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Capítulo 10 – Posso fechar os olhos?

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Capítulo 10 – Posso fechar os olhos?

[25 de março de 2017]

Keal acordou com duas batidas fortes na porta de seu quarto, ele levantou-se meio sonolento, olhou para fora e viu o brilho intenso do sol, olhou para o relógio em cima da sua mesa e viu que já era 8 horas da manhã

— Oi vó! Desculpa! Estou saindo — Ele abriu a porta e viu sua avó já pronta para ir para a feira

— Não meu filho, eu acordei um pouquinho tarde também, não foi sua culpa, vai tomar banho e lá você come

— Certo… — o Keal foi para o banheiro banhar rápido.

Enquanto tomava banho, ao fechar os olhos, ele viu a mesma cena que tinha visto da madrugada, a luz brilhante, e logo ele tomou um susto e abriu os olhos rápido e começou a enxugar eles

“Droga… Que merda foi essa? Desde ontem eu fico revendo essa mesma imagem sempre”

O Keal se arrumou, e desceu para a sala, onde sua avó lhe esperava, ele pegou a última caixa que faltava e foi para fora, e a colocou no carro, enquanto a Dona Olívia fechava a casa

Na ida até a feira, o Keal percebeu que o caminho estava bastante vazio, e se perguntou se realmente havia gente fora de casa naquele sábado tão estranho.

Quando eles chegaram na feira, eles viram que estava deserta, não havia nenhuma barraca, e muito menos nenhum comprador

— Que estranho, hoje é sábado e não tem ninguém aqui… — disse a Dona Olívia, mas era de se esperar, ontem teve uma explosão das grandes, era normal os cidadãos estarem com medo.

— Vamos voltar pra casa vó, acho que não vai ter feira hoje… — Dona Olívia concordou, e fez a volta para casa, antes de ir realmente pra casa, eles pararam em uma lanchonete para tomar café da manhã

Chegando na lanchonete, tinha algumas pessoas, eles entraram no estacionamento, e se sentaram, o Keal ficou olhando o rosto de todos, que pareciam assustados

“Todos estão com a mesma expressão… De tensão” disse o Keal mentalmente, enquanto isso, passava uma matéria do jornal regional, onde eles falavam sobre as explosões e que isso estava afetando negativamente tudo em Kirigamine-shi

“Kirigamine-shi está passando por uma tensão muito forte nos últimos dias, várias explosões estão sendo registradas, e isso está afetando negativamente tudo em Kirigamine-shi, comércios, economia, e muito mais, é como se estivéssemos passando por uma grande onda de azar”

“Engraçado… quando eu estou bem a cidade está mal…”

Keal continuou olhando para a televisão por alguns segundos, até ouvir o som de uma colher batendo contra a xícara.

Ele olhou para o lado.

Um homem sentado algumas mesas atrás deles estava encarando a televisão com uma expressão séria.

— Eles só sabem falar a mesma coisa… — murmurou o homem.

A mulher sentada ao lado dele respondeu:

— E nunca explicam nada.

— Explosões, explosões e mais explosões… Mas ninguém sabe quem está fazendo isso.

Outro homem, sentado próximo ao balcão, entrou na conversa.

— Ou sabem e estão escondendo.

O ambiente ficou em silêncio por alguns segundos.

Keal observou os três.

Ninguém parecia tranquilo.

Até mesmo os funcionários da lanchonete trabalhavam olhando constantemente para a televisão ou para a rua.

Dona Olívia terminou seu café e se levantou.

— Vamos para casa.

— Já?

— Sim. Não quero ficar muito tempo fora hoje.

Keal assentiu.

— Tá.

Os dois saíram da lanchonete.

No estacionamento, antes de entrar no carro, Keal olhou para o outro lado da rua.

Havia uma viatura estacionada.

Dois policiais conversavam ao lado dela.

Um deles parecia estar recebendo alguma informação pelo rádio.

Keal ficou olhando por alguns segundos.

