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Capítulo 105 – Puro e Impuro

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Capítulo 105 – Puro e Impuro

A claridade, amenizada no fechar das pálpebras, deixa de existir noutro segundo. O ambiente fresco da quase noite é substituído por um calor agradável como estar debaixo de algumas cobertas durante o inverno.

Os olhos dourados fisgam o novo local de lá para cá, notando as mobílias rústicas pedregosas polidas, os suportes de madeira esbranquiçada e os incontáveis cubos de vidro inertes sobre as prateleiras, aprisionando desde insetos à pura energia ainda latente.

“Esse é um lugar de pesquisa? Já tinha visto o quarto do Kimich e do Tejin no vilarejo… mas esse é de outro nível.” 一 a quantidade de coisas dispostas para averiguar deixam os dedos de Raisel loucos para tocar.

一 Não… toque em nada, por favor. 一 a voz da elfa de cabelo azul desbotado ganha mais volume e sua postura deixa de timidez.

一 Ah, foi mal… E o que vamos fazer aqui? “Ela parou de se sentir envergonhada?” 一 a mão esquerda afaga a nuca algumas vezes.

一 Vou pegar uma amostra do seu Gewissen. Nunca vimos um humano com Gluhen puro. 一 a mulher se aproxima de uma bancada e envolve as palmas por luvas brancas retiradas de dentro do seu traje.

Ao vesti-las, Ferihylis encosta as mãos sobre o balcão e pinça placas de vidro enfileiradas como louça com a ponta dos dedos. De alguma forma, essas vidraças flutuam e se encaixam formando um cubo transparente após serem puxadas.

一 O senhor Azlam disse a mesma coisa quando me conheceu. A luz do Gewissen é tão importante pra vocês? 一 ele cruza os braços e sorri com todo o rosto, incluindo os olhos bem fechados.

Contudo, a elfa o observa de soslaio com uma feição carrancuda.

一 Não faça tantas perguntas. O único motivo de não termos aprisionado você é justamente por conta do Sábio. 一 Feri se vira aos poucos enquanto amarra parte do cabelo em um coque ao manter a caixa de vidro flutuando.

Raisel a vê em silêncio, respira fundo e acaba gesticulando com os ombros junto de um balançar da cabeça.

一 Eu não fiz nada de errado aqui. Eu até ajudei contra as pessoas que estavam invadindo. Então por que essa hostilidade?  一 o cenho se une com o descontentamento.

Eles trocam olhares e ela o deixa sem a resposta desejada. Pelo seu olhar, o garoto pode entender que só dela estar interagindo com ele, seu corpo está tomado por desgosto e… nojo.

一 Emita sua energia em forma de esfera. Quanto antes acabarmos com isso, será melhor para nós dois… 一 as mãos se aproximam dos flancos do cubo.

一 Certo…

O peito murcha e a palma é colocada para cima e estendida à frente. As manoplas negras ressoam com o véu dourado envolvendo o seu corpo e, consequentemente, sendo concentrado de forma sutil em forma de orbe logo acima da mão.

Nesse instante, as orelhas da elfa se movem junto dos seus olhos, brevemente arregalados por debaixo da franja que os cobre. O cubo recém-montado se desfaz e suas partes são reunidas tal qual uma gaiola ao redor da esfera.

A sensação que domina o corpo do garoto é como a de ter algo desconectado, algo que acaba de perder de si mesmo. Mas, a verdadeira surpresa acontece quando o vidro toma uma cor púrpura vibrante.

一 Droga…! Se protege! 一 Feri ejeta o cubo para longe e, consequentemente, emana seu Gewissen rosado para proteger a área.

Entretanto, Raisel apenas permanece imóvel. A energia contida na forma geométrica se expande bruscamente, reduzindo a prisão de vidro à cacos que voam para todas as direções do laboratório. Nesse meio segundo, o clarão áureo se transforma em um círculo mágico com incontáveis setas apontadas para o seu centro.

“Comprima.” 一 a palma de Raisel transmite a ordem de sua consciência e, portanto, parte dos estilhaços voltam para o seu ponto de origem; desaparecendo como uma implosão.

