Capítulo 1: Reirin Troca de Corpos
Capítulo 1: Reirin Troca de Corpos
— E u o quê? — a acusada murmurou incrédula.
Tousetsu soltou um riso de escárnio diante da reação de Reirin — não, de "Shu Keigetsu".
— Não finja que não entende. Num acesso de ciúmes irracionais, você se aproveitou do momento em que estávamos distraídos pelas estrelas cadentes para empurrar a indefesa Dama Reirin do pagode. Todos os presentes a ouviram difamá-la como "mulher amaldiçoada".
— Eu...
Ela se lembrava disso.
De fato, Reirin ouvira Keigetsu gritar isso enquanto se aproximava, seus cabelos voando em todas as direções. Momentos depois, sentira o clarão da luz do cometa queimando-a por dentro, e antes que percebesse o que estava acontecendo, encontrou-se agachada no local. E então, na borda de sua consciência desvanecente, ouvira o que soava como "Reirin" gritando e algo batendo no telhado.
Em outras palavras... foi naquele momento que a Dama Keigetsu e eu trocamos de corpos. Por mais inacreditável que fosse, era a única explicação que conseguia encontrar.
Com as mãos agarradas às barras de ferro, Reirin lançou-se em direção a Tousetsu.
— Hum, não sei se vai acreditar em mim, mas eu sou...
No entanto, no momento em que tentou terminar aquela frase com "Reirin", para seu grande desgosto, sentiu o ar escapar de seus pulmões. Uma e outra vez tentou dizer seu nome, mas cada vez, sua voz se desvaneceu no ar. Reirin ficou perplexa.
O que está acontecendo?!
Ela tentou comunicar que não era Shu Keigetsu, nem que fosse, mas seus lábios se recusavam a formar o nome. E não apenas o nome — quaisquer palavras que pudessem descrever sua situação, como "trocamos de lugar" ou "pessoa diferente", não conseguiam produzir som em sua garganta.
Tirando suas próprias conclusões sobre o porquê de Reirin ficar abrindo e fechando a boca, Tousetsu franziu o cenho em desgosto.
— Quer dizer que não pretendia prejudicá-la? Como é ridículo que você nem consiga inventar uma desculpa decente.
Parecia que Tousetsu tinha a "Shu Keigetsu" no mais alto desprezo.
Como faço para dizer que sou a Reirin?
Tomada por um lampejo de inspiração, Reirin ergueu a voz.
— Tousetsu! Eu sei que você gosta de doces. É especialmente fã de bolos lunares. Pasta de feijão vermelho é seu recheio preferido. Cavala é seu peixe favorito. Você tem baixa tolerância ao álcool, o que dificulta as coisas quando sua posição exige tantas ocasiões sociais com bebidas entre os burocratas. Não é verdade?
Sua ideia era recitar fatos que só as duas saberiam. Certamente Tousetsu, conhecida por sua inteligência e compostura, perceberia o que estava acontecendo em breve.
— Você tem um irmão mais novo. O nome dele é Kouyuu. A diferença de idade é perfeita para torná-lo o queridinho de seus olhos. Ah, acredito que ele tinha a mesma idade que eu! É por isso que, não muito depois de você começar a me servir no Pátio das Donzelas, você me pediu para pensar em você como uma irmã mais velha...
— Silêncio, sua bruxa podre — interrompeu Tousetsu. Sua voz era imensuravelmente mais sombria do que a que usara momentos antes.
Reirin engoliu em seco.
— Tousetsu?
— Nunca mais quero ouvir você... um rato de esgoto atrevido como você, sem um pingo de beleza, talento ou decência em seu nome, imitar a Dama Reirin! Deixe-me contar uma coisa: já soube que você se esgueirou em seu quarto e roubou seu diário há alguns dias.
Reirin ficou surpresa com o tom severo de sua dama da corte, mas ainda mais com o que ela estava dizendo. Eu nem tenho um diário!
Tousetsu continuou a enfurecer-se, sem se importar com a consternação de Reirin.
— Ela nos contou sobre seu roubo, apesar da terrível febre que atormentava seu corpo. "Não relatei antes para não preocupá-los, mas temo que Shu Keigetsu possa usar pistas do meu diário para machucar aqueles próximos a mim ou talvez até mesmo conquistá-los para seu lado. Não seria certo continuar em silêncio sobre isso por mais tempo", disse ela.
