus ombros tremeram e me virei.

Uma mulher bonita, usando óculos de armação vermelha e um vestido branco puro, Madoka-san, me observava com curiosidade.

...Um vestido branco de peça única.

É impressionante como esse tipo de roupa ainda fica bem em alguém de vinte anos...

Não, eu devia era explicar esse meu comportamento suspeito...!

"Ah, não, é... e-eu só estava... distraída..."

Foi o que pensei, mas não consegui inventar uma boa desculpa.

Parece que minhas habilidades de comunicação finalmente chegaram ao fundo do poço.

"Eh~, você tá bem? Cuidado, viu~. Essa casa tem muitos quartos sem ar-condicionado."

"Tá quente", disse Madoka-san, abanando o pescoço enquanto olhava para cima.

Havia suor no pescoço dela, visível por entre o vestido e isso era meio atraente...

"Erm... ah, achei ele, achei."

Madoka-san passou por mim, espiou o escritório e simplesmente disse,

"Mizuto~. O tio tá te chamando~"

Ela fez com facilidade o que eu não consegui por dezenas de minutos.

"Hm."

Mizuto respondeu de forma breve, fechou o livro e levantou a cabeça,

"...Hm?"

E então finalmente me notou ao lado da Madoka-san.

"Você está aí?"

"...N-não posso?"

Fiquei tão envergonhada que acabei respondendo de forma defensiva.

Mizuto não ligou para minha atitude, provavelmente porque já estava acostumado.

"Tem algum problema?"

Tinha... sim.

Mas agora, não...

"N-não é nada!"

Disse isso e saí correndo pelo corredor, me afastando do escritório.

Não— eu fugi.

De Mizuto, e da Madoka-san.

Nada mudou.

Seja como meio-irmãos, seja quando namorávamos, eu só tinha percebido uma coisa.

Que ele tinha um passado que eu não conhecia, só isso.

E daí?

Mesmo que Mizuto tenha gostado da Madoka-san antes— ou de qualquer outra pessoa que não fosse eu.

Isso... não tem nada a ver comigo agora.

"Ah."

"...Ah..."

Chikuma-kun arregalou os olhos por trás da franja.

[Paiva: TALARICO | Ayko: Paiva realmente não curte muito o ChikumaKKKKK]

Depois de fugir do escritório, fiquei andando pela casa sem rumo e encontrei Chikuma-kun em um canto do grande cômodo de estilo japonês, jogando videogame.

Em uma mesa um pouco distante no mesmo cômodo, um grupo de tios, incluindo o pai do Chikuma, conversava sobre coisas aleatórias.

Era solitário ficar sozinha durante o dia, mas eu também não conseguia me juntar a eles... então mantive distância.

Chikuma-kun era tímido, mas não gostava tanto de ficar sozinho quanto o Mizuto, e também não fazia as coisas no próprio ritmo como a Higashira-san.

Senti uma certa proximidade e me aproximei dele, que estava sentado com os joelhos junto ao corpo. Então perguntei,

"Você tá bem? O ar-condicionado tá muito frio?"

"E-eu tô bem..."

Chikuma-kun respondeu com uma voz minúscula e cobriu o rosto com o videogame.

Ora ora, ainda está desconfiado de mim? Sempre que eu tentava falar com ele, Chikuma-kun corava e desviava o olhar...

Vamos ver... talvez eu devesse me sentar ao lado dele pra aumentar o nível de afinidade?

Lembrei de algo que li em livros antes, fui até ele e me sentei ao lado.

Os ombros de Chikuma-kun estremeceram, mas, felizmente, ele não se afastou.

"Chikuma-kun, você gosta de jogos, né?"

"N-não muito..."

"Eu geralmente gosto de ler romances. Você já leu algum livro?"

"...G-guias de jogo..."

"Eh? O que é isso?"

"M-mostra... como zerar jogos, dados..."

"E são interessantes?"

"...M-mais ou menos..."

"Entendo..."

Ah.

A conversa acabou.

O-o que eu faço... eu não sabia sobre o que conversar com um garoto do ensino fundamental...

Idades diferentes, gêneros diferentes, temos pouca coisa em comum pra conversar... minhas habilidades de comunicação melhoraram, mas isso não significa que eu tenha as habilidades incríveis de uma cabeleireira ou algo assim...

Assunto... assunto... algo em comum independente de idade ou gênero...

"É... você gosta de alguém?"

Escolhi a opção mais segura.

Era claramente um tipo de pergunta que qualquer parente distante faria.

E quando achei que não teria muita reação,

"Ueeh!?"

Chikuma-kun soltou o maior grito que já ouvi dele e levantou o olhar do videogame.

"G-gostar...?"

"Eh? Hm, sim sim. Você gosta de alguém? Na escola?"

"N-na escola..."

O tom de Chikuma-kun caiu rapidamente, e ele voltou a olhar para o videogame.

"N-não... na escola."

"Entendo. Não tem nenhuma garota fofa por lá?"

"E-eu não sei muito bem. Eu não lembro muito... dos rostos delas..."

"Ah, eu entendo, eu entendo. Pra alguém tímido, é difícil até olhar diretamente nos olhos dos outros."

"(Concorda concorda concorda!)"

Chikuma-kun assentiu várias vezes, parecendo um pica-pau.

Ah, achei. Temos um assunto em comum.

"E quando você esquece os hashis no dia do bentô, você não tem coragem de pedir pra professora, e isso te deixa em apuros."

"(Concorda concorda concorda!)"

"E quando você vai pra excursão na montanha, acaba só apreciando a paisagem sozinho porque não tem ninguém pra conversar."

"(Concorda concorda concorda!)"

"E como você não consegue encontrar alguém pra fazer dupla, você procura alguém que também parece não conseguir formar dupla... mas acaba esperando que alguém te chame, porque você não tem coragem de falar..."

"(Concorda concorda concorda concorda concorda concorda!)"

Que reação impressionante.

Os olhos dele estavam brilhando.

Parecia que, pela primeira vez na vida, ele tinha encontrado alguém que o entendia.

Afinal, Madoka-san era praticamente uma “riajuu” perfeita, cheia de energia... ela não entenderia alguém introvertido.

"Acho que deve ser difícil... pra alguém tímido... ir pra escola..."

"...Sim..."

"Se tiver algum problema, pode me contar. Acho que consigo te ajudar. Ah... você tem celular?"

Chikuma-kun começou a procurar freneticamente no bolso e tirou um smartphone novinho. É, criança moderna.

"LINE... bom, acho que você não sabe trocar ID, né? Eu te ensino."

Chikuma-kun assentiu animado e me entregou o celular. Parecia que ele nem precisava colocar em palavras suas frustrações por ser introvertido, só isso já o deixava feliz.

...Eu também já tive uma experiência assim.

Quando conheci o Mizuto e comecei a interagir com ele, ele também me ensinava várias coisas sem que eu precisasse pedir...

Foi a primeira vez que senti que tinha construído um vínculo com alguém.

E além disso, ele era um garoto. Naquela época, eu nem conseguia imaginar isso...

...Será que ele gostava da Madoka-san naquela época?

Quando eu me declarei pra ele, talvez ele...

"...Pronto. O que fazemos agora?"

Devolvi o celular para Chikuma-kun, como se estivesse afastando aqueles pensamentos sombrios. Ele o abraçou contra o peito e disse, na voz mais clara que já tinha usado até agora, ainda que baixa:

"P-posso... falar com você...?"

Dei uma risadinha.

"Tem certeza que vai mesmo?"

"...Uuu..."

"Ahaha! Eu também não sou boa em falar com os outros!"

