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Capítulo 147 – Condenado por Existir

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Capítulo 147 – Condenado por Existir

Raisel e Tishta estão subindo algumas escadas circulares. Liderando o caminho, o baixinho segue com roupas casuais rumo ao seu dormitório. A alguns centímetros de suas costas, o garoto de olhos dourados também mudou a vestimenta para algo mais adequado: uma camisa justa de gola alta e mangas compridas. Por cima, uma regata azul escura.

De frente para um corredor fechado silencioso, Raisel encara o próprio pulso coberto por uma bandana vermelha de pontas douradas, com um brasão de espadas cruzadas no centro.

一 Nosso quarto é aquele ali… O espaço de treinamento do dormitório fica depois daquele corredor, não é muito grande, mas serve para duelar ou treinar em dupla. 一 Virando-se para o novato, Tishta segura uma toalha branca presa sobre os ombros e cobrindo sua nuca.

一 Beleza. Vou passar no espaço de treino um pouco antes de ir dormir. Valeu, Tish. 一 Acenando com um baixar de cabeça, Raisel dá meia-volta.

O mestiço de franja trançada rosa devolve o gesto e parte até o quarto.

Em poucos segundos, o corredor acaba. No fim da linha existe um portão de pedra bem talhado em figuras monstruosas que ele não consegue identificar. Então, Raisel empurra o portão com as duas palmas, revelando um cômodo peculiar: diversas armas posicionadas pelas paredes e um espaço cúbico adequado para um treino reservado.

“Quantas opções… Tem algumas que eu nem sei como é o nome.” 一 Não sabendo para onde olhar, ele entra no cômodo e os portões fecham-se silenciosamente.

Antes de perceber, seus passos o levam até a zona de espadas, depois, apanha um dos machados-de-guerra e uma lança de lâmina serrilhada. Com as três armas nos braços, Raisel as finca no chão com cuidado e leva as mãos às laterais da cintura.

“Não vi nenhum arco por aqui… Será que não existe isso pros elfos? Bom, considerando que eles podem disparar projéteis de energia, até que isso faz sentido…” 一 ele conclui com um suspiro, relaxando os ombros.

“Depois do duelo, a Sênior Louise continuou a explicar o funcionamento da lança e é bem parecido com o machado. Isso comprova que minha conclusão foi certa… mas e a espada? Ela não é tão longa quanto uma lança e nem pesada como o machado…” 一 Uma das mãos sobe até o rosto e envolve o queixo. Raisel continua a encarar as armas; estático.

“Johunyer movia a espada tirando meu espaço, mas não controlava a distância da mesma forma que uma lança… Pressão? Talvez por causa da agressividade? Parando pra pensar, a Hestásia atacava mais do que o Johunyer e eu consegui me defender melhor dela do que dele. Então o segredo não é só atacar rápido.” 一 empunhando a espada com a mão direita, ele a retira do chão e a segura verticalmente.

“Era uma lâmina pesada, mas veloz. Não havia intenção de matar, mas nenhum golpe hesitava… O segredo pra ser um bom espadachim é–”

De repente, um estrondo balança todo o cômodo, incluindo a pirâmide de marfim por inteiro. Raisel se desequilibra, porém, se mantém de pé após alguns passos tortos.

A testa está franzida, mas os olhos estão mais arregalados do que nunca.

“É-É um ataque? De quem?!” 一 com a espada em posse, ele empurra o portão com o ombro.

Correndo em direção à origem da explosão, a calça larga balança freneticamente com a velocidade de suas sapatilhas.

…

Alguns instantes antes do grande tremor, a loira entra na estrutura colossal ultrapassando os portões compostos por rochas transparentes. Dando de cara com um salão central onde alguns Viajantes ainda discutem e se organizam no fim da tarde. Todos eles sentem algo de errado quando a mulher dá o primeiro passo naquele piso de carpete vermelho.

