Capítulo 8: Reirin Dança
Capítulo 8: Reirin Dança
QUE CHATO.
Era o dia do Festival dos Fantasmas.
Kin Seika soltou um suspiro sutil por trás de seu leque enquanto observava os membros dos outros clãs entrarem no Pátio das Donzelas.
Nada digno de se ver aqui. Que perda de tempo.
Franzindo as sobrancelhas bem-feitas num olhar de desdém, ela inclinou ligeiramente a cabeça. Seu olhar desceu para suas próprias unhas bem cuidadas. Seu brilho era uma visão mais impressionante do que qualquer coisa que as outras Donzelas medíocres tinham a oferecer.
Incumbidos da produção e controle da moeda de ouro desde os tempos antigos, o clã Kin estava no comando da economia de Ei — uma família de comerciantes, por assim dizer. Mas, ao mesmo tempo, o clã cultivara uma herança de belas artes como a ourivesaria, e seus descendentes há muito se autodenominavam patronos das artes.
Talvez devido a esse sustento, muitos dos membros do clã Kin tinham personalidades excêntricas. A maioria deles podia ser dividida em um de dois extremos: o tipo comerciante pragmático ou o tipo artista orgulhoso. Seika era deste último.
Tais tipos buscavam a perfeição estética em tudo o que faziam. Esforçavam-se para manter a cabeça erguida, agir de acordo com uma filosofia consistente e, acima de tudo, agradar aos olhos. Curiosamente, sua busca por esses ideais às vezes trazia maior sucesso do que as avaliações racionais dos comerciantes. Assim, embora os dois lados estivessem perpetuamente em desacordo um com o outro, o resultado final era que as duas linhagens equilibravam as deficiências uma da outra para garantir a prosperidade do clã. Na maior parte, os descendentes da linhagem principal artística ditavam as visões de longo prazo do clã, enquanto os vassalos mais práticos as implementavam por meio de medidas de curto prazo.
Sendo de forte descendência da linhagem principal, Seika nascera no mundo com tanto uma beleza deslumbrante e chamativa quanto uma postura inflexível em relação à beleza que podia parecer quase volúvel. Para ela, o que não era pitoresco tinha o valor da poeira flutuando no ar.
Havia apenas duas pessoas em todo o Pátio das Donzelas que conseguiram capturar seu coração. Uma era Ei Gyoumei, o príncipe herdeiro com um brilho tão poderoso que era chamado de forma suprema do qi yang. A outra era Kou Reirin, a chamada borboleta cuja beleza era tão delicada quanto uma ourivesaria balançando ao vento.
Seika estava bem ciente das feições deslumbrantes que possuía, mas mesmo ela não era páreo para a beleza translúcida de Kou Reirin, que roubava o fôlego e atraía o toque reverente de todos que a contemplavam. Além disso, sob sua aparência tranquila, havia uma vontade firme e formidável. Foi isso, entre outras coisas, que conquistou o respeito de Seika.
Seika previa um futuro em que Kou Reirin se tornaria a imperatriz, ela reuniria as quatro consortes como Nobre Consorte Kin, e juntas, as duas trabalhariam para apoiar Gyoumei.
Ou pelo menos, assim ela previra.
Maldita seja você, Shu Keigetsu! Eu deveria ter exterminado aquela rato de esgoto sorrateira e traiçoeira há muito tempo!
Todos os seus planos foram jogados na desordem quando a insolente Shu Keigetsu empurrou Kou Reirin do pagode. Uma celebração dedicada a honrar o Grande Ancestral e rezar por uma colheita abundante, o Festival dos Fantasmas era considerado domínio do clã Kin, os soberanos do outono. Ela e a Consorte Pura Kin criaram todos os tipos de planos elaborados para o evento, apenas para ter seus preparativos interrompidos pelo ritual de purificação e se verem forçadas a reduzir o escopo.
O mais imperdoável de tudo era que Kou Reirin estivera acamada desde sua queda da torre e estaria ausente das festividades do dia. As outras Donzelas tinham toda a habilidade de macacos mostrando alguns truques. As únicas danças dignas da plateia de Gyoumei seriam as dela e de Reirin. Sendo ela própria uma mestre da dança, Seika estava ansiosa para ver os movimentos graciosos da outra garota no palco.
Mesmo combinadas, as danças daquela Gen taciturna ou do pequeno esquilo do clã Ran não podiam esperar compensar a perda. E os esforços desastrados daquela descarada Shu Keigetsu são piores do que os truques de um macaco — não passam de uma afronta aos olhos.
Seika odiava Keigetsu . A garota estava em constante busca por atenção apesar de sua própria falta de talento, e lançava olhares de inveja para quem quer que conseguisse atrair um pouco de interesse. Sempre que confrontada com alguém em posição mais vulnerável do que a sua, ela começava a gritar a plenos pulmões e a atormentá-los. Ela era a definição de insidiosa.
Isso lhe lembrou que uma das damas da corte do clã Kin suspeitara que uma Shu roubara seu grampo de cabelo ornamental. Esse tipo de roubo sorrateiro era tão típico de Shu Keigetsu. Seika soltou um suspiro de desgosto.
Sempre pensei que fosse grosseiro perder tempo com aqueles que desprezo, mas não posso mais tolerar isso. Vou fazer você se arrepender tanto de não ter deixado o Pátio das Donzelas quando teve a chance.
Na cerimônia do Festival dos Fantasmas, cada Donzela apresentava uma dança na esperança de uma boa colheita. Era costume a plateia jogar uma pedra preciosa para as que se saíssem bem.
Desta vez, Seika sugerira que, além dessa tradição, aquelas que dançassem pior fossem borrifadas com água de nascente. Danças rituais eram uma oferenda aos céus. Ela insistira que uma dança desonrosa poderia servir para manchar o divino e, portanto, teria que ser purificada pelas mãos dos homens. Enquanto isso, usara a desculpa de "quanto mais pessoas para oferecer suas orações, melhor" para permitir que até os eunucos e damas da corte de escalão médio participassem. Nem é preciso dizer que eles também receberam o direito de borrifar água nas dançarinas.
Haveria bebida envolvida. Embora a ideia fosse "borrifar" a água, sem dúvida algumas pessoas escorregariam e derramariam todo o seu jarro. Alguns poderiam até estar bêbados o suficiente para atirar suas garrafas de licor ou jogar água lamacenta no palco, mas era prerrogativa da organizadora fechar os olhos para um pouco de bagunça.
Shu Keigetsu era a única dançarina terrivelmente ruim. Seika não poderia se importar menos se ela fosse encharcada de lama ou se seu rosto fosse cortado por um caco de cerâmica voador. Não havia mulher no mundo com natureza mais vil do que ela.
Enquanto olhava em volta do palco, observou os sussurros animados das Donzelas e consortes que não se viam há uma semana, bem como as damas da corte e eunucos que receberam permissão para assistir à sua primeira cerimônia. Cada espectador tinha sua cota de frustração reprimida depois de ser forçado a se enclausurar em casa devido ao repentino ritual de purificação. Sem dúvida, todos eles descontariam em Shu Keigetsu. Isso certamente provaria ser o único e verdadeiro destaque do ritual entediante.
Vamos! Apareça, Shu Keigetsu!
Como não tinha interesse em dançar num palco manchado, Seika colocara Shu Keigetsu para ser a última. Consequentemente, ela também seria a última a chegar ao Pátio das Donzelas.
Pensando em como a miserável Donzela ia aparecer com os ombros curvados e nenhuma dama da corte ao seu lado, Seika sorriu e observou a entrada do pátio.
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— Diga, Shin-u. Que tipo de cara você imagina que ela vai fazer quando chegar? — perguntou Gyoumei ao homem ao seu lado enquanto observava as Donzelas entrarem no pátio.
No Pátio das Donzelas, apenas o futuro imperador e suas consortes em potencial tinham permissão para ocupar o centro do palco. Embora esta fosse uma cerimônia oficial da corte, o imperador não estava presente, e era estritamente em sua capacidade de guardiãs que a imperatriz e as quatro consortes estavam sentadas a uma curta distância do palco.
Assim, era Gyoumei quem estava sentado na plataforma elevada mais próxima da ação. Enquanto dava um gole deliberado em sua taça de licor, decidiu iniciar uma conversa com seu meio-irmão de confiança.
O vinho era de alta qualidade e tinha um forte sabor de arroz, e o belo palco fora modelado segundo uma montanha vestida com folhas de outono. As fortes preferências do clã Kin transpareciam em vários toques ousados que antecipavam a estação. Shin-u lançou um olhar para Gyoumei, que girava a taça na mão e saboreava o aroma do álcool, e então voltou os olhos para a frente.
— Por "ela", quer dizer Shu Keigetsu?
