Capítulo 163 – A Bruxa e o Herói
Capítulo 163 – A Bruxa e o Herói
一 Tem certeza que eu posso bater com toda minha força nesse treco? 一 Com uma marreta de madeira em mãos, Raisel encara o homem por trás do balcão.
一 Você tem a minha palavra! Não se preocupe, se quebrar, não vai precisar pagar nada! 一 o homem com monóculo e bigode abre os braços confiante em seu equipamento.
O garoto o encara com as pálpebras caídas enquanto uma gota de suor desliza pela lateral de seu rosto. Desviando o olhar, fixa a atenção sobre a placa de pedra na parede. O totem irradia energia azul e verde ao estar coberto por diversas raízes.
“Parece ser bem resistente mesmo. Será um artefato mágico? Bom… Hora de dar uma marretada nisso.” 一 Empunhando a haste da marreta com as duas mãos, posiciona a arma na lateral do corpo enquanto está com ela na altura da cintura.
Apontando o ombro esquerdo para o alvo, ele investe para frente. As formações do Circuito Artificial em seu interior se expandem cobrindo todo o corpo, o que faz a luz dourada de sua energia irradiar feito um vapor ralo através de sua pele.
O comerciante atrás do balcão não consegue parar de sorrir, mas o impacto da marreta contra a placa faz seu bigode subir como costeletas. Levado para trás com a pressão, ele bate as costas contra a bancada ao tombar de seu banquinho.
一 Nossa… Não fiz nem cócega mesmo 一 batendo com o dorso da mão no local onde a fumaça do golpe esvai, Raisel vira o rosto para o homem 一 Posso tentar de novo?
Tentando achar o monóculo perdido no próprio rosto, o homem se levanta enquanto se aproxima do garoto, esfregando as mãos ao encará-lo com os lábios curvados para cima, mas trêmulos.
一 E-Então, ele precisa de um tempo pra recarregar, sabe? Por que não tenta de novo out-tra hora? 一 uma risada sem graça escapa dos seus lábios.
Raisel muda o foco da vista para a placa de pedra, depois para o rosto do homem e, por fim, na marreta em suas mãos.
一 É, faz sentido. Foi bem divertido, valeu por me chamar! 一 estendendo a arma para o comerciante, o garoto relaxa os ombros soltando um suspiro.
一 De nada! T-Tchau tchau! 一 olhando os arredores após a saída de Raisel, o homem puxa as cortinas de sua barraca e vai direto para o artefato.
“Garoto miserável! Que força era essa? Comprei essa placa hoje e tive o azar de chamar logo um brutamontes de braços finos testá-la!” 一 Passando os dedos nas arestas da placa junto com a lupa em seu monóculo para identificar qualquer rachadura, o comerciante se afasta.
Um vapor escapa de seus lábios em forma de biquinho antes que ele se acomode no banquinho outra vez.
O fluxo de pessoas do lado de fora continua mesmo após longos minutos de caminhada. Com as mãos guardadas nos bolsos da calça, Raisel segue adiante passando por uma calçada repleta de pessoas. Encarando um pouco lá e um pouco cá, muitos trafegam pelas ruas montados em animais domados. No céu, o espaço é restrito aos Feiticeiros que voam sobre seus Círculos Mágicos.
“Deu pra descontrair um pouco… Será que se concentrasse energia na marreta diretamente, eu conseguiria quebrar? Vai saber… mas acho que isso daria prejuízo pro senhorzinho.” 一 Pensa o garoto ao parar em frente a outro estabelecimento, próximo de um grande prédio cilíndrico.
Observando crianças atirando pedras em itens expostos em uma fileira de tábuas, a gritaria e o incentivo o fazem abrir um singelo sorriso. Entretanto, os olhos se estreitam ao lembrar da conversa que teve com Yolina e os Selvagens.
“Enquanto eu puder evitar um derramamento de sangue, essas crianças vão poder brincar, aproveitar a vida com suas famílias e crescer tranquilamente…” 一 Voltando a caminhar, Raisel ergue o rosto, apontando-o para a lua quase no topo do céu.
