Capítulo 6: Keigetsu Entra em Pânico
Capítulo 6: Keigetsu Entra em Pânico
E stá quente! Dói! Isso está me matando!
Keigetsu rosnou e arranhou a própria garganta.
— Ugh... Ah...
Doía respirar. Ela se reposicionou inúmeras vezes, esfregando a cabeça contra o travesseiro, mas nada lhe dava alívio da constante ameaça de asfixia. Ela sentia que ia enlouquecer.
Já era a quarta noite desde o Festival de Tanabata, e ainda assim o corpo de Keigetsu — não, o de "Kou Reirin" — estava tomado pela febre.
O que está... acontecendo comigo?
Todo o seu corpo rangia. A febre turvava sua visão. Ela não conseguia acreditar que tamanho infortúnio se abatera sobre ela.
Mas a parte mais inacreditável de tudo era que as damas da corte viam o quão mal ela estava queimando de febre e perguntavam com consternação:
— A senhora não está com uma temperatura tão alta quanto o normal... Está mais doloroso do que parece? — Havia simpatia em seus olhos, mas também havia genuína confusão. Keigetsu sabia o que isso significava: tanto quanto elas estavam preocupadas, aquele grau de febre não era nada fora do comum.
Isso é loucura! Não acredito nisso! Aquela mulher... Kou Reirin sempre andava por aí com febres tão altas?!
Pelo que Keigetsu sabia, Reirin nunca perdera uma cerimônia do Pátio das Donzelas. De vez em quando, ela podia desmaiar no final de um dia particularmente movimentado, mas ainda assim aparecia na manhã seguinte usando sua expressão tranquila habitual. Dada sua posição, a Nobre Consorte Shu certamente era mais informada dos assuntos dos outros clãs do que Keigetsu. No entanto, embora tivesse ouvido a consorte derramar muitos elogios sobre Kou Reirin, nunca ouvira menção de ela ser tão doente. Assim, Keigetsu presumira que os rumores sobre sua fragilidade haviam sido exagerados para chamar a atenção do príncipe.
— Remédio... Que remédio devo tomar?
Mas agora, ela estava aprendendo em primeira mão que nem uma palavra daquilo fora exagerada. Não apenas sua febre se recusava a baixar, mas no momento em que estava bem o suficiente para se levantar do chão e tentar tocar um instrumento musical — Tousetsu a pressionara a aceitar por uma hora — ela perdera toda a sensação em seus braços e todo o seu corpo ficara mole.
Pior ainda, o criado-mudo ao lado de sua cama que ela assumira ser para guardar roupas estava cheio de remédios de cima a baixo. Surpreendentemente, eram todas preparações da própria Kou Reirin. Ela ficava doente com tanta frequência que começara a cultivar ervas desde jovem, acreditando que seria mais rápido preparar o próprio remédio do que chamar o médico toda vez que adoecesse. Se as orgulhosas recordações de suas damas da corte fossem verdadeiras, ela já havia superado o médico aos dez anos de idade.
Os remédios vinham em todos os formatos e tamanhos e eram meticulosamente numerados em duzentos e tantos. Parecia que Reirin misturava e combinava suas doses com base em seus sintomas, mas, nem é preciso dizer, Keigetsu não tinha ideia de por onde começar. Alguns exalavam um odor fétido, enquanto outros mantinham a forma de um inseto; ela hesitava em começar a engoli-los aleatoriamente.
Como consequência, Keigetsu não tinha escolha senão fingir que estava tudo bem, apenas para sofrer em solidão depois de mandar todos embora à noite. Sua febre ia e vinha, e piorava especialmente por volta da noite e do amanhecer.
— Vamos! Qual deles?!
Com os olhos brilhando, ela se arrastou até o criado-mudo e abriu uma gaveta. Como raramente pegara um resfriado antes disso, Keigetsu não tinha muita experiência em tomar remédios. Não fazia ideia do que era mais apropriado para sua situação.
Bufando e ofegando como um gato irritado, ela finalmente desabou no local.
— Me ajudem...
O que saiu de sua boca foi um grito fraco.
— Me salvem! Dói... Estou com medo...
Sempre que fechava os olhos, uma escuridão viscosa ameaçava consumi-la. Mais do que a asfixia, mais do que a febre, aquela escuridão iminente era o que mais aterrorizava Keigetsu.
