História Bônus: Cosméticos e Ela
História Bônus: Cosméticos e Ela
— O h. Lá vai outro cometa.
Era a véspera do Festival dos Fantasmas.
Aquele comentário despreocupado de Bunkou, que espiara pelo claustro do Pátio das Donzelas em meio a seus preparativos noturnos para o próximo evento, fez o capitão dos Olhos de Águia lançar um olhar furtivo para os céus.
Lá no alto do céu azul-marinho salpicado de estrelas brancas, um cometa de cauda longa navegava preguiçosamente. Embora fosse muito menor do que qualquer coisa que tivessem visto na noite do Festival de Tanabata, sua presença ainda era marcante; no entanto, Shin-u contemplou o espetáculo sem nenhuma emoção em particular.
— Os cometas têm brilhado mais do que nunca. Se isso fosse há cem anos, sem dúvida todo o reino estaria em alvoroço por este presságio de calamidade — disse seu subordinado brincalhão, estreitando seus olhos de raposa num sorriso malicioso.
Até há cem anos, o cometa era considerado um mau agouro cujo advento súbito traria caos ou destruição ao reino. A razão pela qual agora era tratado como algo para se pedir desejos, como uma estrela cadente, com um pagode inteiro construído com o propósito puro de observar seu voo, era que o imperador da época declarara o corpo celeste um bom agouro por decreto imperial.
A explicação completa era que um estudioso-oficial e cultivador daoísta previra que um cometa viria durante o reinado daquele imperador e traria o fim de seu governo. No final, aquela profecia não se cumprira e o cultivador perdera a cabeça por causa disso, mas os benefícios daquele decreto imperial estavam finalmente dando frutos.
Depois de levar cem anos para se reinventar como um bom auspício, o cometa era agora algo que as pessoas em todo o país certamente estavam contemplando pacificamente, com as mãos juntas em oração.
— Como venho do interior, ainda sinto um arrepio na espinha sempre que vejo um, mas suponho que deve parecer uma visão bastante bonita para um bando de citadinos.
Talvez fosse a libertação de ter terminado o trabalho do dia que colocara Bunkou num humor brincalhão.
— Cuidado com a língua — seu chefe severo o advertiu num tom de aviso.
Mas a verdade era que Shin-u não nutria nenhuma lealdade particular pela família imperial. Ele só se dava ao trabalho de manter Bunkou na linha porque esse era seu trabalho. Para ser mais preciso, ele também não se importava se o cometa deveria trazer fortuna ou infortúnio.
— Deixe as brincadeiras de lado. Uma estrela é apenas uma estrela.
Tanto quanto Shin-u estava preocupado, esse era o caso para a maioria das coisas no mundo.
Uma estrela era apenas uma estrela. Quer as pessoas se importassem em interpretá-la como um bom ou mau agouro, isso não faria o cometa pálido brilhar mais ou menos intensamente.
Insatisfeito com a resposta pragmática de seu chefe, Bunkou encolheu os ombros.
— Céus. Não admira que o resto dos Olhos de Águia o chame de "pau-mandado" pelas costas.
— Espere. As pessoas me chamam disso?
— Claro, quando se trata disso, uma estrela não passa de uma rocha rolando pelo céu noturno. Amor é outro nome para luxúria, e o medo faz o lobo parecer maior. Mas não é da natureza humana romantizar encontrar significado no sem sentido?
— Responda-me. As pessoas me chamam disso? — Shin-u perguntou novamente, rosnando as palavras.
— Bem, bem — veio a resposta evasiva de Bunkou finalmente. — Se devo dizer de uma forma ou de outra... Então sim, certamente chamam .
— ...
Seu cenho friamente belo se franziu num olhar de desdém.
Sentindo que estava encrencado, Bunkou se apressou em inventar desculpas com um sorriso vazio e de raposa em seu rosto. Em conversas como essas, era um truque comum dos eunucos polvilhar um toque de autodepreciação que tornava difícil discutir.
— Ora, ora. Isso mostra o quanto gostam de você. No final, tudo o que querem é sua atenção. Muito como uma mulher quer chamar a atenção do homem dos seus sonhos. Mas você é tão casado com seu trabalho que nunca respondeu a um dos olhares convidativos das damas da corte, quanto mais aos dos outros Olhos de Águia, não é? E assim é com um toque de ciúmes que acabam chamando nosso capitão de "pau-mandado". O que posso dizer? Não é preciso muito para ficar desanimado quando se perdeu uma parte tão grande do seu yang.
— Quem são "eles"? Aposto que foi você quem tem me chamado assim. Achou que poderia me enganar polvilhando um pouco de autodepreciação?
Infelizmente para Bunkou, o capitão surpreendentemente perspicaz vira através de seu engano. E enquanto estava nisso, deixara a dica de que ele não deveria usar aquela melancolia exclusiva dos eunucos como escudo.
Havia uma distância intransponível entre os funcionários que tiveram permissão para manter seus genitais intactos e os eunucos que foram forçados a renunciar ao sexo antes de entrar no pátio interior, mas nunca se saberia isso pelo relacionamento de Shin-u e Bunkou. Metade disso era porque Bunkou era um homem pragmático que pesara as opções de uma vida de pobreza ou perder seu sexo e escolhera o caminho de eunuco sem hesitação; a outra metade era porque Shin-u não era muito bom em captar sinais emocionais sutis.
Ambos eram um pouco distorcidos no departamento de personalidade, mas era exatamente isso que os tornava uma combinação estranhamente boa.
— O quê?! Como você descobriu?
— Quem mais seria tolo o suficiente para vir difamar o capitão dos Olhos de Águia?
— "Difamar" faz soar tão mal! Se alguma coisa, estava te elogiando como um homem íntegro que nunca cairia em tentação. Mm-hmm!
Shin-u encontrou aquele elogio dolorosamente insincero com um olhar frio. Percebendo para onde o vento soprava, Bunkou mudou de tática e tentou chamar a atenção para as falhas do capitão.
— É tanto culpa sua também! Tudo bem e bom rejeitar aquelas mulheres amorosas com seu olhar impassível, mas você nunca pisca um olho para as queixas ou súplicas de seus próprios subordinados também! Ora, não posso culpar as pessoas por se preocuparem se você tem coração!
O capitão lutou para refutar esse ponto. Na verdade, ele sabia que seu comportamento distante era frequentemente interpretado como "sem charme", e essa era mais ou menos a razão pela qual seu chefe o expulsara de seu último local de trabalho. Seus traços perfeitos demais e seus olhos azuis de aço e inescrutáveis deixavam outras pessoas nervosas por sua mera presença.
— Não é que eu não tenha sentimentos. Acho.
Sua defesa saiu fraca porque ele não tinha muita certeza disso.
Violado pela autoridade suprema que era o imperador, sua mãe fugira e desaparecera assim que dera à luz Shin-u. As pessoas ao seu redor o tratavam com a máxima cautela, sem falar que o passavam como uma batata quente por medo dos problemas que poderia trazer, então ele nunca tivera um momento livre para se sentir solitário ou triste. Além disso, sua família do clã Gen era cheia de pessoas sem muita gama de emoções, então ele nunca tivera sua falta de expressão ou reticência corrigida ou mesmo apontada.
Na verdade, fora um choque silencioso para ele quando saíra para o mundo real e vira pessoas que podiam rugir de risada ou derramar lágrimas de tristeza. Mas é claro, essa categoria parecia incluir quase todas as mulheres em existência.
Depois que Shin-u confessara tudo isso de forma fragmentada, Bunkou baixou a cabeça e enxugou os olhos. Então, depois de um tempo, deu um tapinha gentil nas costas de Shin-u.
— Viva forte, Capitão.
— Pare com isso. Posso ver a piedade em seus olhos.
— Acredite ou não, sou o filho mais velho da minha família... Sempre que vejo um irmãozinho atrapalhado, não posso deixar de cuidar dele. Oh, não quero dizer você, é claro. Não, claro que não... Mas se quiser, posso conseguir um desconto para o distrito do prazer algum dia. Melhor começar com um pouco de prática conversando com mulheres.
— Não, obrigado. — Irritado, Shin-u afastou a mão do eunuco e seu olhar cada vez mais paternalista. — Detesto decepcioná-lo, mas já tenho minha escolha de mulheres.
— Huuuh?!
— Por que você parece realmente surpreso?
Shin-u parecia ofendido com a incredulidade genuína na reação de Bunkou.
— Uh... Mas como?! Você tem toda a personalidade de um bloco de tofu gelado! Como conseguiu levar uma mulher para a cama? Ahá! Você é um frequentador do distrito do prazer! Paga uma quantia exorbitante de dinheiro para tê-las totalmente à sua mercê e...
