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Capítulo 2: Mão amiga

A Linda Modelo Da Minha Turma Que Só Aparece Na Cafetaria Onde Trabalho Quando Eu Estou No Turno — novelmania.com.br · All chapters

Capítulo 2: Mão amiga

Capítulo 2: Mão Amiga

No dia seguinte.

Como sempre fui à escola e fiquei deitado na minha carteira.

O café é algo profundo e, para alcançar o sabor ideal, é preciso praticar todos os dias.

Após terminar meu expediente, eu vou direto pra casa e pratico minhas técnicas até de madrugada.

Preparar a xícara de café ideal exige uma habilidade apurada.

[Kura: Isso se chama força de vontade]

—A falta de sono resultante, no entanto, é um problema.

Contenho um bocejo e fecho os olhos. Só para ficar claro: estou tentando dormir apenas porque estou com sono, não para evitar ser rotulado de solitário.

“Shizuku! É verdade que você vai atuar em um novo drama com a Inamori Reiko?!”, uma voz aguda de uma menina me tirou da beira do sono e me trouxe de volta à realidade.

O nome “Inamori Reiko” causou um alvoroço na sala de aula.

“Inamori Reiko…. Você está falando daquela Inamori Reiko?!”

“Quem mais seria?! Idiota!”

Ignorando a conversa idiota entre os meninos, Kamisaka parecia um pouco preocupada.

Inamori Reiko é uma atriz super popular que é elogiada pelos vários trabalhos em dramas e filmes.

No ano passado, ela foi eleita a atriz nº 1 com quem as pessoas gostariam de namorar e a atriz nº 1 que mais admiravam, um talento extraordinário que conquistou sua popularidade entre pessoas de todas as idades e gêneros.

Ela é uma figura carismática que ostenta fama de primeira linha, mesmo no mundo do entretenimento.

“Nossa... onde você ouviu isso?”

“Foi ela mesma quem postou no Insta! Que conheceu uma ‘SHIZUKU’ na audição para o drama!”

“Ah... então a agência dela não se importa que ela fale sobre isso”, Kamisaka deu uma risada seca e então acenou com a cabeça uma vez, como se dissesse que não havia o que fazer.

“Não posso te dar detalhes, mas estou fazendo o teste para o mesmo que a Inamori Reiko-san. Mas não sei se vou conseguir o papel, então não tirem conclusões precipitadas, tá?”

“...Obrigada.”

Hoje, mais uma vez, Kamisaka estava cercada de gente.

Todos ao seu redor falavam sobre “SHIZUKU”.

Mas ninguém percebeu que a própria “SHIZUKU” estava forçando um sorriso tenso.

Suspirei e me levantei do meu lugar: “Kamisaka.”

“Eh…?”

No momento em que falei, todos ao redor ficaram em silêncio.

Eu meio que esperava por isso, mas não achei que seria tão constrangedor assim. Suor frio escorria pelas minhas costas.

—Agora que falei, não posso mais voltar atrás.

“O p-professor estava chamando você. Algo sobre aquela pessoa suspeita que você encontrou na filmagem de ontem… ou algo assim…”

Eu disse algo aleatório com base no que ela tinha me contado ontem.

A aula de orientação começaria em breve. Não havia como um professor chamá-la agora.

Estava cheio de contradições, mas deveria ser o suficiente para tirá-la dali.

“T-tudo bem! Vou agora”, disse Kamisaka, saindo rapidamente da sala de aula.

Ao sair, ela me deu uma piscadela sutil.

[C4: Ela tá tão na sua. | Kura: Com certeza, tá a fim. | Paiva: O cara nem precisa se esforçar.]

Parecia que ela tinha percebido que eu estava apenas inventando coisas para tirá-la daquela situação.

◇◆◇

“Ufa…”

O sexto período acabou, e finalmente, as aulas acabaram.

Elogiando a mim mesmo por ter conseguido passar pela aula sem cair no sono, arrumei minhas coisas para ir para casa.

Hoje tive meu trabalho de meio período novamente. Sem falar com ninguém, saí rapidamente da sala de aula.

Por falar nisso, Kamisaka ainda estava cercada por colegas de classe mesmo depois do fim das aulas.

Nossos olhares se cruzaram, mas parecia que ela não estava tão preocupada quanto naquela manhã, pois balançou a cabeça em silêncio. Mesmo assim senti pena dela, visto que ela não tinha tempo para descansar.

"Ei, Mikage," enquanto eu caminhava pelo corredor, alguém me chamou.

Virei e vi uma professora, a Mamiya Akira-sensei, parada ali, com um aspecto um pouco cansado.

"Mamiya-sensei."

"Errado, é Akira-chan."

"..."

A disciplina da professora Mamiya é o japonês moderno.