Os ombros de Chikuma-kun encolheram. Que fofo. Se ao menos um certo cara frio aprendesse um pouco com isso—

"—Com licença, enquanto você conversa."

Com uma voz seca, uma sombra surgiu ao nosso lado, encostada na parede.

Olhei para cima.

A expressão fria de Mizuto me encarava.

"...Parece que vocês dois estão se dando bem."

Me preparei e respondi ao tom provocativo dele com outro igualmente provocativo.

"O quê? Não pode?"

"Nada... só achei que você trata crianças de forma diferente."

"Hã? Não tem nada de diferente."

"Se você acha isso, então tudo bem."

...O quê? Qual é o problema dele!?

Se tem algo pra falar, fala logo.

Você sempre age como se soubesse tudo...!

"...O que você quer? Não veio aqui só pra me provocar, né?"

"Nada demais. Só—"

Mizuto bufou e disse, impaciente,

"—Madoka-san pediu pra eu dar uma olhada, então eu vim."

No momento em que ele disse isso, algo dentro de mim estalou.

"...Você faz qualquer coisa só porque a Madoka-san manda?"

"...Hã?"

Sempre que eu dizia algo pra ele, ele me rebatia.

Nunca levava meus pedidos a sério.

Por quê?

Por que ele era tão obediente com a Madoka-san—

“...Se não houver nada, você pode simplesmente ir embora.”

Fiz o possível para controlar minha voz.

"...Se não tem nada, você pode ir embora."

Fiz o máximo para conter minha voz.

"Só me deixa em paz e vai falar com a sua amada Madoka-san, que tal?"

Mizuto permaneceu em silêncio e ficou me encarando por um bom tempo.

Por fim, soltou um pequeno suspiro.

Era como se ele tivesse enxergado completamente através de mim.

"Tchau."

Ele disse, e foi embora.

Não consegui ver suas costas, e só pude olhar para meus joelhos.

"..."

Quando senti uma presença ao meu lado, percebi a existência do Chikuma-kun.

Chikuma-kun olhou para mim com um rosto tímido.

"Ah...! D-desculpa por ter te assustado..."

Apressei-me em forçar um sorriso.

Ahh, sério, o que eu estava fazendo na frente de uma criança...!

"Nós não estávamos, bem, brigando. Sério. Sempre fomos assim."

Enquanto eu procurava uma desculpa, meu coração foi se acalmando aos poucos.

Sim— eu já estava acostumada a ter esse tipo de discussão boba.

"Então... não conta pro papai e pra mamãe, tá? É um segredo entre a gente!"

Coloquei meu dedo indicador nos lábios para pedir silêncio ao Chikuma-kun, e ele assentiu vigorosamente.

E por algum motivo, ele abaixou a cabeça para evitar meu olhar e tampou os ouvidos firmemente com as duas mãos.

"Alô~? Yume-san~?"

Fiquei um pouco aliviada ao ouvir a voz despreocupada do outro lado do telefone.

"Desculpa ligar tão de repente, Higashira-san. É um bom momento agora?"

"Tá...! Tudo bem... ffuu!"

"...Sério?"

Eu conseguia ouvir uns sons estranhos do outro lado, que pareciam se aproximar e se afastar.

"Tá tudo bem... haa~. Eu só tava me exercitando..."

"Se exercitando? Parece um termo completamente estranho vindo de você, Higashira-san..."

"A mamãe disse... que se eu ficar só sendo preguiçosa em casa, meus peitos raros vão cair... ela até falou que eu não tenho nada além disso, então eu tenho que me exercitar... e eu não posso comer se não me exercitar..."

"Já faz um tempo que penso nisso, mas Higashira-san, sua mãe não é meio intensa?"

Então realmente existe uma mãe que diz pra própria filha que ela não é nada além de peitos?

"Huff~ 5 flexões feitas! Acabei por hoje!"

"Até eu conseguiria fazer mais algumas..."

"O que você queria falar, Yume-san?"

Fui ignorada.

Olhei para o céu de verão pelo corredor e pensei cuidadosamente em como deveria me expressar.

"...Nada demais, só queria conversar sobre coisas recentes. Então, sobre o maiô de ontem..."

"Não me lembra disso."

"Você geralmente exagera na frente dele, mas até que fica envergonhada nos momentos certos."

"Foi vergonhoso demais! Pensa bem. Tinha um ‘Higashira’ enorme escrito no meu peito! Isso é muito infantil!"

"...Espera. Esse é o problema?"

Não, não.

Eu estava falando do peito quase saltando pra fora, de como o maiô marcava nas coxas.

"Higashira-san, acho que você nem ficaria envergonhada se ficasse nua na frente do Mizuto... mas corou quando ele viu sua calcinha."

"Não, não, eu ainda ficaria envergonhada de ficar nua."

"Ah, entendi."

"Eu também evito tomar banho durante a viagem de estudos."

"...Ahh, então a vergonha vale até pra pessoas do mesmo gênero?"

Então não é por estar nua na frente do Mizuto, ou de qualquer outro cara.

"Talvez eu considerasse se estivesse no banho com você, Yume-san... você tem um corpo bonito, é linda, tem aquele visual perfeito de garota bonita... ehehe."

"Isso soa meio nojento, Higashira-san."

"Ah, desculpa."

"...Eu não sou tudo isso."

Eu conseguia sentir a melancolia vindo da minha casa e murmurei isso baixinho.

"Eu pareço magra, mas é porque não tenho muita gordura. Eu me esforcei pra ter esses peitos..."

"A Minami-san vai te matar por essas palavras, sabia?"

"Ah, essa foi por pouco. "

Afastei o Mizuto, deixei o Chikuma-kun... e fiquei sozinha.

Então por que... eu liguei para a Higashira-san?

...Será que foi porque eu queria a compreensão dela? Ela gostava do Mizuto— então talvez eu estivesse esperando que ela simpatizasse com esse emaranhado de emoções que eu tinha...

"...Eu estou no interior agora, na casa dos Irido."

"Sim, eu sei. Tem algum costume estranho aí? Alguma música perturbadora de contagem passada por gerações?"

"Infelizmente, não."

Mesmo que eu estivesse um pouco esperançosa por algo assim.

"Estamos na casa da avó do Irido, do lado paterno."

"Sim, sim."

"Na verdade, tem uma... irmã mais velha muito bonita que está na faculdade."

"Ohh?"

Que reação estranha.

Ela não ficou surpresa, nem ansiosa.

"Talvez ela tenha sido o primeiro amor do Mizuto-kun?"

"...Talvez."

"Ohh~...!"

"Ei, o que foi essa reação?"

"Afinal, o Mizuto-kun com certeza devia ser muito fofo quando era pequeno. Eu amo OneeShotas."

[Kura: Pelo que vi são irmãs mais velhas ou algo do tipo.|Paiva: o shotas é de shotacon, que é quase a mesma coisa de um siscon mas o complexo é com “garotinhos” então oneeshotas seria algo a se referir a um “relacionamento” entre uma “onee-san” e um garotinho | Ayko: É… esse é o conceito, mas acho tão estranho quanto o siscon, esses cons todos na verdade kkkkkj]

"Hmm...???"

O que ela está dizendo? Eu não entendi.

"O Mizuto-kun já é fofo, então com certeza era super fofo quando era mais novo! E então o Mizuto-kun mais fofo sendo cuidado por uma irmã mais velha bonita, isso é... maravilhoso! Fantástico além das palavras!"

Eu... eu não consegui alcançá-la...

Por que ela estava tão animada assim...?

"Você não ficou... chocada...? Que o Mizuto gosta de outra pessoa?"