Os pouco mais de doze Viajantes presentes erguem suas orelhas ao mesmo tempo. As sobrancelhas sobem e um suor pesado escorre pela nuca de cada um, junto com um odor azedo de medo.

一 Que lugar imundo… 一 diz Anastásia enquanto tapava o nariz com uma das mãos.

Normalmente retrucariam uma fala tão hostil, mas os lábios pesam mais do que o próprio corpo. A figura de armadura dourada segue passando por eles sem sequer olhá-los nos olhos, por mais que atraia a atenção de todos.

No fim, ela cessa os passos diante do desnível do piso onde ficam um pequeno bar e refeitório.

一 Nenhum dos Sêniores está presente no salão principal. Deixar a guarda da Filiação nas mãos de um bando de inúteis demonstra muito bem a competência de seus líderes. 一 Revirando os olhos, a Elfa Pura põe a mão esquerda sobre o cabo de uma de suas espadas.

Os presentes no salão engolem as suas hesitações e passam a encará-la com descontentamento. As intenções deles convergem sobre a nobre combatente no epicentro do salão. Essas energias das mais variadas cores formam uma nebulosa crescente, cercando-a de todas as direções.

一 Acha que pode entrar aqui e fazer o que bem entender só por ser uma Elfa Pura?! 一 exclama um deles enquanto empunha a sua espada com as mãos trêmulas.

Entretanto, Anastásia apenas continua a encará-los. As sobrancelhas ficam mais baixas e os contornos dos olhos se tornam obscuros, destacando a cor castanho claro de suas íris arregaladas.

Por um momento, ela respira fundo e, no outro, sua sentença resume tudo o que aquela raça representa aos seus olhos:

“Patéticos…”

Ela não eleva sua energia para além do seu corpo. Concentrando-a em sua silhueta, um brilho quase completamente esbranquiçado ofusca a área junto de um som estridente, como o guincho de um felino caçando suas presas.

A diferença de pressão e densidade entre o seu Gewissen e os demais faz com que todas aquelas pessoas sejam repelidas em direção às paredes. Para Anastásia, isso não passa de uma punição para os pecados de uma raça que sequer deveria existir.

Alguns conseguem resistir, embora sejam arrastados alguns metros pelo impacto. Neles, o pingente prateado sobre o peito reluz com as mais variadas luzes distribuídas no ambiente.

一 Até mesmo moscas conseguem sair vivas disso… Não se iludam. 一 Seus olhos percorrem os poucos ainda de pé e os corpos comprimidos contra as paredes.

Conforme a poeira desaparece após o vácuo contínuo, as rachaduras e a cratera que se formou no entorno da loira aparecem de maneira nítida. As fendas superficiais estão por toda parte, enquanto as maiores se alastram a partir do epicentro.

Em meio ao silêncio entrecortado pelas tosses e pelos grunhidos dolorosos dos oprimidos, o barulho crescente de uma série de passos frenéticos estremece o corredor entre escombros à direita. Basta um único golpe descendente do machado para que uma pressão sem igual limpe a área e avance rumo a Anastásia como uma avalanche. Entretanto, o seu manto de energia a mantém ilesa.

一 O QUE ESTÁ ACONTECENDO?! 一 empunhando a grande arma, Kazham identifica os fios esvoaçantes dourados da elfa pura no epicentro.

Imediatamente, inúmeras veias saltam pela sua cabeça lustrosa.

一 Anastásia… o que justifica essa sua abordagem violenta?  一 O braço fica suspenso na lateral do corpo, mas o punho aperta a haste do machado mais forte do que nunca.

Com o canto da visão, ela fixa o olhar no recém-chegado. Então, somente um dos cantos dos lábios se curva; respondendo:

一 Mestiço de Primeiro Grau, Kazham, não me entenda mal. Jamais perderia meu tempo destruindo a sua bela moradia por puro capricho. Eu apenas revidei as intenções diabólicas dos seus companheiros. 一 Os dois fios em destaque por trás da tiara na testa balançam ao virar-se de frente para o homem.

