Capítulo 139 – Intuição contra Consciência
Capítulo 139 – Intuição contra Consciência
Do lado de fora da grandiosa pirâmide de marfim, todos os Viajantes disponíveis na base Bélica estão reunidos em arquibancadas improvisadas de pedra. No epicentro da arena quadrilátera de terra, o Grão-Viajante e o garoto permanecem de frente um para o outro.
Ajustando as manoplas rachadas e o sabre trincado na cintura, Raisel observa os arredores com calma até fixar a atenção no oponente adiante. O murmurinho dos espectadores cresce a cada segundo conforme as luzes ao redor da construção começam a se acender pela chegada da noite, além de a própria pirâmide emitir uma forte luz pelas runas no seu exterior.
“Um espadachim… Ele parece relaxado. Será que é mais habilidoso do que a Carmen ou a Hestásia? Não sei. Em combate físico, ainda não perdi para ninguém desde que saímos da Base Temporária dos Selvagens” 一 Eles parecem ansiosos pra te ver lutar, Johunyer. Você não me contou que era uma celebridade…
As palavras do rapaz arrancam uma curta risada do outro.
一 Eu entendo a expectativa deles. Digamos que eu nunca tenha perdido em um duelo franco contra alguém desde que me tornei um Grão-Viajante e, na minha frente, está o mestiço que sobreviveu contra Kazham, Riz e Louise… Nós dois somos “celebridades” de certo modo. 一 Com sutileza, o homem põe a palma esquerda sobre o guarda-mão da espada, inclinando-a para frente enquanto a mão direita se aproxima do cabo.
一 Ser um Grão-Viajante parece ser algo incrível. É uma pena que eu não saiba nada sobre isso. 一 Diferente do adversário, Raisel expõe a lâmina do sabre de imediato e o empunha com as duas mãos; mantendo a arma na vertical.
一 Eu só tive um pouco mais de sorte do que a maioria, acredite.
Os lábios dos espadachins paralisam após essa troca de respostas. Por mais que não haja som vindo deles, a intensidade dos olhares de ambos prenuncia a tensão e o silêncio crescente na platéia.
De repente, a distância de pouco mais de trinta metros é reduzida exponencialmente por uma arrancada vinda de Raisel. Sob o ritmo acelerado das sapatilhas, três passos bastam para que a aproximação seja feita em um piscar de olhos. A espada, antes na vertical, decai lateralmente na diagonal em uma postura baixa. Entretanto, um zumbido estranho cresce assim que o polegar de Johunyer empurra o guarda-mão para liberar a lâmina. Na velocidade de um relâmpago, um brilho azul-prateado divide horizontalmente o espaço na altura da garganta do garoto que, agilmente se abaixa e, ao invés de avançar, recua com um salto desesperado para trás. O balanço do segundo golpe decadente do Grão-Viajante emana uma pressão que se dissolve contra o chão.
Estabelecendo-se ajoelhado após rolar para desviar, Raisel levanta os olhos na procura do rival, mas, tudo o que ele encontra é o reluzir azulado da lâmina opositora. O braço esquerdo entra na frente do golpe e os estilhaços negros da manopla explodem para múltiplas direções enquanto ele está com a guarda aberta pela pancada.
Apenas flexionando os braços para trazer a espada de volta para si, Johunyer realiza uma estocada ao estender a arma para frente.
A fim de evitá-la através de um passo lateral, a perfuração atinge de raspão o bíceps direito do menino. Porém, a trajetória é alterada bruscamente num zigue-zague para que o fio da lâmina possa degolá-lo.
Dessa vez, o sabre negro aparece a tempo para bloquear a espada do outro num atrito entre os fios laminosos. Contudo, essa colisão não permanece por muito tempo, pois o Grão-Viajante puxa a arma de volta e investe em um novo golpe, mais um, outro e por aí em diante.
As gotas de suor vindas do rapaz ficam para trás a cada passo tentando ganhar algum espaço conforme o baque dos metais estremece a área. Os olhos dourados trabalham a todo instante buscando decodificar o próximo movimento da lâmina, mas ela sempre se move de uma maneira diferente do que a anterior. Quando as costas tocam algo, as sobrancelhas dele se levantam numa quebra de sua concentração.