"Por quê? Aquele Mizuto-kun distante tendo uma paixão unilateral por uma irmã mais velha ao lado dele... isso me empolga."

"É-é mesmo..."

Ah, é ~...

Acho que nossa forma de ver o amor, ou nossos valores, são completamente diferentes. Eu realmente não consigo entendê-la...

"Yume-san,"

Uma voz plana veio do outro lado da linha— Higashira-san de repente me perguntou.

"Que tipo de reação você quer de mim?"

"...Eh?"

Meu coração deu um baque.

Foi como se... algo tivesse atravessado meu peito.

"Eu só sinto... que você está passando a impressão de que não recebeu a resposta que queria. Desculpa se eu estiver errada!"

Não recebi— uma resposta que eu queria.

...Ahh...

Eu só queria... que ela aliviasse minha dor.

Eu só queria que a Higashira-san sentisse o que eu estava sentindo...

Eu queria machucá-la.

Eu queria que ela ficasse triste.

Eu queria que ela se sentisse tão miserável quanto eu.

Eu queria que ela— simpatizasse comigo.

...Isso é... tão superficial da minha parte...

"...Desculpa, não foi isso que eu quis dizer... eu só queria conversar."

"Entendo. Ainda bem—"

"—Isanaaaa—!! Você está treinando direito—!!?"

"Hyaaaaahhhhh!? "

De repente ouvi outra voz ao longe. Higashira-san soltou um grito estranho e, logo depois, vieram passos apressados.

"O-o que foi? Você tá bem?"

"M-minha mãe veio me checar~~...!! D-desculpa, Yume-san! Eu tenho uma missão difícil de manter meus peitos...!"

"Ah, uh, hã, boa... sorte?"

"Tchau! "

A ligação foi encerrada.

...A excentricidade da Higashira-san veio da mãe dela?

"Terminou de falar no telefone?"

"Hyaaaaahhhhh!?"

A voz que veio de cima fez com que eu soltasse um grito igual ao da Higashira-san.

Olhei para cima e vi Madoka-san espiando meu rosto com um olhar travesso por trás dos óculos de armação vermelha.

"Você também fez um ‘Hyaaaaahhhhh!?’. Você é tão fofa~♪"

"Q-qual é o problema, Madoka-san…"

Para ser sincera, eu não queria muito falar com ela naquele momento, mas… Madoka-san ficou parada.

"Eu mencionei sobre irmos ao festival amanhã, certo?"

"Ah, sim..."

Segundo ela, haveria um grande festival de verão na cidade, perto da estação, no dia seguinte.

Nós iríamos embora dois dias depois, então esse festival seria nossa última atividade.

...Mas, considerando a situação atual, eu realmente não estava com vontade de me divertir...

"A vovó Natsume alugou uns yukata para usarmos amanhã~."

"É mesmo?"

"Uhum, uhum. Então vamos escolher um yukata juntas!"

"Ah, sim."

...Hm?

Eu respondi por reflexo, mas...

Com a Madoka-san?

Agora?

...Nós duas?

"Certo! Vamos lá~!"

E antes que eu pudesse processar meu erro, Madoka-san puxou minha mão e começou a andar.

"Tem vários aqui, pode escolher o que quiser~."

Foi o que Natsume-san disse, antes de fechar o fusuma.

"Obrigada, vovó~!"

Madoka-san respondeu do outro lado da porta fechada, disse "certo~" e colocou as mãos na cintura.

Vários yukatas cuidadosamente dobrados estavam alinhados diante dela.

Cada um era mais elegante que o outro, e normalmente eu teria ficado animada. Mas não estava com esse humor.

"Yume-chan, qual você gosta? Acho que qualquer um combina com você, já que você é tão magrinha e tem cabelo comprido~."

"Eu..."

O último que usei foi... isso, um yukata azul-marinho.

Meu humor, que já estava ruim, piorou ainda mais.

A última vez que usei um yukata foi... sim, nas férias de verão do ano passado.

Eu fiquei tão indecisa quando fui sozinha, e esperei por ele aparecer mesmo sem termos combinado nada...

"Yume-chan."

"Woah!"

Olhei para cima e vi Madoka-san olhando diretamente para o meu rosto.

"...Você não gosta de ir a festivais?"

Madoka-san soava preocupada, e isso só me deixou mais inquieta.

Não é culpa da Madoka-san.

Também não é culpa do Mizuto.

A culpa é toda minha.

É minha culpa... por ser tão fraca.

"É só... que tenho algumas memórias amargas."

"Entendo. Bem, é raro não ter nenhum problema em um festival. É comum se perder, tropeçar e se machucar, ou ficar com bolhas por causa dos tamancos. É tipo um gacha de riscos."

"Nihihi", Madoka-san riu levemente e falou de forma despreocupada.

"Eu também me atrapalhei bastante quando fui a um encontro com meu namorado~."

"...Eh?"

Madoka-san disse aquilo de forma tão natural que eu não consegui reagir na hora.

Hm? Hm?

O que ela... acabou de dizer?

"N-namorado?"

"Eh? Sim, namorado."

"V-você tem um namorado?"

"Tenho~? Eh~? Eu pareço alguém que não teria um~?"

Fufu, quando Madoka-san riu dizendo isso, ela parecia tão bonita — até para mim, sendo uma garota — além de ser alegre e encantadora.

Claro que ela teria um.

Eu simplesmente não tinha pensado nisso. Talvez porque eu a visse como uma parente mais velha? Ou talvez...

"E-então, só por perguntar... desde quando...?"

"Hm~? Acho que desde que entrei na faculdade... uns um ano e meio. Eu também tive outro namorado no ensino médio."

"Outro namorado!?"

"Hm, uhum. Mas a gente não se dava bem, então terminamos rápido. Nihihi."

Eu nunca imaginei que essa mulher, usando óculos estilosos de armação vermelha e com um ar de funcionária de livraria antiga, diria que “não conseguia se dar bem” com alguém.

Isso é propaganda enganosa demais.

Provavelmente ela nem teria nada a ver comigo se não fôssemos parentes...

"Você não precisa ficar tão chocada~. Eu sou até bem tranquila, sabia? Minhas amigas são bem mais agitadas que eu. Tem gente que teve dois dígitos de namorados durante os três anos do ensino médio. Eu só tive dois. Viu? Eu sou mais de boa, né?"

"Eh? Dois...? Então o namorado que você teve na faculdade foi o terceiro...?"

"Ah, na verdade, esse é meu primeiro namorado."

"O terceiro foi o primeiro...??"

"A gente voltou~. Terminamos uma vez, mas nos reencontramos na faculdade."

Meu corpo inteiro tremeu sem perceber.

Reencontraram...

"Por que... isso aconteceu?"

Senti minha garganta secar enquanto forçava minha voz a sair.

"Vocês terminaram... então isso não quer dizer que você não gostava mais dele?"

"Bom, isso é verdade até certo ponto. Teve uma época em que eu não suportava ele, e realmente achei que ele era impossível de lidar..."

Dessa vez, o "Nihihi" teve um tom de autodepreciação.

"Mas depois de um tempo, eu me reencontrei com ele... e então pensei ‘ah, tanto faz’. Aquilo que me deixou com raiva naquela época parecia tão insignificante olhando agora."

"Insignificante...?"

"Ele é muito relaxado, pouco confiável e meio inútil, e eu fiquei tão irritada com isso que terminei com ele. Sabe, quando você entra na faculdade, suas relações meio que reiniciam, então você praticamente perde seus amigos, né? Foi aí que encontrei ele de novo, e naturalmente começamos a sair juntos de novo... e então,"

Madoka-san abriu um yukata azul vibrante.

