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Capítulo 5: Reirin Ganha uma Dama da Corte

Ainda Que Eu Seja Uma Vilã Inepta. — novelmania.com.br · All chapters

Capítulo 5: Reirin Ganha uma Dama da Corte

R eirin se espreguiçou, banhada pela luz do sol que se derramava do céu azul e brilhante.

— Que bela mudança em relação à chuva de ontem à noite! É o dia perfeito para cuidar do jardim!

Depois de arquear o corpo o máximo que pôde, ela protegeu os olhos com a mão e contemplou o quintal. O orvalho nas folhas que brotavam dos canteiros cuidadosamente modelados refletia a luz do sol, fazendo todo o jardim parecer cintilante. Até as poças eram como espelhos refletindo o céu.

Já faziam quatro dias desde que trocara de corpo. Se Reirin tivesse que resumir sua nova vida em uma palavra, seria "incrível".

As hortaliças e ervas crescem fascinantemente rápido, eu nunca desmaio não importa quantos dias seguidos dedique à jardinagem, ninguém se preocupa se eu fico acordada até tarde, e a comida é deliciosa... Estou autorizada a ser tão feliz?! — ela perguntou ao Grande Ancestral em sua mente, apertando as mãos contra o peito.

Embora sua situação atual tivesse a intenção de ser a retribuição de Shu Keigetsu contra ela, ela estava tão contente que quase sentia pena da instigadora.

Por um lado, era maravilhoso habitar um corpo tão saudável. Normalmente, até mesmo o menor treino exigia que Reirin se preparasse para arriscar a vida, mas seu novo corpo não se intimidava nem um pouco com alguns músculos doloridos.

Parte disso podia ser devido às técnicas que desenvolvera durante seus dias como Reirin, como os exercícios respiratórios para aliviar seu fardo físico o máximo possível ou suas próprias misturas de ervas personalizadas, mas ela ainda estava maravilhada com a diferença entre multiplicar por zero e multiplicar por dez. Após apenas quatro dias mantendo seus exercícios e treinos "básicos", ela já conseguia sentir seus músculos se tonificando.

Quanto mais trabalho se coloca, melhor as árvores e flores crescem e mais saudável o corpo se torna. Oh, que emoção ver esses esforços darem frutos! É isso que chamam de ser um orgulhoso provedor de rua?

Ela contemplou seus próprios membros, fascinada, seus movimentos tão nítidos e bem definidos. Shu Keigetsu estava entre as mais altas das Donzelas. Talvez consciente de como se destacava sobre as outras, a garota sempre se portara com os ombros curvados, na lembrança de Reirin. Apesar disso, ela ainda se vestia com roupas chamativas e, ao fazê-lo, transmitia uma impressão desleixada e pouco atraente.

Reirin achava isso um desperdício. Era melhor construir seus braços e pernas ao máximo potencial e exibir os movimentos ágeis de seu corpo para todos verem. Sendo alguém que valorizava a beleza "robusta" acima de tudo, Reirin sorriu enquanto massageava seus bíceps em desenvolvimento sobre sua túnica.

Músculos! Essa é a marca da força! Ela até tinha o desejo secreto de um dia ter tanquinho. Infelizmente, acho que não consigo isso nos próximos três dias…

O ritual de purificação duraria uma semana. Em outras palavras, o Pátio das Donzelas seria reaberto em mais três dias. Quando isso acontecesse, ela seria libertada da prisão domiciliar e se encontraria cara a cara com Shu Keigetsu — não, "Kou Reirin".

O que será que a Dama Keigetsu está pensando, eu me pergunto?

Um franzir preocupado tomou os traços de Reirin. Ela ainda não compreendia o quadro completo dos planos de Shu Keigetsu. A Donzela tramara tomar o lugar e a vida de Reirin por ciúmes, mas o que ela queria agora que Reirin sobrevivera ao Julgamento do Leão?

Se ela quisesse manter a verdade em segredo, deveria ter sido mais persistente em suas tentativas contra a vida de Reirin, mas Reirin ainda não se encontrara em uma situação de vida ou morte desde que passara pelo julgamento. Será que Keigetsu desistira de seu plano de assassinato e optara por se concentrar em prolongar a troca? Ou simplesmente não estava em condições de lançar um novo ataque? Segundo os rumores que Leelee mencionara, "Kou Reirin" estivera doente de cama desde a noite do Festival de Tanabata.

— De qualquer forma, nada vai mudar até que eu fale com ela — murmurou Reirin para si mesma.

Ela fizera um esforço para ver a outra garota antes disso. No entanto, apesar do veredito de inocência no Julgamento do Leão, não havia como "Shu Keigetsu" ter permissão para ver "Kou Reirin" sob as circunstâncias. Para ser mais precisa, ela nem tivera a chance de se explicar à Nobre Consorte. O ostracismo do Palácio Shu contra "Shu Keigetsu" ainda estava forte.

Sim... Foi o que aconteceu. Eu tentei, mas fui forçada a desistir, não me restando escolha a não ser relutante e involuntariamente aproveitar a situação. Sim, senhor!

Sob quaisquer outras circunstâncias, Reirin não teria recuado após encontrar um único obstáculo. Se não recebesse resposta à sua primeira carta, teria continuado escrevendo, e talvez até ido tão longe quanto emboscar ou atrair seu alvo.

A razão pela qual ela ainda assim capitalizara a falta de resposta da Consorte Shu ao seu pedido por escrito para conversar e escolhera manter o status quo era que ela se apegara bastante à sua nova vida.

Reirin malvada! Mesmo que ela tenha forçado isso, você não tem o direito de jogar aquele corpo de lixo em outra pessoa! Além disso, não sou apenas eu que sou afetada pelo que acontece comigo. Tenho minhas responsabilidades como Donzela, as muitas damas da corte que juraram lealdade a mim, a imperatriz que respeito e prezo tanto, e batatas fritas ... Novos remédios fitoterápicos para descobrir... O fungo da lagarta que encontrei ontem...

Ela apertou as mãos e lutou para se fazer entrar na razão, apenas para se distrair com os pensamentos dispersos que surgiam em sua mente.

Enquanto Reirin gemia e resmungava, uma voz rouca a chamou por trás.

— O que você está resmungando tão cedo pela manhã? Está me dando arrepios.

Era Leelee, que ainda esfregava o sono dos olhos.

— Ah, Leelee! Bom dia. Você acordou cedo — Reirin a cumprimentou com um sorriso.

O rosto da ruiva se contraiu.

— Quem fala é a que acordou antes de sua própria atendente.

Embora Reirin a princípio tivesse ficado surpresa com a linguagem vulgar de Leelee, ela se apegara bastante àquela garota expressiva. Ela estava morando sozinha, afinal. Por mais que Reirin apreciasse a liberdade, às vezes podia ficar solitário. Nesses momentos, era bom ter um parceiro de conversa para manter o ambiente animado.

No fim das contas, estamos comendo e dormindo juntas nos últimos quatro dias.

No final, Leelee fizera todas as três refeições com Reirin e dormira no depósito. Tecnicamente, ela voltara aos aposentos das damas da corte na primeira noite, mas voltara ao galpão no meio da madrugada com todas as suas malas arrumadas. E enquanto Reirin fingia dormir, a garota apertava os punhos e enxugava os olhos repetidamente.

Mesmo agora que Leelee se instalara no depósito, Reirin não a pressionava por explicações. Considerando seu cabelo vermelho, uma visão rara no Reino de Ei, e a túnica rosa-clara que vestia apesar de servir como atendente pessoal... não era difícil imaginar as circunstâncias que se abateram sobre ela.

Leelee parece estar aproveitando ao máximo seu tempo aqui também.

Quando Reirin lançou um olhar na direção de Leelee, a garota passou de um olhar pensativo a desviar o olhar, perturbada. Sem dúvida, estava planejando sua "atividade voluntária" para o dia.

Desculpe, não "atividade voluntária"! Quis dizer "travessura"! Reirin se corrigiu. Se Leelee por acaso ouvisse seus pensamentos, certamente ficaria furiosa.

Talvez em vingança contra Shu Keigetsu, ou talvez por ordens de outra pessoa, Leelee se esforçara ao máximo para tornar Reirin miserável. Para citar alguns exemplos, ela despejara uma caixa cheia de insetos no jardim, esfaqueara seu travesseiro com um par de tesouras e até juntara lama e a espalhara por todo o quintal. Era uma série de ações ousadas que uma atendente de alto escalão de uma nobre protegida jamais pensaria em tomar.

No entanto, do ponto de vista de Reirin, justo quando pensava que gostaria de cultivar um pouco mais o jardim, Leelee lhe fornecera um monte de minhocas. Justo quando pensava que gostaria de costurar um pouco, Leelee lhe dera um par de tesouras. E justo quando pensava em melhorar o solo, Leelee lhe dera uma boa porção de esterco. Cada travessura apenas servia para agradar a sua senhora.

Nos últimos dias, tornara-se uma piada recorrente Reirin gritar de alegria cada vez que Leelee tentava algo, para grande perplexidade desta última.

Não, não posso me empolgar! A Leelee está se esforçando ao máximo para me atingir; não devo diminuir seus esforços!

O clã Kou tinha um fraco por trabalhadores esforçados e indivíduos corajosos. Reirin queria mais do que tudo ver os esforços sinceros de Leelee sendo recompensados, então se sentia péssima por ter decepcionado a garota ao não conseguir dar nem um bom grito. Ela se sentia péssima... mas, para ser honesta, havia uma parte dela que mal podia esperar para ver o que Leelee tentaria em seguida.

Adoraria colocar as mãos numa faca de cozinha ou em algum corante , pensou, transbordando de expectativa.

— Ei. Você está pensando em algo idiota, não está?

Leelee se virou para encará-la com um olhar fulminante, ao que Reirin respondeu com um balançar de cabeça solene.

— De modo algum! Estava apenas admirando sua diligência.

Não era exatamente uma mentira.

Sabendo que seu disfarce seria descoberto se a outra garota pressionasse o assunto, Reirin aproveitou aquele momento para mudar de assunto.

— Venha! Agora que você está acordada, é hora do café da manhã! No menu de hoje temos batatas cozidas no vapor com amido, batatas fritas como prato principal, uma guarnição de batatas salteadas e algumas batatas fritas como limpador de paladar! — anunciou com um sorriso radiante.