Febres deveriam causar tanto estrago no corpo? Ela podia sentir o fim se aproximando. As mandíbulas fétidas da fera chamada Morte estavam bem diante de seu rosto. Tão avassalador era o medo que ameaçava despojá-la de todo o seu senso de identidade.
Isso está errado!
Ela não conseguia respirar. Tudo doía. Ela não suportava o quão assustada se sentia.
Não era para ser assim.
Por que ainda estou tão miserável... mesmo depois de trocar de vida?
Doía. Doía. Doía.
Não mais capaz de pensamento racional, ela cedeu a seus instintos e encarou sua vela.
Ela nunca mais quisera falar com aquela mulher — aquela amada por todos, tão elegante quanto uma borboleta em pleno voo.
— Me salvem...
Enquanto Keigetsu encarava a vela, lutando para controlar sua respiração ofegante, a chama tremeu e se expandiu.
— Me salve, Kou Reirin!
𓂃 ࣪˖ ִֶָ𐀔
A Leelee ainda não voltou...
Reirin se agitou enquanto olhava para a porta do depósito. Já faziam várias horas desde que ouvira o relato completo do que acontecera.
Depois de dizer "Vou devolver o grampo e o arroz para aquela seda-marfim ", Leelee fora para o local de encontro habitual perto do Pátio das Donzelas. Os encontros delas deveriam ser à noite, mas agora era a hora do galo — já passado o pôr do sol — e ela ainda não voltara.
Será que ela está bem? Eu sabia que deveria ter ido com ela.
Sendo a mulher Kou que era, Reirin tinha um lado mandão e superprotetor. Estava preocupadíssima com sua atendente. É claro, ela fizera questão de insistir "Vou acertar as contas", mas Leelee empalidecera como um lençol com a sugestão.
— Não! Por favor, deixe que eu cuide disso! A senhora não deveria sair do palácio quando está em prisão domiciliar! Sem mencionar aquela cara que a senhora faz — é como quando esmagou todos aqueles pulgões com as próprias mãos! — Ela se apressara a impedir Reirin, citando razões que esta última não entendia direito.
Que tipo de cara era aquela? Reirin se perguntou, dando um leve tapa nas próprias bochechas.
Nos últimos dias, ela cortara cabaças do jardim em fatias finas e as colocara no rosto, o que deixara sua pele agradavelmente macia. A pele de Shu Keigetsu parecia tão resistente quanto o resto de seu corpo; ela não tivera erupções com nenhum dos cosméticos que Reirin experimentara até então, então ela podia realmente se divertir experimentando. A garota tinha um corpo que valia a pena aperfeiçoar, tanto em termos de físico quanto de cuidados com a pele.
Mas ainda assim... A Dama Seika do clã Kin fez tudo isso? Eu tinha a impressão de que ela me favorecia, mas nunca imaginei que fosse tão longe.
Cobrindo o rosto com as mãos, Reirin franziu o cenho num olhar infeliz.
Leelee contara-lhe toda a história. Reirin ficara chocada ao saber que Kin Seika tramara ganhar o favor de Gyoumei punindo Shu Keigetsu e que usara Leelee como meio para esse fim. Afinal, embora a Donzela fosse bastante vocal sobre seus gostos e desgostos, como convinha a alguém com sua aparência deslumbrante, ela nunca fora do tipo a recorrer a táticas tão dissimuladas.
Sempre pensei nela como uma artista orgulhosa e de princípios... Eu a julguei mal?
Como estavam as coisas, Reirin não estava se sentindo muito confiante em sua capacidade de julgar as pessoas. Keigetsu, a quem tomara por uma garota tímida, revelara-se uma pessoa bastante mordaz; Tousetsu, a quem pensara ser calma e ponderada, tinha um lado apaixonado; e seu primo, a quem sempre vira como alegre e bondoso, a encarara com gelo no olhar. Embora tivesse guardado para si, Reirin estava se sentindo um pouco desiludida com sua própria falta de discernimento.
Tenho sido bastante ingênua, não é?
Olhando para trás, ela estivera tão preocupada em se manter em forma que não tivera muita interação com o mundo exterior. Parte disso era porque as damas da corte Kou, Gyoumei e a imperatriz sempre grudavam nela como cola, mas mesmo descontando isso, ela passara a maior parte de suas conversas se preocupando com coisas como E se perceberem que minha temperatura está alta? ou Vou dar motivo de preocupação e estragar a atmosfera amigável?