"Ele é relaxado, pouco confiável e meio inútil... mas eu penso ‘tanto faz, eu cubro essas falhas por você’, então eu o perdoei. Às vezes, eu até acho esse lado dele meio fofo..."

"...Erm, desculpa dizer isso..."

"Hm?"

"Madoka-san... você é do tipo que não consegue ignorar gente meio inútil...?"

"...Você também acha ...?"

Bom, é a única conclusão que dá pra tirar do que você disse.

"Minhas amigas também dizem isso... o namorado com quem eu saí logo antes dele era um cara perfeito, ótimo nos estudos e nos esportes, mas eu não suportava o quão perfeito ele era, então escolhi terminar com ele. Eu terminei, e ele aceitou de forma tão tranquila que eu fiquei com muita raiva... eu fiquei tipo ‘você não sente minha falta?’ ‘meu ex chorou e implorou pra eu não ir embora’, foi isso que pensei."

[Ayko: A mulher do Kaká terminando com ele por que é perfeito demais ai ó kkkkkkkkkkk | Kura: Eu fiquei partido quando vi o Kaká contando a história.]

Eu não esperava que a aparentemente perfeita Madoka-san tivesse um lado tão teimoso assim.

Por algum motivo, isso me deixou um pouco aliviada.

"Mas, bem, não dá pra gostar de tudo em alguém~."

Madoka-san disse isso enquanto ajustava o yukata no próprio corpo diante do espelho.

"Não importa o quanto você goste de alguém, sempre vai ter um ou dois pontos que você não gosta. É por isso que casais... terminam. Mas quando você consegue superar isso, passa a enxergar o outro com mais tolerância. Mesmo que tenha coisas que você não goste, você só acaba pensando ‘não tem o que fazer’."

[Kura: É uma baita explixação, no final ninguém é perfeito, e a perfeição é relativa, além de tediosa… | Ayko: só o Kaká, o Kaká é perfeitoKKK mas sério, buscar a perfeição em um ser falho é ilógico, ser falho é algo que torna seres humanos tão interessantes.]

"...Não tem o que fazer..."

"Isso, isso. É assim que estou agora. Outro dia, meu namorado me pediu dinheiro emprestado pra pagar um jogo, e eu dei um chute nele. Nihihihi!"

Não importa o quanto você ame alguém, sempre haverá uma ou duas coisas que você não gosta.

É por isso que casais... terminam.

As palavras da Madoka-san pesaram dentro de mim.

...Embora, pelo que ela disse, comecei a me preocupar um pouco com o futuro dela.

"Então, Yume-chan."

Madoka-san colocou o yukata que estava segurando sobre meus ombros e sorriu,

"Eu não sei o que aconteceu entre você e o Mizuto-kun... mas você não precisa se importar com coisas tão insignificantes. Afinal, neste mundo, existem muito mais pessoas com quem você não precisa se importar ou que você não gosta, então se existe alguém de quem você pode gostar e também não gostar, está tudo bem!"

Pensando bem, isso é óbvio.

Ele também é um ser humano.

Ele não é uma existência moldada por ideais ou ilusões de alguém.

É normal que alguém que estava completamente sozinho antes de me conhecer passe a se importar comigo e, de repente, se torne estreito e ciumento.

Ele não é nenhum ídolo.

Ele é apenas uma pessoa comum vivendo no próprio mundo, na mesma situação que eu.

[Kura: Finalmente, ela começou a entender]

Se eu fosse fazer birra por ciúmes, ou por um primeiro amor... não teria fim.

Eu sabia.

Eu sabia disso— desde o começo.

"...Na verdade, não é como se o Mizuto tivesse feito algo errado."

Olhei para baixo, apenas para ver um yukata chamativo, completamente oposto ao meu estado de espírito.

"Eu estou um pouco deprimida... por ser tão mesquinha."

Se eu conseguisse ser tão positiva quanto a Madoka-san... eu não ficaria tão abalada por coisas tão pequenas, repetidas vezes.

Afinal, não existe certo, não existe justificativa, não existe motivo para isso.

Tudo e qualquer coisa... era culpa minha por ser tão irritantemente pessimista, tão desesperadamente fraca.

"...Hm~."

Madoka-san pegou de volta o yukata que estava sobre meus ombros e inclinou a cabeça, pensativa.

"Yume-chan— esse quarto não está meio empoeirado?"

"Eh?"

A mudança de assunto foi tão repentina que levantei o rosto.

Madoka-san riu com um sorriso travesso.

"Depois que terminarmos de escolher, vamos tomar banho juntas."

Disseram para eu entrar primeiro, então entrei rapidamente, fui até a grande banheira e deixei a água quente subir até os ombros.

Olhei para o teto coberto de gotas e percebi que tinha parado de pensar.

...O-o que é essa situação?

Olhei em direção ao vestiário e, através do vidro fosco, vi Madoka-san prendendo o cabelo. Ela provavelmente já tinha tirado a roupa, e mesmo através do vidro, seu corpo curvilíneo parecia elegante.

— Uma conversa secreta entre garotas, claro ♪

Madoka-san sorriu alegremente quando disse isso...

Sentei na banheira e abracei meus joelhos.

Acho que é a primeira vez que tomo banho com alguém além da minha mãe... desde o acampamento escolar no ensino fundamental?

E provavelmente é a primeira vez que faço isso sozinha com outra pessoa.

P-por que eu estou nervosa assim...? Eu não fiquei tão nervosa com a Akatsuki-san!

"Te fiz esperar~"

Ouvi a porta deslizar, e Madoka-san entrou no banheiro.

Ela não se cobriu com uma toalha.

Em vez disso, colocou as mãos na cintura com confiança e expôs sem hesitação seu corpo branco e reluzente.

Eu já sabia que ela tinha um corpo bonito por causa do maiô do dia anterior, mas...

Sua cintura era firme e curvilínea, seus quadris bem definidos, e suas pernas longas e esguias formavam uma silhueta elegante.

Mas o mais impressionante eram seus seios, que ela mesma dizia serem tamanho F.

Mesmo sem nenhum suporte, sem sutiã ou maiô, eles não caíam; balançavam levemente a cada movimento, a ponto de parecer meio suspeito até para a física.

"O que acha?"

Madoka-san perguntou animada, e eu respondi honestamente.

"Tão bonito..."

"Obrigada~! Você também é linda, Yume-chan! Tenho inveja de como você é magrinha~! Esse é o tipo de corpo ideal para todas as garotas."

"N-não, isso..."

Me encolhi um pouco. Fiquei um pouco envergonhada de ser elogiada assim pela Madoka-san.

Madoka-san pegou um pouco de água da banheira e jogou sobre si mesma.

"Desculpa, dá uma licencinha~"

E então passou pela borda da banheira onde eu estava.

Nesse momento, não consegui evitar olhar para baixo.

Acho que o motivo de estar aparado é porque... alguém poderia ver...?

[Paiva: Acho que vocês devem saber, mas no Japão, na real acho que na Ásia em geral, depilação não é algo tão comum, inclusive depilar toda a região pubiana lá(e acho que em quase todo o mundo) é chamado de depilação brasileira | Ayko: Isso de chamarem de depilação brasileira é algo que eu não sabia | Kura: Me abstenho de comentar sobre… Lá se foi meu sonho com as japonesas]

"Fuu~"

Madoka-san sentou-se à minha frente na banheira, e o nível da água subiu até os ombros dela, transbordando um pouco.

A banheira já era grande, mas não era surpresa que tenha ficado um pouco apertada com nós duas dentro. Abracei minhas pernas, e de vez em quando sentia as coxas da Madoka-san encostando, o que fazia meu coração disparar por algum motivo estranho.

