Capítulo 7: Reirin se Prepara
Capítulo 7: Reirin se Prepara
E ntão chegou a manhã seguinte. Os olhos de Leelee se abriram enquanto a luz do sol se derramava pela janela do galpão. Seu olhar vagueou pelos arredores, até que finalmente registrou a figura sentada perto da porta e despertou sobressaltada.
Recostada contra a porta entreaberta e banhada pelos raios de sol que batiam em seu rosto, estava ninguém menos que sua senhora. Ela trabalhava arduamente, a túnica vermelha viva numa mão e uma agulha na outra. Aparentemente, já havia começado a consertar a túnica que planejava dar a Leelee.
Por mais errado que fosse a senhora costurar as roupas de sua atendente, Leelee não conseguia deixar de admirar o quão radiante a Donzela brilhava enquanto mantinha o olhar baixo e enfiava a agulha no tecido.
Seu rosto que antes permanecia franzido num olhar de desdém, possuía agora o sorriso tênue em seus lábios e o brilho em seus olhos enquanto costurava transbordavam de ternura. Havia um novo brilho em seu cabelo, que ela deixava cair sobre os ombros em vez de seu coque habitual. Aliás, ela mesma dera um corte no cabelo não muito depois de Leelee ter roçado seus fios no dia anterior. Agora que as pontas danificadas haviam sido cortadas e o resto penteado ordenadamente, Leelee finalmente notava a rica volumosidade com que sua senhora fora abençoada.
A garota com o rosto de Shu Keigetsu ergueu a túnica contra a luz com um olhar de satisfação, assentiu para si mesma algumas vezes e pegou a agulha mais uma vez. De vez em quando, uma brisa de verão soprava pelo depósito, e ela fechava os olhos para saborear a sensação. Ao olhar mais de perto, seus lábios se entreabriam ligeiramente em cada uma dessas ocasiões. Leelee não conseguia distinguir as palavras, mas baseado no tom ondulante de sua voz e no indício de rima no som, ela estava recitando um poema que exaltava a beleza da estação.
É tão estranho , pensou Leelee enquanto observava a garota, escondendo o som de sua respiração. Nunca imaginei que a acharia tão bonita.
O máximo que mudara fora o comprimento e o brilho de seu cabelo. No entanto, seu semblante caloroso e animado e o ar intelectual sobre ela a faziam brilhar de dentro para fora.
Ela mudou. De uma forma impressionante.
Espero que ela continue assim para sempre , rezou Leelee, um suspiro suave escapando de seus lábios. Foi então que a outra garota olhou, sentindo a presença de sua atendente.
— Oh, Leelee! Bom dia. Desculpe, foi a luz do sol que te acordou?
— Como já disse, não existe dama da corte no mundo tão irresponsável a ponto de dormir além de sua senhora — respondeu ela hesitantemente.
Depois da atitude irreverente que tomara com a Donzela, teria sido estranho começar a falar como uma dama da corte adequada agora. Por outro lado, ela tinha que respeitar aquela que reconhecera como a sua senhora. Era uma decisão difícil, mas no final, ela decidira manter a atitude, mas vigiar a linguagem. A Donzela até rira e dissera: "Gosto do jeito que você fala com franqueza", então Leelee optara por levá-la a sério.
Enquanto resmungava sua resposta e se arrumava — embora dadas suas atuais condições de vida, o máximo que podia fazer era alisar as roupas e o cabelo — Leelee espiou a túnica nas mãos da Donzela, apenas para gritar em surpresa.
— O quê?! Já terminou?!
— Hee hee! Já consertei todos os rasgos. Ficou bem bonita, não ficou?
Para grande surpresa de Leelee, a túnica que a Donzela ergueu diante dela fora restaurada a uma condição magnífica. Não havia um único rasgo ou buraco à vista, e até as partes esfarrapadas que ela convertera no forro haviam sido reparadas tão bem que seria preciso procurar pelos pontos para vê-los. Sua habilidade superava até mesmo a de uma costureira profissional, e a quantidade de trabalho que ela fizera teria levado Leelee três dias para concluir.
— Como você conseguiu fazer tudo isso em tão pouco tempo? Por favor, me diga que você não roubou uma túnica novinha em folha dos aposentos de uma das damas da corte de alto escalão.
— Não seja boba, Leelee. É claro que costurei do jeito antigo e digno.
— Mas não vejo como é possível fazer isso em algumas horas!
