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Capítulo 140 – Meia Verdade

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Capítulo 140 – Meia Verdade

Assim que a escuridão e as pitadas de estrelas no céu encobriram tudo, as dezenas de Viajantes haviam se retirado para os seus devidos descansos.

Na pirâmide de marfim, os três conselheiros e o líder ainda permanecem com o recém-chegado mestiço de luz pura. Em um dos quartos do dormitório, Raisel usa a mão esquerda para pegar cuidadosamente o recipiente com chá para bebê-lo. O habilidoso espadachim, Johunyer, se senta em uma espécie de sofá pouco à frente enquanto eles estão separados por uma mesinha.

一 Seu braço já está um pouco melhor? 一 despejando a bebida em um copo triangular invertido, o homem o enche até o limite.

一 Bem pouco… Deve demorar alguns dias pra ele voltar ao normal 一 do punho até o bíceps, o braço direito está completamente enfaixado por cordas e papéis rúnicos.

Com uma breve risada, o espadachim volta a falar: 一 As Cordas de Recuperação estimulam mais o corpo durante o período de sono. Quando for dormir e acordar no outro dia, ele estará bem melhor. Bom, indo ao que interessa… Comece falando de onde você veio e o que está fazendo aqui, Raisel 一 gesticulando com a palma esquerda, o meio-elfo também bebe sutilmente aquele líquido roxo; pronto para ouvi-lo com atenção.

Tateando com os dedos o copo triangular invertido, o menino respira fundo ao baixar brevemente a cabeça:

一 Eu… vim de Balmund, de um vilarejo perto do Centro Comercial. Eu vivia lá junto com meu avô e outros amigos, mas tudo mudou quando os Pagãos invadiram para nos usar… como sacrifício. 一 Os olhos pesam para a direção do chá; vendo-se no reflexo enquanto as memórias do incidente de Kromslaing preenchem sua mente.

一 Eram seguidores de Berith, Bealerins… Por pouco conseguimos fugir, eu e alguns amigos, mas meu avô ficou para ganhar tempo. Um de nós era um meio-elfo que cresceu em Kanthen e nos levou até lá. Nisso, fui abordado pela Hestásia, trazido para a Segunda Camada e aqui estou 一 o olhar dele se ergue até o rosto do Grão-Viajante.

Com as sobrancelhas baixas, o olhar de seriedade do homem transparece através do seu Gewissen azul pouco escuro, inundando os arredores de seu corpo.

一 Os Pagãos não costumam aparecer fora de suas seitas a menos que eles tenham um objetivo. Você voltou lá depois que eles foram embora?

一 Sim, com uma organização chamada Selvagens. Eles me ajudaram a tentar resgatar o meu avô, mas era tarde demais… Ele tinha sido usado de… material para uma Estrela Escura vir pro nosso mundo. Quando aquilo saiu do casulo… Eu… Eu… 一 a pupila de Raisel começou a crescer, expandindo para tomar conta de toda a sua íris dourada.

Antes que isso aconteça, Johunyer põe a palma sobre o ombro do garoto para trazê-lo à realidade.

一 Entendi as suas condições. Não vamos suspeitar de você, mas… isso da Estrela Escura é muito grave. Vou passar o seu relato para a Riz ir até o Segundo Campanário e avisar os Sábios. Não conte isso a mais ninguém… É algo que pode perturbar o equilíbrio do Tratado dos Doze Zodíacos. 一 Levantando-se, o homem apanha a espada escorada do lado do sofá para colocá-la novamente na cintura.

一 Tratado dos Doze Zodíacos? 一 após tomar de uma vez aquele chá gelado, Raisel solta o recipiente em cima da mesa que, de alguma forma, permanece equilibrado na ponta do triângulo.

一 Existe um acordo que os Zodíacos estabeleceram quando os primeiros Constelados surgiram. O nome varia algumas vezes, mas é sempre o mesmo tema. Não é ensinado isso em Balmund? 一 De soslaio, Johunyer o encara antes de virar-se parcialmente.

一 Eu… nunca ouvi falar disso. Quase não existem livros em Balmund… Os que existem, são infantis, histórias de grandes heróis e cavaleiros 一 uma risada contida escapa das suas narinas.

Observando aquilo em silêncio, o veterano fecha os olhos e respira fundo.

一 As Calamidades são o ápice que um Constelado dos Doze Zodíacos pode chegar. Para evitar que todos os Doze tivessem um Arauto, eles definiram que apenas seis poderiam alcançar o seu potencial máximo… Essas são as Seis Calamidades e o Tratado diz que eles não podem lutar entre si diretamente. Caso contrário, isso destruiria toda Wynward e acabaria com a disputa que existe entre os Zodíacos. Isso é tudo o que eu sei… 一 Após isso, o homem se aproxima da parede e encosta a mão para transformá-la em cortinas e passar para o outro lado.

