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Capítulo 7 — O Primeiro Presságio

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Capítulo 7 — O Primeiro Presságio

22 de março de 2017

O vento daquela manhã parecia mais frio do que de costume. Não era um frio que incomodava; era o tipo de ar que limpava os pulmões e espantava o sono antes mesmo do primeiro bocejo.

Keal caminhava para a escola com as mãos enterradas nos bolsos do casaco. As calçadas rachadas, os postes gastos e as vitrines das pequenas lojas eram exatamente as mesmas de sempre. A diferença estava nele. Pela primeira vez em muito tempo, não sentia necessidade de atravessar aquelas ruas como quem fugia de alguma coisa.

Ao passar pelo portão da escola, percebeu que o pátio estava mais movimentado do que o normal. O burburinho de dezenas de conversas se misturava ao rangido das bicicletas sendo estacionadas e ao apito distante do professor de educação física. A excursão do mês seguinte dominava boa parte das conversas.

Ele não deu muita importância.

Até notar alguém que nunca havia visto.

A garota estava sentada em um banco perto da quadra. Um livro descansava aberto em suas mãos, mas seus olhos permaneciam perdidos em algum ponto além das páginas. O cabelo castanho-escuro caía sobre parte do rosto, balançando de leve com o vento. Não chamava atenção porque fazia questão disso; chamava porque parecia estranhamente alheia ao barulho ao redor, como uma nota baixa que continua audível mesmo quando a música aumenta.

Antes que Keal decidisse se deveria falar com ela, uma voz surgiu atrás dele.

— Você viu?

Júlia apontou discretamente com o queixo.

— A nova?

— É. Chegou essa semana. Dizem que veio transferida de outra cidade.

— Hm.

Júlia sorriu de lado e lhe deu um leve empurrão no ombro.

— Vai lá falar com ela.

— Por quê?

— Porque você tá encarando.

— Não tô.

— Tá, sim.

Keal bufou, fingindo ignorá-la.

Mesmo assim, quando percebeu, já estava andando em direção ao banco.

Parou diante da garota.

— Posso sentar?

Ela ergueu os olhos devagar, como se tivesse voltado de um pensamento distante.

— Pode.

A voz era neutra. Não distante. Apenas cautelosa.

Keal sentou, deixando espaço suficiente entre os dois.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

— Qual é o livro?

Ela virou a capa para ele.

— Cartas a um Jovem Poeta.

— Nunca li.

— É curto.

Ela passou o polegar pela borda da capa.

— Mas fica na cabeça por bastante tempo.

— Você gosta de ler?

— Gosto de música mais do que de livros.

Ela sorriu de leve.

— Mas livro ajuda a organizar a bagunça daqui.

Deu um toque na própria têmpora.

Keal riu discretamente.

— Acho que entendo isso.

O silêncio voltou, mas não pesava. De vez em quando, um grupo passava correndo pelo pátio, alguém gritava perto da quadra, uma bola quicava no cimento. Curiosamente, os dois sempre acabavam olhando para o mesmo lugar ao mesmo tempo.

— Sou Keal.

— Norabe.

O nome permaneceu na mente dele por um instante. Diferente. Suave.

Pouco depois, o sinal interrompeu a conversa.

Cada um seguiu para sua sala.

Descobriram que estavam no mesmo ano, mas em turmas diferentes.

Durante o intervalo, porém, voltaram a se encontrar por acaso no corredor.

— E aí? Já conseguiu se perder?

Ela cruzou os braços.

— Ainda não.

Fez uma pausa dramática.

— Mas acredito no meu potencial.

Keal riu.

— Então deixa eu evitar essa tragédia.

— Aceito.

Foi a primeira vez que Norabe sorriu de verdade.

O sorriso era discreto, mas transformava completamente sua expressão.

Durante o restante do intervalo, caminharam pelos corredores.

Keal mostrou a biblioteca, o laboratório de ciências, a quadra e, por último, a cantina.

Assim que chegaram perto da porta, Norabe franziu o nariz.

— Tem cheiro de almoço de internato.

— Você estudou em internato?

— Não.

Ela deu de ombros.

— Mas imagino que tenha exatamente esse cheiro.

Os dois riram.

Enquanto andavam, Keal descobriu que ela vinha de uma cidade bem menor.

Tudo ali parecia grande demais.

Barulhento demais.

Cheio demais.

— E você? — perguntou ela ao passarem novamente pela entrada da quadra. — Sempre estudou aqui?

— Desde o primeiro ano.

— E gosta?

Keal pensou por um instante.

— Não é ruim.

Olhou ao redor.

— Mas também nunca achei incrível.

