Capítulo 174 – O Feiticeiro dos Punhos
Capítulo 174 – O Feiticeiro dos Punhos
Os olhos dourados se abrem repentinamente e encontram os feixes de luz escapando por trás das cortinas da janela. Sentando-se sobre a cama semelhante a uma grande almofada, Raisel estala as costas torcendo a cintura de um lado para o outro antes de se levantar.
Arreganhando completamente as cortinas, o quarto de Raisel fica totalmente visível e demonstra ser espaçoso o bastante para ser considerado como um pequeno apartamento.
Poucos minutos depois, ele sai do quarto após se arrumar e se depara com o homem-coelho em meditação profunda no centro do hall onde todas as outras entradas dos quartos estão.
O moreno levanta as pálpebras lentamente. Os olhos amarelos do homem chamam a atenção do garoto e, de um segundo para o outro, se tornam vermelhos novamente.
一 Bom dia, Raisel. 一 A voz grossa e grave combina perfeitamente com a aparência parruda e a enorme estatura dele, mas, para contrariar essa imagem, as orelhas de coelho no topo da cabeça dele se agitam levemente.
一 Bom dia, Heireika. Acordou bem cedo… Já foi tomar café? 一 ajeitando a gola alta da regata-polo, o rapaz se aproxima do companheiro.
O moreno de cabelos brancos balança a cabeça. 一 Mas soube de algo importante. O Sênior Irlain veio aqui mais cedo nos informar que a data da segunda partida já está definida 一 apoiando-se com uma das mãos no joelho, Heireika se ergue 一 Ela acontecerá daqui três dias contra o Grupo Três.
Ao estar de pé, a diferença de estatura entre eles chega a ser engraçada. Enquanto o coelho tem pouco mais de dois metros, o garoto tem cerca de um metro e setenta. Por isso, Raisel precisa erguer o rosto para encarar o colega nos olhos.
一 Então ainda tem bastante tempo para passearmos pela cidade e nos conhecermos melhor. Vou tomar café, quer vir comigo? 一 o garoto passa por ele, dando um soquinho em sua costela.
O coelho se arrepia inteiramente com o toque, fazendo a sensação subir como uma onda de choque até a nuca.
Virando-se com as orelhas baixas, ele acena com a cabeça.
一 Não estou acostumado com contato cotidiano assim. A minha pele é… bastante sensível 一 diz Heireika, direcionando o rosto para as costas do pequeno companheiro.
Cessando a caminhada, Raisel se vira parcialmente e o encara com as sobrancelhas levantadas.
一 Mesmo? Foi mal. Você parecia ser mais durão 一 de soslaio, o garoto o encara enquanto volta a seguir até as escadarias adiante.
O semblante do grandalhão se torna rígido ao escutar aquilo e ele continua a acompanhar Raisel.
一 Eu sou durão, mas contato físico surpresa… e pessoas com ‘intenções duvidosas’ me deixam em alerta 一 os ombros dele murcham junto de uma das orelhas animalescas.
Erguendo uma das sobrancelhas, Raisel contém uma risada ao levar o punho até a frente dos lábios.
一 É por isso que você evita a Lhest? Ela parece te encarar com ‘intenções duvidosas’… 一 “Com todo esse tamanho, ele tem vergonha por o acharem bonito? Isso é bem fofo.”
Os dedos indicadores de Heireika, cobertos pelas manoplas metálicas, batem um contra o outro enquanto ainda encolhido de timidez.
一 Não quero falar sobre coisas ruins… Só de pensar na sensação, já me faz querer sair correndo.
Uma gargalhada seca escapa da garganta de Raisel dessa vez.
Após descer as escadarias, ele abre a porta para o gigante tímido passar e se encaminharem até a cidade, descendo pela trilha que segue à base da montanha.
Com longos minutos de caminhada, eles se aproximam da estrada central de Kravendel. Os pássaros-montaria sobrevoam a cidade, acomodando-se no espaço de pouso no topo dos prédios alongados como pilastras.
Os cidadãos despertam abrindo as suas janelas e seus comércios em barracas entre os vãos dos edifícios.
A dupla continua conversando entre breves trocas de olhares na margem da avenida principal.
一 Já desconfiava que você era um lutador pelo seu corpo. Eu também pratico uma arte marcial, mas não consegui aprender muito sobre ela. Treinei por uma semana com a mestra do estilo e consegui extrair só os princípios básicos antes de vir pra cá 一 comenta Raisel, percorrendo o olhar sobre o ambiente.
一 Não são muitas pessoas com essa sua capacidade de leitura. Jamais esperam que um feiticeiro possa ser poderoso à curta distância 一 Heireika também visualiza os arredores com um sorriso sutil no rosto 一 Se quiser, podemos trocar alguns golpes quando voltarmos. Ficarei feliz em te apresentar a minha arte e conhecer a sua.
一 Sério? Bom, eu vim de Balmund e lá é bastante comum esperar que os guerreiros sejam habilidosos tanto no combate à curta quanto à longa distância 一 o rapaz põe as mãos nos bolsos da calça e abre um sorriso de orelha a orelha 一 Vai ser um prazer trocar golpes com você.
Porém, após dizer isso, um relâmpago corta dentro da sua mente. Os olhos se fixam no horizonte assim que ele interrompe a caminhada. Retirando uma das mãos dos bolsos, o garoto coça a cabeça por alguns instantes.