Apesar disso, o jaleco branco que ela usa e as olheiras escuras que dão uma aparência doentia são as suas marcas registradas e, por alguma razão, ela faz com que seus alunos a chamem de Akira-chan.

No entanto, considerando que ela tem 27 anos, ouvi dizer que algumas pessoas se incomodam com isso.

“...Me sinto bastante relutante em chamar uma professora por ‘-chan’.”

“Cala a boca. Me chame assim ou eu te mato.”

“Que tipo de professora faria isso...?”

Não acredito que essas sejam palavras que uma professora diria a um aluno, mas, mesmo assim, ela é popular.

[C4: fé nas malucas… | Kura: Ela me lembra alguém, acho que é a professora de Clashroom. | Paiva: Lembra também a professora de Asobi]

Se você for pedir conselhos a ela, ela vai ouvir com empatia, e suas aulas são fáceis de entender, por isso ela é muito querida pela maioria dos alunos.

Ela até se lembra de um cara simples e discreto como eu, e não há dúvida de que se importa com seus alunos.

Aparentemente, outro motivo para sua popularidade é que ela é bem bonita se você olhar de perto.

[C4: necessito de provas de tal beleza para fins pesquisativos. | Kura: Ta - ra - … | Paiva: Necessitamos!]

As olheiras dificultam a visão, mas suas feições são certamente bem definidas.

“Você está na mesma turma que a Kamisaka, certo?”

“Sim, estou, mas...”

“Nesse caso, você poderia entregar isso para ela por mim?”, ela disse, e me entregou uma folha de exercícios da aula anterior.

“Na última aula, ela estava ausente por causa de algum trabalho de modelo ou algo assim, certo? Esqueci de entregar a folha de exercícios daquela aula para ela.”

“Entendi, vou entregar para ela.”

“Tudo bem, então... E diga a ela o seguinte: não trabalhe tanto a ponto de prejudicar sua saúde.”

Ela não é uma professora muito direta.

Ela poderia simplesmente entregar a folha de exercícios na próxima aula, mas está optando por essa maneira indireta só para passar essa mensagem para ela.

“...Que gentileza sua, Mamiya-sensei.”

“É Akira-chan. Bem, estou contando com você.”

Virando as costas, Mamiya-sensei acenou e se afastou.

Kamisaka talvez ainda estivesse na escola.

Dei meia-volta e voltei para a sala de aula.

“...Tarde demais.”

Mas Kamisaka não estava em lugar nenhum.

A mochila dela também tinha sumido, então parecia que ela já tinha ido para casa.

—Eu deveria ter pedido o contato dela.

Me arrependi um pouco, já que tive a chance. Bem, acho que, na pior das hipóteses, posso entregar para ela amanhã.

Guardei cuidadosamente a folha de exercícios na minha mochila e saí da sala de aula.

◇◆◇

“—Ei, estou de volta.”

Naquela noite, Kamisaka apareceu no café novamente.

“Você voltou tão cedo?”

“É, eu estava com muita vontade de tomar o café daqui.”

Não pude deixar de me sentir feliz quando Kamisaka disse isso. Quando o café daqui é elogiado, sinto vontade de comemorar como se fosse uma conquista minha.

“Opa... desculpe, eu deveria te mostrar uma mesa. Por aqui, por favor.”

“Obrigado.”

Eram quase 20h e não havia outros clientes na loja.

Normalmente fica vazio por volta dessa hora. O fluxo de clientes é tranquilo para começar, então não há muitos períodos particularmente movimentados, mas, à medida que a hora de fechar se aproxima, o número de clientes cai de uma vez, provavelmente porque eles não podem ficar muito tempo.

Na loja silenciosa, conduzi Kamisaka até a mesa bem no fundo.

“Já decidiu o que vai pedir?”

“Pfft... É meio engraçado uma colega de classe usar linguagem formal comigo.”

“...Não tem jeito, né?”

“Desculpa, desculpa. Bom, então, posso pedir o mesmo café quente de ontem?”

“Claro.”

Voltei ao balcão e repassei o pedido para a Utahara-san.

“Entendi. O mesmo de ontem, certo?”

“Sim, por favor.”

“...Já que ela está aqui, por que você não mostra para a Shizuku-chan como você prepara o café? Ela parece interessada.”

[Kura: Que empurrão.]

Quando ela disse isso, olhei para a mesa e vi a Kamisaka olhando na nossa direção, inquieta.

Quando nossos olhares se cruzaram, ela rapidamente escondeu o rosto com o cardápio.

Exatamente como o Utahara-san disse, ela realmente parecia interessada.

“Hehe. Não há outros clientes, então por que você não vai chamá-la?”

“...Entendi.”

Fui até a mesa e falei com a inquieta Kamisaka.

