Capitulo 5 – Se inclua
Capitulo 5 – Se inclua
[15 de março de 2017]
Era uma quarta-feira nublada.
Aquelas em que o vento carregava um cheiro de chuva que parecia nunca chegar.
Keal já havia tomado uma decisão.
Depois das aulas, iria ao clube de leitura, como havia prometido na semana anterior.
Parte dele ainda pensava que poderia inventar uma desculpa.
Não era uma obrigação.
Ninguém cobraria sua presença.
Mesmo assim, quebrar aquela pequena promessa lhe causava um incômodo difícil de explicar.
…
Durante a última aula, sua atenção se perdeu nos detalhes da sala.
O som das canetas batendo sobre as carteiras.
As risadas abafadas de quem tentava não chamar atenção.
O ranger da porta sempre que o professor entrava ou saía.
Talvez estivesse ansioso.
Ou talvez sua mente simplesmente funcionasse assim quando algo estava prestes a tirá-lo da rotina.
Quando o sinal finalmente tocou, Keal guardou o material sem pressa.
Cada movimento parecia prolongar o momento antes de dar um pequeno salto para fora da própria zona de conforto.
Seguiu até a biblioteca.
O ambiente estava diferente.
As mesas haviam sido organizadas em círculo.
Sobre uma das estantes havia alguns pacotes de biscoitos e garrafas de chá para os participantes.
Assim que entrou, foi recebido por um sorriso.
Luana, a garota de óculos que organizava o clube, acenou para ele.
— Que bom que você veio, Keal. Senta aqui.
Ele ocupou o lugar indicado, tomando cuidado até com a própria postura.
Era curioso como, em situações assim, prestava atenção em detalhes que normalmente ignorava.
O jeito de sentar.
Para onde olhar.
Onde colocar as mãos.
Como se fosse possível esconder que ainda se sentia fora do próprio território.
Pouco a pouco, outros estudantes foram chegando.
Entre eles estava Gustavo.
Assim que viu Keal, abriu um sorriso e fez um discreto aceno.
— E aí, cara. Nem imaginava que você curtia esse tipo de coisa.
Keal soltou uma pequena risada.
— Eu também não… até semana passada.
…
A reunião começou com uma breve apresentação de cada participante.
Alguns falaram sobre seus livros favoritos.
Outros citaram autores que admiravam.
Quando chegou sua vez, Keal permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu com sinceridade.
— Eu gosto de ler porque… é como viver outras vidas sem sair do lugar.
Algumas pessoas assentiram em concordância.
Nenhum comentário parecia necessário.
Pela primeira vez naquele grupo, Keal teve a sensação de que não precisava explicar mais do que aquilo.
…
Depois das apresentações, Luana distribuiu um conto para todos.
A história narrava a vida de um homem preso a uma rotina tão repetitiva que começou a colecionar sons raros apenas para sentir que ainda estava vivo.
Durante boa parte da discussão, Keal apenas ouviu.
Mas sua mente conectava cada página à própria vida.
Quando a conversa começou a perder força, resolveu falar.
— Acho que ele não colecionava os sons… ele colecionava a sensação de sair do automático.
Luana voltou imediatamente o olhar para ele.
— Foi exatamente isso que eu pensei quando li.
Keal apenas assentiu.
Não soube explicar por quê.
Mas ouvir alguém enxergar o texto da mesma forma que ele provocou uma satisfação silenciosa.
…
Quando a reunião terminou, o céu já estava escurecendo.
Keal imaginou que seguiria diretamente para casa.
Antes que pudesse sair da biblioteca, porém, Gustavo o chamou.
— A gente vai numa lanchonete aqui perto. Quer ir também?
Ele pensou em recusar.
Era o mais fácil.
O mais confortável.
Mas, depois de alguns segundos, respondeu:
— Tá bom.
…
A lanchonete era pequena.
O cheiro de óleo quente se misturava ao som constante da chapa preparando hambúrgueres e salgados.
O grupo ocupou uma mesa no canto.
As conversas surgiam naturalmente.
Falavam sobre livros.
Jogos.
Filmes.
Professores.
Keal continuava falando pouco.
Mas já não permanecia completamente calado.
Respondia quando perguntavam.
Comentava quando tinha vontade.