— Quem mais seria? Sim, a mesma mulher descarada que, apesar de seu veredito inocente no Julgamento do Leão, enfrentou tanta suspeita e antagonismo da corte que sua guardiã a dissuadiu de comparecer. Ela insistiu em aparecer de qualquer maneira. Você não está curioso sobre o que uma Donzela como ela, que não tem um pingo de talento para canto ou dança, estará pensando ao mostrar a cara aqui?
Seu tom era casual, e ele até deu um encolher de ombros divertido, mas Shin-u conhecia Gyoumei há tempo suficiente para saber que ele estava bastante irritado. Apenas alguns dias antes, ele relutava até em ouvir menção a Shu Keigetsu, e agora estava trazendo-a à tona por conta própria.
— O senhor está com raiva de alguma coisa?
— Quando fui vê-la esta manhã, Reirin estava chorando — respondeu Gyoumei sombriamente, um olhar de desdém tomando seus traços. — Ela me disse que queria comparecer à cerimônia. Que queria me agradar com sua dança. Foi a primeira vez que vi aquela garota obstinada derramar lágrimas.
— É mesmo? — Shin-u apenas concordou.
Ele estava bem ciente do compromisso de seu meio-irmão com Kou Reirin. Do ponto de vista de Shin-u, as lágrimas de uma mulher não eram motivo para se exaltar, mas dada a situação atual e o que levara a esse ponto, ele simpatizava com a raiva de Gyoumei até certo ponto. Como príncipe herdeiro, ele tinha o direito de fazer o que quisesse; o próprio fato de ele ter se abstido de impor uma punição adicional a Shu Keigetsu e ter permitido que ela aparecesse na cerimônia mostrava muita contenção.
— Por favor, abstenha-se de decapitá-la no palco. Imagino que aqueles Kins exigentes ficariam bastante descontentes.
Shin-u pretendia soar objetivo e trair o mínimo de emoção possível, mas dado o olhar de desgosto de Gyoumei, o príncipe parecia ter levado esse comentário como uma afronta.
— Não sou tão míope. Só queria colocar para fora todos os sentimentos desagradáveis que estão me incomodando.
Ele evitou o olhar de Shin-u encarando seu vinho. Seu coração estava tão agitado quanto o licor ondulando em sua taça. Isso era, é claro, o resultado de ver sua amada chorar. Seu amor transbordante por Reirin o levara à indignação justa.
Ou pelo menos... era o que deveria ser.
Meu sangue Kou luta para proteger aqueles que deixei entrar em meu círculo íntimo. É natural ficar abalado de raiva ao ver a mulher que amo se agarrar a mim com olhos inchados e vermelhos. Mas...
Gyoumei pensou de volta àquela manhã. Pouco antes da cerimônia começar, ele reservara tempo livre suficiente para visitar Reirin em seu aposento.
No passado, ela frequentemente parecia preocupada que o que quer que a afligisse pudesse ser contagioso. Por mais casualmente que Gyoumei conversasse com ela, ela sempre tomava cuidado para manter uma distância sutil. Considerando que nos últimos dias, ela fizera o hábito de aninhar a bochecha contra seu peito.
Embora sentisse um surto de afeição ao pensar que ela estava se sentindo solitária o suficiente para buscar seu toque, naquela manhã ela desabara em soluços e se agarrou a Gyoumei com um ar de desespero.
— Oh, estou desolada! Trabalhei tanto pensando apenas em agradá-lo — pensando apenas em conquistar seu afeto!
Provavelmente porque estivera deitada na cama até momentos antes, seu cabelo estava despenteado, e seus olhos estavam vermelhos e cobertos de lágrimas.
Quando ela ergueu os olhos para ele com aqueles olhos, Gyoumei se pegou pensando: Esta é realmente a Kou Reirin por quem me apaixonei?
Ela era sua amada borboleta. Parecia frágil por fora, mas tinha uma fibra forte. Era do tipo que usaria outra pessoa como muleta?
Gyoumei nunca a vira chorar até agora. Portanto, não tinha referência para comparação, mas ela nunca lhe parecera do tipo que choraria tão abertamente — do tipo que babaria por qualquer migalha de simpatia jogada em sua direção.
As mesmas palavras que Shin-u lhe dissera no outro dia ecoaram em sua mente.
Maldição! Eu o repreendi exatamente pela mesma coisa que estou pensando agora. Patético.
O príncipe apertou o punho em torno de sua taça e sacudiu aqueles pensamentos dispersos. Ele tinha vergonha de estar duvidando da mulher que amava mais do que qualquer outra.
Era natural ficar desanimado em tempos de doença. Quanto mais quando ela estava sofrendo uma febre duradoura na sequência de uma experiência de quase-morte. Não era estranho que ela estivesse agindo um pouco diferente do normal. Que vergonha seria amá-la apenas por seu sorriso e abandoná-la no momento em que mostrasse um pouco de fraqueza.
Reirin é a única mulher que já deixei entrar em meu círculo.
Para Gyoumei, que nunca conhecera mulheres que fizessem algo além de flertar ou se insinuar, Reirin foi a primeira a encará-lo de volta com dignidade calma. Ela era sua amada, uma garota esbelta, mas orgulhosa, que sempre fazia algo para desafiar suas expectativas racionais.
Ela é a única que já permiti habitar meu coração , disse a si mesmo novamente.
— Sua Alteza. A Donzela do clã Ran fez sua entrada. A próxima é sua principal preocupação, Shu Keigetsu — sussurrou Shin-u ao seu lado. — Parece que ela só conseguiu garantir uma única at...
Ele interrompeu seu relatório no meio da frase. Incrédulo, Gyoumei se virou para olhar a entrada.
Apesar de sua escolha ostentosa de túnicas, Shu Keigetsu sempre se portara com sua figura grande enrolada numa bola de aparência lamentável. Agora que nem mesmo roupas decentes tinha para vestir, ela apareceria reduzida a lágrimas antes mesmo de o evento começar?
— Ah...!
No entanto, no momento em que a viu entrar no aposento onde o palco fora montado, a respiração de Gyoumei prendeu-se em sua garganta.
Ora, ora.
Enquanto contemplava o aposento repleto de eunucos e damas da corte, os olhos de Reirin se arregalaram um pouco. Como o clã Kin estava hospedando o evento, ela esperava que fosse uma ocasião glamorosa, mas não antecipara uma audiência tão grande. Todo o átrio estava lotado de pessoas, apenas a plataforma elevada do palco livre de espectadores.
Quando percebeu que o burburinho da multidão cessara com sua entrada, os espectadores interrompendo sua tagarelice para encará-la boquiabertos, um sorriso tênue surgiu no rosto de Reirin.
Hee hee. Eu sei! Tenho a dama da corte mais bonita de todas, não tenho ?
Naturalmente, isso agradava seus instintos maternos... ou melhor, de senhora.
Leelee, sua atendente de alto escalão, estava vestida com sua túnica vermelha viva. Todos os rasgos no tecido foram meticulosamente consertados — as agulhas e tesouras de suas "travessuras" ajudaram muito nisso — e fora bordada com os fios de metal para esconder as costuras. Reirin estava orgulhosa de ter cumprido sua palavra de criar para Leelee a túnica de dama da corte mais extravagante da história, preservando ainda assim sua prestigiosa cor vermelha.
Além disso, Leelee passara os últimos três dias num treinamento intensivo sobre tudo, desde onde direcionar o olhar até como prender o cabelo. Combinado com sua túnica vermelha profunda, ela parecia genuinamente a parte de uma elegante dama da corte de alto escalão. Quando Reirin ouviu a ruiva andando atrás de si murmurar "Peito erguido, olhar para frente", seu sorriso se alargou ainda mais.
Ela se tornou uma excelente aluna.
Eu também não fiquei parada, é claro.
O objetivo de comparecer ao evento era intimidar a mulher que ameaçara Leelee. Como sua senhora, Reirin não podia se dar ao luxo de cortar caminhos. Ela lançou um rápido olhar para a túnica que vestia.
Era a antiga túnica rosa-clara de Leelee, que ela pegara em troca da vermelha. Aproveitara a cor desbotada do original para tingir a vestimenta com sucos de flores e legumes, depois a bordara com os fios de ouro restantes, resultando numa vestimenta muito glamorosa. Reirin estava bastante orgulhosa de sua habilidade; embora sua cor fosse suave, ela brilhava sob a luz do sol que se derramava dos céus.
Passei os últimos três dias imersa dia e noite em meu passatempo favorito de bordado e dedicada a fazer todos os tipos de pequenos ajustes na minha aparência. Oh, como fui produtiva!
Ela exalou um suspiro enfeitiçado enquanto refletia sobre a preparação para este momento. Era difícil descrever suas circunstâncias como menos que perfeitas: ninguém para se preocupar com ela, nunca faltando energia, e capaz de participar das coisas que amava tanto quanto seu coração desejava.
Agora que já perdera um pedaço de seu cabelo, ela aproveitara a chance para aparar as pontas e penteá-lo com óleo de nozes. Graças a esses esforços, seus fios antes opacos e ondulados agora tinham um brilho lustroso.