O dano parcialmente contido ainda causa arranhões e destruição nos arredores.

“É, usar Kern conscientemente é bem complicado… Preciso de mais prática. Três dias não foram o suficiente e olha que o senhor Azlam usa Wunch com tanta naturalidade…” 一 olhando a própria mão abrindo e fechando, acaba por se contentar com a sua falta de maestria.

Por trás de uma bancada, as pontas das orelhas de Ferihylis mapeiam a sala. Encolhida, ela toca com as costas contra a mobília e começa a roer as unhas.

“Eu tenho certeza do que eu vi! Aquele menino usou Formel! É um Rascunho básico, mas ainda é Formel! Como um humano conseguiu dominar isso?! O nosso domínio hereditário caiu nas mãos da humanidade?! Por que os outros que tentamos ensinar não aprenderam?! Tem relação com a pureza do Gluhen…?!” 一 e os pensamentos altamente acelerados continuam um após o outro.

一 Acabamos? 一 inclinando-se na beirada do balcão, o rosto de Raisel surge como um fantasma de frente para a garota.

一 KKKUAAAA!

No reflexo, ela empurra o ar com um Rascunho e retira alguns fios de cabelo do menino no processo. A parede de energia atinge o teto com potência o suficiente para se assemelhar com uma explosão.

Conseguindo se safar por pouco, ele cai sentado sobre o chão.

一 VOCÊ QUER ME MATAR?! 一 esbraveja ainda sem força nas pernas.

一 D-DESCULPA! EU ESQUECI QUE VOCÊ ESTAVA AI! 一 choramingando, a bronca de outras pessoas ainda a deixa tão vulnerável quanto estar à luz do dia.

一 “Feri! O que houve?!” 一 uma mensagem ressoa no cômodo inteiro sob a voz de Hestásia.

一 O-Os cubos de Lila Stein não conseguiram conter uma amostra da energia dele, senhorita! O que vamos fazer?! 一 levantando-se enquanto encara o céu, Ferihylis mantém as mãos sobrepostas contra o peitoral.

Sem nenhuma resposta imediata, o garoto se ergue pouco depois.

一 “Libere-o. Em poucos minutos eu estou aí. Quero ouvir seu relatório detalhado.” 一 no fim, até mesmo um suspiro pôde ser repassado através de sua telepatia energética.

Raisel observa Feri com os olhos de quem não está entendendo absolutamente nada. Por outro lado, a jovem o vê com o receio de quem teme o desconhecido em potencial.

Com a palma trêmula, acaba por tocar a parede esbranquiçada do cômodo; abrindo uma fissura brilhante para que ele pudesse passar.

一 Pode… ir… 一 a postura envergonhada retorna misteriosamente.

“Francamente… Todos os Elfos Puros são assim? Eu esperava gente mais controlada do que os humanos ou os meio-elfos.” 一 os olhos reviram enquanto é acolhido pela luz branca.

Do lado de fora, o frio da noite não o abraça, mas o sequestra. Todo o acolhimento dentro das quatro paredes desaparece no mesmo instante em que respira. Sob a ventania no alto do Campanário, Raisel se aproxima da borda ao contemplar o horizonte estrelado.

“Isso é algo raro… mesmo no vilarejo, eu vi poucas vezes o céu repleto de constelações assim.” 一 ele não nota o que está abaixo, mas sim, segue fissurado no que ainda está acima.

“Quantas vezes o vovô… ou a Ema viram isso?” 一 o buraco em seu peito não dói tanto quanto antes, mas incomoda pelo vazio.

“Tantas coisas aconteceram e, no fim das contas, eu realmente estou viajando por Wynward… só que não parece e não é como eu imaginava.~” 一 refletindo sobre tudo, acaba por sentar-se sobre o gramado aos risos contidos.

“A torre da biblioteca em Fyodor disse que a conclusão de tudo é a morte, mas nada parece resolvido para quem ainda está vivo… Talvez esse seja o preço por não ter seguido o destino que elas tinham pra mim. Esse é o preço de estar vivo?” 一 usando os joelhos como almofada, os olhos fitam o céu estrelado e repletos de cores.