Com isso, a dama da corte lançou a Reirin um olhar capaz de matar.
— Você pensou que se lesse o diário dela e imitasse seus maneirismos, poderia se transformar na Dama Reirin?! Bem, você estava redondamente enganada! — rugiu.

Reirin ficou atônita.
Mas eu sou a Reirin!
Por mais ridículo que parecesse, havia uma boa chance de que o corpo de "Reirin" abrigasse atualmente a alma de Shu Keigetsu. Suas ações — ou seja, tramar para impedir que alguém descobrisse que a verdadeira identidade de "Shu Keigetsu" era a própria Reirin — sugeriam nada menos que malícia. Em outras palavras, essa troca não fora um acidente fortuito, mas algo que ela orquestrara para tomar o lugar de Reirin.
— Para um rato imundo como você ter a audácia de invejar a adorável, sábia e benevolente Dama Reirin, que honrou nossa terra como uma donzela celestial em carne e osso, é o auge da arrogância.
— Uma donzela celestial?! Hum, eu diria que isso é um pouco exagerado...
— Você ousa zombar de uma alma tão pura quanto a da Dama Reirin, seu rato de esgoto?!
— Sim, senhora! Sou um rato de esgoto!
Não havia como subestimar a autoridade no tom de Tousetsu — ou melhor, a intensidade de seu amor por sua Donzela. Era o suficiente para fazer Reirin repetir o insulto de volta no calor do momento.
O que fazer? A lealdade dela está cegando-a para a situação de sua senhora...
Dado o quão raramente ela mostrava emoção em seu rosto, Reirin considerava Tousetsu o tipo sensato, mas parecia que ela era bastante apaixonada por sua senhora. Ou talvez fosse a constituição frágil de Reirin que a levava a ver a garota sob uma luz tão idealizada.
— Com... licença...
— De acordo com as leis do pátio interior, suspeitas como você devem passar pelo Julgamento do Leão. Sua vítima, a Dama Reirin, deve testemunhar. No entanto, em suas próprias palavras, ela não tem desejo de assistir a algo tão desagradável quanto o respingo de seu sangue imundo... Que sensível e compassiva ela é.
— Tem certeza de que essa é a reação apropriada?... Quer dizer, uh, nada!
— Considere isso a misericórdia da Dama Reirin. Sinta-se livre para engoli-la.
Enquanto Reirin ainda se recuperava daquela demonstração fervorosa de lealdade, Tousetsu empurrou um pequeno comprimido diante dela. Não exigia muita imaginação para deduzir que se tratava de veneno.
— Hum...
— Já falei com os guardas. O Julgamento do Leão começará dentro de uma hora. Quando esta vela se apagar, peço que reflita sobre seus pecados e dê fim à sua própria vida.
Entregando aquela linha final em seu tom suave habitual, Tousetsu removeu a vela do suporte, entregou-a a Reirin através das barras e girou rapidamente sobre o calcanhar.
Tendo aceitado a vela oferecida por reflexo, Reirin franziu o cenho em perplexidade.
— Devo morrer pelo crime de ter machucado a mim mesma?
Que irônico.
— Hee hee... Ahá há há! Bem feito!
Foi quando ouviu uma gargalhada estrondosa.
— Hein?!
Reirin ergueu a cabeça, surpresa — mas não, a voz tinha que ter vindo de algum lugar bem ao seu lado. Ela olhou em volta, quase incrédula, e ali, na chama bruxuleante da vela, estava nada menos que o rosto sorridente de "Kou Reirin".
— Surpresa? Esta é a arte da miragem de chamas. O fogo é o servo fiel de nosso clã Shu. Com concentração suficiente, qualquer chama pode manifestar a imagem do praticante.
— O praticante? Você é uma cultivadora que dominou as artes místicas? Não, antes disso... — Ela perguntara por pura surpresa, mas ao umedecer os lábios, Reirin reconsiderou sua pergunta para a garota refletida nas chamas. — Você é... a Dama Shu Keigetsu?
— Sim, sou eu. Embora agora eu tenha me tornado "Kou Reirin" — respondeu Keigetsu sem um momento de hesitação. Então ela torceu o rosto de Reirin num sorriso de escárnio. — E você se tornou "Shu Keigetsu", a grande vilã que tentou assassiná-la. O que está achando da masmorra do Pátio das Donzelas? Com todos os ratos e insetos rastejando por aí, uma garota comum enlouqueceria em questão de horas.