Sua pele estava radiante de seu regime regular de cabaça, e sua robustez significava que ela podia aplicar os cosméticos que desejasse. Ela modelara as sobrancelhas e pintara os lábios de vermelho. Ao ousar acentuar os cantos de seus olhos virados para cima com um vermelho forte e engrossar os cílios com a tinta do arroz esfumaçado, conseguira dar-lhes uma aparência mais esguia. Isso lhe conferia um olhar tão marcante quanto o sol de verão, e sempre que baixava o olhar, o resultado era um sorriso sedutor de fazer o coração disparar.
No entanto, ela usara pouco pó facial. Com a ajuda adicional de um pouco de rouge, usara apenas o necessário para esconder suas sardas, dando-lhe a aparência de uma pele clara e saudável. Depois de todo o tempo que passara treinando em como aplicar maquiagem de aparência natural para esconder que seu rosto estava ruborizado de febre ou pálido de calafrios, fora moleza.
Além disso, a pele da Dama Keigetsu nunca resseca! Não importa quantas camadas de rouge eu aplique!
Ela estava ofegante com uma emoção semelhante ao orgulho. A constituição frágil de Reirin em todos os aspectos a forçara a trabalhar com materiais limitados para esconder sua tez, mas era diferente para Keigetsu. Na verdade, Reirin há muito ansiava por experimentar cosméticos mais maduros, como o rouge em camadas. Ela estava radiante por ver esse desejo realizado.
Não! Reirin malvada! A Dama Keigetsu queria que eu sofresse durante o Festival dos Fantasmas, então não devo arruinar seus planos ficando toda animada! — apressou-se em se repreender quando começou a se empolgar .
Encolhendo o queixo, ela contemplou os presentes. Gyoumei ocupava o assento mais alto ao longo de um lado do palco retangular. Ao fundo estavam as guardiãs das Donzelas, as quatro consortes e a imperatriz. A enferma "Kou Reirin" e suas damas da corte estavam ausentes, enquanto as outras três Donzelas e suas atendentes estavam cada uma sentadas ao redor dos lados restantes do palco. Não havia lugar reservado para o grupo de dois do clã Shu.
Era uma demonstração flagrante de antagonismo de Kin Seika, que deveria ser responsável por designar-lhes um assento.
Reirin caminhou graciosamente para dentro do aposento e parou para olhar para Seika.
— Olá, Dama Seika. Não vejo um lugar para mim ou para minha dama da corte.
Seika prendeu a respiração enquanto encarava de volta, mas logo piscou para recuperar o juízo e sorriu.
— Minhas mais profundas desculpas. Ouvi que a Nobre Consorte Shu recomendou que você não comparecesse, e nunca imaginei que você fosse tão descarada a ponto de desconsiderar o seu conselho. Dada a pele grossa que você parece ter, por que não se senta no chão?
Era um ataque aberto. No entanto, embora o capitão dos Olhos de Águia franzisse o cenho, ninguém presente repreendeu Seika por seu comportamento. Até Gyoumei, um defensor da justiça para todos, parecia estar avaliando suas opções de como reagir.
Ou... não exatamente. A verdade era que seu choque com a transformação de "Shu Keigetsu" o tornara lento no gatilho.
O que está acontecendo aqui?
Gyoumei contemplou o sorriso beligerante de Kin Seika e a Donzela do clã Shu que o recebia com graça. Claro, ele sabia pelo Julgamento do Leão e pelo relatório de Shin-u que ela mudara. Mas isso? Ela era como uma pessoa completamente diferente.
Seus traços eram nítidos e bem definidos. Seu cabelo era lustroso e lindamente penteado, apesar de sua falta certa de uma atendente especializada em penteados. Ao contrário de suas roupas habituais, sua vestimenta não era tão chamativa a ponto de tomar vida própria. Em vez disso, destacava sua própria beleza surpreendentemente deslumbrante, e seu número mínimo de acessórios servia para enfatizar a suavidade de sua pele.
Mas o mais notável de tudo era o olhar de autodomínio e inteligência em seu rosto. A maneira graciosa, mas impecável, como ela se portava. Sua postura traía uma força de vontade que fez o coração de Gyoumei bater mais rápido.
— Minha... "Pele grossa", diz? Você me lisonjeia — a voz elegante da Donzela Shu ecoou depois que alguns instantes de silêncio pairaram sobre o aposento. Ela levou ambas as mãos ao peito como se de alguma forma tocada pelas palavras.
Foi então que Gyoumei escolheu falar. Como príncipe herdeiro, ele achava que era seu dever defender a Donzela que estava lidando com aquele ato de agressão aberta com tanta admiração. Não importava se ela era alguém que ele não suportava.
— Kin Seika. Embora sua presença não tenha sido prevista, seria uma boa demonstração das habilidades do clã Kin recebê-la com graça. Não pode ser tão difícil abrir espaço para duas mulheres. Tragam uma cadeira para ela imediatamente.
— Agradeço sua preocupação, Sua Alteza, mas ficarei bem aqui.
No entanto, a Donzela em questão recusou sua ajuda sem um segundo pensamento.
— O quê? — disse Gyoumei.
— Como? — disse Seika.
Despreocupada com os olhares vazios que o par lhe lançava, ela sentou-se no chão duro a uma curta distância do palco. Além disso, não o fez com a curvatura triste de uma vítima; ela parecia perfeitamente feliz com essa reviravolta.
Como acontecia, a Donzela e sua dama da corte estavam imersas numa troca sussurrada.
— Senhora... Isso não é motivo para sorrir.
— Não posso evitar, Leelee... Hee hee hee...
Era a primeira vez que Reirin era elogiada como "de pele grossa". Ela sabia muito bem que o comentário era para ser desdenhoso, mas isso não a deixava menos feliz em ouvi-lo. Ela até sentia uma inefável sensação de realização. Some-se a isso o fato de que Reirin preferia a sensação dura do chão à moleza de uma almofada, e ela estava bastante satisfeita com esse desenvolvimento.
A multidão murmurou quando "Shu Keigetsu" não levantou sequer um protesto. Seika, também, estreitou os olhos em suspeita.
No entanto, Reirin deixou tudo passar como uma brisa suave de primavera. Malícia. Desconfiança. Olhares de incredulidade. Tudo isso não passava de "presságios" de dano. Ela não tinha desejo de desperdiçar sua energia se sentindo ferida antes de sofrer qualquer dano tangível.
Isto é, contanto que nenhum disso seja dirigido aos meus entes queridos.
Nosso objetivo aqui é devolver este grampo de prata à Dama Seika , pensou Reirin, tocando o acessório que escondera no peito de sua vestimenta.
Era tradição oferecer joias às garotas que dançavam bem, e conhecendo Seika, isso forneceria a oportunidade perfeita para devolvê-lo a ela. O que Reirin faria a partir daí dependeria de como Seika reagisse ao ver o grampo.
— Bem, em que tipo de cerimônia isso vai se transformar? — murmurou Reirin enquanto aguardava o sinal de início.
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O que está acontecendo? Seika perguntou a si mesma, escondendo seu olhar de desgosto atrás de seu leque redondo.
Nem é preciso dizer que a fonte de sua consternação era Shu Keigetsu, que estava sentada silenciosamente no chão não muito longe do palco. Ou, para ser mais precisa, o quanto a garota mudara.
Era como se uma lagarta feia tivesse de repente se transformado numa borboleta. A maneira como ela se sentava ereta e encolhia o queixo enquanto contemplava o palco a fazia parecer a mestre do local.
Ela sempre foi tão bonita? O cenho de Seika se aprofundou.
Seu cabelo negro e lustroso. Seus traços nítidos. Embora houvesse traços da antiga Shu Keigetsu nela, a dignidade em sua postura a fazia parecer uma pessoa completamente diferente.
Ela sempre foi tão alta? E não de uma maneira desengonçada também — toda a sua figura exalava uma graça ágil. Muito como a estação característica do clã Shu, ela era aérea e revigorante; no entanto, sempre que baixava o olhar, havia um tom indescritível de fascínio em seus olhos.
E ela está completamente imune às minhas provocações.
Essa era a parte mais desconcertante de tudo. Qualquer Donzela que passara o último ano com ela saberia que Shu Keigetsu era um complexo de inferioridade ambulante. Ela se fechava quando estava nervosa, e fazia um escândalo quando suas emoções fugiam do controle. Apesar da malícia vinda de todas as direções, sem falar do ataque verbal aberto de Seika, ela ainda sorria serenamente — e esse não era o tipo de pessoa que ela jamais fora.
