Capítulo 21: O Que Não Me Deixa Dormir
Capítulo 21: O Que Não Me Deixa Dormir
A fumaça que subia do prato de porcelana era fina, mas densa o suficiente para embaçar os olhos de Ronan. Ele segurou a colher de ferro com uma firmeza que há muito não usava. Levou o caldo à boca, devagar, quase esperando a decepção de sempre.
Não veio.
A sopa estava quente. Genuinamente quente. O calor desceu pela garganta como um afago, despertando as papilas gustativas e, junto com elas, um rastro de memórias que ele passara meses tentando soterrar.
O sabor abria rachaduras em sua mente, trazendo à tona as texturas do que vivera em Karak-Dûm até ali. Ele se lembrou da água do banho, sempre intencionalmente gelada, que os criados do palácio preparavam. Lembrou-se das mãos rudes e indiferentes que o esfregavam com panos grossos até que sua pele ficasse vermelha e ardendo. Lembrou-se dos pratos de comida que eram deixados de propósito em cima do balcão da cozinha, esfriando até que a gordura coagulasse na superfície, para só então permitirem que ele comesse. Era tudo punição. Um castigo silencioso e diário por ele ser o que era: um intruso de carne e osso no meio da pedra.
Mas aquela sopa… aquela sopa estava quentinha.
A dúvida brotou na mente de Ronan enquanto ele soprava a colher seguinte. Será que, finalmente, eles haviam se cansado? Será que o desejo velado de castigá-lo havia chegado ao fim?
Pela primeira vez desde que fora confinado àquela mesa comprida e cinzenta, Ronan permitiu que um sorriso surgisse em seus lábios. Deu mais uma colherada, deixando-se levar pelo conforto do estômago cheio.
Contudo, a calmaria sob a terra nunca durava.
Ronan sentiu o peso de alguns olhares sobre si. Pelas frestas das colunas de sustentação, vultos de criados e guardas observavam, estáticos. Havia uma malícia contida naquelas expressões. Ele tentou ignorar. Forçou os olhos para baixo, concentrando-se no prato, e engoliu mais uma porção do caldo. E mais uma. No fundo do prato, misturado aos legumes cozidos, havia um pedaço maior e escuro de carne. Fazia tanto tempo que ele não via algo substancial na sua dieta que o peito chegou a acelerar.
Ele manobrou o talher, capturando o pedaço com a colher.
Aproximou-a do rosto, soprando a fumaça para poder morder. Foi quando a luz fraca dos lustres bateu na poça de caldo e revelou os contornos exatos do que estava ali. Aquilo não era um pedaço de carne comum. Ajeitado entre os legumes, com os pelos finos grudados pela fervura e uma cauda delgada que pendia para fora da borda do metal, estava o corpo inteiro de um camundongo.
Os olhos de Ronan arregalaram-se.
Sua mão espasmou. Ele jogou o talher para longe, o ferro tinindo alto contra a pedra do chão enquanto o caldo quente salpicava suas roupas. O estômago, que segundos antes celebrava o calor, revirou-se em um espasmo violento. Ronan inclinou-se para o lado da cadeira, as fustigadas de vômito rasgando sua garganta enquanto o sabor da sopa se transformava em puro veneno na sua boca.
O horror da cena prendeu o ar em seus pulmões com tanta força que o mundo ao redor começou a girar, desfazendo-se em fumaça cinzenta.
Ronan puxou o ar num sobressalto, abrindo os olhos na escuridão.
O teto de pedra do quarto surgiu acima dele. Suas mãos apertavam o cobertor áspero com os nós dos dedos brancos de tanta força. Suor frio escorria por seu pescoço, e o coração batia como uma picareta contra as costelas. Não havia salão, não havia criados, não havia sopa.
A náusea do pesadelo ainda estava viva em sua garganta, real o suficiente para fazê-lo sentar-se na cama de uma vez, trêmulo. Ele olhou para o artefato mágico na parede, que mal começava a piscar. O susto fora o bastante para fazê-lo despertar muito antes do habitual, deixando-o sozinho com o silêncio pesado da madrugada de Karak-Dûm.
