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Capítulo 1 – Estrela com Cauda

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Capítulo 1 – Estrela com Cauda

Os campos verdes são simples e imaculados. Um frescor de uma paisagem imaculada pelas grandes capitais sob o comando do Soberano da Guerra. O cheiro é como um ar puro, magnífico de vegetação úmida… Esse é o antigo lar do rapaz.

No topo de um morro mais afastado das outras casas do vilarejo, uma janela de madeira se abre bruscamente. Dentro da residência e de frente para a abertura, o garoto respira intensamente a brisa refrescante daquela manhã conforme o cabelo castanho médio balança com a correnteza.

一 Boooooooom diiiiaaaa! 一 exclama Raisel em um grito logo no início do dia.

Os pássaros próximos voam de susto e a voz ecoa morro abaixo. Por fora do quarto daquele menino, os passos pesados rangem pelo assoalho de madeira. Parando de frente para a porta, uma figura alta de barba e cabelos longos grisalhos diz:

一 Acordou cheio de energia hoje, Ray… 一 a voz do velho é calma e tranquila, mas também carrega um riso breve pela cena que sempre se repetia quando o garoto estava de bom humor.

Ele continua pelo corredor transportando um barril com braços largos. Um físico excelente até mesmo para alguém décadas mais novo. Trata-se de um senhor entrando na terceira idade, no auge dos cinquenta anos.

一 Claro! Hoje eu definitivamente recebo o meu Glanz e aí vou poder ficar mais forte que você! 一 Estendendo aquele sorriso de bochecha a bochecha, o garoto desce da cama e vai até o homem alto que seguia para o lado de fora da casa.

一 Seria bom caso você ficasse mais forte mesmo 一 ao abaixar, o barril esmaga o gramado enquanto o torso se levanta 一 Mas não precisa apressar as coisas. Não é por só receber um Glanz que você vai me superar ou vencer todo mundo…

Virando-se para o menino, a mão de Yurga pousa sobre a cabeça dele, chacoalhando-o de um lado para o outro.

一 Uh… uh…  Eu não sou mais criança, tá legal? Eu já tenho quinze anos! 一 reclama Raisel enquanto se desprende do palmo enorme do mestre.

一 Hm… É mesmo? Então vai levar esse barril pro Tejin, seu adulto de meia-tigela! 一 Yurga dá alguns passos para trás rindo e, oegando alguns centímetros de distância, o velho dá um chute na bunda do garoto que o tira do chão por alguns milímetros.

O golpe faz o tampinha tropeçar nos próprios passos, mas, impressionantemente ele permanece de pé.

一 Hmpf… Tu vai ver só, folgado! 一 retruca o menino com um semblante nada contente e esfregando as nádegas.

Ao aproximar-se do barril, ergue o objeto com ambas as mãos até o peitoral. Os braços começam a tremer com o peso daquilo, porém as palmas não se soltam. Com os dedos quase cravados sobre a madeira, ele passa a caminhar lentamente…

“O que caralhos tem aqui dentro?! O vovô tava carregando sem nem suar! Eu tenho que conseguir fazer o mesmo…!”

De passo em passo, o garoto inquieto desce a trilha até o vilarejo.

…

Após alguns minutos, o menino resolve fazer uma pausa já no começo da vila.

O barril é solto no chão com cuidado. O antebraço é usado contra a testa para tirar um pouco do suor.

Parando ali, Raisel observa os arredores com as bandeirinhas espetadas de uma casa à outra, as lanternas penduradas e as barracas de madeira construídas dividindo a rua.

“Será que vou ganhar a Constelação de Aquila por treinar com o vovô nesse Festival? Talvez… O irmãozão Olga é de Aquila também… Mas não tenho relação de sangue como eles…” 一 os olhos pesam levemente para o chão, mas ele escuta algo próximo.

Sob a vista do horizonte, três crianças de cabelos esbranquiçados como a neve acenam para ele. O mais energético tem cabelo espetado, o outro garoto com franja é mais tímido e, por fim, uma menina de maria-chiquinhas apenas observa sorridente.

