Capítulo 8 – Dias hostis
Capítulo 8 – Dias hostis
Ao se deitar, o Keal só pegou no sono rapidamente, ele estava bastante cansado mesmo, ele fechou os olhos e dormiu como uma pedra.
Já com a Dona Olívia, ela estava na reunião do bairro, na casa do Senhor Doan, um velinho coreano que morava a bastante tempo na cidade, e era tratado como uma espécie de líder dali.
Naquela reunião, quase todas as famílias do bairro estavam reunidas para ter uma conversa, e era sobre as explosões que estavam tendo nos últimos dias, e era algo muito preocupante. E eles sentiam que o governo estava escondendo alguma coisa
— Boa noite pessoal, como todos já me conhecem, meu nome é Doan, sou morador de Kirigamine-shi a alguns anos, e descidi chamar vocês para essas reunião de última hora por que queria saber como estão se sentindo com essas explosões que está acontecendo nos últimos dias e meses
Um homem de óculos e terno levantou a mão, ele era um jovem homem que havia chegado recentemente a cidade e era recém casado, ele era um trabalhador comum de escritório que foi pra ali para ter uma vida de paz.
— Sou o Hiomi. Eu e minha esposa nos mudamos recentemente para cá.
O homem ajeitou os óculos enquanto falava. Apesar de tentar manter uma postura tranquila, sua expressão denunciava o desconforto.
— Viemos para Kirigamine-shi justamente porque queríamos um lugar mais tranquilo. Trabalho em um escritório no centro da cidade, então achei que seria uma boa ideia morar em um bairro mais afastado… mas essas explosões estão começando a me preocupar.
Algumas pessoas assentiram.
Doan cruzou as mãos sobre a bengala que segurava e respirou fundo.
— Entendo. E acredito que muitos aqui estejam sentindo o mesmo.
Uma mulher sentada perto da janela levantou a voz.
— Não é só preocupação, senhor Doan. É medo.
A sala ficou em silêncio.
Ela apertou as mãos sobre o colo.
— Na semana passada, uma das explosões aconteceu tão perto daqui que as janelas da minha casa tremeram. Meus filhos estavam dormindo. Eles acordaram chorando.
— Na minha casa também aconteceu — disse outro morador. — Meu filho pensou que fosse um terremoto.
— E alguém do governo veio explicar alguma coisa? — perguntou um homem no fundo da sala.
Ninguém respondeu.
O homem soltou uma risada curta, sem humor.
— É exatamente esse o problema.
Doan abaixou um pouco a cabeça.
— Eu também tentei entrar em contato com a prefeitura.
— E o que disseram? — perguntou Hiomi.
— Que estavam investigando.
— Só isso?
— Só isso.
Alguns moradores começaram a reclamar ao mesmo tempo.
— Sempre dizem a mesma coisa!
— “Estamos investigando.”
— “Não há motivo para preocupação.”
— “A situação está sob controle.”
— Mas não está! — gritou uma senhora.
A discussão começou a tomar conta da sala.
Doan bateu levemente a ponta da bengala no chão.
— Calma! Um de cada vez.
Aos poucos, os moradores se calaram.
— Não estamos aqui para brigar uns com os outros — continuou ele. — Estamos aqui porque todos temos as mesmas perguntas.
Ele levantou os olhos.
— Por que essas explosões estão acontecendo?
Silêncio.
— Por que elas estão acontecendo cada vez mais perto das áreas residenciais?
Outro silêncio.
— E por que o governo não nos diz nada?
Dessa vez, ninguém conseguiu responder.
Hiomi ajeitou os óculos novamente.
— Eu gostaria de saber uma coisa.
Todos olharam para ele.
— Se realmente não existe nada de grave acontecendo… por que eles não simplesmente explicam?
Alguns moradores trocaram olhares.
— Exatamente — disse uma mulher.
— Se é algum acidente industrial, que nos digam.
— Se é um problema militar, que nos digam.
— Se existe algum risco para a população, nós precisamos saber!
— Eles estão escondendo alguma coisa — afirmou um homem.
A frase caiu no meio da sala como uma pedra.
Doan não respondeu imediatamente.
— Não podemos afirmar isso com certeza.
— Então explique outra coisa — retrucou o homem. — Por que colocaram barreiras na estrada perto da área das explosões?
Doan levantou as sobrancelhas.
— Barreiras?
— Sim. Vi quando estava voltando do trabalho ontem. A polícia estava bloqueando uma estrada.
— Eu também vi — disse outro morador.
— E eu ouvi dizer que colocaram soldados lá.