Ele passou a mão pelo rosto, tentando afastar o suor que lhe escorria pela pele. Só então percebeu que nem todas aquelas gotas eram suor. Algumas eram grossas, lentas, e desciam silenciosas do canto dos seus olhos.
Ronan engoliu em seco, mas o nó na garganta apenas apertou. Outras lágrimas vieram, quentes demais para o frio que tomava seu corpo. Se aquilo fosse só uma invenção da sua cabeça cansada... ele não estaria chorando daquele jeito. O pesadelo não tinha criado aquele horror; apenas arrancara o pano que o escondia.
Aquilo tinha acontecido. Era uma lembrança.
Toda a angústia sufocada voltou de uma vez só, trazendo o gosto amargo da injustiça que ele arrastava pelos corredores de Karak-Dûm. A humilhação de ser tratado como um bicho pelos criados, o estômago vazio, a raiva silenciosa daquelas pessoas que o olhavam com nojo — tudo aquilo era real.
Na época, quando o Rei Baragor descobriu a crueldade, os responsáveis foram demitidos e expulsos do palácio. Mas a demissão deles nunca consertou nada dentro de Ronan. Na verdade, parecia uma punição leve demais, quase uma ofensa. Eles apenas voltaram para suas casas na cidade subterrânea, enquanto ele continuou preso ali, trancado com o fantasma daquela desumanidade, sentindo-se eternamente quebrado e culpado por um crime que sequer sabia qual era. O castigo dos criados havia acabado, mas o dele parecia perpétuo.
Ele cobriu o rosto com as mãos compridas, tentando estancar o choro, e foi nesse escuro que as imagens mudaram.
A névoa pesada da memória deu lugar a algo brilhante. A voz de Lisa surgiu na sua cabeça, o sussurro suave daquele feitiço que ele não compreendia. E então, a muralha. Ronan viu de novo a rocha rasgando o chão, erguendo-se com uma violência bruta e, ao mesmo tempo, uma graça que parecia dançar. O som profundo da terra se partindo reverberou em seus ouvidos, mas já não dava medo.
Porque logo depois veio o riso dela. E o dele.
As palavras de Lisa voltaram com uma clareza absurda, ecoando no quarto vazio. “Você fica bonito rindo.” Pela primeira vez na vida, alguém havia elogiado algo nele. Sorrir era uma coisa boba, um movimento de rosto que nunca tinha feito diferença no seu dia a dia. Mas, a partir daquele momento, a lembrança daquelas palavras fez seu próprio sorriso parecer a parte mais importante e preciosa do seu corpo.
Ronan sentiu um aperto diferente no peito. O único problema... era que ele nunca tinha tido um motivo de verdade para sorrir. Seu estoque de alegria parecia vazio, e ele sabia disso.
Ele olhou para as próprias mãos na penumbra. Então um pensamento bem pequeno surgiu na sua cabeça.
E se eu aprendesse magia?
Ele piscou para o teto, surpreso consigo mesmo. Parecia tão simples... por que nunca tinha pensado nisso antes? Sua mente voltou para a parede de pedra se erguendo e para a liberdade que sentiu quando os dois escaparam juntos.
Se eu também conseguisse fazer aquilo... A imagem de Lisa rindo enquanto movia as mãos apareceu de novo. ...Será que eu também ia conseguir sorrir assim?
Ele puxou e abraçou o travesseiro contra o peito.
Será que, se eu aprendesse magia... eu ia ter um motivo para sorrir todo dia?
A ideia aqueceu seu peito por um breve instante.
Então a realidade caiu sobre ele.
O travesseiro ofereceu pouca resistência quando o punho afundou contra o estrado. O tecido rangeu, espremido por dedos que teimavam em tremer. A biblioteca real era o único mapa possível para o que ele buscava, mas havia um obstáculo impossível de ignorar.
A proibição da rainha Thalindra não era um aviso abstrato. Ela havia delimitado, com absoluta precisão, os lugares do palácio onde Ronan podia e não podia entrar. E a biblioteca de Thazrim-Kel estava muito além desses limites: era um território completamente vetado a ele.
