Capítulo 6: Sofrimento & Amor
Capítulo 6: Sofrimento & Amor
O dia estava frio, fazendo jus à expressão "frio da estação chuvosa".
A chuva que caía desde ontem não havia parado por um segundo sequer; pelo contrário, só se tornava mais intensa. O mundo em monocromático era ocasionalmente iluminado por um clarão brilhante de relâmpago. O estrondo do trovão soava como o rosnado de uma besta gigante vivendo nas nuvens. E havia o som incessante da água batendo contra o vidro.
“Apenas um alerta de chuva forte?”
“Se houvesse um alerta de tempestade, as aulas teriam sido canceladas.”
Eu conseguia ouvir meus colegas conversando. Como o tufão que faria sua aproximação máxima à noite era do tipo chuvoso, o vento não estava tão forte, e tínhamos vindo para a escola como de costume, apesar do tempo severo.
A Junna virá? — eu me perguntava, olhando para nossa conversa estagnada no visor do celular. O tufão era uma boa desculpa. Devo enviar apenas uma palavra, ou não?
Ela não virá, não preciso nem perguntar... mas mesmo assim. Eu quero falar com ela...
Enquanto eu remoía o assunto, o sinal indicando o início das aulas tocou, e não tive escolha a não ser guardar o telefone no bolso.
☂
À medida que o tufão se aproximava, a chuva se intensificava e, após as aulas, todas as atividades de clube foram canceladas. Nós, alunos, fomos incentivados a ir para casa prontamente. No entanto, era apenas um “incentivo”. Não era obrigatório.
“—Amamori?”
Assim que visitei a enfermaria e perguntei onde Junna estava, Akagi franziu a testa.
Eu havia tentado ir embora uma vez, mas vi o guarda-chuva de Junna no suporte e voltei, preocupado.
“Ela provavelmente está na sala de audiovisual”, disse Akagi, sentada em sua cadeira com as pernas cruzadas e mexendo distraidamente em seu celular vermelho. “Mas... ela parece estar muito concentrada, então é melhor não perturbá-la. No pior dos casos, eu a levo de carro para casa.”
Mesmo com um tufão se aproximando, ela pretendia ficar até o limite do horário de saída da escola.
A mensagem que eu lhe enviara durante o intervalo do almoço, após muita deliberação — um simples “O tufão chegou. Cuidado se estiver vindo para a escola” — ainda não fora lida. Comecei a me preocupar com ela.
“A composição dela... não está indo bem?”
“Parece que sim.”
Akagi assentiu, com o olhar ainda fixo na tela do celular.
“Pelo visto, ela tem estado em um período de bloqueio recentemente. Estava reclamando que não consegue escrever uma música que soe como YOHILA. Embora pareça que ela esteja escondendo isso da Yo — a empresária dela.”
Ela disse isso em um tom casual. Uma única frase que Akagi deixou escapar me lembrou de uma sensação de desconforto que eu sentira antes.
Um bloqueio... uma música que soe como YOHILA?
A última vez que vi Junna, quando voltamos para casa juntos. Quando eu disse que estava ansioso pela sua nova música...
“Com certeza farei dela a minha obra-prima.”
A postura estranhamente frágil de Junna enquanto respondia com firmeza. Que tipo de angústia e conflito jaziam por trás daquelas palavras?
Uma música com o estilo da YOHILA — uma canção sombria e melancólica, tanto na melodia quanto na letra. Rock depressivo. Se ela havia se tornado incapaz de escrever aquilo, a causa concebível era...
“............Eu.”
“—Kurimoto?”
“Com licença. Preciso ir.”
Dei as costas para a desconfiada Akagi e saí da enfermaria. Caminhei pelo corredor, indo direto para o saguão de entrada, calcei meus sapatos e...
“...Foi minha culpa, não foi, Junna?”
Murmurei, olhando para o guarda-chuva cor de hortênsia colocado no canto do suporte.
“Sou eu quem está mudando a ‘cor’ da YOHILA—”
Segurei o cabo com o adesivo do logo da banda YOHILA, puxei-o e cerrei o queixo. Abri o guarda-chuva transparente e saí em direção à tempestade. Um mundo cinzento, escuro e frio.
Sou um grande fã da banda YOHILA e da musicista JUN.
E é precisamente por isso que eu tinha um medo inacreditável de que minha própria existência exercesse uma influência considerável sobre ela e provocasse uma “mudança” definitiva nas obras que ela criava.
☂
Caminhei até a estação de cabeça baixa sob a chuva torrencial. O vento soprava furioso, como se tentasse arrancar o guarda-chuva da minha mão, e a chuva, que o objeto não conseguia bloquear totalmente, encharcava minha calça.
Aquele meu sentimento na época... não estava errado?
Certa vez, Junna me deixou ouvir uma música nova na sala de audiovisual. Era uma demo inacabada, não lançada, ainda em progresso. Uma canção criada usando o som que a minha existência fizera ecoar dentro dela.