Norabe acompanhou o movimento dos alunos atravessando o pátio.

— Acho que acontece isso com quase tudo.

— O quê?

— A gente para de olhar.

Ela continuou caminhando.

— Aí chama de normal.

A frase ficou com Keal pelo resto do dia.

Na saída, voltaram a se encontrar sem combinar.

Caminharam juntos até o cruzamento.

Norabe contou sobre a antiga escola, sobre os poucos amigos que havia deixado para trás e sobre ainda não saber se queria começar tudo de novo.

— Engraçado ouvir isso de alguém que tá andando comigo.

Ela sorriu de canto.

— Talvez eu tenha quebrado a regra cedo demais.

Pararam no cruzamento.

Cada um seguiria para um lado.

— Até amanhã.

— Até.

Keal continuou andando.

O vento da manhã já tinha ido embora.

Mesmo assim, alguma coisa ainda parecia diferente

E, pela primeira vez em muito tempo, ele teve a impressão de que um pequeno passo podia mudar mais do que parecia.

Ao chegar em casa, Keal encontrou a avó regando as plantas da varanda.

As gotas escorriam pelas folhas enquanto o cheiro de terra molhada subia com a brisa do fim da tarde.

— Veio com cara de quem pensou demais hoje.

Ele soltou uma pequena risada.

— Pode ser.

— E isso é bom ou ruim?

— Ainda não decidi.

Ela assentiu, como quem entendia sem precisar insistir.

Keal entrou em casa, deixou a mochila perto da porta e caminhou até o quarto. Antes de fechar a janela, viu seu reflexo no vidro.

Havia um sorriso ali.

Discreto.

Mas verdadeiro.

Subiu, largou a mochila no canto do quarto e caiu sobre a cama, encarando o teto.

“Aquela garota…”

Norabe apareceu em sua mente quase sem pedir licença.

“Ela parece comigo em alguma coisa.”

Franziu a testa.

“É estranho… Parece que já conheço ela.”

A ideia pareceu absurda logo depois.

Virou de lado.

Fechou os olhos.

Mais tarde

O relógio da cozinha marcava pouco antes das sete.

O aroma do missô quente preenchia a casa enquanto Dona Olívia mexia a panela com calma. Na sala, a televisão permanecia ligada no jornal local, mais como companhia do que por interesse.

— Keal, querido! Vai tomar banho! O jantar fica pronto em cinco minutos!

Nenhuma resposta.

Ela esperou alguns segundos.

— Esse menino…

Apagou o fogo do fogão e subiu as escadas.

A porta do quarto estava entreaberta.

Keal ainda dormia vestido com o uniforme escolar, completamente torto sobre a cama.

Dona Olívia sorriu antes de balançar seu omro.

— Acorda, meu filho.

Ele despertou assustado.

— Ah… Oi, vó.

Passou a mão no rosto.

— Só tirei um cochilo.

— Percebi.

Ela riu.

— Agora vai tomar banho.

— Já tô indo.

Poucos minutos depois, desceu com o cabelo ainda úmido.

Sentou-se à mesa.

Dona Olívia serviu o arroz, o peixe grelhado e a sopa quente.

Observou o neto por alguns segundos antes de comentar:

— Você anda diferente.

— Diferente como?

— Mais leve.

Ela sorriu.

— Faz tempo que não te vejo assim.

Keal baixou um pouco os olhos.

— Acho que algumas coisas mudaram.

— Ainda bem.

Por um instante, o único som da casa foi o choque dos hashis contra os pratos.

Então a televisão mudou de tom.

Um sinal agudo interrompeu a programação.

A apresentadora surgiu visivelmente tensa.

— Interrompemos nossa programação para uma notícia de última hora.

Imagens tremidas apareceram na tela.

Uma coluna escura de fumaça subia entre prédios do centro.

Sirenes ecoavam ao fundo.

— Uma explosão atingiu o centro de Sakuragawa há poucos minutos. Diversos estabelecimentos desabaram parcialmente, há dezenas de feridos e as autoridades ainda investigam a causa do incidente. A área afetada ultrapassa quatrocentos metros de raio.

Outra imagem mostrou bombeiros correndo entre os escombros.

Alguém gritava atrás da câmera.

— As primeiras hipóteses apontam para um possível ataque terrorista.

O silêncio tomou conta da cozinha.

Keal continuou olhando para a televisão.

— Ultimamente isso tá acontecendo direto.

Desviou os olhos para a avó.

— Essa já é a terceira explosão desde o começo do ano.

Dona Olívia assentiu lentamente.

— Nunca vi Kirigamine-shi desse jeito.

Suspirou.

— Essa cidade sempre foi tranquila.

