Capítulo 4: Keigetsu Descobre a Verdade
Capítulo 4: Keigetsu Descobre a Verdade
N a mesma época, Kou Reirin — não, Keigetsu na forma de Reirin — soltou um suspiro cansado. Duas noites haviam se passado, e ainda assim sua febre não cedia. Frustrada, sentou-se e se encostou numa pilha de almofadas ao lado de sua cama. Podia sentir as damas da corte no aposento ao lado se virarem em sua direção, alertadas pelo som de seus movimentos.
— Há algo que possamos fazer pela senhora, Dama Reirin?
Eram damas da corte de alto escalão do clã Kou, aquelas autorizadas a vestir o amarelo-gamboge. O rosto de Keigetsu se relaxou num sorriso ao ouvir suas vozes diferentes, mas cheias de preocupação.
— Não, vou ficar bem. Não se preocupem comigo — disse ela mansamente.
Após um instante, as damas da corte abriram a porta de correr.
— Sua fortaleza é uma de suas maiores virtudes, é claro, mas ficaríamos tristes em ser de tão pouca ajuda para a senhora. Por favor, não hesite em nos avisar se houver a menor mudança em sua condição — implorou uma das atendentes.
— Vocês se preocupam demais! Estou bem, de verdade. Fiquem tranquilas.
Keigetsu mal conseguia conter o riso.
Oh, estou arrasando!
Como era maravilhoso ser mimada e paparicada. Sua febre estava alta e suas juntas rangiam, mas ela estava gostando tanto de sua situação que conseguia se sentar e se deliciar com a conversa.
Isso é o que sempre quis!
Delirante com a febre, ela contemplou seu aposento com satisfação. Como residência da imperatriz, o Palácio do Qilin Dourado era extraordinariamente espaçoso. A maioria dos móveis era um tanto rústico, talvez um sintoma do amor do clã Kou pela simplicidade, mas, era claro à primeira vista, que tudo estava em perfeitas condições.
Um incenso suave fora aceso para acalmar sua alma. O fogo ardia baixo e longe de sua cama para não perturbar seu sono. Suas leais damas da corte a cobriam de preocupação, nunca perdendo o respeito em seus olhares. O lugar transbordava de compaixão por "Kou Reirin".
Com tanto amor e cuidado, até um rato de esgoto poderia se transformar numa borboleta delicada e graciosa.
Keigetsu deixou a cabeça cair contra uma almofada, um sorriso irônico se gravando em seu rosto.
Ela sabia o que as pessoas diziam sobre ela em todas as fofocas do Pátio das Donzelas. Ela era a Dama Rato, sem talento e traiçoeira. Mas, tanto quanto Keigetsu estava preocupada, tudo se resumia a uma questão de ambiente.
Eu nunca tive chance desde o começo! Como poderia a filha de mais baixo escalão do clã Shu, que não tinha nada além de um pequeno talento para as artes místicas, esperar competir pelo favor de Sua Alteza no Pátio das Donzelas?
Keigetsu não nascera para se tornar uma Donzela. Ela não passava da filha da mais miserável pária do clã Shu e de um cavalheiro esguio que por acaso era um cultivador fracassado do Dao. Ela fora destinada a viver uma vida tranquila na pequena propriedade rural que lhe fora concedida, longe da disputa de poder dos cinco clãs.
O curso de sua vida mudara apenas um ano antes — quando seus pais cometeram suicídio diante de suas dívidas crescentes. Sem ninguém a quem recorrer, fora acolhida como criada pela família principal, e por alguma reviravolta do destino, foi lá que fora descoberta pela Nobre Consorte Shu durante uma de suas visitas à casa da família e nomeada como sua Donzela iniciante.
— Minha nossa, coitadinha! Perder ambos os pais tão jovem!
Em meio ao clã conhecido por suas muitas personalidades fogosas, Shu Gabi tinha reputação de ser uma mulher de temperamento brando e compassivo, o suficiente para chamar a atenção do imperador Genyou, amante da elegância, e conquistar o assento da Nobre Consorte. Ela também era a única das esposas do imperador, além da Imperatriz Kenshuu, a lhe dar um filho, embora tivesse sido um natimorto .
Ela escolhera a Donzela para se tornar sua sucessora não com base em aptidão ou lucro, mas por compaixão. Na prática, essa decisão dela aumentara sua própria reputação e fizera de Keigetsu a mulher do momento.
Mas, olhando para trás, foi aí que a boa sorte de Keigetsu se esgotara.
Só de pensar naqueles dias fico furiosa! Os olhares de desdém de minhas damas da corte. Os sorrisos de escárnio das outras Donzelas. A Consorte Shu é boazinha, mas tudo o que faz é torcer as mãos.
Keigetsu mordeu o polegar em frustração.
