Capítulo 118 – Tocas de Coelho
Capítulo 118 – Tocas de Coelho
A audição não responde como deveria. A sua própria voz ensurdece os arredores enquanto um tinindo o impede de ouvir qualquer outra coisa. O corpo se move no reflexo dos pensamentos, guiando o Ptactvo através da única rédea agarrada sobre a palma.
“Merda, não imaginamos que Malydanu reagiria assim. Ela identificou a natureza da energia do Raisel, mas não a sua raça? Por que? Desde quando ela tem essa função? Sempre que viemos com um mestiço, ela só confirmava a sua identidade. Espera… Alguns dias atrás o Kral veio até aqui recepcionar alguém ele mesmo até a Primeira Camada e o Palácio. Nós tínhamos sido instruídos a apenas acompanhá-los sem outras interações… mas eu tenho certeza de que aquela humana não era alguém normal… Sua energia era como–”
Ouvindo alguém chamá-lo como se estivesse escapando um som embaixo d’água, o elfo ergue o semblante e, posteriormente, olha de soslaio para trás.
一 Zairom! Zairom! Ei, tá tudo bem? Se estiver passando mal, a gente para um pouco… 一 Raisel corre levemente até o lado do companheiro.
一 Perdão… fiquei imerso nos meus pensamentos 一 diz enquanto uma das mãos sobe até a testa e um suspiro escapa de seus lábios.
一 O Imperador vai me encontrar agora? Ter Beisen e Gluhen Puros parece… bem importante, né?– 一 força uma risada sutil conforme o dedo direito coça a lateral da bochecha, mas Zairom o responde de imediato, quase o cortando.
一 É crucial. Ter Gluhen Puro significa ser genuinamente bondoso e, para o Beisen, é o contrário. São estados da origem do Gewissen, é muito raro ao ponto de nunca termos conhecido alguém como você 一 os olhos do elfo se abrem, expondo os círculos mágicos e runas gravadas diretamente em suas íris.
一 Mas… por que vocês são tão obcecados pela pureza da energia? 一 o semblante de Raisel se comprime enquanto a cabeça chacoalha levemente.
A resposta não vem de imediato. O rapaz de orelhas pontudas encara o horizonte, o céu e depois acaba novamente sobre o garoto.
一 Você confiaria em alguém que tem a Consciência manchada em maldade? Quem cultua Beisen ou as Estrelas Escuras são mais perigosos do que monstros. É a perversidade racional, Raisel… 一 o olhar dele afia-se sobre o centro do abdômen do humano 一 A propósito, o quanto você consegue controlar das suas Trevas?
Na troca de olhares, o garoto percebe que Zairom não está o enxergando de verdade. Ele respira fundo e desvia o olhar enquanto aperta os lábios.
一 Quase nada, mas consigo restringir ele por completo… 一 a atenção volta para o companheiro, mas as pálpebras sobem junto com as sobrancelhas.
O elfo que nunca demonstrou antipatia até aqui, esboça uma expressão totalmente diferente da leveza anterior. Melancolia? Tristeza? Raiva? Raisel não consegue distinguir essa mistura e, ainda com a vista paralisada, Zairom acelera o passo.
一 Vamos… Vou levá-lo até a Casa Thinkanin e, respondendo sua pergunta, o Kral não encontrará você de imediato. A informação precisa chegar ao Portão de Acesso da Primeira Camada e, depois, ir até o Palácio… Pode demorar algumas semanas, já que a densidade energética sobe drasticamente quanto mais próximo do centro de Roderich 一 a caminhada cessa ao montar novamente no Ptactvo e a alcançar os céus através do seu salto.
Ainda com as mãos com parte da força reduzida, o garoto faz o mesmo e continua a acompanhá-lo. Mas, diferente de horas atrás, o clima está… pesado.
…
Sobrevoando a área da Segunda Camada em direção à Casa Thinkanin, Raisel tenta absorver o máximo de informações ao observar a paisagem.
“O matagal aqui é menos denso do que na Terceira Camada… Existem muito mais animais, mas nenhum que eu saiba o nome. Estamos seguindo rumo ao nordeste, então pode ser que outras regiões sejam diferentes… Os gigantes de raízes não são hostis, eles só caminham e vagam por aí… Aquilo é um coelho com roupas? Devem ser parte dos Ferais que o Zairom falou antes… A Casa Thinkanin…!”
Conforme os pensamentos foram passando junto do tempo, o objetivo fica à vista. Uma enorme construção digna de um castelo nobre como aqueles no Centro Comercial de Balmund, mas cercado por um jardim de tulipas brancas e uma arquitetura completamente nova. Seu formato é como o de uma cabana de pedras lisas e claras, mas existem túneis e corredores parcialmente cobertos para todas as direções. É como um grande vilarejo, onde a construção central é o coração de tudo.
O elfo começa a descer e pousa com segurança. Ao desmontar do pássaro, ele dá dois tapas sobre a asa da montaria que, na sequência, corre para uma direção.
Com o aroma picante e doce que ronda a região, Raisel dispensa o pássaro e caminha logo atrás de sua escolta.
Algumas mulheres e homens colhem as pétalas em um cesto de palha. Outros regam o lindo jardim. A semelhança física entre eles é nítida pelos cabelos brancos, mas ao contrário de todos eles, Zairom tinha pontas amarelas… O que isso significa? Com curiosidade, o garoto murcha sem conseguir questioná-lo. Contudo, os olhares dos outros elfos puros em direção à eles, é de desconfiança…
“Ele tinha dito que foi penalizado e mandado pro Terceiro Campanário como forma de penitência… Mas não imaginei que seria tão hostilizado.” 一 encarando os arredores de soslaio, aqui os ventos são bem sutis e agradáveis.
Em alguns instantes de caminhada, eles entram no casarão e se deparam com um grande salão. No fundo desse emaranhado entre natureza e luxo, uma mulher de cabelos brancos ondulados os encara diretamente. Ao redor de sua cabeça, estão ramos dourados como uma coroa.
一 Minhas saudações, Matriarca 一 o elfo adiante inclina o torso para frente, com os pés unidos e a mão destra sobre o peito esquerdo.
一 Prevejo que é um candidato ao teste de Licença, sim? 一 sua voz permeia os arredores em um tom frio, mas açucarado como mel. Ao olhar para Zairom, seu rosto sorri com certa… saudade.