“Se você estiver interessada em saber como o café é feito, a dona disse que você pode vir ver de perto.”

“Eh, tudo bem?”

“A dona disse que tudo bem, e não há outros clientes no momento, então tudo bem.”

“Sim! Ontem tentei fazer meu próprio café coado, mas não ficou muito bom comparado com o que tomei aqui...”

“Ah, eu fiz a mesma coisa no começo...”

Quando voltamos ao balcão, o Utahara-san já estava tudo pronto e esperando por nós.

“Obrigada por ter vindo novamente hoje. É Kamisaka Shizuku-chan, não é?”

“Sim. O café daqui estava tão delicioso que eu simplesmente tive que voltar.”

“Ah, fico muito feliz em saber disso! Sou Utahara Yumi, a dona desta loja. O Jun-kun sempre é uma grande ajuda.”

Enquanto a Utahara-san fazia uma leve reverência com a cabeça, Kamisaka também baixou a cabeça.

“Espero não ter incomodado ao convidá-la para assistir?”

“De jeito nenhum, não é incômodo nenhum. Nunca tomei um café tão delicioso, então, na verdade, já estava curiosa sobre isso desde ontem...”

“Hehe, bem, então, vou te mostrar~?”

Satisfeito com o elogio, Utahara-san colocou os grãos no moedor de café.

Só para constar, um moedor de café é uma ferramenta para moer grãos de café até ficarem em pó.

[Paiva: Po, o bagulho se chama moedor de café KKKKKKK precisava mesmo explicar?]

“Parece que você gosta de grãos com um amargor mais forte, Shizuku-chan. Os que usamos ontem eram um Mandheling de torra escura. Eles têm um amargor suave, baixa acidez e um corpo forte.”

“Torra escura... mandy-ling?”

Enquanto Kamisaka inclinava a cabeça, acrescentei uma pequena explicação.

“Torra escura significa que os grãos foram torrados por um longo tempo.”

O processo de alterar o sabor dos grãos de café por meio do aquecimento e da secagem, ou, em outras palavras, da torrefação.

A torrefação tem, em linhas gerais, três estágios.

Ela progride da torrefação clara para a média e, por fim, para a escura; quanto mais escura fica, mais forte é o amargor e mais perfumado o sabor. Por outro lado, uma torrefação clara tem acidez mais forte e é mais frutada.

O grau de torra depende da compatibilidade com os grãos. Não é uma questão de o que é bom e o que é ruim.

“Mandheling é o tipo de grão. As características do café variam em detalhes dependendo do tipo de grão.”

“Uau...! Que interessante.”

Os olhos de Kamisaka brilharam.

Se ela estava interessada nesse assunto, dava para dizer com segurança que ela tinha tudo para se tornar uma entusiasta do café.

[C4: malandro, já tá levando ela pro hobby dele. | Paiva: Não consigo entender pessoas que gostam de café…]

“Mas é uma coincidência incrível que o primeiro café que experimentei, entre todos os diferentes tipos, tenha sido perfeito para mim.”

“Não, isso não é coincidência.”

“Eh?”

“A proprietária consegue saber de que tipo de café alguém vai gostar só de olhar para a pessoa.”

Quando eu disse isso, a Utahara-san estufou o peito orgulhosamente.

Sinceramente, no começo eu não conseguia acreditar, mas depois de vê-la adivinhar com perfeição as preferências de novos clientes, fiquei convencido de que era verdade. Embora eu não tenha ideia de como ela faz isso.

“É basicamente só um pressentimento. Mas desde que assumi a responsabilidade por esta loja, eu nunca errei nem uma vez sobre os gostos de alguém.”

“Isso é incrível...! É como um superpoder.”

“Me elogie mais, mais~!” A Utahara-san começou a se contorcer de alegria, então eu limpei a garganta. Assustada, ela rapidamente recompôs a expressão: “Ahem... bem, então, o próximo passo é moer, certo?”

A Sra. Utahara começou a girar a manivela do moedor, com movimentos circulares.

“É assim que se transforma os grãos em pó. O sabor muda novamente dependendo do grau de moagem.”

“É mesmo...”

“Se você gosta de um amargor mais forte, é melhor moer o mais fino possível. Mais ou menos do tamanho do açúcar granulado, talvez?”

Dizendo isso, a Sra. Utahara apontou para o açúcar sobre a mesa.

“Assim, você evita qualquer amargor desagradável e obtém um sabor suave.”

Assim que os grãos foram moídos, ela colocou uma concha e um coador sobre uma balança — ou seja, uma balança com função de cronômetro.

Ela colocou um filtro de papel no coador e despejou o pó de café.

Depois de nivelar a superfície do pó, os preparativos para a extração estavam concluídos.