Não havia como alguém que se mudara para a capital apenas meses antes conseguir ler as escrituras com facilidade, ou recitar poesia, ou saber dançar! E, no entanto, tudo o que faziam era zombar de mim!
Dado que não recebera nenhum treinamento formal para se tornar uma Donzela, as damas da corte Shu e as outras Donzelas a menosprezavam a cada passo. Zombavam dela por fazer muito barulho ao andar, ou fofocavam pelas costas sobre o quão inábil ela era. Como consequência, Keigetsu optara por manter ao seu lado apenas damas da corte ainda menos educadas e sofisticadas do que ela.
A única que não rira dela era a Donzela do clã Kou — Kou Reirin. Mas era exatamente por isso que Keigetsu a odiava.
Ela era bela, inteligente e até abençoada no departamento da personalidade — a mulher perfeita. Era o suficiente para fazer Keigetsu vomitar.
Não suporto essa atitude dela de "estou acima de tudo"! Tudo o que ela faz é ficar olhando!
Do ponto de vista de Keigetsu, a única razão pela qual Kou Reirin podia ser a borboleta do príncipe era porque ela viera ao mundo com o baralho marcado a seu favor. Fora abençoada com o status supremo de sobrinha da imperatriz, boa aparência e laços de sangue com o príncipe.
Além disso — talvez devido ao qi da terra , se fosse invocar os cinco elementos — aqueles do clã Kou eram conhecidos por serem um tipo sem pretensões e devotados. Dadas as constituições resistentes e naturezas carinhosas do resto da família, só fazia sentido que uma beleza frágil como Reirin fosse banhada em amor desde o momento em que nasceu. O fluxo incessante de cartas e presentes que recebia de seus irmãos mais velhos, que estavam lutando em outro reino, falava do quanto toda a família a adorava.
E era o privilégio de experimentar o amor que a tornara uma boa pessoa.
Ela podia cultivar suas habilidades porque tinha pessoas que a observavam com carinho, sem apressá-la ou difamá-la. Até eu poderia me destacar num ambiente assim! É fácil dizer algumas palavras graciosas quando todos me tratam com tanto amor e cuidado!
Keigetsu soltou um bufo satisfeito ao lembrar daquela tarde, quando Gyoumei fizera questão de visitá-la.
O príncipe herdeiro era um mestre tanto da caneta quanto da espada, um homem charmoso, tão vibrante quanto o sol. No entanto, apesar de toda sua integridade, ele era tão frio quanto gelo com aqueles que considerara objetáveis, e Keigetsu sempre recebera migalhas dele. Hoje, porém, ele lhe mostrara um doce sorriso do início ao fim.
— Sinto muito por qualquer preocupação que causei a você durante o Julgamento do Leão.
— Vejo que sua febre ainda está alta. Aqui, apoie-se em mim.
Às vezes ele soava apologético, outras vezes preocupado. Keigetsu não conseguia contar quantas vezes seu coração disparara em seu peito enquanto ele sussurrava aquelas palavras perto o suficiente para seus lábios encostassem em sua orelha.

Então, reunindo toda sua força de vontade para não rir, ela dissera:
— Estou bem. Só lamento ter causado tanta preocupação, meu querido primo. — É claro, ela tomara cuidado para que as palavras soassem o mais altruístas e humildes possível.
Como isso é delicioso!
Com tanto amor e afeição, era fácil fazer o papel de boa moça. Ela podia representar a parte da empática, sensível e virtuosa Kou Reirin sem nem suar. Ora, em seu novo corpo, até seduzir Gyoumei seria moleza.
É tudo culpa sua, Kou Reirin. É isso que você ganha por ser tão alheia aos meus sentimentos.
O rosto de Keigetsu se contorceu num sorriso de gato enquanto olhava pela janela para o céu noturno.
Por causa de seu profundo afeto pela inocente Reirin, Gyoumei ainda não fizera movimentos sérios em relação a ela. No entanto, precisamente por essa razão, Keigetsu sentia que por baixo de sua fachada relaxada, ele estava ficando bastante impaciente.
Muito provavelmente, seria necessário apenas um empurrão. Uma palavra doce, ou talvez um olhar úmido? Um convite sutil, e Gyoumei tomaria Reirin antes mesmo de fazê-la sua imperatriz.
Quão histérico seria isso?
Quão chocado ele ficaria ao saber que a verdadeira identidade da mulher que conquistara após tanto tempo ansiar havia sido Keigetsu, aquela que ele sempre tratara como um verme? E quão angustiada Reirin ficaria ao saber que seu corpo fora desflorado sem seu conhecimento?
Ambos odiariam Keigetsu, com certeza. Mas ela preferia isso à indiferença.
"Pelo menos olhem para mim..."
