Interlúdio 5: Desordem na Tempestade
Interlúdio 5: Desordem na Tempestade
Aquele som que ouvi naquele dia — o som que transbordou de dentro de mim — era sombrio e distorcido, dolorosamente trágico, selvagem e belo.
Eu fechava as cortinas blackout , ligava o ar-condicionado na temperatura mais baixa e passava os dias enrolada em um cobertor grosso, usando fones de ouvido, dormindo como um tronco.
Era o verão dos meus quatorze anos. Logo após todos os outros membros deixarem a YOHILA, eu estava sozinha.
Eu ainda morava com meus pais naquela época, e lembro de meus pais superprotetores e corujas me tratando como vidro frágil que quebraria se fosse tocado. Até mesmo aquela gentileza era dolorosa.
“…………………………….”
Não havia som. Os fones de ouvido com cancelamento de ruído não estavam tocando música, mas eram usados simplesmente para apagar o barulho do mundo.
É como o mar profundo , pensei. Silencioso, escuro, frio e pesado. O quão mais fácil seria se eu pudesse apenas me afogar e ser esmagada assim , eu me perguntava. Se eu pudesse apenas me tornar uma bolha e desaparecer—
—E foi nesse momento.
A ressonância baixa de uma corda despertou minha consciência sonolenta. Era o som de um baixo metálico, duro e frio. Uma batida de bumbo e um arpejo de guitarra, como um suspiro fraco, foram sobrepostos. Um som sombrio, mórbido. Além disso, um piano, como o som da chuva, camadeou-se sobre a melodia que trazia à mente um céu nublado, e o quarteto escuro e pesado subitamente se intensificou.
Eu não estava tocando nenhuma música.
E, no entanto, ela fluiu para fora. Não do lado de fora, mas de dentro de mim. Algo quente transbordou, como se uma lâmina afiada tivesse sido cravada em uma parte macia do meu coração. Era sangue, lágrimas e som.
A música da melancolia tocada pela escuridão que girava dentro de mim, pela minha própria doença.
“…!”
Levantei-me de um salto como se estivesse eletrocutada, joguei o cobertor de lado e fui para a minha mesa. Tirei os fones de ouvido, lancei o aplicativo de gravação e, enquanto cantarolava, anotei freneticamente os fragmentos de letras que vinham à mente junto com a melodia em uma folha de papel almaço.
Aquele foi o começo. O momento em que a YOHILA, que passou de quatro integrantes para uma, mudou sua cor.
— E agora, o presente.
Exatamente como naquele dia, eu estava sozinha em um quarto escuro, de frente para o meu computador. Com meus fones de ouvido, meus olhos ardendo pela luz branca e pálida da tela, meu coração queimado pela paixão fervorosa que transbordava, eu estava absorta em uma criação autodestrutiva.
Lembro-me do que aconteceu hoje depois da aula, na sala audiovisual. A sala audiovisual. O lugar memorável onde o conheci.
Talvez, se eu fosse lá, algo brotasse — com a fraca esperança de que ele pudesse simplesmente aparecer, eu observava a paisagem chuvosa lá fora, na sala com as luzes apagadas.
E foi aí que eu vi. A silhueta dele, caminhando para casa com os guarda-chuvas emparelhados.
Transparente e azul-pastel. Eu soube imediatamente a quem pertencia o guarda-chuva azul.
Um vento forte soprou. O guarda-chuva dela quase foi levado e ela tropeçou, perdendo o equilíbrio. Ele rapidamente estendeu o braço e a amparou. Seus corpos se tocaram e, sob o guarda-chuva transparente, parecia que estavam se abraçando.
No momento em que vi aquela cena, o som do mundo desapareceu.
— E, no momento seguinte, o som transbordou.
Uma música feia, horrorosa, insuportável.
“…!?”
Gritei e me encolhi, cobrindo meus ouvidos nus. Algo estava estalando. Meus dentes. Minha respiração arquejante sobrepôs-se a tudo, e meu coração batia em um ritmo desordenado. A melodia que fluía na minha cabeça não parava. Como uma tempestade com ventos inversos e chuva torrencial, tornava-se cada vez mais intensa.
Senti como se minha sanidade estivesse prestes a quebrar.
“………… tenho que… fazer…”
Cambaleei até ficar de pé, coloquei minha guitarra pesada nas costas e comecei a caminhar.
“Eu tenho que fazer!”
Não me lembro de muita coisa depois disso. Quando dei por mim, estava no meu quarto, sentindo tontura pela ressonância persistente que não desaparecia mesmo depois de ter parado de tocar, e estava compenetrada na criação.
A música que já estava quase pronta — a música criada ao tecer a melodia incomparavelmente bela que ele tinha me dado — eu a arruinei deliberadamente.
Distorci o som límpido, lambuzando-o com efeitos, reorganizei a estrutura perfeita em uma bagunça e a transformei em algo completamente diferente. Aproximando-a. Daquela melodia feia que eu tinha ouvido.
Era um ato nauseantemente doloroso, agoniante e insuportável. Como matar um ente querido com minhas próprias mãos. Mas eu tenho que fazer isso. Porque não pode ficar assim. Porque esta não é a música da YOHILA que eu, que ele, imaginamos.
Eu—
“…Shigure!”
Eu desgastei minha alma e quebrei a melodia que ele me deu.
[Del: Que interlúdio… mergulhante. Fiquei completamente absorto.]
PLAYLIST DAS MÚSICAS QUE SÂO MENCIONADAS NA OBRA. (O autor tem um ótimo gosto)
Spotify
Youtube
(Crédito para o @Thang por reunir)
Traduzido por Moonlight Valley
Link para o servidor no Discord
Entre no nosso servidor para receber as novidades da obra o quanto antes e para poder interagir com nossa comunidade.