— Agora você está sendo realmente rude. — No início Shin-u franziu o cenho, mas então inclinou a cabeça com curiosidade. — Não há necessidade de envolver dinheiro. Não se pode fazer a maioria das mulheres se derramarem por você se as encarar por tempo suficiente?
— ...
Bunkou pressionou ambas as mãos contra o peito, um sorriso pálido surgindo em seu rosto.
— Depois de todos esses anos, finalmente aprendi como é querer matar alguém.
— Você tem problemas.
— Bem, suponho que deveria ter visto isso chegando... Embora vocês tenham mães diferentes, você é o irmão mais novo de Sua Alteza.
— É rude até me comparar a Sua Alteza. Esqueça olhar para elas — ele pode fazer as mulheres agirem como gatas no cio só de estar no mesmo aposento que elas.
Algumas das Donzelas estavam incluídas entre as ditas mulheres excitadas, o que significava que ele estava difamando as Donzelas e comparando Gyoumei a catnip no mesmo fôlego, mas Shin-u parecia alheio à própria falta de respeito.
— De qualquer forma, aí está. Não estou sofrendo por romance.
Bunkou encarou seu chefe, o olhar em seus olhos se aproximando cada vez mais do de alguém contemplando uma criatura desafortunada.
— Capitão. Só para deixar claro, o tal "você-sabe-o-quê" que você teve com mulheres não é a mesma coisa que romance. Amor é algo que faz o coração disparar e traz todos os tipos de preocupações. Além disso, por todas as vezes que você fez "isso", nunca foi com alguém que você ativamente gostasse ou que você se esforçasse para conquistar, foi?
Shin-u deu um movimento de queixo enquanto pensava em todas as suas experiências até então.
Era verdade que ele nunca procurara nenhuma delas. Droga, ele nunca sentira seu coração disparar nem uma vez.
Enquanto observava seu capitão mergulhar no silêncio, Bunkou soltou um suspiro exagerado.
— Vê isso? Você é um pau-mandado e um completo amador no amor. Credo! São sempre os que florescem tarde como você que perdem o controle quando o amor finalmente chega. Como o seu subordinado, devo admitir que estou bastante preocupado.
— Não sei se me chamaria de "completo amador".
— Mas eu o chamaria. Vamos supor, por uma questão de argumento, que há uma mulher que lhe interessa. Temos o começo de um romance. Agora numa situação como esta, que sintomas você imagina que um homem experimenta, e o que você acha que ele deveria fazer a respeito?
A conversa havia se voltado para conselhos de relacionamento, de todas as coisas.
Seu subordinado estava se mostrando um sujeito surpreendentemente solidário — ou melhor, ele parecia surpreendentemente interessado no tópico em questão. Embora Shin-u estivesse um pouco contrariado, ele ainda respondeu à pergunta com a primeira coisa que veio à mente.
— Levá-la para a cama ?
— Absolutamente não! — O eunuco mostrou os dentes e repreendeu seu chefe sem perder um segundo.
Shin-u parecia cético. Considerando que o único exemplo que ele tinha para se basear era seu pai, o imperador que fizera amor com sua escrava de mãe pela simples razão de que gostara dela, ele não tinha certeza do porquê estava sendo posto na fogueira.
Dar joias a uma mulher. Protegê-la de danos. Levá-la para a cama. Essas eram as únicas "linguagens do amor" que ele conhecia. O fato de sua boa aparência significar que ele nunca experimentara rejeição só reforçara essa crença.
— Por que não? Se você gosta de uma mulher, deve fazer amor com ela.
— Diga-me, como é que seu nível de maturidade emocional infantil o leva às mesmas ações de um filandete veterano? Ou estive falando com um urso esse tempo todo?
Com o quanto o eunuco parecia valorizar as emoções, as mãos de Bunkou estavam literalmente tremendo a essa altura da conversa.
— Vamos começar com o que acontece com um homem quando ele se apaixona por uma senhora. Ele fica nervoso. Ele perde a noção de si mesmo. Está me acompanhando até aqui? Estes são os primeiros sintomas do amor. Não se esqueça.
— Parece um aborrecimento.
— E então o que ele faz? Ele a corteja! Ele diz as palavras certas antes de levá-la para a cama! E mesmo antes disso, ele constrói sobre seus sentimentos por ela. Cuidar de alguém é tê-la sempre em seus pensamentos. Preocupar-se em seu nome, estar atento aos seus sentimentos e pensar em seus problemas como se fossem seus. Entendeu? Gerenciar tudo isso é o primeiro passo para um relacionamento bem-sucedido!
— Quem tem tempo para tudo isso?
Quando viu o olhar de tédio explícito nos traços de Shin-u, Bunkou finalmente contemplou o vazio com um pequeno sorriso seco.
— Acho que vou atualizar seu apelido de "pau-mandado" para "cabeça-dura".
— Isso foi uma confissão de culpa que ouvi? Você tem coragem de anunciar seus planos de aumentar os xingamentos bem na cara da sua vítima. — Enquanto o cenho de Shin-u se aprofundava, ele estendeu a palma da mão para Bunkou. — Já chega. Devolva o "bônus" que lhe dei antes.
— Hein?! Não posso fazer isso! Calma, Capitão — obviamente estava brincando! — O eunuco entrou em pânico, pressionando a mão contra o peito de seu uniforme. — Eu realmente o respeito! E tenho certeza de que o resto dos Olhos de Águia está se sentindo bastante encantado com os eventos de hoje. Nada supera um chefe que paga bem! — continuou ele, mergulhando num elogio agitado.
Escondido naquele peito de seu uniforme estava uma pedra preciosa. A história por trás disso era que, na véspera do Festival dos Fantasmas, o clã Kin capitalizara seu papel como organizadores do evento para convidar uma infinidade de maquiadores e vendedores ao Pátio das Donzelas e realizar uma "reunião de negócios" final com eles.
É claro, ninguém ia escolher suas roupas ou acessórios para o evento no dia anterior, então a reunião era mais um serviço para seus vendedores favorecidos do que qualquer outra coisa. Era uma espécie de pré-celebração do evento, na qual os mercadores eram convidados ao Pátio das Donzelas decorado e recebiam a chance de exibir itens que haviam guardado para a ocasião.
Durante essa celebração, os vendedores gostavam de oferecer reverentemente suas mercadorias até mesmo aos Olhos de Águia. No entanto, como aplicadores da lei do Pátio das Donzelas, aceitar esses bens gratuitamente seria visto como receber um suborno dos vendedores. Assim, por gerações, era uma tradição não oficial que o capitão dos Olhos de Águia relutantemente desembolsasse uma quantia justa pelos itens. Como isso era algo feito a critério do capitão, o dinheiro tinha que sair de seus próprios bolsos.
Por sorte, o status de Shin-u como um ex-príncipe de certa forma lhe proporcionava uma vida decente, e ele era um homem sem lazer que não tinha nada em que gastar seu dinheiro. Além disso, ele ficara tão irritado com as mulheres mercadoras praticamente babando por sua boa aparência que atirara uma enorme quantia de dinheiro para fazê-las calar a boca, sem nem se dar ao trabalho de perguntar o preço das mercadorias.
Ele empurrara sua coleção resultante de roupas, joias e cosméticos para Bunkou, ordenando que ele distribuísse os itens igualmente entre os Olhos de Águia. Para nenhuma surpresa, o eunuco guardara a melhor gema de todas para si. Embora tudo fosse mercadoria feminina, joias certamente valeriam um bom preço no mercado, e também poderiam ser um bom trunfo para barganha.
Ele podia ser um pouco rígido e desatento em muitas direções, mas Shin-u era na verdade um chefe bastante generoso. Embora Bunkou parecesse um brincalhão amigável à primeira vista, ele tendia a ser do tipo exigente, e até ele tinha uma alta opinião de Shin-u.
— Tem certeza de que não quer guardar um pouco para si, Capitão? Pelo que pude ver, as vestimentas tinham padrões de ponta, e os grampos de cabelo ornamentais eram de primeira classe. Os cosméticos pareciam lindos o suficiente para serem gemas por si só; um único olhar poderia enviar o coração...
— Não, obrigado. Pareço uma mulher para você?
— Ah, não seja assim! Ao contrário do resto de nós, você está em posição de dar uma lembrancinha a uma senhora. Sua primavera da vida está logo ali! — insistiu Bunkou, bajulando seu chefe enquanto empurrava as mercadorias diante dele.
Shin-u o dispensou com irritação.
— Não tenho ninguém para dar. É verão agora, e o outono vem depois.
No entanto, ele fez uma pausa abrupta quando notou o que estava na mão do eunuco: um batom vermelho vivo. Vermelho o suficiente para ser reminiscente de uma chama ardente, o batom estava envolto numa concha sofisticada polvilhada com folha de ouro.