Fazia um ano desde que Keigetsu viera para o Pátio das Donzelas. Ela passara esse tempo sendo desrespeitada, ridicularizada e, por fim, ignorada. Não — Reirin, pelo menos, nunca lhe dera atenção desde o começo. Essa seria a vingança perfeita contra ela.
— Em retrospecto, é bom que ela não tenha morrido no Julgamento do Leão.
Se Reirin ainda vivesse no corpo de "Shu Keigetsu", na remota possibilidade de sua troca vir à tona, Keigetsu poderia usá-la como escudo para evitar a execução. Ela era a única que sabia como devolver suas almas aos corpos originais.
Isso lhe deu uma ótima ideia: no dia seguinte, ela defenderia a outra garota para Gyoumei. "Não guardo rancor, então por favor, certifique-se de que ela não seja punida indevidamente." Isso certamente aumentaria a popularidade de "Reirin" e garantiria a segurança de "Keigetsu" enquanto isso.
Mas, é claro, o ideal era que a troca não fosse descoberta para que ela pudesse acumular toda a afeição de Gyoumei para si mesma. Ela concentraria a maior parte de seus esforços nesse resultado.
— Hee hee. Estou ansiosa pelos dias que virão.
Se nada mais, ela estava pronta para ficar deitada à toa por um tempo por causa de seus hematomas e febre.
Assim que Keigetsu sorriu para si mesma e se virou na cama, houve uma batida em sua porta.
— Dama Reirin.
Era a chefe das damas da corte de Reirin, Tousetsu, que silenciosamente se deixou entrar no aposento. Entre as personalidades impassíveis do clã Kou, ela sozinha carregava uma calma que bem poderia ser descrita como gelada. Corria a notícia de que isso se devia ao seu parentesco distante com o clã Gen, mestres da água e da guerra. Agora que Keigetsu estava procurando, ela de fato conseguia ver traços da linhagem Gen nos traços distantes e sem emoção da mulher.
Aqueles do clã Shu, soberanos do fogo, eram fundamentalmente incompatíveis com os Gen’s e sua afinidade com a água.
Nem um traço de humanidade nela , pensou Keigetsu enquanto observava o rosto de madeira da mulher, fazendo careta mentalmente. Na superfície, no entanto, recebeu a visitante com graça.
— O que é, Tousetsu?
— Agora que sua febre persiste por dois dias, vim o mais rápido que pude.
Sua falta de expressões faciais à parte, parecia que ela não era menos superprotetora do que o resto dos vassalos de Reirin. Atrás dela, as damas da corte de escalão inferior carregavam caixas uma após a outra. Presentes de melhoras, sem dúvida.
— Oh, não devia! Você é sempre tão atenciosa, Tousetsu.
— De modo algum. Sei que em circunstâncias normais, a senhora teria iniciado seu treinamento dentro de meio dia do início da febre. Foi minha própria incompetência que a segurou por dois dias, e por isso ofereço minhas mais profundas desculpas.
— Como?
Keigetsu não tinha a menor ideia do que ela estava falando. Enquanto franzia o cenho em confusão, as damas da corte abriram as caixas uma por uma sob o comando de Tousetsu.
A Donzela ficou sem palavras com o que viu desembalar: um kit de costura, pincéis, uma pedra de tinta, toalhas de mão, um alaúde, uma flauta e uma cítara. Uma adaga, um arco e, o mais chocante de tudo, uma pá e uma enxada.
— O quê...?
— Bordar até a noite, transcrever as escrituras, praticar dança, aprender os instrumentos, ou talvez exercícios básicos de condicionamento físico? O que a senhora deseja fazer esta noite? Diz-se que o arco afasta doenças desde os tempos antigos, então talvez essa seja a opção mais apropriada. Ficarei mais do que feliz em acompanhá-la até que esteja satisfeita, é claro.
O olhar da dama da corte era mortalmente sério, mas Keigetsu não conseguia entender o que ela estava dizendo. Todas aquelas atividades pareciam exaustivas demais para um pequeno passatempo de cama de uma doente. E ela não mencionara "treinamento"?
O que ela está balbuciando? Olá? Estou doente!
Por mais que uma trabalhadora como Kou Reirin odiasse perder um dia de prática, só fazia sentido adiar tudo isso até que se recuperasse.
No entanto, as próximas palavras de Tousetsu, cheias de admiração, abalaram Keigetsu até o âmago.
— "É quando a vida está em perigo que o corpo se torna mais voraz em sua busca por conhecimento e habilidades. É na névoa da febre que se pode vislumbrar o que está além de seus limites." Sempre que lembro da primeira vez que atendi sua cama de doente — quando a senhora proferiu essas palavras com tanta naturalidade — um arrepio percorre minha espinha. Isso me diz que o sangue do clã Kou, os maiores defensores do trabalho duro e do esforço, corre mais grosso em suas veias do que em qualquer outra pessoa. Como dama da corte, sinto orgulho pelas oportunidades de acompanhá-la em seu treinamento, que passou a contar com a participação até mesmo da própria imperatriz.
