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Capítulo 9 – Oque está acontecendo?

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Capítulo 9 – Oque está acontecendo?

Keal já estava começando a sentir o peso do dia.

O vento vindo do mar continuava agradável, mas o cansaço fazia seus olhos pesarem um pouco. Ele olhou para o céu e percebeu que já estava ficando tarde.

— Acho melhor eu ir.

Ele se levantou tranquilamente, pegou sua mochila e colocou-a nas costas.

Por alguns segundos, ficou parado olhando para o mar.

As ondas continuavam indo e voltando, indiferentes ao tempo. Algumas pessoas ainda caminhavam pela areia, enquanto outras já começavam a deixar a praia.

Keal soltou um pequeno suspiro.

— Foi bom.

Não tinha acontecido nada extraordinário.

E, justamente por isso, tinha sido bom.

Ele começou a caminhar de volta para casa.

A cidade à noite tinha uma aparência completamente diferente.

As lojas estavam começando a fechar, os restaurantes ficavam mais movimentados e os postes iluminavam as calçadas. Carros passavam pelas avenidas, enquanto algumas pessoas conversavam pelas ruas.

Keal caminhava sem pressa, com as mãos nos bolsos.

Então olhou para cima.

— As ruas daqui são tão iluminadas…

Era verdade.

Havia postes praticamente em todos os lugares. Alguns prédios também tinham suas próprias luzes acesas, deixando a cidade muito mais clara do que ele esperava.

Keal continuou andando.

Mas, depois de alguns minutos, começou a perceber algumas coisas estranhas.

Uma rua estava parcialmente bloqueada.

Havia uma fita amarela presa entre dois postes.

Mais à frente, um carro da polícia estava estacionado.

Keal diminuiu o passo.

— Hm?

Ele olhou rapidamente para o local.

Duas pessoas conversavam perto da entrada de um prédio.

— Dizem que foi um vazamento de gás…

— Vazamento de gás? Mas não tinha cheiro nenhum.

— Sei lá. Foi o que falaram.

Keal continuou andando.

Não era problema dele.

Pelo menos era o que pensava.

Algumas quadras depois, percebeu outra coisa.

Uma das vitrines de uma loja estava quebrada.

O vidro havia sido coberto provisoriamente com uma placa de madeira.

Um funcionário estava do lado de fora, conversando com alguém pelo telefone.

— Eu já disse, não foi um acidente…

Keal olhou por alguns segundos.

Depois continuou seu caminho.

A cidade parecia normal.

Mas alguma coisa estava diferente.

Ele não sabia dizer o quê.

Talvez fosse apenas impressão.

Talvez fosse só porque estava prestando mais atenção.

Depois de alguns minutos, finalmente chegou ao bairro onde morava.

As ruas eram mais silenciosas.

As casas tinham poucas luzes acesas e o movimento havia diminuído bastante.

Keal reconheceu sua casa logo de longe.

Uma luz estava acesa na janela.

— Ela ainda está acordada…

Ele abriu o portão e entrou.

Ao abrir a porta, sentiu imediatamente o cheiro de comida.

— Cheguei.

— Keal?

A voz de Dona Olívia veio da cozinha.

— Sou eu.

Ele tirou os sapatos e deixou a mochila perto do sofá.

Dona Olívia apareceu no corredor, segurando um pano de prato.

Ela olhou para o neto de cima a baixo.

— Demorou.

— Fui à praia.

— Eu sei.

Keal levantou uma sobrancelha.

— Como sabe?

— Você acha que eu não conheço você?

Ela voltou para a cozinha.

— E eu também sei que quando você fica olhando para o mar, perde a noção do tempo.

Keal ficou alguns segundos em silêncio.

— Faz sentido.

Dona Olívia riu baixinho.

— Vem comer. Fiz comida.

— Já vou.

Keal foi até a cozinha e se sentou.

Dona Olívia colocou o prato na frente dele.

— Está cansado?

— Um pouco.

— Então coma direito.

Keal começou a comer.

Por alguns minutos, os dois ficaram em silêncio.

Era um silêncio confortável.

Dona Olívia não precisava perguntar tudo.

E Keal não precisava falar tudo.

Depois de algum tempo, ele comentou:

— A cidade estava meio estranha hoje.

Dona Olívia parou por um instante.

— Estranha como?

— Vi uma rua bloqueada. Polícia. Um prédio com problemas… e uma loja quebrada.

Ela ficou séria por alguns segundos.

— Você viu alguma coisa acontecendo?

— Não.

— Então não se preocupe.

Keal continuou comendo.

— Eu não estava preocupado.

Dona Olívia olhou para ele.

— Você sempre fala isso quando está preocupado.

Keal ficou em silêncio.

— Talvez.

Ela colocou uma mão sobre a mesa.

— Só tome cuidado quando estiver andando sozinho à noite, está bem?

— Está.

— Promete?

Keal levantou os olhos para ela.

— Prometo.

Dona Olívia sorriu.

— Ótimo.