[Kura: Detalhe, gosto de ver vídeos de pessoas fazendo café, mas não gosto do café. | C4: Que pecado, meu amigo Kura. | Paiva: E eu que “sei” fazer/passar café e não gosto nem do cheiro kkkk]

“Primeiro, para fazer os grãos ‘desabrocharem’, você despeja uma quantidade determinada de água quente. Para uma xícara, são trinta gramas inicialmente. Quando você começar a despejar a água quente, a balança começará a contar os segundos, então você espera até chegar a quarenta segundos.”

Enquanto Utahara-san despejava a água quente para cobrir todo o pó de café, o visor da balança mostrava trinta gramas, e a função de cronômetro foi acionada.

No momento em que chegou aos quarenta segundos, Utahara-san começou a despejar água quente novamente.

“Quando o tempo acabar, você despeja a mesma quantidade de água quente da primeira vez. Depois disso, basta repetir isso até chegar a cento e cinquenta gramas.”

“Heeh...!”

Ao ver o café se acumulando na jarra, os olhos de Kamisaka brilharam.

“Depois do último derramamento, você espera até completar três minutos. O ideal é que a água termine de pingar exatamente aos três minutos. —Ok, e é isso.”

No momento em que completou três minutos, a Sra. Utahara retirou o coador da jarra.

Não havia mais café escorrendo do coador em suas mãos.

“Por que três minutos?”

“Se demorar mais do que isso, surgem sabores indesejáveis e amargor. Por outro lado, se terminar de escorrer antes dos três minutos, o resultado é um café com sabor fraco.”

“Entendi...!”

O que é incrível na Utahara-san é que, independentemente do tipo de grão que ela use, ela sempre conclui a extração em exatamente três minutos.

A velocidade da extração, assim como o sabor do café, varia a cada vez, dependendo do tipo de grão, do grau de torra e da moagem.

Quando sou eu quem faço, muitas vezes a extração termina em menos de três minutos ou, por outro lado, demora mais.

Isso só significa que meu treinamento ainda não é suficiente.

“Aqui está, Shizuku-chan.” Dizendo isso, Utahara-san ofereceu o café recém-preparado a Kamisaka.

“Obrigada pela bebida...!”, disse Kamisaka ao pegar o café e levá-lo lentamente aos lábios.

Então, com uma expressão surpresa, ela olhou alternadamente para Utahara-san e para mim.

“É igual ao que tomei ontem! Está delicioso!”

“Que bom, vá em frente e aproveite o resto na sua mesa.”

“Tudo bem, obrigada.”

“Jun-kun, você não tem nada para fazer agora, então pode sentar com ela e bater um papo.”

Acenei com a cabeça e decidi aceitar a oferta.

“É completamente diferente do café coado que eu fiz. O café tem um sabor incrivelmente intenso, não é?”

“Fico feliz que você pareça estar interessada.”

“É, foi muito interessante.”

Por mais que eu ame algo, não quero forçar os outros a gostarem,

por isso fiquei tão feliz que a Kamisaka estivesse demonstrando um interesse tão ativo pelo café.

“Mikage-kun, por que você se interessou por café?”

“Hmm... há muita coisa envolvida, então é difícil explicar.”

“Conta pra mim, tudo bem se demorar um pouco.”

“...Se você insiste.”

Organizei meus pensamentos sobre o que dizer primeiro e, então, abri a boca.

“Quando eu era pequeno, meu pai costumava preparar café instantâneo para mim com frequência. No começo, era amargo demais para eu beber, então eu colocava muito leite e açúcar antes de tomá-lo.”

Naquela época, meu pai era um pintor sem sucesso, ganhando a vida

trabalhando como instrutor em uma aula de arte.

Minha mãe também trabalhava meio período, e éramos um pouco pobres, mas acho que éramos uma família comum.

As coisas começaram a mudar por volta do meu segundo ano do ensino fundamental II.

“De repente, as pinturas do meu pai começaram a vender. Aparentemente, um cara rico do exterior acabou gostando de uma das pinturas dele. Nossa família ficou rica de uma hora para outra, mas, por causa disso, a paixão do meu pai pela pintura simplesmente explodiu. Ele começou a dizer ‘Quero pintar paisagens de todos os cantos do mundo!’ e ficava cada vez mais tempo longe de casa.”

“Que pai intenso...”

“Ele é um velho problemático, né? ...Não era como se eu estivesse numa idade em que me sentisse solitário sem meus pais por perto, então tudo bem, mas fiquei um pouco triste por não poder mais tomar aquele café instantâneo super doce.”

Então, um dia, tive a oportunidade de vir a Jimbocho para vender alguns dos livros que meu pai não queria mais, que estavam no quarto dele.

Naquela época, a loja pela qual passei por acaso foi esta aqui, o Café Mellow.