Eu me pergunto...
Foi então que a imagem de uma mulher vestida de vermelho passou por sua mente.
Ela tem algo pronto para o Festival dos Fantasmas?
Quando o Julgamento do Leão ficara para trás — quando ele a vira novamente no depósito — Shu Keigetsu estivera vestida com roupas surradas, indignas de uma Donzela.
— "Embora deva me desculpar, posso pedir que se retirem?"
Ele se lembrava dela encarando-o com aqueles olhos límpidos. Por mais educada que fosse, ela exalara uma aura tão poderosa que até um mestre guerreiro como Shin-u não conseguia encontrar uma brecha em suas defesas.
— "Gostaria de trocá-la sem a presença de cavalheiros."
Sua voz carregava genuína preocupação com sua dama da corte. Mesmo então, ela parecia bela até a ponta dos dedos. Suas roupas estavam surradas e ela não usava maquiagem, mas sua postura e seu semblante lhe conferiam um ar de elegância indescritível.
Cosméticos e guarda-roupa não deveriam ser uma questão de vida ou morte para uma mulher?
Shin-u reuniu toda a extensão de sua imaginação sobre um tópico no qual nunca demonstrara o menor interesse antes.
Pelo que conseguia deduzir observando as mulheres do clã Kin mais cedo naquele dia, seria importante para ela vestir uma túnica glamorosa que a fizesse se destacar na cerimônia e usar maquiagem que tornasse seu rosto o mais bonito de todos. Ela era, afinal, uma das Donzelas reunidas para competir pelo favor do príncipe. Mas agora que fora abandonada pela Nobre Consorte Shu, ele duvidava que ela tivesse qualquer equipamento desse tipo em mãos.
Do ponto de vista de Shin-u, não deveria importar a aparência das Donzelas contanto que pudessem gerar um filho saudável, mas talvez fosse desanimador para ela entrar na cerimônia parecendo algo que o gato arrastou para dentro.
Seria como ir para a batalha sem uma arma.
Aquela metáfora foi o que o encorajou a estender a mão e arrancar abruptamente o batom da mão de Bunkou. Fornecer uma arma a uma mulher se preparando para travar uma guerra desarmada parecia um curso de ação razoável para o capitão dos Olhos de Águia, o guardião da imparcialidade no Pátio das Donzelas.
— Oh? Pensou em alguém para presentear com isso, Capitão?
— Menos presente... e mais suprimento — equivocou-se ele, uma visão de Shu Keigetsu com os lábios pintados de vermelho surgindo em sua mente.
Ele se perguntou como ela ficaria com um toque extra de carmesim em seu sorriso digno. E se ela adicionasse um tom de vermelhão aos cantos de seus olhos poderosos, ou um toque de vermelho pálido em suas bochechas bem definidas? Sem dúvida seria...
— Não, não! Não seja bobo! Dar batom é um dos pilares do namoro! — clamou Bunkou, puxando Shin-u de seu devaneio.
— O quê?
— Quer dizer, pense nisso. Todo mundo sabe que um homem dá a uma mulher as roupas que ele quer tirar dela, certo? Você dá roupas a uma garota para despi-la. Então segue-se que você dá batom a ela para limpá-lo... ou em outras palavras, para compartilhar um beijo apaixonado. Esse é o verdadeiro significado por trás do gesto — afirmou o eunuco com confiança.
Shin-u fez uma careta. Significado. Lá vem ele de novo.
— Esquece. Não quero.
— Hein? Tem certeza?
— É seu. Faça o que quiser com ele.
— Uh...
Bunkou ficou perturbado ao ter o batom que seu chefe fizera questão de pegar devolvido a ele. Ignorando sua reação, Shin-u virou-se sobre o calcanhar e voltou pelo claustro do Pátio das Donzelas. Se não terminasse seu trabalho em breve, não estaria em condições ideais para a cerimônia do dia seguinte.
Namoro? Ridículo.
Ele não tinha certeza do que estava causando a indignação indescritível que sentia.
Apesar de sua afirmação de que, fosse bom ou mau agouro, uma estrela era apenas uma estrela, ele decidira contra passar o batom adiante no momento em que soube que era um símbolo de namoro. Depois de tratar como certo que levaria qualquer garota de que gostasse para a cama na hora, ele tentara se colocar no lugar de outra mulher num movimento muito fora do comum.
Mas o homem ainda não percebera as contradições em seu próprio comportamento.
— Espere... E- ele está atrás dos meus lábios?
Para o bem ou para o mal, ele também não percebera Bunkou cobrindo a boca com apreensão atrás dele.
Contemplando pela janela de seu quarto, Gyoumei soltou um suspiro silencioso enquanto observava o cometa deixar seu rastro.
A primeira pessoa que a estrela se movendo lentamente pelo céu noturno lhe trouxe à mente não foi Shu Keigetsu, que tinha o caractere para "cometa" em seu nome. Aquela que o fez pensar foi a amada garota que certamente teria visto aquele cometa como um sinal auspicioso mesmo sem o decreto imperial de cem anos atrás.
Kou Reirin era o tipo de pessoa que podia ver um banco de lama horrível e focar na beleza do lótus que florescia ali, ou ver uma estrela de calamidade atravessar o céu e ficar genuinamente fascinada por sua beleza.
A condição de Reirin não tem melhorado nada.
Sua cama rangendo sob ele enquanto se sentava, Gyoumei contemplou ociosamente as prateleiras ao seu lado. Ali sobre uma das estantes envernizadas de preto banhadas pela luz da lua estava uma pequena concha de batom. Era um item que comprara há algum tempo de um vendedor frequentemente frequentado por sua mãe, a Imperatriz Kenshuu. Ele estava convencido de que a cor pastel e florida ficaria bem em Reirin.
No entanto, como ela estivera acamada desde o incidente na noite do Festival de Tanabata, ele ainda não tivera a chance de entregá-lo a ela. Sua pele branca como neve era excepcionalmente delicada, então suas damas da corte insistiram que ela esperasse para usar qualquer coisa além de suas próprias misturas personalizadas até que estivesse de volta à saúde plena. Nem é preciso dizer que Gyoumei não tinha interesse em forçar seu favor a ela ao ponto de danificar sua pele.
Já faz cinco anos desde que conheci Reirin.
Enquanto contemplava o batom elegante o suficiente para se assemelhar a uma joia, sua memória retrocedeu ao dia em que conheceu aquela sábia prima.
O primeiro encontro deles foi mais ou menos assim.
No Festival da Limpeza dos Túmulos do ano em que completou quinze anos, a mãe de Gyoumei o trouxe para visitar a propriedade Kou. Devido a uma morte no lado paterno de sua família no ano anterior, ela recebera permissão especial para voltar para casa e visitar seu túmulo naquela ocasião para homenagear os ancestrais.
— Acontece que minha sobrinha, Reirin, virá nos cumprimentar. Ela é a garota mais bonita e inteligente que conheço. Aguarde — disse Kenshuu, satisfeita por poder relaxar em sua antiga casa depois de muito tempo fora.
Gyoumei respondeu com nada além de um educado "Assim farei".
Ele aprendera da pior maneira que mulheres proclamadas como "bonitas" quase nunca estavam à altura do elogio, e que "inteligente" era outra palavra para "astuta". Além disso, ele estava farto de como seu qi de dragão inato inspirava todos sob o sol a fazer avanços em sua direção, quer ele gostasse ou não.
Sendo um adolescente, Gyoumei não teria reclamado se esse fenômeno se limitasse a uma garota bonita lançando-lhe um olhar tímido ou dois. No entanto, era uma história diferente quando isso vinha acontecendo desde que ele se lembrava: ele estivera quase sequestrado por sua ama de leite, quase violado por um oficial militar, e sujeito aos olhares luxuriosos até dos eunucos. Além disso, embora a maioria das mulheres fosse fisicamente inofensiva, sua tendência a se tornar vingativa e sabotar umas às outras nos bastidores muitas vezes se mostrava bastante problemática. Para ser franco, Gyoumei estava enojado com as mulheres como um todo nesse ponto de sua vida.
Ah, tanto faz. Vou apenas acompanhar a conversa como sempre faço , pensou enquanto aliviava seu tédio com o tabuleiro de Go colocado no aposento.
Embora sua vida fosse dificultada pela maneira como seu qi de dragão atraía as pessoas como mariposas para a chama, era fácil se livrar daqueles admiradores com essa mesma aura. Um sorriso e um "Você é muito adorável" podiam silenciar qualquer um, de uma garotinha a uma senhora idosa, e se ela ainda persistisse, o menor dos olhares a faria empalidecer e recuar.
