Capítulo 151 – O Pescador, a Vara e o Peixe
Capítulo 151 – O Pescador, a Vara e o Peixe
A desconfiança do garoto faz Johunyer sorrir e soltar um suspiro através do nariz. Alcançando a sua espada logo ao lado, o homem a coloca no chão entre eles e volta a apoiar a mão sobre a coxa.
一 O que significa empunhar uma espada para você, Raisel?
Encarando a arma por um momento, os olhos dele sobem para respondê-lo.
一 Eu estava pensando sobre isso ontem antes de toda confusão. Não conheci muitos espadachins, mas a única coisa em comum que eu vi… foi que todos parecem estar convictos 一 diz o menino enquanto ergue o punho até o próprio peito.
As sobrancelhas de Johunyer tremem por um instante. Baixando o rosto, parece refletir consigo mesmo antes de qualquer resposta. Os segundos de silêncio quebram assim que ele contém um riso.
一 É algo bem abrangente. Consegue ser mais específico?
Os lábios entreabertos se fecham e Raisel leva a mão até o queixo. O olhar vaga pelos cortes espalhados por todo o cômodo. Eles possuem diferentes formatos e tamanhos, mas todos parecem recentes com alguns ainda desprendendo a poeira das frestas. Então, os olhos dele se abrem.
一 Estar convicto é ter certeza do que você quer ao empunhar uma espada…一 as sobrancelhas descem junto do rosto e o tom da voz 一 mas acho que tem algo além disso.
一 Correto 一 Johunyer acena com a cabeça 一 existe algo além de ter convicção na lâmina. O significado de empunhar uma espada é estar ciente das responsabilidades disso. Nenhuma lâmina defende ou fere alguém sozinha. O espadachim deve usar esse peso ao seu favor e nunca ser consumido por ele.
O cenho de Raisel franze com a resposta. As pálpebras diminuem conforme ele alisa o queixo.
一 Mas para ter esse peso o espadachim deve ser alguém mais experiente, eu acho… No caso de pessoas inexperientes como eu, como eu faço pra substituir essa responsabilidade?
一 Meu mestre uma vez me contou sobre a parábola da pesca. Eu vou repassá-la para você, então ouça com atenção… 一 os olhos de Johunyer sobem para o rosto do garoto.
A firmeza na voz do homem o fez engolir em seco. Os pulsos descem e permanecem apoiados sobre as coxas. Ao respirar profundamente, Raisel se prepara para captar todos os detalhes desse dilema.
一 Havia um vilarejo de pescadores que era cercado por um oceano turbulento e, do outro lado, por um lago calmo. A água doce estava repleta de peixes já conhecidos e a água salgada era dominada por criaturas que nunca haviam visto 一 estendendo o indicador até próximo do chão, passa a encarar a ponta do dedo 一 Certo dia, um pescador vindo de um lugar mais distante soube da lenda de um peixe cujas escamas brilhavam em todas as cores que vivia no mar turbulento e decidiu que iria capturá-lo. Quando o pescador embarcou em seu pequeno barco, uma tempestade caiu sobre o vilarejo… Todos consideraram que esse homem morreria engolido pelas marés.
Uma gota de suor desliza da testa até a bochecha do menino. Com os lábios comprimidos, ele pergunta:
一 E o que aconteceu?
Johunyer dá uma olhada rápida para ele, mas prende a atenção na ponta do próprio dedo outra vez.
一 Se passaram dias, semanas. A vinda do pescador desconhecido era tratada como mais uma tragédia como várias outras… até que seu barco apareceu nas margens da praia. Os aldeões fizeram um alarde com a notícia e os pescadores se reuniram para ir até lá 一 o dedo toca o chão repetidamente em um ritmo lento 一 Todos estavam curiosos para saber as histórias do homem que voltou do mar turbulento vivo e, para a surpresa deles, ele não havia pescado nada. Quando questionado, o pescador disse: “Eu segurei a linha e o anzol por horas, vi monstros marinhos que poderiam me engolir junto do barco, mas eu permaneci concentrado no meu objetivo. Mesmo quando a chuva encharcou até os meus joelhos, não tirei os olhos da ponta da vara. De repente, algo fisgou a linha e eu puxei. Eu vi o peixe arco-íris e o agarrei. Não queria trazê-lo, apenas contemplar a beleza de algo extraordinário e o soltei. Como agradecimento, ele me guiou de volta para a praia e acabei dormindo no caminho.” Sabe qual foi a reação dos aldeões?
一 Não… O que eles fizeram? 一 balançando a cabeça, Raisel permanece focado nas palavras.
一 O chamaram de louco e atribuíram aquilo à sorte divina. Ninguém acreditou nele e acabou sendo exilado do vilarejo… Agora eu te pergunto: você acha que a história dele é verdadeira, ou ele acabou sonhando tudo isso? 一 O dedo encosta no chão pela última vez.
O rosto do rapaz se abaixa para encarar a própria coxa. O cabelo castanho e a franja curta decaem para obscurecer o seu semblante, dando ênfase aos olhos dourados semicerrados.
“Se a história é verdadeira, deve ter algum vestígio do peixe… como uma escama que ficou para trás ou algo assim. Mas ele não mencionou nada disso. Se não existe nada concreto, não tem como provar que é verdade… Então o lógico seria ir pela mentira como os aldeões fizeram. Mas isso não parece correto… O pescador embarcou nessa aventura apenas para contemplar e desafiar algo que ninguém ousou.” 一 Lentamente a cabeça de Raisel se ergue e, ao invés de encarar Johunyer, ele mantém um olhar de lado enquanto tem as sobrancelhas baixas e a testa franzida.
一 Eu… não sei.
A expressão do garoto é exatamente o que ele esperava ver. Um sorriso se forma no semblante do experiente espadachim. Os olhos afiados não divagam para outro lugar, estão totalmente fixos no rapaz.
一 Exatamente… Para os aldeões, é uma mentira deslavada. Para o pescador, é uma conquista que ele jamais compartilhará com alguém 一 o homem agarra a espada e a coloca na diagonal. A bainha segurada pela mão canhota permite que a direita exponha uma fração da lâmina para Raisel ao puxar o cabo 一 Desde o começo, o pescador nunca quis provar algo para alguém. Essa é uma verdade, mas apenas dele. Assim como você desconfia e desconhece, se permita criar a própria verdade. Isso é estar convicto para, depois aguentar a responsabilidade de se impor sobre os outros.
As palavras de Johunyer soam diferentes por algum motivo. Sem perceber, as íris douradas se fixam sobre o brilho da espada, mas, em sua lâmina, o reflexo aparece mais nítido do que o normal. Encarando-se naquele espelho, sua atenção está hipnotizada por completo.
一 Ser um espadachim e empunhar uma espada, Raisel, é o mesmo que ignorar as vontades e ambições dos outros para que apenas o seu lado prevaleça. Esse é o princípio da minha lâmina, a Lann Shàmhach (Lâmina Solene).