Leelee estava sendo tão persistente em seus questionamentos que a Donzela deu um encolher de ombros envergonhado e confessou que acordara bem cedo.
— Não consegui me conter! Fiquei tão feliz por finalmente ter algo para te dar. Além disso, é o que você vai usar no grande dia, certo? Fiquei tão animada para começar que acordei um pouco... sim, só um pouquinho cedo!
— Ahã. E a que horas você acordou, exatamente? — Leelee teve que perguntar, com um mau pressentimento sobre qual seria a resposta.
A garota ficou em silêncio por um instante, e então, casualmente, desviou o olhar para fora da porta.
— Sabe de uma coisa, Leelee? É incrível a gama de expressões que o céu tem. Fiquei tão emocionada ao testemunhar a lenta rearrumação das estrelas e da lua lá em cima.
— Aqui eu pensei que você tivesse acordado com o sol, mas você não dormiu nada, não é?
— Não há nada como aquele breve momento em que a noite se transforma em manhã — aquela cena mística em que a terra é tingida por uma luz azul pálida. É aquele momento em que deixamos a longa noite para trás e nos aventuramos num mundo de luz, um espetáculo tão puro que pode ser comparado ao azul dos olhos de um bebê.
— Essa é uma maneira muito poética de descrever uma noite em claro.
— Hee hee. — A outra garota tentou rir para disfarçar. — O que posso dizer? Queria terminar o mais rápido possível.
— Que tipo de Donzela fica acordada a noite toda para consertar algo para sua dama da corte?! — gritou Leelee.
Mas, sempre uma força a ser reconhecida, a Donzela silenciou seus protestos abaixando a agulha, erguendo a túnica e forçando Leelee a experimentá-la.
— Espe...
— Ah, ficou perfeita! A cor vibrante do seu cabelo combina maravilhosamente com o vermelho. Estou tão orgulhosa de ter uma atendente tão bela para me acompanhar!
Sua alegria inocente não deixou a Leelee outra escolha senão calar a boca. Banhada em efusivos elogios como "Seus braços são tão longos e bonitos", "Você tem uma tez tão brilhante" ou "Você é uma concorrente para a dama da corte mais bonita do Pátio das Donzelas", e sabendo que a Donzela queria dizer cada palavra, Leelee mordeu o lábio em constrangimento. Nunca em todos os seus anos ela fora tratada com tanto tempo, esforço, amor e elogios.
— Por favor, pare. — Leelee cortou a outra garota, que ainda sorria com estrelas nos olhos. Ela olhou para o lado — não por irritação, mas por vergonha. Não estava acostumada a ter emoção tão pura dirigida a si. — Não há necessidade de fazer tanto alarde por minha causa. Sei exatamente o que valho.
— Leelee?
— Ontem, quando estava a caminho do Pátio das Donzelas para ver a Dama Gayou, passei por um grupo de vestes-vermelhas-vivas que disseram: "Para onde vai aquela ratinha?" Fizeram questão de me chamar de desleixada e ordinária também. Revidei os olhares... mas para ser honesta, sei muito bem que não sou alguém digna de vestir uma túnica vermelha viva.
No momento em que saiu do depósito, a mesma torrente de despeito a aguardava. Os insultos não doíam tanto quanto quando ela saíra furiosa para o depósito com uma adaga na mão, mas ainda parecia que haviam derramado água fria sobre a onda de poder que sentira com a promessa de uma túnica vermelha.
Ela cumprira os requisitos para se tornar uma dama da corte de escalão médio ao entrar no Pátio das Donzelas, então entenderia se recebesse uma túnica ferrugem-escarlate; no entanto, saltar os escalões para o vermelho vivo parecia estar se adiantando. As damas da corte de alto escalão que zombaram dela no claustro podem ter usado olhares feios em seus rostos, mas eram bem vestidas, tinham boa postura e cheiravam tão bem que ela podia sentir à distância.
Leelee não conseguia se imaginar entre elas.
— Não estou tentando me menosprezar. Não acho que seja menos pessoa do que aquelas mulheres que formam seus clubinhos e menosprezam os outros. Mas se tenho o necessário para vestir vermelho vivo é uma questão diferente. Quer dizer, nunca aprendi como me comportar de maneira condizente com uma dama da corte de alto escalão.
Quanto mais falava, mais Leelee queria se dar um tapa. Ela se perturbara com o elogio exagerado, depois se lembrara de um encontro desagradável que tivera no outro dia. Como aquilo a levara a contar uma história tão triste? E pensar que esquecera completamente daquelas mulheres desagradáveis até apenas momentos antes.