Pelo que ouvira, Kou Reirin tinha apenas dez anos de idade. Como a primeira garota a nascer para os Kous em muito tempo — sem falar que perdera a mãe no processo — dizia-se que fora criada sob o amoroso cuidado de seu pai e irmãos. Bajulá-la seria tão fácil quanto tirar doce de um bebê.
No entanto, suas expectativas seriam traídas no banquete oferecido para os convidados naquela noite.
— É um prazer conhecê-lo. Meu nome é Reirin.
A garota que entrou graciosamente na luz da vela era de fato tão bela quanto uma donzela celestial. Ela tinha pele branca e lisa e cabelo volumoso e lustroso de um tom suave. Seus longos cílios projetavam sombras tênues em suas bochechas, que estavam coradas do rosa de uma flor molhada pelo orvalho da manhã. Apesar de seu rosto ainda infantil, a dignidade em seus olhos lhe conferia um ar de tamanha inteligência e elegância que era difícil acreditar que ela tivesse apenas dez anos.
Isso mesmo: ela estava olhando diretamente para Gyoumei.
O príncipe ficou genuinamente surpreso com seu olhar penetrante, sem um traço de flerte ou encantamento.
Isso significa que meu qi de dragão não tem efeito sobre ela?
Por mais egocêntrico que soasse, ele nunca conhecera uma mulher que pudesse permanecer calma em sua presença, excluindo sua própria mãe. No entanto, apesar das respostas e sorrisos comedidos de Reirin em sua direção, ela não parecia nem um pouco enfeitiçada por Gyoumei.
— Para o entretenimento desta noite, vamos ter uma apresentação da própria dançarina de nosso clã!
Não demorou muito para que as bebidas corressem e o tio de Gyoumei — o pai de Reirin, é claro — já animado, chamasse orgulhosamente sua pequena garota para seu assento. Ele ordenou que os servos abrissem um grande espaço no centro da mesa redonda, onde mandou sua filha ficar e executar uma dança. Foi a princípio com algum descontentamento que Gyoumei observou as criadas e até os dois filhos, que diziam ser brutamontes, se iluminarem com antecipação alegre. Era verdade que Reirin era uma garota refinada e bonita, mas as reações daqueles ao seu redor sempre pareciam tão exageradas.
Por exemplo, o simples ato de sentar com postura magnífica por tempo suficiente fazia as criadas ficarem tão comovidas que tinham que enxugar os olhos, e a visão dela comendo sua comida com prazer arrancava uma demonstração pesada dos homens enxugando as lágrimas. Quando ela recitava um poema exaltando a beleza da lua, as pessoas diziam "Vamos gravar isso na lápide imediatamente", e cada vez que ela dava um sorriso charmoso e tímido, várias pessoas caíam no chão segurando o peito. Era assim que tudo se desenrolava.
Parecia que a garota era um pouco frágil, e era por isso que o simples vislumbre dela sorrindo pacificamente fazia os Kous sentirem uma profunda gratidão e se encherem de agradecimentos ao Grande Ancestral. Ainda assim, parecia um pouco demais, se o príncipe fosse honesto.
Mas então...
— Dedico esta dança à boa saúde e ao sucesso contínuo da Tia Kenshuu e do meu querido primo — disse ela, traços de juventude ainda pairando em sua voz.
Quando ela começou sua dança ágil, Gyoumei ficou sem palavras. A visão dela era absolutamente divina.
Reirin estendia os braços e as pernas como fios finos e tensos, e depois relaxava como se estivesse se rendendo ao ar ao seu redor. Ela era a imagem da elegância e graça, como uma borboleta brincando com o vento.
Mas o melhor de tudo era o olhar distante em seus olhos. A melancolia em seu olhar enquanto baixava os olhos, olhando além até mesmo de Gyoumei como se buscasse algum lugar distante, deu ao príncipe a vontade de estender a mão e segurá-la. Ele sentiu que, se não a trancasse dentro de seus braços, sua alma partiria deste plano de existência e desapareceria no nada.
Quando ela terminou sua dança, ele se viu juntando-se aos Kous que tremiam e choravam numa salva de palmas entusiástica.
— Foi brilhante. Venha aqui, Reirin. Ganhe uma recompensa de sua Tia Kenshuu. Pegue o quanto quiser do que gostar. — Kenshuu chamou sua sobrinha com animação em sua voz, seu próprio rosto corado de emoção.
Espalhados sobre a mesa estavam cosméticos tão abundantes e de tão alta qualidade que alguém tinha que se perguntar onde uma mulher que tão raramente demonstrava interesse nessas coisas conseguira tudo aquilo.
Ver isso deixou Gyoumei frio. Ele não esperava que uma garota tão pura quanto uma donzela celestial demonstrasse interesse nessas ferramentas para se esconder atrás de uma beleza falsa. No entanto, contrariando suas expectativas, o rosto de Reirin se iluminou visivelmente com a visão.
— Uau, Tia Kenshuu! Muito obrigada. Isso é maravilhoso!
Ela correu para a mesa para examinar cada produto com entusiasmo.
Gyoumei não conseguia ver diferença entre ela e as mulheres que estavam sempre tão absortas em mexer em seus rostos ou lançar-lhe olhares amorosos. Toda a excitação que sentira por sua dança se esvaiu abruptamente.
— O que você acha, Gyoumei? Reirin não é uma grande garota? — perguntou sua mãe, um sorriso satisfeito em seu rosto.
Ele jogou pelo seguro.
— Sim. Ela é muito adorável.
De repente, Reirin ergueu o olhar e o encarou. Ela nem corou de alegria nem ficou tonta de excitação, e não demorou muito para que voltasse à tarefa de escolher seus presentes.
O que foi aquilo?
Algo sobre aquilo o incomodara, mas ele logo foi distraído pela implicância de sua mãe.
— Aposto que um homem da Cidade Proibida sabe uma coisa ou duas sobre cosméticos. Por que você não me ajuda a escolher um bom rouge para Reirin? Que tal este?
Ele conteve um suspiro e respondeu:
— Parece bom.
Era outra maneira de dizer "Não poderia me importar menos".
Com isso, Kenshuu ergueu uma sobrancelha e deu um hum de consideração. Depois de mergulhar num silêncio pensativo, ela eventualmente fechou seu leque com um estalo e anunciou:
— Reirin. Tenho certeza de que você prefere ponderar suas escolhas, não? Mandarei meu filho ficar de olho em você, então vá para o aposento ao lado e tome todo o tempo que precisar. Vá com ela, Gyoumei.
— Mãe?
Gyoumei franziu o cenho. Ele certamente não esperava que ela tentasse deixá-los a sós.
No entanto, Kenshuu fingiu ignorância.
— Você deveria aproveitar a chance para conversar mais com Reirin. Vá aprender uma lição de vida com uma garota de dez anos .
Mesmo vindo de sua mãe, isso era um insulto e tanto.
Embora estivesse contrariado, ao decidir que isso lhe daria uma boa desculpa para sair do banquete mais cedo, ele fez o que foi mandado. Poderia ser uma experiência exaustiva, mas pelo menos não teria que se preocupar com uma garota de dez anos se atirando sobre ele ou se despindo onde ele pudesse ver.
Ele e Reirin se mudaram para o outro aposento, e por um tempo ele fez conversa vazia com um sorriso falso colado no rosto. No entanto, foi então que Gyoumei notou algo. Mesmo que os dois estivessem atrás de portas fechadas e em espaço apertado, Reirin não parecia nem um pouco envergonhada, nem parou para lançar-lhe olhares extasiados. Em vez disso, ela continuou a contemplar intensamente os cosméticos — ou "observá-los" seria a palavra certa.
— Oh, querida. Este parece mais escuro na pele do que eu esperava. Isso pode tornar difícil aplicar em todo o corpo... Por outro lado, este parece escuro no início, mas se espalha bem pela pele. Se eu dissolver em água... não, talvez misturar com óleo, talvez consiga fazê-lo espalhar ainda mais suavemente — murmurou Reirin para si mesma, aplicando rouge na parte de trás da mão e misturando com as outras cores.
Quando se tratava de realmente experimentar os cosméticos, ela não sorria orgulhosamente diante do espelho, mas sim avaliava cuidadosamente sua cor e o estresse que causavam em sua pele. Mais do que uma mulher se entregando à beleza falsa, ela parecia a imagem de um curandeiro classificando suas ervas ou mesmo um oficial militar avaliando suas armas.
— Não é assim que a maioria das garotas agiriam diante de uma variedade de cosméticos — murmurou Gyoumei apesar de si mesmo.
— Hein? — Perturbada, Reirin ergueu o rosto e piscou seus olhos redondos. — Onde cometi um erro? Estou levando esta escolha muito a sério, devo dizer.
