Capítulo 155 – Caminhada Noturna
Capítulo 155 – Caminhada Noturna
Em meio às trilhas que dividem as barracas, diversas pessoas transitam incessantemente aproveitando um grande festival. Com as colunas gigantes distantes, pequenas estruturas cobertas com lonas estão montadas em uma área ampla e plana, o que faz Kravendel ter um ar diferente do dia ensolarado anterior.
O cheiro da culinária atiça a fome de alguns com insetos gigantes assados, carnes e vegetais fervidos sobre o vapor. As crianças e os mais jovens correm alegremente até os brinquedos de madeira, folhas e ramos, sejam os equipamentos para os futuros Viajantes ou os bonecos para os mais novos.
De frente para um barracão montado com tábuas brancas amadeiradas, uma meia-elfa de cabelos negros e olhos azuis veste uma máscara estranha, cujo detalhe mais chamativo são as bochechas bem infladas. Diante dessa mulher, crianças e adultos estão sentados no chão assistindo ao espetáculo.
Seu Gewissen enevoado azul claro forma círculos mágicos a partir da ponta da varinha e são rapidamente transformados em figuras e desenhos seguindo a sua fala:
一 Há muito, muito tempo atrás existia uma princesa de uma terra distante que ansiava poder ver o mundo. O reino dela respirava uma arte peculiar, onde fantasmas brilhavam como arco-íris e a música fazia parte do dia a dia 一 gesticulando a outra mão, os gestos expressivos acompanham o tom da voz variando a cada palavra dita 一 Mas, essa princesa possuía irmãos malvados que a tratavam diferente por causa das suas orelhas alongadas. Ela se sentia muito triste e sozinha, mas uma velhinha lhe apresentou o seu jardim e a ensinou sobre diversas flores…
一 Coitadinha da princesa, papai… Ela sofria igual a gente 一 Uma criança de mãos unidas vira o rosto com os olhos lacrimejantes para o homem ao lado.
一 É, mas tenho certeza que tem um final feliz… Continua escutando, Beatrice… 一 levando a mão até o topo da cabeça da menina, o adulto sorri com a peça sendo apresentada.
一 Depois do terrível desastre que afundou o reino da princesa em trevas, ela se escondeu em uma floresta na espera de um herói que pudesse salvá-la… e ele apareceu 一 Erguendo a ponta da varinha para cima, a silhueta de Raisel aparece em destaque no epicentro do círculo mágico.
一 Ele tinha uma energia brilhante como o ouro e era acompanhado de outros dois companheiros: um arqueiro confiável e uma mulher ruiva espadachim. Juntos, eles acolheram a pobre princesa da floresta e a auxiliaram para enfrentar o reino caído pelas trevas 一 descendo a ponta da varinha, a meia-elfa continua a falar ao projetar a silhueta de uma elfa sem rosto, mas sorridente 一 No fim, a princesa não pode salvar o seu lar, mas conseguiu encontrar amigos e, o mais importante, forças para lutar com as suas próprias mãos!
Ao apagar a ponta da varinha, a energia usada se dissipa pelo ambiente feito uma névoa azulada. Enquanto algumas crianças sorriem com os olhos brilhantes, outras permanecem com a testa franzida. Entretanto, a maioria dos adultos sorri com satisfação.
一 Não entendi direito, papai… Ela não salva a casa dela. Por que ela ficou feliz? 一 diz Beatrice.
一 Nem sempre a gente consegue tudo o que queremos… Ela perdeu a antiga casa, mas conseguiu pessoas confiáveis. Isso é mais importante do que qualquer coisa, filha.
A menina leva a ponta do dedo até a boca e volta a olhar a apresentadora. Retirando a máscara de bochechas infladas, ela revela o seu semblante com uma grande cicatriz de um lado a outro ultrapassando o nariz. Entretanto, mesmo tendo uma marca considerada feia, seu rosto faz os olhos da criança brilharem.
“E-Ela é linda como uma princesa…” 一 As mãos pequeninas espremem as próprias bochechas enquanto as sobrancelhas erguem.
A meia-elfa apresentadora cumprimenta parte da platéia com um sorriso de lábios. Suas pálpebras estreitas estão lacrimejando por algum motivo, mas ela seca as lágrimas com as mãos.
一 Jinny, terminou aí? 一 diz um mestiço de cabelo laranja, mas com algumas franjas grisalhas pela idade.
一 Ah sim, essa foi a última apresentação da noite. Tem mais alguma coisa que eu possa ajudar, senhor Hom? 一 Jeanice diz enquanto se aproxima do velho que está escorado na lateral do barracão.