— Keal.

— Hm?

— Vamos.

— Ah… certo.

Ele entrou no carro.

Durante todo o caminho, não conseguiu parar de pensar naqueles policiais.

Em casa

A cidade continuava estranhamente silenciosa.

Keal estava deitado no sofá, olhando para o teto.

Dona Olívia estava na cozinha preparando o almoço.

— Keal!

— Oi?

— Vem comer!

— Já vou.

Ele fechou os olhos por alguns segundos.

E novamente viu.

Aquela luz.

Branca.

Intensa.

Por um instante, tudo pareceu desaparecer.

Keal abriu os olhos imediatamente.

— Droga…

Ele levou a mão ao rosto.

“De novo…”

Já estava começando a ficar irritado.

Não entendia o que aquela imagem significava.

Não havia pessoas.

Não havia lugares.

Não havia sons.

Só aquela luz.

Uma luz tão intensa que parecia estar olhando diretamente para ele.

— Keal!

— Já estou indo!

Ele se levantou.

Mas, antes de chegar à cozinha, ouviu algo vindo da televisão.

Uma notícia de última hora.

“Nossa equipe acaba de receber informações de que uma manifestação está sendo organizada no centro de Kirigamine-shi.”

Keal parou.

Dona Olívia também.

“Centenas de moradores estão se reunindo para exigir explicações das autoridades sobre os acontecimentos dos últimos dias.”

Keal olhou para a televisão.

— Centenas?

Dona Olívia desligou o fogo do fogão.

— Isso não vai acabar bem.

A manifestação começou pacífica.

As pessoas caminhavam pelas ruas segurando cartazes.

— Queremos respostas!

— Chega de mentiras!

— Queremos saber o que está acontecendo!

— O prefeito precisa aparecer!

O número de pessoas aumentava a cada minuto.

Keal estava em casa, mas conseguia ouvir os gritos mesmo de longe.

Ele se aproximou da janela.

Dona Olívia apareceu atrás dele.

— Nem pense em sair.

— Eu não ia.

— Você está olhando para a rua há dez minutos.

— Estou só vendo.

— Então veja de longe.

Keal ficou em silêncio.

Na televisão, imagens ao vivo mostravam a multidão.

Alguns comerciantes estavam entre os manifestantes.

Uma mulher segurava um cartaz escrito:

“MINHA LOJA FOI DESTRUÍDA E NINGUÉM EXPLICA NADA.”

Outro homem gritava:

— QUEREMOS O PREFEITO!

A multidão repetiu.

— QUEREMOS O PREFEITO!

Keal sentiu um arrepio.

Então a transmissão mostrou policiais chegando.

Dona Olívia suspirou.

— Pronto…

— Eles vão dispersar a manifestação?

— Espero que não.

Os policiais formaram uma barreira na frente da multidão.

Um deles levantou um megafone.

— Pedimos que todos mantenham a calma! A manifestação não foi autorizada para ocupar essa área!

Algumas pessoas começaram a reclamar.

— Não estamos fazendo nada!

— Queremos respostas!

— Deixem a gente falar!

Um homem avançou alguns passos.

— Vocês estão protegendo quem?!

Um policial colocou a mão sobre o rádio.

— Senhor, mantenha distância.

— Distância?!

O homem apontou para os prédios atrás dos policiais.

— Tem gente perdendo emprego! Tem comércio fechando! Tem famílias com medo de sair de casa! E vocês querem que a gente fique quieto?!

A multidão começou a gritar novamente.

— QUEREMOS RESPOSTAS!

— QUEREMOS RESPOSTAS!

A tensão aumentava.

Um policial tentou avançar.

Um manifestante empurrou a barreira.

Foi um pequeno movimento.

Mas foi suficiente.

Os policiais reagiram imediatamente.

— Afastem-se!

— Não encostem em mim!

Mais pessoas começaram a empurrar.

Gritos.

Discussões.

Alguns tentavam sair da confusão.

