Capítulo 38: "Persuasão"
Capítulo 38: "Persuasão"
"Primeiro, você não gostaria de me deixar ouvir o seu lado da história? Eu realmente quero entender o que você deseja fazer. E então, o que acha de pensarmos juntos na melhor forma de resolver isso? Eu não medirei esforços para te apoiar, tudo para que você possa sorrir e se formar nesta escola."
Mantendo o tom de voz o mais suave e acolhedor possível, lancei aquelas palavras em direção à porta do quarto. A partir dali, restava-me apenas esperar que ela decidisse sair por conta própria daquele seu isolamento implacável, como se estivesse deixando uma caverna mística.
Passaram-se dez minutos — ou teria sido ainda mais tempo? O silêncio reinou no corredor enquanto nós três, imóveis, aguardávamos pela escolha de Murakumo.
Até que, finalmente — com uma lentidão quase dolorosa, a porta começou a se abrir.
A figura que emergiu dali era a de uma garota miúda, dona de cabelos negros com uma franja tão longa que cobria completamente os seus olhos. Julgando apenas por sua estatura, ela facilmente se passaria por uma estudante do ensino fundamental. Seus cabelos pareciam consideravelmente desalinhados; as mechas laterais e a parte de trás exibiam um corte visivelmente assimétrico e torto.
Era evidente que ela mesma vinha cortando os próprios cabelos. O fato de ter deixado apenas a franja crescer daquele jeito era, sem dúvida, uma tática deliberada para evitar cruzar olhares com qualquer outra pessoa. O estado de sua aparência operava como um reflexo fiel de sua saúde mental debilitada, fazendo com que Kamijou-san, ao notar aquilo, desviasse os olhos com um semblante entristecido.
"Rumi...!"
A primeira a deixar escapar uma exclamação de puro alívio e alegria diante da aparição de Murakumo foi a sua mãe. Como as duas residiam sob o mesmo teto e havia toda a questão das refeições, era improvável que elas estivessem sem se ver por completo. Ainda assim, o fato de Murakumo ter decidido dar as caras significava que ela estava reunindo coragem para encarar o problema de frente, disposta a dar um passo adiante. Era essa percepção que justificava o tom emocionado na voz de sua mãe.
"Muito prazer em te conhecer, Murakumo-san. Eu sou o seu conselheiro de classe."
Esbocei um sorriso ameno para transmitir o máximo de segurança possível ao cumprimentá-la.
"Ah... e-então... uuh..."
Por estar há tanto tempo sem interagir ou encarar alguém de fora de seu círculo familiar, as palavras pareciam simplesmente travar em sua garganta. Vendo o visível bloqueio da colega, Kamijou-san deu um passo à frente, reassumindo o seu lugar ao meu lado. Exibindo um sorriso tão transbordante de compaixão que faria qualquer um confundi-la com uma verdadeira santa, ela tomou a palavra.
"Está tudo bem. Não precisa ter pressa, pode ir no seu próprio ritmo."
Ostentando uma mansidão tão profunda que a tornava uma pessoa completamente diferente da garota que eu conhecia, ela tentava acalmar os ânimos de Murakumo. Essa menina com certeza tem a tendência de se tornar superprotetora com quem ela julga ser mais fraco ou vulnerável... — deduzi. Embora eu aposte que esse tratamento especial seja de exclusividade das garotas.
Enquanto eu observava as duas estudantes, notei que a respiração de Murakumo começou a se estabilizar gradativamente, muito graças ao fato de ninguém ali estar tentando apressá-la.
"Isso mesmo... não há motivo para pânico, respire fundo, certo?"
Com o novo incentivo brando de Kamijou-san, Murakumo assentiu timidamente com a cabeça e, pela primeira vez, direcionou o rosto em minha direção.
"Eu... eu tenho muito medo de voltar para a escola logo de cara... Mas, no fundo, eu sei perfeitamente que... que não posso continuar me escondendo assim para sempre..."
Seguindo à risca o conselho de Kamijou-san, Murakumo foi externalizando seus sentimentos de forma pausada. Ela era dona de uma voz fina e adorável, que lembrava muito a dublagem de uma personagem de anime. Aquele seu jeito hesitante combinado à sua estatura baixa naturalmente despertava um forte instinto de proteção em qualquer um. Ver uma garota tão indefesa se tornar alvo de intimidação só me fazia questionar o quão distorcido o mundo podia ser.
"Eu compreendo o seu medo. Mas peço que deposite um voto de confiança em nós. Nós vamos te proteger, custe o que custar. Por isso, você poderia nos contar tudo o que aconteceu?"