Mas por alguma razão... quero ser um pouco mimada.
Ela sentia que a nova Shu Keigetsu a aceitaria como ela era.
Quando Leelee ergueu o olhar, a outra garota olhava para o chão. Estava enxugando os olhos, então era impossível ver que tipo de rosto estava fazendo.
— Uh...
— Você se vingou daquelas mulheres?
— Hein? Claro, mas fugi depois de dar um último estalar de língua. São coisas assim que me fazem pensar se sou digna de vestir...
— Entendo. — As próximas palavras da Donzela fizeram Leelee engolir em seco. — Peço desculpas, Leelee, mas vou ter que pedir essa túnica de volta.
Leelee abriu a boca para dizer algo, apenas para fechá-la novamente e assentir. Foi ela quem trouxe o assunto à tona. Seria errado pedir para ficar com ela agora.
Ela levou seu tempo para se despir da túnica, dobrou-a e a entregou.
— Além disso, vou ter que reduzir o número de fios de metal que te dou. Espero que possa me perdoar.
— Bem... É claro — murmurou Leelee em resposta, um vento frio e amargo varrendo seu coração.
O que ela estava pensando? Estivera tão certa de que sua senhora lhe daria um sorriso caloroso e asseguraria que ela merecia vestir o vermelho mais brilhante. Ela podia sentir lágrimas de alguma emoção não identificada ameaçando marejar seus olhos.
Mas então, a Donzela disse a última coisa que ela esperava ouvir.
— Certo! Vou bordar isso cheio de fios de metal e fazer a túnica vermelha mais extravagante que o mundo já viu! Aguarde o produto final!
— Hein?! — Leelee a encarou boquiaberta. O que essa garota acabara de dizer? — O quê... Como assim?
— Agora que penso, foi tolice da minha parte fazer uma túnica comum para uma ocasião tão grandiosa, que por acaso marca sua estreia como atendente de alto escalão. Damas da corte têm permissão para usar túnicas bordadas em cerimônias formais. Nesse caso, seria um desperdício não te enfeitar dos pés à cabeça!
— O quê? Espera aí. Tudo o que eu disse foi que não era digna de uma túnica vermelha — apontou a ruiva, com o rosto congelado em confusão.
Por razões que escapavam a sua atendente, a outra garota balançou a cabeça com um ar sábio.
— Certo. Em outras palavras, você quer se tornar alguém digna da cor o mais rápido possível. Que maravilha!
— Hein?!
— Você quer uma túnica glamorosa para não ser chamada de "ordinária". Quer aprender como se conduzir de maneira condizente com uma dama da corte sênior. Seu desejo sincero está transbordando! Oh, nunca soube que você era tão ambiciosa!
Não estava pensando nisso nem por um segundo !
Despreocupada com a consternação de Leelee, a garota com o rosto de Shu Keigetsu mais uma vez enxugou os olhos, como se movida a lágrimas, e assentiu vigorosamente. Parecia que o pequeno discurso de sua atendente a tocara profundamente.
Ela estava tão tomada pela emoção que até puxou Leelee para um abraço apertado.
— Eu te amo tanto, Leelee! — gritou ela. — Que fibra! Que desejo insaciável de autoaperfeiçoamento! Nunca vi uma alma tão digna do mais alto escalão! Vamos nos esforçar juntas. Vou apoiar seus empreendimentos com tudo o que tenho.
— Ei, deixa eu...
— Primeiro, vamos trabalhar sua postura. Tudo se resume a respirar direito e fortalecer o centro do corpo. Cada manhã e noite, você deve passar duas horas em treinamento muscular. Na frente respiratória, você deve mudar para respiração diafragmática o tempo todo. Depois vem memorizar as escrituras, praticar caligrafia, um pouco de bordado, e então...
Leelee fez uma tentativa desesperada de interromper seus devaneios animados.
— Espera aí! Por que você está assumindo que vou ser uma dama da corte de alto escalão?!
Ela já esquecera de vigiar a linguagem.
No entanto, a garota diante dela não ligou para isso, apenas inclinou ligeiramente a cabeça.
— Hm? Mas você não é minha única e preciosa dama da corte? — Ela disse isso com tanta naturalidade e objetividade que Leelee ficou sem palavras. — Minha atendente número um deve usar uma túnica de primeira classe. Há algo de errado nisso?