— Soldados?
A conversa voltou a crescer.
Hiomi franziu a testa.
— Então não são apenas explosões comuns…
— Ninguém sabe o que são — respondeu uma senhora.
— Esse é justamente o problema.
Doan permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Ele conhecia aquele bairro havia anos. Conhecia aquelas famílias. Sabia quem tinha filhos pequenos, quem trabalhava até tarde, quem costumava caminhar pelas ruas à noite.
E sabia que, naquele momento, todos estavam assustados.
— Acho que precisamos fazer alguma coisa — disse Hiomi.
Alguns moradores olharam para ele.
— O quê?
Hiomi respirou fundo.
— Uma manifestação.
A sala ficou quieta.
— Uma manifestação? — repetiu alguém.
— Sim. Não precisamos fazer nada violento. Podemos nos reunir em frente à prefeitura e exigir respostas.
— Você acha que eles vão nos ouvir?
— Talvez não.
Hiomi deu de ombros.
— Mas se ficarmos em casa esperando, eles também não vão falar nada.
Um senhor sentado próximo à porta assentiu.
— Ele tem razão.
— Podemos levar cartazes — disse uma mulher.
— E pedir uma explicação oficial.
— Precisamos exigir que alguém da prefeitura apareça.
— E que expliquem o que está acontecendo perto do bairro.
A ideia começou a ganhar força.
Até aqueles que inicialmente pareciam contra começaram a discutir como poderiam participar.
— Podemos fazer no sábado.
— Melhor durante a tarde.
— Tem que ser pacífico.
— Claro.
— E precisamos avisar os outros bairros.
Doan observava tudo em silêncio.
Aquela reunião havia começado como uma conversa entre vizinhos preocupados.
Agora, parecia estar se transformando em algo maior.
Ele finalmente se levantou.
— Certo.
Todos ficaram quietos.
— Se é isso que a maioria quer, podemos organizar uma manifestação pacífica.
Algumas pessoas assentiram.
— Mas quero deixar uma coisa clara — continuou Doan. — Não vamos espalhar boatos. Não vamos acusar ninguém sem provas. Só queremos respostas.
— Concordo — disse Hiomi.
— Então está decidido.
Doan olhou para cada pessoa naquela sala.
— No sábado, iremos até a prefeitura.
Alguns moradores bateram palmas.
Outros apenas assentiram, ainda preocupados.
Do lado de fora, o vento frio passava pelas ruas quase vazias de Kirigamine-shi.
Por alguns segundos, tudo parecia normal.
Mas, muito longe dali, uma luz alaranjada iluminou o céu.
Um estrondo distante ecoou pela cidade.
Todos dentro da casa pararam.
As janelas tremeram levemente.
Ninguém disse uma palavra.
Doan olhou para a janela.
Hiomi ficou imóvel.
Então, alguém perguntou em voz baixa:
— Foi outra explosão?
Ninguém respondeu.
E, naquela noite, pela primeira vez, a sensação de que algo estava errado deixou de ser apenas uma suspeita.
Quando a reunião terminou, Dona Olívia se despediu dos vizinhos e voltou para casa tranquilamente.
Já eram por volta das sete e meia da noite.
As ruas do bairro estavam relativamente quietas. Algumas casas tinham as luzes acesas, crianças brincavam dentro de casa e, de vez em quando, era possível ouvir o som de algum carro passando pela rua.
Apesar da aparência tranquila, Dona Olívia não conseguia tirar a reunião da cabeça.
As explosões.
As perguntas sem respostas.
E, principalmente, o silêncio do governo.
Ela abriu o portão de casa e entrou.
— Keal? Cheguei.
Nenhuma resposta.
Olívia caminhou até a cozinha.
Quando entrou, encontrou uma cena inesperada.
Keal estava diante do fogão, preparando o jantar.
O cabelo estava completamente bagunçado, os olhos semicerrados e ele parecia estar funcionando apenas pela força do hábito.
— Você está cozinhando?
Keal virou lentamente o rosto.
— Hm…
Ele piscou algumas vezes.
— Ah. Você chegou.
— Você acabou de acordar?
— Acho que sim.
Olívia olhou para o relógio.
— E foi direto fazer o jantar?
— Eu estava com fome.
Ela soltou uma pequena risada.
— Pelo menos isso.
Keal voltou a mexer a comida na panela.
Dona Olívia colocou a bolsa sobre uma cadeira e se sentou.
Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio.
Até que ela falou:
— A reunião foi sobre as explosões.