O golpe de cima para baixo em diagonal vem fulminante e, num lapso de habilidade, Raisel se abaixa inclinando-se para o lado do ataque enquanto usa o fio para desviar a espada de Johunyer, bloqueando-a colada ao próprio ombro. Logo, o corte passa pela rocha da arquibancada como papel, dividindo-a em dois.
O sabre negro, aproveitando a minima brecha na postura do rival, faz uma trajetória em anel para desferir um ataque horizontal contra a costela do homem.
Ao contrário de seguir empunhando a espada com as duas mãos, o espadachim experiente a puxa com apenas uma das palmas, ainda mantendo a ponta baixa. O recuo do torso e a posição do braço destro permite que o bloqueio contra o sabre seja veloz. Pondo ambas as mãos sobre o cabo, imediatamente consegue perfurar a coxa flexionada do rapaz e recuar para evitar um ataque por parte dele.
一 Uff… Uff… 一 Tentando controlar o ritmo da própria respiração, Raisel inverte a base dos pés ao colocar a perna canhota ferida na dianteira.
Mais à frente, Johunyer sorrindo com os lábios mantém a espada na vertical usando apenas a palma destra e a ponta brevemente apontada para o adversário.
“Desse jeito, é uma questão de tempo até eu perder… Não consigo acompanhar a velocidade dos golpes dele. Sempre que bloqueio um, aparece outro. Tentar imitá-lo é tudo o que ele quer pra me punir… Essa é mesmo a única alternativa?” 一 Trazendo a espada para o lado direito, ele a solta no chão.
Fechando bem os punhos, ele inclina o torso e levanta a guarda. O ferimento na coxa pouco a pouco está sendo estancado, mas a dor e o buraco incomodam para se mexer. Por isso, sua vitória depende dos seus instintos usando o seu corpo como arma.
Os lábios do oponente curvam-se ainda mais com a atitude de Raisel, mas o homem não larga a espada, pelo contrário, ambas as palmas apertam o cabo e erguem-na rente à lateral do rosto. Nessa posição lateralizada contra a frontal do menino, Johunyer dá um meio passo adiante com tanto peso que o ar se expande para os arredores como um vácuo. A perna dianteira é flexionada lentamente e, como um torpedo, ele dispara na direção do garoto.
Devido à distância reduzida, um segundo passo cessa todo o ímpeto da disparada. Então, os braços decaem aproveitando cada miligrama de força gerada nessa impulsão ao ponto de o fio da lâmina distorcer a sua silhueta.
O semblante de Raisel não hesita um mísero segundo. Levando o cotovelo para trás e subindo o braço no outro instante, o punho destro se fecha firmemente como uma rocha de maneira precisa no segundo em que a colisão com a espada acontece; também distorcendo a atmosfera ao redor da mão.
“Jägerjagd: Starre Klaue!”
A lâmina é repelida para cima com tanta força que os pés do Grão-Viajante saem brevemente do chão. O som do choque entre metais ressoa como um zunido agudo, seguido pelo barulho dos cacos da manopla direita e a catarata de sangue escorrendo pelo pulso quebrado do garoto.
“Droga… Queria ter quebrado a espada dele, mas tudo o que eu consegui foi repelir em troca de quebrar a mão…” 一 Raisel suspira enquanto sente a espada de Johunyer soprar rente ao seu pescoço 一 “Ainda me falta preparo físico pra ser tão potente quanto da Mestra Lobo.”
一 Você perdeu. Não porque largou a espada, mas sim por ter quebrado seu último item de combate. 一 estreitando os olhos, o Grão-Viajante também baixa brevemente o queixo.
一 É… Eu perdi 一 balançando a parte quebrada, a mão está completamente molenga 一 Mas antes de me juntar aos Bélicos, quero conversar a sós com você outra vez… Agora eu tenho motivos pra contar a minha história.
As diversas plataformas de Rascunhos sobrevoando os céus na área do combate começam a descer após o fim. Os espectadores os rodeiam ao ponto de desaparecerem naquela multidão enlouquecida pela atuação dos dois.