Minha primeira impressão ao ouvi-la foi a de que era uma “música chiclete”.
Como era uma gravação bruta, a qualidade do som estava ruim e o baixo e a bateria programados eram simples; ainda assim, o riff da guitarra era fresco e fluido, com um contraste vívido e dinâmico, e o som do piano elétrico sobreposto era leve. A melodia vocal traçada pelo seu cantarolar também era maravilhosa; era uma música up-tempo que dava vontade de dançar ao ouvir. É uma música boa , pensei honestamente. Se eu tivesse que dizer se gostava ou não, diria com certeza que amava.
Mas, ao mesmo tempo—
...Não soa como YOHILA, soa?
Eu também sentira aquilo. A aura negativa que era característica da YOHILA — a melancolia, a efemeridade, o desânimo e a tristeza — estava fraca, e a faixa era preenchida por um brilho eufórico. Era uma música boa, mas se me perguntassem o que eu achava dela como uma canção da YOHILA, eu ficaria sem resposta. Esse tipo de música.
No entanto, ainda era um trabalho em andamento. Talvez a arranjasse distorcendo o som, ou talvez a impressão mudasse completamente quando os vocais e as letras fossem adicionados. E eu tinha certeza de que o fato de eu não conseguir me concentrar devido à situação também era um fator.
Convenci-me disso e simplesmente disse a ela que estava “boa”. E, sem pensar muito profundamente, fiquei ansioso pela conclusão da nova música.
Olhando para trás agora, talvez eu já tivesse um pressentimento naquela época. Um pressentimento sombrio, acompanhado pelo medo e pela ansiedade de que eu pudesse mudar Junna — JUN — e o estilo musical da banda YOHILA. Cada vez que eu sentia os sentimentos de Junna, esse temor crescia pouco a pouco e, à sombra das emoções brilhantes de alegria e felicidade, ele vinha secretamente se tornando mais escuro.
—Não! Isso é apenas uma suposição arrogante da minha parte, eu deveria ter mais juízo do que ser tão convencido , tentei me repreender e rir da situação.
Não era... um mal-entendido...
Na verdade, por eu ter aliviado a solidão e a melancolia dela e a tornado mais positiva, Junna tornou-se incapaz de criar músicas sombrias como antes. E, por causa disso, Junna, como criadora, estava sofrendo e agonizando terrivelmente.
Assim como uma hortênsia muda a cor de suas flores dependendo do solo, a YOHILA, que uma vez já mudara de cor drasticamente, poderia estar prestes a mudar de cor novamente. Que tipo de cor seria essa? Seria uma cor feliz para mim, para ela?
—Não sei.
E por não saber, eu estava com medo. No pior dos casos, poderia até murchar e morrer—
...Eu,
O sinal da travessia de pedestres piscou em verde e ficou vermelho. Meus sapatos pisaram em uma poça e um calafrio subiu pelos meus dedos dos pés.
Se eu sou a razão pela qual a JUN não consegue mais fazer músicas da YOHILA...
O vento e a chuva se intensificaram. Apertei o cabo do guarda-chuva.
Talvez eu não devesse me envolver mais profundamente com ela.
Fustigada pelo vento violento, a estrutura de metal barato rangeu. Se eu soltasse, certamente seria varrida em um instante e desapareceria no céu.
O trovão ecoou ao longe. A luz vermelha tornou-se verde e as pessoas que estavam retidas começaram a se mover. Dei um passo largo para fora da poça. Em direção à estação à minha frente—
—Ou assim…
...não.
“Eu jamais conseguiria pensar isso, seu idiota!”
Para a escola. Fiz um retorno e comecei a correr.
Surpresa pelo meu grito repentino, a multidão se abriu. A chuva, carregada pelo vento, atacou-me de frente, atingindo meu rosto. O guarda-chuva foi arrancado quando girei sobre os calcanhares e voou alto no céu, mas eu não me importei. Não me importei e corri com todas as minhas forças.
Sou um grande fã da YOHILA, da JUN!
Correndo pela tempestade, pensei nas músicas dela. Eu não estava usando fones de ouvido, mas conseguia reproduzir clara e vividamente cada palavra que JUN cantava, cada nota que a YOHILA tocava. É o quanto eu amo a música dela.
—Mesmo assim!
Minha visão embaçou com a chuva, e meu cabelo e roupas molhadas grudaram na minha pele. Minha respiração tornou-se irregular e meu coração batia como se fosse quebrar minhas costelas. Senti o gosto de sangue no fundo da garganta.
Quem eu mais amo é—
Para não ser abafado pelo som do temporal, pelo vento furioso e pelo estrondo do trovão, eu gritei. Para o céu escuro, o nome dela.
☂
Eu parecia alguém que tinha mergulhado no oceano vestindo o uniforme escolar.