“O cheiro agradável de café me fez lembrar do sabor do café do meu pai e, antes que eu percebesse, já estava lá dentro. Então, o dona me preparou um café que combinava comigo... ah, é verdade. Não consegui evitar rir naquele momento.”

“Por quê?”

“Porque percebi como o café do meu pai era horrível.”

“Pfft—Aahahaha!” Kamisaka caiu na gargalhada.

“O do meu pai era instantâneo, então é claro que é diferente, mas... isso simplesmente me ocorreu. Desta vez, serei eu quem vai preparar um café realmente delicioso para ele.”

“Então foi isso que te fez se interessar por café.”

“...Não, desculpa. Foi uma história estranha. Nunca fui muito bom em

conversar.”

“Sério? Achei interessante.”

Ao ouvir isso, dei um suspiro de alívio.

Minha dificuldade com as palavras sempre foi um complexo meu. Se eu não for desdobrando as coisas uma a uma assim, perco imediatamente o fio da meada.

[Kura: Para quem sofre com isso, se organize em tópicos mentais. | C4: Irei aderir ao conselho. Sim, vosso tradutor, vulgo eu, sofre disso. | Paiva: Se bater nervosismo é só fazer uma piada sem graça pra acalmar a mente e depois retomar o assunto]

“Ah, a propósito, esqueci de dizer... Obrigada por hoje de manhã. Você estava sendo atencioso, certo?”

“Bem, você parecia estar passando por um momento difícil. Foi

Intrusivo?”

“De jeito nenhum, você realmente me ajudou.”

Parecendo um pouco cansada, assim como ontem, Kamisaka recostou-se

na cadeira com um suspiro.

“Nossa... ficar cercada por todo esse nível de energia desde de manhã é um

pouco difícil.”

“A... a intensidade é diferente, não é?”

“Sim, é isso mesmo, Mikage-kun. Você entendeu.”

“O-oh...”

Kamisaka apontou para mim como se dissesse: “Estou tão feliz que você tenha dito isso.”

Ela deve estar passando por muita coisa.

Eu conseguia sentir uma espécie de melancolia profunda em suas palavras.

“Como posso dizer... a maneira como eles têm essas expectativas? É um pouco intenso. Não é como se já tivesse sido decidido que eu vou participar da novela.”

Mesmo que ela dissesse para eles não criarem muitas expectativas, provavelmente eles simplesmente achariam que ela estava sendo modesta e não dariam ouvidos.

Se a Kamisaka não passar no teste, eles certamente ficarão desapontados.

Para ela, deve ser insuportável vê-los criarem expectativas por conta própria, só para depois ficarem desapontados por conta própria.

“Fico feliz que tenham expectativas, mas meu trabalho principal é ser modelo. Novelas, filmes e, ultimamente, cantar? Tenho que fazer tudo isso por causa dos desejos da minha agência, mas, sinceramente, não acho que tenha talento para nada disso.”

“É mesmo...”

“Não estou numa idade em que possa simplesmente encarar isso como um trabalho. Mesmo com as expectativas deles, posso acabar decepcionando todo mundo... Ah, desculpe. Acabei reclamando de um monte de coisas”, Kamisaka cobriu o rosto com as mãos, parecendo arrependida. Parecia que muita frustração se acumulava. Acho que só desabafar na nossa loja ontem não foi nem de longe o suficiente.

“Eu realmente te interpretei mal, Kamisaka.”

“Interpretou mal?”

“Sempre te vi como calma e distante, mas na verdade você estava sofrendo. ...Você está se esforçando muito. Acho que você é incrível.”

“...”

Quando eu disse isso, os olhos de Kamisaka se arregalaram. E então, aos poucos, lágrimas começaram a brotar nos cantos dos olhos dela.

“O-o quê!? Desculpa, eu disse alguma coisa errada?”

“Ah, não, não! Desculpa por te deixar me ver assim”, Kamisaka enxugou as lágrimas com a mão.

Sua expressão parecia menos magoada e mais, de alguma forma, feliz.

“É a primeira vez que alguém me ouve de verdade assim... Eu só fiquei emocionada. Na verdade, estou feliz.”

“E-entendi. Bem, que bom. Se eu estivesse no seu lugar, Kamisaka, provavelmente já teria fugido há muito tempo...”

“Shizuku.”

“Eh?”

“Me chame de Shizuku. Não de Kamisaka... Quero que o Juntaro me chame assim.”

“!”

[Kura: Ehh. | C4: Parece que a Shizuku resolveu aproveitar a assistência da Utahara. | Paiva: Atacante nata.]

Seus olhos cheios de lágrimas me perfuraram, e meu coração deu um salto. Uma mudança completa em relação à sua impressão habitual de frieza e beleza, a maneira como ela olhou para mim era simplesmente fofa demais. Se existe algum cara que não cairia nesse tipo de pedido, adoraria conhecê-lo.

