Capítulo 153 – Boatos Vindos do Sul
Capítulo 153 – Boatos Vindos do Sul
Em uma paisagem onde colunas enormes se erguem como prédios em meio aos vastos campos, o fluxo de pessoas no início da tarde começa a aumentar. As estradas cobertas por pequenas pedras, possuindo vinhas e flores sobre o meio-fio, estão recheadas de meio-elfos que vão e vem.
Alguns deles montados em grandes animais, outros flutuando com plataformas cobertas por energia. Tanto o céu como a terra respiram o movimento da grande cidade que se estende até os confins de um vale.
Entre as enormes construções, uma pequena casa feita inteiramente de madeira recebe alguns visitantes. Na frente desse lugar, um letreiro talhado está sendo observado por um homem de capuz. Com alguns passos, ele se aproxima da entrada e empurra a porta.
O ambiente brevemente silencioso indica clientes, mas por trás do balcão, uma mulher com orelhas pontiagudas feito um elfo, mas tendo focinho, uma cauda peluda alongada e manchas negras ao redor dos olhos, acaba por fixar a atenção no recém-chegado.
一 Bem-vindo a Cafeteria da Guaxinim! Como posso ajudar você? 一 um sorriso largo mostra os dentes claros e os caninos alongados da mestiça.
Encarando-a por um instante, o homem hesita, mas se aproxima do balcão. Pondo uma das mãos sobre a superfície de madeira, ele se acomoda em um assento de frente para a atendente.
一 Quero um café puro, mas com mel. 一 Apoiando um dos braços à mesa, o estrangeiro verifica os arredores.
一 Entendido! 一 ao ouvi-lo, ela se vira para os barris de metal e diversos potes sobre o vasto armário 一 É a sua primeira vez em Kravendel? Seu sotaque não é muito familiar.
一 Sim. Sou um estrangeiro. Vim até aqui por ouvir dizer que essa é a maior comunidade entre os meio-elfos da Terceira Camada 一 vendo-a de costas, a cauda repartida entre sequências de branco e preto não para de se mover.
一 Ah, entendi… Perdão por ter perguntado a sua origem. Espero que se sinta à vontade aqui 一 remexendo em alguns copos, ela fecha um pouco o sorriso 一 “Ele deve ser um refugiado vindo de Balmund, eu acho… Coitado, ter que usar um capuz para esconder as marcas.” 一 De soslaio, a guaxinim o encara antes de se virar novamente.
一 Kravendel parece ser bem acolhedora, mas não estou aqui para ficar. Na verdade, quero algumas informações. 一 Vendo a xícara ser deixada sobre a bancada, o homem coloca a mão sobre a alça com cuidado antes de beber.
一 Bem, posso tentar ajudar você comentando o que eu sei, mas vai custar algumas moedinhas a mais… 一 a mão esquerda sobe na altura do rosto com as pontas do polegar e indicador se encostando.
Deslizando a palma pela superfície de madeira, o som áspero das moedas para pouco depois. O brilho prateado puro vindo delas faz os olhos da guaxinim brilharem. Como uma ladra, o vulto de sua mão rapidamente as faz desaparecer feito mágica.
一 Kuhumpf… 一 pigarreia a mulher enquanto se senta para ouvi-lo com as orelhas bem atentas.
一 Sobre o Vanaheim que vai ter daqui alguns dias, ouvi dizer que os Elfos Puros costumam vir até aqui assisti-lo. Mas, todos os líderes das Casas Nobres sobem até aqui, ou apenas um ou outro? 一 Pela escuridão do capuz, os olhos azuis escuros brilham enquanto a xícara segue até os lábios.
一 Como o Vanaheim acontece a cada dois anos, é definida uma rotação entre as Casas Nobres para ver quem assistirá. No último, a Casa Neelvogel que presenciou, antes disso, a Casa Lelianna e, ainda mais para trás, a Casa Thinkanin… Então se nada acontecer, é a Casa Rhosmad que virá dessa vez 一 diz a mulher com os braços cruzados sob os seios e encostada na cadeira.
Em silêncio, o homem apenas põe o copo sobre o balcão e permanece com o rosto baixo. As pálpebras dele sobem, revelando novamente os olhos azuis que se fixam na atendente.
一 Para participar do Vanaheim é preciso fazer parte de alguma organização, não é? Tem como alguém de fora como eu entrar para a Svartalfar, ou as Filiações de Viajantes que ficam na Segunda Camada?
As orelhas dela sobem um pouco ao escutar aquilo. Uma das mãos se escora no queixo e o rosto vira para o lado por um momento.
一 É preciso sim, já que o Vanaheim é uma forma de mostrar a nossa força pros Puros e também nossa utilidade. Não sei se um estrangeiro conseguiria se unir às Filiações, tanto na Bélica quanto na Mágica… mas deve ser possível entrar como um membro da Resistência Svartalfar sim 一 a cauda sinuosa para de balançar por um momento 一 Ah, por causa do que aconteceu na Svartalfar do Sul, soube que o processo para entrar na Svartalfar do Norte está ainda mais rigoroso…
Ele volta a beber o café com mel e, gole após gole, ele deixa a xícara vazia em cima da bancada.