— Isso não é limpador de paladar! É pesado! É tudo batata!

Encontrando seu entusiasmo recebido com críticas severas, o rosto de Reirin caiu.

— Ah, não... E pensar que coloquei todo o meu esforço para fazer esta refeição, convencida de que não havia alma no mundo que não gostasse.

— De onde veio essa fé cega em batatas e óleo?!

Claro, era porque ela nunca comia muito de nenhum dos dois durante seus dias como Reirin.

Neste novo corpo, o cheiro do óleo não me dá azia, e não vou desmaiar por overdose de sal... Não é da natureza humana querer abrir as portas para os próprios desejos?

Assentindo internamente com sua própria lógica, Reirin desconsiderou os protestos de Leelee.

— Não tema. Embora ambas sejam batatas fritas, usei temperos diferentes para a guarnição e para o limpador de paladar. Nunca deixaria de considerar algo assim! Agora me dê um momento para terminar aqui.

— Me ouça! — gritou Leelee enquanto Reirin ignorava sua atendente para dar os retoques finais no café da manhã. No entanto, assim que viu a Donzela enrolar uma folha grande em torno de seu braço, ela calou a boca, incrédula. — O que você está fazendo? — perguntou, apenas para ser rapidamente silenciada.

— Shh! Isso exige muita prudência, então por favor, fique em silêncio.

Cuidadosa para cobrir as mãos e os braços, a Donzela fez o mínimo de barulho possível enquanto se aproximava da parede do depósito — ou, para ser mais precisa, de uma pilha escalonada de grandes caixas de madeira resistentes que ela presumivelmente usava para armazenar alimentos.

— Há uma razão para você estar sendo tão cautelosa? — perguntou Leelee, duvidosa.

— Shh! — Reirin a silenciou novamente e então ergueu lentamente a caixa mais alta.

No momento em que o fez, várias pequenas silhuetas se ergueram e flutuaram ao seu redor. Leelee soltou um grito abafado enquanto observava isso por trás. Imperturbável, Reirin posicionou cuidadosamente a caixa sobre uma panela que havia colocado.

Ping. Ping.

Um líquido dourado escorreu da caixa em gotas tentadoramente lentas, acumulando-se no fundo da panela.

— O que você está fazendo?!

— Colhendo mel.

Acontece que a pilha abandonada de caixas abrigava uma colmeia.

Empalidecendo como um lençol, Leelee gritou:

— C- c- cuidado! Você vai se machu...

Reirin sorriu de volta serenamente apesar do enxame de abelhas zumbindo ao seu redor.

— As abelhas no topo da colmeia estão focadas unicamente em produzir mel, então são bastante dóceis. Contanto que eu não danifique a parte inferior da colmeia, devo estar segura. Em teoria.

Na verdade, no momento em que Reirin colocou a caixa de volta onde a encontrara, as abelhas logo a seguiram, retornando à sua colmeia uma após a outra. Depois de observar a última delas desaparecer em seu ninho pela fenda nas caixas, Leelee finalmente suspirou aliviada.

— Não acredito em você... Quem em sã consciência enfia a mão numa colmeia?

— O quê? Você tem medo de abelhas, Leelee?

Reirin fez uma reverência diante das caixas e disse:

— Obrigada por sua maravilhosa bênção. — Ela então se virou para Leelee. — Pensando bem, os insetos que você coletou eram todos rastejantes — aranhas, centopeias e coisas do gênero. Você tem problema com insetos alados?

— Não são as asas que são o problema! Que tipo de garota gosta de abelhas?!

— Ah? Agora que você mencionou, acho que prefiro grilos.

— Hmm. Isso não é tão estranho, na verdade — murmurou Leelee, soando um pouco aliviada por ela ter mencionado um inseto conhecido por sua música linda nos meses de outono.

Grilos têm gosto de camarão quando secos e triturados! Se meu estilo de vida autossuficiente continuar por tempo suficiente, devo tentar pegar alguns. Também podem ser usados para fazer remédio.

Parecia que elas concordavam, mas na realidade estavam em duas páginas completamente diferentes. No entanto, isso estava no final da lista de preocupações atuais de Reirin.

— Ah, que cor linda!

Ela falava do mel que coletara na panela. Assim como com o licor, as primeiras gotas a cair eram lindamente claras, livres de resíduos da colmeia ou da caixa.

Ahh! Quando as abelhas tiverem produzido um pouco mais de mel, adoraria pegar algum tipo de faca e cortar uma pequena porção da colmeia. Como seria maravilhoso triturar entre os dentes!

Reirin contemplou o mel em transe. Apenas olhar para seu dourado liso e viscoso era o suficiente para fazê-la salivar e para fazer seu coração disparar em seu peito enquanto imaginava os favos de mel brancos e cristalizados, a crocância de sua textura e a doçura que escorreria deles.

Além disso, se eu conseguir um pedaço inteiro da colmeia, gostaria de tentar fazer cera de abelha com os favos drenados! Eu poderia acendê-lo à noite e saborear seu aroma, ou usá-lo em cosméticos... Oh, que dias enriquecedores me aguardam!

Suas damas da corte nunca a teriam deixado colher mel durante sua era como "Reirin". Ela nunca imaginara que teria a chance de tentar a mão nisso num depósito abandonado como aquele. Mais uma vez, Reirin agradeceu por seu novo habitat exuberante.

Ela ergueu a panela com um ar de reverência, quase como se estivesse manuseando uma joia, e a moveu para o canto do quintal que designara como cozinha.

Sobre o fogão — que ela construíra com pedras das paredes do depósito — uma tênue trilha de vapor subia de uma fileira organizada de batatas recém-fritas. Reirin mergulhou cada uma na panela e as cobriu com o mel. A cobertura pegajosa e âmbar parecia irresistível.

Reirin chamou Leelee, que observara seu trabalho com um toque de impaciência.

— Abra bem a boca! — insistiu com um sorriso.

Nos últimos dias, Reirin conseguira conquistar o estômago de Leelee, se não seu coração. Embora a ruiva recuasse, protetora de seu espaço pessoal, ela hesitantemente fez o que lhe foi dito.

Reirin colocou um pedaço de batata frita em sua boca aberta, e com um "Hmm!" os olhos de Leelee se arregalaram um pouco.

Satisfeita com sua reação, Reirin também serviu-se de uma colherada do chamado "limpador de paladar".

— Hmmmm! — ela gritou, pressionando ambas as mãos nas bochechas e se debatendo no local.

Não me canso disso!

O primeiro sabor que sentiu foi uma doçura direta, sacarina o suficiente para adormecer a língua. Enquanto esse sabor de mel varria suas papilas gustativas, ela mordeu a batata escaldante, a crocância enchendo sua boca com o sabor rico do óleo e da batata num instante. Valera a pena o esforço de fritá-las tão lenta e meticulosamente que alguém poderia pensar que aquelas pobres batatas haviam assassinado alguém que ela amava.

— Isso é o paraíso...

Reirin enxugou as lágrimas de alegria de seus olhos e então pressionou silenciosamente as mãos contra o peito.

Parecia quase pecaminoso inundar sua boca com tamanha euforia logo no início do dia. Ela estava vivendo uma vida em que não precisava lutar contra ondas de náusea, preocupar-se com sua quantidade avassaladora de prescrições ou acalmar as preocupações daqueles ao seu redor. Seu maior dilema nos últimos dias foi se deveria temperar suas batatas fritas com sal ou mel. Para constar, ela decidira por ambos.

Não, Reirin! Você está apenas usando este corpo para fazer alguns reparos no depósito da Dama Keigetsu!

Era impressão sua? Ela podia jurar que estava sucumbindo à tentação mais e mais rápido a cada dia que passava. Reirin lançou um olhar tímido ao redor de seus arredores demasiadamente atraentes.

Ervas daninhas já brotavam do chão apesar de ela as ter arrancado apenas dois dias antes. O reboco do depósito estava descascando, e seu interior estava totalmente à mostra, com toda sua fascinante arquitetura do pátio interior. As hortaliças floresciam num piscar de olhos, transbordando de sementes. Sua adorável dama da corte lhe proporcionava uma conversa animada.

Não posso me conter! Há tanto a ser feito aqui!

Para cuidadoras natas como os Kou, não havia visão mais gratificante do que uma série de problemas que precisavam ser resolvidos. A boa sorte não apenas caíra em seu colo — chovia a baldes.

Vou começar arrancando as ervas daninhas do jardim e reforçando os canteiros de grama que teci. Os galhos que cortei no primeiro dia já devem estar murchos, então vou defumá-los para usar como desinfetante. Em seguida, reorganizarei as pedras soltas do depósito, colherei os legumes e... hmm, talvez possa adicioná-los ao nosso estoque de alimentos preservados. Se fizer demais, mandarei as sobras para a cozinha do Palácio Shu. Ah, ou talvez eu deva transformar as cabaças em cosméticos! E então...

Apenas pensar em todas as coisas que queria fazer — e saber que tinha a resistência para realizá-las — era o suficiente para enlouquecê-la.

Embora se desse uma séria bronca cada vez que um sorriso ameaçava se espalhar por seu rosto, ela ainda assim cuidava dos preparativos para o café da manhã com bom humor, incapaz de suprimir um sorriso de alegria.

Leelee, por outro lado, observava sua companheira de quarto alegre, porém inescrutável, como se pudesse atacar a qualquer momento.

Droga... O que há de errado com ela?

Esse era o problema: ela era alegre demais. Por mais difícil que fosse de acreditar, a mulher diante dela — a mulher que deveria ser Shu Keigetsu — nunca estava sem um sorriso sereno no rosto.

As pessoas podem mudar tão dramaticamente?

A Shu Keigetsu que Leelee conhecia era a personificação de uma pessoa desagradável. Ela bajulava seus superiores com sua voz mais melosa e depois se virava para chutar seus inferiores sem hesitação. Esfregava as falhas dos outros em suas caras, gritando e atirando objetos no momento em que não gostava do que via. Uma vez, ela até derramara água gelada em Leelee num dia de inverno, e em outra ocasião, ameaçara entregar Leelee aos Olhos de Águia por um roubo que ela não cometera.