Seika ponderou o mistério por um tempo, até que eventualmente afastou esses pensamentos com um leve balançar de cabeça. Como organizadora deste evento, ela não podia se dar ao luxo de negligenciar os procedimentos. Enquanto desviava a atenção com um leve toque de seu leque, um sorriso surgiu em seu rosto. Ela sentiu que o som tênue e a curva deslumbrante de seus lábios haviam trazido o resto da multidão de volta à realidade.
Observando Shu Keigetsu pelo canto do olho, Seika conduziu as coisas sem problemas.
— Agora que estamos todos aqui, vamos começar a cerimônia do Festival dos Fantasmas?
Primeiro veio um discurso de Gyoumei, depois toda a plateia recitou uma oração aos céus e ao Grande Ancestral. Os tesouros sagrados da espada e do arco foram adornados com fios de cinco cores, uma taça foi passada de pessoa para pessoa para limpar suas bocas com água, e então era finalmente hora do evento principal da cerimônia: a dança de oferenda.
A primeira a se apresentar foi a Donzela do clã Gen, Gen Kasui. Ela era a mais velha das Donzelas, com dezenove anos. Tinha pele branca como neve, constituição esbelta e um rosto tão bem-feito quanto uma fada da neve, mas sua falta de expressões faciais e reticência transmitiam uma natureza sombria, tornando-a alguém que Seika preferia evitar. No entanto, ela era do tipo que realizava qualquer tarefa com facilidade, o que a tornava a escolha perfeita para um ato inicial inofensivo.
— Que a deusa da colheita nos sorria nos próximos dias de outono.
Na prática, como convinha aos combatentes natos do clã Gen, Kasui executou sua dança sem incidentes, manejando habilmente o cajado khakkhara em oração por uma colheita abundante.
Eu diria que o som áspero dos sinos o torna mais parecido com uma arma do que com um instrumento musical.
Embora tivesse encarado aquela apresentação com um erguer frio de sobrancelha por dentro, Seika concedeu uma gema de jade ao palco. Gyoumei deu-lhe um cristal e as consortes deram-lhe pérolas, enquanto a Donzela do clã Ran ofereceu-lhe um belo leque adornado com penas. As damas da corte e eunucos recompensaram sua dança com aplausos em vez de joias.
Seika espiou Shu Keigetsu, curiosa sobre o que ela poderia conseguir depois de ser levada para um depósito sem nenhum de seus pertences, e eis que ela apresentara uma bola ornamental perfumada. Normalmente, essas eram um artesanato do início do verão, mas isso a tornava ainda mais apropriada vindo da Donzela do clã Shu, e era, no entanto, uma obra de arte deslumbrante e detalhada, bordada com fios de ouro e prata. No momento em que Kasui a pegou, seus olhos se arregalaram e ela esboçou um sorriso raro, o que sugeria que a fragrância que ela costurara dentro também era um artigo de primeira linha.
Um burburinho percorreu a multidão ao ver que Shu Keigetsu, a própria definição de insossa e desatenciosa, preparara um presente tão requintado.
A próxima dança foi da Donzela do clã Ran, Ran Houshun. Ela era a mais nova das Donzelas, com treze anos. Era uma garota bonita de estatura pequena, olhos redondos adoráveis e um comportamento tímido e modesto que despertava os instintos protetores daqueles ao seu redor. Mas, tanto quanto Seika estava preocupada, a delicadeza e inocência de Ran Houshun eram como os restos de uma Kou Reirin despojada de sua nobreza, o que tornava sua opinião sobre a garota ainda mais severa. Metal corta madeira. Incompatíveis desde o início, as duas Donzelas não tinham um vínculo mais profundo do que o de uma terrorista e a aterrorizada.
— Hum... Que a deusa da colheita... nos sorria nos próximos dias de outono...
Houshun gritou a linha que sinalizava o início da dança, então juntou os lábios e ergueu o rosto, segurando o khakkhara que rivalizava com sua própria altura. Era precioso observar os movimentos ágeis de seus braços e pernas minúsculos enquanto dançava. Não havia dúvida em seus movimentos, o que mostrava que ela devia ter praticado bastante.
Assim que sua dança terminou, Seika e cada um dos outros participantes lhe concederam os mesmos prêmios da rodada anterior. A cerimônia estava se revelando um evento mais pacífico do que o antecipado.
A próxima era a vez de Seika.
— Que a deusa da colheita nos sorria nos próximos dias de outono.
Ao dar um tilintar decisivo nos sinos do cajado, ela começou a deslizar sobre o palco. Seika contemplou calmamente os espectadores que a contemplavam boquiabertos. Sua dança tinha um certo floreio. Fazendo uso pleno de sua figura feminina e curvilínea, ela atraía os olhares da multidão com seus movimentos lúdicos no ritmo da batida.
Seika orgulhava-se de como a facilidade de sua dança não traía nenhum dos rigores de seu treinamento. Quando lançava um olhar coquete sobre a plateia entre as músicas, via que as damas da corte do clã Kin estavam inchando de orgulho e até as bochechas dos eunucos estavam ruborizadas de admiração. Gyoumei e as quatro consortes estavam sentados eretos em seus assentos, refletindo a intensidade com que a observavam.
É isso que eu gosto de ver.
A emoção de se estabelecer como a personificação da beleza trouxe um sorriso excepcionalmente deslumbrante ao rosto de Seika.
Quando terminou sua dança, um pouco sem fôlego, Gyoumei pessoalmente elogiou sua apresentação como "esplêndida". O cristal que ele lhe apresentou tinha um pedestal banhado a ouro em forma de pássaro; era muito mais extravagante do que os que ele dera às outras duas Donzelas. A salva de palmas que recebeu da plateia também foi a mais alta até agora.
— Muito obrigada. Estou honrada em receber presentes tão generosos — respondeu Seika com um ar de charme, e então lançou um olhar para Shu Keigetsu. Sua dança pedia mais do que a mesma bola que fora apresentada aos outros dois clãs. Esses favores eram uma competição de riqueza; era um teste para ver que classe de bens as Donzelas conseguiam obter sem recorrer a seus guardiões. Premiar a dança que ganhara o reconhecimento do príncipe com uma mera bola ornamental seria um grave insulto.
Seika estreitou o olhar, imaginando o que a garota poderia conseguir agora que fora cortada pela Nobre Consorte Shu, apenas para ser recebida com um presente inesperado.
— Aquilo foi lindo. Embora seja apenas uma bugiganga modesta diante de uma dança certa de agradar a deusa da colheita, por favor, aceite este meu presente.
Eis que era um belo grampo de cabelo trabalhado em prata e pérolas.
Com aquele artigo de primeira classe diante de si, Seika mergulhou num silêncio de olhos arregalados.
O que você vai fazer, Dama Kin Seika? Leelee se perguntou, rígida de tensão enquanto observava Shu Keigetsu e Kin Seika se encararem.
Em meio aos olhares da multidão, sua senhora usava um sorriso imperturbável.

— Que tal? Confio que uma Donzela exemplar com um coração não menos generoso do que a deusa da colheita aceitará esta humilde oferenda sem queixas.
Para piorar, ela ainda estava reforçando seu ponto com um sorriso; o rosto de Leelee se contraiu ao vê-lo.
Sim, entendi. Em outras palavras, "Se você quer provar sua medida como senhora, vai aceitar o material de chantagem de volta sem um pio."
Embora a postura de sua senhora fosse tão graciosa quanto sempre, Leelee começou a suar frio enquanto a garota pressionava o assunto com descaramento.
No geral, isso era bastante moderado como soluções potenciais. Por exemplo, durante um momento de descanso conquistado com dificuldade em seu primeiro dia de treinamento, a garota com o rosto de Shu Keigetsu olhara com nostalgia para os pulgões rastejando sobre a grama e perguntara:
— Diga, Leelee. Como devo lidar com os pulgões que devastaram meu precioso jardim? Devo afogá-los em água? Ou em óleo fervente? Ou talvez deva fazer o trabalho com minhas próprias mãos. Qual método parece melhor para você?
— Uh... Ainda estamos falando de pulgões, certo?
— Aqui ele!
A bela risada que escapou de seus lábios mergulhou Leelee em pânico.
A partir daí, ela passara muito tempo tentando dissuadir a Donzela.
— Não quero fazer um escândalo por causa disso!
— Você conhece o termo "exagero"?
— Vamos, você não se divertiu um pouco graças àquelas "travessuras"?
Num último ato de desespero, ela gritara:
— Eu nem peguei um resfriado! — e então se perguntara por que diabos estava indo tão longe para defender alguém que odiava.
— Ah, querida — a outra garota respondera com um piscar de olhos. — É um bom argumento. Boba de mim, ficar tão irritada por algo que não aconteceu.
Esse argumento parecia ter tocado um de seus valores fundamentais.
No final, o par se estabelecera em devolver o grampo, e contanto que os Kins o aceitassem de volta sem alarde, esquecendo que tudo aquilo acontecera — e isso as trouxe ao momento presente.
Embora para ser sincera, isso acabou sendo o menor dos meus problemas , pensou Leelee, olhando para o vazio.
