Capítulo 2: Reirin Enfrenta a Execução
Capítulo 2: Reirin Enfrenta a Execução
S hin-u encarou o céu, contrariado, e então soltou mais um suspiro cansado ao contemplar seus tons azuis deslumbrantes. Era um dia ensolarado, sem uma nuvem à vista. O tempo perfeito para uma execução.
— O Julgamento do Leão, hein? — murmurou ele sombriamente, acariciando a espada cerimonial que pendia de seu quadril. Esse era o nome do ritual que estava prestes a realizar. A suspeita era jogada na mesma jaula que um leão; se a fera a poupasse, era inocente, e se a devorasse, estava morta. Era um julgamento verdadeiramente brutal e arbitrário.
A prática remontava à lenda de um sábio que outrora liderara o Reino de Ei, cuja alma nobre inspirara uma fera a poupar sua vida, mas a versão contemporânea exigia irritar um leão faminto antes de enviá-lo para a jaula. A chance de sobrevivência era zero. Na prática, não era diferente de uma execução.
Uma jaula enorme fora montada no pátio no final do claustro, e ali as damas da corte e os eunucos formavam uma plateia. Seus olhos brilhavam como se aguardassem um espetáculo. A escolha de vestes negras humildes não passava de uma medida para evitar que o respingo do sangue da ré manchasse suas roupas.
Shin-u soltou mais um suspiro.
Se ao menos eu pudesse matá-la com um golpe só e acabar com isso.
O sentimento não nascia de misericórdia. Ele simplesmente detestava a visão inevitável da mulher gritando, implorando por sua vida e arrastando-se pela jaula em desgraça. Já havia testemunhado o Julgamento do Leão várias vezes antes, e nem mesmo homens feitos conseguiam se conter de gritar. Sabendo que uma garota — e Keigetsu, sem mais nem menos — certamente faria um escândalo, ele temia o espetáculo que viria.
Sei o bastante para entender o quanto Shu Keigetsu é um incômodo.
Apenas lembrar de todos os problemas que ela trouxera ao escritório dos Olhos de Águia era o suficiente para fazê-lo franzir o cenho. Embora a infame Donzela do clã Shu adorasse adotar um tom doce e se insinuar com os poderosos, como Gyoumei, Shin-u ou as quatro consortes, ela sempre fazia a tirana com os eunucos e as damas da corte de escalão inferior. Abusos verbais e insultos eram jogados como questão de costume. Em várias ocasiões, ela acusara suas próprias damas da corte de transgressões inventadas para reter seus salários como "punição", e intimidara os eunucos.
Por ser uma Donzela — uma das mais graduadas da corte — os Olhos de Águia pouco podiam fazer para mantê-la sob controle, contanto que ela se mantivesse longe de crimes mais graves como roubo ou assassinato. Agora que estava acusada, a tempestade de ressentimento que há muito fervia no Pátio das Donzelas irromperia e se abateria sobre ela de uma só vez. Normalmente, haveria tempo reservado para ofertas de misericórdia, onde aqueles que simpatizavam com a criminosa podiam alimentar a fera — em outras palavras, quanto mais virtuoso você fosse, melhores eram suas chances de escapar com vida — mas ninguém faria isso por ela.
Simplificando, o trabalho de Shin-u naquele dia era fazer algumas perguntas a uma mulher histérica como formalidade e depois recuperar os pedaços de carne que restassem dela.
"Capitão dos Olhos de Águia" pode soar como um título impressionante, mas na prática, não passa de mais um servo , pensou ele enquanto se arrastava até o pátio, torcendo os lábios em desagrado.
Ser um príncipe sem direito ao trono não passava de um inconveniente — tanto para si mesmo quanto para todos ao seu redor.
Shin-u sabia muito bem o porquê lhe haviam dado um trabalho tão sangrento e tedioso. Estava sendo testado. Conseguia dedicar-se ao seu papel de servo? Conseguia seguir suas ordens e eliminar todos os inimigos da Corte Imperial?
Ele estava sempre sendo vigiado. Alguns olhavam para ele com suspeita, imaginando quando poderia se tornar um traidor. Outros o temiam como um carrasco implacável. O mais ridículo de tudo eram as mulheres que o contemplavam com uma luxúria feia, atraídas por uma beleza que era apenas superficial.