Como explicar a mulher sentada diante dela agora? Ela acordava com o sol, superando sua própria dama da corte. Trabalhava duro na manutenção do jardim, alegrava-se quando as flores desabrochavam e até atendia a todas as necessidades de Leelee.

Sem nenhum outro contexto, poderia soar como se ela tivesse passado por uma mudança completa de coração , mas outras partes não se encaixavam. No outro dia, por exemplo, ela enfiara a mão numa caixa de insetos para separá-los, até inclinando a cabeça para o lado e ponderando: "Hmm, estou ficando sem recipientes, então talvez deva manter as aranhas e as centopeias juntas."

Antes que Leelee pudesse se conter, ela retrucara:

— O quê, você está planejando amaldiçoar alguém?! — Não era tom para se tomar com uma Donzela, mas ela tinha certeza de que essa era a reação natural — menos porque estava lidando com uma canalha e mais porque as coisas que a garota dizia e fazia eram o suficiente para fazer qualquer um querer gritar.

Além disso, a Donzela tinha um apetite enorme. Parecia particularmente fã de frituras, e não passava um dia sem que ela cozinhasse algo em óleo e saísse cantando seus louvores com lágrimas nos olhos.

Apenas ontem, ela estendera metade de uma batata frita para Leelee e dissera:

— Hum... Você é uma garota em crescimento, então vou deixar você ficar com a metade maior. — Mas ela parecia tão absolutamente arrasada com isso que Leelee acabara ficando com a menor. No mesmo instante, suas bochechas se coraram de emoção, e ela agradecera profusamente a sua benfeitora. Por um breve momento, Leelee quase a achara fofa — mas não, esta versão de Shu Keigetsu não era Shu Keigetsu de jeito nenhum.

Então quem era ela? Agora Leelee não sabia.

Uma garota eloquente, de temperamento brando, aventureira e insaciável. Leelee nunca conhecera ninguém como ela em toda a sua vida. A única conclusão que conseguia tirar era que a Donzela de fato enlouquecera na masmorra.

E ela ainda não descobrira como atormentar uma louca.

— Ora, querida! A bainha de sua túnica está desfiada, Leelee. Me dê aqui; vou consertá-la para você.

— Não se preocupe. E você poderia parar de usar aquela boneca amaldiçoada como alfineteiro?! É assustador pra caramba!

— Oh, desculpe! É que parecia um uso tão conveniente para ela!

A garota se apressara para pegar seu kit de costura, e em sua mão estava a boneca amaldiçoada que Leelee escondera no galpão dois dias antes, com o corpo inteiro espetado de agulhas.

É exatamente esse tipo de coisa que estou dizendo!

Quando viu que a própria doadora parecia pronta para gritar, a Donzela virou a boneca às pressas e começou a deslocar as agulhas.

— Pronto. Se eu colocar os alfinetes nas costas e nos ombros, não parece que ela está fazendo acupuntura?

— Absolutamente não! — gritou Leelee.

Como chegara a isso? Ela deveria estar assediando Keigetsu como meio de vingança, mas estava começando a parecer um exercício inútil. Ela pensara que ganhar uma túnica de arminho prateado por atormentar a garota que odiava era um negócio bom demais para ser verdade, mas estava começando a duvidar que esse trabalho valesse o aborrecimento.

Já exausta, Leelee soltou um suspiro cansado. Os ombros da outra garota caíram, desculpando-se.

— Sinto muito. Sei que devo estar dificultando as coisas para você. Para ser honesta, quero ficar com tanto medo a ponto de chorar e vomitar sangue, mas nunca consigo.

— Pare. Você está me fazendo parecer pior.

Quando a ruiva suspirou novamente, despojada de sua vontade de lutar, a garota com o rosto de Shu Keigetsu aventurou-se hesitantemente:

— Nesse caso, por que você não para com essas atividades voluntárias... hã, travessuras de uma vez? Você é uma dama da corte maravilhosa — apaixonada, com princípios e trabalhadora. Não seria melhor usar esses pontos fortes e se dedicar ao seu trabalho de verdade?

— ...

Leelee encarou os olhos da outra garota. Era a primeira vez que alguém a elogiava diretamente. Não apenas a Shu Keigetsu, mas qualquer pessoa.

Com medo de levar aquelas palavras a sério, ela imediatamente as descartou.

— O que quer dizer com isso?

Ela não suportava o bater de seu próprio coração. A última coisa que queria era ser tocada pelas palavras daquela mulher.

— Tudo o que você fez foi zombar de mim, e agora está me elogiando? Qual é o seu jogo?

— Veja bem, hum...

— Não me diga para me concentrar no meu "trabalho de verdade" como se não fosse da sua conta. Recebi ordens para cuidar de uma criminosa em potencial num depósito abandonado, lembra? Foi você que me tirou do que eu deveria estar fazendo!

Enquanto ela olhava e apontava o dedo para a Donzela, sua mente concordava com as palavras que saíam de sua boca. Ela detestava aquela mulher. Odiava. Era natural, depois de toda a tortura que ela lhe infligira.

Embora o par tivesse evitado a fome numa série de coincidências afortunadas ligadas à localização do depósito, se a sorte delas fosse pior, Leelee não teria conseguido sobreviver sem a ajuda de Gayou. Se ela quisesse uma chance na vida daqui para frente, tinha que encurralar aquela mulher e colocar as mãos naquela túnica de arminho prateado.

— Você quer que eu faça meu trabalho de verdade, mas pode me oferecer algum tipo de compensação pelo meu serviço leal? Não pode, pode? Ou está disposta a me garantir uma recompensa ou uma promoção?

— Bem, não... Receio não poder lhe dar muita coisa como estou agora...

— Viu? Então não fale tão alto! — Leelee praticamente cuspiu.

A outra garota contraiu os lábios numa linha fina e então baixou a cabeça. Detectando um claro traço de tristeza em seus olhos, Leelee desviou o olhar. Com o rumo que a conversa estava tomando, estava se transformando numa bronca unilateral.

Não! Não fiz nada de errado. É assim que estou me vingando da minha algoz! — disse a si mesma subconscientemente, e então se assustou ao perceber o que estava fazendo. Se ela precisava dizer isso a si mesma, significava que não acreditava realmente.

— Onde você vai, Leelee?! Ainda não tomamos café da manhã...

— Cale a boca!

Chocada por perceber que fora conquistada em apenas alguns dias, Leelee fugiu da cena o mais rápido que pôde. No entanto, apesar de ter saído furiosa, não havia para onde escapar no Palácio do Cavalo Vermelho. Por falta de destino, suas pernas a levaram em direção ao espaço comum que era o Pátio das Donzelas.

Foi enquanto vagava em direção ao pátio que uma certa voz a chamou para parar pela segunda vez.

— Ora, que timing perfeito. Pare aí mesmo.

Um leque redondo adornado com seda fina e uma túnica de seda marfim. Era aquela dama da corte de alto escalão do clã Kin, Gayou.

Leelee deveria dar seus relatórios à noite. Pega de surpresa por este encontro inoportuno, ela se apressou a ajoelhar-se. Como se ajoelhara bem ao lado de uma poça, a água encharcou a bainha de sua túnica.

— É um prazer, Dama Ga...

— Estou decepcionada com você, Leelee — interrompeu a mulher antes mesmo que ela pudesse terminar a frase. A ruiva engoliu em seco.

Leelee não conseguia ver seu rosto por trás da fina camada de seda, mas conseguia sentir o frio no olhar da mulher enquanto ela a olhava de cima.

— Acreditei em sua palavra e lhe dei arroz por cada um de seus relatórios, mas pelo que ouço, Shu Keigetsu tem passado seu tempo naquele depósito com um sorriso. As lavadeiras estavam fofocando sobre isso.

— Veja bem...

As damas da corte de escalão inferior, encarregadas de entregar a roupa onde quer que precisasse ir, frequentemente iam e vinham de seus palácios e às vezes usavam um lavabo compartilhado no pátio interior. Uma delas deve ter visto Shu Keigetsu gritando de alegria ao descobrir alguma erva nova incrível e mencionado isso numa rodada de fofoca.

— Como alguém que foi atacada com insetos e bonecas amaldiçoadas, que teve uma lâmina enfiada em seu travesseiro e cujo jardim foi coberto de lama pode sorrir sem se preocupar? Você mentiu para mim.

— Não! Não menti. Eu realmente fiz todas essas coisas! Juro pelo Grande Ancestral! — suplicou Leelee. Não podia deixar que isso lhe custasse aquela túnica de arminho prateado.

— Oh? Você juraria? Então quer dizer que abandonou toda lealdade ao clã Shu?

— Sim. Sem dúvida.

— E Shu Keigetsu não a conquistou para o lado dela?

— Claro que não — respondeu Leelee sem um momento de hesitação.

Gayou mergulhou num silêncio pensativo. Então, por fim, arrastou-se:

— Muito bem. Vou ignorar desta vez.

— M- muito obrigada!

— No entanto. — Com isso, Gayou tateou em sua manga e jogou o que encontrou ali para Leelee. Era uma adaga pesada embainhada numa bainha preta. — Da próxima vez, quero provas. Use isso.

— Para... o quê?

Ela já lidara com muitas agulhas e tesouras, mas aquela era a primeira vez que segurava uma arma. Leelee engoliu em seco diante do peso real daquilo, enquanto a mulher vestida de marfim soltava um suspiro cansado.

— Por que me pergunta? É seu trabalho descobrir. Faça o que quiser. Tudo o que importa é que eu tenha evidências para apresentar à Dama Seika. Pode ser um pedaço de sua túnica, ou seu cabelo, ou seu coração. Arranque o que quiser.

— Mas... — Leelee ergueu o rosto, tenso de tensão. — Há uma linha entre assédio e... derramamento de sangue. Você afirmou que poderia subornar os Olhos de Águia, mas virar uma lâmina contra uma Donzela — por mais desfavorecida que seja — mereceria uma resposta muito mais séria. Serei executada.

Apesar de todas as suas travessuras, Leelee tomara cuidado para não ultrapassar a linha por sua própria segurança. Havia uma enorme diferença de risco entre insultar Shu Keigetsu ou vandalizar seu espaço de vida e machucar a própria garota.

No entanto, Gayou respondeu sucintamente:

— E daí?

