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Capítulo 40 – Linha de Queda

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Capítulo 40 – Linha de Queda

Derek se levantou de repente, surpreso ao ver a criatura parada ali. Por um instante, acreditou que tinha vantagem. O corpo dela era grande demais, largo demais para atravessar o batente do apartamento.

Se não conseguisse entrar, ele ainda teria uma chance de escapar, Derek pensava.

Suspirou aliviado.

“Pode tentar o quanto quiser, mas daí não passará, amigo”, pensou ele, rindo em pensamentos.

Mal sabia ele que a criatura tinha outra forma de passar.

Sem hesitar, virou o corpo e socou a parede ao lado. O impacto fez o concreto vibrar, como se o prédio inteiro tivesse absorvido o golpe.

Uma vez.

Depois outra.

Na terceira pancada, a estrutura cedeu. O reboco se partiu em placas irregulares, e blocos de concreto começaram a se soltar, abrindo um buraco bruto na parede.

A criatura forçou o corpo por aquela abertura, raspando carne e osso contra as bordas quebradas.

“Mas que porra!”

A luta começou no mesmo instante.

O braço colossal deslizou pelo chão com um som áspero, arrastando poeira e destroços, e varreu a sala inteira. No caminho, atingiu a pilastra central do apartamento.

O impacto foi suficiente para rachar o concreto. Parte da estrutura cedeu, e pedaços pesados se desprenderam, voando pelo ar.

Alguns desses destroços atingiram uma mesa de vidro próxima.

O vidro se estilhaçou na hora, espalhando fragmentos por todo o chão.

Derek se jogou para o lado, desviando por pouco dos pedaços que cruzavam o espaço.

“Maldito corpo, se mexa mais rápido.”

Ele mal teve tempo de reagir.

Antes que conseguisse se levantar, o braço esquerdo da criatura avançou em sua direção, rápido demais para algo daquele tamanho. Os dedos passaram a centímetros do seu pescoço.

Derek rolou para trás por instinto.

O braço colossal voltou em seguida, raspando o chão como um martelo gigante, abrindo um rastro de destruição enquanto atravessava a sala. Uma cadeira foi esmagada no caminho, e o piso cedeu em pequenas rachaduras.

Entre os móveis quebrados, algo chamou sua atenção — o cutelo.

“Alí!”

Sem pensar duas vezes, ele avançou e pegou a arma.

A criatura vinha novamente.

O braço esquerdo tentou agarrá-lo, fechando os dedos com força suficiente para esmagar os ossos.

Derek se abaixou no último segundo e acompanhou o movimento do ataque. No exato momento em que o braço colossal completava o movimento, ele avançou.

A lâmina desceu com força total.

O corte abriu fundo no braço, rasgando tecido e expondo algo escuro por dentro.

Sangue negro espirrou pelo chão.

Mesmo assim, o braço não parou.

Veio de volta com violência.

O impacto atingiu Derek em cheio, lançando-o contra um armário. A madeira rachou no ponto de impacto, e ele caiu no chão por um instante.

Mas ainda consciente.

Foi nesse momento que ele viu sua pistola.

Estava caída próxima ao armário, entre pedaços de madeira quebrada, ao lado da entrada do apartamento.

Derek caiu no chão e, sem perder tempo, rolou na direção da arma. Os dedos fecharam ao redor dela enquanto ainda se movia, aproveitando o impulso para se afastar da criatura.

Mesmo com o corpo ainda reagindo ao impacto, ele ergueu o braço o suficiente para mirar.

“Hasta la vista, baby”, pensou Derek, logo antes de puxar o gatilho.

O tiro destruiu a cabeça da frente da criatura. Carne, osso e líquido escuro se espalharam pelo teto e pelas paredes próximas.

Por um instante, o corpo ficou imóvel ainda em pé, porém, sem resposta.

Então se moveu novamente. A cabeça de trás ergueu-se lentamente e assumiu o controle do corpo.

“Mas que filho da—”

A criatura avançou outra vez, agora andando de costas.

A luta recomeçou ainda mais brutal.

O braço colossal continuava varrendo o chão, destruindo o que restava dos móveis e aprofundando as rachaduras no piso. Logo em seguida, o braço esquerdo atacava, tentando agarrar Derek sempre que ele desviava.

Era um padrão onde um erro significava a morte.

Derek recuava passo a passo, desviando no limite, atacando apenas quando surgia uma abertura mínima. Ao redor, o apartamento tremia a cada impacto, como se estivesse prestes a ceder junto com a estrutura.

Durante um desses momentos, ele tentou passar pelo lado da criatura.

Foi um erro.

Ela levantou o pé rapidamente.

E desceu com força.