Ela baixou as mãos e as encarou. Este era um corpo saudável — um corpo com o qual ela nunca precisava se preocupar em desmaiar, e que não ficava sem fôlego por mais animada que ficasse. Agora que não estava exercitando tanta autodisciplina, o resto de suas emoções estava compensando a diferença. No início daquele dia, ela até perdera a paciência pela primeira vez em muito tempo.
Reirin apertou as mãos contra o peito e soltou um suspiro.
Não, Reirin! Este é o corpo da Dama Keigetsu; você não deve se apegar demais. Imagine quão decepcionada Sua Majestade ficaria se a visse assim , repreendeu-se, uma imagem da imperatriz que ela amava como uma mãe passando por sua mente.
Tanto descendente direta do clã Kou quanto guardiã de Reirin, Kou Kenshuu era alguém a quem a Donzela admirava desde pequena.
— "Bem-vinda, Reirin. Não sou mais sua 'Tia Kenshuu'. De agora em diante, é 'Sua Majestade' para você" — dissera ela a Reirin em seu primeiro dia como Donzela no Pátio das Donzelas, sentada em seu trono nas profundezas do Palácio do Qilin Dourado. Havia um sorriso em sua voz, que era bastante grave para uma mulher. — "Escrevi todas as qualidades que procuro em uma Donzela bem aqui. Leve-as a sério."
Tremendo de excitação, Reirin desenrolara o pergaminho que Tousetsu — que ainda era atendente de Kenshuu na época — lhe apresentara com tanta reverência. Num uso generoso de papel de alta qualidade, uma única palavra fora escrita ali na caligrafia nítida da imperatriz:
Fibra.
— Ainda não consigo esquecer o choque e a emoção que senti naquele momento — pensou Reirin com um aceno sábio.
Dizia-se que a Consorte Pura Kin escolhera Kin Seika como sua Donzela por razões pragmáticas, enquanto a Nobre Consorte Shu escolhera Shu Keigetsu por compaixão — mas a Imperatriz Kenshuu escolhera sua sobrinha cronicamente doente para ser sua sucessora com base no único critério de "fibra".
Pela primeira vez em sua vida, Reirin percebera que havia outras pessoas no mundo que compartilhavam exatamente os mesmos valores que ela, e jurara à sua tia um respeito e lealdade ainda mais profundos do que antes.
Qualquer um que conhecesse a Imperatriz Kenshuu logo aprenderia que "Boa fibra" era uma espécie de bordão para ela. Quando uma de suas damas da corte sucumbira à tentação e roubara um móvel do palácio por puro impulso, a imperatriz não hesitara em cortá-la apesar de sua longa história juntas. Por outro lado, quando uma assassina chegara a seus aposentos por pura força de vontade, a ponto de raspar o próprio nariz para disfarçar o rosto, ela a deixara ir com apenas um único comentário: "Boa fibra."
Quando a chuva não cessara por sete noites seguidas e suas damas da corte estavam ficando ansiosas, ela apenas contemplara o céu com admiração e dissera: "Boa fibra." Quando ervas daninhas tomaram conta do pátio, ela ignorara as queixas dos eunucos para dizer: "Boa fibra." Se contassem a ela a triste história de amor de um homem cujo jardim inteiro florescia no aniversário da morte de sua amada, ela interpretaria assim: "Entendi. Toda a fibra que ela mostrou em seu leito de morte tomou forma, rompeu o solo e desabrochou."
Dado que a imperatriz prezava uma vontade forte e um espírito inabalável acima de tudo, Reirin tinha que se perguntar o que ela pensaria se soubesse que sua sobrinha sucumbira ao fascínio de um corpo saudável e mantivera o status quo tão descaradamente. Ou iria na direção oposta e a elogiaria por aproveitar ao máximo suas circunstâncias desconhecidas?
Não, preciso parar com as ilusões egoístas! Estou apenas...
— Kou Reirin!
Mal se repreendera quando alguém pareceu ler seus pensamentos e gritou seu nome.
— Eek! — ela gritou com um salto assustado.