"Haa~. Me sinto livre~."

Dois volumes arredondados flutuavam na água à frente dela enquanto dizia isso.

Considerando o tamanho, deviam ser bem pesados.

Talvez esse seja o único momento do dia em que ela se sente livre desse peso, com a flutuabilidade da água...

"Nihihi. Você está tão interessada assim?"

Madoka-san percebeu meu olhar e levantou os seios debaixo da água.

"Quer tocar?"

[Kura: Tá bom crianças, pulem essa parte.| Paiva: Definitivamente esse autor tem fetiche em peitos | Ayko: Assim como muitos outros, às vezes até me surpreende isso aí]

"Eh?... n-não, mas..."

"Não vou te cobrar nada~."

"...E-então..."

Senti que seria rude recusar, então estendi minhas mãos timidamente.

Assim que toquei, meus dedos afundaram. Quando soltei, a pele dela acompanhou. Era como se estivesse grudada nos meus dedos.

Ooh~...

Então é assim que é tocar os seios de outra pessoa...

Continuei tentando tocar de frente e de lado.

"—Nn~"

Madoka-san de repente soltou uma voz sugestiva.

Waaahhh—! Afastei minhas mãos às pressas e recuei.

"D-desculpa!"

"Nihihihi! Foi brincadeira, brincadeira!"

I-isso me assustou...

Eu tinha tão pouco contato físico com outras garotas quanto o Mizuto... não, talvez até menos do que ele, agora que ele tinha a Higashira-san como amiga.

Madoka-san apoiou o cotovelo na borda da banheira.

"Vamos falar de algo mais sério antes de sairmos~."

Ela declarou.

"Agora você pode abrir seu coração e conversar comigo. Afinal, estamos nuas uma diante da outra."

"...Eu não tenho nada pra abrir meu coração."

"Tem sim~. O que você acha do Mizuto? Você gosta dele? Ou odeia?"

Não consegui responder à pergunta direta imediatamente.

Eu gostava dele.

E eu odiava ele.

...E, nesse ponto, eu já não sabia se gostava ou odiava...

"Eu já pensei nisso antes."

"Pensou em quê...?"

"No que aconteceria se fosse comigo."

Ploc, a gota que caiu do teto fez uma ondulação na superfície da água.

"Se eu estivesse no ensino médio e tivesse que morar sob o mesmo teto que um garoto da minha idade— acho que seria bem difícil. Tem muitas coisas a considerar, e você acaba ficando consciente da outra pessoa de qualquer jeito... talvez o tio e a tia tenham sido surpreendentemente desligados quanto a isso. Mas isso também é resultado do esforço da Yume e do Mizuto."

Na realidade, nosso relacionamento era mais complicado do que a Madoka-san imaginava.

Mas... se não fosse por aquela circunstância específica, provavelmente não teríamos essa família hoje.

Eu e ele já nos conhecíamos, e foi por isso que tivemos a família Irido— ou pelo menos, era o que eu vinha pensando recentemente...

"...Então, Madoka-san, o que você acha que aconteceria se fosse você? Se um dia tivesse que morar de repente com um garoto..."

"Depende de com quem eu fosse morar... mas, bem, se fosse com o Mizuto-kun, acho que eu acabaria gostando dele."

"Ehh?"

Pisquei, surpresa com a resposta tão casual.

"...E-erm... você diz isso, se fosse com o Mizuto, porque..."

"Pra ser sincera, é por causa do rosto."

"Rosto..."

Madoka-san disse isso tão diretamente, rindo com um "Nihihi".

"Afinal, aquele rosto é realmente fofo~ talvez você não perceba se só estiver na mesma sala de aula, mas morando junto, com certeza notaria a aparência dele. Além disso, você não sentiu muito estresse morando com ele, Yume-chan, então isso mostra que ele não tem problemas de personalidade. E aí você passa a se importar ainda mais com ele, e nesse ponto, até os pequenos defeitos viram qualidades. Existe alguma garota que consiga resistir à superioridade de ‘eu sou a única no mundo que sabe o quão incrível ele é’?"

...Fiquei sem palavras.

Era familiar demais.

Não era possível, mas senti que, se a Higashira-san estivesse ao meu lado, ela também ficaria sem palavras.

"Acho que o mesmo vale para o Mizuto-kun. Ele tem uma garota bonita como você, Yume-chan, morando com ele... isso é realmente incrível."

"Incrível como...?"

"Não posso te contar até você fazer 18~♪"

Senti minhas orelhas esquentarem, e afundei até a boca na água quente, soltando bolhas.

Eu não tinha passado por nenhuma situação extremamente constrangedora nesses últimos quatro meses... mas mesmo ele teria esse lado, né?

...Teria. Afinal, ele tinha alguns livros eróticos.

[Kura: . . .|Paiva: Sim, estão falando de atos libidinosos | Ayko: Mizuto tá lendo umas paradas diferenciadas também hein?]

Afinal, não é como se nunca tivéssemos passado por situações perigosas.

Mas... isso foi quando começamos a morar juntos.

Foi porque não estávamos acostumados a viver juntos naquela época.

Foi porque— nós ainda não tínhamos conhecido a Higashira-san.

"...Na verdade, mesmo sem mim... o Mizuto ficaria bem."

Afastei a boca da água quente e disse a óbvia verdade.

"Afinal... ele tem uma garota que é mais próxima dele."

"Ahh, aquela garota, a Higashira-chan? Ouvi falar dela. Ela é tipo a ex-namorada dele, né? E tem ido na sua casa desde que começaram as férias de verão..."

"Bem, sobre essa parte de ex-namorada, isso é só um mal-entendido da mamãe e do tio Mineaki..."

"Sério? Então qual é a relação?"

"A Higashira-san é uma amiga do Mizuto... ela se confessou pra ele antes, e ele rejeitou."

"Ahh~, entendi entendi. Então eles voltaram a ser amigos, né? Ela é desse tipo então~."

"Desse tipo?"

"É raro, mas tem sim~ gente que vai e volta entre amizade e amor. Isso irrita quem é rival no amor, tipo ‘você não pode simplesmente desistir depois de ser rejeitada~?!’ ou algo assim."

"N-não... a Higashira-san não fez nada de errado..."

"Isso é ainda mais problemático... mas enfim, você acabou de admitir que é uma rival no amor, não foi?"

"Não, eu não sou...!"

"Para de fingir."

Madoka-san sorriu de forma travessa.

"Se eles pudessem ter sido só amigos desde o começo, né? Aposto que tem alguém por aí se metendo na vida amorosa dela..."

"Ugh."

"...Hue?"

"...Desculpa, fui eu..."

"Seus relacionamentos estão ficando cada vez mais complicados..."

Madoka-san murmurou, cruzando os braços e levantando levemente os seios.

"Entendo~. Você acabou de apoiar ela não faz muito tempo, então não está sendo tão agressiva..."

"...Não, pra ser sincera, eu não acho que haja necessidade de ser tão agressiva."

"Mas você fica um pouco inquieta quando vê ela ao lado do Mizuto-kun?"

"..."

"Bingo~"

"Não!... Mas, isso..."

Isso é só— um sentimento não correspondido.

É apenas um apego persistente que sobrou de quando a gente namorava.

"...Talvez eu entendesse melhor se a confissão da Higashira-san tivesse dado certo..."

"Yume-chan, você tem procurado desculpas esse tempo todo."

"Eh?"

Madoka-san continuou apoiando o rosto no cotovelo, mas seu tom ficou um pouco mais firme.

"Você diz que, desde que o Mizuto-kun tenha uma boa garota ao lado dele, está tudo bem— mas isso é só uma desculpa, não é? No fundo, você está dizendo que não precisa se apaixonar pelo Mizuto-kun—"

Eu.