Ficou encarando a porta escura, medindo mentalmente o tamanho do risco. O que de pior aquela mulher ordenaria se o flagrasse entre as estantes? Uma humilhação pública diante do conselho? Um castigo físico nas galerias inferiores?
Que fizesse. A vida que ele arrastava pelos cantos escuros de Karak-Dûm já não se diferenciava de uma sentença de morte lenta. Se a única chance de arrancar daquelas páginas um motivo real para sorrir dependia de invadir o território dela, ele cruzaria a linha. Tomaria o que queria daquela montanha à força, mesmo que o preço cobrado fosse o seu último suspiro.
O sono não retornou nas horas seguintes. Se Ronan fizesse parte de algum dos círculos de jovens do palácio ou tivesse a quem chamar de amigo, jamais confessaria que passou o restante da madrugada acordado, com os olhos fixos nas ranhuras do teto, impulsionado por uma pressa que não o deixava relaxar. Ele se vestiu na penumbra, ajustando as amarras das botas com força antes que os primeiros movimentos dos empregados começassem a soar.
Quando ganhou o corredor, a ala residencial do castelo, dada às famílias mais ricas pelo rei, estava submersa em uma quietude pesada. Era o momento mais seguro. Os anões da alta sociedade mantinham-se recolhidos em seus feudos privados e não circulavam pelo mármore cinzento antes da hora certa. Eles esperavam o acionamento dos grandes cristais mágicos fixados no topo do domo da montanha; precisavam daquela claridade dourada artificial para justificar suas caminhadas pomposas e exibir os trajes costurados para a corte.
Ronan acelerava o passo à medida que avançava pelas galerias intermediárias. O barulho de suas solas batendo na pedra polida parecia estalar na acústica vazia dos tetos altos, um som nítido que o obrigava a manter os braços junto ao tronco para diminuir qualquer ruído extra. Ele já vira a segunda guarita quando uma silhueta dobrou a esquina à frente, vindo na direção oposta.
O contraste das vestes chamou sua atenção de imediato. Não era um dos criados ou um exterminador de ratos. O casaco de lã escura tinha um corte estruturado, com debruns metálicos que refletiam a luz fraca das paredes. No lado esquerdo do peito, o brasão da família Grimhold estava perfeitamente visível: o martelo cruzado sobre a rocha partida. Um aristocrata da corte.
O reflexo gerado por anos de submissão agiu na base da nuca de Ronan antes que ele pudesse conter o movimento. Seu queixo tendeu a cair, os olhos buscaram os padrões geométricos do piso e seus ombros se inclinaram levemente para a esquerda, procurando o recuo em direção à sombra das pilastras.
Olhar pro chão, Ronan… olhe para as botas dele.
A ordem automática repetiu-se em sua mente. Ele enfiou as mãos nos bolsos, os dedos prensados contra as palmas até as unhas machucarem a pele, preparando-se para estagnar contra a parede e esperar o nobre anão passar, como ditava o protocolo.
No entanto, a cadência firme dos passos do anão continuou vindo pelo centro exato do tapete, sem o menor desvio. Aquela indiferença física fez algo se mover no estômago de Ronan. O maxilar dele travou com tanta força que a musculatura do rosto doeu, e um calor desconfortável subiu pelo pescoço. A ideia de encolher o corpo mais uma vez, de abaixar a cabeça e pedir desculpas silenciosas apenas por compartilhar o mesmo espaço, pareceu subitamente intolerável.
Quantas vezes mais? Até quando eu vou me comportar como se não devesse estar aqui?
O ritmo de suas botas não diminuiu. O coração descarregava batidas pesadas contra as costelas, um impacto que ele conseguia sentir na garganta, mas ele forçou os joelhos a manterem a marcha em linha reta.
Ele ergueu o rosto. Tensionou a testa e fixou os olhos em um ponto morto na parede ao fundo, recusando-se a focar no chão ou nos detalhes do gibão do nobre.
Os dois se emparelharam no meio da galeria. O espaço reduziu-se a pouco mais de um palmo de distância. Ronan sentiu o deslocamento de ar das vestes pesadas do Grimhold e o odor forte de tabaco e loção de barba que o sujeito exalava. O anão manteve o curso, com os braços cruzados às costas e o olhar fixo adiante, tratando Ronan como um obstáculo invisível. Nenhum dos dois cedeu o centro do corredor.