— Não... — As bochechas de Leelee estavam em chamas. — Não há.
Como mais ela poderia responder?
Leelee desviou o olhar com um rubor no rosto. Tão animada como sempre, a outra garota pôs a mão na bochecha e murmurou:
— Oh, como você ficaria linda em amarelo-gamboge...
Amarelo-gamboge. Leelee ergueu o olhar ao ouvir a menção de uma cor tão raramente falada no Palácio Shu.
Ela falou errado?
Era possível que o tom alaranjado do vermelho tivesse trazido a outra cor à mente e causado o lapso, mas essa explicação parecia um pouco forçada.
Mas ainda assim...
Amarelo-gamboge é a cor usada pelas damas da corte de alto escalão do clã Kou.
Leelee sentiu uma onda de inquietação, percebendo que esse fato poderia implicar algo muito importante — algo sobre sua senhora, que se transformara em outra pessoa da noite para o dia.
— O que há de errado, Leelee? Você ficou quieta de repente.
A ruiva abriu a boca para dizer algo, depois a fechou.
— Não... Nada não.
Seria loucura começar a imaginar algo tão absurdo com base num simples lapso de língua. Ela falara errado — só isso.
— Só fiquei chocada com a impraticabilidade do cronograma de treinamento que a senhora propôs.
Leelee fingiu não notar que passara de chamar sua senhora de "Dama Keigetsu" para simplesmente "senhora".
Achando difícil olhar a outra garota nos olhos, ela desviou o olhar, apenas para ouvir um grito animado de "Oh!" Quando ergueu o olhar, viu sua senhora encarando-a de volta com olhos brilhantes.
— Impraticável? Quer dizer que meu plano ficaria aquém do que você espera alcançar? Que trabalhadora você é!
— Não, uh, não é...
— Muito bem. Entendi; não há necessidade de pegar leve com você. Vamos seguir com o cronograma mais rigoroso que eu puder elaborar.
— Como?!
Tendo inadvertidamente acendido um fogo embaixo de sua Donzela, Leelee percebeu tarde demais que dissera a coisa errada. A senhora sentada diante dela estava acostumada a uma carga de trabalho tão pesada que mesmo um dia inteiro de capina, cozinha, limpeza e reparos no depósito não era suficiente para cansá-la. Se a Leelee tivesse que seguir o que ela considerava o cronograma mais rigoroso possível, ela certamente desabaria de exaustão.
— E- espera! Vamos pensar racionalmente! Você não deveria ser a estrela da cerimônia, senhora? É melhor nos concentrarmos no que você tem que fazer para se preparar do que gastar esse tempo comigo. Você nem tem nada para vestir! Nossa prioridade número um deveria ser descobrir como encontrar roupas adequadas para você!
— Não tema. Em troca da túnica vermelha viva, pensei em pegar sua velha rosa-clara e tingi-la. Viu isso? Juntei cascas de legumes e flores para tingir e perfumar, e até fiz um pincel com o cabelo que cortei ontem!
— Como uma Donzela se adaptou tão bem a este estilo de vida?!
Infelizmente, suas tentativas de desviar a atenção de volta para sua senhora foram frustradas pela preparação inesperada desta última.
Não havia para onde correr. Do jeito que as coisas estavam indo, sua senhora estranhamente ameaçadora ia treiná-la até a exaustão.
Afastando-se por puro instinto, Leelee procurou desesperadamente uma desculpa.
— Mas, uh... Ter minha Donzela passando todo o tempo me supervisionando e instruindo seria, hum... vergonhoso? Então talvez devêssemos reduzir a quantidade de treino...
— Ora, querida! — A ruiva se assustou ao encontrar sua senhora lacrimejando, finalmente comovida por seus apelos. — Que sentimento comovente. Entendo. Nesse caso, posso pedir que você me ensine a Dança do Redemoinho ?
— Hein?! Você acha que eu sei uma dança tão difícil?!
— Não precisa ser modesta! Sua mãe era uma mestre da Dança do Redemoinho, e você deve tê-la visto dançar muitas vezes, não? Então você deve se lembrar como é. Tudo o que preciso é de uma ideia geral. A dança não seria adequada para esta ocasião específica, de qualquer forma. Só estou procurando expandir meus conhecimentos. Podemos ir com calma. Tudo bem?