Não.

Preciso gostar dele—

"Isso é só um palpite, tá? Mas me escuta... acho que, pra você, a pessoa mais importante é a sua mãe, Yume-chan, certo?"

"Mamãe..."

"Uhum. Acho que você tem muito pouca autoestima, Yume-chan. Por isso acaba sempre tentando se conter. Você não queria que a Yuni-san e o tio Mineaki se separassem, é isso que você pensa, e sente que não deveria estar namorando o Mizuto-kun. Não é que eu não entenda. No mundo, tem empresas que não permitem relacionamentos no trabalho, e um romance dentro da família pode ser bem complicado."

"Bom, eu não tenho um irmão sem laço de sangue, né", Madoka-san comentou.

"Mas, Yume-chan, suas desculpas e mentiras têm um prazo de validade."

"Eh...?"

"Talvez seja difícil perceber quando se trata de família, mas tenho certeza de que ‘aquele momento’ vai chegar. Quando isso acontecer, você não vai mais poder usar o tio Mineaki e a Yuni-san como desculpa. Até lá, Yume-chan, ou você ou o Mizuto-kun vai ter que traçar uma linha clara."

Quando ela disse isso com tanta convicção, uma pergunta surgiu naturalmente.

"O que você quer dizer com... ‘aquele momento’? O que vai acontecer?"

"Hm~... vamos deixar isso como uma surpresa pra ‘aquele dia’."

Mais uma vez, aquele sorriso travesso apareceu diante de mim.

"Eu sempre quis usar esse tipo de fala vaga."

O ‘momento’ em que eu não poderia mais continuar sendo vaga e enganando a mim mesma.

Naquele momento, eu não conseguia imaginar isso.

Mas não era como se a Madoka-san tivesse dito aquilo sem fundamento— eu só não tinha percebido. Era algo óbvio que esse momento chegaria... foi o que senti.

"Então, é a mesma lógica do dever de casa das férias de verão. É melhor resolver tudo direitinho antes do prazo."

Madoka-san estufou o peito e se alongou para trás, como se estivesse exibindo seu busto.

"Então, até que ‘aquele momento’ chegue, que tal esquecer um pouco sua família e seus amigos, e pensar no que você realmente quer?"

"Mas... como eu faço isso...?"

"É simples. Se seu coração dispara quando você está com alguém, ou tipo, se você quer beijar essa pessoa, isso não quer dizer que você gosta dela?"

"...Mas então, qual é a diferença disso pra desejo?"

Naquele momento, percebi o quão resistente eu estava sendo.

Continuei imediatamente, como se estivesse tentando proteger algo desconhecido.

"Basicamente, o amor não nasce em parte de um desejo de reprodução? Então qual é a diferença entre o coração acelerar e... sentir desejo?"

"Oho, você acabou de trazer uma pergunta bem complicada... hm~, a ideia de amor não é a mesma coisa que reprodução. Se fosse como você disse, isso invalidaria o amor entre pessoas do mesmo sexo."

"...Isso..."

"Quanto à diferença entre amor e desejo... bem, é uma questão que atormenta a humanidade há milhares de anos. Mas vou te dar a minha resposta—"

Madoka-san apoiou a cabeça no braço encostado na borda da banheira.

Ela mostrou um sorriso travesso— e murmurou, como se fosse uma voz de quarto:

"—Bom, depois que eu fiz com meu namorado, eu olhei pro rosto dele... e ainda senti que gosto dele, sabe?"

"Fez...!"

Não consegui evitar lembrar de quando falhamos naquela vez em casa, quando minha mãe e o tio Mineaki não estavam, e o Mizuto me pressionou— naquele momento, meu corpo ficou tão quente que nem senti a água do banho.

"Nihihihi! Parece que foi um pouco estimulante demais~?"

E com um respingo, Madoka-san se levantou da banheira.

Gotas de água caíam de seu corpo sobre a banheira como uma chuva leve.

"Não precisa encontrar uma resposta imediatamente. Eu disse ‘vamos resolver isso direitinho’, né? Então— vamos começar parando de evitar ele por enquanto!"

"M-mesmo você dizendo isso..."

Eu não estaria sofrendo tanto se fosse tão fácil assim.

"Nihi", Madoka-san ouviu isso e riu novamente.

Mas dessa vez, sua risada soou quase como a de um anjo anunciando algo inevitável.

"Tudo bem. Deixa com essa irmãzona aqui!"

"Então espera aqui por enquanto!"

Madoka-san disse isso e fechou o shoji.

Depois do banho, fui guiada por Madoka-san até um quarto com aparência chamativa.

Parecia ser um quarto vazio, com apenas uma mesa, uma cômoda e uma estante sem livros— mas estava bem limpo, considerando a ausência de poeira no tatame.

Tinha tanta gente hospedada na casa, e ainda assim havia quartos vazios… realmente era uma mansão enorme.

Havia uma luz branca antiga no teto, mas não estava acesa.

Não havia corda pendurada, então esfreguei meus braços por cima do cardigan e procurei o interruptor.

“É verão, mas as noites aqui ficam frias, então tome cuidado”—lembrando do que a Madoka-san disse, fiquei pensando se meu corpo não esfriaria se eu ficasse ali por muito tempo.

Parece que ela pretende mediar entre mim e o Mizuto...

Ah, achei.

Apertei o interruptor na parede.

...Mas a lâmpada no teto não parecia que ia acender.

Nesse caso, a única fonte de luz naquele quarto era o luar que passava pelo shoji.

"—Aqui, aqui."

E então duas silhuetas apareceram sob a luz da lua.

Uma delas era a Madoka-san.

E a outra... provavelmente era o Mizuto.

"Desculpa~ por te fazer vir até aqui!"

"...Já que eu tô aqui mesmo, não me importo."

"Obrigada~! Você deve encontrar logo!"

Parecia que a Madoka-san tinha arrastado o Mizuto até ali com o pretexto de procurar alguma coisa.

Como esperado da Madoka-san, muito bem.

...Ele não me ouviria se eu falasse com ele, mas sempre escutava a Madoka-san sem hesitar.

"Aqui, entra, entra!"

O shoji se abriu.

Mizuto ergueu levemente as sobrancelhas ao me ver parada no quarto.

Mas Madoka-san o empurrou pelas costas e o forçou a entrar no tatame.

"Acho que está naquele tansu ali! Procurem juntos, você e a Yume-chan! Podem continuar!"

"...Haa."

Mizuto respondeu de forma vaga, nem sequer olhou mais para mim e foi até o tansu indicado.

[Paiva: Devia ter falado antes mas shoji é aquelas divisórias que tem em casas típicas japonesas e tansu são armários e baús móveis | Kura: Pensei em falar, mas achei que a maioria teria uma ideia]

O clima ficou extremamente estranho.

Você poderia pelo menos cumprimentar...?

—Resisti com força à vontade de reclamar e fui até o mesmo tansu.

Nesse momento—

"—Ah! Ai, ai, ai! Aiiiii~~~!!"

Ouvi um gemido ridiculamente falso, virei a cabeça e vi Madoka-san segurando a barriga.

"M-meu estômago dói~. E-eu vou ao banheiro~."

E enquanto ficávamos sem reação, Madoka-san saiu do quarto e fechou o shoji.

Então ela gritou para nós do lado de fora.

"Eu não volto por trinta minutos! Os tios e tias também não vão vir pra cá~~~~! E não, não saiam desse quarto até eu voltar~~! Tá!"

E foi isso! Ouvi passos leves, nada condizentes com alguém com dor de barriga, enquanto Madoka-san fugia dali.