Eles se cruzaram. O som das botas manteve a regularidade, e a distância entre as costas de ambos começou a crescer.
Ronan caminhou mais dez metros antes de parar perto da entrada da ala leste. Só então levou a mão ao esterno e soltou o ar que estivera retido, uma pressão que ele sequer notara que estava segurando. Suas costelas subiam e desciam de forma desordenada, mas a rigidez de suas mãos havia sumido.
Eu… consegui.
Um sorriso curto, desajeitado e quase sem som surgiu no canto de seus lábios. Ronan fechou os olhos por um segundo para estabilizar a respiração. O perigo real não tinha passado; os grandes batentes de bronze da biblioteca ficavam mais próximos, e o decreto de Thalindra continuava valendo. Mas o peso que o obrigava a olhar para o chão tinha ficado para trás naquele corredor.
…
O restante do trajeto até a biblioteca ocorreu sem novos sobressaltos. Ronan avançou pelos corredores sem cruzar com mais nenhum nobre, e os poucos guardas reais de prontidão nos postos de controle pareciam entorpecidos pelo cansaço do fim do turno. Alguns apenas o mediram com os olhos, sonolentos demais para iniciar uma abordagem, enquanto outros simplesmente viraram o rosto, escolhendo a indiferença.
Quando alcançou a imensa biblioteca, ele contornou as primeiras fileiras de prateleiras e foi direto para o setor de magias. Seus olhos vasculharam as lombadas de pedra e couro, tentando encontrar algum título que fizesse sentido para quem não sabia por onde começar. Algo voltado para iniciantes, uma introdução elementar.
Ele esticou o braço e puxou um volume aleatório, encadernado em um tom escuro de marrom. O deslocamento do ar desalojou uma camada espessa de poeira acumulada, que subiu em uma nuvem cinzenta e flutuou sob a luz fraca dos lustres do teto.
Ronan apertou os olhos, tentando segurar a reação do próprio corpo, mas o reflexo foi mais rápido.
O impacto do primeiro espirro quebrou o silêncio do salão vazio. Depois veio o segundo, e o terceiro, o som estalando contra as paredes de pedra e deixando seu rosto levemente avermelhado. Ele puxou o ar com dificuldade, limpando o nariz com as costas da mão.
— Odeio poeira… — resmungou.
Ele soprou a capa para afastar os resquícios de sujeira e abriu o volume, embora a esperança inicial já estivesse diminuindo. Correu os dedos pelas páginas texturizadas, mas o conteúdo não ajudava. Virou mais uma folha. Nada mudava. Devolveu o tomo ao lugar e buscou outro, apenas para encontrar o mesmo padrão: páginas repletas de termos técnicos complexos, diagramas geométricos exaustivos e parágrafos de pura teoria. Eram centenas de palavras que pareciam carregar grande importância, mas que não ofereciam nenhuma aplicação prática imediata.
Ronan fechou o segundo livro com mais força do que pretendia, produzindo um baque que ecoou por Thazrim-Kel.
Nenhum daqueles manuais tradicionais parecia útil. Nenhum oferecia um ponto de partida compreensível para quem estava do lado de fora daquele mundo. A sensação era a de encarar um oceano profundo de símbolos e fórmulas sem ter a menor noção de como nadar.
Ele se afastou das prateleiras principais, com os ombros pesados pelo início da frustração, e deixou o olhar vagar pelas divisões infinitas do setor. Sem rumo, caminhou até uma mesa comprida de carvalho próxima dali, onde dezenas de volumes haviam sido amontoados de forma desleixada. Algumas pilhas eram tão altas que alcançavam a linha do seu peito; outros livros exibiam bordas visivelmente rasgadas e capas gastas pelo manuseio constante ao longo dos anos.
A desordem daquela mesa lembrava o estado de sua própria mente. Ronan passou os olhos pela confusão de papéis e pergaminhos até que algo chamou sua atenção no meio do volume de capas escuras.