Estou farto disso.
Francamente, ele achava tudo isso um incômodo. Seu tempo no pátio interior ensinara-lhe que o belo complexo abrigava nada além de uma massa de desejo malicioso, egoísta e interesseiro. Por essa razão, Shin-u jamais esboçara um sorriso desde que se tornara o capitão dos Olhos de Águia.
No momento em que colocou os pés na arena, o portão no fundo do pátio se abriu e entrou um leão gigante do tamanho de três homens adultos. Shin-u recebeu a fera dos tratadores e a conduziu cuidadosamente para dentro da jaula. Com um timing quase idêntico, Gyoumei, a imperatriz e as quatro consortes chegaram ao local e sentaram-se nos assentos de honra.
Todas as Donzelas, exceto Shu Keigetsu, estavam sentadas uma fileira atrás deles. Devido à sua febre, Kou Reirin recebera permissão especial para estender um tapete sob um pavilhão no jardim a uma curta distância e assistir de lá. Ela parecia ainda mais indefesa e desorientada do que o normal.
Depois de lançar um olhar preocupado na direção de Reirin, Gyoumei anunciou calmamente:
— Daremos início ao Julgamento do Leão para Shu Keigetsu.
Uma vez lidas as acusações contra a ré, ele perguntou se alguém desejava apresentar uma oferta de misericórdia. A multidão respondeu com um imediato "não".
Uma nuvem escura pairou sobre os traços gentis de sua guardiã, a Nobre Consorte Shu, mas por fim ela fez uma reverência profunda e disse:
— Se ela for inocente, não será devorada. Se for culpada do crime, então o que acontecer com ela não é mais da conta do clã Shu. De qualquer forma, uma oferta de misericórdia não será necessária.
Em outras palavras, ela não precisava de uma criminosa como parente. A plateia ergueu as sobrancelhas e nada disse à sua resposta hesitante, mas inofensiva.
— Tragam Shu Keigetsu aqui — ordenou Gyoumei, erguendo uma mão. Esse era o sinal para abrir o outro portão.
Shin-u se preparara para a garota aparecer chutando e gritando, mas quando se virou, teve que arquear a sobrancelha em descrença. Shu Keigetsu viera calmamente. Não teria sido surpresa para uma dama protegida como ela ter enlouquecido no momento em que foi jogada na masmorra, mas ela caminhou em linha reta, uma luz em seus olhos e seu olhar inabalável. Talvez devido à sua marcha graciosa, aquela túnica vermelha ostentosa parecia quase um pouco sofisticada.
— Aqui estou.
A maneira como ela se apresentou diante da jaula e fez uma reverência às dignidades não era menos nova. A plateia piscou em perplexidade. Até a vilã do Pátio das Donzelas se tornaria dócil diante do cadafalso, ao que parecia.
— Ó perversa Shu Keigetsu. Você empurrou minha borboleta — Kou Reirin, uma alma tão pura quanto uma donzela celestial — do Sétimo Pagode. Embora ninguém tenha testemunhado o momento em que a empurrou, seu próprio grito, o testemunho de Reirin, e tanto o antes quanto o depois são evidências suficientes de sua intenção de matá-la. Você se declara culpada de seus crimes? — perguntou Gyoumei, um frio em sua voz.
— Não — respondeu ela sem hesitação, fazendo uma reverência ao príncipe. Mas então, por razões que ninguém mais entendia, ela franziu o cenho e acrescentou num murmúrio: — Isto é, várias partes de seu relato não estão totalmente corretas... incluindo as palavras que usou para me descrever...
— O quê? Não apenas nega seu erro, mas se declara justa? — Descontente com sua resposta, o cenho de Gyoumei se tornou ainda mais sombrio.
Aflita, Shu Keigetsu ergueu a cabeça e deu uma resposta ainda mais incompreensível.
— Ah, não, não foi isso que quis dizer! Embora eu suponha que soe assim...
Evidentemente sem palavras, ela abriu e fechou a boca algumas vezes com um olhar de frustração. A multidão estivera tão perto de vê-la sob uma nova luz, mas agora seus olhares se tornaram frios ao pensarem: Ah, ela não mudou.