"..."

"..."

Um silêncio doloroso envolveu o quarto escuro, iluminado apenas pela luz da lua.

Só consegui pensar uma coisa.

...Q-que coisa mais forçada~~~~~~~~!!!!

Retiro o que eu disse sobre “como esperado da Madoka-san”. Isso foi uma encenação tão fraca! Até a Higashira-san teria feito algo mais cuidadoso!

Surpreendentemente, a Madoka-san... não era muito boa em mentir.

"...Haa. Então é isso..."

Mizuto suspirou e colocou de volta no tansu o livro que tinha acabado de pegar.

Provavelmente percebeu que aquilo que a Madoka-san disse era só uma desculpa pra trazê-lo até aqui.

"30 minutos..."

Mizuto tirou o celular do bolso e verificou a hora. Não havia relógio naquele quarto.

Depois de ver a hora, foi até o lado mais iluminado pelo shoji e começou a mexer no celular.

Parecia não ter nenhuma intenção de cooperar com a situação que a Madoka-san preparou.

"...Você não vai dizer nada?"

Nesse silêncio, olhei para o Mizuto.

"Esse é um problema seu, não é?"

Ele manteve o olhar no celular.

"Não é como se eu precisasse resolver tudo por você."

É verdade.

É irritante, mas ele está certo.

Quando namorávamos, talvez pudéssemos ceder um pouco para manter o relacionamento.

Mas agora, acabamos nessa relação inquebrável como irmãos.

Não havia motivo para abaixarmos a cabeça um para o outro.

Ele estava claramente dizendo que eu deveria começar a conversa.

Mas eu— não sabia.

Eu não sabia o que dizer.

Não sabia qual era o problema em mim, nem como resolver.

Esse é meu terceiro dia nesta casa.

No primeiro dia, naquele antigo escritório, descobri pela primeira vez as origens dele.

No segundo dia, me diverti com os parentes e senti que poderia encontrar meu lugar na família.

E então, no terceiro dia... percebi o quão mesquinha eu era.

Sim. Eu era esse tipo de pessoa.

Uma pessoa negativa, covarde, intolerante e de mente estreita.

Com certeza o Mizuto já estava farto de mim.

Afinal, nosso término no ensino fundamental aconteceu diretamente por causa do quão ridiculamente mesquinha eu fui.

Por mais que eu lembrasse, só vinham à mente os meus erros. Minha incompetência, minha falta de compreensão, minha atitude ruim, minhas respostas ruins— olhando agora, eu estava assim porque tudo foi culpa minha.

E foi porque eu era esse tipo de pessoa— que esses sentimentos continuaram até hoje, mesmo sendo algo que eu já deveria ter esquecido há muito tempo.

— Ahh, então é isso?

De alguma forma, comecei a entender.

Finalmente entendi qual era o problema, e como resolvê-lo.

Entendi o que eu precisava dizer para ele agora.

Mas eu precisava de coragem.

Precisava de ainda mais coragem do que quando falei com o Mizuto enquanto ele lia, ou quando toquei no assunto sobre o passado dele.

Porque isso era basicamente abrir minhas próprias feridas.

Era como arrancar à força uma ferida que ainda não tinha cicatrizado completamente, uma casca sobre o meu coração.

Mas se eu, ou nós, quisermos deixar o passado para trás e olhar para o futuro—

—eu preciso aceitar essa ferida chamada primeiro amor.

Fui até o Mizuto, que estava encostado na parede, e me sentei diante dele.

Mizuto não tirou os olhos do celular.

E por causa disso— eu tomei minha decisão e disse o nome que eu não deveria mais usar.

"Irido-kun."

Os dedos que mexiam no celular pararam.

"Irido-kun."

Um olhar perturbado se voltou para mim.

"Irido-kun."

Eu deveria encará-lo de frente.

Deveria confrontá-lo.

Não deveria agir como se estivesse esclarecida, como se já tivesse superado os sentimentos que apodreciam no fundo do meu coração.

Afinal, não tinha como ignorar esses sentimentos, mesmo que eu quisesse.

"Irido-kun. Irido-kun. Irido-kun."

Mais.

Eu realmente— queria chamá-lo assim.

Quantas vezes eu quisesse.

Para sempre.

Um ano e meio foi pouco demais.

Como eu queria ter passado aquele verão com você.

E o segundo Natal, e o segundo Dia dos Namorados.

E o terceiro, quarto, quinto...

Eu queria ficar com você por mais tempo, sempre—

"—Irido, kun—"

Meus lábios tremeram, e minha voz também.

Mas ainda não era o suficiente.

Eu o chamei tantas vezes, mas não foi suficiente, nem de longe—

"—Irido, kun—"

Vamos terminar.

Quando ouvi essas palavras dele pela primeira vez, senti um peso sair dos meus ombros.

Acabou.

Finalmente acabou.

Essa dor, essa tristeza, essa solidão finalmente iam acabar.

Foi isso que eu... realmente senti naquela época.

Mas.

O que poderia ter acontecido começou a surgir na minha mente.

O tempo que poderia ter existido apareceu diante de mim.

As memórias que poderiam ter sido criadas preencheram cada canto da minha mente.

Com certeza eu teria sido feliz.

Com certeza eu teria sido abençoada.

Não importava o quanto fosse doloroso, triste ou solitário a ponto de partir meu coração— se eu pudesse trocar por aqueles momentos.

Ahhh——

——Se ao menos nós não tivéssemos terminado desde o começo.

Eu me arrependi.

Desde que terminamos, desde que nos tornamos irmãos por afinidade, eu finalmente— me arrependi.

Havia tantas maneiras de resolver aquelas discussões.

Se nós realmente quiséssemos, seria tão fácil perceber nossos próprios sentimentos.

Se eu tivesse continuado ao lado dele, passando tempo com ele.

Se um de nós tivesse cedido e feito uma ligação durante as férias de verão.

Se tivéssemos preparado presentes de Natal.

Se tivéssemos feito chocolates no Dia dos Namorados.

Se um de nós tivesse se recusado a aceitar o término.

Havia tantas oportunidades.

Infinitas. Incontáveis.

E mesmo assim, eu deixei todas elas escaparem.

Eu sempre achei que o gentil Irido-kun conseguiria resolver tudo... eu fui tão tola, e ainda assim tão esperançosa...

Eu fui uma idiota. Eu realmente fui uma idiota.

Nova turma, novos amigos, estudar para provas— tudo isso eram desculpas que eu inventei para mim mesma.

O que eu realmente queria era algo completamente diferente.

E porque eu sempre escolhi fugir, acabei me distorcendo... e cheguei a esse estado feio.

"――――Irido-kun――――"

Não me importo se você não responder. Estou apenas buscando um encerramento sozinha.

Não me importo se você não responder. Eu posso seguir em frente se conseguir superar esses sentimentos.

Não me importo se você não responder. Você está certo, não há motivo para isso.

Por isso eu não posso chorar. Isso faria você sentir pena de mim.

Por isso eu não posso chorar. Se você me consolar, eu vou voltar a ser como antes.

Por isso eu não posso chorar.

A pessoa que enxugaria minhas lágrimas— foi abandonada por mim mesma.

"――Ayai."

Por um momento, pensei que fosse imaginação.

Afinal... ele nunca me chamou assim.

Mas no instante seguinte, ele colocou gentilmente os dedos na minha bochecha, e eu soube que era real.

"...Só desta vez."

Mizuto se ajoelhou com um joelho no chão, ficando perto o suficiente para me tocar.

"Vamos voltar ao passado... por enquanto, Ayai."

Atrás dele, sobre o tatame, estava um celular desligado.