A testa de Kazham envermelhece ao escutar aquilo. Acima de sua cabeça, a Constelação de Equuleus surge relinchando no tom marrom escuro de sua energia. A imagem do cavalo o envolve por inteiro antes de se dissolver no Gewissen concentrado ao redor de seu corpo.

一 Não responda com gracinhas… Mesmo sabendo da sua autoridade, isso que você fez é imperdoável.

O rosto dela levanta um pouco, mas, apesar de ser mais baixa, Anastásia faz parecer que é Kazham quem a encara de baixo. As palavras do careca fazem com que ela aperte o maxilar e, assim como ele, pontos e linhas se conectam acima do seu crânio para formar a Constelação de Lynx; revelando uma fera felina vívida no amarelo-lima do seu Gewissen.

一 Gracinhas… Acha que eu estou aqui para brincadeiras, verme? Se impor a mim é o mesmo que ir contra as ordens do Kral… Você e sua turminha estarão prontos para as consequências disso?

A língua do Sênior com o machado estala enquanto um suor escorre na lateral da sua bochecha. Aos poucos, seu volume de energia diminui enquanto somente a Constelação da Elfa Pura permanece visível por mais algum tempo.

一 Apenas peço que não cause tanta confusão… e me diga o porquê de estar aqui, Anastásia…

Anastásia suspira, mantendo o nariz empinado enquanto saboreia o próprio sorriso. Os fios grossos do seu cabelo deitam novamente ao anular a exposição da sua vontade.

一 Vim ver pessoalmente o Viajante de Primeiro Grau, Raisel, a pedido do Kral. Ele deseja confirmar o seu nível de ameaça em relação a assuntos que você sequer tem o direito de conhecer… Onde ele está?

Entretanto, nas costas de Anastásia há um outro corredor cuja destruição não alcançou tanto. No fundo do túnel, um vulto se move tão rápido que até mesmo a luz das pedras brilhantes no teto não o acompanha.

O assobio da espada corta o corredor, assim como a coloração dourada de seus olhos.

De longe, eles se encaram.

Raisel para instantaneamente antes de atravessar o corredor por completo. Ele vê Kazham respirando profundamente ao mesmo tempo que observa a cor nos olhos da mulher loira mudarem para o amarelo-lima.

一 RESISTA, GAROTO! 一 exclama o Sênior com toda a sua vontade.

Naquele momento, Anastásia parte em uma investida fulminante através de um único impulso. Ele ergue a espada para se defender, mas ela passa por ele e o contorna em um único movimento.

Raisel gira rapidamente, espalhando suor ao acompanhar o rastro dourado das grevas daquela armadura.

O baque do fio da lâmina contra a proteção na canela da Elfa Pura faz Raisel ser ejetado para fora do corredor ao quebrar a parede com as costas. Os braços tremem, mas não cedem.

Nesse espaço que é um jardim do lado de fora da pirâmide de marfim, o rapaz continua reparando nos detalhes daquele rosto familiar que vem em sua direção calmamente.

一 Você é alguma parente da Hestásia? 一 diz com um semblante desconfortável ao ter tanta intenção assassina direcionada a si.

一 Não ouse comparar aquele fracasso a mim… Me mostre a sua verdadeira natureza…! 一 Elevando uma das mãos para a direção dele, um círculo mágico como uma estrela de incontáveis setas cruzadas aparece.

Nesse instante, uma das espadas finas acopladas na cintura de Anastásia se move sozinha e flutua ao lado dela, orbitando seu corpo antes de se alinhar ao alvo. Girando levemente o pulso, essa lâmina acelera numa velocidade imensa ao ponto de um anel de ar se formar atrás dela.