— Não importa — disse Gyoumei com um suspiro decepcionado e um balançar de cabeça. — A verdade virá à tona no Julgamento do Leão. Se você for genuinamente inocente, a fera se recusará a devorá-la. Ou, se preferir, Reirin gentilmente pediu que eu lhe permitisse a espada do capitão dos Olhos de Águia. Se se ajoelhar e pedir desculpas, permitirei que receba uma lâmina no coração em vez do julgamento.
— Hum, ambas as opções parecem bastante extremas...
Com o sofrimento estampado no rosto, Shu Keigetsu deixou de lado a etiqueta adequada e lançou-se em direção a Gyoumei.
— Suplico-lhe; ouça-me, nem que seja um pouco. Se você é verdadeiramente aquele elogiado como nosso governante benevolente, meu bondoso primo...
— Silêncio — interrompeu o príncipe, sua expressão cheia de raiva. Sua voz tremia, toda a sua compostura característica abandonada. — Só há uma pessoa em toda a criação que pode me chamar assim, e essa é Reirin. Disseram-me que você roubou o diário dela. Você achou que poderia ganhar meu favor imitando minha querida prima, sua diaba ardilosa?!
— Sim, senhor! Sou uma diaba!
Tão feroz foi seu discurso que Shu Keigetsu automaticamente assentiu em concordância.
Ainda incapaz de conter sua raiva, Gyoumei fez um sinal para Shin-u.
— Coloque-a na jaula.
O Julgamento do Leão começara. Shin-u empurrou a Donzela para dentro do recinto por trás. Parecia que ela estava com muito medo para resistir.
— Ah, não... Não acredito que cometi o mesmo erro duas vezes em tão pouco tempo. A afeição deles é um pouco excessiva demais...
Não, não era medo. Pressionando as mãos na testa, ela apenas refletia sobre seu erro.
Tendo notado a presença de um intruso, o leão rosnou e começou seu avanço lento. Quando a garota continuou a franzir o cenho e resmungar consigo mesma apesar da fera que se aproximava, Shin-u ficou intrigado o bastante para chamá-la através das barras da jaula.
— Ei. O Julgamento do Leão está em andamento.
— Hm? Sim, ao que parece.
Embora tenha erguido a cabeça, sua resposta foi tão casual quanto possível. Shin-u a encarou, imaginando se ela finalmente enlouquecera, mas seus olhos estavam perfeitamente focados. Ainda assim, ela deixava o problema passar por ela como uma brisa suave de primavera.
Ele teve que perguntar mais uma vez.
— Você entende sua situação? Está trancada numa jaula com uma fera faminta.
— Sim... Se ela me dilacerar com aquelas presas, suponho que morrerei.
— Supõe? Só isso?

Era tudo o que ela tinha a dizer sobre isso? Não que ele esperasse uma reação melhor, mas era inquietante vê-la tão calma.
O que está acontecendo? Ela sempre foi assim?
Até mesmo um mestre da espada teria dificuldade em manter a calma com uma fera tão selvagem se aproximando. Assim como um senhor da guerra que sobrevivera a inúmeros encontros com a morte poderia contemplar calmamente o campo de batalha, ou talvez como um sábio que atravessara inúmeros infernos pudesse atingir um estado de iluminação, a mulher diante dele não fazia nada além de ficar ali, inabalável.
— A ideia da morte não te assusta?
— Estou acostumada.
— O quê?
Ele lançou-lhe outro olhar, curioso sobre como uma Donzela protegida nas profundezas da corte poderia dizer algo assim. O olhar em seus olhos se tornou um pouco distante enquanto ela respondia com toda a naturalidade:
— Até o momento em que se morre, ainda se está vivo. Da mesma forma, até o momento em que for devorada, isso ainda não aconteceu. Começar a sentir a dor antes mesmo de ser mordida não passaria de um desperdício de força.
Seu argumento soava tão lógico quanto sem sentido.