Outros avançavam.

A polícia começou a tentar separar os grupos.

Na televisão, a imagem ficou completamente caótica.

Dona Olívia colocou a mão na boca.

— Meu Deus…

Keal não respondeu.

Ele estava olhando fixamente para a televisão.

Então percebeu algo.

Uma pessoa parada no meio da multidão.

Não estava gritando.

Não estava correndo.

Apenas observava.

Keal estreitou os olhos.

“Quem é aquele?”

A câmera mudou de direção.

A pessoa desapareceu no meio da multidão.

Keal piscou.

Por algum motivo, sentiu que havia algo errado.

Muito errado.

A manifestação terminou depois que a polícia conseguiu dispersar grande parte da multidão.

Mas o estrago já estava feito.

As imagens começaram a circular por toda a cidade.

Pessoas discutindo com policiais.

Pessoas sendo retiradas da rua.

Comerciantes revoltados.

Moradores acusando o governo de esconder informações.

E, principalmente, uma frase começou a aparecer em todos os lugares:

“O prefeito está escondendo alguma coisa.”

Naquela noite, Kirigamine-shi não dormiu.

Mas, pela primeira vez, não era por causa das explosões.

Era por causa da raiva.

[26 de março de 2017 — Domingo]

Na manhã seguinte, Keal acordou com o som da televisão.

Ele desceu as escadas ainda sonolento.

Dona Olívia estava sentada no sofá.

— Bom dia.

— Bom dia, vó.

Keal sentou ao lado dela.

Na televisão, a mesma notícia.

“O prefeito de Kirigamine-shi fará uma declaração oficial ainda hoje sobre os acontecimentos recentes.”

Keal pegou um copo de água.

— Finalmente.

Dona Olívia olhou para ele.

— Finalmente o quê?

— Ele vai falar.

— Vamos ver o que ele vai falar.

Horas depois, o prefeito apareceu diante das câmeras.

Atrás dele havia vários membros da administração municipal.

Ele parecia tranquilo.

Calmo demais.

— Antes de tudo, quero tranquilizar a população de Kirigamine-shi. As autoridades estão trabalhando incansavelmente para descobrir a causa dos acontecimentos recentes.

Keal ficou olhando.

— Lá vem…

O prefeito continuou.

— As explosões registradas nos últimos dias foram acontecimentos isolados. Não existe, até o momento, nenhuma evidência de que exista uma ameaça organizada contra a cidade.

Dona Olívia franziu a testa.

— Acontecimentos isolados?

— É…

O prefeito respirou fundo.

— Além disso, alguns problemas recentes relacionados ao abastecimento, ao comércio e à segurança pública foram agravados pela própria reação da população.

Keal arregalou os olhos.

— Ele tá culpando o povo?

— Parece que sim.

— Que idiota.

O prefeito continuou:

— Pedimos que os cidadãos mantenham a calma e evitem participar de manifestações não autorizadas. A prefeitura está fazendo tudo que está ao seu alcance.

Então veio a frase que fez Keal perder completamente o interesse em ouvir o restante.

— Não há motivo para pânico.

A transmissão terminou.

Silêncio.

Keal olhou para a televisão.

— Só isso?

Dona Olívia não respondeu.

Na rua, alguém gritou.

— MENTIROSO!

Outro grito veio logo depois.

— FORA!

E então outro.

— RENUNCIA!

Keal levantou-se e foi até a janela.

Havia pessoas novamente na rua.

Mais do que no dia anterior.

Dona Olívia levantou rapidamente.

— Keal, saia da janela.

— Mas—

— Agora.

Ele obedeceu.

Na televisão, os repórteres já começavam a falar sobre novas manifestações.

O discurso do prefeito não havia acalmado ninguém.

Pelo contrário.

Havia colocado mais lenha no fogo.

A noite chegou.

A cidade continuava inquieta, mas Keal estava em casa.

Ele estava sentado no sofá quando pegou o celular.

