Capítulo 60: "Doloroso"
Capítulo 60: "Doloroso"
"O-O amor... o ideal é que seja vivenciado entre pessoas com idades próximas, sabe...? É o melhor para ambos os lados... C-Claro, não estou dizendo que seja uma regra absoluta, mas se pensarmos nas convenções gerais da sociedade, essa configuração costuma trazer bem menos problemas..."
É, pelo visto a desconfiança em relação a mim continuava firmemente de pé.
Misuzu-chan cutucava as pontas dos próprios dedos indicadores uma na outra enquanto gaguejava, visivelmente sem jeito para tocar no assunto. Mas sejamos francos: se ela não estivesse genuinamente cogitando a hipótese de eu avançar o sinal com garotas com uma diferença drástica de idade, essa pauta sequer teria vindo à tona.
Será que o problema é o seguinte...?
Como o nosso namoro aconteceu na época do colégio e, desde então, eu não tive mais nenhum envolvimento amoroso público, a mente da Misuzu-chan acabou deduzindo que o meu relógio biológico de relacionamentos estagnou naquela faixa etária...?
Em situações normais, uma ex-namorada não saberia nada sobre a vida amorosa atual do antigo parceiro. Contudo, tudo indicava que a Akari, minha amiga de infância, andou abrindo o bico e atualizando a Misuzu-chan sobre os meus bastidores...
Se era realmente essa a imagem que ela tinha de mim, tratava-se de um mal-entendido colossal e perigoso. Eu precisava desfazê-lo o quanto antes.
"Se eu fosse namorar alguém hoje em dia, seria uma pessoa mais ou menos da minha idade."
"A-Ah, é mesmo...?! Sim, com certeza! Essa é a melhor escolha, sem dúvidas, sim...!"
Para não correr o risco de usar uma semântica ambígua e piorar a situação, mandei uma resposta direta e sem curvas. No mesmo instante, o semblante da Misuzu-chan iluminou-se por completo.
Olha... o tamanho da preocupação — ou melhor, da desconfiança — que ela estava alimentando a meu respeito... Senti uma vontade quase incontrolável de soltar uma contestação indignada.
"Mas, para o meu azar, não tenho ninguém assim por perto no momento. Sabe como é, a rotina de um professor acaba sendo cercada majoritariamente por crianças e adolescentes."
Até existem profissionais na mesma faixa etária que a minha no corpo docente, mas a quantidade é bem reduzida. E na nossa idade atual, a grande maioria já subiu ao altar ou está em um relacionamento sério.
Pensando bem, a pessoa mais próxima da minha idade com quem convivo recentemente é uma mulher incrivelmente linda e transbordando gentileza chamada Misuzu... mas uma mulher daquele patamar com certeza já deve ter um marido ou um namorado. Além disso, a ideia de buscar romances no ambiente de trabalho nunca me pareceu algo muito recomendável, o que reduzia as minhas chances de novos encontros a quase zero.
— Bem, admito: tudo isso não passa de desculpas de um cara que não tem o menor traquejo social.
A dura realidade era que me faltava audácia, coragem e charme para abordar o sexo oposto, e a ausência de pretendentes era mero reflexo da minha falta de atrativos. Afinal de contas, mesmo na época de estudante, quando as oportunidades de interação social eram abundantes, a única namorada que consegui em toda a vida foi a própria Misuzu-chan.
"............"
Enquanto eu resgatava esses fragmentos melancólicos da minha juventude solitária, notei que Misuzu-chan havia fincado um olhar semicerrado e profundamente insatisfeito na minha direção. Pelo visto, acabei pisando em alguma mina terrestre invisível sem sequer perceber.
"O-O que foi...?"
"Shirasaki-san... eu gostaria muito de saber quantas garotas o senhor já fez chorar ao longo da vida com esse seu jeito, sabia...?"
Quando perguntei timidamente, Misuzu-chan devolveu um sorriso perfeitamente moldado. Contudo, em total contraste com a doçura da expressão facial, uma pressão misteriosa e esmagadora emanava dela.
Aproveitando-se do fato de que a Sana-chan estava completamente distraída e mimada no meu colo, ela parecia ter abandonado qualquer filtro social na escolha das palavras.
"Não sei de onde você tirou esse assunto do nada, mas eu nunca tive popularidade suficiente com as mulheres para ter o luxo de fazer alguém chorar..."
Ela sabia perfeitamente bem que o meu primeiro amor e única namorada havia sido ela mesma. E como a Akari provavelmente já tinha atualizado os capítulos seguintes, a Misuzu-chan deveria estar careca de saber que eu passei longe de ser um conquistador, ao contrário dela, que sempre chamou a atenção por onde passava...
Na verdade, a verdadeira distribuidora de foras e responsável por fazer uma legião de homens chorar era ela, não...? Eu mesmo, no passado, juntei os meus pedaços e me declarei para ela pronto para o pior... Eu nunca, nem em um milhão de anos, achei que receberia um "sim" como resposta.
E pensar que, contra todas as probabilidades, ela aceitou — ah, caramba. Só de resgatar essa memória, o meu peito começou a doer de uma forma sufocante.
Mesmo já tendo se passado longos dez anos…
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