— Hein?

— Você parece não entender a posição em que está.

Os lábios vermelhos que se entrevia por trás de seu leque se curvaram num sorriso de escárnio. Era o mesmo sorriso desdenhoso que Leelee estava acostumada a ver no Palácio do Cavalo Vermelho.

— No momento em que aceitou meu grampo de cabelo, segurei sua vida em minhas mãos. Se não fizer o que peço, entregarei você aos Olhos de Águia. Pelo crime de roubar do clã Kin, é claro. Se for a palavra de uma seda-marfim contra uma rosa-clara, sem falar de uma estrangeira, quem você acha que eles acreditarão? A resposta é clara como o dia.

— Não...!

— Você realmente pensou que eu lhe daria uma túnica de arminho prateado? Você, uma filha de dançarina, cujo único talento reside em seduzir homens? Não me faça rir.

A crueldade de suas palavras drenou a cor do rosto de Leelee.

— Bem, até logo à noite.

Leelee agarrou a saia do ruqun de Gayou quando ela se virou sobre o calcanhar.

— Por favor, espere!

Tum!

A mulher a chutou sem hesitação. Ela pressionou seu sapato enlameado contra o peito de Leelee, derrubando-a de costas. A água espirrou e a lama respingou em suas bochechas.

— Não me toque. Você não será alimentada até que o trabalho esteja feito, sua ratinha.

Gayou disparou uma última observação de despedida numa voz doce e nauseante, e então se foi para sempre.

Leelee a observou partir em estado de choque.

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— Por que você não tira essa cara de tédio, Shin-u? — uma voz o chamou com um suspiro. Shin-u ergueu o olhar, surpreso.

De onde ele estava no meio do claustro, um certo homem de porte nobre — o próprio Príncipe Gyoumei — deu um encolher de ombros exagerado. Ele olhava para Shin-u com um ar de indiferença, vestindo uma túnica diferente da que usava em serviço oficial. Apesar de sua repreensão, seus belos traços estavam tingidos de diversão, mas Shin-u ainda assim se ajoelhou.

— Peço desculpas. Estou cansado de acompanhá-lo em suas visitas diárias ao Palácio do Qilin Dourado, e cometi o erro de deixar meu desagrado aparecer em meu rosto.

— Não provoque uma briga no mesmo fôlego em que se desculpa. Posso ter que levá-lo a sério — respondeu Gyoumei, surpreso com a audácia de seu guarda. Sua brincadeira soava bastante irreverente para um príncipe e seu capitão dos Olhos de Águia — e até mesmo para um par de meio-irmãos. A explicação para isso era simples: se as palavras de Gyoumei fossem verdadeiras, Shin-u era alguém que ele acolhera em seu círculo íntimo.

Gyoumei, o príncipe herdeiro do Reino de Ei, era um governante justo e um mestre da caneta e da espada. Abençoado com boa aparência masculina e uma personalidade de mente aberta, era um príncipe entre príncipes. Dizia-se que desde o momento em que nasceu, o rugido de seu qi de dragão sacudira a capital, e seu porte régio inspirara amor em todas as mulheres que conhecia e admiração na maioria dos homens. Mas foram exatamente essas circunstâncias que o privaram de interesse em outras pessoas.

Em suas próprias palavras, ele achava tudo monótono. Tudo caía muito facilmente em seu colo.

Se fosse qualquer outra pessoa dizendo isso, Shin-u teria franzido o cenho e o descartado como arrogante, mas tendo vivido perto de seu meio-irmão nos últimos anos, ele podia ver o porquê o homem se sentia assim. No final das contas, as pessoas ao redor de Gyoumei eram apaixonadas demais por ele.

Por exemplo, sempre que uma mulher punha os olhos nele, ela soltava um suspiro sonhador; até as damas da corte de escalão inferior não eram exceção. Os eruditos ficavam atônitos com sua inteligência, os estrategistas tiravam o chapéu para sua habilidade na arte da guerra, e até os eunucos estavam ansiosos para chamar sua atenção.

Sua mãe, a Imperatriz Kenshuu, certa vez pediu a um cultivador daoísta que o examinasse. O veredito foi que, por ser uma mistura do sangue de todos os cinco clãs, a providência do Grande Ancestral habitava mais fortemente em sua alma. Seu povo ficou encantado ao saber que ele fora abençoado com o espírito de um governante supremo, assegurado de que ele teria sucesso em todos os seus empreendimentos futuros, mas o homem em questão ficou desiludido com a notícia.

— Ótimo. Então é tudo igual, não importa o que eu faça — fora sua opinião sobre o assunto.

Refletindo sua forte herança Gen — o clã da água e da guerra — o pai de Gyoumei, Imperador Genyou, era um homem de coração frio. Por outro lado, sua mãe amava o trabalho duro e os desafios com paixão, como convinha a uma filha dos Kous pioneiros.

Como uma mistura de suas personalidades, a alma de Gyoumei sempre ansiava por um palco para colocar seus talentos à prova, mas tudo lhe fora dado desde o início. A depressão logo se instalou, e isso o levou a lançar um olhar frio sobre aqueles que o bajulavam. Para ele, as mulheres que o mimavam e os vassalos que estavam todos ansiosos para se ajoelhar não eram diferentes de bonecos sem rosto. E assim era fácil para ele tomar decisões imparciais, nunca deixando a emoção turvar seu julgamento.

Por outro lado, no momento em que se abria para alguém, ele se apegava fortemente.

Talvez devido a todas as dificuldades que Shin-u suportara — abandonado por sua mãe desde jovem, entregue para se tornar vassalo, enviado para o campo de batalha — ele tivera um ar de distanciamento desde menino. Curiosamente, isso servira para chamar a atenção do príncipe, com a primeira impressão de Gyoumei sendo: "Gosto desses seus olhos vazios."

De acordo com o que o príncipe tinha a dizer sobre isso depois, a visão despertara o sangue Kou voltado para o serviço que dormia dentro dele. Seja como for, apesar do status deste último como o muitas vezes rejeitado meio-irmão de um príncipe, Gyoumei mostrara grande favoritismo a Shin-u a partir daquele momento. Mesmo quando o oficial superior com quem ele se chocara no campo de batalha enviara Shin-u para o pátio interior, o príncipe lhe garantira uma posição estável e o poupara da perda de seus genitais. O capitão dos Olhos de Águia detinha tal status que podia até ser "presenteado" com a consorte de mais baixo escalão.

Embora como compensação, ele também me use muito.

Por mais que Gyoumei adorasse Shin-u, ele era inteligente demais para não usar seu meio-irmão para desmascarar a verdadeira natureza das mulheres do palácio. Além disso, achava a habilidade do homem como espadachim útil o bastante para alistá-lo como guarda-costas cada vez que visitava o pátio interior.

Hoje, ele fora convocado para acompanhar Gyoumei em sua visita a Kou Reirin, que ainda estava indisposta. O príncipe trouxera muitos presentes de melhoras para ela, então o papel principal de Shin-u era o de seu cavalo de carga. Forçado a carregar uma enorme pilha de caixas e ouvir as gracinhas de seu meio-irmão, Shin-u estava aborrecido demais para não reclamar.

— Se quer minha opinião, não há necessidade de vê-la todos os dias.

— Não seja ridículo. Como poderia virar as costas para as próprias Donzelas que foram reunidas por minha causa?

Ele dizia isso como se fosse o mais natural, mas nunca visitaria uma das outras Donzelas. Talvez nem se desse ao trabalho de escrever uma carta de condolências. Era assim que Gyoumei favorecia abertamente Kou Reirin.

— Pode pular um dia ou dois. Se você tem tanto tempo livre, poderia pedir ao Senhor Kousai para lhe dar mais trabalho.

— Não ouse! Você venderia seu próprio meio-irmão para aquele demônio? Não tem humanidade? Além disso, mal chamaria de "tanto tempo" meros trinta minutos. Não precisa exagerar.

Kousai era um burocrata que lidava principalmente com questões financeiras. Embora fosse um homem altamente competente, era conhecido por ser impiedoso quando se tratava de atribuir cargas de trabalho, e não abria exceção para a família imperial. Gyoumei encolheu os ombros e fez um show exagerado de pavor, mas Shin-u sabia muito bem que era uma atuação. Era apenas navegando em sua agenda lotada e concluindo sua já tremenda carga de trabalho antes do previsto que Gyoumei conseguia abrir tempo para essas breves reuniões em primeiro lugar.

Shin-u estava dividido entre admirar a habilidade de Gyoumei de realizar tal façanha e maravilhar-se com os encantos da Donzela que o fazia querer fazê-lo.

— Sempre pensei que não gostasse do tipo fofo e delicado, Sua Alteza. A Dama Kou Reirin deve ser bastante especial — ele acabou murmurando, um tom de protesto em sua voz.

— Oh? Você acha que o maior ponto forte de Reirin está em sua delicadeza? — Gyoumei respondeu, erguendo uma sobrancelha. Ele parecia quase divertido. — Ela é uma mulher Kou de nascimento e criação — obstinada como elas vêm. Já faz uns cinco anos desde que fui apresentado a ela, e ela foi a primeira mulher a não corar ao me conhecer. Não posso permitir que a subestime.

Se o primeiro encontro fora há cinco anos, ela teria por volta de dez anos na época. Shin-u ficou tentado a argumentar que ela era simplesmente jovem demais para entender o amor, mas no caso particular de Gyoumei, era de fato raro que até mesmo garotas pré-púberes se abstivessem de fazer olhares para ele. Ele podia ver porque aquele único encontro poderia ter sido o suficiente para Gyoumei deixar Kou Reirin entrar em seu círculo íntimo.

— Ela frequentemente adoece, mas seus esforços para esconder isso das pessoas ao seu redor são encantadores. Sempre que estou perto dela, posso sentir o sangue Kou se agitar dentro de mim, acendendo um desejo de amá-la e mimá-la.

— É mesmo? — foi a resposta indiferente de Shin-u.

Dado o quão bem-comportada ela era, os Olhos de Águia tinham interação limitada com Kou Reirin. O máximo que Shin-u já vira dela era em cerimônias formais, e como ele tinha que ficar perto de Gyoumei nessas ocasiões, não tinha como saber essa tal "verdadeira natureza" dela. Tanto quanto Shin-u podia dizer, Kou Reirin não era nada além da mulher graciosa e delicada que parecia ser.