Ela mal conseguia lembrar como sobrevivera aos últimos três dias. Apesar de sua aparência mansa, "Shu Keigetsu" fora uma professora rigorosa e usara todos os truques do livro para treinar Leelee até o nível de habilidade desejado.
Todos aqueles exercícios a transformaram numa mulher bastante adorável, se ela mesma o dizia, mas ela ainda não era páreo para a garota sorridente à sua frente. Era incrível como ela conseguia manter a calma com tantos olhos sobre ela, tanto agora quanto quando entrara no aposento.
Mas esquecendo isso... Onde está a Dama Gayou?
Redirecionando sua atenção, Leelee lançou um olhar para as damas da corte atrás de Kin Seika. Gayou sempre escondera o rosto atrás de seu leque, então Leelee não sabia como ela era. Não apenas as atendentes de alto e baixo escalão tinham poucas oportunidades de interagir, mas Leelee não tinha amigos entre as damas da corte a quem pudesse pedir informações.
Se eu ouvir sua voz novamente, devo conseguir identificar qual é ela.
Leelee estivera tão focada no que a mulher estava dizendo que não estava confiante em reconhecer o som de sua voz, mas ela tinha uma maneira de falar bastante elegante.
Quase como se lessem a mente de Leelee, as atendentes de Seika começaram a falar por sua vez.
— Ora. Esse é um acessório deslumbrante, mas como você entrou em posse dele enquanto estava em suspensão?
— Deixe-me adivinhar: você foi disciplinada apenas no nome, e passou seus dias exibindo sua riqueza e maltratando suas damas da corte? Como sempre!
Parecia que elas haviam se adiantado para fornecer cobertura para sua senhora sem palavras.
Os comentários fizeram Leelee franzir o cenho, mas ela se endireitou quando Shu Keigetsu lhe lançou um olhar. É ela? a Donzela perguntou com o olhar.
Não era. A mulher não falara tão rápido. Leelee fez um olhar que dizia Não.
— Parem. Vocês insultam a Nobre Consorte Shu. Pelo que ouvi, Shu Keigetsu de fato foi confinada a um aposento vazio.
— Mas então como ela conseguiu um item tão esplêndido, Dama Seika?
É ela?
Não.
Sob circunstâncias normais, um ataque verbal como aquele a teria feito encolher, mas Leelee manteve a calma e continuou sinalizando sua senhora.
— Ela poderia ter roubado? Lembro-me de alguém lamentando a perda de seu grampo de cabelo ornamental.
Também não é ela.
Entendi.
— Agora isso parece plausível! Não há como saber o que uma pessoa pode fazer quando está encurralada. Ter apenas uma atendente deve ter sido uma existência bastante miserável!
Não é ela.
Entendi.
Leelee não mais se encolhia diante das sedas-marfim que lançavam uma saraivada de críticas mordazes sob o disfarce de conversa privada.
— E agora que estou olhando mais de perto, a dama da corte dela não é aquela filha de dançarina? Sabe, aquela garota do Palácio Shu que supostamente tem boa aparência, mas tem todos os tipos de rumores terríveis sobre ela! Basta olhar para aquele rosto vulgar e lascivo. Aposto que ela a fez roubá-lo.
Não é ela , sinalizou Leelee, imperturbável pelo insulto, mas franziu o cenho ao ver que sua senhora ficara imóvel.
— Hm? Senhora...
— Você aí — disse ela antes que Leelee pudesse terminar, girando sobre uma das damas da corte do clã Kin.
Leelee se sobressaltou ao ver sua expressão.
Ela tem aquela cara que faz com os pulgões!
Toda a questão de Gayou à parte, parecia que ela estava chateada com a mulher que insultara Leelee.
— Acabei de ouvir você difamar minha dama da corte?
A seda-marfim ficou chocada ao ouvir essa objeção abrupta da Donzela Shu, que se comportara tão graciosamente até aquele ponto. Embora momentaneamente perturbada, ela logo ergueu o queixo com desafio e se aproximou de sua senhora.
— Só estava expressando minha opinião, Dama Seika.
Seus olhos se estreitando ligeiramente, Shu Keigetsu rapidamente encerrou aquela linha de defesa.
— Devo presumir que tais opiniões são representativas do clã Kin, então? — Ela então fixou seus olhos na outra Donzela. — Dama Seika, permita-me ser franca. Aqui no Pátio das Donzelas, assim como as consortes e suas Donzelas são tão próximas quanto mãe e filha, também as Donzelas e suas damas da corte devem forjar um vínculo forte. Se sua atendente age mal, acredito que seja seu dever como Donzela repreendê-la.
A multidão murmurou diante de sua afirmação direta. Shu Keigetsu nunca expressara uma opinião tão abertamente antes. E certamente não uma tão fundamentada na ética. Seu olhar digno a fazia parecer uma Donzela exemplar. Todos a encararam, com a respiração suspensa antes que percebessem o que os atingira.
— Posso pedir que retrate seus comentários infundados sobre minha dama da corte? Se recusar, então...
Outra voz a interrompeu.
— Já chega, Keigetsu!
Quando ela olhou, viu que era ninguém menos que a Nobre Consorte Shu, sentada ao fundo do aposento.
Seu rosto gentil estava ruborizado de um vermelho profundo, e pela primeira vez ela erguera a voz.
— Você deveria ter vergonha! Primeiro você entra numa cerimônia quando está em suspensão, e agora interrompe os procedimentos para começar uma briga com outro clã? Quanto mais você precisa me desonrar para ficar satisfeita?!
— Mas, Consorte Shu... Meu período de suspensão acabou, e não estou tentando começar uma briga. Só quero ter uma discussão.
— Já ouvi desculpas suficientes! Volte para o palácio antes que me envergonhe ainda mais. Está me ouvindo? Considere isto um aviso! — gritou ela, alto o bastante para fazer alguém se perguntar onde fora parar a delicada consorte habitual. Sem dúvida, ela esperava manter as aparências do clã Shu denunciando a Donzela de uma vez por todas.
No entanto, a vítima de seu discurso não se abalou. Ela olhou diretamente para a Nobre Consorte e, por fim, disse:
— Entendi.
Leelee ficou aliviada ao ouvir que ela estava disposta a recuar, apenas para ficar boquiaberta com o que ela disse em seguida.
— Então, contanto que eu não interrompa os procedimentos e não a envergonhe ainda mais, estou livre para continuar minha discussão com a Dama Seika ?
— O quê?
— Vou me adiantar e fazer minha dança.
— Como?!
Não mais que a Donzela declarou suas intenções, ela se levantou.
Todos olharam em surpresa enquanto ela caminhava agilmente em direção ao palco. Esta era Shu Keigetsu, aquela performer terrível que passava cada cerimônia encolhida sobre si mesma, com um olhar de submissão manso em seus olhos. Como ela poderia esperar seguir uma mestre como Kin Seika com uma dança que não envergonhasse ainda mais a consorte?
— Prometa-me isto, Dama Seika: se minha dança não provar ser uma afronta à plateia, e eu trouxer esta cerimônia a um fim sem incidentes, nós duas terminaremos nossa discussão — disse Shu Keigetsu enquanto subia ao palco.
— Sério? — Seika a encarou de volta. Todos os tipos de pensamentos passaram por seus grandes olhos felinos, mas os cantos de sua boca eventualmente se curvaram num sorriso de escárnio. — Muito bem. Mas apenas se você puder executar uma dança boa o suficiente para agradar a deusa da colheita.
— Farei o meu melhor.
No final daquela troca, as duas garotas trocaram de lugar.
Uma dama da corte Kin entregou o cajado khakkhara a Shu Keigetsu, onde ela se ajoelhava no centro do palco. Manejado em oração por uma boa colheita, aquele cajado feito sob medida deveria ser passado entre todas as quatro Donzelas.
Mas no momento em que Shu Keigetsu o pegou, houve um acidente.
Shshshhhh!
Os ornamentos fixados na cabeça do cajado se soltaram todos de uma vez. A fileira de sinos se desprendeu um após o outro, espalhando-se pelo palco numa cacofonia estridente. Parecia que a dama da corte de alto escalão Kin cortara a corda como vingança.
— Dama Kin Seika — disse Shin-u, estreitando os olhos em acusação.
— Não fui eu, Capitão! — ela foi rápida em afirmar. — Não ordenei isso.
Ela encarou sua atendente, seus olhos carregando o frio de uma lâmina de metal forjado.
— Sou filha dos Kins, aqueles que prezam a estética e sabem o que é orgulho. Goste ou não, todos aqui sabem que a deusa certamente achará minha dança mais agradável do que a de qualquer outra Donzela. Não há um único membro do clã Kin que não reconheça isso.
Em outras palavras, a dama da corte que tentara encurralar sua inimiga ao ponto de profanar o palco já não contava como parte do clã Kin.