A única coisa que Shin-u sabia com certeza era que ela não sentia o menor medo daquela fera. Talvez porque sua serenidade pouco provocasse sua ira, ou talvez porque a fera encarasse sua postura tranquila com cautela, o leão não fez nada além de cheirar suas mangas, sem fazer nenhum movimento para atacar. Ao ver isso, Shin-u acreditou na história da lenda pela primeira vez; talvez um sábio com autocontrole realmente escapasse da fera ileso.
Os espectadores irromperam em sussurros confusos diante dessa reviravolta inesperada.
— Ora, nunca vi o leão deixar alguém em paz!
— Isso significa que Shu Keigetsu é inocente?
— Suponho que seja verdade que ninguém a viu fazer isso.
— Mas o que mais poderia ter acontecido?
O mais irritado com o burburinho da multidão era Gyoumei, que fervia de indignação justa.
— Isso não nos leva a lugar nenhum. Capitão, cutuque a fera com sua espada. — Ele estava ordenando ao guarda que incitasse o leão a agir.
— Mas, Sua Alteza, isso comprometeria a integridade do...
— Capitão. Isso foi uma ordem. — Gyoumei interrompeu o protesto de Shin-u com finalidade. — Essa é a punição dela por zombar de Reirin.
Tanto quanto seu meio-irmão Shin-u estava preocupado, Gyoumei não era nenhum tirano. Pelo contrário, ele valorizava a razão, cuidava dos fracos e era exaltado como um grande governante em potencial. No entanto, era exatamente por isso que ele não hesitava em punir aqueles que se comportavam de maneira irracional ou atormentavam garotas fracas sem sequer um pedido de desculpas.
As ordens do príncipe herdeiro eram absolutas. Shin-u lançou um olhar para a mulher na jaula e viu que ela permanecia tão calma como sempre. Então, sem mais uma palavra, ele cutucou a fera no flanco com a ponta de sua espada.
Nunca em seus sonhos mais loucos ele imaginara que este julgamento o faria sentir culpa por Shu Keigetsu.
Grr... Grrraaah!
O leão, até então dócil, rugiu. Gritos irromperam da multidão enquanto ele se lançava contra o interior da jaula uma e outra vez, saliva escorrendo de suas mandíbulas abertas.
Ele investiu contra a garota. Ela conseguira ficar parada até aquele momento, mas quando a fera tentou cravar os dentes em suas mangas, ela se debateu para puxar o braço para longe de seu alcance.
— N- não pode!
O medo finalmente vencera? Shin-u automaticamente desviou o olhar.
Nãooo! É aí que estou guardando os restos do Sr. Rato!
A verdade por trás do pânico súbito de Reirin, no entanto, era que a manga de sua túnica escondia o rato que encontrara na masmorra. Ela estivera brincando com o roedor pouco antes de ser retirada de sua cela, e então ele acidentalmente engolira o veneno de Tousetsu. Ela esquecera completamente que havia deixado o veneno cair em choque quando vira a magia de chamas de Keigetsu. Culpando-se pela morte dele, guardara seu cadáver em sua manga, planejando enterrá-lo assim que a oportunidade surgisse.
— C- calma! Eu entendo, é instinto seu querer isso!
Você é parente de gatos, afinal!
Recuando, Reirin fez uma tentativa desesperada de raciocinar com o leão.
— Entendo que essa é a ordem natural das coisas, mas não tive tempo de superar! Quer dizer, gostaria de expiar à minha maneira!
A multidão enlouqueceu ao ver o sofrimento súbito e acentuado de "Shu Keigetsu". Reirin, enquanto isso, estava tonta demais para notar.
— Hum, sei que isso pode soar como uma desculpa, mas é para o seu próprio bem! Comer isso não vai te fazer bem!
Descalça, ela sentiu o frio das barras de aço contra seus calcanhares. Não havia mais onde correr.
Grraaaah!
— Quando você recuperar o juízo, vai ver que o frescor e a qualidade deste lanche deixam a desejar... Eek!
Suas tentativas de diplomacia falharam; a fera faminta e agitada saltou sobre ela. O rasgar do tecido ecoou pela arena, seguido por um rugido ainda mais alto.