Ficou olhando para a tela por alguns segundos.

Então se levantou.

— Vó.

— Oi?

— Eu vou sair hoje.

Dona Olívia olhou para ele.

— Sair?

— É.

— Para onde?

— Vai ter uma festinha.

Ela ficou olhando para ele.

— Festinha?

— É. Uns amigos vão estar lá.

— Quem?

Keal pensou por alguns segundos.

— Umas pessoas da escola.

Dona Olívia cruzou os braços.

— E você só resolveu me contar agora?

— Eu esqueci.

— Keal…

— Eu volto cedo.

Ela suspirou.

— Você vai beber?

— Não.

— Vai ficar até tarde?

— Não muito.

Dona Olívia ficou alguns segundos em silêncio.

— Está bem.

Keal sorriu levemente.

— Sério?

— Sim. Mas quero você de volta antes de ficar muito tarde.

— Pode deixar.

Ele subiu para o quarto e começou a se arrumar.

Enquanto colocava os sapatos, seu celular vibrou.

Uma mensagem.

“Já está pronto?”

Keal respondeu:

“Estou saindo.”

Keal chegou em frente a uma casa.

Olhou para o endereço no celular.

Era ali.

Ele saiu do carro e caminhou até o portão.

Antes que pudesse bater, a porta da casa se abriu.

Uma garota apareceu.

— Você demorou.

— Foi mal.

Ela sorriu.

— Vamos?

Keal olhou para ela.

— Vamos.

Ela entrou no carro.

— Você sabe onde é a festa?

— Sei.

— Tem certeza?

— Mais ou menos.

— Keal…

— Relaxa.

Ela riu.

Os dois começaram a conversar enquanto o carro seguia pelas ruas.

Por alguns minutos, tudo parecia normal.

Sem explosões.

Sem manifestações.

Sem polícia.

Sem prefeito.

Sem aquela estranha sensação que perseguia Keal desde a madrugada.

Ele olhou pela janela.

As luzes da cidade passavam rapidamente.

Então, por um breve instante…

Keal viu aquela mesma luz.

Branca.

Intensa.

Refletida em algum lugar distante.

Ele piscou.

A luz havia desaparecido.

— Keal?

— Hm?

— Você está bem?

Ele olhou para frente.

— Estou.

E continuou dirigindo.

O carro finalmente parou em frente a uma casa de dois andares.

Keal olhou pela janela.

A música podia ser ouvida do lado de fora.

Havia carros estacionados pela rua inteira, algumas pessoas conversando na calçada e luzes coloridas piscando pelas janelas da casa.

— É aqui mesmo? — perguntou Keal.

Júlia soltou uma risada.

— Você realmente achou que eu estava brincando?

— Eu não sabia que seria tanta gente.

— Eu avisei que era uma festa.

— Você disse “festinha”.

— É praticamente a mesma coisa.

Keal olhou novamente para a casa.

— Isso definitivamente não é uma festinha.

Júlia abriu a porta.

— Anda logo.

— Já estou indo.

Os dois entraram.

Assim que abriram a porta, foram recebidos por uma onda de música, vozes e risadas.

A sala estava cheia.

Algumas pessoas dançavam, outras estavam sentadas nos sofás, algumas conversavam perto da cozinha e havia gente espalhada praticamente por toda a casa.

Uma mesa estava cheia de salgadinhos, sanduíches, doces, refrigerantes e vários pratos que alguém provavelmente tinha passado horas preparando.

Keal olhou em volta.

— Caramba.

Júlia sorriu.

— Gostou?

— É… melhor do que eu esperava.

— Você fala como se estivesse fazendo uma avaliação.

— Estou.

— Idiota.

Ela deu um pequeno empurrão nele.

Keal riu.

Fazia tempo que ele não ria daquele jeito.

A festa estava ficando cada vez mais animada.

Keal já havia comido praticamente tudo que tinha colocado no prato.

— Você vai acabar passando mal — disse Júlia.