— Por que você faria...? — murmurou Reirin antes de conseguir se conter.
A outra garota respondeu com um erguer de sobrancelha zombeteiro.
— Para acertar as coisas.
— O quê?
— Você me ouviu. Como é justo que você tenha sido abençoada com tudo? Você nasceu sobrinha da imperatriz toda-poderosa, favorecida por Sua Alteza e amada pelas damas da corte. E enquanto isso, eu sofro — ah, estou queimando! Tudo dói, pelo amor dos céus!
Keigetsu passou a mão pelos cabelos, frustrada, e então afrouxou o colarinho de sua vestimenta. Pelo som, o corpo de Reirin estava com febre.
— Eu tenho a bondosa mas impotente Nobre Consorte Shu. Damas da corte desagradáveis. Aparência longe de ser boa o bastante para chamar a atenção de Sua Alteza. Estou cansada disso. Mas foi aí que tive uma solução maravilhosa.
Ela soltou a mão dos cabelos, um brilho aguçado cintilando em seus olhos. O sorriso presunçoso que puxava em seus lábios dava-lhe a aparência de um gato encarando um rato.

— Bastava trocarmos de vida. Você prepararia o palco para mim, e no momento em que estivesse no topo do mundo, eu tomaria seu lugar. Então você teria o gosto perfeito de todo o infortúnio que eu sofri. — A garota soltou uma risadinha absolutamente encantada. — Você não sabe o que é ser desprezada. Ser menosprezada, ser maltratada. Você sempre teve alguém para protegê-la — para amá-la. Não vou tolerar isso!
Talvez preocupada que alguém pudesse ouvir, Keigetsu seguiu aquele acesso baixando a voz para um sussurro.
— Quero vê-la absolutamente miserável. Quero assistir enquanto as pessoas insultam você, atiram pedras em você e se recusam a acreditar em uma só palavra do que diz . Ah, e a propósito, lancei um feitiço que impede o corpo em que você está de comunicar qualquer coisa relacionada à nossa troca. Também providenciei para que "Shu Keigetsu" roubasse o diário de "Kou Reirin". Você nunca conseguirá provar quem realmente é.
Ah, então foi isso que aconteceu antes , pensou Reirin, satisfeita com a explicação.
Parecia que Keigetsu era bastante habilidosa nas artes taoístas, e seu comportamento de joelhos fracos escondia sua verdadeira astúcia. O corpo febril de Reirin, por outro lado, não conseguia lidar tão bem com a magia, e ela começou a cambalear.
— Ah, me poupe! A palavra "delicada" soa tão bonita, mas "fraco" é tudo o que este corpo realmente é. Alguns hematomas e você já está com febre? Não acredito nisso.
— Hum... Por que não se deita? Seria uma boa ideia resfriar a testa e a pele perto de suas maiores artérias. Para ser mais específica, seu pescoço, axilas e...
— Cale a boca! Você entende a posição em que está? — gritou Keigetsu, interrompendo o conselho preocupado de Reirin. — Adivinhe? Você vai morrer em breve. Aqui, vou contar algo interessante: seu Julgamento do Leão será conduzido pelo capitão impiedoso dos Olhos de Águia. Você não tem chance de sobrevivência. Mesmo se tomar o veneno que dei a Tousetsu, qualquer covarde que recorrer ao suicídio terá seu corpo arrastado para o local do ritual e apedrejado. Você vai morrer uma morte miserável, banhada no desprezo e ridículo de uma multidão.
Ela pontuou cuidadosamente cada palavra, fazendo o possível para enfatizar o ponto.
— Adeus, Kou Reirin. Passe seus momentos finais vivendo com medo dos passos da Morte, cercada de ratos imundos.
Com um último golpe de despedida, Keigetsu franziu os lábios e apagou a chama. No mesmo instante, a vela que Reirin contemplava também se apagou.
Deixada sozinha para olhar para as fumaças que subiam da vela, Reirin ficou em silêncio por algum tempo.
— Isso é terrível — murmurou por fim.