Entre os livros desalinhados, uma encadernação específica se destacou. Ronan não saberia explicar o motivo, mas a textura do couro e o formato do volume traziam uma sensação esquisita de familiaridade. Era uma impressão contraditória: ele tinha certeza absoluta de que nunca havia tocado naquela obra antes, mas, ainda assim, havia algo nela que parecia estranhamente conhecido.
O título estava gravado na parte central em letras douradas e firmes:
Compêndio de Raízes Mágicas — Vol. I
Ele estendeu as mãos e puxou o tomo para fora da pilha. O objeto tinha um peso considerável, exigindo o apoio de ambas as palmas para que ele conseguisse segurá-lo com firmeza sem correr o risco de deixá-lo cair.
Sem pensar muito no que estava fazendo, Ronan puxou a cadeira de madeira mais próxima e sentou-se. Acomodou o compêndio sobre a superfície limpa da mesa. Foi só então que ele reparou em um detalhe incomum: ao contrário de todas as outras obras que havia manuseado até ali, aquela capa estava impecável.
Não havia um único grão de poeira cobrindo o couro.
Ronan soltou um suspiro profundo, obrigando o coração a recuperar um ritmo mais calmo. Só então apoiou as pontas dos dedos na capa e abriu a primeira página.
O índice ocupava toda a folha inicial. Letras serifadas e firmes organizavam o conhecimento em tópicos bem definidos:
Introdução.
O que é Magia.
O que são Feitiços Elementais.
Sistema de Raízes de Mana.
Encantamentos Básicos.
O que são Feitiços Eruditos.
O que são Magias Vitais.
Feitiço de Defesa Básica.
Palavras Mágicas.
Espíritos.
Bestas mágicas.
O indicador de Ronan deslizou pela folha áspera, sentindo o relevo sutil da tinta escura contra a polpa do dedo. Ele parou na terceira linha.
Feitiços Elementais.
Se Lisa, sendo tão jovem, conseguia levantar uma parede de rocha pura no meio de um beco, a lógica ditava que aquilo pertencia aos primeiros degraus. Era o ponto de partida que precisava.
Ele virou as páginas com cuidado até encontrar o capítulo correspondente. Seus olhos se fixaram no topo do bloco de texto, descendo pelas primeiras linhas com uma atenção que raramente dedicava a qualquer outra coisa no palácio, a não ser aos contos épicos que Baragor desdenhava:
“O básico de toda magia é aprender a usar o elemento a seu favor. No mundo, os feitiços elementais não surgem do nada; a energia é retirada diretamente do ambiente, garantindo que o equilíbrio natural seja preservado. O mago não cria fogo espontaneamente, nem invoca água do vazio; em vez disso, ele canaliza o que já existe ao seu redor, manipulando os elementos dentro dos limites da própria natureza.”
Ronan releu o parágrafo. Havia algo esquisito na sensação que aquelas palavras traziam. Não parecia um conceito novo, complexo ou de difícil digestão; pelo contrário, parecia quase óbvio, como se ele sempre soubera daquilo, mas nunca tivesse colocado em frases.
Para usar feitiços elementais, eu deveria pegar emprestado , deduziu. Pedir à pedra que se mova ou à chama que queime?
Ele soltou o peso do corpo contra o encosto de madeira da cadeira, inclinando a cabeça para trás. O teto imenso da biblioteca, mergulhado na penumbra, não lhe ofereceu nenhuma resposta.
Como eu pediria a ela que me emprestasse?
A palavra "pedir" soava estranha na sua rotina, inadequada para alguém que sempre encarara a magia como um poder divino, inalcançável. Foi então que a imagem do rei Baragor cruzou seus pensamentos. A conversa de poucos dias atrás retornou com a precisão de um eco — a voz grave do monarca, as palavras diretas e a maneira simples com que ele havia falado sobre o respeito.
Ronan inclinou o tronco para a frente, trazendo a atenção de volta para o papel.
Talvez… se eu a respeitar? Respeitar a montanha? Não, isso não faz o menor sentido.
Ele apertou as pálpebras, tentando afastar a confusão, e no escuro da própria mente, o sorriso de Lisa apareceu sem aviso. O garoto soltou um murmúrio involuntário, o peito cedendo por um segundo. Ela tinha um jeito tão leve... correndo de um lado para o outro, lembrava até um ratinho fugindo pelo pátio.