— Tá começando a parecer cidade grande.

— E isso não é elogio.

A reportagem continuou mostrando fumaça, ambulâncias e fitas de isolamento.

Nenhum dos dois comentou mais nada.

Naquela noite, Keal foi dormir tentando deixar aquelas imagens para trás.

Conseguiu.

Pelo menos por algumas horas.

23 de março de 2017

BOOOOM!

A casa inteira sacudiu.

O vidro da janela vibrou.

Um porta-retrato caiu da estante.

Keal despertou sem entender o que acontecia.

O corpo reagiu antes da mente.

Se jogou no chão e rastejou para debaixo da cama.

O coração martelava no peito.

“Outra explosão?”

Por alguns segundos, só ouviu o eco distante da detonação e latidos espalhados pela vizinhança.

Então saiu dali e correu pelo corredor.

— Vó!

Empurrou a porta do quarto.

— Tá tudo bem?

Dona Olívia também estava escondida debaixo da cama.

Ele a ajudou a levantar.

Ela respirava rápido.

— Meu Deus…

Levou uma mão ao peito.

— Seis horas da manhã…

— Fica aqui.

Keal já caminhava em direção às escadas.

— Vou ver o que aconteceu.

Desceu quase correndo.

Abriu a porta da frente.

O ar da manhã carregava um cheiro forte de poeira.

Ao atravessar o pequeno jardim, percebeu que quase todos os vizinhos estavam do lado de fora.

Ninguém falava alto.

Todos olhavam para o mesmo ponto.

Keal seguiu seus olhares.

Uma enorme cortina de fumaça subia no horizonte, tingindo parte do céu de cinza.

Parecia perto demais.

— Olha no que essa cidade virou…

Um senhor segurava uma caneca de café do outro lado da rua.

— Anos de paz.

Agora isso.

Outro vizinho respondeu:

— Dizem que é terrorismo.

— Ou dizem só o que querem que a gente acredite.

As conversas começaram a se espalhar pela rua como uma corrente.

Medo.

Suspeita.

Raiva.

Keal permaneceu alguns segundos observando a fumaça.

Depois voltou para dentro.

Não havia nada que pudesse fazer.

Depois do banho, vestiu novamente o uniforme.

Na cozinha, Dona Olívia preparava o café da manhã.

O cheiro do pão tostando enchia o ambiente.

— Vai sair sem comer?

Ela ergueu uma sobrancelha.

Keal terminou de arrumar o cabelo diante do espelho da sala.

— Compro alguma coisa no recreio.

— Vai acabar passando mal.

— Prometo que como lá.

Pegou a mochila.

— Tchau, vó!

Ela apenas sorriu enquanto o observava sair.

— Esses meninos…

O caminho até a escola estava diferente.

Viaturas da polícia cruzavam as ruas com as sirenes ligadas.

Bombeiros seguiam na mesma direção da fumaça.

Mais pessoas do que o normal caminhavam pelas calçadas, comentando o ocorrido.

Duas mulheres passaram ao lado dele.

— Essa já é a terceira… ou quarta explosão?

— Perdi a conta.

A outra balançou a cabeça.

— Se fosse terrorismo, já deviam ter prendido alguém.

— Ou já prenderam.

Ela olhou para os lados antes de completar:

— E não querem admitir.

Keal seguiu andando.

Não sabia qual hipótese era pior.

Ao chegar ao portão, encontrou o guarda prestes a fechá-lo.

O homem esperou que ele passasse.

— Bom dia.

— Obrigado!

— Vai lá.

— Boa aula.

Keal entrou na sala poucos segundos antes de o professor começar.

— Com licença.

Respirava um pouco ofegante.

— O trânsito ficou parado por causa da explosão.

O professor apenas assentiu.

— Hoje tá complicado pra todo mundo.

Apontou para uma carteira.

— Pode sentar.

As aulas transcorreram normalmente.

Ou pelo menos tentaram parecer normais.

Mesmo durante o recreio, o assunto continuava sendo o mesmo.

Explosões.

Fumaça.

Boatos.

Quando o último sinal tocou, Keal voltou para casa.

No caminho, ainda havia agentes recolhendo escombros e isolando algumas ruas.

Ao entrar em casa, encontrou apenas silêncio.

Na geladeira, um bilhete preso por um ímã chamava atenção.

Estou na reunião do bairro. Volto por volta das sete. Se quiser lanchar, tem pão, salame, queijo e suco na geladeira. Com carinho, Vó.

Keal leu o recado.

Sorriu discretamente.

Amassou o papel, jogou no lixo e subiu para o quarto.

Não estava com fome.

Só queria deitar um pouco.