— Sim, posso ver. Mas sua abordagem parece diferente da garota comum.
— É mesmo...?
Ela não parecia ter percebido isso. A confusão e apreensão que ele viu em seus olhos infantis fizeram Gyoumei se sentir mal o suficiente para retirar sua afirmação.
— Mas então novamente, sou um homem. O que sei sobre maquiagem? Que falta de tato da minha parte falar sobre algo que não entendo. Esqueça o que disse.
— Ora. — Reirin inclinou a cabeça, parecendo cada vez mais misteriosa. — Mas os homens... ou melhor, o senhor é bastante habilidoso em aplicar maquiagem.
— Como?
Gyoumei ficou perplexo. Dada a beleza deslumbrante que já ostentava em sua tenra idade, o príncipe nunca polvilhara as bochechas, nem brincara com rouge como alguns eunucos faziam.
Quando ela viu o olhar de exasperação divertida que ele lhe lançou, Reirin deu um constrangido "hum" e se esforçou para escolher suas palavras com cuidado.
— "Aplicar maquiagem" significa esconder-se para parecer mais bonita, não significa?
— Isso mesmo.
— E quando o senhor diz "adorável", na verdade quer dizer "tolo", não quer?
Surpreso, Gyoumei a encarou boquiaberto.
— O quê?
— Perdoe-me se estiver enganada. Foi o que pareceu quando a ouvi antes. E para dar outro exemplo, "parece bom" realmente quer dizer "não me importo", correto?
— ...
Ela não estava criticando nem provocando. A maneira como ela fazia suas perguntas com tanta naturalidade quanto se estivesse confirmando "O sol nasce no leste, correto?" arrancou as palavras da boca de Gyoumei. Aquela garota vira através de tudo. Tanto seu distanciamento quanto seu desespero.
No entanto, suas próximas palavras foram o que verdadeiramente o fizeram engolir em seco.
— Mas o senhor faz um belo trabalho ao esconder isso. Em vez de expor seus sentimentos nus, os esconde por trás de palavras bonitas. Fiquei impressionada; sinto que deveria aprender com seu exemplo.
Um olhar para seus olhos cristalinos disse que aquilo não era ridículo nem sarcástico, mas seus sentimentos honestos. E isso fez as palavras ressoarem ainda mais com ele.
Ela vira através das tentativas de Gyoumei de camuflar sua maldade, mas percebia isso como ele tomando cuidado para não perturbar aqueles ao seu redor.
Foi então que o príncipe finalmente notou algo: os produtos que Reirin tão avidamente pegara não eram o lápis de sobrancelha que poderia ajudá-la a alcançar uma aparência mais madura ou o pó dourado que lhe daria um ar de esplendor, mas os rouges e pós brancos de um tom mais natural — exatamente a cor de um rubor saudável nas bochechas.
— Então por que você se esconde?
Ele perguntou isso por puro instinto. Não — mesmo quando a pergunta deixava sua boca, em algum lugar no fundo, ele já sabia a resposta.
A bela garota colocou a mão na bochecha e então soltou uma risadinha suave.
— Porque isso deixa todos tão felizes quando tenho cor nas bochechas.
Gyoumei nunca esqueceria como a visão de seu sorriso tímido e envergonhado fizera seu coração tremer.
Ela ainda era uma garotinha, cinco anos mais nova que ele. E, no entanto, ela era deslumbrante além da medida. O impulso misterioso que ele sentia de trancá-la em seus braços e protegê-la de danos — ou não, talvez de contemplá-la em silêncio sem fôlego — o deixou sem palavras por um bom tempo.
— Entendo. Então da próxima vez que nos encontrarmos, juro trazer uma montanha de seus rouges pastéis favoritos.
Quando finalmente conseguiu formar palavras novamente, fez uma promessa do próximo encontro.
Ele então passou a hora seguinte ajudando Reirin a escolher um rouge. Quando voltaram ao salão do banquete, Gyoumei chegava ao ponto de segurar sua mão esbelta e deixá-la usá-lo como apoio enquanto caminhava.
— O que você acha, Gyoumei? Reirin não é uma grande garota? — perguntou Kenshuu quando viu o olhar entusiasmado em seu filho, sua boca se curvando num sorriso de escárnio atrás de seu leque.
— Sim — concordou ele com um aceno, sem sentir o menor traço de desafio.
Seus olhos foram para Reirin enquanto ela exibia alegremente seu prêmio a seus irmãos.
— Ela é uma borboleta.
Gyoumei continuou a contemplar intensamente seu sorriso tão gentil quanto o balanço de uma brisa de primavera.
— Ela é a que quero manter em minhas mãos e proteger a todo custo. Minha borboleta.
Foi a partir daquele dia que Kou Reirin passou a ser conhecida como a borboleta do príncipe.
Não há mulher melhor em aplicar "maquiagem" do que Reirin.
Sentindo-se nostálgico, Gyoumei deu uma risada seca enquanto contemplava a concha de batom em sua mão.
Sua borboleta se tornara ainda mais bela nos cinco anos seguintes. Não por decorações chamativas, mas devido a um brilho puro que vinha de dentro. Mesmo assim, se o sorriso no rosto de uma mulher pudesse ser considerado outra forma de "maquiagem", então ela era sem dúvida a mais habilidosa esteticista de sua geração.
No entanto...
Gyoumei apertou a concha em sua mão.
Foi errado da minha parte desejar ver seu verdadeiro rosto? perguntou-se enquanto vislumbrava o cometa pela janela.
Quanto mais tempo passavam juntos, mais forte Gyoumei sentia sua ganância crescer. Ele queria vê-la sorrir. Queria vê-la feliz. Mas isso não era suficiente — no fundo, ele queria ser a única pessoa a saber tudo sobre ela, desde as lágrimas que derramava de tristeza até a aparência de seu rosto contorcido em raiva.
Ele adorava seu comportamento de temperamento manso e seu doce sorriso. No entanto, na esperança de que ela abrisse mais seu coração para ele, ele fizera o raro desejo na noite do Festival de Tanabata.
— "Desejo que Reirin me mostre um lado dela que ainda esconde."
Aquele desejo dele dera frutos? Desde aquela noite, ela corara com as gracinhas que ele sussurrava em seu ouvido, se aconchegara em seu peito e deixara de esconder seus olhares preocupados ou sentimentos de frustração.
Shin-u, por exemplo, expressara desdém pela maneira como ela ronronava em boas-vindas às visitas constantes do príncipe; até Gyoumei achara o comportamento um pouco surpreendente, mas relutara em entreter tal opinião. Ficar todo agitado no momento em que ela mostrava um pouco de fraqueza o tornaria um desgraçado. O pensamento de que ela fora levada a tal desespero o enchia de uma nova raiva contra Shu Keigetsu, e além disso, ele era aquele que desejara um vislumbre de seu verdadeiro rosto — sua fraqueza — em primeiro lugar.
Mas ainda assim...
Mesmo assim, ele sentia o mais leve grão de desconforto roçando seu coração.
Arrancando o olhar do céu noturno, Gyoumei sacudiu os pensamentos de sua cabeça.
Amanhã era o Festival dos Fantasmas. Como aquele que presidiria a cerimônia ao lado de Kin Seika, ele tinha que entrar no evento em condições ideais. Seria bom para ele ir para a cama cedo e ter uma boa noite de sono. Se acordasse antes do amanhecer e conseguisse terminar seu trabalho antes do previsto, ele poderia até encaixar uma visita a Reirin pouco antes da cerimônia.
Enquanto Gyoumei se deitava em sua cama e forçava os olhos a se fechar, a concha de batom refletia os raios da lua onde jazia silenciosamente ao seu lado.
𓂃 ࣪˖ ִֶָ𐀔
As damas da corte do clã Kou juntavam as mãos em oração cada vez que passavam pelo claustro, contemplando o cometa que ainda brilhava intensamente no céu noturno.
— Desejo que a condição da Dama Reirin melhore logo!
Era a mesma frase todas as vezes. Embora não fosse uma estrela cadente, o cometa era outro corpo celeste que — embora lentamente — atravessava o céu. Tornara-se um hábito recente das garotas fazer desejos às estrelas na esperança de que isso fizesse mesmo o menor bem. A razão era que sua amada senhora estivera acamada desde a noite do Festival de Tanabata.
— Parece que ela não vai chegar ao Festival dos Fantasmas de amanhã... Que pena. Tenho aperfeiçoado minhas habilidades de maquiagem por tanto tempo, esperando ter a chance de enfeitá-la dos pés à cabeça.
— O que fazer? A saúde dela importa mais do que dar um bom desempenho no evento. Ah, mas eu sei que a Dama Reirin teria ficado tão bonita quanto uma donzela celestial com toda a sua maquiagem cerimonial magnífica! Quer saber? Acho que vou desejar um pouco mais forte!