E, aos poucos, percebia que conversar podia ser mais simples do que sempre imaginara.
Enquanto terminavam o lanche, Gustavo o cutucou de leve.
— Posso te falar uma coisa?
Keal levantou os olhos.
— Pode.
— Você é diferente.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Diferente como?
Gustavo deu de ombros.
— Sei lá… parece que você observa tudo antes de falar. Como se fosse mais velho por dentro.
Keal permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Não encontrou uma resposta.
Apenas sorriu discretamente e mudou de assunto.
Mesmo assim…
Aquelas palavras continuaram ecoando dentro dele.
…
Na volta para casa, caminhou sozinho pelas ruas já iluminadas pelos postes.
O vento continuava frio.
As folhas secas atravessavam a calçada lentamente.
Enquanto seguia seu caminho, percebeu que alguma coisa realmente estava mudando.
Não era apenas o fato de frequentar novos lugares.
Nem de conversar com mais pessoas.
Era algo mais profundo.
A sensação de que podia se aproximar dos outros sem precisar abandonar quem era.
Talvez fosse isso que significasse crescer.
Não deixar de ser si mesmo.
Mas aprender que sempre existe espaço para alguém novo entrar na própria vida.
Quando Keal chegou em casa, encontrou Dona Olívia sentada no sofá, assistindo a um programa antigo na televisão.
Assim que o viu entrar, ela abaixou um pouco o volume e sorriu.
— E aí, como foi?
Keal tirou a mochila dos ombros antes de responder.
— Foi bom.
Dona Olívia o observou por alguns segundos.
Havia algo diferente em sua expressão.
— Você tá com um olhar diferente hoje.
Keal franziu levemente a testa.
— Diferente?
— É… parece mais leve.
Ele pensou por um instante.
— Talvez esteja… não sei.
Ela apenas sorriu, satisfeita, e voltou sua atenção para a televisão.
Keal seguiu para o quarto, mas continuou pensando naquelas palavras.
…
Deitado na cama, encarando o teto, percebeu que aquelas pequenas mudanças estavam construindo algo que jamais imaginara.
Aceitar um convite.
Permanecer depois da aula.
Participar de uma conversa.
Cada uma dessas escolhas era como um novo fio sendo entrelaçado ao seu redor.
Uma rede invisível.
Durante muito tempo, vivera à margem dela.
Agora, começava a perceber que talvez também existisse um lugar para ele no centro.
A mudança ainda era lenta.
Mas era verdadeira.
E, pela primeira vez, Keal queria descobrir até onde ela poderia levá-lo.
…
[16 de março 2017]
Na manhã seguinte, o céu estava completamente limpo.
Azul demais.
Quase exagerado.
Normalmente, Keal gostava de dias assim.
Naquela manhã, porém, a claridade apenas tornava mais evidente o peso do sono em seus olhos.
Seguiu pelo caminho habitual até a escola.
As calçadas rachadas.
As casas desbotadas pelo tempo.
O ronco de uma motocicleta atravessando a rua.
Tudo permanecia igual.
Mas alguma coisa havia mudado em sua forma de enxergar.
Percebeu o padeiro fechando a porta da padaria.
Uma senhora regando as plantas diante do portão.
Um garoto mais novo correndo com a mochila nas costas para não chegar atrasado.
Talvez fosse isso que significasse mudar.
Não apenas viver experiências diferentes.
Mas aprender a observar, de outra maneira, aquilo que sempre estivera diante de seus olhos.
…
Na primeira aula, permaneceu quase todo o tempo em silêncio.
O assunto era funções logarítmicas e exigia atenção.
Mesmo assim, conversou algumas vezes com Rafael, o colega sentado ao seu lado.
Rafael era do tipo que conseguia puxar assunto com qualquer pessoa.
— Você viu o treino do time ontem? — perguntou.
Keal balançou a cabeça.
— Não. Mas ouvi o barulho. Parecia que estavam correndo uma maratona.
Rafael riu.
— Também não foi tudo isso. Mas você devia aparecer um dia pra assistir.
Keal não prometeu nada.
Limitou-se a responder:
— Talvez.
Era uma resposta simples.
Mas, semanas antes, teria dito um “não” sem sequer pensar.