Mas quando os mesmos espectadores que haviam fechado os olhos ou desviado o olhar finalmente voltaram sua atenção para a jaula, suas mandíbulas caíram. O leão engolira os pedaços que arrancara com uma velocidade feroz, apenas para desabar no chão momentos depois.
— O quê...?
— Hein? O leão foi quem caiu?
Enquanto a plateia ao seu redor estava atordoada em silêncio, a garota ofegou e caiu de joelhos.
— Tentei avisá-lo! Não... a responsabilidade é minha. Sinto muito.
Ela estendeu a mão para acariciar a fera. Quando teve certeza de que ele dera seu último suspiro, seus ombros caíram em tristeza.
— Uh... O leão está... morto?
Não demorou muito para que a multidão irrompesse em sussurros confusos.
— Isso significa que o julgamento acabou?
— Certamente deve ter? Uma das partes está morta.
— Então isso significa que Shu Keigetsu era inocente?
Não havia precedente para a acusada sobreviver à fera no Julgamento do Leão. Ninguém sabia como julgar o resultado nesse cenário.
Eventualmente, Shin-u girou a chave na fechadura e entrou na jaula.
— Ei, Shu Keigetsu. Consegue ficar de pé? Preciso verificar se o leão está morto. Sai da frente.
Mantendo a ponta de sua espada pressionada contra a garganta da fera, ele conduziu um breve exame.
— Veneno, hein? — murmurou por fim, e então voltou sua lâmina para a garota em vez disso. — Você armou isso?
— Não. Foi um trágico acidente.
— Um acidente? Como?
— O problema foi o Sr. Rato, veja bem...
Mesmo com a lâmina do temido carrasco posta diante dela, "Shu Keigetsu" não hesitou. Quando a garota abatida lhe contou a verdade da situação, Shin-u ficou atordoado.
— Você escondeu um dos ratos da masmorra em sua manga? Para enterrá-lo?
— Sim. Perdeu a vida devido à minha própria negligência.
Ela respondera como se fosse a coisa mais natural do mundo, mas ela sempre fora do tipo que demonstrava tanta responsabilidade e compaixão?
— Nunca imaginei que o veneno permaneceria em seus restos... Lamento sinceramente que minhas ações tenham tirado a vida de dois animais diferentes hoje.
A confissão modesta da garota foi o suficiente para fazer o canto dos lábios de Shin-u tremer ligeiramente.
— Heh... — Pela primeira vez em quem sabe quanto tempo, ele sentiu vontade de rir.
As damas da corte se viram cativadas pelo sorriso nunca antes visto do belo capitão, e então voltaram os olhos para o céu, temendo que a neve pudesse começar a cair do céu de verão em seguida.
Shin-u pigarreou e engoliu sua diversão.
— Se alguém tivesse dado ao leão uma oferta de misericórdia, ele poderia ter agido de forma um pouco mais racional.
A ironia não passou despercebida por alguns na multidão. Entre as mulheres que se recusaram a apaziguar a fera na execução de seu próprio parente e a suposta criminosa que chorara um rato imundo, os céus haviam mostrado misericórdia para com esta última.
O guarda saiu da jaula, então ajoelhou-se no local e pronunciou:
— Vossa Alteza Imperial, Príncipe Gyoumei! A morte da fera marca o fim do Julgamento do Leão. Se a acusada é devorada, é culpada; se é poupada, é inocente. De acordo com as regras sagradas deste ritual, declaro Shu Keigetsu livre de suspeitas!
Um burburinho percorreu o pátio.
Gyoumei ficou em silêncio por vários momentos, franzindo o cenho em pensamento.
Por fim, ele disse:
— Reconhecido.
A natureza de vida ou morte do julgamento tornava seu veredito absoluto. Nem mesmo Gyoumei podia anulá-lo.
— Não...!
— Perdoe-me, Reirin. Juro que vou protegê-la, não importa o que aconteça.
O rosto de Gyoumei se contorceu num franzir atormentado quando viu a Donzela deitada sob o pavilhão empalidecer como um lençol. Ele então voltou seu cenho para a outra garota, que dera um passo hesitante para fora de sua jaula.