— Boa ideia! Ainda temos meio dia até o evento. Sempre há a menor chance de ela se recuperar a tempo.
— Verdade. Tudo se resume ao seu espírito de luta. Quero ver a Dama Reirin toda arrumada também!
Essas mulheres vestidas de gamboge detinham um escalão alto o suficiente dentro do clã Kou para merecer a cor. Como resultado natural, não eram menos apaixonadas e tenazes que a própria Reirin. Não preparadas para desistir da esperança ainda, faziam uma pausa no trabalho para murmurar desejos ao cometa em voz baixa.
— O que vocês estão fazendo aí paradas? — veio uma voz tão fria quanto um campo coberto de neve.
Quando as mulheres se viraram, ali estava a chefe das damas da corte de Reirin, Tousetsu, com sua postura impecável como sempre.
— Perdoe-nos, Dama Tousetsu. Estávamos fazendo um desejo às estrelas para que a condição da Dama Reirin melhore.
— Reconheço a intenção por trás do gesto. No entanto, isso não é razão para parar o que devem estar fazendo. É esperado que qualquer dama da corte da Dama Reirin deseje a boa saúde de sua senhora. Tenham esses pensamentos em seus corações o tempo todo e concentrem-nos em fazer seu dever solene. Vocês três não deveriam estar a caminho da cozinha para buscar um pouco de água fria e uma toalha de mão para a Dama Reirin?
— S- sim, senhora! — responderam as mulheres, baixando a cabeça. Não podiam discutir com aquela repreensão.
As gamboge-ouro saíram correndo pelo claustro. Então, assim que Tousetsu saiu de vista, irromperam em sussurros abafados.
— Nossa, que medo. Não esperaria menos de nossa glacial chefe das damas da corte. É uma parente distante, mas deve ser o sangue Gen em ação.
— Nunca a vi perder a compostura.
— É o sangue Gen transformando suas veias em gelo. Duvido que haja algo no mundo que pudesse assustá-la. Ela nunca entenderia a esperança e o desespero que sentimos por cada pequena mudança na condição da Dama Reirin.
As damas da corte soavam um pouco amuadas, sentindo-se beligerantes depois daquela bronca que levaram.
Mesmo assim, nem uma única delas duvidava da competência de Tousetsu ou de sua profunda lealdade à sua senhora. Embora fosse uma mulher difícil, estava na natureza do clã Kou aceitar tais pessoas de braços abertos, e assim as garotas acabaram deixando o assunto de lado com um suspiro leve.
— Ali está nossa confiável chefe das damas da corte para você.
Hmph.
Sozinha no claustro, Tousetsu bufou com um olhar gelado em seu rosto.
O sangue Gen corria ainda mais grosso em suas veias do que aquelas garotas pensavam. Não apenas sua herança lhe concedia proeza física superior, mas lhe dava um olfato e audição aguçados. Ela tinha ouvidos ligeiramente mais apurados do que a pessoa comum.
Que descuido da parte delas perder tempo com fofocas. Se têm tão pouco o que fazer, poderiam ir colher algumas ervas para a Dama Reirin.
Embora não houvesse um tremor em sua expressão, esse foi o primeiro pensamento que passou pela mente da mulher excepcionalmente dedicada.
Erguendo abruptamente o olhar para contemplar o cometa que se arrastava pelo céu, ela murmurou:
— Ó cometa lá em cima. Você vem trazendo fortuna ou calamidade?
Hoje em dia, os cometas eram algo para se fazer desejos, como uma estrela cadente. Mas como ela vinha de uma linhagem familiar de longa data, Tousetsu ainda não podia deixar de sentir uma sensação de inquietação quando olhava para o corpo celeste.
— "Nada no mundo poderia me assustar"? Não me façam rir.
Pensando de volta à fofoca das damas da corte, Tousetsu baixou o olhar ligeiramente. Seus longos cílios projetavam sombras de lua em seus olhos amendoados.
Até a "glacial chefe das damas da corte" conhecida por sua calma e compostura tinha algo que temia.
E isso, é claro, era o pensamento de perder sua amada senhora.
Ninguém percebia com que frequência ela verificava a frequência respiratória e o pulso de Reirin enquanto a garota jazia como morta na cama. Ninguém percebia o alívio palpável que ela sentia e o quanto agradecia profusamente aos céus cada vez que Reirin sorria para ela ao se recuperar de uma doença. Ninguém tinha a menor ideia do que passava pela mente de Tousetsu naqueles momentos.
Se havia uma pessoa que tinha uma ideia do que ela sentia, seria a Imperatriz Kenshuu. A mulher que ordenara a Tousetsu, na época sua atendente, que se tornasse a chefe das damas da corte de Reirin para "ampliar seus horizontes".
Kenshuu era a única que sabia de tudo: tanto o quão profundamente Tousetsu reverenciava Reirin agora quanto o quanto a desprezara quando se conheceram.
— Já faz um ano desde que conheci a Dama Reirin.
Traçando ociosamente os caminhos dos raios de luar que caíam sobre o claustro, ela pensou de volta ao dia em que recebeu a ordem de se tornar a atendente da Donzela — de começar a servir sob Reirin.
— "A senhora quer que eu me torne a atendente da Donzela?"
Aquele dia marcou a primeira vez que Tousetsu desrespeitara a todo-poderosa imperatriz ao erguer a voz para ela. Nem é preciso dizer, foi porque ela não estava satisfeita com a ordem que recebera.
Ser nomeada chefe das damas da corte de uma Donzela na idade madura de vinte e três anos — e a Donzela do clã com maior influência na corte, sem mais nem menos — era algo que qualquer outra pessoa consideraria uma honra da mais alta ordem. Na verdade, Tousetsu fora considerada uma das novatas entre as atendentes da imperatriz até então, com sorte de sequer se vestir em gamboge-ouro. Tornar-se a "chefe" de qualquer coisa deveria ter sido uma notícia boa o suficiente para fazê-la corar de emoção. No entanto, essa era sua opinião sobre o assunto:
— Fiz algo para desagradá-la?
— Ora, por que essa é sua primeira suposição? Não acabei de dizer que tenho uma boa opinião sobre você? Reirin é a menina dos meus olhos. Quem mais eu colocaria para cuidar da preciosa garotinha que minha irmã me deixou senão alguém em quem confio?
O rosto de Tousetsu permaneceu sem expressão, mas seu olhar baixou ligeiramente.
Kenshuu soltou um pequeno suspiro.
— Por favor. Para alguém com o apelido de "dama da corte glacial", você é uma criaturinha exagerada.
— Só quando se trata da senhora, Sua Majestade. E se me permito acrescentar, a maioria dos membros do clã Kou é do tipo exagerado — disse Tousetsu, tomando cuidado para enfatizar casualmente sua herança Kou.
Kenshuu respondeu com nada além de um encolher de ombros. Provavelmente porque sabia que a dama da corte ajoelhada diante dela tinha sangue Gen mais forte do que qualquer outra coisa.
Tousetsu conhecia a ferocidade de sua própria natureza melhor do que ninguém. Na maior parte do tempo, ela era do tipo indiferente — ou melhor, desprovida de interesse pela maioria das coisas. Apesar disso, ou talvez por essa mesma razão, assim que conhecia alguém digno de sua devoção, ela ansiava por dedicar cada fibra de seu ser a essa pessoa.
Tanto quanto Tousetsu estava preocupada, essa pessoa era a Imperatriz Kenshuu.
Ela tinha uma postura digna condizente com o título de imperatriz. Era sábia. Magnânima. Em cada um desses aspectos, ela estava num palco que parecia fora do alcance de qualquer outra pessoa. Tousetsu estivera quase extasiada ao pensar que poderia servir como as mãos e os pés de um ser tão supremo.
Foi por essa razão que ela não tinha sentimentos positivos sobre sua promoção. Muito pelo contrário: ela só sentia o desespero de ser descartada pela senhora a quem deveria servir.
Apesar dos rumores sobre a beleza e o talento excepcionais de Kou Reirin, ela era uma garota de menos de quinze anos. Teria sido irracional esperar as mesmas coisas dela que Tousetsu sentia de Kenshuu: os vislumbres de um governante todo-poderoso ou aquele ar formidável que a inspirava a dedicar toda a sua vida.
— No entanto... se é isso que a senhora ordena de mim, então farei o meu melhor.
Foi tudo o que Tousetsu conseguiu forçar como resposta.
Agora que Tousetsu aceitara sua nova posição de chefe das damas da corte, ela não ia negligenciar os deveres que Kenshuu lhe confiara. Ela fez todos os esforços para montar o espaço de vida ideal em preparação para a chegada de Reirin.