— Eu estava com fome.

— Você comeu seis coxinhas.

— Sete.

— Isso não melhora sua situação.

Keal pegou mais um refrigerante.

— Quer?

— Quero.

Ele entregou o copo para ela.

Os dois ficaram encostados perto da parede, observando as pessoas dançarem.

De repente, alguém gritou:

— KEAL!

Ele virou o rosto.

Um rapaz vinha atravessando a sala.

— Rafael.

Rafael abriu os braços.

— Finalmente apareceu!

— Você já está aqui há quanto tempo?

— Desde o começo.

— E ninguém me avisou que você estaria aqui.

— Eu achei que você sabia.

— Não sabia.

Rafael olhou para Júlia.

— Ah, você veio com ela?

Ela levantou uma sobrancelha.

— Hum… Por que não nós deixa a sós Rafael

— Ah, tudo bem, Senhora Julia, não sei como o Keal te aguentam

— Vaza logo seu bobo

— O keal fala bastante de você em Julia.

Keal imediatamente olhou para Rafael.

— Eu falei?

— Falou.

— Quando?

— Várias vezes.

— Mentira.

Rafael começou a rir.

— Você fica muito engraçado tentando fingir que não liga.

Júlia olhou para Keal com um sorriso provocador.

— Então você fala de mim?

— Não dá ouvidos para ele.

— Agora eu quero saber.

— Não tem nada para saber.

Rafael deu um tapinha no ombro de Keal.

— Vou deixar vocês dois conversarem antes que ela tente me matar.

— Boa ideia.

— Até depois!

Rafael saiu rindo.

Júlia ficou olhando para Keal.

— Então…

— Não começa.

— Você fala de mim?

Keal tomou um gole do refrigerante.

— Talvez.

— Talvez?

— Talvez.

Ela sorriu.

— Fofo.

— Não sou fofo.

— É sim.

— Não sou.

— É.

— Júlia.

— Keal.

Os dois começaram a rir.

Mais tarde, Keal estava sentado no quintal com Rafael.

A música ainda podia ser ouvida dentro da casa.

— Cara — disse Rafael —, você precisava sair mais.

— Por quê?

— Porque você sempre fica em casa.

— Eu gosto de ficar em casa.

— Isso não é vida.

Keal deu de ombros.

— Eu gosto da minha vida.

Rafael ficou alguns segundos em silêncio.

— Você parece diferente hoje.

— Diferente como?

— Mais… Vivo.

Keal olhou para ele.

— Que tipo de frase é essa?

— Você entendeu.

Keal sorriu de canto.

— Talvez eu só esteja me divertindo.

— Então continua.

Rafael levantou a lata de refrigerante.

— Pela primeira vez em muito tempo.

Keal encostou a lata na dele.

— Pela primeira vez em muito tempo.

Os dois beberam.

Por alguns minutos, não falaram sobre as explosões.

Não falaram sobre o prefeito.

Não falaram sobre a manifestação.

Nem sobre o medo que dominava Kirigamine-shi.

Naquela noite, eram apenas dois amigos.

E isso era suficiente.

A música mudou.

Algumas pessoas começaram a dançar no meio da sala.

Júlia apareceu na frente de Keal.

— Dança comigo.

— Não.

— Por quê?

— Eu não sei dançar.

— Nem eu.

— Então por que quer dançar?

— Porque é divertido.

Ela segurou a mão dele.

— Vem.

Keal suspirou.

— Tá bom.

Eles foram para o meio da sala.

No começo, Keal estava completamente sem jeito.

Júlia começou a rir.

— Você está muito duro.

— Eu não sei o que estou fazendo!

— Só acompanha a música!

— Fácil falar.

Ela continuou rindo.

Depois de alguns minutos, Keal finalmente relaxou.

Começou a dançar de qualquer jeito.

Júlia acompanhou.

Os dois ficaram ali, rindo e aproveitando a música.

Quando a música acabou, eles se afastaram um pouco.