Tudo bem apedrejar uma dançarina abominável, mas interferir no ato da dança em si era sacrilégio. Esse credo era muito característico de Seika, mas talvez não tão facilmente compreendido por outros, e a dama da corte incorrera na ira de sua senhora ao violá-lo.
O rosto da mulher empalideceu ao perceber seu erro.
— Hum... Dama Seika...
Assim que todo o aposento irrompera em tensão, uma voz suave ecoou.
— Isso mesmo.
O reconhecimento sorridente viera de ninguém menos que a própria Shu Keigetsu, aquela cujo cajado fora arruinado.
— A Dama Seika é uma indivíduo honrada que detesta jogadas sujas. Isso deve ter sido um acidente imprevisto.
Ela colocou o cajado agora inútil ao longo da borda do palco.
— No entanto — continuou ela enquanto se levantava — imprevisto significa inauspicioso. Não deve haver agitação num ritual dedicado à deusa. Permita-me dissipar este mau agouro mudando minha dança.
Então, ela pegou o xale que envolvia seus ombros e o drapelou frouxamente sobre seus braços.
— Dama Shu Keigetsu...?
— O que você está...?
Ignorando as reações incrédulas de Shin-u e Seika, ela juntou as mãos e baixou o olhar, e então falou as palavras que sinalizavam o início da apresentação.
— Que a deusa da colheita nos sorria nos próximos dias de outono.
No momento após a música das flautas de sheng começar hesitantemente, toda a plateia ofegou em uníssono. Shu Keigetsu usava um sorriso tão sereno quanto o de uma donzela celestial.
Ela ergueu ambos os braços como se levada pelo vento. Inclinando todo o corpo como se saboreasse uma fragrância, ela então estendeu uma perna e começou a circular lentamente pelo palco. Suas mangas balançavam suavemente, e o xale tremulava em suas mãos.
Ela não fazia nada além de deslizar, ambos os braços estendidos.
Apenas isso foi o suficiente para fazer os espectadores verem uma visão de uma donzela celestial contemplando as terras férteis com um sorriso.
— O que está acontecendo? — Seika perguntou em voz alta, atônita.
Ela entendia porque era ela própria uma dançarina especialista; era preciso uma quantidade tremenda de prática para refinar um gesto aparentemente tão simples ao ponto de cativar uma plateia. Por exemplo, até mesmo algo tão trivial como a maneira como ela se abaixava ou girava os pulsos demonstrava que ela treinara seu core com precisão.
Seika conhecia apenas uma mulher que personificava tal elegância apoiada por trabalho duro.
Ela é quase como a Kou Reirin...
No entanto, o que ela viu no momento seguinte afastaria esse pensamento de sua mente.
Bem, mais ou menos. Kou Reirin se especializava em danças que eram toda delicadeza e graça — ou, para colocar de outra forma, tão fisicamente pouco exigentes quanto possível. Não havia como ela jamais executar esta dança.
Quer dizer, olhe como ela está se movendo... Isso tem que ser...
A música da sheng acelerou. A melodia mudou, e as notas poderosas e agudas do alaúde e da flauta entraram na mistura.
Shiing!
Shu Keigetsu girou com o xale em suas mãos. Enquanto agitava os braços rapidamente pelo ar, usava esse impulso para girar sobre si mesma. Seu xale dançava e tremulava, quase como se estivesse brincando com o vento.
Ou como se ela mesma tivesse se tornado uma borboleta.
A multidão irrompeu numa rodada de sussurros febris ao vê-la voar por todo o palco em tempos alternados.
— A Dança do Redemoinho!
Era uma dança estrangeira com giros tão intensos que apenas algumas poucas cortesãs a dominavam.
A dança de Shu Keigetsu não parava. Apesar da velocidade furiosa de seus giros, o fluxo elegante de seu xale que seguia uma batida depois cativava os olhos da multidão. Até o ocasional — talvez intencional — tilintar metálico de seus dedos dos pés roçando os sinos no chão servia para excitar a plateia.
Mais rápido. Ela tinha que ir ainda mais rápido. Ela tinha que voar a novas alturas. Ser mais graciosa. Mais sublime.
Todos estavam hipnotizados por Shu Keigetsu enquanto ela dançava como se perseguisse a luz que se derramava no átrio, um sorriso tênue espalhado em seu rosto. Alguns foram até movidos às lágrimas pela pura beleza da visão.
Eventualmente, a música atingiu seu clímax e diminuiu até o fim da peça. Seu trinado agudo se desvaneceu num sussurro, até que finalmente a canção chegou ao fim numa nota longa e sustentada. Shu Keigetsu igualmente trouxe sua dança a um fim, erguendo os braços aos céus em súplica.
Seu xale balançou com o momento remanescente e então finalmente ficou imóvel.
Mesmo agora que o tecido que dançara como o vento se aquietara, a multidão se viu incapaz de falar.
Molhá-la com água estava fora de questão. Pelo contrário — a plateia estava tão envolvida no rescaldo da apresentação que ninguém sequer pensou em aplaudir.
— ...
Gyoumei era mais um espectador sem palavras.
O que está acontecendo? pensou ele, apertando o peito apesar de si mesmo. Por que meu coração está batendo tão rápido?
Ele percebeu que estava mais atraído por Shu Keigetsu do que jamais estivera. No entanto, não queria acreditar. Kou Reirin era a única para quem ele abrira seu coração. Ela era a única cuja força de vontade ele admirara, e a única a quem concedera o apelido de "borboleta" por sua dança cativante.
Então como podia estar tão encantado pela própria mulher que machucara Reirin — a rato de esgoto obsequiosa e traiçoeira do Pátio das Donzelas?
— Sua Alteza. Seu favor? — Shin-u o provocou num sussurro. Até seu rosto habitual de boneca estava tingido de excitação, e sua voz saiu num zumbido rouco. — Eu diria que você deve o mais fino presente de todos a esta donzela celestial que desceu sobre nosso Pátio das Donzelas.
O lembrete de seu guarda o trouxe de volta à realidade.
No entanto, seu cenho se franziu enquanto considerava o que apresentar a ela. Ele já dera a Kin Seika um favor tão valioso quanto uma relíquia nacional. A única maneira de superar isso era entregar um de seus próprios acessórios pessoais. Na verdade, ele nunca esperara que Shu Keigetsu fizesse uma dança tão incrível e, portanto, não preparara muito presente para ela. Um rápido olhar pelo aposento disse que a imperatriz e as quatro consortes estavam no mesmo dilema.
Nesse ponto, as damas da corte e os eunucos estavam lenta, mas seguramente, voltando à realidade e irrompendo numa salva de palmas. No início foram esparsas, mas à medida que a plateia despertava de volta à vida um após o outro, o som começou a varrer o aposento. Em breve, a ovação trovejante crescera o suficiente para reverberar por todo o Pátio das Donzelas.
Graças a Deus. Parece que consegui evitar a execução, pelo menos.
Reirin ficou aliviada ao ver todos aplaudindo com as bochechas coradas.
Logo depois de lançar o desafio, ela se lembrara de que Gyoumei lhe dissera: "Se você se comportar como Kou Reirin, mandarei executá-la", e se apressara a mudar sua apresentação para algo que ela não poderia ter dançado durante sua era Reirin.
Foi bom ter pedido a Leelee para me ensinar a Dança do Redemoinho. Sempre quis experimentá-la.
O fato de ela ter realizado um sonho antigo no processo a deixava no melhor dos humores.
Os giros intensos da Dança do Redemoinho eram tão fisicamente extenuantes que tinha muito poucos instrutores, tornando-a uma dança difícil de aprender. Ela pedira a Leelee, cuja mãe fora uma mestre da dança, para lhe ensinar os movimentos porque a oportunidade surgira, mas nunca imaginara que teria a oportunidade de exibi-la tão cedo.
Valera todo o trabalho de cutucar a memória confusa de Leelee.
— Como você consegue executar uma dança que é um desafio até para uma cortesã?! — exigiu Seika, ainda de olhos arregalados e trêmula.
— Tive uma dama da corte talentosa para me ensinar. Sua mãe a educou bem nos caminhos da Dança do Redemoinho — respondeu Reirin com um sorriso que dizia “ Não está com inveja? ”
Ela então notou pelo canto do olho que Leelee estava olhando para o chão, seus ombros tremendo. Pela aparência, ela estava chorando.
Hein? Eu a fiz chorar?!
Reirin ficou um pouco angustiada, mas se apressou em se recompor. Provavelmente não eram lágrimas ruins. Nesse caso, não seriam um detrimento à sua saúde, mas sim uma purificação do corpo e da alma. Provavelmente.
Deixa pra lá! Ainda preciso obter um pedido de desculpas por aquele insulto a Leelee.
Apesar de suas aparências gentis, Reirin era uma garota agressiva; não tinha intenção de deixar o assunto em aberto. Ela ainda não recebera seus presentes, mas como completara sua dança, considerava que seu turno acabara para todos os efeitos.