Keal terminou de comer e se levantou.

— Vou tomar banho.

— E depois dormir.

— Eu sei.

— E nada de ficar acordado até tarde.

— Eu sei.

— E não esquece de—

— Dona Olívia.

Ela parou.

Keal olhou para ela com uma expressão cansada.

— Eu sei.

Ela começou a rir.

— Está bem, está bem.

Keal subiu as escadas.

Quando chegou ao quarto, deixou a mochila no chão e se jogou na cama.

Ficou olhando para o teto.

O barulho distante da cidade chegava pela janela.

Carros.

Vozes.

Uma sirene ao longe.

Keal fechou os olhos.

Aquela noite deveria ter sido apenas uma noite comum.

Um passeio na praia.

Uma caminhada de volta para casa.

Uma conversa com sua avó.

Nada demais.

Mas, em algum lugar da cidade, algo havia acontecido.

E Keal ainda não sabia.

Naquela noite, enquanto ele dormia tranquilamente, as luzes da cidade continuavam acesas.

E algumas delas iluminavam lugares que ninguém deveria estar vendo.

Algumas horas haviam se passado.

A cidade estava silenciosa.

Na televisão da sala, o noticiário continuava passando enquanto Dona Olívia organizava algumas coisas antes de dormir.

Keal já estava no quarto.

Até que uma notícia chamou sua atenção.

— Interrompemos nossa programação para um pronunciamento oficial do governo.

Dona Olívia parou.

Ela olhou para a televisão.

A imagem mudou.

Um homem de terno apareceu diante de vários microfones.

Atrás dele havia algumas bandeiras e representantes de diferentes setores do governo.

O homem ajeitou os papéis sobre o púlpito.

— Boa noite.

Sua expressão era séria.

— Nas últimas horas, alguns incidentes foram registrados em diferentes pontos da cidade.

Dona Olívia franziu a testa.

— Incidentes?

O homem continuou:

— Gostaríamos de tranquilizar a população de que a situação está sob controle.

Ele fez uma pequena pausa.

— Pedimos que os cidadãos permaneçam em suas residências durante a madrugada e evitem áreas isoladas ou que estejam temporariamente interditadas.

Dona Olívia ficou olhando para a televisão.

— Mas que história é essa?

O pronunciamento continuou.

— As autoridades responsáveis já estão investigando os acontecimentos. Por questões de segurança, algumas informações não poderão ser divulgadas neste momento.

A frase fez Dona Olívia estreitar os olhos.

— “Algumas informações”…

O homem respirou fundo.

— Também recomendamos que a população não compartilhe imagens ou informações não verificadas nas redes sociais, a fim de evitar a disseminação de rumores.

Então veio a parte que mais chamou sua atenção.

— Não há qualquer evidência de ameaça à população.

Dona Olívia ficou em silêncio.

Aquilo parecia tranquilizador.

Mas, de alguma maneira, não era.

O homem continuou falando sobre segurança pública, equipes de emergência e investigação.

Porém, uma palavra chamou a atenção de Dona Olívia.

Anomalia.

Ela tinha sido usada rapidamente no meio do discurso.

— …a ocorrência foi inicialmente classificada como uma anomalia estrutural…

Dona Olívia aumentou um pouco o volume.

— O que ele quis dizer com isso?

O homem terminou seu pronunciamento poucos minutos depois.

— Pedimos calma. As autoridades estão trabalhando para garantir a segurança de todos.

A transmissão voltou para o noticiário.

Dona Olívia continuou encarando a televisão.

— Isso não foi um simples acidente…

No quarto, Keal dormia.

Seu corpo estava completamente relaxado.

Até que—

BOOOOOOOOOOM!

Uma explosão gigantesca rasgou a madrugada.

As janelas tremeram violentamente.

Keal abriu os olhos no mesmo instante.

— Quê?!

Ele se levantou da cama.

Por alguns segundos, não conseguiu entender o que estava acontecendo.

Então ouviu outra coisa.

Vidros quebrando.

Alarmes disparando.

Pessoas gritando nas ruas.

Keal correu até a janela.

O céu, ao longe, estava iluminado por uma enorme clarão.

Uma coluna de fumaça começava a subir.

— …

Ele ficou parado.

Aquilo não era uma explosão comum.

Era muito maior.

Muito mais intensa.

Dona Olívia abriu a porta do quarto rapidamente.

— Keal!

— Estou aqui!

Ela entrou no quarto.

— Você está bem?

— Estou.

Os dois olharam pela janela.

Ao longe, uma segunda onda de luz iluminou o horizonte.

Dona Olívia ficou pálida.

— Meu Deus…

Keal não respondeu.

Ele observava o ponto da explosão.

Sirenas começaram a ecoar por toda a cidade.

Uma.

Duas.

Dezenas.

As luzes dos prédios começaram a acender uma após outra.

As pessoas estavam acordando.

Algumas saíam para as ruas.

Outras corriam para as janelas.

E então…

BOOOOOOM!

