Capítulo 121 – Contemplação
Capítulo 121 – Contemplação
As janelas não vibram mais com a brisa da tarde. A chegada do anoitecer acalma os ventos e, como consequência, os corações pulsantes daqueles que vivem. Mas, na surdina da madrugada, as luzes de velas aromáticas preenchem parte do pátio e os arredores do salão central da Casa Thinkanin.
A comoção silenciosa, mas presente, de cada um daqueles elfos de cabelo branco, deixa Raisel em alerta na penumbra de seu quarto. A espada, antes apoiada na lateral do balcão, repousa em sua palma pronta para ser sacada.
Mais no canto do cômodo sobre o sofá, Thamina se levanta envolvendo-se em mais alguns panos e, principalmente, cobrindo-se com parte do seu Gewissen verde-ciano ao redor da pele.
一 É a hora da Rozjimani… Não precisa ficar tão alerta. Vem ver como é. 一 Cruzando os braços abaixo dos seios, a elfa caminha em direção a porta enquanto encara o menino de soslaio…
Naturalmente, o rapaz entorta o olhar sob a desconfiança em primeiro momento, mas passa a analisar o contexto e o sentimentalismo de Thamina, o que o leva a crer que não há mentira nas palavras dela.
Num suspiro, os ombros dele começam a relaxar.
Amarrando a espada na faixa da cintura após se levantar, sem as manoplas, Raisel segue por trás da elfa em direção à luz prateada e gélida da lua.
Imerso na paisagem, os olhos dourados de Raisel cintilam sobre a iluminação dividida entre o calor das velas e o brilho frígido dos céus. Seu corpo é naturalmente conduzido até o corrimão desse corredor, mas Thamina segue em frente ao saltar por cima da proteção.
“Eles estão se reunindo em filas no meio das tulipas?” 一 apoiando a mão sobre a madeira, ele olha para o lado ao ver alguém se aproximando.
一 Olá, eu vi o que você fez hoje mais cedo no Honicka. Meu nome é Umerina, prazer. 一 De cabelos curtos esbranquiçados, as orelhas dessa mulher de corpo esguio são ainda maiores do que a dos Thinkanin comuns, mas menores do que as de Azlam, Ferihylis e Layzef.
一 Raisel… 一 Sem dar muita simpatia, ele vira o rosto para observar aquele ritual.
A elfa, assim como Thamina, infla as bochechas ao ser ignorada dessa forma. Mas, no fim, salta o ar pela boca.
“Se ele já provou a Thamina, a mais bonita dos Thinkanin, eu não tenho nem chance…” 一 Está curioso com o Rozjimani? 一 ela deita os braços sobre a proteção ao lado dele.
Como resposta, o rapaz volta a encará-la de soslaio.
一 Cada uma das Quatro Casas segue uma filosofia de vida…. Nós seguimos o Stilte, a postura de observar, analisar e avaliar o mundo como admiradores dele, não como parte da sua engrenagem.
Os outros elfos enfileirados sobre os campos de tulipas viram-se para frente, encarando o horizonte. Todos cruzam os braços e, com a coluna ereta, passam a erguer suavemente a cabeça para cima, descê-la para baixo e a direcionar os seus olhos para cada coisa contida na paisagem daquela noite. O número de estrelas, de pétalas, de pessoas, o formato das nuvens e as cores do céu; tudo é gravado na memória deles através do Gewissen que os circunda.
一 Por escolher não nos intrometer nas coisas, ficamos com a responsabilidade de conceder a Licença de Viajante e cuidar da contabilização dos Favores 一 ela se alonga inteiramente usando o corrimão de apoio.
一 Favores? É a forma de moeda daqui? 一 Ouvindo sobre, rapidamente associa à imagem da garota com elmo esfarrapada que encontraram no caminho para o Portão de Acesso.
一 Ah, moeda… É, tipo isso. Dividimos os Favores como trocas, ajudas. Existem os Grandes Favores, uma dívida que tem um prazo para ser devolvido e os Favores Menores, cotidianos, que podem ser facilmente revertidos.
“Fazer algo bom e ajudar o próximo é… uma obrigação aqui…” 一 no primeiro momento, parece uma organização ótima de se viver, mas as sobrancelhas de Raisel franzidas esboçam um certo incômodo 一 E quem não faz o bem, ou não consegue devolver um Grande Favor?
Nesse instante, os olhos claros de Umerina passam a brilhar como a lua mórbida.
一 Essa pessoa não pode ser considerada um de nós, um Elfo Puro… Ela se torna uma Endividada, alguém incapaz de exercer Virtude. Pior do que um degenerado 一 o tom em riso contrasta com os olhos claros, mas completamente isentos de qualquer calor.
Vendo e ouvindo tudo o que precisa, Raisel dá meia-volta.