O que há de tão atraente numa mulher assim?

A partir daquele ponto da conversa, Shin-u prestou pouca atenção ao resto dos devaneios encantados de Gyoumei. Ele afirmou que talvez porque o Festival de Tanabata a assustara bastante, ou talvez porque sua febre estivesse tão ruim — ela estava dependendo mais dele do que o normal. O príncipe riu, declarando que isso enchia seu coração de alegria ao ver.

— O charme de Reirin está em sua resistência ao meu qi de dragão e numa inocência que a mantém à distância, mas não posso negar o desejo de tocar a mulher que amo. Nunca antes uma de minhas gracinhas funcionara nela, e agora a tenho se agarrando a mim com lágrimas nos olhos. Não me canso disso.

Ele relembrou seu último encontro no Palácio do Qilin Dourado, parecendo muito a imagem de um homem apaixonado.

Inseguro sobre como responder, Shin-u murmurou algumas respostas evasivas, ao que Gyoumei soltou um suspiro exasperado.

— Você é um péssimo parceiro de conversa. Não tem uma garota ou duas que lhe interessem?

— Receio que não. Talvez o sangue do famoso clã Gen, de coração frio, corra fundo demais em mim.

A mãe de Shin-u era estrangeira. O clã Gen de seu pai parecia ser o único dos cinco clãs a ter se manifestado em seu sangue.

A resposta de seu meio-irmão fez os ombros de Gyoumei tremerem de alegria.

— Tolo. Isso vai tornar tudo ainda mais interessante de se ver.

— O quê?

— Águas são frequentemente calmas, mas ocasionalmente, podem se agitar com força suficiente para romper uma barragem. Aqueles do clã Gen parecem indiferentes na maioria das circunstâncias, mas quando abençoados com a parceira certa, ouço que podem amar ou odiar ainda mais ferozmente do que os Shus. Mal posso esperar para testemunhar o momento em que um homem tão apático quanto você encontra seu coração abalado e perde toda a semelhança de compostura.

Shin-u encolheu os ombros, não comprando o que o príncipe estava dizendo através de seu sorriso de escárnio. Com exceção de Gyoumei, ele nunca conhecera ninguém que não o temesse, desconfiasse ou desse em cima dele. Não conseguia imaginar uma única dessas pessoas inspirando tal emoção nele.

Ah, mas...

De repente, a imagem de uma certa mulher passou por sua mente. Era a garota que encarara uma fera engaiolada com perfeita compostura, e depois se virara e entrara em pânico por causa de um rato, arrancara ervas daninhas na lama e, tão inocentemente, implorara por sal. A própria Shu Keigetsu que deveria ser altiva e arrogante, que nunca fizera nada além de puxar o saco dele antes.

— Na verdade, embora minha herança Kou a dilua, eu também posso sentir meu sangue Gen ferver sempre que alguém de quem gosto se machuca. Quando olho para quanta dor a Reirin está sentindo, tudo o que quero fazer é correr até Shu Keigetsu e agarrá-la pelo colarinho, que o cavalheirismo seja dito.

Shin-u se sobressaltou ao ouvir o nome dela sair da boca de Gyoumei, quase como se o outro homem tivesse lido seus pensamentos.

— Mesmo em seu leito de doente, Reirin está preocupada o suficiente com Shu Keigetsu para pedir que ela não seja punida indevidamente, mas os rumores dizem que a mulher está passando seu tempo no Palácio Shu rindo sem se preocupar. Ela está sendo disciplinada apenas no nome. Sem dúvida, está desfrutando da mesma qualidade de vida de sempre, empurrando suas damas da corte com suas birras e ameaças características.

Ela sempre se comportava da melhor maneira possível com os poderosos, mas Gyoumei não era tolo. Ele vira através de sua natureza presunçosa.

Shin-u, que vira sua "prisão domiciliar" com seus próprios olhos, abriu a boca para argumentar.

— Não...

Era o oposto: suas condições de vida eram tão miseráveis que superavam o crime, e não havia uma única atendente à vista. Ela nem tentara intimidar um eunuco, e não pedira ao capitão dos Olhos de Águia que ficasse mais tempo do que o necessário.

Mas não parece muito convincente quando coloco assim.

No entanto, achando sua própria explicação rebuscada demais, Shin-u optou por calar a boca. Sua mudança de coração fora dramática o suficiente para parecer suspeita, e mesmo que ele contasse a Gyoumei, o príncipe certamente insistiria que ela estivera colocando uma fachada de humildade. Ele chegara a dizer que mandaria cortar a cabeça da mulher na próxima vez que imitasse Kou Reirin; histórias de segunda mão só alimentariam as chamas de sua raiva.

Seria mais rápido fazer Sua Alteza ver com seus próprios olhos?

Tratava-se de suas expressões faciais, seus gestos, e as pequenas pausas quando falava. Havia algo errado com ela que só podia ser percebido numa interação cara a cara, e se ele quisesse compartilhar esse sentimento com Gyoumei, Shin-u teria que levá-lo ao Palácio do Cavalo Vermelho.

Mas isso era mais fácil falar do que fazer. Considerando o ódio ardente de Gyoumei por Keigetsu, ele estaria disposto a pisar lá? Além disso, a única razão pela qual ele tinha permissão para entrar no Palácio Kou era que ele era filho da Imperatriz Kenshuu. Nem mesmo o príncipe herdeiro podia visitar os palácios privados dos clãs por capricho.

— Capitão!

Justo então, alguém chamou Shin-u por trás. Ele se virou para ver quem era.

— Com licença, Sua Alteza. Posso entregar um relatório urgente ao capitão?

Era Bunkou, que parecia fora de si, incomum.

Assim que Gyoumei lhe concedeu permissão, o eunuco se levantou de onde estava prostrado e sussurrou sua notícia a Shin-u.

— Tenho um relatório de um dos Olhos de Águia designado para o Pátio das Donzelas. Uma garota de túnica rosa-clara foi vista indo em direção ao Palácio do Cavalo Vermelho com uma adaga na mão. Ela estava cambaleando, e seu comportamento era preocupante.

— Preocupante como?

— Bem, hum... Ela parecia pronta para esfaquear alguém, digamos. Era quase como se estivesse buscando vingança.

Shin-u olhou de volta para Bunkou com um franzir de testa.

— Por que ele não a deteve ali mesmo?

— Isso pode ser uma surpresa para um certo figurão que adora exibir sua insígnia de Águia, mas a maioria de nós, eunucos, tem um status inferior até mesmo à mais baixa das damas da corte! Ele não podia pisar no Palácio Shu com bases tão vagas e potencialmente equivocadas, quanto mais deter uma atendente! — o eunuco de olhos puxados disparou, irritado.

— Além disso — acrescentou ele, um tanto hesitante — a garota de túnica rosa-clara não se dirigia para a morada da Nobre Consorte, mas para os arredores do palácio, onde fica o depósito.

— Então o quê? O eunuco pensou que poderia fechar os olhos contanto que Shu Keigetsu fosse a que saísse ferida? — perguntou Shin-u, o tom de sua voz caindo.

Bunkou ficou em silêncio. Ele acertara em cheio.

O capitão insistiu, um frio em suas palavras.

— O Julgamento do Leão inocentou Shu Keigetsu de seu status criminoso. Cuspir na cara...

— Já chega, Shin-u. — Gyoumei o interrompeu num tom que não deixava espaço para argumentos. — O eunuco diante de você não fez nada de errado. Nem aquele que deu o relatório.

Shin-u ergueu a voz apesar de si mesmo.

— Por quê?! Quer dizer que não se importa com o que seja feito a Shu Keigetsu?

— Não, não é isso. Se aqueles do pátio interior se sentem no direito de infligir suas próprias punições a Shu Keigetsu, é minha própria atitude que permitiu isso. Como príncipe, a culpa é minha por tornar público meu desgosto por ela. A falha é minha, não dos eunucos que perceberam meu favoritismo.

O príncipe deu um encolher de ombros resignado. Mesmo consumido pelo ódio, ele era capaz de fazer julgamentos racionais.

— Peço desculpas. Falei sem pensar — disse Shin-u.

— Tudo bem. A visão de você fazendo uma birra chorosa e vermelha foi impagável.

— Não fiz isso. — Ele foi rápido em refutar o príncipe, mas suas pernas já o levavam em direção ao Palácio do Cavalo Vermelho.

— Espere. — Gyoumei chamou seu meio-irmão para parar. — Não quero punir a Shu Keigetsu além do necessário, mas também não quero mimá-la. Suas emoções parecem estar à flor da pele, então vou contar uma pequena história para esfriar sua cabeça.

— O quê?

— Shu Keigetsu uma vez fabricou uma acusação de tentativa de agressão para fazer um eunuco ser decapitado.

Shin-u ficou sem palavras.

Uma raiva aguda tomou os olhos alegres de Gyoumei.

— Isso foi antes de você assumir seu posto — por volta da época em que o resto da corte começara a se distanciar dela, desiludidos com o quão mal ela se adaptava à vida aqui. Numa tentativa desesperada de chamar atenção, ela quebrou um jarro em pedaços e insistiu que o eunuco a ameaçara com um dos cacos. Embora no final, sua história fosse tão mal feita e cheia de contradições que ele foi absolvido.

— Mas por que ela faria...?

— A razão era simples: aquele eunuco rira dela quando ela estragou uma leitura de poesia numa cerimônia. Se ela se ofendesse com a ofensa, poderia tê-lo repreendido ali mesmo. Ela tinha o direito e o poder para fazer isso. Mas em vez disso, ela se encolheu em nossa presença e deixou passar, apenas para se vingar dele mais tarde.

As Donzelas detinham autoridade absoluta no Pátio das Donzelas. Se não fosse pela intervenção do príncipe herdeiro, o único que podia passar por cima delas, aquele eunuco teria sido sumariamente executado. Foram essas táticas dissimuladas dela que lhe renderam a ira de Gyoumei, amante da justiça.

Shin-u lançou um olhar para onde Bunkou se ajoelhava ao seu lado. Ele mantinha seu silêncio, com o rosto tão pedregoso quanto sempre. Esta devia ser a "tortura de seus colegas" a que ele aludira antes, Shin-u juntou as peças com um suspiro.