“...Tudo bem, então... Vou te chamar de... Shizuku.”

“Ok, é uma promessa, né?” Shizuku sorriu inocentemente. Parece meio estranho, mas parece que vou ter que me acostumar com isso.

“...Mas se é tão difícil assim, por que você decidiu se tornar modelo?”

“Ah, então agora você vai testar minhas habilidades de contar histórias, é isso?”

“Não!... Bem, sim, acho que sim.”

“Tudo bem, então vou responder.”

Com um ar presunçoso, Shizuku estufou o peito.

Ao ver isso, desviei um pouco o olhar dela.

Gostaria que ela fosse mais cuidadosa, porque quando uma beleza como ela arqueia as costas, fica difícil saber para onde olhar.

Não que eu pudesse dizer isso diretamente para ela.

“Sabe, não é como se eu quisesse ser modelo.”

“Eh, é mesmo?”

“Sim. Fui descoberta por uma agência na rua, e meus pais disseram que me apoiariam... então eu simplesmente comecei. Por isso, não tenho nenhum objetivo nem nada do tipo.”

“...Entendo.”

“Acho que a razão pela qual quase cedi às críticas é porque não tenho nenhuma convicção. Sempre tive essa sensação de estar no limbo. Não é justo com as pessoas que estão levando isso a sério, então, mesmo quando penso: ‘desta vez vou desistir de vez’, acabaria só causando problemas para todo mundo ao meu redor...”

Dar o melhor de si sem um objetivo é difícil para qualquer um, e seu coração provavelmente não consegue acompanhar.

Mesmo assim, Shizuku está se esforçando ao máximo. Eu a admirei sinceramente por isso.

“Mas, recentemente, encontrei um objetivo.”

“E o que seria isso?”

“Vir a esta cafeteria.”

“...?”

Não pude deixar de inclinar a cabeça.

Vir a esta cafeteria e o trabalho dela como modelo.

Como essas duas coisas se relacionam?

“Nos dias em que eu trabalhar duro, com certeza vou vir aqui tomar um café antes de ir pra casa!”

“Fico feliz em ouvir isso, mas... não é bem cansativo vir aqui quando você já está cansada do trabalho?”

“É o contrário. Tomar café assim e conversar com você me dá energia.”

“...É mesmo?”

“É mesmo.”

Quando ela diz isso tão diretamente, fica meio constrangedor.

“Por outro lado, não posso ficar batendo papo com você toda vez que você está no meio do trabalho. Desculpa, desculpa.”

Shizuku parecia um pouco envergonhada também enquanto tomava um gole do seu café.

“Não me importo, mas fico pensando na dona...”

Conversar com a Shizuku é divertido.

Mesmo não sendo muito bom com palavras, a Shizuku me aceita de braços abertos.

Só conversamos algumas vezes, mas já passei a gostar desse tempo que passamos juntos, mas não quero ser um incômodo para a loja.

“Tudo bem, sabe? Quando a Shizuku-chan vier, eu posso simplesmente emprestar o Jun-kun para você, certo?”

[C4: Que assistência meus amigos. | Kura: Rapaz, está indo rápido como o jogo da França e Suécia. | Paiva: França e Suécia? Ta mais pro primeiro tempo de França x Inglaterra]

A Utahara-san apareceu de repente, colocando uma xícara fumegante na minha frente.

Aparentemente, ela tinha feito café para mim também.

“Num dia como hoje, não tem problema nenhum. Eu também costumo bater papo com os clientes.”

É verdade, a Utahara-san costuma conversar com os clientes, mas isso não significa que ela esteja dando uma pausa no trabalho, como eu estou fazendo agora.

“Além disso, fico feliz. Ver você conversando com um amigo, Jun-kun. Você nunca fala sobre a escola, então eu estava um pouco preocupada. Você é tão reservado, Jun-kun, que fiquei preocupada que você pudesse estar sofrendo bullying ou algo assim~”

“Pelo menos não estou sofrendo bullying.”

“Sério? Bem, que bom.”

Que patético, fazer com que ela se preocupe com minha vida escolar.

Ignorando minha expressão complicada, a Utahara-san continuou.

“Jun-kun é como um irmãozinho para mim, então não consigo deixar de me preocupar. Então, Shizuku-chan, você pode conversar com o Jun-kun o quanto quiser quando vier aqui, então posso te pedir um favor em troca?”

“Tudo o que eu puder fazer, eu farei.”

“Você seria uma parceira de prática para ajudar o Jun-kun com sua dificuldade em se expressar? Esse não é um pedido meu como dona da loja, mas de uma Onee-san que se importa com o Jun-kun.”

Em resposta ao pedido da Utahara-san, Shizuku deu um único aceno de cabeça.