一 Deixa disso. Você já ajudou muito a gente por hoje. Tenta descansar um pouco e curtir o festival. Amanhã de manhã, eu te dou algumas moedinhas. 一 O homem bate a palma contra as costas de Jeanice várias vezes.
Ela tenta fugir indo para frente e não demonstra uma expressão de dor ao encará-lo de canto. As orelhas pontiagudas descem e sobem por um momento, acompanhando o estender do seu sorriso de bochecha à bochecha.
一 Obrigadinha! Até depois.
一 Kuhum… 一 O senhor desvia o rosto ao pigarrear, mas as suas orelhas também balançam um pouco ao vê-la daquele jeito.
Acenando para o velho durante a despedida, a mulher segue em direção ao fluxo de pessoas. Desviando delas para encontrar o próprio caminho, as narinas sentem um cheiro doce e escaldante que a faz levitar por um mísero segundo.
“Aranhas-de-argila?! Pensei que eles faziam isso só em Kanthen!” 一 Os olhos se transformam em estrelas e garota acelera o passo até a direção do aroma.
Durante a corrida, ela esbarra em um homem que surge no seu campo de visão de repente feito um fantasma. Por mais que ela tenha quase dois metros, o tamanho dessa pessoa não fica tão para trás. Mas, ao colidir ombro com ombro, quem tropeça para o lado é ela.
一 M-Me desculpe… 一 olhando para o lado, as orelhas de Jeanice se abaixam.
Usando um colete e uma saia repleta de penas, esse rapaz possui uma máscara com a aparência de um leão, ou melhor, um monstro cuja juba oculta os arredores da cabeça.
一 Está tudo bem. Se machucou? 一 a voz abafada sai com um bom tom mesmo por debaixo da veste.
一 Não… Obrigado por se preocupar 一 baixando a cabeça levemente, os cabelos negros decaem e ela observa alguém do lado da pessoa mascarada.
Uma mulher meia-elfa de cabelos divididos em degradê entre o negro e o dourado encara Jeanice de volta. As bochechas dessa desconhecida inflam e, com mais força, ela agarra o braço musculoso do homem.
Com uma risada ligeira, o mascarado volta a falar:
一 Vamos indo então… Minha esposa está impaciente. Tome cuidado ao correr com tantas pessoas por perto. 一 Ele também faz um gesto respeitoso com a cabeça e volta a seguir o fluxo de ida.
Jeanice acompanha os dois por um tempo, mas acaba perdendo-os de vista.
“Ele tem uma presença familiar… mas desconhecida ao mesmo tempo. Que estranho…” 一 um suspiro escapa das narinas e ela continua o caminho até a barraca das aranhas-de-argila.
一 Sempre pensei que seu Gewissen conseguia esconder as coisas, amor 一 o rosto da meia-elfa com duas cores de cabelo se ergue para encarar o marido.
一 Ele oculta. Já fazer desaparecer é outra história. Demos azar de vir alguém correndo nessa muvuca toda. 一 Responde o mascarado com os olhos azuis escuros brilhando na mesma cor da energia que encobre ambos.
一 Viu alguma coisa de interessante até agora? 一 Katarina olha para os lados na busca de alguma barraca que chamasse a sua atenção.
一 Hm… A comida daqui não me agrada muito. As armas também são bem rústicas se comparadas ás de Balmund, mas a maneira como todos usam energia é intrigante… 一 Sob a lente de Olga, ele visualiza círculos feitos de Gewissen que nunca havia visto anteriormente.
A visão dele se torna afiada, captando com detalhes a formação circular e as runas dentro desses construtos. Eles estão presentes na lenha que aquece as panelas, nas pedras jogadas pelas crianças e, até mesmo, na iluminação das barracas como lâmpadas de borboleta.
一 Estamos passeando, sabia? Para um pouco de analisar as coisas como se fosse entrar em guerra ou algo assim… 一 as bochechas dela inflam novamente, mas murcham com um suspiro.
Ele enrijece o corpo ao perceber que a desagradou com esses comentários. Uma risada sem graça escapa da sua garganta.
一 Desculpa, amor… Tento sempre ver essas coisas pensando na sua segurança.
一 Sei… Ei, o que está acontecendo ali? 一 Tirando os olhos dele por um momento, ela percebe uma comoção de pessoas reunidas em um grande círculo.
一 Parece ser uma competição. Vamos dar uma olhada.
Acelerando os passos, o casal contorna as pessoas de pé e sobem em uma espécie de arquibancada elevada que está mais vazia. Acomodando-se na beirada de um dos degraus, Katarina antes passa a mão nas coxas para colar o vestido às pernas.