— Ela sempre é assim. Ela deseja atenção, mas não faz nenhum esforço próprio e se recusa a expressar suas queixas abertamente. Tudo o que faz é lançar olhares saudosos, queimar de ciúmes e atacar quando está chateada.

Vendo que uma dessas birras quase custara sua preciosa borboleta, seu comportamento não era algo que Gyoumei pudesse tolerar.

— ...

Shin-u franziu o cenho. A garota de quem Gyoumei e Bunkou falavam não correspondia à garota que ele encontrara no Julgamento do Leão ou fora do depósito.

Ou não — talvez eles tivessem razão. Era verdade que Shu Keigetsu lhe lançara olhares fingidos no passado. Como era verdade que ele fora forçado a resolver altercações que ela instigara.

Nesse caso, estava correto assumir que sua verdadeira natureza era a de uma covarde perversa, e a maneira como ela agira durante aqueles dois encontros fora a exceção?

— É claro, não tenho razão para impedi-lo de cumprir seus deveres. Vá em frente, Capitão. Apenas mantenha a cabeça fria.

— Agradeço o conselho, Sua Alteza.

Antes que Shin-u pudesse decidir de qualquer forma, Gyoumei o dispensou com um aceno de mão. No final, o guarda tomou isso como seu sinal para se virar sobre o calcanhar.

𓂃 ࣪˖ ִֶָ𐀔

— Sou uma péssima senhora...

Reirin estava abatida. Ela abraçava os joelhos e olhava para a terra, observando uma procissão de formigas passar. A visão delas se esforçando para levar comida de volta ao formigueiro fazia seu coração doer.

Tão industriosas... Devem ter um ambiente de trabalho positivo. O que vocês, pequeninas, ganham em troca de fazer seus trabalhos? Comida? Abrigo? Ou o trabalho é sua própria recompensa?

Suas palavras cortaram fundo. Reirin cobriu o rosto com as mãos. Até os insetos rastejando no chão eram de alguma forma compensados por seu trabalho.

E, no entanto, não há nada que eu possa fazer para recompensar Leelee por todo seu trabalho duro...

A situação era exatamente o que parecia. Há algum tempo, Reirin vinha remoendo as palavras de Leelee e se culpando por elas.

Leelee era uma grande dama da corte. Ela parecia ter acumulado bastante ressentimento em relação a Shu Keigetsu, mas mesmo assim, cumpria seus deveres, mudara-se para o depósito como lhe fora ordenado, e dormia e comia com sua senhora. Tinha boa postura, dava respostas rápidas apesar de sua maneira bruta de falar e, acima de tudo, era uma garota sincera de coração. Reirin gostava especialmente desse último traço.

Nem muitas pessoas são tão abertas sobre seus sentimentos.

Devido à sua saúde precária desde a infância, as pessoas ao redor de Reirin sempre foram a imagem perfeita de amáveis e atenciosas. Transbordavam de amor, nunca olhando para ela sem um sorriso caloroso ou preocupação nos olhos. A mais rara de todas era Tousetsu, que nunca demonstrava muita emoção.

Mas e agora? Tudo mudara desde a noite do Festival de Tanabata. Primeiro, fora ameaçada por Shu Keigetsu, depois repreendida por Leelee. Embora essas experiências totalmente novas a tivessem pego de surpresa, ao mesmo tempo, a fizeram pensar: Uau. Então as pessoas também podem ter emoções negativas como essas.

Em algum nível, ela sempre soubera que crescera num ambiente abençoado, mas quando finalmente abrira a janela e se expusera aos ventos cortantes do frio, descobrira que a sensação era muito mais estimulante do que jamais poderia imaginar.

Se as pessoas se banhassem nesse frio amargo por tempo demais, acabariam se machucando. Desmoronariam. Mas, assim como aqueles que vivem nos trópicos não podem deixar de buscar a neve, Reirin sentia-se compelida a pegar e examinar cada uma dessas explosões deslumbrantes de emoção. Os cristais da raiva eram cortantes e belos de se contemplar.

Leelee, em particular, era a única que acompanhara Reirin de manhã à noite nos últimos dias. Observar sua atendente ficar boquiaberta de choque, apertar os olhos em suspeita, ficar vermelha de raiva ou pegar o pedaço menor de batata frita enchia Reirin com o mesmo tipo de afeição que sentiria ao olhar para um pequeno animal. A visão da ruiva puxando ervas daninhas desajeitadamente porque "não tinha nada melhor para fazer" convencera Reirin de que ela era uma boa garota.

Para completar, a garota tinha coragem. Sabendo que ela devia ter coletado todos aqueles insetos enquanto gritava a plenos pulmões, era o suficiente para fazer Reirin querer arrastá-la de volta ao Palácio Kou e torná-la uma dama da corte de alto escalão ali mesmo.

Apesar de tudo isso, era verdade que Reirin ainda não dera nada em troca a Leelee.

Adoraria lhe dar um de meus pertences pessoais do Palácio do Qilin Dourado, como um grampo de cabelo ou um pente, mas isso não vai acontecer nas circunstâncias atuais.

Como preço por receber comida e abrigo, as damas da corte não recebiam muito salário; os favores de suas senhoras compensavam a diferença. Reirin, que pairara perpetuamente à beira da morte, sempre tomara a iniciativa de dar a suas damas da corte bens materiais como forma de legado. No entanto, agora que habitava o corpo de Shu Keigetsu, ela não podia dar a Leelee nenhum de seus pertences do Palácio Kou.

Mas, por outro lado, não seria certo dar as coisas da Dama Keigetsu sem sua permissão.

Essa era a parte que a perturbava. Apesar do fato de Keigetsu ter trocado seus corpos por sua própria conveniência, o código moral de Reirin a impedia de mexer nos pertences pessoais da outra garota.

Como fora exilada com apenas as roupas do corpo, ela não tinha muito para distribuir em primeiro lugar. Mas a única túnica que lhe restava — a chamativa que Shu Keigetsu usara na noite do Festival de Tanabata — era um artigo superior, e até mesmo um fio de seu cabelo certamente valeria um bom preço.

Seria uma coisa dar algo desgastado e descartado, mas não posso cortar ou me livrar de algo que ainda tem valor.

Ela queria recompensar Leelee, mas não podia. O cenho de Reirin se franziu enquanto lutava para conter as lágrimas.

Ugh, não devo... Chorar vai comprometer minha imunidade!

Baixar sua resistência a doenças — esse era o maior e único medo de Reirin.

Ela balançou a cabeça para frente e para trás, então deu um tapa nas próprias bochechas e fez um discurso de incentivo.

— Vamos lá, vamos fazer isso com tudo!

Ela estivera agachada no chão por tanto tempo que suas panturrilhas tinham adormecido; considerando a robustez de seu novo corpo, isso significava que ela devia estar remoendo por bastante tempo. Quando viu que o sol já passara do zênite, apressou-se de volta ao depósito para começar o almoço.

Foi então que ouviu um shrrk .

Percebendo o barulho fraco vindo de dentro do depósito, ela inclinou a cabeça com curiosidade. Soava quase como um gato afiando as garras — ou talvez rasgando algo. Reirin espiou a penumbra do galpão, imaginando o que poderia ser, e seu rosto se iluminou com o que encontrou lá.

— Oh, Leelee! Você voltou! Eu estava tão absorta em pensamentos que nem...

Ela abriu a boca para expressar sua alegria, apenas para fechá-la no meio da frase.

De costas para Reirin, Leelee estava rasgando a túnica pendurada na parede.

— Leelee?

Shrrk. Shrrk.

— O que você está fazendo? Essa é...

A única peça de roupa fina neste depósito. Mas antes que Reirin pudesse terminar de dizer isso, ela novamente hesitou.

Desta vez, foi porque Leelee se virara bruscamente para olhá-la.

— Isso é tudo culpa sua.

A visão dela fez Reirin ofegar. Suas roupas estavam encharcadas, e a lama manchava suas bochechas claras. Seu cabelo estava despenteado, e seus olhos ardiam de fúria enquanto ela encarava a intrusa.

Tanto sua voz quanto a mão que apertava sua adaga tremiam.

— Você fez isso... Você me arruinou!

— Acalme-se, Leelee! Você vai pegar um resfriado. Por que não troca de roupa, lava as mãos e respira fundo...

— Cale a boca! — gritou a garota, afastando a mão estendida de Reirin com sua adaga. — O que é um resfriado idiota para mim?! Isso não é nada comparado ao que aconteceu com a minha vida! Está tudo acabado!

Lágrimas rolaram por suas bochechas com as palavras. Estava claro que ela não estava pensando direito.

— Leelee, você precisa se recompor. Vamos, abaixe a lâmina e tire essa roupa suja...

— Não me toque! — Quando Reirin estendeu a mão para ela, sem se intimidar, Leelee gritou ainda mais alto que antes. — Droga! Droga de tudo! Eu já estava manchada desde o começo! Não importa o que eu faça, não importa o quanto eu tente, nunca serei chamada de nada além de filha de dançarina!

— Você não deveria dizer isso, Lee...

— Não zombe de mim!

Com os olhos fechados, Leelee balançou sua adaga selvagemente pelo ar. Reirin desviou o mais rápido que pôde, mas a lâmina cortou um fio de cabelo perto de sua orelha, que então caiu no chão coberto de terra.

Ahhh! Sinto muito, Dama Keigetsu!

Embora tivesse conseguido desviar, esquecera-se de considerar a diferença de altura entre ela e Keigetsu. Reirin se desculpou com a garota por instinto por perder um pedaço de seu cabelo.

Ah, mas ela tinha muitas pontas duplas ali...

Reirin ficou um pouco aliviada ao roubar um olhar para de onde o cabelo viera, mas enquanto estava distraída, Leelee ergueu sua adaga bem alto.

Maldita seja vooocê!

A luz do sol entrando pela janela oca brilhou na ponta da lâmina. Reirin ergueu o olhar, seus olhos se arregalando enquanto distinguia a silhueta da adaga acima dela.

Thmp!

No mesmo instante, o braço de Leelee foi parado com um baque suave.

— O que você está fazendo?! — veio o grito que o acompanhava.