Empurrando a dança de sua mente, Reirin se virou para Seika com um olhar mortalmente sério.
— Agora que a dança de oferenda acabou, vamos voltar ao assunto...
— Espere. Ninguém lhe apresentou um prêmio ainda! — gaguejou Seika.
— Os aplausos foram tudo o que precisei. — Reirin balançou a cabeça com decisão e se inclinou para a frente. — Agora, sobre o que aquela seda-marfim disse antes. Qual é o significado de tratar minha dama da corte como uma ladra comum? Sobre essa...
— Espere! Devagar. Você tem ideia de quão deslumbrante foi a dança que acabou de nos mostrar?! Permita-nos a chance de dar forma à nossa apreciação!
Em algum momento, aquilo se transformara numa situação bizarra em que a valentona implorava para cantar os louvores de sua vítima. Para Seika, que valorizava a beleza acima de tudo, era inaceitável que uma dança tão bela ficasse sem recompensa. Obras de arte excepcionais deviam ser amadas e louvadas por todos.
Foi então que Gyoumei quebrou o silêncio.
— Shu Keigetsu. Aquela dança foi mais esplêndida do que qualquer uma que já vi, uma que verdadeiramente evocou a beleza de uma colheita abundante.
Um murmúrio contido percorreu a multidão com aquele elogio da mais alta ordem.
Gyoumei se levantou. Ele voltou aqueles belos traços viris capazes de encantar qualquer mulher para a Donzela Shu. Havia conflito em seus olhos — e ao mesmo tempo, um calor ardente.
Qualquer um podia ver que ele, que nunca mantivera ninguém além de Kou Reirin em sua mira, agora estava irremediavelmente atraído por Shu Keigetsu.
— Mesmo um cristal banhado a ouro não seria suficiente para honrar aquela apresentação. Prepararei outra recompensa para você depois. Por enquanto, aceite isto.
O que ele estendeu era nada menos que o leque que carregara consigo até aquele momento. Era incrustado de gemas e até ostentava um cordão de jade e pérolas. A multidão ofegou com a opulência do presente — e mais do que isso, com o fato de o príncipe ter oferecido um de seus pertences pessoais a outra mulher.
Isso era algo que só fora permitido a Kou Reirin.
— Não me entenda mal. Ofereço isto como recompensa por sua dança, não por você...
— Entendo. Estou radiante de alegria por receber a gentileza de Sua Alteza, ofereço meus humildes agradecimentos por esta oferenda e me esforçarei para dar o meu melhor daqui em diante, e agora que aceitei minha recompensa, posso por favor voltar à minha conversa anterior?
A receptora do presente, enquanto isso, despejou seus agradecimentos tão rápido que só podia ser descrito como protocolar, e então direcionou a conversa de volta ao tópico original.
— Agora então, Dama Seika. Receio não poder tolerar o comentário de sua seda-marfim sobre...
— E- espera! Sua Alteza foi tão generoso...
Os olhos de Seika se moviam em perplexidade. Este era o favor de Gyoumei, que qualquer Donzela sonharia em receber. E ela o tratava como se fosse um prêmio de consolação de uma toalha de mão?
Gyoumei não estava menos atônito. Quando Shin-u notou a reação de seu meio-irmão, virou o rosto para esconder o riso que se aproximava. Bunkou e o resto dos eunucos observaram horrorizados enquanto seu capitão contraía os lábios numa linha fina, seus ombros tremendo de alegria.
Todo aquele aposento fora lançado no caos.
— Para começar, até que ponto você mantém controle sobre suas damas da corte? Houve alguém que alegou ter tido seu grampo de cabelo ornamental roubado pelo clã Shu cerca de três dias atrás? Se houve, por favor, diga-me suas características distintivas, origem e comida menos favorita agora mes...
— V- você poderia se afastar um pouco, por favor?! Esqueça isso! Vá aceitar a oferenda de Sua Alteza! Isso é além de insultuoso!
— O que me preocupa no momento é o insulto de antes. Ouça aqui, Dama Seika: "Primeiro a entrar, primeiro a sair" é um dos princípios básicos do armazenamento seguro de alimentos. Devemos primeiro esclarecer o assunto em mãos antes de passarmos para outra coisa.
— O que armazenamento de alimentos tem a ver com isso? Ah, pelo amor dos céus — tudo bem! Já chega! Peço desculpas pelo que minha dama da corte disse antes! — Seika quase gritou, a primeira do par a ceder. Artista ou não, ela tinha senso comum demais para deixar o príncipe paralisado pendurado. — Sua atendente é uma mulher maravilhosa de beleza e talento! Pronto! Feliz agora?
— Já que está nisso, poderia chamar uma seda-marfim chamada Gayou aqui?
— Quem? Gayou? — Seika respondeu, recuando da garota que pegara sua concessão e continuara pressionando. No entanto, seu rosto estava cheio de genuína confusão. — Não temos uma seda-marfim chamada Gayou.
— Hein...?
Shu Keigetsu parou exatamente onde estava inclinada para o espaço pessoal de Seika.
O que está acontecendo aqui? Reirin se perguntou, perplexa. Não havia como Leelee ter mentido para ela. A mulher usara um nome falso, talvez?
— Então... houve uma dama da corte que alegou ter seu grampo de cabelo ornamental roubado cerca de três dias atrás?
— Três dias atrás? Houve alguém que fez um escândalo sobre como alguém poderia ter roubado seu grampo de cabelo perdido, mas isso foi há quase um mês.
— O quê?
Algo estava errado aqui.
No entanto, uma voz feminina interrompeu sua conversa antes que ela pudesse começar a fazer perguntas.
— Olhem! Há uma dama da corte Kou vindo nesta direção! O que pode ser?
Foi a Nobre Consorte Shu quem falara. Ao desviar o olhar em desconforto, avistara alguém correndo em direção ao aposento.
— Peço desculpas por perturbar uma cerimônia tão solene! Tenho uma mensagem urgente para Sua Majestade a Imperatriz!
A chefe das damas da corte do clã Kou — Tousetsu — logo chegou ao aposento e ajoelhou-se na entrada. Seus ombros arfavam com o esforço de sua respiração, e sua testa estava coberta de suor.
— Sua Majestade, por favor, retorne ao Palácio do Qilin Dourado imediatamente! Nossa Donzela... a Dama Reirin está em grande agonia!
— O quê? — gritou Gyoumei, afastando sua mãe para responder à notícia sinistra.
Uma quantidade incomum de pânico mostrando-se em seu rosto, Tousetsu respondeu com uma voz trêmula:
— Sua febre... não passa. Sua pele está queimando como nunca antes. Ela entrou num estupor de alucinações, e momentos atrás até começou a ter convulsões. Chamamos o boticário, mas nenhum remédio parece funcionar. Por mais doente que a Dama Reirin seja, nunca vi nada assim. Nesse ritmo... Nesse ritmo...!
Tousetsu engasgou com suas palavras. A multidão se agitou com as implicações sinistras de sua frase inacabada.
— Silêncio — veio a voz autoritária de uma mulher.
Quem arrancou um suspiro da multidão e assumiu o comando imediato do clima foi a própria Imperatriz Kou Kenshuu.
Kenshuu se levantou de seu assento, ajustando a pesada bainha de sua vestimenta.
— Entendo a situação. Mas, Tousetsu? Deixar sua angústia transparecer é indigno da líder das gamboge-ouro — ela repreendeu a dama da corte numa voz digna, um tanto grave para uma mulher. — Apesar das aparências, Reirin é uma garota obstinada. Sem dúvida, está dando tudo de si para enfrentar o que a aflige. De que adiantam seus esforços se aqueles ao seu redor desmoronam?
— Mas, Sua Majestade... Isso parece diferente do normal! — Tousetsu argumentou de volta, medo em seus olhos. — Receio que a Dama Reirin possa não sobreviver à...
— Por uma questão de argumentação — cortou Kenshuu — se aquela minha amada sobrinha não conseguir sobreviver à noite, então tomarei isso como o Mandato do Céu .
— Sua Majestade!
— No entanto, se ela deseja lutar contra seu destino e viver para ver o amanhã, não devemos poupar esforços para ajudá-la nesse empreendimento. Você me entende, Tousetsu? Mantenha-se firme e faça tudo o que puder.
Kenshuu virou-se sobre o calcanhar e se apressou em sair do aposento. Ela parecia determinada a desertar da cerimônia para voltar ao Palácio do Qilin Dourado. Gyoumei foi rápido em segui-la.
— Kin Seika — chamou ele — esta foi uma cerimônia magnífica. Desculpe-nos por nossa partida prematura.
— Fico honrada em ouvir isso — veio a resposta atônita da Donzela enquanto ela lutava para processar aquela reviravolta repentina.