一 Você vai vir brincar com a gente hoje depois do almoço, irmãozão!? 一 com as duas mãos próximas aos lábios durante o grito, Kali – o mais animado – tem uma espada de madeira pelas costas.

一 Vou sim! 一 e fez um “jóia” para eles.

Após a confirmação, os trigêmeos pulam de alegria e voltam a correr pelos campos.

O rapaz sorri e volta a carregar o barril até o destino.

…

Raisel finalmente chega em frente a casa do comerciante do vilarejo: a maior de todas elas. Parado em frente à porta, ele tenta observar pelas janelas enquanto o chama:

一 Tejin! Tá aí?! 一 grita ainda do lado de fora.

一 É você, Ray? Tô aqui nos fundos! 一 a voz masculina afiada acompanha som de uma pá cavando o chão.

Arqueando uma das sobrancelhas, o menino fica curioso sobre o que ele está fazendo no pomar tão cedo.

Circulando a casa para encontrá-lo, Raisel finalmente o vê: vestindo o seu sobretudo branco, o monóculo no olho direito, as orelhas pontudas e o cabelo negro como a noite, sem sombras de dúvidas é o Tejin agachado em frente à algumas mudas.

一 Já tô terminando aqui… São os materiais que eu pedi pro seu avô?

一 Não sei, ele não me disse o que é… Mas deve ser, tá bem pesado.

一 Pode deixar aí… Já tomou café da manhã? 一 o meio-elfo se levanta enquanto limpa as mãos de terra em um pano sobre as coxas.

一 Pior que ainda não… 一 com alguma fome, Raisel coloca a mão na barriga.

一 Pode pegar uma fruta ali como agradecimento. Fala pro Yurga que eu sou grato pela ajuda. 一 Ele retira uma varinha da cintura e aponta para o barril.

A energia do comerciante envolve o objeto que começa a flutuar seguindo a ponta brilhante; conduzindo-o.

“Ele faz isso com tanta naturalidade… Ser um Feiticeiro deve ser bem legal.”

Em alguns passos ao dispersar a sua atenção para os arredores, o jovem se aproxima de uma árvore com frutos azulados e retira um daqueles para comer, apesar de não saber qual fruta é aquela.

Na mordida, o sabor adocicado surpreende o menino que arregala os olhos.

一 Caramba, isso é gostoso! Qual é o nome dessa fruta?

Com alguma risada breve, o homem responde: 一 Tifra, é típica do Reino de Klagum. Ela é amarga, mas o Kimich me ajudou a deixá-la doce. 一 ao dizer, Tejin contorna a casa para guardar o barril.

一 Klagum? Não é o nome do lugar que a Calamidade da Doença destruiu? 一 Raisel acompanha o comerciante estando logo atrás dele.

一 É sim, mas pelo o que eu soube, ainda tem algumas coisas lá… Então não foi tudo destruído.

一 Hm… E por que o Kimich deixou essa fruta doce? Ela é tão ruim assim normal? 一 o mastigar crocante acompanha os lábios e as bochechas infladas que sentem a textura áspera do fruto.

一 Essa Tifra tem outro nome que você com certeza já ouviu. Sabe a “Fruta dos Pesadelos”? É essa fruta aí.

Ouvindo isso, os olhos do menino por pouco não saltam para fora e ele engole no reflexo.

O barril é deixado na sala usada como armazém com diversos outros caixotes.

一 Queeee? Aquela fruta que te mata na primeira mordida!? 一 Pondo o ombro para trás, o arremesso para arremessá-la para longe está feito.

一 Relaxa, relaxa… É brincadeira. Essa aí é outra Tifra. 一 Ajustando o monóculo com uma das mãos, a lenta ofusca os seus olhos azuis.

Em um suspiro aliviado, o garoto volta a comer novamente com um olhar estreito.

一 Orelhudo maldito…

Tejin ri conforme conta algumas moedas de cobre e prata: 一 Talvez, talvez… Toma, me faz um favor. Leva esse dinheiro pra senhorita Carmen.

一 Beleza, mas em troca, deixa mais algumas dessas Tifra no jeito pra mim.

