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Capitulo 3 – Existe Coincidência?

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Capitulo 3 – Existe Coincidência?

[28 de fevereiro de 2017]

O dia começou como todos os outros.

Ou, pelo menos, foi essa a impressão que Keal teve ao abrir os olhos.

O som distante do rádio de Dona Olívia vinha da cozinha, tocando uma daquelas músicas antigas que ela costumava ouvir enquanto preparava o café da manhã. O aroma de pão recém-assado misturado ao café preto se espalhava pela casa, tornando a manhã estranhamente familiar.

Como de costume, Keal demorou alguns minutos para deixar a cama.

O piso gelado fez seus pés arrepiarem enquanto caminhava lentamente até a cozinha.

Dona Olívia mexia uma pequena panela sobre o fogão.

— Bom dia, Keal. — disse ela, lançando-lhe um breve sorriso. — Dormiu bem?

— Mais ou menos.

Keal puxou uma cadeira e sentou-se.

— Vai querer ovo hoje?

— Só o pão tá bom.

Ela não insistiu.

Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes, interrompidos apenas pelo som da colher batendo contra a panela.

Depois do café, Keal pegou a mochila e saiu de casa.

O céu permanecia coberto por nuvens, embora não parecesse que choveria.

O caminho até a escola seguia exatamente como sempre.

Ruas estreitas.

Casas baixas.

Moradores varrendo as calçadas.

Reconhecia praticamente todos os rostos que cruzavam seu caminho.

Mesmo assim, continuava sentindo-se um estranho entre eles.

…

Ao atravessar os portões da escola, encontrou o caos habitual.

Alunos correndo.

Conversas espalhadas pelo pátio.

Risadas que ecoavam pelos corredores.

Seguiu em direção à sala, mas foi interrompido pelo apito agudo vindo da quadra.

Educação Física.

No vestiário, trocou de roupa rapidamente antes de seguir para a quadra coberta.

O professor — ou melhor, o treinador, como fazia questão de ser chamado — já os aguardava.

Sua energia parecia exagerada para aquele horário da manhã.

— Vamos lá, turma! Hoje quero ver todo mundo se mexendo! — gritou, batendo palmas.

Os alunos começaram pelos alongamentos.

Depois vieram pequenos circuitos físicos.

Keal executava cada exercício com naturalidade.

Seu corpo respondia aos movimentos quase sem esforço.

Nem ele sabia explicar por quê.

Talvez fosse justamente por isso que o treinador insistia tanto para que ele entrasse no time de atletismo ou de vôlei.

Quando terminou uma corrida curta com facilidade, ouviu novamente a voz do treinador.

— Keal, você tem talento, cara! Não vai desperdiçar isso, né?

Keal pegou uma garrafa de água antes de responder.

— Vou.

O treinador caiu na risada.

Acreditou que fosse uma brincadeira.

Não era.

Keal realmente não tinha interesse em treinos, competições ou viagens.

Nada daquilo despertava qualquer entusiasmo.

Enquanto aguardava sua vez em outro exercício, um movimento próximo ao muro da escola chamou sua atenção.

Três garotos, que conhecia apenas de vista, escalavam o muro com absoluta naturalidade.

Poucos segundos depois, desapareceram do lado de fora.

Pareciam fazer aquilo com frequência.

Keal observou a cena durante alguns instantes.

Talvez fossem comprar bebida.

Talvez fossem fumar.

Talvez apenas quisessem matar o restante da aula.

Não fazia diferença.

Desviou o olhar e continuou o treino sem comentar nada com o treinador.

…

Quando o sinal anunciou o fim das aulas, trocou novamente de roupa e deixou a escola.

A caminhada até casa foi silenciosa.

Como quase sempre.

No meio do caminho, lembrou-se do bilhete que Dona Olívia deixara sobre a mesa naquela manhã.

“Comprar açúcar, farinha e um pacote de chá.”

Entrou na pequena mercearia da esquina.

O cheiro de madeira antiga misturado aos sacos de arroz empilhados dominava o ambiente.

Pegou tudo o que a avó havia pedido.

Pagou.

Recebeu o troco em moedas.

E voltou para casa carregando uma pequena sacola.

…

Ao entrar, encontrou Dona Olívia sentada no sofá, assistindo televisão.

A voz séria de um repórter preenchia toda a sala.

— Olha isso, Keal… Que loucura.

Ela apontou para a televisão.