一 Onde fica aquela ‘Cafeteria da Guaxinim’? 一 erguendo o rosto, ele encara o brutamontes.
Assumindo a liderança com um passo à frente, o homem com cavanhaque e cabelos brancos põe as mãos nos bolsos traseiros da calça como se procurasse alguma coisa.
一 É por ali… 一 de soslaio, os olhos vermelhos se fixam em Raisel 一 Mas você tem dinheiro para pagar?
Eles travam no lugar. Em silêncio, o baixinho e o grandalhão se encaram. Uma cachoeira escorre da face de Raisel que força um sorriso.
一 Você sabe uma forma de conseguir dinheiro fácil? 一 pergunta o garoto encolhendo o próprio pescoço e erguendo os ombros.
Novamente, o moreno musculoso nega com a cabeça. Mas os olhos dele se arregalam de repente. O rosto se volta para o horizonte, fixando-se no topo de um prédio a centenas de metros dali.
一 O que foi?! 一 assustando-se com o movimento brusco do colega, Raisel também procura o que ele está observando.
一 Senti alguém poderoso me observando no alto daquele prédio, mas desapareceu no mesmo instante 一 diz o coelho com as pálpebras estreitas.
Raisel suspira com os ombros murchos e começa a caminhar pela cidade com a companhia de Heireika.
一 Achei que era alguma coisa perigosa… O que não falta aqui é gente forte.
Eles param em cada canto de comércio perguntando sobre algum serviço para ganhar alguns trocados. Entretanto, tudo o que recebem são pedidos de autógrafo pelas pessoas da rua. A multidão de fãs os perseguem onde quer que vão e, sem alternativa, eles se veem diante da montanha até o pequeno palácio de repouso.
O garoto leva uma das mãos até a barriga roncando. Atrás dele, o coelho está com as bochechas murchas de tanta fome.
Sentada em cima dos muros que envolvem o território, Lhest está contemplando a paisagem enquanto recebe as brisas abafadas do fim da manhã. Ao notá-los, ela abre um sorriso no rosto.
一 Que caras são essas? Não foram na Guaxinim?
一 Estávamos sem dinheiro… 一 diz Raisel conforme se aproxima dos portões de entrada.
Escutando aquilo, a mulher-touro paralisa por um instante e depois cai para trás de tanta risada. As gargalhadas escandalosas fazem diversas veias subirem na testa do rapaz.
一 Não entendi de onde saiu tanta graça 一 ele estende a palma até as grades e elas se abrem sentindo a sua energia.
Logo atrás de Raisel, Heireika também passa para o lado de dentro.
一 Desculpa, mas vocês foram muito idiotas… 一 a voz de Lhest acompanha a sua queda à frente deles, aterrissando com o som das suas botas de salto alto 一 Se não tinham dinheiro, era só voltar e comer no refeitório com os outros.
Ela seca as lágrimas com as costas da mão e se vira enquanto sua cauda de touro balança algumas vezes.
一 Vou mostrar onde é pra vocês. Venham, seus cérebros de músculos.
A testa repleta de veias pulsando, o rosto vermelho de raiva e os olhos dourados caídos com o péssimo humor, desaparecem assim que a barriga está dura de tanto comer. Agora, os olhos sorriem de felicidade e os dentes aparecem brilhando com os lábios estendidos de orelha a orelha.
一 E pensar que até comida oferecem de graça 一 o garoto dá um tapa na própria barriga.
À frente dele, Heireika põe o punho à frente da boca antes de começar a falar.
一 Eu também não sabia… Deveria ter me informado melhor.
Uma vasta sala com paredes distantes e um espaço imenso vazio os cercam. O chão preenchido por pisos quadrados de concreto torna o lugar uma ótima sala de treinamento.
一 Ah, relaxa. A gente deu mole, mas também a Sênior e os veteranos esqueceram de falar isso 一 o rapaz começa a alongar as pernas, flexionando apenas um de seus joelhos enquanto o outro se estende apoiado sobre o calcanhar 一 Mas aí, como você quer fazer nosso exercício?
Enquanto o escuta, o grandalhão desacopla as manoplas de metal e as comprime para dentro do seu Armazenador pendurado na cintura. Os punhos morenos se revelam com diversas cicatrizes, cravejado completamente em todos os ossos dos dedos.
一 Vamos trocar alguns golpes, mas sem acertar o abdômen e o peito 一 diz o coelho, apalpando o próprio pulso.
Erguendo-se após alongar as pernas, Raisel respira fundo. A mão esquerda aberta permanece à frente enquanto a direita se aproxima do maxilar. Os pés acompanham essa disposição, mantendo a perna esquerda na dianteira e a direita como base.
一 Entendi. Quando quiser! 一 franzindo a testa, os olhos dourados brilham com mais intensidade ao expandir seu Circuito Artificial por todo o corpo.
A pata direita do coelho esmaga o chão abaixo ao ser colocada para frente. O punho é resguardado ao lado da costela enquanto a palma esquerda aponta em direção ao adversário. Os joelhos dele se flexionam levemente e, assim como o garoto, os olhos vermelhos brilham em amarelo com a sua energia.
As narinas dele soltam um vapor pesado como um maquinário. Isso faz os ombros de Raisel estremecerem e suas sobrancelhas saltarem.
Diferente do homem tímido de poucos minutos atrás, agora a sua presença é imponente o suficiente para que uma gota de suor caia sobre o chão, separando-se do queixo do rapaz.