Pequenas mudanças.
…
Quando chegou o intervalo, pegou um livro na mochila e caminhou até a biblioteca.
Assim que entrou, foi recebido pela bibliotecária.
— Bom dia, Keal. Vai levar outro livro?
Ele sorriu discretamente.
— Não. Hoje só vou ler um pouco por aqui.
Sentou-se na mesa próxima à janela.
Pouco depois, Daniel, um estudante que conhecia apenas de vista, aproximou-se carregando algumas folhas impressas.
— Posso sentar aqui?
— Claro.
Daniel começou a revisar o conteúdo de História para uma prova.
De tempos em tempos, fazia alguma pergunta.
Pedia uma opinião.
Queria confirmar uma resposta.
Não era exatamente uma conversa.
Era uma troca simples.
Mesmo assim, Keal percebeu que respondia com naturalidade.
Sem desconforto.
Quando o sinal anunciou o fim do intervalo, Daniel guardou as folhas e sorriu.
— Valeu pela ajuda, cara. Nem todo mundo teria paciência.
Enquanto voltava para a sala, Keal continuou pensando naquela frase.
Talvez sua presença nunca tivesse sido tão invisível quanto sempre acreditara.
…
Depois das aulas, decidiu não voltar imediatamente para casa.
Passou em um pequeno armazém para comprar pão e leite para Dona Olívia.
A atendente o reconheceu assim que ele chegou ao caixa.
— E aí, como tá a escola?
— Indo. — respondeu Keal, com um leve sorriso.
Ela terminou de registrar as compras.
— Último ano, né? Daqui a pouco você tá voando por aí.
Keal apenas concordou com a cabeça.
Não sabia se ela falava sobre liberdade…
Ou sobre as responsabilidades que viriam depois da escola.
Talvez fossem as duas coisas.
…
Ao chegar em casa, encontrou Dona Olívia cuidando das plantas no quintal.
Ela ajeitava um vaso enquanto conversava baixinho com as flores, como fazia desde que ele era criança.
Sem desviar os olhos delas, comentou:
— Tá atrasado hoje.
— Fiquei lendo na biblioteca. Depois passei no mercado.
Ela apenas assentiu.
Parecia guardar algum pensamento para mais tarde.
…
Durante o jantar, enquanto dividiam uma refeição simples, Dona Olívia voltou ao assunto.
— Você tá diferente.
Keal ergueu os olhos.
— Diferente como?
Ela sorriu antes de responder.
— Mais aberto.
Fez uma pequena pausa.
— Parece que você tá vivendo um pouco mais fora da própria cabeça.
Keal permaneceu alguns segundos em silêncio, mexendo distraidamente no prato.
Depois respondeu:
— Talvez seja só uma fase.
Dona Olívia sorriu novamente.
— Espero que não seja.
Ela não explicou o motivo.
Também não precisava.
Keal compreendeu o que ela queria dizer.
…
Mais tarde, já deitado em seu quarto, voltou a encarar o teto.
Era curioso perceber que quase ninguém enxergava o processo de uma mudança.
As pessoas notavam apenas o resultado.
Por dentro, ele continuava sendo o mesmo garoto.
Continuava gostando do silêncio.
Da rotina.
Da própria companhia.
Mas agora existia algo novo.
Uma vontade discreta de experimentar pequenas mudanças.
Nada radical.
Nada que o obrigasse a abandonar quem era.
Apenas desvios leves.
Como escolher uma rua diferente no caminho para casa apenas para descobrir o que existia além da próxima esquina.
E, naquele momento, isso lhe pareceu suficiente.
Pela primeira vez em muito tempo…
Ele não sentia pressa para chegar a lugar nenhum.
[17 de março 2017]
Na manhã seguinte, Keal acordou antes mesmo do despertador tocar. Não por obrigação, mas por um impulso estranho de aproveitar alguns minutos a mais de silêncio. O quarto estava levemente frio, e a luz da manhã atravessava a fresta da cortina, desenhando uma faixa dourada na parede. Ele permaneceu deitado por alguns instantes, pensando se valia a pena levantar tão cedo. No fim, decidiu sair da cama.
