Capítulo 41: "Fúria"
Capítulo 41: "Fúria"
"Uuuuuggggghhhhh...!"
Depois das aulas, ou melhor, bem após o encerramento do meu expediente.
Assim que terminei minhas obrigações e me dirigi ao estacionamento, fui abordado de surpresa por Kamijou-san. Sem a menor cerimônia, ela se enfiou no banco do passageiro e cruzou os braços, rangendo os dentes com uma expressão profundamente emburrada. Olha, eu tinha uma lista imensa de perguntas a fazer sobre aquela cena, mas...
"O que você estava fazendo até agora...? Quer dizer, o que você pensa que está fazendo?"
Ela ainda vestia o uniforme do colégio e trazia a bolsa escolar consigo. Não restavam dúvidas de que ela não havia voltado para casa e tinha passado o tempo todo me esperando. Só não ficou muito claro o motivo de ela ter invadido o veículo antes mesmo que eu pudesse sentar no banco do motorista. Presumi que era a forma dela manifestar que queria conversar em um lugar bem longe dos arredores da escola, mas...
"Eu estava esperando pelo alvo perfeito para descarregar a minha fúria..."
"—?! Ok, vamos conversar com calma... A violência não é a resposta..."
Constatando que ela estava literalmente à procura de um saco de pancadas humano, tratei de dar a partida no carro enquanto forçava o meu melhor sorriso pacificador. Essa garota tem todo esse ar de pessoa fria, contida e madura, mas a verdade é que ela perde a linha e parte para a agressão física com uma facilidade assustadora... Nisso, ela não lembrava em absolutamente nada a Misuzu-chan.
"O que o senhor está imaginando? Eu jamais rebaixaria o meu nível a ponto de usar a força física. Vou acabar com o senhor usando apenas argumentos."
"Olha... você por acaso se esqueceu de que já me agrediu hoje mesmo? E você sabe que existe o termo ‘violência verbal’, não sabe?"
Continuei sorrindo, embora uma gota de suor frio insistisse em descer pela minha nuca.
"Não foi uma agressão física, foi um chute na canela. Daquela outra vez, as minhas mãos sequer tocaram no senhor, e o chute foi um caso isolado. Daria para o senhor parar de me pintar como se eu fosse uma delinquente descontrolada?"
E assim, sem qualquer preâmbulo, a sessão de desabafo e implicância da Kamijou-san teve início.
"Não precisa se apegar tanto aos detalhes técnicos..."
"Mas são os fatos."
É, não tem jeito... Essa menina deve ser imbatível em um debate.
Pensei, vendo que ela já exibia um sorrisinho de canto, parecendo genuinamente mais animada.
"Certo, mas mudando de assunto, por que você ficou me esperando?"
Tratei de reajustar o foco e perguntei o real motivo de ela ter aguardado tanto tempo.
"Eu já disse. Para descarregar o meu estresse."
"Você realmente ficou mofando aqui no colégio só para isso?!"
Eu tinha quase certeza de que aquela primeira justificativa era apenas uma provocação, mas ver que era a mais pura verdade me deixou embasbacado. Quer dizer, eu sabia perfeitamente bem que ela tinha acumulado uma quantidade colossal de frustração durante as aulas, mas precisava ir tão longe...?!
"Mas é claro! Em circunstâncias normais, eu poderia estar conversando e me aproximando da Murakumo-san agora mesmo, mas por culpa de uma certa pessoa , fui obrigada a ficar assistindo a tudo de longe...!"
Kamijou-san inflou levemente as bochechas, lançando-me um olhar extremamente emburrado. Ela estava mesmo de bico.
Porém... mesmo que a Murakumo-san tivesse voltado lindíssima do salão de beleza, eu simplesmente não conseguia visualizar a Kamijou-san agindo como o resto dos alunos e se enfiando no meio daquela multidão para bajulá-la.
O mais provável era que, por mais que a achasse fofa, ela se limitaria a observar de longe sem tomar a iniciativa de interagir. O único motivo de ela estar tão obstinada a se aproximar agora era justamente o vínculo e a cumplicidade que havíamos construído na casa da Murakumo-san no dia anterior.
Para ser ainda mais exato: o que estava incomodando o orgulho dela era o fato de ter sido a primeira a quebrar o gelo e estar cheia de vontade de cuidar da colega, mas ser forçada a ficar de braços cruzados assistindo a um monte de oportunistas cercarem a garota. Como eu tinha certeza de que ela voaria no meu pescoço se eu verbalizasse isso, preferi guardar a análise para mim.
"Bem, só para garantir..."
"Eu cumpri a minha parte do trato perfeitamente, está bem? Tanto que fiz questão de fazer o caminho de volta para o colégio só para isso."
"Entendi. Muito obrigado por isso."
Embora eu tenha expressado a minha gratidão em voz alta...
Mas o real motivo de você ter voltado para a escola foi só para me usar de saco de pancadas psicológico, não foi? Você podia muito bem ter ido direto para casa, sabia?
Era o que eu gritava mentalmente. Na verdade, do ponto de vista da minha própria segurança e sanidade, teria sido uma ajuda imensa se ela estivesse bem longe dali…
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