Era Shin-u.

Ele torceu o braço que segurara e forçou Leelee a largar a adaga, e então, fiel ao seu nome de Olho de Águia, a imobilizou com toda a rapidez de uma ave de rapina. Bunkou, que estivera atrás dele, aproveitou a oportunidade para chutar a lâmina para um canto do depósito.

— Você está bem?

— Capitão... Mestre Bunkou...

Reirin respondeu ao olhar penetrante de Shin-u com a boca aberta de choque. Seu cérebro não conseguia processar o que os dois estavam fazendo ali.

Então ela consegue mostrar emoção honesta em seu rosto.

Shin-u e Bunkou, enquanto isso, observavam a garota atônita com cautela. Refletido em seu olhar de olhos arregalados estava puro espanto. Se isso fosse uma performance para obter simpatia, a chegada de uma plateia deveria tê-la feito transbordar de alegria, mas não havia um traço disso em sua expressão.

Mas o que verdadeiramente perplexificava Shin-u era que ela também não parecia nem um pouco assustada. Ele não tinha ideia do que ela poderia estar pensando.

Ela não parece o tipo de vilã calculista que Sua Alteza descreveu, mas também não parece uma mulher indefesa e patética.

Mantendo o combativo e cauteloso Bunkou em sua mira, Shin-u escolheu suas palavras com cuidado.

— Viemos verificar a situação porque recebemos um relatório de uma dama da corte armada indo em direção aos arredores do Palácio Shu. Derramamento de sangue é estritamente proibido no pátio interior, e qualquer transgressor será severamente punido. Com isso em mente, pergunto a ambas: o que aconteceu aqui? — Seu tom era baixo e sombrio.

Quando ele olhou para baixo, viu que a dama da corte cobria o rosto e tremia onde estava caída no chão. Parte disso era que ela voltara a si, mas a aura imponente de Shin-u era igualmente culpada por sua reação.

Embora não houvesse comparação com o qi de dragão que Gyoumei possuía, que podia cativar mulheres com um único olhar ou derrubar homens com um único olhar penetrante, Shin-u era ele próprio um descendente da família imperial. Se ele aprofundasse sua voz e estreitasse aqueles olhos astutos, até as Donzelas mais destemidas certamente se curvariam diante dele. Uma dama da corte de baixo escalão sem nenhuma ligação com o imperador nunca teria chance.

Tendo se livrado de Leelee, Shin-u se voltou para a garota que estava enraizada no local.

Ela empalideceria como sua dama da corte, ou gritaria e lamentaria sua situação com lágrimas nos olhos? Com base no comportamento de Shu Keigetsu até aquele momento, Shin-u previra uma dessas duas opções, mas a garota não fez nenhuma das duas.

— O que aconteceu aqui, você pergunta? — repetiu ela, calmamente colocando a mão na bochecha e inclinando a cabeça para o lado.

Shin-u franziu ligeiramente o cenho, sentindo algo estranho no gesto. Então, suas próximas palavras fizeram aquelas sobrancelhas franzidas se erguerem, seus olhos se arregalando.

— Vamos ver... Eu pedi a ela para aparar minhas pontas duplas.

— O quê?

— Como eu disse, ela me ajudou com meu cabelo.

Até a atendente imobilizada ergueu o rosto, sem palavras. O mesmo fez Bunkou. E quem poderia culpá-los? Ninguém esperava que Shu Keigetsu dissesse algo assim naquela situação.

Ela está tentando proteger sua dama da corte?

A boca de Shin-u se contorceu em desagrado. Não apenas sua reação traíra todas as suas expectativas, mas pior ainda, a desculpa que ela inventara fora simplesmente patética. Ele não gostava de ser enganado.

— Está encobrindo-a? Uma suposta vilã deveria se ater ao que sabe, Shu Keigetsu. Você achou que eu compraria essa desculpa depois que ela a amaldiçoou com uma adaga na mão e depois desabou em lágrimas?

— Não é uma desculpa. É a verdade honesta.

E, no entanto, ela não recuou. Ela olhou Shin-u bem nos olhos, sem um traço de bajulação ou apreensão em seu olhar.

— Independentemente do que Leelee estava pensando ou planejando, tudo o que ela realmente fez foi cortar algumas das minhas pontas duplas. Lançar dúvidas ou culpas sobre coisas que não aconteceram seria um desperdício de força.

Shin-u não pôde deixar de contemplar com admiração sua postura digna. Atrás dele, podia sentir a respiração de Bunkou prender-se em sua garganta.

Era a mesma coisa. Isso era como o Julgamento do Leão novamente. Havia algo estranhamente visionário, composto e marcante em sua maneira.

Quem é ela?

Ele sentiu seu coração bater em seu peito.

Antes que pudesse chegar a uma resposta para sua pergunta, no entanto, a garota com o rosto de Shu Keigetsu lhe lançou um doce sorriso.

— Portanto, embora eu deva me desculpar, posso pedir que se retirem? Como podem ver, minha dama da corte está encharcada. Gostaria de trocá-la sem a presença de cavalheiros.

Seu tom de finalidade deu a Shin-u e Bunkou mais um choque, e o par trocou olhares.

Esta era Shu Keigetsu, que odiava ser desrespeitada acima de tudo — que buscaria atenção por qualquer meio necessário. A garota que faria seu melhor olhar de olhos úmidos e bajulador no momento em que visse alguém no poder. No entanto, aqui estava ela novamente, dispensando Shin-u e Bunkou sem um segundo pensamento.

— Isso é sua maneira de dizer que prefere assumir a punição em suas próprias mãos, longe de nossos olhos curiosos?

— Ora, não. Por que eu puniria minha atendente por me dar um corte de cabelo? Isso à parte, Capitão, poderia pedir que soltasse Leelee? Seu pulso certamente vai inchar na mão de um homem.

Além disso, ela estava até demonstrando preocupação com sua dama da corte.

Shin-u soltou a ruiva desajeitadamente, apenas para a Donzela estender a mão e perguntar:

— Consegue ficar de pé? — Os dois guardas observaram em completo espanto.

Nem um traço de crueldade podia ser encontrado em seu olhar gentil. Havia algo muito natural na maneira como ela acariciava as costas de sua atendente; não parecia nem um pouco que ela estivesse reprimindo sua raiva para manter as aparências.

— Foi uma honra tê-los vindo até aqui. Agora, com licença.

— Ei...

A garota fez uma reverência graciosa, quase como Kou Reirin faria.

— Hum, com licença! — Bunkou não pôde deixar de gritar, maravilhado com a forma como ela os levara a se retirar — com a impossibilidade de tudo aquilo. — Não há algo que gostaria de nos dizer?

— Hmm?

Alguém em sua posição deveria ter dezenas de queixas a apresentar aos aplicadores da lei do Pátio das Donzelas. Por exemplo, o fato de que ela estava sendo forçada a viver num depósito miserável demais para ser os aposentos de uma Donzela, ou que ela não tinha quase nenhuma atendente para servi-la. Ou, por falar nisso, a antagonismo profundamente enraizado que enfrentava mesmo depois de sobreviver ao Julgamento do Leão.

Qualquer uma dessas serviria. Se ao menos ela se enfurecesse contra eles e lamentasse sua desgraça, Bunkou poderia desprezá-la como sempre fizera. Ele poderia finalmente zombar e comemorar que ela fora levada a condições sórdidas o suficiente para igualar sua natureza vil.

No entanto, ela nem gritou nem fez aqueles olhos de cachorrinho fingidos. Ela apenas inclinou a cabeça com curiosidade.

Não, não apenas isso.

— Ah, talvez sim — respondeu ela com uma risadinha suave. — Acredito que havia algo, mas tenho assuntos mais importantes a tratar agora.

Seu sorriso era gentil, tão etéreo quanto uma borboleta esvoaçando pelo céu.

Os guardas não conseguiam desviar os olhos dela, e por fim, ela forçou a conversa a terminar com outra reverência.

— Com licença.

Ela não deixou a Shin-u e Bunkou outra escolha senão recuar. Seria uma coisa se a agressora implorasse por sua inocência, mas a clara vítima nesta situação — Shu Keigetsu — era a que negava o crime de sua dama da corte. Os Olhos de Águia não tinham autoridade para passar por cima dela e investigar.

— Não faça nada que precisemos saber — disse Shin-u no que soou para seus próprios ouvidos como uma luta para ter a última palavra. Então ele saiu do depósito com seu parceiro.

— ...

Os dois homens continuaram pela trilha em silêncio por um tempo, até que Shin-u eventualmente murmurou:

— Há algo estranho nela.

Enquanto seu companheiro afastava a grama densa que os prendia em ambos os lados, Bunkou assentiu em concordância imediata.

— Concordo.

— Ela mudou demais. A masmorra não é suficiente para explicar.

— Concordo.

— Aposto que Sua Alteza vai achar difícil acreditar nisso. É melhor tomarmos cuidado com o que colocamos em nosso relatório.

— Concordo.

Até o Bunkou de boca afiada estava tão desarmado pelo que acabara de ver que assentia com total sinceridade.

Quando a grama finalmente se afinou e o caminho de cascalho padrão do Palácio Shu surgiu à vista, Shin-u propôs num resmungo:

— Então acho que você deveria escrevê-lo.

— Discordo completamente!

O capitão dos Olhos de Águia e seu subordinado caminharam juntos por algum tempo após sua rápida dispensa, mas assim que passaram pelos portões do Palácio do Cavalo Vermelho, os dois homens se separaram em silêncio.

Graças a Deus... Consegui que eles recuassem sem uma briga.

Enquanto isso, Reirin soltou um suspiro de alívio ao observar o par partir.

Se tivesse sido Gyoumei quem viera vê-los, a intolerância do príncipe ao engano e sua forte força de vontade poderiam tê-lo feito mais persistente em pressionar Leelee e Reirin por respostas; ela ficava feliz por terem sido agraciadas com aqueles dois Olhos de Águia e sua marca pouco convencional de bondade.

Não lhe ocorreu que seu comportamento desconcertante era a razão pela qual os guardas não tinham sido tão insistentes.

Sei que deveria ter contado a eles sobre a troca... mas Leelee é mais importante agora!

Reirin abruptamente mudou de pensamento e se virou para a outra garota.