一 Combinado.

O comerciante sorri e entrega o saquinho com moedas para Raisel, que agarra com a mão esquerda e sai.

O comerciante então fecha a porta da casa após se despedir.

“Senhorita Carmen, né…”

Ao pensar na mulher, a única imagem que lhe veio à mente do rapaz são os seios dela.

“Que merda!”

Chacoalhando a cabeça para os lados, Raisel dissipa essa imagem impura e se apressa ainda envergonhado.

…

Aproximando-se do seu destino, do lado de fora, a mulher ruiva trabalha cortando alguns coelhos que haviam sido pegos por Yurga e Raisel anteontem.

一 Bom dia, senhorita Carmen… 一 diz com as pálpebras estreitas e a testa azul conforme um suor frio passa pela sua nuca.

A açougueira bastante concentrada ouve a voz de Raisel e sorri gentilmente.

一 Rayzinho, bom dia! Como você tá? 一 a típica voz de uma mulher madura, mas com um tom adocicado feito a fruta que acabara de comer.

Era difícil para o garoto se comunicar com ela encarando-a nos olhos.

一 Urgh… Bem, bem… E você? 一 com certa agilidade, ele desvia o olhar e se vira de lado para ela.

Carmen suspira pelas narinas com essa atitude e apoia a bochecha sobre a sua palma esquerda.

一 Eu… vou ter que te pendurar no teto de cabeça pra baixo igual eu fiz com o Yurga pra você aprender a conversar com as mulheres, Rayzinho?~ 一 O martelo finca sobre a bancada com agressividade; decepando o osso de uma das pernas do coelho.

O garoto se arrepia inteiro e rapidamente se vira para ela em choque.

一 M-M-Me desculpa, senhorita Carmen!

No ritmo turbulento dos passos de uma bota, os cabelos ruivos longos balançantes se aproximam das costas da mulher.

一 Mãe, já disse pra você parar de assustar as pessoas desse jeito! 一 com um tapa na nuca da baixinha, a filha de Carmen, Raquel aparece para salvar o dia.

一 Ai… Eu só estava brincando com ele. Era brincadeira… 一 A mulher de meia idade ponha uma das mãos sobre a ardência, mas de modo dramático, está quase chorando.

Raquel coloca uma tigela de vidro sobre uma mesa ao lado. Essa tigela, cheia de grãos, ervas e temperos, provavelmente seria para passar na carne dos coelhos.

一 Desculpa por isso, Ray… Você sabe que é o jeito dela demonstrar carinho fazendo essas coisas, né?

Diferente da mãe, Raquel é uma menina mais esguia e calma, bastante bonita com os olhos azulados e alta.

一 Tá de boa… Obrigado por ajudar. 一 Raisel respira fundo e sorri ao vê-la. Sempre se sente mais confortável ao tê-la por perto.

一 Eu trouxe esse dinheiro que o Tejin mandou. Quer que eu coloque lá dentro?

一 Não precisa. Pode me entregar. 一 com um semblante terno e as bochechas levemente rubras ao ver Raisel, a menina estende uma das mãos para pegar o amontoado.

一 Aliás, Ray, tem alguma coisa pra fazer agora?

一 Não, por quê?

一 Tá faltando um pouco de lenha… Eu e a mamãe estamos ocupadas… Você pode pegar um pouco pra gente? Aí você leva comida pra almoçar com o senhor Yurga.

Após ouvir, o rapaz parece pensativo ao desviar os olhos para o céu.

“Com a Raquel aqui, é mais tranquilo lidar com a Carmen… O velho também gosta da comida delas. Parece bom…”

一 Beleza. Precisa de quanto?

一 Corta o suficiente pra três dias. É só pra não ficar faltando na hora do festival mais tarde.

一 Certo.

Os dois jovens estão hipnotizados um no outro.

Vendo de fora, Carmen curva o canto da boca ao notar “climinha” entre eles.

一 Rayzinho… quando você vai me dar netinhos? 一 tendo uma das mãos na bochecha, os olhos reviram como se não aguentasse mais esperar.

