LNCrawler

Capítulo 19: O Primeiro Passo

A Herança Dos Caídos — novelmania.com.br · All chapters

Capítulo 19: O Primeiro Passo

Ronan despertou com o sobressalto, mas o quarto não estava lá. Viu-se em um corredor que conhecia apenas dos seus pesadelos. A porta estava no mesmo lugar de sempre, mas a atmosfera parecia ter mudado; estava carregada de uma eletricidade que fazia os pelos de seus braços se arrepiarem.

Foi então que percebeu: o chão estava respirando.

As pedras sob suas botas inflavam e desciam em um ritmo lento, como se a montanha possuísse um pulmão gigantesco oculto sob a superfície. A cada exalação, o brilho dos cristais diminuía; a cada inspiração, o corredor era banhado por uma luz avermelhada e quente.

E a porta… não era apenas vermelha. Parecia úmida, como se tivesse sido mergulhada em algo espesso.

Ronan parou abruptamente. Os instintos gritavam para que ele desse meia-volta e corresse até que suas pernas cedessem, mas o corpo não obedecia. Era como se fios invisíveis estivessem amarrados ao seu peito, puxando-o para frente. Cada passo ecoava num compasso que não era o seu; a própria madeira da porta parecia ditar o ritmo de seu caminhar.

Quando levantou a mão, sentiu uma estranha dissociação, como se observasse os movimentos de outra pessoa. Não queria tocá-la, mas a porta parecia exigir ser tocada.

Seus dedos encostaram na superfície. O calor não o queimou; em vez disso, latejou sob a palma em sincronia com as batidas de seu coração. Um, dois, três... e então, um quinto pulso surgiu. Uma batida intrusa que não vinha de dentro dele.

Tum .

A estrutura estremeceu, enviando uma vibração que subiu pelo braço até a nuca.

Tum .

Um som mais profundo e cavernoso reverberou, sacudindo as paredes.

Tum. Tum. Tum.

Ronan tentou gritar, mas a garganta parecia selada com cera quente. A madeira começou a se mover, estufando-se como se algo pressionasse o lado oposto com força descomunal. Então, algo que fez seu sangue virar gelo aconteceu: uma mão tocou a porta pelo lado de dentro.

Os dedos invisíveis pousaram exatamente sobre os dele, separados apenas pela espessura da madeira quente. Ronan congelou. Sentiu o arrastar lento de unhas pelo outro lado, contornando o desenho de sua própria mão com uma precisão aterrorizante.

— Você não é ela… — disse ele.

A voz veio em seguida, um som baixo sussurrado diretamente dentro de seu ouvido:

— Abra.

O sussurro era áspero, mas carregava um traço quase humano que o tornava pavoroso. A madeira foi empurrada novamente, cedendo centímetros, como se a coisa do outro lado estivesse prestes a romper.

Com um esforço supremo, Ronan recuou um passo.

No instante em que seu pé tocou o chão atrás dele, o som cessou. O latejar parou. O silêncio voltou a ser absoluto e o corredor começou a se desfazer como cinzas sopradas, deixando para trás apenas a escuridão do vazio.

…

Ronan despertou com o gelo do chão contra as costas, uma frieza que se instalava nos ossos como um lembrete de que ainda estava vivo. O teto de pedra parecia mais alto e impessoal do que na noite anterior. Ele permaneceu imóvel, forçando o ar a entrar e sair dos pulmões, esperando que a pressão em seu peito diminuísse.

Sabia que sonhara, embora não restasse nada além de um nó cego apertando o fundo de sua mente.

Se eu tivesse mantido os olhos fechados... , pensou, observando uma rachadura solitária acima. ...ninguém teria percebido. Seria tão ruim assim não acordar?

Fechou as pálpebras com força para fugir da luz, mas a escuridão trouxe a voz de Thalindra. As palavras dela voltaram a circular, cortando qualquer tentativa de paz. O estômago contraiu; o ar ao redor pareceu denso.

Morrer não me agrada, admitiu . ...mas continuar aqui dói mais do que eu esperava. Talvez eu devesse apenas... acabar com isso.

A ideia instalou-se com a naturalidade de um móvel em um quarto familiar. Rápido. Um fim sem notas de rodapé. Mas logo a sensação de alívio se distorceu em algo sinistro.

Não rápido. Eu não mereço que seja rápido.

A respiração tornou-se curta e trêmula.

Eu sou imundo. Mereço sofrer. Se eu ficar aqui, sem comer, sem sair...

Antes que a imagem se completasse, uma voz ecoou dentro dele, autoritária:

Levante-se.

Ronan cerrou os dentes até a mandíbula doer.

— Não... — murmurou, a voz quebradiça. — Eu não quero levantar.

Levanta.

— Por quê? — sussurrou, sentindo o gosto amargo na boca. — Por que eu levantaria agora?

A resposta veio com uma lógica perversa:

Se eu levantar agora... posso encontrar um penhasco.