Quando se virou, viu que a fonte da voz era a única vela queimando no fundo do depósito.
Achando o fenômeno mais fácil de aceitar na segunda vez, ela caminhou até a vela e ajoelhou-se diante dela sem muita cerimônia.
— É a senhora, Dama Keigetsu?
— Sim...
Quaisquer que fossem as regras em que o feitiço operava, parecia que ela conseguia dizer o nome de Keigetsu contanto que estivesse conversando com a própria garota. Reirin começou a ponderar os mistérios das artes daoístas, mas assim que estudou a miniatura do rosto da outra garota refletida na chama, seu cenho se franziu num olhar preocupado.
— O que há de errado? A senhora parece estar com muita dor.
— O que você acha?
A garota usando o rosto de Reirin parecia terrivelmente abatida. Embora sua imagem estivesse tingida com o tom da chama, ainda era claro à primeira vista que havia olheiras sob seus olhos, seu cabelo estava uma bagunça desgrenhada, e ela ofegava e arranhava a garganta.
— Minha febre não passa... e não consigo... respirar... Faça alguma coisa! — gritou Keigetsu.
— Não consegue respirar? — Preocupada, Reirin inclinou-se em direção à chama. — O que acontece quando a senhora tenta?
— Que tipo de pergunta é essa?! Eu simplesmente não consigo! Suspiro e suspiro por ar, mas tudo o que sinto é dor!
— Parece que a senhora está à beira de hiperventilar...
Rápida em formar uma ideia da condição de Keigetsu, apesar da falta de detalhes em suas queixas, Reirin assumiu o comando da conversa e mergulhou numa série de perguntas.
— Quando os sintomas começaram?
— Já faz pelo menos meia hora.
— A senhora comeu ou bebeu alguma coisa na última hora?
— Não...
— E quanto a um forte acesso de medo ou ansiedade?
Por alguma razão, Keigetsu ficou em silêncio por um momento.
— Sim — respondeu ela finalmente através dos dentes cerrados. — Sim, tive! Obviamente! Esta situação é ridícula!
Determinando que não seria sábio irritá-la ainda mais, Reirin falou numa voz suave e calmante.
— A senhora vai ficar bem, Dama Keigetsu. Apenas não está expirando corretamente, só isso.
— Expirando?! Acabei de dizer que não consigo inspirar!
— Seu corpo não percebe que está deixando o ar escapar. Vamos, Dama Keigetsu, tente cobrir a boca com ambas as mãos.
— Já estou sofrendo, e você quer que eu pare de respirar?!
— Confie em mim. — Reirin sorriu para Keigetsu através da chama. — Se a senhora consegue falar tanto assim, vai ficar bem. Agora, cubra a boca. Pronta? Expire até eu mandar parar.
— Não consigo...
— Vá em frente.
Provocada pela terceira vez, Keigetsu relutantemente levou as mãos à boca e exalou. Reirin então mandou que ela repetisse o processo de contar até um certo número, expirar, inspirar e prender.
— A senhora se acalmou um pouco?
— ...
— Em seguida, abra a gaveta superior esquerda do criado-mudo atrás da cama e pegue os remédios etiquetados como dez e vinte e um. Ambos são pós finos. Esfregue-os juntos entre as mãos, cubra a boca e inale as partículas.
Keigetsu cessara de objetar às instruções de Reirin. Provavelmente estava começando a sentir um pouco de alívio. Reirin observou enquanto a garota misturava o remédio com mão inexperiente e inalava o pó.
— Inspire... e prenda. Um, dois, três... Solte. Um, dois, três, quatro...
Depois que Keigetsu inalou o pó, Reirin voltou a orientá-la sobre como respirar. Assim que confirmou que o número de batidas que Keigetsu conseguia expirar estava aumentando, Reirin deixou o resto com sua paciente, instruindo-a a continuar com os exercícios até que ela mandasse parar.
— ...
— ...
Um silêncio pairou sobre a vela.
Tendo recuperado o juízo, Keigetsu foi a primeira a quebrar o silêncio.
— O que há de errado com seu corpo?
— Hein?
— Como é possível ser tão doente? Ainda não vi um momento em que você esteja com boa saúde! É uma loucura!
Ela soava menos beligerante e mais como uma criança fazendo beicinho.
Sempre que minhas febres ficam particularmente altas, eu realmente fico um pouco solitária.