De repente, Ronan arregalou os olhos. Suas sobrancelhas se juntaram em um vinco tenso e ele soltou um sibilo irritado entre os dentes, repreendendo a si mesmo:
— Se controla, Ronan…
Ele soltou o ar devagar, ajeitando a postura para recuperar a compostura, mas o rosto ainda guardava o calor do pensamento anterior.
— É verdade… a Lisa… — sussurrou.
O gancho daquela lembrança trouxe o resto da cena do beco de volta. Enquanto corriam daqueles garotos, bem antes de a terra se rasgar e criar o bloqueio, ele lembrava perfeitamente de tê-la visto mexer os lábios. Estava sussurrando algo. Na hora, com o barulho dos passos e os gritos atrás deles, não conseguiu identificar as palavras exatas, mas o padrão estava ali.
Se eu aprender a pedir do jeito certo… se eu usar as palavras certas.
Ele inspirou fundo, o ar fresco preenchendo os pulmões enquanto tentava conter a excitação que começava a dar pequenos solavancos dentro do seu peito.
Ronan abaixou o rosto e focou os olhos na página seguinte do compêndio.
“É um erro comum entre leigos acreditar que a magia elemental seja capaz de criar matéria. Os antigos tratados de arcanismo já refutavam tal ideia séculos atrás: nenhum elemento pode surgir do vazio.
Todo feitiço elemental depende da presença prévia de seu respectivo elemento no ambiente. A água é recolhida da umidade suspensa no ar, dos lençóis subterrâneos ou de corpos d’água próximos; a terra é erguida do solo; o fogo expande calor e combustão já existentes; e o ar apenas redireciona correntes naturais.
Por isso, a capacidade de um mago não reside em “criar” elementos, mas em perceber, alcançar e impor vontade sobre aquilo que o mundo já oferece.”
Ronan inclinou levemente a cabeça, os olhos presos na última linha.
— E essa é a parte mais simples da magia? — murmurou.
Mas fazia sentido. Se fosse possível criar água do nada, a sede seria um conceito esquecido. Não existiriam os desertos que cercavam Karak-Dûm do lado de fora. Seu pai não carregaria tantas negociações inúteis nas costas e, acima de tudo, não precisaria se curvar diante dos humanos para garantir suprimentos. A magia, pelo visto, tinha regras tão rígidas quanto a própria física da montanha.
Ele virou a página. O próximo título ocupava o topo da folha em letras maiores.
Sistema de Raízes de Mana
“As chamadas raízes de mana constituem a base de toda afinidade arcana. São ramificações etéreas formadas no corpo espiritual de um indivíduo, invisíveis aos olhos comuns, mas ligadas ao fluxo natural de mana existente no mundo.
Quanto mais desenvolvidas se tornam, maior é a capacidade do mago de perceber, absorver e conduzir energia mágica. Não funcionam como órgãos físicos, mas como extensões espirituais que conectam o ser vivo às correntes arcanas da natureza.
Os antigos estudiosos costumavam compará-las às raízes de uma árvore: quanto mais profundas e numerosas, maior a estabilidade e a quantidade de mana que pode ser sustentada sem colapso espiritual.”
Abaixo do bloco de texto, o compêndio trazia uma ilustração detalhada. Ronan inclinou-se sobre a mesa, apoiando os antebraços na madeira escura para observá-la melhor.
Era o desenho de um corpo humano feito com traços pretos. No entanto, em vez de exibir a anatomia comum de veias, músculos ou órgãos, o interior da silhueta era preenchido por linhas espessas e irregulares, que imitavam perfeitamente a textura de raízes vegetais.
O ponto de origem ficava bem no centro do peito. Dali, as ramificações principais nasciam e se espalhavam pelo tronco, descendo em fios mais finos pelos braços, serpenteando pelas pernas e subindo até cruzar a cabeça.
O traçado não seguia uma simetria exata. Algumas linhas se entrelaçavam em nós complexos, enquanto outras pareciam ser interrompidas no meio do caminho, terminando em pontas cegas antes de alcançar as extremidades do desenho.