一 Ou seja, levei azar. Bom, obrigado pelas suas informações, guaxinim… O café estava delicioso. 一 Levantando-se, o homem se vira enquanto permanece com o rosto apontando para a mulher.
一 Obrigada! Volte mais vezes, senhor estrangeiro! 一 sorrindo com os olhos e com os lábios, a moça agita a cauda por um momento.
Dessa forma, ele segue sem olhar para frente e acaba esbarrando contra um outro cliente. Por um instante, o capuz vacila indo para trás, mas o homem o segura contra a cabeça no outro segundo.
一 Perdão, perdão… Vou tomar mais cuidado. 一 Às pressas, o estrangeiro se curva repetidamente antes de sair do local.
Mas, de olhos arregalados, a mulher guaxinim mantém a cauda ereta e os lábios trêmulos. Ela leva as mãos até a boca.
“A-As orelhas dele… É um humano?! E-Eu devo ter visto errado… Não é possível…” 一 Inclinando-se para encarar o chão, as pupilas dilatam sem parar.
一 Guaxi, está tudo bem? 一 a meia-elfa à frente do balcão pergunta com uma das sobrancelhas baixas.
一 A-Ah, sim! Bem-vindo! O que você vai querer hoje, Jinny? 一 Ela retoma a postura rapidamente com as duas mãos sobre a virilha.
O cabelo negro lustroso, os olhos azuis feito diamantes e a enorme cicatriz cortando o rosto na horizontal. Os brincos sobre as orelhas pontudas balançam e, com um sorriso no rosto, Jeanice põe uma das mãos sobre a bancada:
一 O leite com chocolate da espuma de gatinho e canela.
Sem perceber, a tensão sobre os ombros da atendente desaparece em meio a um riso contido.
一 O de sempre então. Vou fazer pra você. Só um instante. 一 Logo, ela dá meia-volta para mexer nos itens no armário.
Dessa forma, a mestiça se acomoda na frente do balcão. Brincando com os polegares das mãos e tendo os cotovelos escorados na superfície de madeira, ela ouve alguns sussurros interessantes vindo de dois clientes mais próximos da parede.
一 Você não acha que fazer um Vanaheim logo depois do que aconteceu em Kanthen é uma loucura completa? 一 um homem de cabelo curto encaracolado e orelhas finas pontiagudas disse para o outro.
一 Shh… Fala baixo. Esse assunto ainda está em sigilo, lembra? Eu sinceramente não acho que seja loucura. Em Kanthen foi um ataque surpresa pelo o que a Svartalfar do Sul comentou… 一 puxando com a ponta dos dedos uma vareta coberta de sal, esse rapaz com um laço colorido amarrado no bíceps responde.
一 Eu sei, mas ainda assim… já faz décadas que as forças da Fronteira estão se defendendo de Balmund. Os humanos são engenhosos, eu vi quando eu ainda servia. Se eles encontraram um jeito de passar por Yothergran, é uma questão de tempo até uma invasão completa. 一 O mestiço de cabelo curto comenta enquanto se ajeita no assento, revelando a falta de um dos braços.
一 Relaxa, cara. Mesmo se uma invasão acontecesse, soube que houve um conselho dos Sábios logo depois do incidente e, pelo o que parece, o Sábio dos Ventos foi encarregado de aumentar a intensidade das patrulhas entre Yothergran e as cidades 一 responde conforme balança lentamente a vareta em mãos.
一 Não sei não… O Sábio dos Ventos não conseguiu detectar os humanos de Balmund, o que garante que ele é capaz agora? E, aliás, soube que teve até uma explosão de Gluhen Puro lá perto da região onde tudo aconteceu. 一 Arregalando os olhos, o aposentado gesticula com o dedo indicador para o outro.
一 Que ceticismo… Você devia parar de acreditar em qualquer coisa e ter mais fé na nossa capacidade. A idade está te deixando paranóico, Loy. 一 Com um sorriso no rosto, o mais novo estreita os olhos.
一 Ah, vai às nuvens, vai. Não comento mais nada contigo. 一 Lentamente revira o rosto ao mesmo tempo que volta as costas sobre o encosto.
O barulho da porcelana entrando em atrito logo à frente chama a atenção de Jeanice que está de cabeça baixa.
一 O que você acha de tudo isso considerando que estava em Kanthen quando tudo aconteceu, Jinny? 一 sussurrando, a guaxinim seca as mãos em um pano.
A garota segura a xícara com as duas mãos antes de levantá-la, observando a figura de gatinho espumada e a canela fazendo seus bigodes.
一 Eu… acho que tudo vai dar certo! 一 diz com convicção enquanto bebe gole a gole 一 Arf…! 一 batendo o copo sobre a mesa, ela suspira quase sem fôlego.
“Raisel… tem tantas coisas que preciso te contar. Como será que você está? Parece que faz meses que não nos vemos… Chegue logo!” 一 Com os olhos distantes, mas encarando as próprias mãos, o canto dos lábios de Jeanice curvam-se.