Pouco depois a parede volta ao normal. Sozinho naquele cômodo, a explicação de Johunyer parece um zumbido em sua cabeça.

“Então as pessoas que estão ao redor das Calamidades são peças de todo desse grande tabuleiro…” 一 Agarrando o tecido da sua coxa, Raisel aperta o maxilar enquanto mantém o rosto baixo.

“A Yolina disse que o objetivo máximo era eliminar todas as Calamidades… Isso parece ser correto, mas… seria o mesmo que empilhar cadáveres e mais cadáveres de pessoas inocentes em busca de liberdade… Encher as mãos de sangue… é realmente o único caminho para paz?” 一 Encarando as mãos já manchadas em sangue, o peso de quem ele matou parece leve, pois eram pessoas cruéis. Mas, de alguma forma, o receio vinha ao pensar que mataria até mesmo boas pessoas futuramente…

O peito não guarda tanto ar como antes. O vapor escapa dos seus lábios repetidas vezes enquanto o coração acelera. As palmas cobrem o rosto para tentar fechar os olhos, mas a imagem que ele está vendo não vem das pálpebras. Um suor frio paira pela pele, escorrendo da nuca até as costas. O garoto se encolhe nas próprias pernas e as abraça ainda sentado naquela cadeira. Mergulhando o rosto entre os joelhos, a sensação é como ter as narinas submersas.

“Ser gentil… fazer o bem… Nada disso parece ter valor se tudo precisa ser resolvido lutando… com alguém morrendo. Eu disse que a ajudaria escolhendo quem eu deveria matar… mas e se eu matar alguém errado? E se eu matar alguém… que tem pessoas esperando por ela? O que eu faço…? O que eu faço, vovô?” 一 as lágrimas saem das laterais dos olhos sem que ele percebesse.

Naquela posição sendo consolado pelo próprio corpo, eventualmente acaba adormecendo. Porém, os sonhos o levam até uma lembrança recente, onde o horizonte anoitecido tinha apenas quatro estrelas e a luz vinha da grande árvore de folhas douradas, gigante como uma montanha.

Do seu lado, o Sábio dos Ventos observava vagarosamente a paisagem.

一 Você escolheu o caminho mais difícil, Raisel… Imoriel não apresentou apenas o seu futuro próximo, mas quem você se tornaria. Sua humanidade falou mais alto, mas essa mesma humanidade cobrará o preço no futuro. 一 Com o canto da vista, Azlam encara o menino enquanto a brisa noturna balançava suas sobrancelhas espessas e barba alongada no queixo.

一 Quem eu me tornaria, né… Pra te falar a verdade, eu não quero ser tipo um herói, nem nada assim. Se eu pudesse, nem lutar eu lutaria. Mas, parece que ferir e ser ferido é algo comum… Mas, como assim cobrar o preço? 一 As mãos bem abertas e os braços espaçados apoiados contra o gramado, o sustentavam para não cair para trás ao estar sentado daquela maneira.

一 Ter a aptidão para mais de um Kern é algo raro. Conseguir desenvolvê-los é algo que poucos conseguem. Um gênio é aquele que sente coisas que as pessoas normais não conseguem perceber. Alguém talentoso é capaz de dar rótulos e processar o que as pessoas sentem. O que você acha que você é? 一 alisando a barba lentamente com uma das mãos, o velho demonstrou um singelo sorriso de canto.

一 Hm… Nenhum dos dois? Não sei se o que eu sinto é diferente dos outros e não sou inteligente igual o Tejin ou o Kimich pra nomear tudo… 一 Dispersando os olhos para o céu por um momento, inevitavelmente os fixava no Sábio outra vez.

一 Correto. Você é algo que eu defino como Verdadeiro Gênio… Capaz de perceber o sentimento dos outros para além de você mesmo e entendê-los com a mesma precisão dos seus. Isso é bom pela simpatização com os outros, mas horrível pela sua vulnerabilidade… 一 O pequeno mestiço de idade avançada escondeu o rosto ao observar o horizonte e dar alguns passos para frente.

一 Não entendi nada… Isso significa que eu sou bom sabendo o que os outros sentem, mas eu sou frágil por ficar exposto a esses sentimentos? 一 balançando a cabeça em negação, Raisel se levantou para acompanhá-lo.

一 Quase isso…

Respondeu com uma risada cujo tom distorceu-se como um eco carregado pelo ar. Sobre a tela dourada em sua mente, diversas rachaduras negras aparecem trincando essa vidraça. Ao fundo, um sinal ressoa como um alarme distante, mas que se aproxima até ele abrir os olhos.

Deparando-se com o teto do quarto na Filiação Bélica, o menino está deitado no carpete enquanto a cadeira também adormece ao seu lado.

“Quando foi que eu dormi?”