Capítulo 130 – O Favor em Labbit (II)
Capítulo 130 – O Favor em Labbit (II)
O local em que se encontram é uma grande extensão subterrânea. Os tetos, chão e paredes cobertos por placas de pedra porosa polidas, o que faz com que o som mal se propague. Dessa forma, Damo e Raisel continuam em direção ao fim desse túnel enquanto passam por diversas ramificações laterais extensas até o fim dos olhos.
一 Então o que tem nas profundezas da Fonte Guinitta é um monstro? Se é tão horrível assim, deve ser… 一 Apesar de achar graça da situação, o rapaz mantém a mão esquerda sobre a guarda da espada.
一 Não se-sei te dizer se há um mo-monstro ou não… É pro-provável que sim, já que todos os Viajantes que vi-vieram não retornara-ram. Estamos q-quase chegando, é depois daquela porta. 一 Acelerando o ritmo dos saltos, o coelho para em frente à entrada do local.
Logo atrás dele, o garoto nota diversas correntes repletas de runas espalhadas por toda a porta. No centro, há uma espécie de cadeado circular com espaço de uma moeda para o encaixe.
Pondo os dedos no bigode como uma pinça, Damo retira uma jóia verde reluzente e a encaixa sobre o amuleto. O brilho esmeraldino alastra-se pelas runas das correntes e, noutro instante, elas se encolhem rumo ao centro e deixam a passagem livre para o acesso.
一 Esse f-foi um Lacrador que o K-Kral nos deu. A própria Anastásia em pessoa trouxe… 一 Damo apanha o artefato firmemente e o deixa escorado no peito.
一 Anastásia? 一 de soslaio, Raisel acompanha o coelho que estende a outra mão até a porta.
一 Sim… Ela serve di-diretamente o Kral atuando como sua br-braço-direito e ela também é quem comanda os A-Algozes… 一 empurrando a entrada o suficiente para eles entrarem, o senhor libera o caminho para o Viajante.
“Esse nome soa familiar, mas não deve ter nada a ver com a Hestásia…” 一 Esses pensamentos desaparecem no mesmo instante em que o ar da região muda.
O vácuo recém-aberto puxa partículas vermelhas que formam algo semelhante a um miasma carmesim. Mas, ao sentir aquilo, os olhos de Raisel se abrem por já ter sentido algo assim. Cobrindo o rosto com o braço, ele entra na frente do coelho e eleva seu Gewissen atuando como uma barreira.
一 O-Obrigado… 一 as orelhas baixas voltam a subir 一 da última vez não e-estava tão intenso. Tome c-cuidado. Vou terminar d-de te expli-plicar–
一 Valeu, mas não precisa. É melhor você fechar a porta o quanto antes, senhor Damo… Se isso chegar até a superfície, pode ficar perigoso. 一 Virando-se para trás, o rapaz empurra devagarinho o coelho pelo peito.
一 C-Certo… 一 as orelhas dele voltam a abaixar-se.
Os seus olhares se cruzam pela última vez antes do Feral idoso puxar a porta para lacrá-la. No intuito de confortá-lo, Raisel acena com um sorriso no rosto.
一 Eu vou resolver esse problema pra vocês. Fica tranquilo. 一 O rosto do garoto desaparece conforme a fresta é totalmente vedada.
“Foi exatamente o que todos os outros disseram…” 一 do outro lado da porta, Damo ergue o rosto para segurar as lágrimas.
Já dentro do ambiente contaminado pelas partículas vermelhas, o garoto mantém a cabeça e se vira com os olhos afiados tal qual lâminas. Sob o cintilar dourado de suas íris, não resta dúvidas do que é aquilo.
“É um Inferno. Houve um descontrole de Beisen aqui. O odor metálico é tão forte que me causou náusea… só pode ser outro genocídio. Muito maior do que o de Kromslaing.” 一 engolindo as suas hesitações, ele puxa a gola estendida de sua veste para cobrir a parte de baixo do rosto.
Partindo em caminhada, o acabamento de pedra porosa fica para trás. Agora, musgo e rochas ainda mais antigas aparecem regularmente em entalhes pelas paredes. As figuras humanoides formam filas de pessoas correndo à esquerda e em reverência à direita. Em cima de todos eles, um único olho gigantesco os observa.
Infelizmente, as lâmpadas de borboletas brilhantes estão apagadas e destruídas adiante.
“O vidro não aguentou a densidade do ar. É melhor eu me cobrir com energia…” 一 e assim o corpo de Raisel passa a ser orbitado pelo seu véu dourado.
A luz fornece claridade o suficiente para ver os arredores, mas, por via das dúvidas, ele expande o Gewissen em espinhos ao redor de si; servindo como uma espécie de Área de Ação.
“É uma área antiga demais… Os dez anos corrompidos de Kromslaing parecem brincadeira em comparação a isso. Mas… o que aconteceu? Será esse o motivo dos Elfos Puros detestarem e rejeitarem as Trevas? Seja lá o que for, o mais importante é terminar isso em um dia…” 一 No fim, ele para de frente para a vasta paisagem.
Sobre a neblina carmesim, um oceano de muco sanguíneo borbulhante encobre um grandioso altar. Subindo pelas pilastras cilíndricas dessa estrutura, a aglomeração da gosma se molda em raízes de carne pútridas, mas pulsantes.
“Damo disse que eles abriram um buraco… Preciso fechar a fonte que está trazendo essa corrupção.” 一 estabelecendo o seu objetivo enquanto saca a espada, Raisel desliza sobre o assoalho inclinado e cai suavemente em terra firme.
Olhando para os arredores, por mais que obscurecidos pela névoa, ainda é possível enxergar algumas marcas interessantes pelo chão. Muitas delas crateras artificiais e rupturas destruindo as ruínas.
Usando os destroços como superfície para atravessar as poças de muco sanguíneo, ele se ilha numa porção de terra firme.
“Não tem caminho feito… mas o pior de tudo é que não tem cadáveres. Se houve dezenove antes de mim, onde eles estão?” 一 Nesse instante, todo o seu corpo começa a formigar.