一 Pode trazer algo pra beber, amor? Fiquei com um pouco de vontade de tomar algo doce. 一 Brincando com os polegares, ela tem a atenção fixa na colisão brilhante dos Rascunhos dos competidores.
一 Tá bom. Vou ver se encontro algo assim. Não sai daí, em. 一 Aproximando dela, os lábios deles se tocam ao levantar a máscara por um momento.
一 Desse jeito até parece que eu sou criança. 一 Comenta ela com o rosto sorridente, por mais que esteja com parte do pescoço e ombro cobertos por bandagens espessas.
Ele apenas ri e se vira abaixando a máscara novamente. Ao partir sem a esposa, a energia azul escura passa a encobrir apenas Olga. Ele desce os degraus e entra novamente na multidão.
“A segurança aqui não é muito elevada… Alguns mestiços estão em prontidão, mas eles não passam de Cavaleiros de sétima prateleira. Talvez seja porque esse festival é mais humilde? É uma possibilidade…” 一 com a Constelação de Aquila aparecendo acima de sua cabeça, a íris dele se torna maior e passa a enxergar todos os arredores com precisão cirúrgica.
Entretanto, após confirmar a presença de cada guarda nesse espaço e o seu nível de força, um breve suspiro escapa de seus lábios. Quando a pálpebra baixa para piscar, Olga ouve o chiado de um guizo à esquerda.
Virando o rosto, uma cabana mais distante de todas e na pouca luminosidade, aparece na vastidão da planície.
“Desde quando aquele lugar está ali? Tem cheiro de problema…” 一 pensa enquanto continua a andar no fluxo normal.
一 “Espere, humano… Por que não vem até aqui dar uma olhada nos meus produtos? Tenho certeza que há uma coisa que é do seu interesse… Se me ignorar, tenha certeza que se arrependerá depois.” 一 A voz de um velho ecoa na mente do homem como uma dor de cabeça capaz de fazer sua vista estremecer por um instante.
O homem cambaleia por um instante, mas se recompõe ao desativar a Constelação acima de sua cabeça.
“Merda…! Sincronização?! Como?!” 一 pondo uma das mãos na cabeça, Olga fixa novamente o olhar sobre a cabana mal iluminada 一 “Não posso chamar muita atenção. Que droga!”
Aos resmungos, ele passa a caminhar até a cabana isolada. Ao se aproximar dela, afastou a cortina da entrada e avista um senhor de idade com orelhas imensas, barbudo e sem uma perna.
一 Não precisa fazer essa cara… Não quero confusão. Só dê um pouco de dinheiro pra esse velho… 一 diz batendo a ponta do cachimbo no cinzeiro 一 O caos de Kanthen vai afetar a sua estadia numa cidade tão maravilhosa quanto essa… Sei bem como é tempos difíceis por aqui. Veja isso.
Ele solta algo do punho na superfície do balcão.
一 Um par de brincos? 一 questiona Olga com uma voz seca.
一 Se você quer viver em paz por aqui, precisa de um desse. Você não vai encontrar esses em nenhum lugar civil de Roderich, é um artefato de camuflagem exclusivo dos Campanários. 一 O velho quase sem voz comenta enquanto maceta mais algumas ervas no fornilho.
一 Não faça joguinhos comigo. Por que você está me ajudando? 一 os olhos azuis brilhantes se tornam mais evidentes nas cavidades da máscara.
Para respondê-lo, o velho o encara mesmo com a região dos olhos queimada por uma cicatriz que parte da sua face. O nariz grande bufa movimentando a grande barba.
一 A sua esposa. Ela está doente com o Verdorren, não está? Se quiser procurar uma cura para ela, precisa pelo menos ter condições de sair por aí sem ser incomodado.
Ouvindo aquilo, a respiração de Olga se torna pesada e a energia azul escura transborda para os arredores, quase envolvendo toda a cabana. Entretanto, ele suspira e põe a mão sobre a bancada.
一 Como funciona e quanto você quer neles?
一 Os coloque e concentre um pouco de energia, simples assim… Me dê uma moeda de ouro balmundiana, pequeno cão. 一 A risada do senhor cego engasga em seus pulmões repletos de fumaça.
一 Tsc… 一 ele puxa os artefatos dentro do punho e arremessa a moeda na mesa 一 Espero que não esteja me enganando, ou eu volto para arrancar as suas orelhas.
Saindo da cabana enquanto o velho continua a rir loucamente, Olga retira a máscara da cabeça e encaixa os brincos. Ao injetar Gewissen, elas modelam as orelhas como as de um elfo.
“Parece que funciona… Vou perguntar para a Katarina quando voltar com as bebidas.” 一 Amarrando a máscara peluda no cinto, ele volta a caminhar pela multidão ainda camuflado.