A reportagem mostrava imagens de um caixa eletrônico completamente destruído após uma explosão ocorrida no centro da cidade.

O mais estranho era que ninguém sabia exatamente o que havia acontecido.

As câmeras de segurança registraram apenas um clarão intenso, seguido por uma nuvem de fumaça.

Quando a fumaça desapareceu, todo o dinheiro havia sumido.

Mais de 7,9 milhões desapareceram sem deixar qualquer vestígio.

O repórter entrevistava policiais, especialistas e até um físico que tentava justificar o ocorrido como um possível fenômeno elétrico extremamente raro.

Nenhuma explicação parecia convencer.

— Desapareceu… Você acredita? — perguntou Dona Olívia, segurando o controle remoto.

Keal manteve os olhos na televisão por alguns segundos.

— Acredito.

Sua resposta saiu tranquila.

Para ele, quase nada era impossível.

Existiam apenas coisas improváveis.

…

Subiu para o quarto, deixou a mochila sobre a cadeira e sentou-se diante da escrivaninha.

Resolveu primeiro a atividade de matemática.

Rabiscou alguns cálculos.

Terminou rapidamente.

Quando foi fechar a janela, algo fez seu olhar subir em direção ao céu.

Havia uma mancha escura entre as nuvens.

Não parecia um avião.

Também não era um balão.

Muito menos um pássaro.

Apenas permanecia imóvel.

Como se estivesse flutuando muito acima da cidade.

Keal observou por alguns segundos, esperando algum movimento.

Nada aconteceu.

Suspirou.

Fechou a janela.

E desceu para o jantar.

…

Na cozinha, Dona Olívia havia preparado arroz, peixe e salada.

Sentaram-se à mesa.

Comeram praticamente em silêncio.

Depois de algum tempo, ela comentou:

— Você tá quieto hoje.

Keal deu um leve encolher de ombros.

— Sempre tô.

Ela apenas sorriu.

Quando terminaram, Keal lavou a louça antes de voltar ao quarto.

A estranha mancha no céu já havia deixado seus pensamentos.

Talvez tivesse sido apenas uma ilusão.

Talvez não.

Apagou a luz.

Deitou-se.

No escuro, escutava apenas o som distante da televisão ligada na sala.

Mais um dia comum.

Ou, pelo menos…

era isso que parecia.

Depois de se deitar, Keal permaneceu por um longo tempo encarando o teto.

O volume da televisão na sala estava mais baixo. Provavelmente, Dona Olívia já havia adormecido na poltrona, como costumava fazer quase todas as noites.

Ele conseguia imaginar a cena.

O controle remoto caído no chão.

A cabeça levemente inclinada para o lado.

O cobertor fino cobrindo apenas as pernas.

O quarto estava frio.

A luz do poste da rua atravessava as frestas da cortina, desenhando faixas alaranjadas sobre a parede.

Keal permaneceu imóvel, permitindo que os pensamentos viessem e fossem sem tentar controlá-los.

Tentou lembrar exatamente da forma daquela estranha silhueta que havia visto no céu.

Não conseguiu.

Sua memória guardava apenas uma mancha escura, completamente imóvel.

Sem contornos.

Sem detalhes.

Quanto mais tentava reconstruir aquela imagem, mais ela parecia escapar de sua mente, como fumaça sendo levada pelo vento.

Pouco depois, acabou adormecendo.

…

Despertou no meio da madrugada com o vento batendo contra a janela.

Lá fora, a rua permanecia silenciosa, interrompida apenas pelo latido distante de um cachorro.

Sentou-se na cama e esfregou o rosto lentamente.

Permaneceu alguns segundos parado, esperando que o próprio corpo decidisse se voltaria a dormir.

Por fim, levantou-se e caminhou até a cozinha para beber água.

Ao passar pela sala, encontrou Dona Olívia adormecida na poltrona.

Assim que percebeu sua presença, ela abriu os olhos lentamente.

— Tá acordado a essa hora, menino? — perguntou, ainda com a voz pesada de sono.

— Fui beber água. O vento tava batendo na janela.

Ela ajeitou o cobertor sobre as pernas e o observou por alguns instantes.

Havia preocupação em seu olhar.

E também curiosidade.

— Você anda meio… distraído ultimamente. Tá acontecendo alguma coisa?

— Não.

A resposta saiu rápida demais.

Dona Olívia apenas murmurou um pequeno “hum” e desviou os olhos para a televisão já desligada.

