Capítulo 43 – Os Invasores
Capítulo 43 – Os Invasores
O dia estava ensolarado, o sol batia forte, sem piedade, derretendo o ar em ondas quentes que tremulavam acima do asfalto rachado. Os mortos-vivos vagavam sem rumo, corpos lentos e desajeitados sob a luz intensa, o calor era tão pesado que se podia ouvir o som úmido e crepitante da pele descalça cozinhando contra o chão quente.
Era um dia calmo e silencioso, apesar de tudo. Um estrondo ao longe cortou o silêncio, era o ronco de um motor. Uma caminhonete velha surgiu dobrando a esquina, faróis sujos, lataria amassada e o capô ainda fumegando de tanto esforço.
Os homens não tentavam passar despercebidos, gritavam, riam, xingavam, a cada solavanco o veículo atropelava e arremessava os mortos-vivos que se aproximavam demais, corpos quebrados voavam para o lado como bonecos de pano, sangue e pedaços de carne respingavam no para-choque enferrujado.
A caminhonete parou bruscamente diante do Vulcan. As portas se abriram com estrondo e homens armados desceram gritando e rindo, facões, machados e barras de ferro nas mãos.
O líder foi o último a saltar, a luva metálica brilhou sob a luz do dia enquanto ele se aproximava da fachada, passos firmes, quase preguiçosos.
Na entrada, parou, observou o interior escuro por alguns segundos, depois ergueu o olhar para a fachada inteira. Passou a mão pelo concreto grosso, sentindo a textura fria e áspera sob os dedos da luva. As paredes eram espessas, as portas podiam ser reforçadas, as janelas dos primeiros andares eram poucas e estreitas. Um sorriso lento se abriu em seus lábios.
— Gostei daqui.
Os homens se aproximaram, ainda ofegantes da brincadeira na rua.
— Com umas barricadas… — continuou ele, apontando para a entrada. — Fecha isso. Depois as janelas.
— Reforça aquilo.
Olhou para a estrutura inteira, como se já a visse transformada.
— Isso aqui vira um castelo.
Um dos homens assobiou baixo.
— Dá até pra trazer o resto da turma.
— Água a gente procura depois.
— Comida também.
O líder balançou a cabeça, o sorriso ainda no canto da boca.
— Primeiro precisamos tirar o dono daqui.
Todos concordaram em silêncio. Um deles perguntou, a voz um pouco mais baixa:
— Acha que ele ainda tá aqui?
O líder deu de ombros, o metal da luva rangendo levemente.
— Se fugiu, a gente procura. Mas se ficou…
Abriu um sorriso de canto.
— Melhor pra nós.
Eles entraram. O ar que os envolveu era grosso, úmido, carregado de mofo, ferrugem e aquele cheiro antigo de carne que já apodreceu há muito tempo. Lanternas se acenderam, a luz cortou a escuridão e revelou o saguão bagunçado: cadeiras viradas, mesas quebradas, cortinas esfarrapadas pendendo como pele morta, chão coberto de estilhaços e sujeira. O frio subia do concreto e se grudava na pele.
O chefe parou no meio do salão, observou tudo com atenção lenta, quase carinhosa, depois murmurou, satisfeito:
— Então é aqui… Perfeito
Os homens se espalharam, checando cantos e corredores. Gostaram. O lugar era sólido, isolado, um refúgio possível. Mas o silêncio não durou. Do fundo dos corredores veio o arrastar lento, irregular, sombras se moveram, olhos opacos brilharam, o cheiro de carne podre se intensificou de repente.
Os homens apertaram as armas, sorrisos confiantes nasceram no rosto de cada um. Um ergueu o facão.
— Chefe…
O líder nem olhou.
— Deixa eles virem.
Os caminhantes aceleraram. Um tentou agarrar um dos invasores, o homem desviou com elegância preguiçosa, no mesmo instante o machado de outro desceu e decepou o pescoço. A cabeça rolou, ainda piscando um olho de cada vez, lenta e confusa. Os demais avançavam como animais.
Um chegou até o líder, ergueu os braços. O chefe deu um único passo, o punho metálico atravessou o crânio com um estalo seco.
O cadáver ficou preso na luva como um troféu grotesco. Ele puxou. Nada.
— Ih…
Olhou para o próprio punho.
— Ficou preso.
Risadas ecoaram. Outro caminhante surgiu pelas costas. Sem virar completamente, o líder girou o braço, a cabeça presa se desprendeu e foi arremessada, colidiu com o crânio da segunda criatura. Os dois explodiram juntos, sangue e osso espirraram no teto, nas paredes, no chão.
O líder sacudiu o braço até a luva ficar livre.
— Pronto.
Olhou para os homens, sorriso torto.
— Problema resolvido.
Uma gargalhada áspera tomou o andar.
— Eu falei que essa luva ia dar trabalho!
— Mas funciona pra caralho.
— O chefe inventa cada coisa…
O saguão ficou silencioso.