— Shu Keigetsu. Em reconhecimento à sua inocência, permitirei sua permanência no Pátio das Donzelas. Mas não se engane. A única acusação da qual você foi absolvida é a de ter empurrado Reirin sobre o parapeito. De modo algum perdoei seus insultos contra ela. Tenha isso em mente.
— Oh? Mas se não me engano, não foi incitar o capitão à ação que deveria ser minha punição por zombar dela? — murmurou ela em perplexidade, colocando a mão na bochecha.
Evidentemente, ela ouvira sua troca de palavras.
Os olhos do príncipe se arregalaram um pouco diante dessa demonstração surpreendente de perspicácia.
— Sim, bem — disse ele, pigarreando. — Não os perdoarei daqui em diante. Se eu a pegar desrespeitando Reirin de qualquer forma, ou testemunhar outra de suas tentativas descaradas de deslocá-la, saiba que mandarei cortar sua cabeça imediatamente.
— Deslocá-la? O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que me enfurece ver uma mulher da sua laia imitar os maneirismos de Reirin. Conheça seu lugar como uma vilã e comporte-se de acordo — ele praticamente cuspiu.
A garota abriu e fechou a boca mais algumas vezes, mas no final desistiu e assentiu.
— Uma "vilã", hein? Muito bem. Embora eu seja uma vilã inepta, me esforçarei para estar à altura do título.
A curvatura lânguida de seu corpo era quase reminiscente de uma flor encharcada pela chuva. Em Shu Keigetsu, cujo rosto tão raramente usava algo além de um sorriso fingido ou um sorriso arrogante, a mansidão de sua postura era ainda mais pronunciada.
Gyoumei suspirou, o vento tirado de suas velas. Com o consentimento da imperatriz e das quatro consortes, declarou a cerimônia encerrada.
Bem, bem. Parece que a "limpeza" vai ser bem fácil, afinal , pensou Shin-u. Embora mantivesse o rosto impassível, foi com considerável divertimento que observou os participantes decepcionados se retirarem, tagarelando entre si o tempo todo.
Ele lançou um olhar para a mulher absolvida, mas ela não parecia muito satisfeita com o resultado. Permaneceu enraizada no local, com aparência tão miserável como sempre.
No entanto, quando o pátio quase se esvaziara, ela finalmente deu um tapa nas próprias bochechas e se sacudiu de seu torpor.
— Vamos lá, uma garota precisa ter fibra! Vou ter que fazer o que puder. Vamos fazer isso com tudo!
Essa era a situação que exigia fibra, não o julgamento? Sua escolha de grito de guerra não era menos bizarra.
— Primeiro de tudo... Sr. Leão? Sr. Rato? Sinto muito pelo que aconteceu aqui hoje. Aceitem minhas condolências e descansem em paz.
Além disso, a primeira coisa que ela tinha que fazer era rezar pelas almas da fera e do roedor. Cada uma de suas ações era um mistério — e uma divertida, por sinal.
— Shu Keigetsu. — Antes que percebesse, ele a chamou. — Você sempre foi esse tipo de pessoa?
Por razões que escapavam a Shin-u, seus olhos se iluminaram com a pergunta.
— Oh! Pareço diferente para você?!
Inclinando-se para a frente em empolgação, ela se entregou a seu hábito frequente de abrir e fechar a boca algumas vezes, mas eventualmente parou e deixou os ombros caírem.
— Não sou mais a pessoa que costumava ser. Receio que seja tudo o que posso dizer sobre isso.
Sua execução a motivara a virar uma nova folha? Se a mulher comum enlouquecia na masmorra, seguia-se que uma experiência de quase-morte poderia inspirar outra a mudar seus caminhos.
— Oh? — Shin-u respondeu com um comentário evasivo.
Shu Keigetsu era altiva e sem talento, uma Donzela pouco atraente cuja única habilidade residia em puxar o saco de seus superiores. E, no entanto...
Ela é interessante.
Contemplando aquela mulher que, em meio à massa de malícia, egoísmo e bajulação conhecida como Pátio das Donzelas, não demonstrara um único desses sentimentos, Shin-u coçou o queixo pensativamente.
Traduzido por Moonlight Valley
Link para o servidor no Discord
Entre no nosso servidor para receber as novidades da obra o quanto antes e para poder interagir com nossa comunidade.