Ele passou os dedos espalmados pelo próprio peito, sentindo o tecido da camisa. Um leve desconforto o inundou ao imaginar aquela estrutura invisível crescendo por baixo de sua pele.
Sacudindo a inquietação para longe, voltou a concentrar a atenção no compêndio.
Ronan avançava relendo algumas linhas duas ou três vezes para não perder o raciocínio do autor. Algumas partes se encaixavam na sua cabeça com facilidade. Outras eram tão densas que ele nem se dava ao trabalho de terminar o parágrafo; pulava direto para o seguinte antes que a frustração o fizesse fechar o livro. Ele já não tinha a menor noção de quanto tempo havia se passado desde que entrara na biblioteca, mas estava tão absorto naquelas páginas que os dedos continuavam trabalhando, virando mais uma folha.
O início do novo trecho prendeu sua atenção imediatamente.
“Crianças não são instruídas em magia formal.”
Ronan franziu a testa, os nós dos dedos batendo de leve na borda da mesa enquanto continuava a leitura.
“…suas raízes ainda são frágeis. A exposição prematura à mana bruta pode romper os filamentos espirituais, afetar a mente ou até provocar deformações no corpo físico.
Existem, contudo, casos raros em que as raízes já nascem excepcionalmente desenvolvidas. Crianças assim são capazes de suportar e conduzir mana muito antes da idade considerada segura pelos padrões arcanos.”
O nome de Lisa surgiu em sua mente. Sem dúvida ela era a definição exata daquela exceção rara. Não parecia ser muito mais velha do que ele; na verdade, pela estrutura magra e por ser um pouco mais baixinha, passava a impressão de ser até mais nova. O contraste estava na postura: o jeito de falar e de se mover carregavam uma segurança que pertencia a alguém com muito mais idade. Ronan estalou o maxilar, decidindo que a primeira coisa que faria quando a encontrasse seria perguntar quantos anos ela tinha.
No parágrafo seguinte, a estrutura do compêndio mudou. O texto começava com o que parecia ser o título de um feitiço prático:
Terra: Erguer de Pedra Menor
Logo abaixo vinha a descrição detalhada do efeito que a magia causava no ambiente, mas o que realmente atraiu os olhos de Ronan foi a linha seguinte. Era uma sequência de palavras escritas em caracteres pesados, que não faziam sentido na língua falada no dia a dia. Pareciam letras ordenadas de forma aleatória, mas a sonoridade crua lembrava a entonação de alguns nomes de locais das profundezas do reino anão. Talvez um idioma arcaico, esquecido pelo tempo.
Ronan semicerrou os olhos. Estranhamente, a pronúncia daquelas letras trazia de volta aquela mesma sensação esquisita de familiaridade.
Então, as peças se encaixaram. Cruzando a descrição daquele feitiço de terra com o bloco que vira subir no beco para bloquear os garotos, chegou à única conclusão lógica: era a mesma magia de Lisa. Exatamente o mesmo efeito.
O reconhecimento vinha dali. Aqueles sons distantes eram os mesmos que ela havia sussurrado antes de a rocha se erguer. Ronan aproximou o rosto da página, tentando forçar as cordas vocais a reproduzirem os fonemas na língua antiga:
— Kael... thur... enna...
O som de um sopro quente e curto bem perto do seu ouvido direito cortou a palavra no meio.
— Interessado em magia?
A voz surgiu colada à sua pele, trazendo um calor súbito que fez os pelos dos seus braços se arrepiarem. Ronan deu um pulo tão violento para o lado que a cadeira de carvalho rangeu sobre o mármore, quase tombando para trás. O pesado compêndio bateu contra a mesa.
O coração parecia ter subido para a garganta, batendo em um ritmo frenético.
Lisa estava bem ali. Ela havia se inclinado sobre o ombro dele, mantendo as mãos presas nas costas enquanto o encarava com o rosto a poucos centímetros de distância. Ronan abriu a boca, mas o ar falhou e nenhum som saiu.
O canto dos lábios dela se curvou devagar, dando lugar a um sorriso divertido.
— Interessado em magia, Ronan?