Júlia olhou para ele.

— Viu? Não foi tão ruim.

— Foi horrível.

— Você está mentindo.

— Talvez.

Ela sorriu.

Os dois ficaram se olhando.

Por alguns segundos, nenhum deles disse nada.

Júlia deu um passo para perto.

Keal não se afastou.

Ela colocou uma mão delicadamente no rosto dele.

— Posso?

Keal ficou vermelho.

— Pode.

Júlia se aproximou.

E os dois se beijaram.

Foi um beijo simples.

Sem pressa.

Sem exagero.

Apenas os dois, no meio daquela festa barulhenta, encontrando por alguns segundos um pouco de paz.

Quando se afastaram, Keal ficou olhando para ela.

— Isso foi…

— Foi.

— Certo.

Júlia começou a rir.

— Você é muito ruim com palavras.

— Eu sei.

Ela encostou a testa na dele.

— Mas eu gostei.

Keal sorriu.

— Eu também.

— EU QUERO OUTRA MÚSICA!

Alguém gritou da sala.

— COLOCA AQUELA!

— NÃO, ESSA É HORRÍVEL!

— VOCÊ QUE É HORRÍVEL!

A casa inteira caiu na risada.

Rafael apareceu novamente.

— Vocês dois sumiram.

Keal olhou para ele.

— Estávamos conversando.

Rafael olhou para Júlia.

Depois para Keal.

Depois novamente para Júlia.

— Aham.

— O quê?

— Nada.

Rafael abriu um sorriso enorme.

— Absolutamente nada.

Júlia começou a rir.

Keal percebeu.

— Você viu?

— Vi o quê?

— Nada.

— Eu não vi nada.

— Rafael.

— Keal.

Os dois ficaram se encarando.

Então Rafael começou a rir.

— Finalmente!

— Cala a boca.

— Finalmente!

— Rafael!

— Vou deixar vocês em paz!

Ele saiu correndo enquanto Keal pegava uma almofada do sofá e jogava nele.

A almofada acertou Rafael nas costas.

— Covarde!

— Corre mais rápido!

A festa continuou.

A maioria das pessoas já estava cansada.

Algumas estavam sentadas nos sofás.

Outras conversavam baixinho.

A música estava mais baixa.

Júlia estava sentada ao lado de Keal.

Ela encostou a cabeça no ombro dele.

— Foi uma boa ideia te chamar.

— Foi.

— Você gostou?

Keal olhou para a sala.

Depois para ela.

— Gostei.

— Mesmo?

— Mesmo.

Ela sorriu.

— Então valeu a pena.

Keal ficou em silêncio.

Pela primeira vez em vários dias, não sentia aquela estranha sensação.

Não estava pensando naquela luz.

Não estava pensando nas explosões.

Não estava pensando na cidade.

Só estava ali.

Com Júlia.

Com seus amigos.

Se divertindo.

Ele fechou os olhos por alguns segundos.

E não viu a luz.

Nada.

Apenas escuridão.

Keal sorriu.

“Finalmente…”

A festa finalmente começou a acabar.

As pessoas começaram a se despedir.

Rafael passou por Keal e deu um abraço rápido.

— Até amanhã.

— Amanhã?

— Escola.

Keal fez uma expressão de cansaço.

— Ah, é verdade.

Rafael riu.

— Boa sorte.

— Para você também.

Júlia se aproximou.

— Vamos?

Keal assentiu.

— Vamos.

Os dois saíram da casa.

O céu ainda estava escuro.

As ruas estavam quase vazias.

Keal abriu a porta do carro para Júlia.

— Cavalheiro.

— Não se acostuma.

— Tarde demais.

Ela entrou.

Keal entrou no lado do motorista.

Antes de ligar o carro, Júlia segurou sua mão.

— Keal.

— Hm?

Ela se aproximou e deu um pequeno beijo em sua bochecha.

— Obrigada pela noite.

Keal sorriu.

— Eu que agra