Sentindo-se um pouco encantada com o comportamento da outra garota, Reirin se acomodou numa posição mais confortável ao lado da vela e continuou sua conversa.
— A senhora tem razão. Sempre fez parte da minha vida, então nunca questionei isso. Quase invejo a robustez do corpo da senhora; foi uma surpresa quando trocamos de lugar pela primeira vez. É graças à senhora que estou vivendo cada dia ao máximo agora.
— Você está tentando me irritar? — cuspiu Keigetsu.
Os olhos de Reirin se arregalaram.
— Hein?
Mas pensando bem, talvez tivesse sido insensível da parte dela dizer a alguém que estava sofrendo com sua primeira febre que estava passando seu tempo confortavelmente. Seu coração doeu ao lembrar que estava tornando aquele corpo frágil responsabilidade de outra pessoa.
— P- peço desculpas... Hum, tenho querido perguntar isso há algum tempo, mas a senhora pretende desfazer nossa troca em breve? Eu sei que iria contra seus planos, mas não seria certo continuar assim — aventurou-se Reirin hesitantemente, apenas para ser recebida com o olhar penetrante de Keigetsu. Parecia que a garota recuperara sua taxa de respiração e vitalidade igualmente.
— Você só pode estar brincando. Acha que não vejo você tentando resolver as coisas a seu favor sob o disfarce de altruísmo?
— Não foi isso que eu...
— Claro, estar doente o tempo todo significa que não experimentei isso completamente... mas ainda assim adoro a posição em que estou. Todos me servem em bandeja, sussurram seu amor para mim e me mimam até estragar.
Keigetsu falou alegremente sobre como não apenas as damas da corte, mas até Gyoumei, a imperatriz e sua suposta rival, a Donzela do clã Kin, lhe enviaram presentes de melhoras.
— A Dama Seika fez isso? Hum... A senhora faria bem em não aceitar nenhum presente dela.
— Hah! São queixas de inveja que ouço? Sim, vá em frente — lamente a falta de atenção que recebe! — Keigetsu descartou seu conselho preocupado.
— Não é realmente... — começou Reirin, mas hesitava demais em atribuir malícia a Seika quando ainda não sabia o que a Donzela estava tramando, então acabou optando por calar a boca.
Tirando suas próprias conclusões sobre porque Reirin hesitara, os lábios de Keigetsu se curvaram em crescente divertimento.
— Heh heh! Bem feito. Pensar que veria o dia em que a Kou Reirin invejaria minha sorte! É isso — fique verde de inveja enquanto eu me deleito com todas as regalias! Acostume-se com a vida de rato de esgoto, desprovida de beleza, talento ou sequer um pingo de atenção!
— A senhora não deveria se focar tanto nas coisas que lhe faltam, Dama Keigetsu. Basta olhar o corpo robusto com que foi abençoada!
— Hein?! Até a filha de um agricultor tem isso. Meu corpo não tem nenhuma das habilidades que uma Donzela precisa. Não tenho boa aparência, boa sorte ou bom pedigree . Não tenho um homem para sussurrar gracinhas em meu ouvido, uma amiga em quem confiar ou uma mãe para me proteger. Esse é o problema. Meus pais nunca me deram nenhuma das coisas que importam na vida — declarou Keigetsu, a imagem do despeito enquanto roía as unhas.
Reirin calmamente colocou a mão na bochecha.
— Mas eles lhe deram um nome tão bonito.
— O quê?!
Keigetsu lançou a Reirin um olhar de exasperação, mas esta última retribuiu com um sorriso. Então, depois de um momento para reunir seus pensamentos, ela perguntou:
— Qual desejo a senhora fez na noite do Festival de Tanabata, Dama Keigetsu?
— Hein?
Keigetsu estava tendo dificuldade em acompanhar a mudança repentina de assunto. Não se intimidando com a sobrancelha erguida com dúvida, Reirin continuou:
— Avistei duas estrelas cadentes, então fiz dois desejos. Um deles era por melhor saúde, é claro. É o que tenho desejado todos os dias da minha vida, então veio à mente imediatamente. Não havia chance de eu ser mais lenta no gatilho do que uma estrela passando pelo céu.
Os olhos de Keigetsu se arregalaram. Ela ficou em silêncio por um tempo, mas acabou conseguindo murmurar um resmungão:
— Acho que não.
