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Capitulo 6 – Fazer amigos é bom?

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Capitulo 6 – Fazer amigos é bom?

[Segunda – 20 de março 2017]

O dia começou com o som da chuva fraca batendo sobre o telhado. Não era uma tempestade, apenas um gotejar constante, como se o mundo tivesse decidido falar mais baixo naquela manhã.

Keal levantou-se com calma. Não havia pressa — pelo menos não para ele. Enquanto se vestia, percebeu que o céu cinzento parecia engolir as cores do bairro, deixando tudo em tons apagados. Pegou o guarda-chuva antes de sair, embora não soubesse se a chuva continuaria até chegar à escola.

No caminho, as ruas estavam quase vazias. A maioria das pessoas caminhava apressada, tentando escapar da chuva. Keal, porém, manteve o passo tranquilo de sempre. A pressa dos outros nunca foi a dele.

Na primeira aula, a professora de matemática explicava funções quadráticas. Keal acompanhava a matéria sem dificuldade. O conteúdo já fazia sentido para ele. O que realmente chamou sua atenção foi a conversa baixa de dois colegas no fundo da sala. Eles comentavam sobre um evento que aconteceria no bairro nos próximos dias: uma feira cultural, com apresentações e pequenas competições.

Algum tempo atrás, aquele tipo de conversa teria passado despercebido. Desta vez, porém, Keal percebeu que estava prestando atenção por mais tempo do que gostaria de admitir.

Durante o intervalo, foi para a biblioteca, como de costume. Escolheu uma mesa próxima à janela, de onde podia observar a chuva, que agora caía com mais intensidade. O som das gotas contra o vidro criava um ritmo quase hipnótico. Já estava concentrado na leitura quando alguém puxou a cadeira ao seu lado sem pedir licença.

Era Rafael.

— Você já ouviu falar da feira cultural? — perguntou, largando a mochila no chão.

Keal ergueu os olhos do livro.

— Ouvi alguns comentários.

— Eu e uns caras vamos participar de um quiz de conhecimentos gerais. Tá faltando mais uma pessoa.

— Não estou interessado. — respondeu prontamente, como teria feito em qualquer outro momento.

Rafael soltou uma risada.

— Você nem deixou eu explicar direito.

— Acho que isso não muda muita coisa. Não faz o meu tipo.

Keal fechou o livro, marcando a página com o dedo.

— E por que eu?

Rafael apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— Porque você entende dessas coisas. E… — fez uma breve pausa antes de continuar — porque acho que já está na hora de você tentar algo diferente.

Keal desviou o olhar para a janela. Observou uma gota de chuva escorrer lentamente pelo vidro, formando um caminho tortuoso até desaparecer na parte inferior da janela.

Ele podia recusar, como sempre fazia.

Mas, pela primeira vez, uma pequena parte dele queria descobrir até onde aquele novo caminho poderia levá-lo.)

— Que horas é? — perguntou Keal.

O sorriso de Rafael surgiu imediatamente.

— Amanhã, à tarde. Depois da aula.

— Tá.

A resposta saiu com naturalidade, como se fosse uma decisão simples. Mas, por dentro, Keal sabia que não era.

O restante do dia seguiu em um ritmo diferente. A rotina continuava a mesma, mas agora havia algo ocupando um pequeno espaço em sua mente: a expectativa pelo que aconteceria no dia seguinte.

Naquela noite, Dona Olívia percebeu a mudança.

— Você tá com um jeito diferente hoje.

— É? — perguntou Keal, enquanto mexia distraidamente no prato de arroz.

— É. Parece… inquieto.

Ele deu de ombros.

— Não é nada demais. Só vou participar de um negócio depois da aula amanhã.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Negócio?

— Um quiz.

O sorriso dela apareceu quase no mesmo instante.

— Olha só… você se metendo em coisas. Gostei.

— É só por curiosidade.

— Não importa o motivo. É bom se permitir.

Ela voltou a comer, mas Keal percebeu, pelo brilho discreto em seu olhar, que a avó estava satisfeita com a resposta.

[21 de março 2017]

No dia seguinte, o céu amanheceu limpo. O ar carregava aquele cheiro característico de terra molhada que permanece depois da chuva. Keal caminhou até a escola com uma sensação diferente. Não era exatamente ansiedade, mas havia uma energia incomum acompanhando seus passos.

As aulas passaram sem grandes acontecimentos e, ao final do período, encontrou Rafael e outros dois garotos próximos ao portão. Eles o receberam como se já fizesse parte da equipe havia muito tempo.

A feira cultural estava cheia de vida. Barracas de comida ocupavam parte da praça, músicas ecoavam dos alto-falantes e crianças corriam entre os estandes. O quiz seria realizado em uma área coberta, onde cadeiras haviam sido organizadas para o público e mesas identificavam cada equipe participante.

Keal sentou-se ao lado dos colegas e observou o movimento ao redor.

Pouco antes do início da competição, percebeu algo inesperado: estava confortável. Estranhamente confortável.