Todavia, ao ouvir aquilo, tanto Raquel quanto Raisel travam.

一 M-MÃE!

Raquel é a primeira a sair da paralisação e a balançar a senhora pelos ombros de um lado para o outro. Totalmente avermelhada como os cabelos, a jovem deseja enfiar a cara em um buraco enquanto a cruel Carmen apenas ri.

Raisel, por outro lado, apenas segue sem graça com um riso. Então, pouco a pouco, se afasta para os fundos da casa em busca de cortar a lenha para as mulheres.

“Eu me casar com a Raquel? Já pensei nisso algumas vezes… Mas ter filhos? Nem pensar, ainda é muito cedo…”

Colocando um tronco após o outro, Raisel brande a machadinha com excelência.

“Eu quero ser um Nômade. Viajar por todo o continente, indo do sul ao norte de Wynward como os heróis dos livros… Só que pra fazer isso com menos riscos, preciso de um Glanz.”

O machado divide a madeira em tabletes repetidas vezes, de cima para baixo.

“Uma benção de uma Constelação faz total diferença. O vovô me disse que, por mais que as pessoas possam ter seus poderes usando só a nossa energia, o Gewissen, a interferência de um Glanz para amplificar essa capacidade individual é indispensável, fora o benefício de ter um fluxo interno de energia mais capacitado…” 一 Conforme os pensamentos vão, o tempo passa muito rápido.

…

O transe do rapaz é interrompido pela voz de Raquel gritando com a senhorita Carmen.

Com um sorriso no rosto, o menino abraça os tabletes de madeira no chão e vai para dentro da casa tendo dificuldade para ver com a pilha na frente.

一 Raquel, terminei… Coloco no armazém?

Acelerando os passos até ele, a menina chega enquanto arruma o cabelo para trás da orelha.

一 Sim, por favor. Obrigada, Ray…

De forma meiga, a ruiva se aproxima pela lateral dele. Os dedos delicados pousam sobre o ombro do garoto, quase o puxando. Com o calor de seu rosto repleto de sardinhas pela proximidade, o cheiro de seu perfume de lavanda infiltra no nariz dele sem permissão. Então, os lábios úmidos tocam a bochecha de Raisel. Mas tão rápido quanto esse instante, a menina deixa o cômodo.

Em choque com o que acabou de acontecer, Raisel desvia o olhar com as sobrancelhas franzidas e parte pro armazém com cuidado.

“Toda vez que ela faz isso, meu coração quase para…”

Saindo pelos fundos após deixar a lenha, ele se senta para meditar do lado de fora até o almoço ficar pronto.

“Vou me concentrar em reduzir a fadiga muscular… Já que tô desde cedo carregando coisa pesada, não vou ter fôlego pra brincar com os trigêmeos depois, ou muito menos aproveitar o Festival mais tarde…”

Na meditação, mais algum tempo se passa até o almoço ficar pronto. A energia dourada em seu interior circula através do breu no seu interior. Um fluxo imparável e caótico que transita do ombro aos pés, tocando nas bordas da silhueta e revigorando os músculos pouco a pouco.

一 Rayzinho? Vem pegar a sua comida, o Yurga deve estar com fome! 一 o grito soa como um chamado submerso.

Abrindo os olhos, o jovem se levanta e bate contra as vestes para retirar alguma poeira.

Em poucos passos, ele chega até as ruivas que lhe entregam as marmitas.

Carregando dois recipientes enrolados em um pano de alta qualidade e florido, Raisel se prepara para voltar para casa.

一 Até mais tarde no Festival, senhorita Carmen e Raquel! 一 Abaixando a cabeça brevemente em despedida, dá meia volta e parte.

A ruiva de cabelo curto inclina-se levemente para frente e enche os pulmões. Balançando o punho no alto incansavelmente, ela berra o seguinte: 一 Fala pro Yurga ir bem arrumado, hein! Se aquele velho estiver desleixado, eu vou castrar ele! 一 disse com semblante totalmente leve… assustador.

Ao lado dela, Raquel olha para a própria mãe aterrorizada.