O impacto prendeu o braço de Derek contra o chão. O som seco do osso se partindo ecoou pelo ambiente.

Mesmo assim, ele não parou.

Se arrastou para longe, ignorando o braço inutilizado, e continuou lutando entre os destroços.

Foi então que algo chamou sua atenção — a vidraça da sala. Ela estava trincando.

Cada impacto fazia as rachaduras se espalharem mais, como veias se abrindo pelo vidro.

Uma ideia começou a se formar.

Derek recuou naquela direção, controlando cada passo.

A criatura veio atrás.

O braço colossal varreu o chão mais uma vez e atingiu o vidro. As rachaduras se intensificaram, mas a estrutura ainda resistiu.

Derek se afastou mais alguns passos e esperou.

Calculou a distância e então avançou de repente.

Usando o próprio peso, lançou o ombro contra o corpo da criatura. O impacto foi o suficiente para fazer vidraça ceder.

O vidro explodiu para fora com um estrondo alto, espalhando fragmentos pelo ar enquanto a criatura perdia o equilíbrio.

Ela começou a cair.

Derek se jogou para frente e conseguiu agarrar o piso com a mão livre.

Mas não por muito tempo.

O braço esquerdo da criatura agarrou sua perna.

Seu corpo começou a deslizar em direção ao vazio, enquanto seus dedos arranhavam o chão, tentando encontrar qualquer apoio.

Escorregando e cedendo a cada segundo.

Ele não tinha mais sustentação. Sua mão começou a falhar.

Por um instante, aceitou o fim.

Então a pressão na perna desapareceu.

Sua perna se rasgou do joelho para baixo e a criatura caiu, levando-a junto.

O som do impacto lá embaixo ecoou entre os prédios.

Derek ficou ali por alguns segundos, deitado, mas sabia que não podia parar.

Com esforço, pegou a arma.

Mesmo com um braço comprometido e sem uma perna ele se levantou e desceu o mais rápido que conseguiu.

Na escada, ele simplesmente pulou, rolando até o primeiro andar.

Vários ossos se fraturaram.

Mas isso era um pequeno sacrifício perante ao que ganharia ao consumir a mutação.

Quando chegou, o corpo do mutante estava deformado pelo impacto.

Ao redor, mortos-vivos comuns já começavam a se aproximar.

Sem hesitar, Derek se ajoelhou e rasgou a primeira cabeça, abrindo o crânio com as mãos.

Depois a segunda.

Afundou os dedos no interior e puxou pedaços, assim, levando a boca.

O efeito veio quase instantaneamente.

O corpo respondeu rapidamente. Estruturas se reorganizavam, tecidos se recompunham, e os movimentos voltavam a ganhar firmeza.

Mesmo assim, ele não perdeu tempo.

Arrancou mais pedaços e guardou para emergências.

Depois puxou a própria perna da mão da criatura, encaixando-a no lugar enquanto o corpo terminava de se recompor.

Quando terminou, se levantou, pegou a arma e voltou para o prédio.

O apartamento estava irreconhecível.

Paredes abertas, móveis destruídos, o chão coberto de destroços.

A grande vidraça agora era apenas um buraco vazio.

Derek ficou parado por alguns segundos.

Mas algo ainda incomodava.

Como aquela coisa o encontrou?

O cheiro não fazia sentido. Antes da luta, ele estava escondido, e a criatura não demonstrou perceber sua presença.

Então o que foi?

Foi quando ele viu uma mancha de sangue na entrada do seu apartamento.

Depois outra no corredor.

Havia tanto na parede quanto no chão.

Era um rastro claro.

Seguindo exatamente o caminho que ele havia feito. Subindo as escadas, passando pelos móveis que antes formavam uma barreira, pelos corredores até o quinto andar.

Derek parou, encarando aquilo em silêncio por um momento.

Então teve um pensamento seco.

“Que idiota…”

Ele mesmo tinha guiado a criatura até lá.

Passou a mão no rosto, balançando a cabeça.

“Pelo menos… ninguém mais notou.”

Mas ele estava errado.

A alguns quarteirões dali, no topo de um prédio alto, algumas figuras observavam a região através de binóculos e miras improvisadas.

Os olhos estavam fixos no Vulcan.

— Tem certeza do que viu? — perguntou um homem, em tom baixo.

— Tenho, senhor — respondeu outro. — Eu vi claramente. Ele derrotou o vagante que prendemos lá.

Um breve silêncio se formou.

Então o homem à frente sorriu. Um sorriso frio.

— Então acho que já está na hora de fazermos uma visita ao nosso vizinho.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Não é mesmo?

Das sombras do terraço, outras figuras começaram a surgir lentamente.

E as risadas vieram logo depois.