Diante do meu apelo, ela começou a relatar os fatos de maneira bastante cautelosa. Como eu já suspeitava, a identidade da pessoa por trás daquilo batia exatamente com o meu palpite principal, mas parecia que o problema não se resumia a um indivíduo isolado. A mandante em questão operava nos bastidores; ela não sujava as próprias mãos, preferindo usar terceiros para executar as hostilidades.
Contudo, ao tocar no estopim que deu início ao bullying, Murakumo assumiu a culpa para si: "A culpa é toda minha... fui eu quem a magoou primeiro...".
Aquela declaração ia exatamente ao encontro do que a Misuzu-chan havia previsto.
Apesar disso, Murakumo se recusou a dar detalhes sobre como exatamente teria magoado a outra garota. Se era um segredo que ela não podia revelar ou se era algo que ela simplesmente preferia guardar para si, eu ainda não conseguia discernir. No entanto, ela não me parecia, nem de longe, o tipo de pessoa capaz de ferir alguém intencionalmente. A menos que ela fosse tão mestre em usar máscaras quanto a Kamijou-san, uma jovem com tamanha astúcia dificilmente terminaria trancada em um quarto.
O mais provável era que Murakumo ainda estivesse tentando proteger a outra parte de alguma forma. É uma inclinação bastante comum em pessoas excessivamente bondosas: mesmo sendo as verdadeiras vítimas, elas internalizam a culpa devido à imensa consideração que nutrem pelo outro. Se esse fosse de fato o caso, arrancar a verdade dela através de insistência seria uma missão praticamente impossível.
"Para ser bem honesto, se o seu número de faltas continuar aumentando, a reprovação de ano vai se tornar inevitável. Por isso, se for possível, eu gostaria que você tentasse frequentar as aulas a partir de amanhã. Sei que exigir isso de imediato é algo assustador, mas você acha que seria muito difícil...?"
Ao ouvir a minha pergunta, Murakumo lançou um olhar rápido para Kamijou-san, como se buscasse algum tipo de validação. Captando instantaneamente o significado por trás daquele olhar, Kamijou-san voltou a estampar sua expressão de pura benevolência.
"Ninguém vai ousar encostar um dedo em você, eu garanto. Pode não parecer, mas eu tenho uma influência considerável naquele colégio."
O que ela disse era a mais pura verdade. Kamijou-san ocupava o topo da hierarquia social da escola, e o seu poder de fala e capacidade de moldar opiniões eram gigantescos. Nesse quesito, o impacto dela equivalia perfeitamente ao da Midou-san, a amiga de infância de Murakumo.
A diferença era que, enquanto a Midou-san baseava sua influência em sua popularidade genuína e carisma, o poder de Kamijou-san residia não apenas em sua beleza magnética, mas também no temor que sua personalidade perspicaz e sua inteligência afiada impunham. Justamente por isso, eram raros os alunos que ousavam cogitar tê-la como inimiga.
Embora, pensando bem... isso de “pode não parecer” é uma piada, já que a imponência dela é nítida só de olhar... — ponderei.
Por mais que aquele modo de falsa santa fizesse com que ela parecesse dócil agora, Murakumo com certeza conhecia a verdadeira reputação da Kamijou-san no colégio, então... Enquanto eu me perdia nesses raciocínios, uma dor aguda e repentina atingiu a minha canela.
"Ai, caramba...?!"
Olhei imediatamente para baixo, mas não havia absolutamente nada ali. Por conta do meu sobressalto repentino, Murakumo, que antes encarava a colega, desviou os olhos com uma expressão assustada para o meu rosto.
"Aconteceu alguma coisa, professor? Soltar um grito desses do nada... por acaso foi uma crise súbita de dor de cabeça?"
Em contrapartida, Kamijou-san permanecia a personificação da serenidade, inclinando a cabeça de lado com um sorriso radiante no rosto. Aquilo foi uma ação totalmente premeditada; a culpada com certeza era ela.
A avaliar pela intensidade do impacto, aquilo tinha sido um belo de um chute baixo... Aproveitando-se do fato de Murakumo estar com o rosto erguido olhando para ela, Kamijou-san teve o cuidado de manter o tronco e a expressão facial totalmente imóveis enquanto desferia o golpe com a perna por baixo da linha de visão da colega.
Essa garota é perigosa... de verdade!
"Não, não foi nada..."
Se eu revelasse ali que a Kamijou-san era alguém intimidadora, Murakumo poderia recuar e desistir de voltar à escola. Por isso, contendo as lágrimas que ameaçavam surgir no canto dos meus olhos, tratei de inventar uma desculpa qualquer. A mãe de Murakumo piscou os olhos repetidas vezes, indicando que provavelmente tinha testemunhado a cena... mas preferiu não intervir.