Por outro lado, Raisel apenas acena com a cabeça e se retira o mais rápido possível.

Diferente da ida, a volta para casa é bem rápida.

一 Voltei, vovô. 一 Ele retira os sapatos na entrada.

一 Você demorou… Tá tudo bem? 一 o velho afia algumas flechas e sequer olha para o garoto.

一 Aham. Trouxe marmita das ruivas. Vou deixar a sua em cima da mesa.

一 Certo. Obrigado.

一 O Tejin agradeceu o barril com os materiais e a senhorita Carmen me disse pra você ir arrumado pro Festival. 一 Antes de começar a comer, Raisel se acomoda na cadeira ao redor da mesa para passar os recados.

一 Aquela mulher sempre me enche o saco quando é pra visitar algum lugar…

一 Por que ela se importa tanto em como você vai? 一 questiona o garoto após desenrolar o seu almoço.

一 Ela diz que eu preciso me manter bonito… É pura implicância… 一 suspira o velho, já sentindo cansaço ao pensar que terá que se arrumar bem.

“A senhorita Carmen e o vovô se conhecem há muito tempo… Ele me disse que a Carmen era uma amiga da sua falecida esposa… Deve ser por isso que ela se vê na obrigação de cuidar dele…”

一 Hm… Será que o Olga vai vir pro Festival? 一 o som do talher de madeira bate diversas vezes contra o recipiente conforme o garoto conversava.

O atrito da pedra de amolar preenche o silêncio por longos segundos.

一 Acho que não. A Katarina está grávida, então ele deve preferir passar o tempo com a nova família dele.

一 Por isso que eu não quero me casar cedo. Pelo menos você vai ser vovô de verdade… 一 Começando a falar de boca cheia, até para de falar e engolir, mas rapidamente volta a tagarelar.

一 Casar? Você? Só se for com a Raquel… 一 fala o velho com uma risada e um gesticular com os ombros soltos.

一 Óbvio… Com quem mais seria? 一 As orelhas dele estão avermelhadas e o rosto baixo quase se esconde na tigela.

Yurga vê aquilo e ri. Assim que termina o trabalho com as flechas, ele levanta e vai até a mesa para sentar em uma das cadeiras. Limpando as mãos num pano molhado, o avô percebe que o tagarela tinha algo para perguntar.

Acenando ao mover o queixo para cima, oferece a brecha que o menino esperava.

一 Você foi no que sobrou de Klagum, né? Como é esse lugar? 一 Raisel pausa a sua refeição temporariamente.

Com um copo de água nas mãos, Yurga bebe calmamente enquanto ouve.

一 Klagum… Eu fui antes de te achar. É difícil explicar como é e eu não cheguei a entrar lá dentro, mas posso resumir falando que é parecido com uma pintura.

Sem entender direito o que significa “parecer com uma pintura”, o menino continua a encarar o avô com pequenas colheradas.

O velho desenrola a sua marmita, remexe a comida algumas vezes até voltar a falar:

一 O poder das Calamidades não é algo desse mundo. Já te falei isso…

一 Quero visitar Klagum algum dia… 一 o tom esperançoso no seu pensamento em voz alta, arregalam momentaneamente os olhos do senhor.

O veterano estreita os olhos e os cantos dos lábios descem. As sobrancelhas grossas estão quase unidas e, afrouxando o aperto no seu maxilar, ele diz:

一 Não trate Wynward como um lugar tão amistoso, Raisel… Você não faz ideia dos perigos que existem.

A pressão daqueles olhos prateados torna até difícil respirar. Eles carregam consigo mais do que experiências, transmitindo para o discípulo o peso de quem caminhou por muitas batalhas. Mas o menino infla os pulmões com coragem.

一 Eu sei! Eu sei… Por isso o primeiro passo é ficar mais forte que o senhor! 一 O garoto sorri animado.

Após o almoço, é a hora de ir encontrar os trigêmeos e aproveitar a tarde. Todavia, o que o mestre e o discípulo não contavam, é que o tempo não seria tão longo para eles.

Nessa noite, a maneira como o garoto observará as estrelas, mudará para sempre.