Reirin riu e assentiu.
— Para ser sincera, não dou muito valor a desejos ou maldições. Sempre encarei a ideia de pedir um desejo a uma estrela com um toque de desdém. Não achava realista.
As pessoas só podiam salvar a si mesmas. O trabalho duro era a única coisa que podia fazer os sonhos se tornarem realidade.
Estrelas atravessam o céu por apenas um momento fugaz. Qualquer desejo que se possa formar nessa janela curta teria que ser algo que se envisiona para si mesmo dia após dia. Um desejo forte o suficiente moldará a mentalidade de uma pessoa. Uma nova mentalidade determinará as ações de uma pessoa. No final, não era que as estrelas fizessem os sonhos se tornarem realidade, mas que aqueles mais dispostos a alcançar seus próprios sonhos eram os que pediam desejos àquelas estrelas — ou assim foi sua explicação.
— No entanto. — Enquanto a outra garota ainda se recuperava dessa demonstração surpreendente de lógica, os olhos de Reirin se estreitaram com um toque de travessura. — Na noite do Festival de Tanabata, uma estrela de fato me abençoou com melhor saúde. Isso, e várias outras experiências inestimáveis.
— Hein...?
— Estrelas cadentes podem não realizar desejos. Mas é assim que passei a ver as coisas: talvez um cometa — aquela estrela poderosa que não tem pressa em atravessar o céu — realmente tenha o poder de conceder um milagre.
Então, ela encarou Keigetsu bem nos olhos.
— O caractere "Kei" em seu nome é o mesmo usado na palavra "cometa". Que nome majestoso e bonito. Dama Keigetsu... Sinto apenas a mais profunda gratidão por você. Você é meu cometa.
Keigetsu não disse nada.
Ela estava sobrecarregada.
O que... ela está dizendo?
Seu coração disparava. Ela estava perturbada por todas as emoções que percorriam seu corpo tão rápido quanto as estrelas haviam cruzado o céu naquela noite.
Essa é a coisa mais estúpida que já ouvi. Eu? Uma estrela?
Aquela que estava nos maiores altos e atraía os olhares da multidão sempre fora Reirin, a garota comparada à borboleta do príncipe. Mas agora aquela mesma garota estava comparando Keigetsu, a ridicularizada como um rato rastejante, a uma estrela que cruzava o zênite do céu. Era um paradoxo tão grande que Keigetsu tinha que zombar.
Não — ela tentou zombar. Os cantos da boca que ela pretendia erguer em vez disso se torceram para baixo, seu cenho se franzindo. Percebendo que tinha o olhar de uma criança tentando não chorar, Keigetsu desviou o olhar em pânico.
Reirin inclinou-se em direção à chama, seu rosto tomado por uma expressão sincera.
— Diga, Dama Keigetsu? O que a senhora diria de sentarmos e termos uma conversa pessoalmente? A senhora me disse antes que está buscando vingança contra mim, mas sou eu quem está levando a melhor neste acordo. Se causei alguma ofensa, prefiro conversar e me desculpar a resolver isso através desta troca. Se a senhora tem sofrido, posso ajudá-la a resolver...
— Não, obrigada. — Keigetsu a cortou sem cerimônia.
A outra garota ofegou como se tivesse sido ferida, ao que Keigetsu respondeu com o sorriso provocador que pretendera usar momentos antes.
— Quando essa febre passar, finalmente vou viver a vida dos meus sonhos. Serei amada por todos, e você será odiada. Veremos se você ainda estará dizendo essas bobagens sobre "levar a melhor" quando chegar a hora.
Ela não podia se deixar enganar. Não havia como a garota que estivera praticamente se afogando nas afeições dos outros considerar a sorte de Shu Keigetsu como um bom negócio. Por mais saudável que ela fosse, estava severamente aquém no quesito aparência, e fora exilada num depósito sem uma única atendente para servi-la. Era o objeto do ódio de todos, proibida de revelar a verdade de sua situação.
Pense, Keigetsu! Lembre-se de todo o sofrimento que você passou!