— Hein?
— "A doença há muito se tornou parte do meu dia a dia. Se esperar por um dia em que me sinta bem, nunca terei oportunidade de treinar." Muito bem dito. Algumas damas da corte inúteis tentaram interferir por preocupação com sua aparência frágil, mas fique tranquila: pelo menos eu sempre estarei ao seu lado. Enviei essas garotas para outro lugar esta noite. Agora venha, Dama Reirin! Escolha.
Tousetsu empurrou as caixas em sua direção, mas, para ser franca, Keigetsu não conseguia acompanhar uma palavra do que ela dissera.
— Hum, Tousetsu? Estou acamada há dois dias.
— Eu sei. Na verdade, esperava trazer seus suprimentos de treinamento ontem... mas as gamboge-ouro ignorantes de sua verdadeira força ficaram no meu caminho, insistindo que eu a deixasse descansar por uma semana depois de tudo o que passou. Acabou levando algum tempo para convencê-las. Peço desculpas.
— A- a senhora está me ouvindo? Estou sofrendo com uma febre tão alta que mal consigo me sentar.
— Sim. As circunstâncias ideais para alcançar o êxtase. Todo o seu ser está emanando um desejo de não deixar essa oportunidade passar. Posso sentir isso em meus ossos.
Não desejo nada disso!
Seria isso alguma piada elaborada da chefe das damas da corte? Não, provavelmente não. Ela mantivera uma expressão séria o tempo todo, e, apesar dos olhares saudosos que lançavam em sua direção, as outras damas da corte arrumavam os instrumentos de treinamento com eficiência rápida.
Isso realmente era rotina para elas. Kou Reirin mantivera toda essa prática mesmo quando estava indisposta — não, especialmente quando estava indisposta.
Os cantos da boca de Keigetsu tremeram.
— Eu... — Sua voz falhou, e ela apertou ambas as mãos contra o peito. — Sinto um pouco de náusea! Acho que minha febre está aumentando. Ora, pode ser a pior que já tive!
— Maravilhoso! Sem dúvida a senhora alcançará alturas sem precedentes. Permita-me buscar uma bacia para a senhora.
— Não! Quer dizer... Algo me diz que isso pode ser contagioso! Posso ficar sem a bacia e sem a sessão de treinamento, portanto, peço que todas se retirem. Imediatamente. — Keigetsu deu às mulheres um sorriso forçado, suando frio que não era nem um pouco fingido. — Vocês são tão queridas para mim. Não conseguiria viver comigo mesma se algo acontecesse a vocês — acrescentou.
— Oh, Dama Reirin...
As damas da corte ofegaram, tocadas por suas palavras.
— Não sabíamos que era tão grave! Vamos chamar o boticário imediatamente!
— Aguente firme, Dama Reirin!
— Estamos aqui por você!
E então, finalmente, elas começaram a reagir como pessoas normais. Enquanto o aposento ao seu redor irrompia numa agitação, Keigetsu se encolheu em sua cama.
Há algo errado com essas mulheres.
Aquela palavra nadou em sua cabeça. Isso estava errado. Tudo isso estava errado.
Kou Reirin não deveria ser uma borboleta delicada, protegida e mimada por todos ao seu redor?
Keigetsu não sabia a verdade. A razão pela qual todos eram tão protetores com Reirin não estava em sua saúde precária, nem podia ser atribuída inteiramente à natureza atenciosa do clã Kou. Era porque ela poderia se esforçar até a morte se deixada à própria sorte, e aqueles ao seu redor não podiam deixar de se preocupar.
Posso sobreviver neste corpo... certo?
Seria a febre que estava afetando sua mente? Keigetsu sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Sol: Gente o que a Reirin fazia parando pra pensar é loucura, ela fazia isso tudo em um corpo muito frágil e doente, tentem se imaginar fazendo isso… Eu em pelo menos 3 minutos fazendo esforço já estaria acabado e tentando dormir, febre de homem também é uma quase morte kkkkkk.
Moon: A Drama Queen ele gente kkkkk… Mas eu nem posso falar nada porque toda vez que a minha garganta vai para o saco eu simplesmente paro de funcionar de um jeito que chega a ser até estranho kkkkk. Não levanto, não como, drama até para beber água… Meu sistema imunológico só não tanka a garganta, porque nem quando eu peguei catapora eu fiquei tão indisposta (fiz todas as provas da escola naquela semana).
Traduzido por Moonlight Valley
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