O cheiro de carne podre e sangue fresco ainda pairava no ar frio, mas os mortos-vivos do andar tinham sido limpos. Eles vasculharam tudo: móveis quebrados, gavetas vazias, nada de útil, só o espaço. Grossas paredes, escadas largas, corredores que podiam ser barricados. Já imaginavam o lugar transformado: portas reforçadas, janelas fechadas, o Vulcan virando um castelo.
O sol do meio-dia atravessou algumas frestas e iluminou o pó suspenso no ar.
— Acho que limpamos todos — disse um dos homens.
— Ou eles tão dormindo — respondeu outro.
Mais alguns riram. O líder caminhava lentamente, observava cada detalhe: móveis, escadas, corredores, nada escapava ao seu olhar. Então apontou para a escada principal.
— Vamos subir.
Os invasores começaram a subir em fila, armas prontas, botas pesadas ecoando nos degraus. Nenhum deles percebeu que, do alto das escadas do segundo andar, completamente imóvel entre as sombras, dois olhos verdes acompanhavam cada passo. Derek observava eles atentamente.
Um tempo se passou.
Ainda na escada, os homens foram surpreendidos pelos mortos-vivos. Apesar da dificuldade em lutar em um lugar com tão pouco espaço, conseguiram derrubar o morto-vivo, fazendo-o cair degraus abaixo.
Os homens pularam sobre ele ou se jogaram aos cantos para não serem pegos no tombo. Quando o morto-vivo chegou ao primeiro andar, o último homem que ainda permanecia no andar o finalizou e seguiu junto dos outros.
Chegando lá, ele viu que a luta com os mortos-vivos já havia começado. Com um sorriso no rosto, não perdeu tempo e se juntou a eles.
Com os mortos-vivos do corredor limpos, decidiram tentar os quartos.
No primeiro, enquanto dois iluminavam a porta, um se preparava para abri-la com cautela. Os outros, com exceção do líder, que estava tranquilo encostado na parede, riscando seu isqueiro falho e tentando acender o cigarro, estavam em posição de ataque, prontos para o abate.
Apesar do sorriso no rosto da maioria, todos estavam nervosos. Um passo em falso e perderiam a vida.
Havia demora ao abrir. A mão movia a maçaneta bem devagar, quase como se não se movesse. A tensão crescia no ar, o homem engolia seco e o suor escorria pelo rosto.
— Porra, isso aí! — gritou o líder, após finalmente gerar fogo no isqueiro.
Seus homens se assustaram, quase sobressaltaram.
— C-Chefe… Você quase me mata do coração — disse o homem da porta, com uma das mãos no peito.
— Ham?! Virou baitola agora, seu viado? Abre essa porcaria agora, senão vou te dar uma real morte do coração — reclamou o líder.
O homem da porta riu de nervosismo. Com mais rapidez e um tremor na mão, ele girou a maçaneta, mas nada aconteceu.
— A porta… tá trancada — disse o homem, com nervosismo na voz junto de um certo alívio.
O líder estalou a língua e se afastou da parede.
— Depois vemos essa então. Bora pra próxima.
Todos saíram de suas posições e seguiram o líder até a segunda porta. Mais uma vez tentaram abrir, mas também falharam.
Na terceira, não havia porta, mas um enorme buraco na parede.
O apartamento estava em desordem total, junto com a vidraça quebrada. O líder foi o primeiro a entrar, e seus homens logo em seguida. Ele olhou tudo, inclusive a luz que piscava fraca acima deles.
O líder sorriu, caminhou mais à frente, para perto de onde ficava a vidraça, e se surpreendeu com a vista. Mesmo sendo o segundo andar, a vista da cidade era de outro nível. As ideias das coisas que ele faria no prédio transbordaram. Ele deixou escapar uma pequena gargalhada que se intensificou.
— Vamos, homens! Temos um prédio a conquistar — disse ele, ao se virar para seus homens.
De volta ao corredor, não perderam tempo e foram para a próxima porta. O mesmo plano.
Todos estavam posicionados, dessa vez mais confiantes e sem nervosismo. O homem responsável por abrir a porta nem hesitou, abriu de uma só vez.
Seu maior erro.
No instante em que abriu, um morto-vivo caiu sobre ele. O homem nem conseguiu reagir.
“É o meu fim…?”, pensou, antes de ter o nariz arrancado em uma só mordida.
O homem se debatia enquanto gritava e o morto-vivo continuava a rasgar seu rosto. Vendo seus homens sem fazer nada, o líder teve que agir.
— Tch! Seus maricas — disse ele, segundos antes de puxar o morto-vivo e socar seu rosto com a luva de metal até os movimentos cessarem.
O líder olhou para o homem. Ele estava em convulsão, sangue saindo do rosto destruído como uma fonte. A baba misturada ao sangue dava uma visão grotesca. Sem demonstrar qualquer receio, o líder deu um único soco na lateral da cabeça do homem, matando-o na hora.
Embora a maioria ainda mantivesse um sorriso louco no rosto, havia aqueles que perderam esse sorriso, ficando preocupados com suas vidas.
— Vamos! Temos mais cinco portas neste andar — disse o líder, seguindo para a próxima porta.