一 Obrigado, Umerina… Amanhã depois que eu conseguir a Licença, irei procurá-la para devolver esse Pequeno Favor. 一 Diferente dos olhos dela, a chama ardente sobre as íris douradas deixam consigo um rastro acidental do que sente ao entender como a sociedade dos Puros funciona.
Com o fechar da porta, os ombros da elfa pulam junto de suas orelhas pelo susto.
“Merda… Perdi minha chance de conseguir chantageá-lo… Tão intenso.” 一 as bochechas e as pontas das orelhas ruborizadas se unem com o aperto no coração palpitante.
…
Conforme as fumaças das velas sobem e as centelhas se apagam, o sol se desprende por entre as nuvens do horizonte. O céu escuro, aos poucos, torna-se azul durante a hora mágica.
Dentro do seu quarto, Raisel balança a espada verticalmente ao pará-la antes de concluir por completo o movimento. Os pés vão para frente e para trás, mas nunca saem do lugar. O suor escorre naturalmente enquanto o vácuo do movimento interrompido balança as janelas de papel.
“Não consegui dormir depois de acordar de madrugada… Quanto mais eu vejo dos Elfos Puros, mais eu perco as expectativas em ver algo justo. Eles tratam os humanos e mestiços como primatas, mas fora a pureza do brilho, qual é a diferença entre todos? Não consigo achar uma resposta por mais que eu pense.”
Os movimentos continuam implacáveis e o tom do dia clareia sem perceber.
Do lado de fora do quarto, alguém bate na porta de madeira. A voz familiar vem logo depois:
一 Está acordado, Raisel? É a Thamina, a Matriarca me mandou vir chamá-lo 一 a entonação abafada se perde em meio aos vácuos vindo do lado de dentro.
Não contendo a sua curiosidade, ela empurra a porta levemente e observa por entre a fresta. O cheiro de suor impregnado entre as paredes, escorrendo pelas costas definidas e respingando no assoalho amadeirado.
A bisbilhoteira arregala os olhos enquanto a única orelha visível balança fervorosamente ao ver tanta intensidade.
一 Poderia ter batido antes de entrar, Thamina… 一 ele desarma a postura e está a encarando de soslaio, mas a elfa ainda está vidrada em suas costas.
一 A-Ah! Eu bati, mas você não escutou…! A Matriarca me mandou chamá-lo… eu acho 一 enrolando uma das mechas do cabelo esbranquiçado com os dedos, ela desvia o olhar.
一 Quero tomar um banho antes. Tem algum lugar pra eu me lavar sozinho aqui? 一 o rapaz se vira enquanto seca a pele com um pano que encontrou em uma das gavetas.
Mas, observando-o de frente, as orelhas dela caem e as sobrancelhas sobem, completamente contraídas.
一 Essa sua cicatriz… que corta do seu ombro até a sua costela do outro lado… Onde você conseguiu? 一 apontando para a direção dela com o dedo trêmulo, Thamina quase cobre a boca com a outra mão.
Sem entender de primeira, Raisel olha para o próprio corpo antes de respondê-la:
一 Essa? Foi um dragão que eu encontrei já faz um mês, algo assim. Por que?
一 Nunca vi nada igual. A concentração de Gewissen nessa sua ferida é enorme… Dragão, nunca ouvi falar sobre isso antes 一 pensativa, toda a pose descontraída se perde entre os pensamentos.
Por outro lado, o garoto coça a bochecha ao perceber que esse seria mais um segredo que teria que ser guardado.
一 Você pode… não reportar isso pra Matriarca ou contar pra outra pessoa?
一 Por que? Essa cicatriz é algo que merece ser estudada de perto!
一 É exatamente por isso que você não pode contar! Mantenha segredo pra mim, por favor? Eu vou manter o segredo que você não conseguiu fazer nada comigo.
O queixo dela se ergue ao estar prestes à chorar, mas ela descarrega ao suspirar.
一 Tudo bem… Vou te mostrar onde você pode se lavar e irei avisar que você está se preparando para a Matriarca. 一 Ela leva alguns dedos até a testa, pensando nas possibilidades de evolução no estudo do Gewissen caso acessassem o que está contido ali.
Contudo, as memórias do dia passado voltam a sua mente após todo o ritual e o descanso até a manhã de agora.
“E-Ele me bateu, né? Preciso me gabar disso com as outras depois… Vou dizer o quão selvagem ele foi, hihi.” 一 se contorcendo em seus próprios braços, ela se inclina para frente.
一 Vai ficar para aí até quando, estranha? 一 já vestido com todo o seu equipamento e trajes, Raisel a encara fazendo esquisitice do lado de fora.
Um estalo percorre a mente dela e, portanto, corre até ele pouco depois.
一 Eu não sou estranha! Eu sou a mais linda–
一 Tá, tá… 一 diz enquanto coça a orelha com o dedo mindinho.
Thamina bate o pé contra o chão algumas vezes conforme as bochechas estão cheias. Dessa forma, resta pouco tempo até se despedir desse lugar vasto, bonito, mas tão… superficial.