A ponta desse torpedo se aproxima do centro da testa de Raisel, mas ele consegue tirar a cabeça da reta a tempo; deixando mais gotas de suor para trás. Com outro movimento de mão, Anastásia redireciona a lâmina. O jovem ouve outro golpe se aproximando. Dessa vez, o corpo se move sozinho ao girar a cintura e colidir contra a arma voadora usando a sua espada.

Contudo, mesmo sendo bloqueada e girando algumas vezes, a espada fina se recompõe em um piscar de olhos e desce com tudo rumo ao ombro do garoto. Ele recua um passo na diagonal e evita que seu braço esquerdo seja decepado, mas um jorro de sangue mancha a grama verdejante.

Ainda segurando a espada com a mão destra, ele tenta tapar a ferida com o punho, mas isso é inútil. Os dentes apertam enquanto os olhos dourados sobem na direção da adversária distante…

“Devo deixar ele quase morto? A cor dos olhos dele me irrita…” 一 A outra espada ainda na cintura também começa a flutuar.

O Formel sobre a palma cresce em tamanho subitamente; sendo o suficiente para cobrir parte do seu tórax. De frente para essa situação, as bochechas de Raisel são espremidas pelo seu sorriso.

“Usar a Área de Ação não vai me fazer reagir a tempo… Duas espadas voadoras que não são afetadas pela postura do corpo… Como se enfrenta algo assim?”

Então, as armas flutuantes partem outra vez para finalizá-lo de uma vez por todas: uma mirando na sua garganta enquanto a outra explode rumo a uma das pernas.

As pálpebras dele se fecham.

O barulho estourado dos metais se chocando ressoa pela área com a escuridão da noite. Empunhando uma lança de prata, Louise está à direita de Raisel e, no lado esquerdo, com o seu par de adagas, Rizantris contém a arma levitante ao cruzar as suas lâminas sobre ela.

一 Anastásia, ele já é um membro da Filiação Bélica. Atacá-lo, mesmo pela ordem do Kral, nos dá o direito de defendê-lo como seus companheiros. 一 A mulher de cabelo castanho e pontas vermelhas tem o olhar bem estreito ao encarar a loira.

一 Além disso, será mais interessante vê-lo no Vanaheim ao invés de forçá-lo aqui, não concorda? 一 Com dificuldade, a moça com cabelo dividido entre loiro e preto força a espada fina a recuar.

Torcendo o pulso novamente, as armas voltam para a cintura de Anastásia. Uma das sobrancelhas dela sobe e o ímpeto amarelo-lima nos seus olhos desaparece; revelando a cor natural do castanho claro.

一 O que vocês disseram faz algum sentido. Além de que eu acabei de confirmar a ameaça nula desse rapaz: ele não possui uma Constelação… É um Não-Constelado que sequer tem o instinto ou o controle de manifestar Beisen 一 ela leva uma das mãos ao rosto e balança a cabeça ligeiramente.

一 De qualquer forma, a existência dele é um interesse do Kral… O Gluhen dele ao menos tem algum valor. Provavelmente, após o Vanaheim, eu o levarei até o Palácio. Boa sorte com esse fracassado… 一 No fim, sua energia a encobre e ela some feito um borrão.

O ritmo desenfreado das gotas de sangue diminuiu um pouco, mas, de cabeça baixa, Raisel não consegue levantar o rosto para encarar as duas na sua frente morde os próprios lábios até fazê-los sangrar, misturando o novo gosto de ferro ao sangue que já escorre do ombro.

一 Riz, leve ele para tratar o ferimento… Vou tentar entrar em contato com o Johunyer para passar as novas informações e ver o que faremos. 一 A voz naturalmente áspera de Louise ganha um tom mórbido.

一 Entendido 一 responde a mais ágil protocolarmente.

Estendendo a palma até as costas do garoto, ela o empurra cuidadosamente; guiando-o até o local designado. Mesmo após toda a ameaça, a espada sempre permanece firme em sua mão.