Keal continuou mexendo a comida.
— Imaginei.
— Estão acontecendo muitas.
— Eu sei.
— E estão acontecendo perto demais daqui.
Keal finalmente olhou para ela.
— Alguma coisa foi destruída?
— Não dessa vez. Mas algumas pessoas tiveram as janelas tremendo. Teve gente que acordou assustada durante a madrugada.
Ela suspirou.
— O pior é que ninguém sabe o que está acontecendo.
Keal ficou em silêncio.
— O governo não explicou nada?
— Nada concreto. Só dizem que estão investigando.
— Então eles sabem de alguma coisa.
— Talvez.
Dona Olívia apoiou os braços sobre a mesa.
— É justamente isso que está deixando todo mundo preocupado. Se fosse apenas algum acidente, poderiam explicar. Se fosse alguma obra, algum problema industrial… qualquer coisa. Mas não existe aviso, não existe explicação e, quando acontece uma explosão, simplesmente mandam as pessoas ficarem longe.
Keal desligou o fogão.
— Isso não é normal.
Olívia olhou para ele.
— Também acho que não.
Keal colocou a comida nos pratos.
— A cidade inteira está estranha.
— Estranha como?
Ele pensou por alguns segundos.
— Não sei explicar.
Pegou o prato e se sentou.
— Só parece que alguma coisa está errada.
Dona Olívia ficou observando o neto.
— Tome cuidado quando sair de casa.
Keal começou a comer.
— Eu tomo.
— Estou falando sério, Keal.
Ele levantou os olhos.
A expressão de Olívia estava mais preocupada do que de costume.
— Se ouvir alguma explosão, não vá olhar. Não tente descobrir o que aconteceu. Apenas fique longe.
Keal assentiu.
— Tá bom.
Os dois continuaram jantando.
Por alguns minutos, a conversa voltou para assuntos comuns. Dona Olívia perguntou sobre a escola, e Keal respondeu de maneira curta, ainda claramente sonolento.
Depois de terminar sua comida, ele levantou.
— Vou fazer minha atividade.
— Você acabou de acordar e já vai estudar?
— Tenho que entregar amanhã.
— Não vá dormir tarde.
— Tá.
Keal pegou o caderno e foi para o quarto.
Dona Olívia ficou na cozinha, lavando os pratos.
Enquanto fazia isso, olhou pela janela.
A rua continuava tranquila.
Nenhum carro.
Nenhuma pessoa.
Nenhum barulho.
Mas aquela tranquilidade já não parecia tão reconfortante quanto antes.
No quarto, Keal abriu o caderno sobre a mesa.
Pegou o lápis.
Começou a responder as questões.
Uma.
Duas.
Três.
Seus olhos começaram a pesar.
Ele piscou.
Continuou escrevendo.
Mais algumas questões.
A cabeça ficou cada vez mais pesada.
— Só mais uma…
Ele apoiou o braço sobre a mesa.
O lápis escapou lentamente de seus dedos.
Keal tentou levantar a cabeça, mas não conseguiu.
Poucos segundos depois, estava dormindo profundamente sobre o caderno.
Do lado de fora, a cidade permanecia silenciosa.
Pelo menos por enquanto.
[24 de março de 2017]
Keal acordou ainda com a cabeça pesada.
Por alguns segundos, ficou sentado na cadeira, tentando entender onde estava.
Então olhou para a mesa.
O caderno continuava aberto diante dele, com algumas respostas pela metade.
— Dormi aqui…
Ele esfregou os olhos e se levantou.
Curiosamente, havia acordado mais cedo que o normal. Talvez por ter dormido cedo demais na noite anterior, ou talvez seu corpo simplesmente tivesse decidido acordá-lo antes do despertador.
Keal foi até o banheiro e começou sua rotina de todas as manhãs.
Tomou banho, escovou os dentes e voltou para o quarto para se arrumar.
Pouco depois, já estava vestido e com a mochila pronta.
Quando desceu as escadas, sentiu o cheiro de café fresco vindo da cozinha.
Dona Olívia estava preparando o café da manhã.
— Bom dia — disse Keal.
— Bom dia, meu filho. Dormiu bem?
— Mais ou menos.
— Você dormiu sentado ontem.
Keal ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu estava cansado.
Olívia soltou uma risada.
— Pelo menos terminou a atividade?
— Terminei.
Ele se sentou à mesa e começou a comer.
Enquanto tomavam café, Dona Olívia começou a falar sobre a feira do fim de semana.
— Sábado eu vou precisar sair mais cedo. Acho que vou levar mais flores dessa vez.