As perguntas começaram.

Algumas eram simples, outras exigiam mais raciocínio. Keal respondeu naturalmente questões sobre literatura, história e até astronomia. Não fazia esforço para se destacar; apenas dizia o que sabia quando era sua vez.

No fim, a equipe terminou em segundo lugar.

Ninguém pareceu realmente decepcionado. Rafael e os outros comentavam as perguntas, riam dos erros e discutiam quais respostas quase acertaram. Enquanto os observava, Keal percebeu que o resultado era apenas um detalhe.

O que realmente importava era outra coisa.

Na caminhada de volta para casa, sozinho, relembrou tudo o que havia acontecido naquele dia. Não tinha sido um grande evento. Nada extraordinário mudara em sua vida.

Ainda assim, havia dado mais um passo para fora da linha reta que sempre seguira.

E talvez fosse exatamente assim que as mudanças aconteciam: não por meio de grandes acontecimentos, mas através de pequenos desvios que, aos poucos, levavam a um caminho completamente diferente.

[21 de março 2017]

No dia seguinte à feira cultural, Keal voltou para a escola em seu ritmo habitual. Não pensava muito no evento em si, mas alguma coisa daquela experiência ainda permanecia com ele. Talvez fosse a sensação de ter feito algo diferente. Talvez apenas o fato de ter passado mais tempo ao lado de outras pessoas.

Chegou cedo e, como de costume, foi para a biblioteca antes da primeira aula. O lugar ainda estava quase vazio. Apenas a bibliotecária organizava alguns livros, enquanto um garoto desenhava silenciosamente em um caderno no canto da sala.

Keal sentou-se na mesa de sempre e retirou um livro da mochila. Antes mesmo de abri-lo, ouviu uma voz atrás de si.

— Você mandou bem ontem.

Era Júlia, colega de sua turma. Eles quase nunca conversavam. Sempre eram educados um com o outro, mas a relação nunca passara disso.

— Foi sorte. — respondeu Keal, sem levantar os olhos do livro.

Júlia puxou a cadeira e sentou-se à sua frente, apoiando um dos cotovelos sobre a mesa.

— Não foi, não. Eu vi você respondendo às perguntas sem nem pensar.

— É… — disse ele, dando um leve de ombros. — Mas a gente não ganhou.

Ela sorriu com tranquilidade.

— Nem tudo é sobre ganhar. Às vezes é só sobre estar lá.

Keal permaneceu olhando para ela por alguns instantes.

Era estranho ouvir aquilo. Afinal, fora exatamente esse o pensamento que tivera durante a caminhada de volta para casa no dia anterior.

— Você sempre participa dessas coisas? — perguntou.

— Não. Mas eu tento.

Ela inclinou levemente a cabeça antes de continuar.

— Acho que você também podia tentar mais vezes.

Keal refletiu por um instante.

— Talvez.

Dessa vez, a resposta foi sincera.

Pouco depois, o sinal anunciou o início das aulas. Os dois seguiram para a sala sem trocar muitas outras palavras, mas a frase de Júlia continuou ecoando na mente de Keal.

“Tentar mais vezes.”

Era uma ideia simples, mas parecia carregar um peso muito maior do que deveria.

Durante o intervalo, Keal permaneceu no pátio. Não porque tivesse planejado isso, mas porque Rafael praticamente o arrastou para perto dele e de outros dois colegas.

Sentaram-se em um banco e passaram o tempo conversando sobre assuntos sem importância: filmes, músicas e reclamações sobre alguns professores.

Keal falou pouco, como sempre.

O curioso era que ninguém parecia esperar que ele falasse mais do que queria. Em alguns momentos, os colegas o incluíam naturalmente na conversa; em outros, apenas respeitavam seu silêncio.

Era um tipo de convivência que ele nunca havia experimentado.

Não havia cobrança.

Não havia pressão para parecer diferente.

Ele podia simplesmente ser quem era.

Quando as aulas terminaram, Keal iniciou o caminho de volta para casa. O céu começava a ganhar tons alaranjados, misturando-se às nuvens que ainda cobriam parte do horizonte.

Enquanto caminhava sozinho, refletia sobre o dia.

Nada extraordinário havia acontecido.

Mesmo assim, tinha a sensação de que alguma coisa continuava mudando, pouco a pouco.

Ele não estava se tornando outra pessoa.

Continuava sendo reservado, silencioso e acostumado ao próprio ritmo.

A diferença era que, agora, parecia disposto a abrir pequenas janelas para o mundo ao seu redor.

Ao chegar em casa, encontrou Dona Olívia na cozinha, preparando o jantar.

— Como foi o dia? — perguntou ela, sem desviar a atenção da panela.

Keal pousou a mochila perto da porta.

— Foi normal.

Ela sorriu discretamente e continuou cozinhando.

Enquanto seguia para o quarto, Keal pensou que talvez, algum dia, conseguisse explicar à avó que, para ele, até mesmo um dia “normal” podia carregar mudanças que ninguém mais conseguia enxergar.