Enquanto se arrumava, percebeu que escolhia a roupa com um pouco mais de cuidado. Não era nada especial — apenas uma camisa cinza de que gostava e um jeans que vestia com conforto. Talvez fosse um toque de vaidade, talvez apenas uma busca por bem-estar. De qualquer forma, a escolha já não era tão automática quanto antes.
No caminho até a escola, os sons da rua pareciam mais nítidos. O latido distante de um cachorro, os passos ritmados de alguém caminhando atrás dele e a música abafada que escapava de um carro estacionado compunham a manhã. Keal ainda não sentia vontade de iniciar conversas, mas percebia o mundo ao redor com muito mais atenção.
A primeira aula transcorreu sem acontecimentos marcantes. A segunda também. Na terceira, porém, a professora de literatura pediu que cada aluno lesse um trecho do texto em voz alta. Antes, Keal teria feito a leitura rapidamente, apenas para terminar logo. Dessa vez, leu com calma, respeitando as pausas e dando peso às palavras. Não fazia aquilo para impressionar ninguém; simplesmente sentiu vontade de ler daquela maneira.
Quando terminou, a professora assentiu com um sorriso discreto.
— Boa entonação, Keal.
Alguns colegas também voltaram os olhos para ele por alguns instantes. Não era nada extraordinário, mas Keal percebeu. Era curioso como atitudes pequenas podiam mudar a forma como as pessoas enxergavam alguém, mesmo que apenas por alguns segundos.
No intervalo, em vez de seguir diretamente para a biblioteca, permaneceu alguns minutos na área aberta da escola. Foi então que Rafael, o colega que sempre tentava puxar conversa, apareceu.
— Você tá sumindo menos ultimamente.
Keal olhou para ele enquanto girava a garrafa de água entre as mãos.
— É?
— É. Antes parecia que você queria ser um fantasma. Agora… sei lá… parece que você topa conversar.
Ele pensou por um momento antes de responder.
— Talvez eu só esteja cansado de ficar sempre no mesmo lugar.
Rafael riu.
— É um bom motivo.
Depois da breve conversa, Keal seguiu para a biblioteca. O lugar continuava sendo seu refúgio favorito, mas agora não representava apenas uma fuga do barulho. Ele também gostava, de fato, da tranquilidade que encontrava ali.
Quando as aulas terminaram, passou em uma papelaria para comprar algumas canetas. Enquanto escolhia o que precisava, encontrou Clara, uma colega de sala que raramente falava com ele.
— Oi, Keal. — disse ela, ainda um pouco hesitante.
— Oi.
— Você sempre vai pra biblioteca, né?
— Sempre que posso.
Clara observou alguns cadernos na prateleira antes de continuar.
— Queria começar a ir também… mas acho que ia me distrair fácil.
Keal deu um leve sorriso.
— Se você encontrar o livro certo, não distrai.
Ela sorriu de volta, satisfeita com a resposta. A conversa foi breve, mas, enquanto deixava a papelaria com as canetas na mochila, Keal percebeu que, algum tempo atrás, provavelmente teria apenas acenado e seguido seu caminho.
Ao chegar em casa, encontrou Dona Olívia na cozinha, mexendo uma panela sobre o fogão.
— Comprou as canetas? — perguntou ela, sem se virar.
— Comprei.
— Você demorou.
— Encontrei a Clara na papelaria. Fiquei conversando um pouco.
Ela interrompeu o que fazia por um instante e olhou para o neto por cima do ombro, abrindo um sorriso discreto.
— Olha só… você anda social.
Keal deu de ombros.
— Nem tanto.
— Pra mim, já é muito.
Ela voltou a mexer a panela, mas era evidente a satisfação em sua voz.
Mais tarde, já em seu quarto, Keal ficou refletindo sobre o comentário de Rafael, dizendo que ele estava “sumindo menos”. Talvez fosse exatamente isso. Não porque tivesse deixado de gostar do silêncio ou da própria companhia, mas porque estava permitindo que pequenas oportunidades acontecessem, em vez de evitá-las.
Ele ainda apreciava a rotina, a tranquilidade e o espaço que sempre preservou para si. A diferença era que, agora, parecia possível manter tudo isso e, ao mesmo tempo, abrir pequenas janelas para o mundo.
E, por enquanto, aquelas pequenas janelas eram mais do que suficientes.