Toda aquela dinâmica, sem dúvida, fazia parte dos cálculos da Kamijou-san.
"Deixando isso de lado, professor, eu acredito que mandar a Murakumo-san de volta ao colégio no estado atual pode gerar alguns contratempos. A franja cobrindo os olhos já é uma marca registrada dela, mas se ela aparecer com esse corte de cabelo atual, é quase certo que outras pessoas vão começar a fazer piadinhas de mau gosto."
Esquecendo com uma maestria invejável o fato de ter acabado de agredir o próprio professor, Kamijou-san trouxe à pauta o visual de Murakumo. Embora estivesse medindo as palavras, o que ela quis dizer era que existia um risco real de Murakumo sofrer hostilidades de outros grupos caso chamasse atenção de forma negativa. Na realidade, alunos que se aproveitam da aparência alheia para destilar comentários maldosos não são raridade, então dar uma geral naquele cabelo era mesmo a melhor opção.
"Se não houver inconveniente, eu gostaria de levá-la a um salão de beleza agora mesmo..."
Ao sugerir aquilo, Kamijou-san lançou um olhar discreto para a mãe de Murakumo. Como a proposta envolvia custos financeiros, ela não podia simplesmente arrastar a garota sem consentimento. Bem, conhecendo o histórico dessa menina, eu não me surpreenderia se ela tentasse empurrar a conta para mim no final... E se a mãe recusasse por falta de verba, eu seria obrigado a arcar com os custos de qualquer forma...
"Ah, mas por favor, fiquem à vontade! Vou buscar o dinheiro num instante."
Para a minha surpresa, a mãe de Murakumo aceitou a ideia prontamente, sem esboçar qualquer sinal de desconforto. Ela deu meia-volta e começou a descer as escadas, sem dúvida para buscar a quantia necessária, cumprindo o que havia dito.
"Um salão de beleza... faz tanto tempo que eu não vou a um, que vergonha..."
"É natural sentir um pouco de timidez. Mas já que vamos até lá, o que acha de aproveitarmos para cortar a franja de forma adequada e deixar os seus olhos à mostra? Tenho certeza absoluta de que você vai ficar ainda mais linda."
"Mas... a Ayaka-chan sempre me disse que era melhor eu não mostrar os meus olhos... Eu sou péssima em encarar as pessoas e acabo ligando demais para o que os outros estão pensando..."
[Pipoc4h: Essa Ayaka fingindo ter boa intenção pra fazer a menina ficar com a aparência feia, só na maldade]
Ouvindo a resposta tímida e hesitante de Murakumo, eu e Kamijou-san trocamos um olhar cúmplice. A expressão no rosto dela, contudo, fechou-se em um descontentamento tão evidente que ficava claro o quanto ela discordava daquela afirmação.
Ei... você está esquecendo de manter a postura de santa...
A irritação estava tão estampada em suas feições que a advertência quase me escapou pelos lábios.
"Se é assim, que tal tentarmos deixar apenas um dos olhos à mostra primeiro? Se você se sentir confortável com isso, no futuro nós liberamos o outro."
"Será...? Mesmo mostrando só um olho, eu ainda corro o risco de cruzar olhares com alguém..."
"É só uma questão de costume, você vai ver."
Para a surpresa de todos, Kamijou-san demonstrou uma pitada incomum de insistência. Ela parecia determinada a fazer aquela franja ser cortada de qualquer maneira. Embora eu compreendesse as intenções dela, exercer tanta pressão logo de início não acabaria deixando a Murakumo acuada...?
Contrariando os meus temores — "B-Bem... se for desse jeito... eu posso tentar..." — Murakumo acabou cedendo com uma facilidade espantosa.
Essa garota é influenciável demais...!
Ainda assim, ela não parecia estar agindo contra a própria vontade; a reação dela assemelhava-se muito mais ao acanhamento de quem estava recebendo atenção. No fim das contas, a fobia social dela talvez não fosse tão severa quanto ela própria acreditava. Kamijou-san provavelmente tinha pescado essa nuance, e por isso optou por uma abordagem mais incisiva.
Seja como for, mesmo não sendo filha biológica, o laço de sangue ali era inegável: a perspicácia e a competência da Kamijou-san eram tamanhas que me faziam recordar perfeitamente a brilhante postura da Misuzu-chan em seus tempos de juventude.
Com tudo resolvido, nós recolhemos o dinheiro com a mãe de Murakumo e partimos sem demora em direção ao salão de beleza.
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