Já que aquela fora sua primeira vez vendo alguém empunhar as artes místicas, todo o encontro quase parecia um sonho. No entanto, ela sabia que havia se metido em uma grande confusão.
O que eu poderia ter feito para que a Dama Keigetsu me desprezasse tanto?
Lágrimas marejaram seus olhos ao perceber que nunca antes fora recebida com tanta hostilidade. A culpa era tão avassaladora que ela pensou que poderia desmaiar.
Oh...? Ela piscou em surpresa súbita. Mas isso significa que ainda estou consciente!
Caiu-lhe a ficha de que pensar que poderia desmaiar, paradoxalmente, significava que ainda não o fizera. Seus braços se moveram, tocando e examinando as várias partes de seu corpo.
— Meus joelhos não estão tremendo... Meus braços não estão dormentes... Não estou sem fôlego... Meu pulso está por volta de sessenta!
Cobrindo a boca com as mãos, soltou um abafado grito de alegria.
Isso é incrível! Eu sempre desmaiava se fosse um pouco descuidada!
Poucos fora de seu clã sabiam a verdade, mas Reirin possuía uma constituição um tanto frágil. Desde criança, tudo o que precisava para ficar gravemente doente eram os motivos mais triviais: calor demais, frio demais, cansaço, ter saído de casa... Embora graças a seus próprios esforços incansáveis, ela conseguira se recuperar antes que sua condição jamais se agravasse demais nos últimos anos.
Keigetsu ainda não percebera isso, mas não fora a queda do pagode que fizera o corpo de "Kou Reirin" pegar febre. Negligenciar aqueles esforços incansáveis simplesmente permitira que sua predisposição a adoecer a cada três dias mostrasse sua face feia.
Que corpo saudável! Ora, estou com tanta inveja!
Reirin engoliu em seco. Por um momento, quase esquecera suas circunstâncias e se considerara sortuda por ter trocado de lugar com Keigetsu.
Não, Reirin malvada! Aquele corpo foi o presente de meus pais para mim. É meu dever viver com ele até o dia em que morrer.
Franzindo o cenho, ela juntou as mãos e assentiu sabiamente para seu próprio conselho. Francamente, ainda havia uma parte dela que queria ceder à tentação.
O barulho que fazia despertou um rato no canto, que soltou um guincho. Quase por instinto, ela estalou a língua para chamar sua atenção e então fez cócegas na ponta de seu dedo quando ele se aproximou o bastante. Um dos aspectos de seus esforços incansáveis a tornara bastante hábil em domar roedores.
Bem, bem.
Enquanto Reirin olhava para o rato que corria alegremente, seus olhos já acostumados à escuridão, refletiu sobre sua situação com uma expressão solene. Keigetsu dissera para ela tremer com medo dos passos da Morte, cercada de ratos.
Mas o que nisso deveria ser um desafio?
Para Reirin, que mantinha ratos para experimentos com ervas e que entrava em estado crítico cada vez que adoecia, aquilo era o normal.
— Ah, vejo um inseto! Melhor pegá-lo para dar algo para o Sr. Rato comer.
Kou Reirin tinha reputação de ser uma dama frágil e delicada de alta posição, que não machucaria nem uma mosca. Keigetsu imaginara que jogá-la na masmorra a enlouqueceria em pouco tempo, mas isso fora um grande erro de cálculo.
Reirin não era nem um pouco delicada. Tendo sobrevivido a um número astronômico de encontros com a morte, a garota tinha nervos de aço.
Sol: Pessoas bom dia, boa tarde, boa noite. Quem fala aqui é o tradutor de vocês o ( literal ) Sol, espero que estejam todos bem, como já puderam perceber sou eu com a ajuda da Moon que vou traduzir essa maravilha de obra para vocês. Vou estar deixando algumas imagens pra ajudar na imaginação de vocês enquanto leem!

Bom eu espero que gostem dos nossos comentários e nos vemos no próximo! Ah mas antes disso, dá um alô ai minha revisora.
Moon: Alô!- Brincadeiras a parte, olá seres humanos leitores de todo o Brasil (ou, de onde você estiver lendo). Esta equipe maravilhosa aqui vos traz mais uma obra maravilhosa para que vós se deleitem… Espero que se divirtam lendo conosco, até o próximo capítulo! Jaaaneeeeee ~!!
Traduzido por Moonlight Valley
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