Como ela era produto de um caso impensado, seus pais nunca tinham sequer tentado amá-la, enquanto o resto de seu clã olhara com desdém para sua mãe sem talento e seu pai, um cultivador fracassado. Seus pais se enforcaram em dívidas e partiram sem nunca tentar cuidar dela. Para piorar, seus parentes não apenas se recusaram a ajudar, como também receberam Keigetsu e seus poderes misteriosos com frieza.
Embora tivesse sido adotada pela Nobre Consorte Shu, a única pessoa que já elogiara sua magia como um "talento maravilhoso", a mulher não parecia interessada em lhe proporcionar uma educação. Não fizera nada além de torcer as mãos e observar as dificuldades de Keigetsu desde que viera para o Pátio das Donzelas.
Desdém. Ridículo. Vergonha. Negligência. Era tudo o que Keigetsu jamais conhecera.
— Prepare-se para ser ridicularizada por todos — declarou ela, como se esperasse que se tornasse realidade. — Se você tentar fazer o bem, as pessoas lançarão suspeitas sobre você. Se fizer o que é necessário para sobreviver, as pessoas a envergonharão por sua audácia. E se baixar a guarda, as pessoas rirão às suas custas.
Sim. Este era seu verdadeiro desejo.
— Oh, Dama Keigetsu...
— Isso me lembra: o Festival dos Fantasmas é daqui a apenas três dias. Isso marcará o fim tanto do ritual de purificação da corte quanto de sua suspensão. Aposto que as outras Donzelas vão se unir para arrastá-la para fora de lá e apedrejá-la. A Dama Seika do clã Kin especialmente não hesitará em fazer algo. Ora, ela está tão ansiosa para subir na hierarquia bajulando "Reirin" que tem me bombardeado com presentes.
Keigetsu lançou um olhar triunfante para o queimador de incenso num canto do aposento. Era um artigo de alto padrão apresentado a ela como presente de melhoras do clã Kin. É claro, ela não era burra o suficiente para ver qualquer presente dos Kins como um gesto honesto de boa vontade. Mas tudo bem. Era incrível apenas ver alguém tão desesperado para conquistá-la.
— Não estarei lá, dado o estado em que estou. Mas farei questão de chorar para todos sobre o quão triste estou que Shu Keigetsu me impediu de comparecer. Quando a notícia chegar a Sua Alteza e à Dama Seika, quem sabe o que farão para se vingar de você? Ooh, mal posso esperar para ver isso.
Sua respiração estava normal. Julgando pelo alívio que sentia em suas articulações, devia haver um redutor de febre misturado no remédio que tomara também.
Determinando que não tinha mais utilidade para Reirin, Keigetsu apagou a vela e tomou a liberdade de encerrar sua conversa.
— Por favor, espe...
— Dama Keigetsu!
Assim que ela se lançara em direção à chama agora extinta da vela, veio uma voz da porta. Reirin se virou.
— Leelee!
Era ninguém menos que sua atendente. Quando Reirin a recebeu de volta, a outra garota soltou um bufo constrangido e entrou no depósito escuro.
— A senhora estava me esperando? Não, não, não preciso ouvir desculpas. Eu vi a luz pela janela. Deixe-me adivinhar: no momento em que soube que eu estava chegando, a senhora se apressou em apagá-la?
Embora sua insolência não tivesse mudado, ela estava pelo menos se esforçando para soar mais educada. Isso por si só mostrava o quanto de sua hostilidade havia se dissipado, e era charmoso o quão alto o sentimento de "estou feliz que você esperou" vinha através, apesar de suas tentativas de fingir indiferença. Reirin não pôde deixar de esboçar um pequeno sorriso.
— O que está sorrindo?
— Ah, nada. Deixa pra lá — você devolveu o arroz e o grampo sem problemas? — perguntou Reirin o que mais queria saber, o que também serviu como uma conveniente mudança de assunto.
— Sobre isso... — murmurou Leelee evasivamente. — Por mais que esperasse, a Dama Gayou nunca apareceu no nosso local de encontro.
— Sério?
— É possível que ela já tenha ido me entregar aos Olhos de Águia.
Se o tom sombrio de sua voz era algum indício, ela estava preparada para o pior cenário.
Reirin pensou por um momento e então balançou a cabeça.
— Se fosse esse o caso, aquele ágil capitão dos Olhos de Águia já teria aparecido para prendê-la. Como não o vi, é mais provável que ela tenha decidido que era arriscado demais continuar fazendo negócios com você.