O dia começou como qualquer outro. Keal caminhava pelo mesmo trajeto até a escola, carregando o peso habitual da mochila nas costas enquanto o vento frio da manhã batia em seu rosto. O mundo parecia seguir no piloto automático, e ele seguia junto.

Chegou cedo, como de costume. A maioria dos alunos ainda nem havia passado pelo portão. Pensou em ir para a biblioteca, mas mudou de direção no último instante. Nem ele soube explicar o motivo. Talvez estivesse cansado de repetir sempre o mesmo caminho. Talvez apenas quisesse caminhar um pouco mais antes de se refugiar entre as estantes.

Atravessou o pátio ainda vazio e encostou-se em um dos muros laterais da escola. Dali podia observar a rua, onde carros e pedestres seguiam seus ritmos tranquilos. O céu permanecia cinzento, iluminado por uma claridade suave, como se o dia ainda não tivesse decidido que humor teria.

Foi então que ouviu passos se aproximando.

— Fugindo de alguma coisa? — perguntou uma voz conhecida.

Era Júlia.

— Não. Só… mudando o caminho. — respondeu Keal.

Ela se encostou ao seu lado e também voltou o olhar para a rua.

— Às vezes é bom mudar.

Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes. Ao longe, buzinas e vozes se misturavam ao movimento da cidade. Era um daqueles silêncios que não precisavam ser preenchidos.

Depois de algum tempo, Júlia voltou a falar.

— Ontem fiquei pensando no que você disse. Sobre não participar muito das coisas.

Keal franziu levemente a testa.

— Eu disse isso?

Ela sorriu de canto.

— Mais ou menos. Você respondeu “talvez”. Mas foi o suficiente.

Ele respirou fundo antes de responder.

— Não é que eu não queira… É que, na maioria das vezes, eu simplesmente não vejo sentido.

Júlia cruzou os braços.

— Eu entendo. Mas, às vezes, o sentido aparece depois. A gente faz alguma coisa primeiro… e só mais tarde percebe que valeu a pena.

A frase ficou presa na mente de Keal, como uma pedra lançada em um lago silencioso.

A conversa continuou naturalmente.

Falaram sobre livros, professores que se prolongavam demais nas explicações e até sobre a comida da cantina, que ambos concordavam estar cada vez pior.

Não era uma conversa profunda.

Ainda assim, Keal percebeu que respondia às perguntas quase sem precisar pensar. As palavras saíam com mais facilidade do que antes.

Em determinado momento, Júlia comentou sobre um autor de quem gostava muito.

Quando Keal admitiu que nunca havia lido nenhuma de suas obras, ela o encarou com falsa indignação.

— Sério? Você lê tanto e nunca leu ele?

— Sério.

— Então pronto. Vou te emprestar um livro.

— Não precisa…

— Vai ser só um, prometo.

Keal conhecia bem aquele tipo de promessa. Sabia que dificilmente conseguiria recusar.

Mesmo assim, apenas sorriu de leve.

As aulas começaram e o restante do dia transcorreu normalmente.

Durante o intervalo, pensou em voltar para a biblioteca, mas acabou permanecendo no pátio. Pouco depois, Rafael apareceu acompanhado de mais dois colegas.

— Vem sentar com a gente.

Keal aceitou.

As conversas giravam em torno de jogos, do campeonato de futebol da escola e de um filme que estrearia no fim de semana.

Ele não participou de todos os assuntos, mas, sempre que conhecia o tema, dizia alguma coisa.

Em alguns momentos, acabou rindo junto com os outros.

E percebeu, com certa surpresa, que aquilo não era cansativo como imaginava.

Quando deixou a escola, iniciou o caminho de volta para casa refletindo sobre tudo o que havia acontecido.

Um ano antes, provavelmente teria passado o dia inteiro sozinho, evitando qualquer conversa que não fosse estritamente necessária.

Agora, sem perceber, deixava algumas portas abertas.

Pequenas.

Mas abertas.

Ao chegar em casa, encontrou Dona Olívia na cozinha, cortando legumes para o jantar.

— Como foi o dia? — perguntou ela.

Keal colocou a mochila ao lado da porta.

— Foi… tranquilo.

Ela ergueu os olhos por um instante.

— Tranquilo bom ou tranquilo chato?

Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.

— Tranquilo bom.

E percebeu, no mesmo instante, que estava dizendo a verdade.

Dona Olívia sorriu satisfeita e voltou ao preparo da refeição.

Keal subiu para o quarto e, antes de começar a fazer as tarefas da escola, aproximou-se da janela.

O céu já escurecia lentamente, enquanto a rua ficava cada vez mais silenciosa.

Lembrou-se das conversas, dos sorrisos e das pequenas mudanças que haviam preenchido seus últimos dias.

E percebeu que, talvez, estivesse começando a gostar da ideia de mudar o caminho de vez em quando.