— Vai vender tudo?
— Espero que sim. Domingo costuma ser melhor.
— Então vai ficar dois dias?
— Sim. Se você quiser passar lá, pode me ajudar.
Keal continuou comendo.
— Talvez.
— “Talvez” significa que você vai?
— Não sei.
— Você é muito difícil.
Ele apenas deu de ombros.
Depois de terminar o café, Keal pegou a mochila.
— Estou indo.
— Boa aula.
— Até mais.
— Até.
Keal saiu de casa.
O caminho até a escola era o mesmo de sempre.
As mesmas ruas.
As mesmas casas.
As mesmas pessoas indo trabalhar.
O mesmo trajeto que ele fazia quase todos os dias.
Por alguns minutos, tudo parecia completamente normal.
Mesmo depois das explosões dos últimos dias.
Quando chegou à escola, encontrou seus colegas e seguiu para a primeira aula.
As horas passaram rapidamente.
Naquele dia, uma das aulas seria no laboratório de química, junto com outra turma.
Keal entrou no laboratório e escolheu um lugar.
Enquanto o professor organizava os materiais, ele olhou ao redor.
Foi então que a viu novamente.
Norabe.
A garota nova.
Ela estava do outro lado da sala, conversando com algumas colegas.
Por um instante, os olhos dos dois se encontraram.
Keal desviou o olhar.
Alguns segundos depois, olhou novamente.
Norabe também estava olhando para ele.
Foi apenas um breve momento.
Nenhuma palavra.
Nenhum sorriso.
Nada.
Era quase como se os dois nunca tivessem conversado antes.
Norabe voltou sua atenção para a aula.
Keal fez o mesmo.
O professor começou a explicar o experimento, e a aula seguiu normalmente.
Depois do laboratório, vieram outras aulas.
Matemática.
Literatura.
História.
Quando finalmente terminou o último período, Keal estava guardando seus materiais quando um dos colegas se aproximou.
— Keal, vai fazer alguma coisa hoje?
— Não.
— Então vem com a gente.
Keal olhou para ele.
— Pra onde?
— Aozora.
— O bairro nobre?
— É.
Outro colega apareceu atrás dele.
— Vamos passar a tarde na praia. Tá um calor desgraçado.
— Você não quer ir?
Keal pensou por alguns segundos.
Não tinha nada planejado.
— Tá.
— Então fechou!
O grupo saiu da escola junto.
Aozora ficava em uma das regiões mais valorizadas de Kirigamine-shi. As ruas eram mais organizadas, os prédios mais modernos e as casas maiores.
Mas o que realmente interessava aos garotos naquele dia era a praia.
Quando chegaram, o grupo rapidamente se espalhou pela areia.
Alguns começaram a conversar.
Outros foram direto para o mar.
— Quem chegar por último paga o refrigerante!
— Você roubou!
— Corre, idiota!
Keal ficou parado por alguns segundos, observando os amigos correrem.
Então tirou os sapatos.
— Acho que vou também.
Ele deixou a mochila perto dos outros e entrou no mar.
A água estava fria.
— Caramba…
Mesmo assim, continuou.
Pouco depois, já estava nadando junto dos colegas.
A tarde passou entre brincadeiras, conversas e risadas.
Alguns ficaram na areia contando histórias.
Outros jogavam bola.
De vez em quando, alguém entrava no mar e começava uma competição improvisada para ver quem conseguia nadar mais longe.
Keal participou de algumas delas.
Não porque fosse particularmente competitivo.
Só porque, naquele momento, estava se divertindo.
Por algumas horas, ele esqueceu completamente das explosões.
Esqueceu a escola.
Esqueceu os problemas.
Era apenas mais uma tarde comum com seus colegas.
O sol começou a desaparecer no horizonte.
O céu ficou alaranjado.
Depois, lentamente, escureceu.
— Que horas são? — perguntou alguém.
Um dos garotos olhou o celular.
— Quase oito.
— O quê?!
— Já?
— A gente ficou esse tempo todo aqui?
Keal olhou para o céu.
— Parece que sim.
Eles começaram a juntar suas coisas.
Ainda conversavam e riam enquanto deixavam a praia.
Para Keal, aquele havia sido apenas um dia comum.
Um dia simples.
Um daqueles dias que parecem não ter importância alguma.
Mas que, no futuro, talvez ele lembrasse com saudade.
Porque, naquela noite, ainda existia a sensação de que sua vida era normal.
E ele ainda não sabia por quanto tempo isso continuaria sendo verdade.