— Tomara.
— Tenho certeza. Sem dúvida a notícia se espalhou pelo pátio interior de que o capitão nos visitou — e que você foi pega brandindo uma faca também. Sob as circunstâncias, qualquer um que se apresente para acusá-la de roubo pode ser suspeito de ter tratos com você. Se eu fosse aquela seda-marfim, optaria por recuar agora.
Sua afirmação calma, mas firme, arrancou um suspiro de alívio óbvio de Leelee.
— Vamos operar sob essa suposição, então. Seguirei seu exemplo e aproveitarei esta chance para lavar as mãos do assunto de uma vez por...
— Bobagem! — interrompeu Reirin numa voz animada. — Tudo o que isso significa é que vocês, damas da corte, não conseguiram resolver suas diferenças. Então é aqui que as senhoras devem entrar em ação e resolver a questão!
— Hein?! — Leelee ficou pasma com a inesperada declaração de guerra. — Espere... O que está dizendo? Para começar, como você vai se encontrar com outra Donzela enquanto ainda está em prisão domiciliar?
— Esqueceu? O Festival dos Fantasmas é daqui a três dias, e é quando minha suspensão será levantada. Se eu comparecer à cerimônia, com certeza encontrarei a Dama Seika lá.
— Quer dizer, uh...
Shu Keigetsu não era exatamente uma performer talentosa como estava. Some-se a isso as suspeitas persistentes de que ela machucara Kou Reirin, e era difícil imaginar que ela pudesse entrar na cerimônia sem incidentes. Mesmo sem isso, uma das damas da corte de alto escalão autorizadas a assistir às cerimônias certa vez descrevera a conduta de Shu Keigetsu como tão grosseira que cada um de seus passos arrancava uma salva de risos da multidão, tornando-a uma experiência profundamente desconfortável para qualquer Shu presente.
— Esqueceu? A Nobre Consorte Shu disse que você não precisava se dar ao trabalho de comparecer à cerimônia.
— Dizer que não preciso ir é o mesmo que dizer que posso ir.
— Deixe-me avisá-la: dada sua posição atual, as damas da corte de alto escalão vão se opor terminantemente a acompanhá-la a qualquer lugar. Uma Donzela dificilmente poderia aparecer numa função oficial sem uma única atendente.
— Isso não será um problema. Três dias me dão tempo de sobra para consertar aquela túnica vermelha. Não é mesmo, minha mais querida dama da corte sênior? — respondeu ela, afastando os protestos de Leelee com tanta facilidade quanto rolar uma enorme pedra por uma estrada acidentada.
— Mas, hum... Durante o Festival dos Fantasmas, cada uma das Donzelas não apresenta uma dança em oração por uma boa colheita? Para ser honesta, você não é muito habilidosa...
— Leelee. — Quando sua atendente continuou a insistir, Reirin a silenciou de uma vez por todas. — Como Donzela, não conseguirei descansar até me vingar de quem quer que tenha tocado em minha preciosa dama da corte.
— ...
Leelee não conseguia argumentar contra isso.
— Faça o que quiser, então — cedeu ela. — Só não venha chorar para mim depois.
— Só isso? Esta é a parte em que devemos unir as mãos e dar três vivas! Vamos, vamos fazer isso com tudo!
— Já é tarde demais para isso. Vou dormir — respondeu ela a sua senhora e então se deitou sobre sua cama improvisada de palha.
— Você não tem graça, Leelee — veio o murmúrio abatido ao seu lado. Leelee se virou, fingindo que não ouvira.
Sem uma única chama para iluminá-lo, o interior do depósito estava completamente escuro antes mesmo de ela fechar os olhos. Mas pela primeira vez, Leelee estava grata por isso.
Vingar sua dama da corte? Quem é você? Não... que eu esteja feliz com isso ou algo assim.
Afinal, se estivesse mais claro lá dentro, certamente a outra garota teria notado que suas bochechas estavam vermelhas o suficiente para rivalizar com a túnica vermelha viva.
Esta era a nova Shu Keigetsu — a garota que se levantava para defender e proteger Leelee, não importa o quê.
Lágrimas de alívio e alegria inegável marejando seus olhos, Leelee esfregou o rosto com as costas do punho.
Traduzido por Moonlight Valley
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