Não havia uma rachadura no sorriso no rosto de "Shu Keigetsu". No entanto, o aperto de sua mão nas mãos de Leelee lhe dava a mesma aura ameaçadora de um cão determinado a caçar sua presa.
— M- mas, hum...
— Hee hee. Vou dobrar o regime de treinamento que mencionei antes, adicionar uma palestra sobre beleza e completar com lições sobre a Dança do Redemoinho. Só de pensar em como nossa agenda vai ficar lotada, meu coração dispara !
Leelee finalmente percebeu que todas as suas tentativas de conter sua senhora haviam saído pela culatra completamente. Esqueça garantir mais tempo para descansar — ela dobrara sua carga de trabalho.
— Vamos lá, vamos fazer isso com tudo!
Assim se passou a manhã ensolarada três dias antes do Festival dos Fantasmas.
𓂃 ࣪˖ ִֶָ𐀔
Quando ele olhou pela janela deixada aberta para capturar a brisa noturna e viu que a lua minguante caíra bastante no céu, Gyoumei soltou um suspiro.
— Vamos encerrar por hoje.
Os burocratas que haviam espalhado uma pilha de documentos diante dele disseram: "Sim, Sua Alteza." Então começaram a arrumar a bagunça numa série de movimentos controlados.
Enquanto observava a multidão de seus vassalos competentes se dispersar, Gyoumei massageou os ombros doloridos. Embora ainda não tivesse assumido o comando dos assuntos de Estado, o príncipe herdeiro ainda assim tinha uma quantidade enorme de trabalho governamental jogada sobre ele diariamente. Agora com o Festival dos Fantasmas se aproximando, e com o pouco tempo livre que tinha indo para suas visitas ao Palácio Kou, ele estava ainda mais exausto do que o normal.
É claro, o fato de ficar acordado um pouco mais tarde ser tudo o que era preciso para ele realizar uma carga de trabalho tão ultrajante — que teria feito o resto dos príncipes da história implorar por misericórdia — era em si um testemunho das habilidades de Gyoumei.
Ele massageou a testa, que há muito estava franzida em concentração.
— Sua Alteza — veio a voz de Shin-u, que permanecera no aposento. Como este conselho em particular incluíra uma revisão final da cerimônia do Festival dos Fantasmas, que aconteceria em apenas dois dias, pediram-lhe que se sentasse com o capitão dos Olhos de Águia.
— Sobre aquele incidente com a dama da corte armada no Palácio Shu... — ele começou cuidadosamente, quando teve certeza de que o resto dos funcionários havia saído.
Apoiando o queixo nas mãos sobre a mesa, Gyoumei fez um gesto de dispensa.
— Já chega. Já li a declaração. Você optou por ignorar o assunto em vista de Shu Keigetsu ter defendido sua dama da corte e não exibir ferimentos externos. Nas próprias palavras da Donzela, o pior que aconteceu foi perder algumas pontas duplas. Essa tem que ser uma das desculpas mais patéticas que já vi em anos, o que a tornou a parte mais interessante de todo o relatório — declarou ele com um toque de sarcasmo. Parecia que ele ainda suspeitava que todo o incidente fora uma encenação da própria Shu Keigetsu.
— Pelo menos ela aprendeu com suas tentativas anteriores — continuou ele. — Em vez de se fazer de vítima para ganhar simpatia, ela escolheu representar a mulher benevolente que defende sua agressora. Mas poderia ter se esforçado um pouco mais em sua defesa.
— É isso — começou Shin-u desajeitadamente, percebendo como aquilo devia soar por escrito. — Nenhum de nós, Olhos de Águia, detectou qualquer má vontade no comportamento de Shu Keigetsu.
Escolhendo suas palavras com cuidado, Shin-u pensou de volta ao encontro. Sua defesa calma, mas inabalável, de sua dama da corte. Quão naturalmente sua mão fora para as costas da garota. A mulher que ele vira naquele depósito era digna, mas compassiva, uma Donzela entre Donzelas.
— É verdade que Shu Keigetsu já foi uma mulher perversa. Mas também é verdade que ela está tentando mudar. Vimos isso com nossos próprios olhos.
Sempre que se lembrava do quão reta e alta ela se mantivera, uma emoção que Shin-u não conseguia nomear ondulava em seu coração. Maravilhando-se com a sensação desconhecida, ele continuou:
— Talvez seja hora de reconsiderar sua atitude em relação a ela, Sua Alteza. Ela parecia uma mulher virtuosa para mim. No mínimo, não parecia do tipo a pregar peças sujas. Nem parecia superficial o suficiente para babar por qualquer migalha de simpatia jogada em sua direção. Por esse argumento, o fato de Kou Reirin não ter se importado com suas visitas regulares apesar de sua agenda lotada parece muito mais...