“Você é muito querido, Juntaro.”

Depois que a Utahara-san voltou para o balcão, Shizuku murmurou isso com um sorriso.

“...Estou grata.”

A Utahara-san é descontraída e difícil de entender, então eu não sabia que ela me via como um irmão mais novo, e não fazia ideia de que ela se importava tanto comigo.

“Conseguimos permissão, então podemos continuar conversando aqui.”

“...É, é verdade.”

“Espera, você não está feliz com isso, por acaso?”

“Não, fico feliz de poder conversar com você. Mas tô com medo de te entediar até que minha dificuldade com as palavras melhore...”

Quando eu disse isso, a expressão de Shizuku ficou vazia.

E então, ela rapidamente sorriu.

“Tudo bem, só de conversar com você já me dá energia.”

“É mesmo...?”

“Sim. Porque você me elogia muito.”

Será que eu elogio a Shizuku? Lamento dizer, mas não me lembro disso.

[Kura: Eu também não…. | C4: virou competição pra ver quem paga mais de esquecido?? | Paiva: KKKKKKKKKKKK]

“Além disso, também não acho que você seja desajeitado com as palavras. Na verdade, o ritmo lento da conversa é útil. As pessoas ao meu redor falam todas muito rápido... especialmente os chefes da agência, que falam a mil por hora. Não consigo nem encaixar uma palavra.”

“Talvez falem rápido porque estão ocupados.”

“Acho que sim. Andam rápido também, parece que estão sempre com pressa.”

Como se se lembrasse de alguém da agência dela, Shizuku deu uma risadinha.

Quando ela sorri, eu me pego sorrindo naturalmente também.

Ela disse que não queria ser modelo, mas acho que Shizuku tem um talento para atrair muita gente.

“... Ah, por falar nisso, essa loja também tem pratos e sobremesas, certo?”

Shizuku abriu o cardápio que estava sobre a mesa.

“Tem alguma coisa que você recomenda? Gostaria de pedir da próxima vez que vier.”

“Ah, nesse caso... eu recomendaria o Napolitan e os biscoitos de nozes.”

“Hoho, e qual é o motivo disso?”

“Porque são minha especialidade.”

“Eh!? Você mesmo faz isso, Juntaro!? Que incrível!”

As refeições e sobremesas geralmente ficam por minha conta.

Os biscoitos de nozes e o Napolitan, em especial, fazem sucesso entre os clientes, e quem vem à noite costuma pedi-los.

[N/T: O Napolitan é um prato de espaguete que possui duas interpretações: a italiana tradicional de Nápoles e a versão japonesa moderna à base de ketchup, conhecida como Spaghetti Napolitan.]

A Utahara-san é boa em fazer café, mas, na verdade, não é muito boa na cozinha.

Por causa disso, parece que, antes de eu começar a trabalhar aqui, o café era praticamente a única coisa que as pessoas pediam. Aparentemente, isso é um pouco frustrante para ela.

“Bem, então vou pedir da próxima vez que vier.”

“Eles têm uma boa reputação, então pode ficar ansiosa.”

Enquanto conversávamos, o celular da Shizuku, que estava sobre a mesa, tocou.

Parecia ser uma notificação de um aplicativo de mensagens, mas o que mais chamou minha atenção foi a hora.

“Ah, é do meu gerente... espere, já é tão tarde assim!?”

20h55. Já era hora de fechar a loja.

Estranhamente, o tempo parecia passar mais rápido do que o normal.

“O tempo voou. Não tive tempo nem de longe suficiente para conversar...”

“Não é melhor ir embora com vontade de mais? Assim você tem algo pelo qual ansiar.”

“Acho que você está certo.”

Ao ver Shizuku começando a se preparar para ir embora, lembrei-me de que Akira-chan, também conhecida como Mamiya-sensei, havia me confiado a folha de exercícios de japonês moderno.

Rapidamente tirei a folha de exercícios da minha mochila e a entreguei a Shizuku.

“Shizuku, isso é para você.”

“Obrigada. É a folha de exercícios da última aula?”

“O Mamiya-sensei me pediu para entregar isso a você. E tem uma mensagem.”

“Uma mensagem?”

“Não trabalhe tanto a ponto de prejudicar sua saúde.”

“Ahaha, ela é surpreendentemente gentil, não é, Akira-chan?”

Shizuku olhou para a folha de exercícios, com um ar satisfeito.

“Trabalhar demais, hein... Vou ter que tomar cuidado.”

“Você ainda vai ficar ocupada por um tempo?”

“Ah... é. Na verdade, parece que passei no teste para a novela. A mensagem

que recebi do meu empresário agora há pouco foi para me avisar isso”, disse Shizuku, coçando a bochecha.

Deveria ser uma notícia alegre, mas seu rosto estava um pouco tenso.