— Venha, Leelee! Tire essa túnica suja. Depois vire as costas para mim.

Leelee olhou de volta com medo nos olhos, até que finalmente tirou sua túnica externa, o desespero estampado em seus traços. Quando ficou apenas com sua roupa de baixo e ruqun, ela obedeceu ao comando de sua senhora, ajoelhando-se no chão e virando-se.

— A senhora vai me açoitar?

— Oh, não seja ridícula! E o que aconteceu com seu tom animado de sempre?

— Quer dizer... — As mãos que Leelee apertava contra o peito tremiam ligeiramente. — Eu... tentei matá-la.

Reirin pausou os movimentos ocupados de seus braços para soltar uma risadinha suave.

— Você é uma pessoa muito bondosa, Leelee.

Então, ela cobriu as costas curvadas de Leelee com uma túnica. Era de um vermelho vivo e flamejante.

— Hein?!

— Se eu ajustar nos ombros, vai ficar perfeita. Hee hee. Ainda bem que você não danificou o forro.

Era a mesma túnica que Leelee rasgara, mas virada do avesso. O verso daquele denso trabalho de retalhos de fios de ouro e prata era um comprimento de tecido vermelho vivo sem estampa.

Surpresa pelo peso súbito e pelo calor do tecido que envolvia seus ombros, Leelee olhou para trás. Reirin a encarou de volta com um sorriso.

— Eu sei. A camada interna vai parecer muito rígida e desconfortável se você usar como está, não vai? Não se preocupe — vou remover todos os fios de metal e consertar os rasgos. Acredite ou não, tenho bastante confiança em minhas habilidades de costura.

— O que a senhora está...? — murmurou Leelee em estado de transe.

— O que quer dizer com "o quê"? — respondeu Reirin alegremente enquanto ajustava a frente da vestimenta. — Estou falando da túnica que pretendo dar a você, é claro.

Eu hesitava em dar as coisas da Dama Keigetsu sem sua permissão, mas agora que foi reduzida a uma bagunça esfarrapada, tenho certeza de que ela não se importaria.

Reirin estava radiante por finalmente ter algo que pudesse dar à sua trabalhadora dama da corte.

— Que sorte que era um vermelho tão rico. Rosa-claro é uma cor adorável também, mas acho que o vermelho vivo vai combinar perfeitamente com uma espírito de luta como você.

O vermelho vivo era um tom mais escuro do que o rosa-claro ou o ferrugem-escarlate. Era a cor usada pelas damas da corte de mais alto escalão do clã Shu.

— O quê? Mas eu não... mereço...

— Ora, por que não? Você me serve mais de perto do que ninguém. — Reirin silenciou as objeções atordoadas de Leelee com uma voz suave. — Pode ficar com os fios de metal que eu remover quando terminar. Esses devem valer um bom preço, não?

— Mas por que...?

— Porque você é uma dama da corte querida para mim. Por que mais? Estou tão feliz por ter algo que posso lhe dar.

A ruiva ficou atordoada em silêncio. Reirin aproveitou aquele momento para molhar uma toalha num pote de água, que então usou para limpar cuidadosamente as mãos de Leelee.

— Ouça aqui, Leelee. Há três segredos para uma boa saúde: mãos lavadas, roupas limpas e um sorriso. Qualquer dama da corte minha deve aderir a esses padrões, não importa o quê.

— A senhora não pode estar falando sério... Eu virei uma lâmina contra a senhora com intenção de matar — murmurou Leelee em protesto.

— Você virou uma lâmina contra mim, mas o pior que fez foi cortar alguns fios de cabelo, lembra? — Reirin a cortou. — Se tenho energia para repreendê-la por algo que não aconteceu, é melhor que a gaste com outras coisas.

Leelee encarou Reirin como se não pudesse acreditar no que via, até que finalmente pousou uma mão hesitante na túnica vermelha.

— ...

A garota baixou a cabeça. Quando Reirin notou como seus ombros começaram a tremer, deu um sorriso de pesar antes de segurar o rosto da ruiva entre suas mãos. Então, num lampejo de travessura, beliscou cada bochecha.

— Ai!

— Curvar os ombros faz mal! Vamos, Leelee, erga o rosto. Sempre certifique-se de projetar o peito, respirar fundo e olhar para frente. Tenho certeza de que sua mãe ficaria chateada se você arruinasse sua saúde olhando para o chão.

— Minha mãe?

Leelee piscou em confusão com a menção repentina de sua família.

— Sim. Ela era uma dançarina estrangeira, não era? Até um oficial militar não pode lutar sem sua espada. Aventurar-se a uma terra distante com apenas as roupas do corpo e ganhar a vida lá é uma façanha e tanto! Tenho certeza de que ela nunca perdia um dia de treino. Como filha dela, você deve se esforçar para estar à altura de seu exemplo.

Como uma garota de espírito atlético e amante do exercício, Reirin dizia aquelas palavras do fundo do coração. No entanto, quando soluços sacudiram o corpo de Leelee, lágrimas escorrendo de seus olhos como se uma represa tivesse se rompido, a Donzela retirou as mãos em surpresa.

— Leelee?

— ...

As lágrimas não paravam.

Por que...? Como ela pode dizer coisas assim...?

Entre soluços incontroláveis, Leelee ouviu a voz de sua mãe em sua mente.

— "Ouça aqui, Lily, minha filha querida. Uma garota deve sempre projetar o peito com orgulho. Lembre-se disso."

A voz de sua mãe, que pronunciava seu nome com sotaque estrangeiro. Embora Leelee tivesse sido forçada a aprender a língua de Ei com seus amigos da cidade porque sua mãe não era fluente, ela sempre amara ouvir a cadência suave e reconfortante de sua língua nativa.

— "Fique em pé e não deixe seus olhos vagarem. É preciso confiança para dançar como uma borboleta esvoaçante."

Sua mãe, que fora tão hábil em esvoaçar e girar pelo ar como uma borboleta. Por uma razão que Leelee não conseguia explicar, ela sentiu a figura ágil e o olhar digno e inabalável de sua mãe refletidos na garota que a observava com tanta preocupação.

— Eu... sinto mui...

As palavras escaparam de sua boca antes mesmo que ela percebesse o que estava dizendo.

— ...Sinto muito... por ter sido tão rude... e por intimidar a senhora... Por rasgar sua túnica... e cortar seu cabelo...

— Tudo bem, Leelee. Como eu disse, não me incomodo nem um pouco.

Quando a Donzela estendeu a mão e a puxou para um abraço suave, as lágrimas de Leelee caíram ainda mais forte. Essa era aquela mesma mulher insidiosa que a banhara de zombarias por eras. No entanto, misteriosamente, Leelee sabia sem dúvida que ela queria dizer cada palavra que estava dizendo.

Sim. Ela sabia.

Sabia que a Donzela estava agindo por genuína preocupação por ela.

— Na verdade... sinto muito por ter demorado tanto para perceber o quão presa você se sentia.

Não havia um traço de falsidade em seu pedido de desculpas.

Enquanto soluçava os últimos de seus choros, Leelee teve um pensamento atordoado: Ela mudou... Ela é uma pessoa completamente diferente agora.

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Isso não era uma atuação, nem uma tentativa superficial de arrependimento. Era como se ela tivesse renascido numa pessoa melhor, até em sua própria alma. Ela enlouquecera naquela masmorra horrível, ou seu coração perverso fora purificado no Julgamento do Leão? Leelee não tinha certeza do que causara aquilo, mas havia uma coisa que sabia com certeza.

Ela queria estar com esta nova versão de Shu Keigetsu.

Devo devolver o grampo e o arroz à Dama Gayou.

Talvez a mulher aproveitasse essa oportunidade para entregá-la aos Olhos de Águia. Mas se fosse assim que as coisas terminassem, então que assim fosse.

De qualquer forma... Não tenho coragem de trair ou atormentar essa garota novamente.

Leelee contemplou vagamente a outra garota através de olhos inchados e vermelhos. A Donzela outrora conhecida por seu olhar penetrante e o rosto perpetuamente sinistro, mas toda sua feiura desaparecera sem deixar vestígios, deixando-a com nada além da agradabilidade de uma brisa de verão. Ela era paciente, de temperamento brando e benevolente. Esta era a nova Shu Keigetsu.

Ela está sempre sorrindo tão serenamente...

Ou assim ela pensou, até que Reirin interrompeu seu devaneio.

— Bem, então — disse a Donzela enquanto se levantava. — Parece que chegamos a um entendimento. Se já chorou tudo o que tinha para chorar, está na hora de cuidar dos negócios, Leelee.

— Que negócios? — perguntou Leelee, inclinando a cabeça para o lado e olhando para a garota em branco. Ela podia jurar que toda aquela sequência de eventos cobrira as maiores questões em mãos. Havia mais alguma coisa a ser resolvida?

— Ora essa. Por que você acha que mandei aqueles homens embora? — respondeu ela, colocando as mãos nos quadris. — Lavar as mãos, boa higiene e um sorriso — levo esses três segredos para uma vida saudável muito a sério.

— T- tá...

— E, no entanto. — Com isso, o sorriso no rosto de "Shu Keigetsu" se alargou mais do que nunca. — Alguém sujou seu rosto e suas roupas de lama.

Ela torceu a toalha suja em suas mãos com mais força do que parecia estritamente necessário.

— Alguém roubou seu sorriso e a levou ao ponto de acreditar que estava tudo acabado para você.

A Donzela levou seu tempo para se agachar, trazendo seu rosto bem perto do de Leelee. A ruiva começou a suar frio pelo que só poderia ser descrito como puro instinto.

— Uh...

— Diga-me, Leelee. Que idiota pensou em sabotar a mais preciosa saúde da minha mais preciosa dama da corte?

Havia uma raiva inconfundível queimando nos olhos da garota. Arrepios percorrendo sua espinha, Leelee corrigiu seu pensamento anterior. A nova Shu Keigetsu certamente era amiga de todas as criaturas vivas. Uma garota com um sorriso como uma brisa quente.

Isso me lembra! Ela fica com essa cara realmente assustadora quando encontra um pulgão no caule de uma de suas plantas!

Mas ela também podia ser bastante aterrorizante.

Traduzido por Moonlight Valley

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