“Violência não é a resposta para tudo. Tenho certeza que os Elfos Impuros vão conseguir achar seu lugar enquanto conseguirem sorrir.”
Continuando o passeio pela cidade, o menino se perde no meio da multidão enquanto as barracas se tornam pequenos pontos, próximos aos edifícios gigantes. As luzes espalhadas por todas as construções e nas ruas deixam a vista como se as estrelas estivessem em terra.
一 Pessoal, por aqui! A apresentação do Gelo e do Fogo irá começar! 一 Gritando na frente de uma grande construção de madeira que mais se parece com um casarão, um homem mascarado e com rabo de lagarto agita uma grande placa de madeira.
“Apresentação do Gelo e do Fogo? É tipo um teatro?” 一 Acompanhando um fluxo de pessoas, Raisel sem perceber acaba sendo atraído até dentro do estabelecimento.
“Merda… Acabei entrando. Só espero que não demore muito.”
Descendo algumas escadas após uma porta à direita, o palco brilha com a ajuda de incontáveis faixas luminosas penduradas nas paredes e esticadas sobre o chão.
Acomodando-se no fundo da platéia em um dos pontos mais altos, o garoto apoia as costas na parede atrás de si e cruza os braços.
Nesse instante, as faixas nas laterais do cômodo e no chão começam a ferver, mudando as suas cores fluidamente em um degradê azul e laranja.
Com o palco escurecido, apenas um feixe de luz desce revelando uma figura mascarada de cabelos negros compridos e orelhas pontiagudas no centro.
O silêncio da plateia vem acompanhado por uma onda generalizada de curiosidade.
一 Era uma vez, uma aldeia qualquer cercada por vastos campos de trigo. Em uma noite dentro de uma das casas humildes, um par de gêmeos nasceu da mesma barriga. Um deles tinha cabelo branco feito a neve e olhos azuis como diamantes. O outro tinha dentes ferozes e cabelos vermelhos como o fogo. Seus nomes eram Skoll e Hati 一 a voz calma da apresentadora faz aparecer um par de círculos a cada lado, representando a cor de cabelo dos gêmeos 一 Eles cresceram, mas nunca se misturaram. Muitos duvidavam que fossem irmãos, pois nunca entraram em acordo.
Raisel contrai mais a testa a cada fala da apresentadora. Levando uma das mãos até o queixo, algo o deixa pensativo.
“Essa voz é… familiar.”
O cenário apagado se revela com desenhos de montanhas nevadas, com os campos completamente congelados.
一 Já adultos, um inverno rigoroso caiu pela região. Seus pais, debilitados pela idade, não conseguiriam sobreviver à fome e ao frio. Skoll havia se tornado um hábil mercador enquanto Hati era muito bom caçador. Entretanto, eles ainda se odiavam. Durante um dia nublado quando Skoll estava sozinho em casa, ele olhou para o sol encoberto pelas nuvens e pensou ‘Se eu pudesse ter o calor dele, eu acabaria com o inverno’ 一 a apresentadora levanta o braço esquerdo, fazendo com que todo aquele palco fique predominantemente em cores quentes.
一 As horas passaram e a lua se revelou no céu sem nuvens. Hati havia voltado para casa enquanto Skoll viajava com suas mercadorias. Encarando a lua brilhar, o rapaz de cabelos vermelhos pensou ‘Se eu pudesse ter a elegância dela, eu jamais pararia de reluzir’ 一 levantando o braço direito, o palco se acende em azul-claro em cores frias.
Com o palco dividido entre as altas temperaturas e a nevasca, a mulher em destaque juntou as palmas.
一 Os anos passaram, mas o inverno não. Hati enterrou seu próprio pai, enquanto Skoll fez a lápida da própria mãe. Desejando o que estava mais distante, já na velhice entenderam que o valor das coisas sempre está no mais simples. No fim, eles nunca olharam um para o outro realmente e passaram toda a eternidade com suas almas amarguradas, cada um cobiçando as melhores qualidades do outro.
Ouvindo aquilo, uma das sobrancelhas dele se ergue enquanto está com a testa franzida.