“Como já disse antes, não tenho muito interesse em novelas ou filmes. Mas, já que fui aprovada, tenho que dar o meu melhor.”

“Isso parece difícil. Dá pra perceber só de ouvir falar.”

“Ahaha, se eu dissesse isso pros nossos colegas, eles provavelmente achariam que eu estava sendo sarcástica.”

Aparecer em uma série é o sonho de algumas pessoas.

Se viessem a saber que ela estava relutante, Shizuku certamente enfrentaria reações negativas.

“Bem, se vou fazer isso, vou dar tudo de mim! Já decidi.”

“Entendo... Mas não se esforce demais.”

“Obrigada. Se eu conseguir levar isso adiante, você vai me elogiar de novo?”

“Claro. Se for boa o suficiente, o quanto você quiser.”

“Que bom. Isso me dá vontade de me esforçar ainda mais.”

Shizuku cutucou meu ombro com o dedo e depois se dirigiu ao caixa.

“Obrigada pelo café. Volto logo.”

“Tudo bem! Você é sempre bem-vinda.”

Acompanhei Shizuku, que já tinha terminado de pagar, até a entrada da loja. Ao sair, ela se virou, piscou e acenou para mim.

“Bem, então, nos vemos na escola.”

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“Ah, de novo.”

De qualquer forma, fico feliz que ela pareça ter uma visão mais positiva agora.

“Eu também preciso me esforçar...”

Dei umas palmadas nas bochechas para me animar, virei a placa de “ABERTO” na porta da loja e voltei para dentro.

“Ah, você virou a placa para mim. Obrigada~”

Enquanto agradecia, a Utahara-san acenou para que eu me aproximasse.

Quando cheguei ao balcão, um conjunto de utensílios para preparar café estava disposto ali.

“Depois que você conversou com a Shizuku-chan, achei que talvez você também estivesse animado, Jun-kun. Então pensei em te dar algumas instruções sobre como preparar café pela primeira vez em um bom tempo.”

“Sério!?”

“Sim. Você quer ser capaz de preparar um café que acalme a Shizuku-chan, certo?”

“...Sim.”

A Utahara-san é muito boa em perceber as emoções das pessoas; ela percebeu, só de olhar para mim, que eu tinha sido inspirado pela Shizuku.

“Tudo bem, então vamos praticar uma coisa de cada vez. Vamos começar com os grãos de torra clara, que tal?”

Mói os grãos que ela havia preparado para mim no moedor.

Ter alguém que eu respeito me observando diretamente é ao mesmo tempo intimidante e agradável.

Coloquei o café moído em um filtro de papel e comecei a preparar o café,

seguindo exatamente o mesmo procedimento que o Utahara-san havia feito anteriormente.

Em seguida, ofereci o café pronto ao Utahara-san.

“Por favor, prove.”

“Tudo bem, vou provar.”

Meu coração batia forte de nervosismo.

Mas eu me sentia confiante. A moagem estava perfeita. O tempo também ficou dentro dos três minutos.

“Hum... entendo.”

Depois de tomar um gole, o Utahara-san assentiu e colocou a xícara na mesa.

“Você evoluiu, Jun-kun. É uma diferença abismal em relação a um ano atrás. Seu esforço está realmente valendo a pena.”

“Sério!?”

“Não há muitos sabores indesejáveis, e a intensidade está boa. Mas se você fosse servir isso na loja, eu diria que ainda falta um passinho.”

“Falta só um passo... O que está faltando?”

“Experiência, eu acho. É claro que o método de preparo muda um pouco

dependendo do grão, mas, além disso, também há coisas que você precisa ajustar de acordo com o estado dos grãos.”

“O estado dos grãos?”

“Seu método de preparo agora é perfeitamente lógico, e não havia nada de errado nele. Mas, assim como as pessoas, todos os grãos têm sua própria personalidade. Mesmo sendo do mesmo tipo, eles mudam aos poucos com

a temperatura e a umidade, então o mesmo método de preparo nem sempre é o ideal. Em outras palavras, você precisa perceber o ‘humor’ dos grãos que estão bem na sua frente.”

“...Entendi.”

—A personalidade dos grãos, hein.

Ainda não consigo perceber a diferença a esse ponto e, por enquanto, os grãos não parecem estar falando comigo. Será que chegará o dia em que eu consiga entender?

“Mas eu não achei que estaria ensinando a você sobre a personalidade dos grãos tão cedo... Você realmente se esforçou muito. Muito bem, muito bem.”

“Obrigado.”

Quando a Utahara-san me elogia, meu coração fica bem aquecido.

Vou continuar dando o meu melhor.

Para preparar um café delicioso e para não passar vergonha como amigo da Shizuku.

Traduzido por Moonlight Valley

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