— Shin-u. — Gyoumei o interrompeu numa voz gelada.
Percebendo que claramente ultrapassara seus limites, Shin-u calou a boca.
É exatamente por isso que odeio falar em público.
Seria uma coisa entregar um relato direto e cortante dos fatos, mas inserir seus pensamentos pessoais e tentar influenciar a opinião de outro provara-se uma tarefa difícil demais para um orador pobre como Shin-u. Suas emoções não se exaltavam com muita frequência, o que significava que ele não sabia como se expressar quando sentia aquele raro surto de sentimento. Arrependia-se de que, em seu desespero para defender Shu Keigetsu, fora tolo o suficiente para difamar Kou Reirin e provocar a ira de Gyoumei.
— Entendi seu ponto, Shin-u? Shu Keigetsu mudou. Claro, ela maltratou suas damas da corte, incriminou os eunucos, bajulou a autoridade, recusou-se a se esforçar para compensar sua falta de habilidade, fez birras nos bastidores, difamou outra Donzela e a empurrou do pagode numa tentativa de assassinato, mas pelo menos ela defendeu uma única dama da corte.
— ...
— E bem na frente do influente capitão dos Olhos de Águia, sem mais nem menos. No que poderia ser considerado uma imitação de Reirin. Eu lhe disse que da próxima vez que testemunhasse uma de suas imitações baratas, mandaria cortar sua cabeça.
Tudo o que ele conseguira fazer fora atiçar o fogo.
Quando Shin-u franziu o cenho, Gyoumei recuperou compostura suficiente para soltar um pequeno suspiro.
— Desculpe. Fui longe demais. Perder a calma assim que Reirin entra na discussão é um mau hábito meu. Concedo isso.
— No entanto — continuou ele, apesar do franzir constrangido em seu rosto. — Tente entender de onde venho, Shin-u. A primeira mulher que já amei quase foi assassinada diante dos meus olhos. Embora eu saiba que devo obedecer ao veredito do julgamento e acreditar em sua chance de reabilitação, cada vez que vejo Reirin doente demais para sair da cama, meu coração arde de ódio por Shu Keigetsu. Para ser sincero, está exigindo toda a minha força de vontade não ir decapitá-la agora mesmo.
Shin-u não duvidava disso. Dado seu status como príncipe herdeiro, ele estaria dentro de seus direitos de executar qualquer Donzela que lhe desagradasse até o final do dia. Que ele não tivesse ido contra a decisão do Julgamento do Leão para banir Keigetsu poderia ser considerado um reflexo de sua integridade.
— Sei que minhas visitas diárias a Reirin estão se tornando excessivas. Mas a culpa é minha, não dela. Ela está sendo mais aberta comigo do que nunca. Como já mencionei, isso me deixa feliz — e ao mesmo tempo, com muito medo de tirar os olhos dela.
— Medo? De quê?
— Medo de pensar que uma garota tão obstinada como ela foi levada a esse ponto. Sempre que a vejo tão indefesa, não posso deixar de lembrar de quando ela desapareceu sobre o parapeito naquela noite.
Gyoumei enterrou o rosto na palma da mão, envergonhado de si mesmo. Sabia em algum nível que Reirin estava agindo de forma atipicamente mimada e que a estava vendo com muita frequência. Mesmo assim, não conseguia deixar de dedicar cada pensamento à segurança dela. Estava mais preocupado em examinar sua temperatura e frequência respiratória do que sua atitude ou palavras.
— Por favor, não me peça para mostrar bondade a Shu Keigetsu agora. Não tenho espaço no meu coração para isso.
Shin-u sentiu um conflito interno no tom grave de sua voz. Gyoumei igualmente não era do tipo que se apega a outras pessoas, embora de uma maneira diferente de Shin-u. Ele devia ter percebido exatamente o quão abalado estava, e esse conhecimento devia tê-lo frustrado.
— Como desejar, Sua Alteza.
No final, Shin-u fez a escolha de recuar.
A lua do lado de fora da janela nem sorria como uma crescente nem iluminava a terra em toda a sua glória. Simplesmente pairava no céu, uma sombra incompleta de seu antigo eu.
Traduzido por Moonlight Valley
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