Não havia relógio naquele quarto.

O celular era a única coisa que permitia verificar o tempo.

E quanto ao ano, mês, dia, dia da semana—

—nem Mizuto nem eu sabíamos.

"...Uu...Ahh...!"

Deixei escapar um som— e então,

abracei o Mizuto com toda a minha força.

"Irido-kun――Irido-kun, Irido-kun, Irido-kun――!!"

"Ayai."

Mizuto respondeu gentilmente ao meu chamado, e acariciou minhas costas com suavidade.

Acho que eu poderia me desculpar agora, se quisesse.

Eu poderia ter dito: desculpa por ter sido estranhamente ciumenta, desculpa por não ter conseguido me dar bem com você, e tudo mais.

Só... me deixa refazer esse um ano.

Mas nem eu, nem ele, fizemos isso.

Afinal... já acabou.

Tudo, absolutamente tudo, já acabou.

Porque muitas coisas só podem começar depois que outras terminam.

Eu não podia fingir que... nada aconteceu durante esse último ano.

Comecei a entender como a Higashira-san se sentiu quando eu a consolei depois de ser rejeitada.

Essa ferida purulenta chamada arrependimento.

Só quem está na mesma situação pode curar esse tipo de ferida.

A pessoa com quem eu deveria simpatizar não era a Higashira-san—

—era apenas uma pessoa, e essa pessoa era o Irido-kun.

Sob a luz da lua, nos abraçamos sem nos separar.

Não nos beijamos.

Tudo porque eu era a ex-namorada, e ele era o ex-namorado.

"Faltam uns 5 minutos."

Mizuto murmurou enquanto olhava para o celular, agora ligado.

Ainda restavam cinco minutos dos trinta que a Madoka-san tinha dito.

Bem, não seria surpresa se ela voltasse alguns minutos antes ou depois, considerando aquela atuação terrível...

Eu estava um pouco cansada de chorar, então encostei as costas na parede e olhei para o espelho de mão.

Nossa... meus olhos estão bem vermelhos...

Qualquer um perceberia que eu acabei de chorar. Tem algum jeito de disfarçar isso...?

"Então, afinal?"

Mizuto, sentado ao meu lado, apoiou os cotovelos nos joelhos enquanto falava.

"O que você odeia tanto a ponto de me evitar? Eu ainda não entendi."

Ah... falando nisso, eu não tinha contado.

Para o Mizuto, eu era só a garota que de repente começou a chamá-lo pelo nome antigo e começou a chorar.

...É impressionante que ele ainda esteja lidando com isso.

Ele é algum tipo de expert? Você me entende bem demais.

E isso— sim, era algo que eu gostava em você.

Embora agora esteja no passado.

"...Nada demais. Eu já resolvi isso."

"Eu ainda não resolvi. Meu estômago tá roncando."

"Então não é só soltar?"

"Estou com prisão de ventre. Tô estressado por causa de certa pessoa."

Que sarcástico.

[Kura: Boa kkkk]

Eu realmente odiava esse lado dele. Sempre.

"...Pri..."

Soltei um suspiro leve, olhei para o teto escuro e tomei minha decisão.

"...Primeiro amor."

"Hã?"

"Eu achei que seu primeiro amor fosse a Madoka-san... e isso meio que me irritou."

Ah, sério, que vergonha!

Não me faça explicar minha própria história vergonhosa pra você!

Me perguntei se ele me acharia uma idiota e olhei de relance para ele.

E então—

Mizuto franziu a testa, surpreso, e inclinou a cabeça.

"Primeiro amor...? Madoka-san? Eu?"

"Eh?"

Espera... ele tá realmente confuso?

"E-eu estou errada...?"

"Eu não lembro de ter gostado da Madoka-san."

"M-mas eu achei que caras geralmente gostassem de irmãs mais velhas entre os parentes e tal..."

"Isso é na maioria das vezes."

"N-não, espera... c-certo. Você não é sempre obediente com a Madoka-san!? Você sempre me ignorava quando eu te pedia algo!"

"É porque a Madoka-san é muito insistente."

Mizuto pareceu exasperado ao suspirar.

"Você também não foi trancada nesse quarto sem motivo nenhum?"

"...Ah."

É verdade.

"A Madoka-san é a parente mais próxima da minha idade, e é verdade que ela sempre cuidou de mim no passado, mas eu nunca gostei dela. Eu achava ela irritante, já que vivia pegando no meu pé."

"Embora eu já tenha me acostumado com isso", foi o que Mizuto disse.

"Eu achei que você estava fazendo umas perguntas estranhas ontem, mas não imaginei que fosse por causa de um mal-entendido desses... sério, suas capacidades básicas são boas, mas por que você sempre falha justamente nos momentos importantes?"

"Grr..."

Não consegui responder.

Isso foi completamente culpa minha.

Passos podiam ser ouvidos ao longe.

Talvez a Madoka-san tivesse voltado.

Mizuto se levantou, ficando sob a luz da lua, e olhou para mim.

"Você tá bem, Yume ?"

Ele pareceu enfatizar a forma como me chamou, e eu respondi.

"Sim, não se preocupe, Mizuto ."

Nós nos chamávamos pelo nome não porque ficamos mais próximos.

Era apenas porque tínhamos o mesmo sobrenome.

O motivo dessa mudança de tratamento era algo tão sem graça.

"...Fufu."

Por algum motivo, achei aquilo estranhamente engraçado.

Talvez porque, depois de tanto tempo, eu finalmente percebi.

Estamos nessa idade, e eu finalmente tenho um parente mais velho assim— e...

"...Viu só? Eu não te disse?"

"Eh?"

Mizuto murmurou de repente, e quando olhei para cima, vi meu meio-irmão mais novo ouvindo os passos que se aproximavam do shoji, como se estivesse escondendo algo.

"—Eu não disse que meu primeiro amor era alguém que tinha um riso fácil... sua idiota?"

Naquele momento—

fiquei profundamente grata por a lâmpada daquele quarto não acender.

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Notas dos Tradutores / Revisores:

-Kurayami: Realmente, esse foi um dos melhores capítulos que eu traduzi, evitei comentar, e também não conseguiria por estar dentro da história. Mas ver que a Madoka foi de grande ajuda é enriquecedor para a obra, porque não temos isso no mangá e anime. Claro, algumas cenas são bem… no sentido da obra kkkk, mas ver que a Yume entendeu porque tudo deu errado foi um grande passo. Acho que esse arco é um dos mais enriquecedores, mas vamos deixar o texto enorme para o último cape kkkkk (Paiva, ainda fiquei com um dos melhores capítulos)

-Paiva: Também não quis comentar muito nesse cap pq foi mais algo pra apreciar em silêncio, que cap incrível, mas o derradeiro, o que vai provavelmente mudar a obra e finalizar o que foi adaptado pro anime é o próximo e sinta inveja kura, pq o proximo cap é meu!!! kkkkk brincadeiras a parte, nos vemos no próximo e ultimo cap do volume(po a gente ta no dia 01/05 e a gurizada só vai ver isso em junho/julho kkkkkk)

-Ayko: Não sei quantos comentários meus eu apaguei revisando isso aqui. MAS MEU AMIGO, QUE CAPÍTULO BOM cara. Que imersivo, o modo com que a Yume lentamente se entende sobre o que sente, a sensibilidade do Mizuto em perceber isso, e a Madoka empurrando a Yume a se autoconscientizar dos próprios complexos internos. O próximo promete, o próximo promete e muito! Nada muito a declarar, nos vemos no próximo cap gurizada! (me senti o Paiva, vou aderir ao gurizada).

Traduzido por Moonlight Valley

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