— Só não fica guardando tudo pra você.

Keal não respondeu.

Pegou um copo de água, voltou para o quarto e deitou-se novamente.

Dessa vez, o sono veio pesado.

…

[1 de março de 2017]

Na manhã seguinte, acordou com a claridade atingindo diretamente seu rosto.

Na noite anterior, havia esquecido de fechar completamente a cortina.

Da cozinha vinha o som familiar de Dona Olívia abrindo armários e preparando o café da manhã.

O aroma do café recém-passado espalhava-se por toda a casa.

Keal permaneceu sentado na cama durante alguns instantes, apenas ouvindo os passos da avó.

Havia algo reconfortante naquela rotina.

Era tão previsível que quase transmitia segurança.

— Café tá na mesa! — gritou Dona Olívia.

Keal levantou-se, lavou o rosto e seguiu até a cozinha.

Ela já estava sentada, tomando café enquanto o velho rádio tocava uma música lenta.

— Dormiu bem? — perguntou.

— Uhum.

— Sonhou com alguma coisa?

— Não que eu lembre.

Ela apenas assentiu.

Os dois permaneceram em silêncio enquanto Keal passava manteiga no pão.

A música do rádio e o leve som dos talheres eram as únicas coisas quebrando o silêncio da casa.

…

O dia parecia estranho.

Não chovia.

Mesmo assim, o céu possuía um tom de cinza diferente, mais pesado do que o habitual.

Keal sentiu uma leve pressão nos ouvidos, semelhante à sensação de estar em um lugar muito alto.

Não chegava a ser incômodo.

Era apenas… incomum.

— Vai se atrasar. — lembrou Dona Olívia.

Keal pegou a mochila e saiu.

No caminho até a escola, percebeu que o vento soprava com mais força que de costume.

Folhas secas giravam pelas ruas formando pequenos redemoinhos.

Algumas pessoas levantavam os olhos para o céu por alguns segundos.

Logo depois, voltavam às próprias rotinas, como se nada estivesse acontecendo.

…

A escola permanecia exatamente como sempre.

Barulhenta.

Desorganizada.

Cheia de estudantes correndo pelos corredores.

Keal entrou na sala, cumprimentou o professor com um discreto aceno de cabeça e ocupou seu lugar no fundo da classe.

As aulas passaram lentamente.

Cada minuto parecia durar mais do que deveria.

A caneta parecia pesada em sua mão.

As vozes ao redor soavam abafadas.

Talvez fosse apenas impressão.

Ou talvez não.

Quando chegou o intervalo, decidiu não ir nem para a biblioteca nem para o pátio.

Permaneceu encostado na parede do corredor, apenas observando o fluxo constante de estudantes.

As conversas passavam diante dele como o vento.

Falavam sobre séries.

Provas.

Namoros.

Assuntos que simplesmente não despertavam seu interesse.

Em determinado momento, um clarão refletiu rapidamente na janela do corredor.

Keal virou a cabeça imediatamente.

Do lado de fora, porém, havia apenas as nuvens carregadas.

Nada mais.

— Tá tudo bem? — perguntou um garoto que passava pelo corredor.

— Tá.

O estudante deu de ombros e continuou caminhando.

…

Ao voltar para casa, encontrou Dona Olívia novamente diante da televisão.

A reportagem era a mesma do dia anterior.

Os apresentadores informavam que casos semelhantes ao da explosão do caixa eletrônico haviam acontecido em cidades vizinhas.

Sempre seguindo o mesmo padrão.

Um clarão.

Depois…

Nada.

Nenhum rastro.

Nenhuma explicação.

— Você viu isso, Keal? — perguntou Dona Olívia, sem desviar os olhos da tela.

— Vi.

— Estranho, né?

— Muito.

Ela desligou a televisão lentamente.

Depois voltou o olhar para o neto.

Permaneceu alguns segundos em silêncio antes de falar.

— Só… se cuida, tá?

— Tá.

Keal subiu para o quarto.

Dessa vez, porém, não conseguiu simplesmente afastar aqueles pensamentos.

A estranha figura no céu.

A explosão do caixa eletrônico.

O clarão refletido na janela da escola.

Havia algo ligando todos aqueles acontecimentos.

Ele podia sentir isso.

E, por algum motivo, uma parte dele queria descobrir a verdade.

A outra…

Preferia continuar acreditando que tudo não passava de coincidência.