Outra explosão.

Dessa vez, ainda mais distante.

Keal sentiu o chão vibrar sob seus pés.

— Isso está ficando pior.

Dona Olívia segurou o braço dele.

— Keal, não saia daqui.

Ele olhou para ela.

— Eu não ia sair.

— Promete.

— Prometo.

Ela respirou fundo.

Mas havia algo diferente no rosto dela agora.

Medo.

Não apenas preocupação.

Medo de verdade.

Keal percebeu.

— Vó…

— O quê?

— Você sabe o que está acontecendo?

Dona Olívia ficou em silêncio.

Por alguns segundos, apenas as sirenes podiam ser ouvidas.

— Não.

Ela desviou o olhar.

— Mas espero estar errada.

Keal voltou a olhar para a janela.

No horizonte, uma luz avermelhada continuava iluminando as nuvens.

Na televisão da sala, o noticiário havia sido interrompido novamente.

“ATENÇÃO: PERMANEÇAM EM SUAS CASAS.”

A mensagem se repetia.

Novamente.

E novamente.

Enquanto isso, equipes de emergência corriam em direção ao local da explosão.

Mas ninguém na cidade sabia exatamente o que havia acontecido.

Ainda.

E aquela madrugada, que deveria ser apenas mais uma noite comum…

acabaria sendo lembrada como o começo de algo muito maior.

Keal continuava diante da janela.

A cidade, que poucas horas atrás parecia tranquila, agora estava completamente diferente.

Sirenas ecoavam pelas ruas.

Pessoas corriam.

Alguns prédios haviam apagado suas luzes, enquanto outros estavam completamente iluminados.

No horizonte, a fumaça cobria parte do céu.

Dona Olívia continuava ao lado dele.

— Keal…

— Eu sei.

Ele não tirava os olhos de lá.

— Vamos ficar aqui.

— Está bem.

Por alguns minutos, nada aconteceu.

Nenhuma explosão.

Nenhum barulho diferente.

Apenas o som distante das sirenes.

Talvez tivesse acabado.

Talvez as autoridades conseguissem controlar a situação.

Keal começou a relaxar.

Até que percebeu algo.

— …

Ele estreitou os olhos.

— Vó.

— O quê?

— Olha aquilo.

Dona Olívia se aproximou da janela.

— Onde?

Keal apontou para o horizonte.

— Ali.

No começo, ela não viu nada.

Era apenas fumaça.

Escuridão.

Luzes distantes.

Mas então…

Uma pequena luz apareceu.

Bem longe.

No meio da fumaça.

Dona Olívia ficou em silêncio.

A luz aumentou.

Não parecia uma explosão.

Não parecia fogo.

Ela simplesmente…

apareceu.

Keal franziu a testa.

— O que é isso?

A luz começou a subir lentamente.

Cada vez mais alto.

Passou pelos prédios.

Subiu acima das nuvens.

E então parou.

Keal sentiu um arrepio percorrer seu corpo.

Havia alguma coisa ali.

Uma forma.

Algo enorme.

Mas não era possível distinguir direito.

— Vó…

Dona Olívia não respondeu.

Aquela coisa começou a se mover.

Não para cima.

Não para baixo.

Para os lados.

Como se estivesse…

caminhando pelo céu.

Keal ficou imóvel.

— Isso não existe.

A forma se aproximou lentamente.

A fumaça começou a se afastar ao redor dela.

E, por apenas alguns segundos, Keal conseguiu enxergar.

Dois pontos brilhantes.

Como olhos.

Enormes.

Parados.

Olhando diretamente para a cidade.

E então…

Para ele.

Keal sentiu o coração bater mais forte.

— …

A criatura abriu alguma coisa.

Uma espécie de boca.

Mas nenhum som saiu.

Mesmo assim, Keal ouviu uma voz.

Não vinha da televisão.

Não vinha da rua.

Não vinha de Dona Olívia.

A voz estava dentro da sua cabeça.

“Finalmente.”

Keal deu um passo para trás.

— O quê…?

Dona Olívia olhou para ele.

— Keal?

Os olhos da criatura desapareceram.

A forma inteira sumiu.

Como se nunca tivesse existido.

O céu voltou a ser apenas fumaça e escuridão.

Keal continuou olhando para o horizonte.

— Você viu?

Dona Olívia ficou alguns segundos em silêncio.

— Vi o quê?

Keal olhou para ela.

— Aquilo.

Dona Olívia encarou o céu.

Nada.

Absolutamente nada.

Ela voltou a olhar para o neto.

— Não tinha nada ali.

Keal não respondeu.

Porque sabia o que tinha visto.

E, pela primeira vez naquela noite, percebeu uma coisa que o deixou ainda mais assustado:

Aquela coisa não estava olhando para a cidade.

Ela estava olhando para ele.

Do lado de fora, as sirenes continuavam.

A televisão repetia a ordem para que todos permanecessem em suas casas.

E, em algum lugar muito distante dali…

algo havia acabado de despertar.