Ronan moveu os lábios levemente, saboreando a possibilidade.

— Sim... Eu deveria levantar.

Com um esforço imenso, Ronan apoiou as mãos no chão. Os músculos tiveram espasmos; as pernas tremiam, instáveis. O estômago doía de um jeito constante — uma fome que já passara do ponto da dor e se tornara apenas um fato.

Ele se ergueu.

Atravessou o quarto com passos arrastados, observando o próprio reflexo no mármore polido do corredor.

— Eu poderia… subir até a sacada — murmurou.

Era uma ideia simples, quase convidativa. Ele começou a descer os degraus. Contou até o centésimo e parou de contar, mas os pés continuaram se movendo. Não havia pensamento, apenas o foco no degrau seguinte.

Ao alcançar os corredores movimentados, um anão robusto esbarrou nele com força, jogando seu ombro contra a parede.

— Seu rato imundo… — resmungou o homem, seguindo sem olhar para trás.

Ronan não parou. Rato imundo. Humano. Bastardo. As palavras ecoavam, mas não geravam raiva. Ele as aceitava como descrições precisas de sua pele e de seu sangue.

Ele atravessou as muralhas internas e o ar mudou. À frente, Karak-Dûm se abria em um domo vasto. Pontes suspensas cruzavam o abismo enquanto engrenagens e correntes colossais rangiam acima das casas esculpidas na rocha. Ronan caminhou pela multidão, invisível. Ninguém olhava para ele; era como se já tivesse deixado de existir.

Vagou pelas ruas até que um grito agudo cortou o ruído das correntes.

Ele parou. O som vibrou dentro de seus ouvidos, disparando um reflexo mecânico em seu corpo. Ronan virou-se e entrou em uma viela estreita e escura. No fim do caminho, três garotos anões cercavam algo no chão.

Ronan olhou para a cena e, enquadrada pelo cerco dos garotos, ele a viu.

Era pequena e magra, encurralada contra o muro, mas o que fez o coração de Ronan dar um solavanco foi a cor. Os cabelos dela eram longos e embaraçados, de um verde pálido e quase luminoso, de um tom tão raro e delicado que parecia ter sido roubado de um jardim proibido. Os olhos, de um verde idêntico, brilhavam com intensidade febril. Havia sujeira em suas bochechas e sangue seco no canto da boca, mas ela não emitia som.

A menina encarava os agressores com uma firmeza que desafiava a lógica. Era uma resistência silenciosa que, de algum modo, espelhava o próprio sofrimento de Ronan.

O mais velho dos garotos avançou, enroscando a mão no cabelo verde da menina com um puxão que forçou a cabeça dela para trás. Ronan sentiu uma pontada de simpatia doentia ao ver o lábio da garota rachar, mas o que se seguiu fez seu sangue estancar.

Ela não gritou nem implorou. Simplesmente ergueu os olhos e sorriu.

Era um sorriso carregado de uma convicção assustadora, um brilho feroz que antecedeu o movimento. Como um raio, o punho miúdo da menina subiu e atingiu em cheio a garganta do agressor. O impacto foi seco, certeiro; um som de cartilagem esmagada que fez o garoto engasgar e cambalear, as mãos subindo ao pescoço enquanto lutava pelo fôlego.

Ronan observava da penumbra, os dedos contraídos.

— F-filha da... puta! — o garoto sibilou, a voz falhando enquanto o ódio deformava seu rosto. — Eu vou arrancar seus dentes!

Ele recuou o braço, o punho fechado como uma marreta. Ronan não viu o movimento, apenas a intenção, crua e sangrenta. Antes que pudesse racionalizar ou que o medo o paralisasse, já havia saído das sombras.

— PAREM! — a palavra explodiu de seus pulmões.

O som rebateu nas paredes de pedra da viela, reverberando como se a própria montanha tivesse soltado um grito de alerta. Os três garotos congelaram. O maior deles, massageando a garganta, encarou Ronan com desprezo.

— Tsk... e esse aí? — Cuspiu no chão. — Perdeu o caminho da lata de lixo, príncipe?

— Olha só... o humano engomadinho — zombou o segundo. — O bichinho de estimação do Rei.

O terceiro riu.

Ronan não respondeu. Inspirou devagar, sentindo um peso denso se formar no peito, abafando os sussurros de Thalindra. Quando eles riram novamente, o último fio de sua paciência arrebentou.

Seu corpo agiu por conta própria. Um passo à frente, outro mais rápido; no terceiro, era um vulto.

— Ei— o maior tentou protestar, mas a palavra morreu na boca.

Ronan saltou. Seu pé atingiu o rosto do garoto com um impacto seco.

THOCK.

O anão foi arremessado, a cabeça batendo na pedra com um som oco antes de o corpo desabar, inerte. Os outros dois recuaram por instinto, os rostos pálidos.

A menina, ainda prensada contra a parede, ergueu o rosto devagar. Seus olhos verdes encontraram os de Ronan, brilhando com uma surpresa genuína.

