Único; não toque
Único; não toque
Todos os dias, os portões do jardim botânico se abrem no mesmo horário.
Eu gosto de observar as pessoas antes mesmo que elas me encontrem. Crianças correm sem destino, casais discutem qual flor é a mais bonita, fotógrafos procuram as cores mais vibrantes; todos chegam com os olhos cheios de curiosidade.
Porém, quase ninguém chega até mim e não é difícil de entender o motivo.
Do lado de fora do meu canteiro existe uma pequena placa. Ela não fala sobre minhas flores em forma de sinos, nem sobre o perfume doce que o vento insiste em carregar pelos caminhos do jardim; não menciona que floresço quando a primavera desperta ou que até a chuva parece cair com mais cuidado sobre minhas pétalas.
Ela diz apenas:
"Planta tóxica. Não toque"
É curioso como algumas palavras conseguem contar tão pouco e, ainda assim, convencer tanta gente de que já sabem tudo.
Alguns visitantes lêem a placa e desviam o caminho, outros me olham de longe, como quem teme que o perigo atravesse o ar. Há até quem faça uma careta antes de ir admirar as rosas, as margaridas ou qualquer outra flor que pareça mais segura.
Às vezes penso que, se eu pudesse arrancar aquela placa da terra, faria isso sem hesitar, mas depois lembro que ela não está errada.
Eu realmente sou tóxica.
E talvez seja justamente por isso que doa tanto perceber que ninguém parece interessado em descobrir se existe algo em mim além desse aviso.
Até que, de vez em quando, alguém para; não por coragem, mas por curiosidade.
Lê cada palavra da placa, sorri de um jeito tranquilo e permanece ali, em silêncio. Não tenta me tocar. Não desafia o perigo. Apenas me observa como quem compreende que respeitar a distância não impede a admiração.
Nesses instantes, sinto que finalmente fui vista, não apenas pelo aviso, mas junto dele.
Talvez todos carreguem uma placa invisível. Algumas podem dizer: "difícil", "estranho", "sensível demais", "complicado". Outras nem precisam de palavras; basta um olhar apressado para que sejam escritas por alguém.
As pessoas acreditam nelas com uma facilidade impressionante e seguem caminhando, enquanto isso, continuo aqui, florescendo em silêncio. Não para convencer ninguém de que sou inofensiva, porque não sou. Nem para implorar que permaneçam.
Floresço apenas com a esperança de que, um dia, alguém compreenda que uma placa pode alertar sobre um perigo, mas nunca será capaz de contar a história inteira de uma flor.