— A senhora deve ser a Dama Tousetsu. Tenho muito a aprender, mas sou grata por ter sua orientação.
A garota que ela finalmente acolheu na corte era de fato tão bela que o deus da caligrafia que esboça os semblantes de todos os mortais deve ter se esforçado um pouco mais ao florear seu pincel para ela. Seu rosto tinha a aparência de uma flor em desabrochar e irradiava inteligência e graça, e embora seus membros fossem esbeltos, ela não parecia tão magra ou definhada quanto Tousetsu temera.
No entanto, Tousetsu não gostou de seu sorriso tímido e voz suave.
— Sou apenas uma simples dama da corte. Por favor, chame-me de "Tousetsu".
— Oh, querida. Peço desculpas.
— E devo pedir que a senhora não se desculpe tão prontamente com alguém inferior.
A única pessoa que Tousetsu respeitava era a Imperatriz Kenshuu. Ela sozinha era como a grande terra que podia aquietar até os mares furiosos. Sua dignidade e porte régio e orgulhoso eram suficientes para fazer a dama da corte se ajoelhar.
Comparada a ela, embora a garota diante de Tousetsu pudesse ser virtuosa, ela não parecia ser de um calibre particularmente elevado. Quando a garota respondeu à repreensão gelada dizendo "Peço descul... ops!" e então jogou as mãos sobre a boca, Tousetsu teve que desviar o olhar.
— Pare de agradecer a ela, senhora. Essa é uma dama da corte amarelo-pálido.
— Mas ela se deu ao trabalho de colher flores para mim, Tousetsu!
— Por favor, permita-nos aplicar seus cosméticos.
— Obrigada, Tousetsu, mas gostaria de experimentar este rouge eu mesma.
— A senhora deseja servir um chá tão precioso aos eunucos?
— Vai envelhecer e ficar rançoso se eu guardar tudo para mim. Tenho certeza de que o chá ficaria feliz em que todos nós o bebêssemos juntos enquanto ainda está fresco. Bebam, honrados Olhos de Águia! Obrigada por seu serviço.
Os mesmos tipos de cenas se repetiam uma e outra vez.
Reirin era uma garota inteligente. Provavelmente nascida talentosa, ela se destacava em todas as habilidades essenciais para uma nobre — como dança, caligrafia e bordado — sem sequer precisar ser ensinada, e tinha um coração de ouro para combinar.
Ainda assim, Tousetsu pensava que a maneira como ela sempre sorria até para as damas da corte de baixo escalão e distribuía favores à menor oportunidade a fazia parecer uma puxa-saco, e que seu hábito de tentar fazer tudo sozinha era indigno de uma líder.
Essa garota um dia se tornaria a senhora do Palácio do Qilin Dourado e do Pátio das Donzelas como um todo. Seu sorriso, palavras de gratidão e favores não deveriam ser dados com tanta leviandade.
Além disso, Reirin sempre mandava Tousetsu e o resto das damas da corte para outro lugar assim que terminava o jantar. Se fosse Kenshuu, ela teria persistido em seus estudos até a noite, jogando Go ou recitando as escrituras com suas damas da corte instruídas.
Em dez dias, Tousetsu solidificara sua conclusão de que Kou Reirin não era alguém que valesse a pena dedicar sua vida. No entanto, ela sabia muito bem que renunciar ao cargo de chefe das damas da corte depois de tão pouco tempo prejudicaria tanto a reputação de Reirin quanto a de Kenshuu. E assim foi que Tousetsu buscou uma reunião com Kenshuu para solicitar seu consentimento privado para renunciar ao cargo.
O que ela recebeu em troca foi uma pergunta inesperada.
— Diga, Tousetsu. O que você normalmente faz depois da hora do macaco?
— Como?
— Você já acompanhou Reirin até as horas tardias da noite?
— Não... Não acompanhei.
A hora do macaco era por volta da hora em que o jantar terminava. Como Reirin passava o resto de suas noites trancada em seu aposento, Tousetsu sempre presumira que ela gostava de dormir cedo e a deixara em paz.
Kenshuu deu uma risadinha silenciosa quando Tousetsu hesitou. Ela então lhe disse:
— Vá dar uma olhada. Sua decisão pode esperar até lá.
Embora se recusasse a se explicar mais, a palavra da imperatriz era lei. Algum tempo depois do anoitecer, Tousetsu seguiu suas ordens e se esgueirou até o aposento de Reirin. Era hábil em esconder o som de seus passos.
Quando ela espiou pela porta, viu que Reirin já se trocara para sua roupa de dormir, uma túnica branca. Sua cama também estava arrumada. Tudo estava pronto para ela se deitar a qualquer momento.
Mas quando Tousetsu percebeu o que Reirin estava fazendo ao lado de sua cama naquele aposento iluminado apenas pelo luar, ficou sem palavras.
— Oh!
Reirin estava dançando. E muito lentamente. Ela erguia os braços, depois os abaixava. Levantava uma perna até ficar paralela ao chão, depois a abaixava.
Ela se abaixava um pouco e então começava o mesmo processo novamente, fazendo cinco ou seis respirações de cada vez. Sendo uma mulher Gen realizada nas artes marciais, Tousetsu sabia o peso que aquilo devia estar colocando sobre os músculos das pernas e na região lombar para sustentar seu peso.
— Agh...
De vez em quando, Reirin cobria a boca com as mãos como se estivesse tentando resistir a uma onda de náusea. Mesmo depois disso, uma vez que olhava para o chão e estabilizava a respiração, ela voltava a dançar.
Ao examinar mais de perto, havia inúmeras escrituras empilhadas nas prateleiras atrás dela. Muitos outros itens ali davam um cheiro do treinamento a que ela se submetera: um tabuleiro de Go, incenso e queimadores que ela devia ter combinado, ferramentas de bordado e utensílios de chá.
Não acredito...
Tousetsu contemplou aquele espetáculo em espanto.
Esta era Kou Reirin, a garota que sempre usara um sorriso tão adorável. Ela parecia uma garota agraciada com abundante talento pelos céus que pouco fazia além de ficar em pé e parecer graciosa, mas isso não poderia estar mais longe da verdade. Toda a sua habilidade fora apoiada por um nível impressionante de esforço.
— Ugh — gemeu Reirin novamente, desta vez agachando-se no local. Depois de alguns longos momentos no chão, ela exalou uma respiração profunda para se animar e se levantou novamente. Colocou seus instrumentos de treinamento de volta em seus lugares nas prateleiras e então desabou em sua cama numa pilha emaranhada. Conseguiu o esforço de puxar as cobertas ao seu redor e então pareceu cair no sono. No entanto, estava claro que ela estava em mau estado.
Tousetsu tomou uma decisão.
— Senhora — chamou ela através da porta.
Não houve resposta.
— Senhora... Dama Reirin. É Tousetsu. Estou entrando.
Quando ainda não veio resposta, Tousetsu se armou de coragem e entrou no aposento de sua senhora sem permissão.
Ela então espiou a garota dormindo na cama. Acendeu todas as lâmpadas do aposento para ter certeza, mas sua tez não parecia tão ruim. No entanto, achando estranho que todas aquelas luzes brilhantes não tivessem sido suficientes para acordá-la, Tousetsu estendeu a mão e pegou o braço da garota por impulso.
— O quê?!
Reirin estava quente. Seu pulso estava alarmantemente rápido. Era seguro assumir que ela estava doente — e que este era um caso bastante grave. Tousetsu colocou a mão em sua testa para ter certeza, e ela estava queimando. A garota não adormecera; ela desmaiara.
Por que não percebi isso antes?! Tousetsu perguntou-se, estalando a língua contra sua própria inutilidade.
Foi então que Tousetsu de repente notou algo: sentira o que parecia ser pó branco esfregar em suas pontas de dedo quando tocou a testa de Reirin.
Meio incrédula, ela molhou uma toalha de mão usando um jarro de água no canto do aposento e então limpou as bochechas macias da garota. Quando o fez, uma cor pêssego pálido semelhante a um tom de pele saudável saiu no pano.
O que apareceu no rosto da garota em seu lugar era pele pálida tomada pela febre.
Tousetsu deixou escapar um murmúrio angustiado apesar de si mesma.
— Oh, Dama Reirin... Como eu poderia saber?
Não era sua natureza amigável que fizera Reirin insistir em fazer sua própria maquiagem, não importa quantas vezes Tousetsu a repreendesse por isso. Era para que aqueles ao seu redor não notassem quando ela estava doente.
Tousetsu engoliu a emoção que ameaçava brotar dentro dela e sacudiu a garota adormecida.