Ronan respirava com dificuldade, o ar entrando nos pulmões como se carregado de agulhas. O ódio não havia se dissipado; pelo contrário, parecia ter se condensado em uma clareza fria. Ele ergueu o olhar para os dois garotos restantes, sentindo a pulsação forte nas têmporas.

— Mais alguém? — Sua voz soou baixa e firme, reverberando nas paredes estreitas.

A resposta veio em passos pesados vindo das sombras. Cinco, seis... talvez mais. O bando cercou a entrada da viela com a eficiência de uma alcateia, empunhando paus e correntes. Ronan recuou, colocando-se entre eles e a menina.

Atrás dele, ela se ergueu. Ele podia ouvir sua respiração entrecortada e sentir o calor que emanava de seu corpo. Os cabelos verdes, colados à testa pelo suor, brilhavam fracamente.

— É sério que você apanhou para o Ronan? — zombou uma voz vinda do grupo.

O garoto caído tentou se levantar, mas desabou com um gemido. Um dos amigos o segurou, lançando a Ronan um olhar carregado de riso maligno.

— Sempre soube que era um idiota… mas não imaginava que fosse tão burro.

A menina se aproximou de Ronan, roçando em seu braço. O toque enviou um solavanco por todo o corpo dele. O líder do bando ergueu um pedaço de ferro nodosa.

— PEGUEM ELE!

O grupo avançou em um amontoado de gritos. Ronan enrijeceu os punhos, pronto para a colisão, mas piscou, confuso. A mão da menina fechara-se sobre a dele — uma pegada forte demais para alguém tão pequena. Ela o puxou com determinação.

— Anda — disse, a voz urgente.

Correram. Ronan sentia-se leve, guiado por aquele vulto verde através do labirinto de pedra. Atrás, os gritos de indignação ecoavam, mas ele mal os ouvia. Só conseguia olhar para ela e para a precisão com que se movia.

Eu... não quero fugir..., pensou, a garganta travada por um orgulho antigo.

A garota pareceu ler seus pensamentos, aproximando-se o suficiente para que o hálito quente tocasse o ouvido dele:

— Confie em mim.

Ela fechou os olhos. Seus lábios moveram-se em um murmúrio rápido. Ronan sentiu primeiro nos pés: um tremor profundo que subia do âmago da montanha. Os perseguidores pararam, a bravata substituída por terror.

O mundo pareceu se partir.

CRASH!

A rocha explodiu do chão como um punho colossal. A terra rasgou-se, arremessando poeira, enquanto uma muralha de pedra bruta nascia entre eles e o bando. O impacto vibrou no peito de Ronan, fazendo seus dentes chacoalharem.

Quando a poeira baixou, uma parede imensa bloqueava a viela. Do outro lado, os xingamentos soavam distantes. Ali, reinava o silêncio, quebrado apenas pela respiração pesada de ambos. A mão dela ainda estava entrelaçada à dele — quente, firme e ligeiramente trêmula.

Quando finalmente voltou o olhar para a menina, ela abria os olhos devagar, como se despertasse de um sonho exaustivo. No instante em que se encararam, o choque foi tamanho que ambos pareciam ter levado uma bofetada invisível.

Nenhum dos dois parecia saber o que dizer. O silêncio na viela era tão espesso que Ronan sentia que poderia cortá-lo com uma faca.

Então, a quietude foi estilhaçada.

O estômago de Ronan soltou um rugido.

Não foi um barulho qualquer. Foi um GRRRRR cavernoso, o som de uma fera faminta esquecida em uma caverna por uma semana. O ruído ricocheteou na muralha de pedra e voltou para atingir o rapaz em cheio.

Ele sentiu a alma tentar fugir do corpo de tanta vergonha; as orelhas queimaram instantaneamente. A menina piscou, observando a barriga dele com um espanto que, lentamente, começou a se transformar. Ela levou a mão à boca para conter o que vinha a seguir, mas falhou miseravelmente.

O primeiro som foi um pff abafado entre os dedos. Depois veio uma risadinha trêmula e aguda, tão fora de controle que parecia que ela ia desmontar ali mesmo, no meio da poeira.

— N-não… — tentou Ronan, mas a voz saiu em um tom agudo e ridículo, o que só piorou a situação.

A menina olhou para ele, as bochechas coradas sob a fuligem e os olhos verdes brilhando de uma forma que ele nunca vira em Karak-Dûm. Ria com o corpo inteiro, tentando conter uma enchente com as mãos.

Aquilo foi o golpe final na resistência de Ronan. Uma risadinha escapou dele — um som enferrujado e torto, quase um soluço de quem esquecera como os músculos do rosto funcionavam para algo que não fosse morder o lábio de ansiedade.

E isso a fez rir ainda mais alto.

Ronan acompanhou-a, uma risada genuína borbulhando no peito, arrastado pela força do momento absurdo.