“Que história mais complicada. Não entendi nada… Acaba assim? Com os dois morrendo sem resolver nada?” 一 coçando a cabeça, os olhos dourados brilham sob a escuridão.
A apresentadora se curva em uma reverência elegante em meio à onda de aplausos. As cortinas do palco começam a se fechar e ela ergue o rosto para vê-los. Os olhos azuis-claros por trás da máscara cintilam ao alcançarem o fundo do local.
Aquele brilho faz o coração dela palpitar com mais intensidade por um momento, mas as cortinas cortam a sua visão.
一 Mandou bem, Jeanice! 一 Escondido na lateral do palco fora da vista dos espectadores, um rapaz de orelhas pontudas faz um joinha.
Retirando a máscara às pressas, a mulher revela sua cicatriz no rosto.
一 Gilmor! Tem mais alguma apresentação logo na sequência?! 一 Ofegante, ela se aproxima do rapaz em passos largos.
一 N-Não, acho que para agora não. Por que–
Antes que Gilmor consiga terminar a frase, a garota alta dispara feito um míssil para os fundos. Ela pega pelo caminho um manto e um par de óculos até sair por uma porta fora do fluxo de pessoas.
Correndo com todo o coração para circular o estabelecimento, ela se vê diante das pessoas saindo do casarão após a apresentação.
一 C-Com licença! Passando… Desculpa! 一 Em meio aos trancos e barrancos, Jeanice se esgueira entre as pessoas enquanto procura incessantemente pelo garoto de olhos dourados.
Até que ela o vê.
Estendendo a mão para agarrá-lo, o rapaz a percebe no último momento. Puxando o pulso da pessoa desconhecida, acaba por fazê-la rodar no ar e cair de costas no gramado.
一 Ai! Ai! 一 Apertando o pulso do menino, Jeanice esperneia ao berrar.
一 Quem é você? 一 questiona Raisel com as sobrancelhas baixas e os olhos estreitos.
一 S-Sou eu! A Jeanice… 一 ela sussurra o próprio nome baixinho.
Escutando o nome, o rapaz arregala os olhos, solta seu pulso e imediatamente a ergue pela cintura para colocá-la sobre o ombro.
一 O-O que você tá fazendo, R-Ray?
Com um impulso explosivo para cima e o som abafado pela técnica que faz as panturrilhas dele saltarem, ele some da vista da multidão com Jeanice sobre o ombro. Caindo lá do alto e perdendo altura de pouco em pouco, os pés vão amortecendo a queda ao pisar em Círculos Mágicos feito escadas até parar em cima de um telhado qualquer.
Ali, ele agarra Jeanice pela cintura e a coloca de pé feito uma boneca.
一 P-Por que você tá de máscara? Ou melhor, desde quando você ficou boa em contar histórias?! 一 chacoalhando-a, o rosto apontando para cima reflete a diferença de alturas entre eles.
一 E-Espera! Me larga! Desse jeito você vai… me entortar! 一 se livrando das mãos dele, ela dá alguns passos para trás e se apoia nos próprios joelhos. 一 Arf… Arf… 一 Respirando fundo, Jeanice ergue o torso e retira a máscara enquanto suas orelhas balançam para cima e para baixo, revelando seu sorriso.
一 Kuhum… Eu não sou mais uma mera Bruxa da Floresta. Eu agora faço parte do Comitê de Arte de Kravendel, uma das pessoas mais famosas dessa cidade. 一 Ela põe a mão no peito e sobe o nariz.
Boquiaberto com aquilo, uma brisa passa silenciando a conversa abafada das pessoas na rua.
Raisel balança a cabeça por um instante.
一 Eu… definitivamente não esperava que a tímida Jeanice virasse uma contadora de histórias! 一 uma gargalhada ecoa pelo telhado junto da palma que desce até a barriga.
Com a reação dele, a mulher infla as bochechas e inclina o corpo para frente, corcunda como costumava ser. Então, ela joga a capa no rosto do rapaz.
一 Não precisava rir, tá legal? Foi uma ideia do Tejin… e da Ema. 一 Os lábios se curvam para cima, mas as pálpebras permanecem baixas.
Ouvir o nome daquelas pessoas também faz a risada de Raisel parar.