— Dama Reirin! Dama Reirin! Como a senhora está? Está bem?! Posso chamar o boticário imediatamente!
— Tousetsu...?
A voz de sua dama da corte deve ter chegado até ela; as pálpebras de Reirin se abriram ao chamado.
No entanto, tudo o que ela fez foi sorrir um sorriso demasiadamente natural e dar um aceno gentil.
— Está tudo bem, Tousetsu. Já tomei meu remédio. Minha temperatura já terá baixado até amanhã. Sempre acabo com febre quando fico cansada. É bastante inconveniente...
A maneira como ela hesitou no final traía sua exaustão, mas seu tom era o epítome da serenidade.
Ela moveu apenas os olhos para olhar para Tousetsu e então sorriu ainda mais.
— Desculpe por fazê-la se preoc... ah, não, desculpei-me novamente...
— Tudo bem. Não importa. Por favor, não se preocupe mais com essas coisas — implorou Tousetsu numa voz carregada de urgência.
— Tudo bem — foi tudo o que Reirin disse num murmúrio lento.
Mas então, bem antes de desmaiar novamente, ela acrescentou uma última coisa:
— Obrigada por tudo o que você faz.
Tousetsu mergulhou no silêncio, seu rosto tenso de tensão.
Muito depois de Reirin ter fechado os olhos e caído na respiração rítmica do sono, Tousetsu permaneceu ajoelhada ao lado de sua cama como a tola que era.
Ela percebera a verdade. Essa garota aplicava sua própria maquiagem não como uma demonstração de independência, mas para evitar que outras pessoas se preocupassem com ela.
E havia mais uma coisa.
Quando ela diz "Obrigada", ela realmente quer dizer "Adeus" .
A razão pela qual ela era tão liberal com sua gratidão era para que pudesse se separar daquela pessoa sem arrependimentos.
— Dama Reirin... A senhora é...
Muito provavelmente, a garota era muito mais doente do que Tousetsu acreditara. Ela tivera encontros suficientes com a morte para se acostumar a desmaiar. Inúmeras vezes, ela deve ter ido para a cama à noite com medo de não acordar na manhã seguinte.
Essa era a razão pela qual ela sempre dizia seus agradecimentos. Distribuindo sua fortuna e expressando sua gratidão na hora, ela poderia morrer a qualquer momento sem arrependimentos. Essa era a maneira como aquela garota de não mais de quinze anos vivera sua vida. Ela treinava seu corpo até os limites mesmo enquanto estava tomada pela doença, e então escondia tudo atrás de um sorriso.
— A senhora é...
Os olhos de Tousetsu se encheram de lágrimas. As emoções que brotavam dentro dela irromperam como águas furiosas, rompendo a barragem de seu coração e inundando todo o seu corpo. Foi naquele momento que ela aceitou inequivocamente Kou Reirin como sua verdadeira senhora.
Aquela sua senhora era a maior maquiadora que existia. Ela polvilhava o rosto com engano, coloria as bochechas com um rouge chamado mentira e falava palavras de gratidão que na verdade significavam despedida.
Tousetsu nunca conhecera uma senhora tão resoluta — e tão isolada do mundo.
— Dama Reirin. Sou sua fiel serva. Por favor, permita-me ficar ao seu lado. Por favor... permita-me um vislumbre de seu verdadeiro rosto — conseguiu ela finalmente numa voz trêmula.
Ela mudou sua pegada na toalha de mão enrolada em seu punho e a usou para remover o resto da maquiagem. Não poderia ter sido bom para o corpo dela manter aqueles cosméticos o tempo todo.
A partir daquele momento, Tousetsu se tornou a mais fiel dama da corte de Reirin de todas.
"Permita-me um vislumbre de seu verdadeiro rosto", foi?
Contemplando o cometa mais uma vez, Tousetsu se perdeu em pensamento.
Aquele desejo certamente era algo que qualquer pessoa próxima a Reirin guardava em seu coração.
Ao contemplar aquela estrela atravessando o céu na noite do Festival de Tanabata, Tousetsu chegara a murmurar o seguinte em espírito: Por favor, deixe-a aprender a ser mais honesta comigo. Se ela me mostrar seu verdadeiro rosto, não importa o quão feia seja a visão, juro dar tudo de mim para protegê-la.
Tousetsu contemplou o cometa em silêncio. A estrela daquela noite fora um bom ou mau agouro? Tousetsu ao mesmo tempo sentia e não sentia que seu desejo se realizara.
A Dama Reirin tem usado suas emoções à flor da pele ultimamente.
Desde que ela caíra do pagode, Reirin mudara. Tornara-se emocionalmente instável e dormira os dias sem se preocupar com as aparências. Mas então novamente, era natural que ela estivesse agindo um pouco estranha depois de uma experiência tão traumática, e Tousetsu era a que desejara que a garota expressasse suas emoções mais abertamente.
Mas... o que é isso?
Tousetsu estava aterrorizada em investigar isso com muita profundidade. Um passo em falso poderia levá-la a rejeitar sua própria Suprema sob a lógica de que não podia respeitar uma mestre que mostraria fraqueza. Apesar de essa ser exatamente a coisa que ela desejara.
— "Nada no mundo poderia me assustar"? Não me façam rir — Tousetsu murmurou novamente, e então deu um pequeno balançar de cabeça para limpar sua mente.
Depois de repreender aquelas damas da corte, ela estaria dando um mau exemplo se passasse muito tempo vagando pelo claustro olhando para as estrelas.
Ainda havia meio dia até o Festival dos Fantasmas. Se Reirin ainda fosse a garota que Tousetsu aprendera a conhecer, havia todas as chances de que ela se recuperasse e entrasse na cerimônia com um sorriso no rosto. E fizesse pleno uso de seus cosméticos pálidos favoritos para isso.
— É melhor eu preparar o melhor dos cosméticos — murmurou ela, e então seguiu seu caminho.
Mas alguma parte dela sabia que aqueles cosméticos não seriam usados no dia seguinte.
𓂃 ࣪˖ ִֶָ𐀔
— É hora, senhora.
— Obrigada por avisar, Leelee.
Dentro do depósito banhado pela brilhante luz da manhã, Reirin ergueu o olhar de onde estivera usando uma tina cheia de água como espelho, puxou o mindinho dos lábios e se virou com um sorriso.
— Tempo perfeito. Acabei de terminar de aplicar minha maquiagem.
No momento em que Leelee viu a figura completa de Reirin, exalou uma respiração profunda que soou algo entre um suspiro e talvez até um gemido.
— O que foi? Passei rouge demais? — perguntou Reirin com uma pequena inclinação de cabeça.
— Não, não é isso. — Leelee balançou a cabeça, sua boca se torcendo timidamente. — Uh... Fiquei surpresa com o quão bonita — quer dizer, que a senhora conseguiu se arrumar tão bem.
— Sério? Hee hee! Ora, muito obrigada! — A Donzela soltou uma risadinha alegre, não se ofendendo nem um pouco com o elogio indireto.
Ela retribuiu o favor com um completamente sincero "Você também está linda", mas Leelee estava pensativa demais para se importar. Algo não estava certo.
— A senhora não é boa demais nisso? Tipo, conseguiu mudar completamente sua aparência... Isso exige um nível de habilidade que até um mestre maquiador só alcançaria após dez anos de prática .
— Ora, você me lisonjeia!
Reirin achava charmoso que sua dama da corte tivesse um interesse tão entusiástico em técnicas de maquiagem quanto qualquer outra garota de sua idade.
— Mas... suponho que isso faça sentido. É mais ou menos quanto tempo tenho trabalhado nisso.
— Hein? — perguntou Leelee, não conseguindo entender o que ela dissera.
— Ah, nada — respondeu Reirin, desviando da pergunta com uma risada. Ela então segurou a porta do depósito. — Venha!
O jardim outrora tomado por ervas daninhas estava agora organizado em fileiras ordenadas de canteiros, e em algum momento, ela até conseguira abrir um caminho estreito para o depósito. Ao sair para o caminho de terra batida sem uma erva daninha à vista, Reirin chamou sua dama da corte para se juntar a ela.
— Já faz algum tempo, não? Lá vamos nós para o Pátio das Donzelas!
Os tons do céu eram de tirar o fôlego, e o cometa ainda certamente deixando um rastro pálido pelo céu estava agora completamente bloqueado pelo sol deslumbrante. Era como se ele cuspisse na cara de todos os desejos feitos a ele — fossem eles para ver uma paixão toda arrumada ou para ter um vislumbre do verdadeiro rosto de um ente querido.
Despreocupada com aqueles que a esperariam e o choque que estava prestes a lhes dar, Reirin seguiu pelo caminho para o Pátio das Donzelas em bom humor.
Traduzido por Moonlight Valley
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