No entanto, outra pessoa chamou Kenshuu para parar bem quando ela estava prestes a sair.
— Por favor, espere, Sua Majestade! Sua Alteza!
Era ninguém menos que Shu Keigetsu.
Ela ajoelhou-se rapidamente sobre o palco e então lançou um olhar penetrante através de Kenshuu e Gyoumei.
— Suplico-lhes, permitam-me acompanhá-los ao Palácio do Qilin Dourado.
— Como?
— Conheço os meandros de cuidar de doentes. Tenho certeza de que poderei curar sua doença.
— Ridículo — Kenshuu prontamente descartou seu apelo sincero. Seu rosto imponente se contorceu em desagrado. — Você acha que sabe mais do que um boticário? Por favor. A única pessoa que conheço que estaria qualificada para fazer uma afirmação tão arrogante é a própria Reirin.
— E eu estou dizendo...
— Conheça seu lugar, Shu Keigetsu — Gyoumei silenciou a Donzela enquanto ela se lançava em direção ao par com um olhar de determinação sombria. — Ouça isto: o Julgamento do Leão pode tê-la absolvido de seus crimes, mas todos aqui sabem que você pretendia matar Reirin. Você acha que eu permitiria que você se aproximasse de seu leito de doente?!
Sua voz outrora firme e rígida perdera qualquer semblante de controle. Isso provava o quão angustiado ele estava. Nenhum homem podia permanecer calmo quando estava prestes a perder sua amada. Em contraste com sua mãe, que se mantinha firme como a terra, o sangue Gen que ele herdara de seu pai estava se agitando com força suficiente para varrer a barragem de seu coração.
Ele se arrependia profundamente dos acontecimentos dos últimos minutos. Reirin era a única que ele jamais permitira entrar em seu coração. Não importava o custo, ele jurara amá-la apenas a ela — a adorável borboleta que os próprios céus lhe concederam.
No entanto, não apenas duvidei dela, como me permiti ser cativado por outra mulher, nem que fosse por um momento. Foi isso que levou a isso.
Essa era a razão pela qual os céus agora tramavam tirar Reirin dele.
A culpa subconsciente que ele sentia por ter se apaixonado pela dança de Shu Keigetsu se transformara num arrependimento feroz e despeito que ameaçava consumi-lo por inteiro.
— Está me ouvindo? Nunca mais ponha os pés perto do Palácio Kou. Protegeremos Reirin, seja da doença ou de ameaças físicas.
— O senhor está errado, Sua Alteza! Não quero fazer mal a ela. Suplico, por favor, acredite em mim! Juro pelo que for preciso. Apenas me leve a sério!
A mesma Shu Keigetsu que nem implorara por sua vida antes do Julgamento do Leão agora estava ficando vermelha no rosto com o esforço de seus apelos.
Gyoumei franziu o cenho.
— Por que você está tão desesperada para salvar a vida de Reirin? Você nunca fez nada além de invejá-la, lançando-lhe olhares malévolos dia após dia.
— Hein?! Eu fiz isso?!
— O quê? — Seu cenho se aprofundou ainda mais com sua resposta inexplicável.
— Quer dizer, não! — Ela se apressou em se corrigir, balançando a cabeça. — O senhor tem razão. Eu nunca conseguia tirar os olhos dela. Lembro-me agora. Mas isso não foi por malícia! A verdade é que eu, hum... gostava dela? Sim!
— Por que você está ficando envergonhada com isso? — Ele estava tendo dificuldade em definir o caráter de Shu Keigetsu. Apesar de sua confusão persistente, Gyoumei determinou que não tinha tempo para isso e se virou para ir.
Foi nesse ponto que a garota se levantou e correu atrás dele.
— Por favor! Trate isso como minha recompensa pela dança que acabei de apresentar. Quero o direito de cuidar dela mais do que quaisquer cristais ou ourivesaria!
— Já chega! — rugiu Gyoumei, afastando a mão dela enquanto ela tentava agarrar sua túnica. — Eu já disse que não posso confiar em você!
O ar vibrou com a força de sua voz. Seu qi de dragão escorria de seus traços fortes, fazendo grande parte da multidão instintivamente recuar de joelhos.
No entanto, Shu Keigetsu não recuou. Com as costas retas como uma vara, ela se virou para encarar Gyoumei.
— Suplico-lhe. É precisamente porque a coloquei nessa situação que devo ser eu a salvá-la.
— Muito bem.
Aquele que quebrou o impasse foi Kenshuu.
Seu filho se virou em surpresa, ao que ela respondeu com um erguer de sobrancelha. Parecia mais a troca entre dois oficiais militares do que entre mãe e filho.
— Shu Keigetsu. Se você está tão determinada, concederei sua chance.
— Sua Majestade! Muito obriga...
— No entanto, é verdade que ninguém no Palácio Kou confiaria em você depois da maneira como insultou minha amada Reirin. Portanto, não é uma chance de tratá-la que lhe ofereço, mas uma chance de ganhar nossa confiança.
— Hein...?
Kenshuu ergueu o canto da boca num sorriso de escárnio quando viu a confusão nadando nos olhos da Donzela. Ela então chamou Shin-u.
— Capitão. Traga-me o Arco do Afastamento.
— O quê? — Shin-u fez um olhar de dúvida.
Ele, no entanto, seguiu suas ordens, apresentando a ela o arco sagrado adornado com um fio de cinco cores. Kenshuu o pegou e o entregou a Shu Keigetsu.
— Você deve armar este arco. Por uma noite inteira.
— Hein?
— Diz-se que o Arco do Afastamento afugenta doenças com o som de suas vibrações — e as exorciza com o som de uma flecha atingindo seu alvo. Se você puder armar este arco a noite toda enquanto reza pela recuperação de Reirin, reconhecerei que não quer fazer mal a ela e permitirei que atenda seu leito de doente.
Era a própria estratégia Kou de determinar a verdadeira natureza de alguém através de sua fibra.
— Espere, Sua Majestade. — Surpreendentemente, Shin-u interveio para objetar. — O Arco do Afastamento é tão pesado que mesmo a maioria dos homens teria dificuldade em armá-lo. Além disso, como um tesouro sagrado que há muito está sob custódia de Sua Majestade o Imperador — isto é, do clã Gen — possui uma forte aura de água. Uma Donzela do clã sob o patrocínio do fogo não é adequada para manejá-lo.
Kenshuu descartou suas preocupações.
— Mais razão ainda para isso. Um teste para medir sua sinceridade dificilmente poderia ser fácil, agora poderia?
— Mas, ah... Se ela vai passar a noite toda armando-o, sua oferta original de ajuda pode não servir para nada.
— Você não me ouviu antes? Se for o que acontecer, então esse foi o Mandato do Céu. Quaisquer refutações adicionais serão consideradas um excesso de limites, Capitão. — A imperatriz encerrou o argumento do guarda e então lançou um olhar penetrante para Shu Keigetsu. — Você difamou minha adorável Reirin num acesso de ciúmes mal colocados. Não pense que a perdoei também. Se isso não passa de um ardil para ostentar sua virtude superficial, é melhor que você se prostre no chão e comece a pedir desculpas.
Quando se tratava disso, ela era mais uma alma que ardia de ódio por Shu Keigetsu.
Kenshuu então se virou para sair de uma vez por todas e saiu do aposento. Gyoumei seguiu de perto. Apenas a multidão estupefata foi deixada para trás no átrio.
Um olhar na direção de Shu Keigetsu mostrava-a cabisbaixa em silêncio, o arco firmemente puxado ainda apertado em suas mãos. Imaginando que as palavras a tivessem falhado depois daquela repreensão, Leelee lançou um olhar de compaixão em sua direção.
Shin-u caminhou até ela.
— Shu Keigetsu. Essa foi uma maneira indireta de dizer para você se manter discreta. Há pouco a ganhar em se esforçar por Kou Reirin agora...
— Hee hee...
De repente, ela soltou uma risada suave.
Os olhos do capitão se arregalaram.
— Shu Keigetsu?
— Ela quer que eu arme um arco. Por uma noite inteira. Hee hee... Isso parece um desafio bastante recompensador. Não esperaria menos de Sua Majestade — murmurou ela, e então se virou para se dirigir à atendente ao seu lado. — É difícil não ficar impaciente, mas a imperatriz tem razão: ela ainda está se agarrando à vida. Não adianta se preocupar com algo que ainda não aconteceu. Sei que posso contar com ela para aguentar isso.
Ninguém tinha ideia do que ela estava falando. No entanto, Shin-u sabia de uma coisa com certeza: assim como durante o Julgamento do Leão, ela estava se aproximando daquele reino de iluminação que lhe dava um ar quase intimidante.
— Vamos fazer isso! É hora de algumas flechas a noite toda!
Com os olhos brilhando de estrelas, a garota com o rosto de Shu Keigetsu cerrou as mãos em punhos determinados.
Traduzido por Moonlight Valley
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