Corri em menos de três minutos uma distância que levaria dez para percorrer caminhando e, tendo retornado ao prédio da escola, recuperei o fôlego no saguão de entrada enquanto secava grosseiramente meu cabelo e meu corpo.
Todos os outros pareciam já ter ido para casa; não vi nenhum outro aluno no caminho de volta nem desde que cheguei. Se eu tivesse sido visto correndo a toda velocidade em uma tempestade sem guarda-chuva — e em direção à escola, logo o lugar para onde ninguém quer ir —, eu teria morrido de vergonha, então pode-se dizer que foi um golpe de sorte. Ser visto gritando, então, estaria fora de questão.
As roupas frias grudadas na minha pele ajudaram a acalmar um pouco meu coração aquecido.
“...Certo.”
Depois de secar a maior parte do cabelo e do corpo, calcei meus sapatos encharcados e, com uma toalha na cabeça, olhei ao redor. Olhei para a direita, depois para a esquerda e, após confirmar que não havia ninguém por perto...
“Vamos lá!”
Corri pelo corredor. Gotículas finas de água que eu não conseguira enxugar se espalhavam pelas pontas do meu cabelo como se fosse suor. Meu destino era a sala de audiovisual no segundo andar da ala oeste. O lugar onde ela estaria.
—Estou interrompendo o processo criativo dela? Quem se importa.
Eu quero vê-la. Quero vê-la e dizer a ela.
— Dizer o quê?
...Não sei. Não sei, mas eu só queria vê-la desesperadamente. Posso encontrar a resposta depois que a vir.
Com esse pensamento, subi as escadas correndo. Meu coração, que deveria ter esfriado e se acalmado, estava esquentando rapidamente, e minha respiração tornava-se irregular de novo. Mesmo que um professor aparecesse na minha frente agora e me repreendesse: “Não corra nos corredores!”, meus pés não parariam. Eu o ignoraria, me esquivaria e me desvencilharia dele.
“Haa, haa...”
Com a toalha que caíra da minha cabeça para o pescoço, limpei as gotas que eu não sabia dizer se eram de chuva ou de suor. O som da chuva continuava a ecoar, instigando-me, e o trovão rimbombava nas brechas do furioso temporal.
O corredor vazio e deserto, tremulando sob a luz de uma fluorescente moribunda e dos relâmpagos, parecia como se o tempo tivesse parado. E, em um canto dele, ela estava sozinha, lutando com todas as suas forças—
“Junna!”
Gritei assim que cheguei à sala de audiovisual e abri a porta.
As luzes da sala estavam acesas. Mas eu não conseguia ver Junna.
“...Ela não está aqui?”
Não houve resposta. A sala estava em completo silêncio. No fundo, perto da janela, no lugar habitual de Junna, no canto da mesa comprida, sua mochila escolar fora deixada para trás. Soltei um suspiro e me aproximei.
Sobre a mesa, além da mochila, estava o estojo de lápis favorito de Junna, do Geroppi (azul-violeta), deixado aberto. Uma lapiseira usada pela metade, uma borracha e farelos de borracha estavam espalhados. Como se Junna estivesse ali até agora pouco.
Olhei para a parede ao lado. A capa da guitarra não estava encostada lá.
Os ponteiros do relógio marcavam pouco antes das 16h30. O guarda-chuva dela fora deixado no suporte que verifiquei antes de vir para cá, então ela não deveria ter ido para casa.
Onde você está?
Abri o LINE para perguntar diretamente a ela. Havia uma nova mensagem.
Em resposta à mensagem que eu enviara: “O tufão chegou. Cuidado se estiver vindo para a escola”, veio a resposta:
『JUN: Singin’ in the Rain』
A mensagem fora enviada há apenas alguns minutos.
“Singin’ in the Rain...”
A capa da guitarra desaparecida. Lancei um olhar para a mesa onde os vestígios de Junna permaneciam.
“‘Singin’ in the Rain’?”
Olhei para o ícone de Junna. O logotipo da banda YOHILA. Uma ilustração de uma hortênsia sendo atingida pela chuva.
“...! Não pode ser—”
No momento seguinte, eu havia jogado de lado minha pesada bolsa de lona e estava correndo. Saí voando da sala de audiovisual vazia e segui para cima. Para o quarto andar. Para o lugar mais próximo do céu.
—Para o telhado.
Com esse tempo, acho que é impossível. Mas meus pés não paravam. Um pressentimento, uma convicção de que Junna estava lá, me impulsionava. Com o coração batendo como se fosse explodir, subi as escadas escuras e estreitas, degrau por degrau.
O som da chuva aproximou-se. E então—
Em frente à porta que levava ao telhado, uma capa de guitarra vazia fora jogada de lado. Um sapo azul-violeta jazia no chão empoeirado. Um sapo celestial solitário que caíra do céu.
“...! Junna!”
Empurrei a pesada porta de ferro, que era como a porta acústica de uma casa de shows.
O som da chuva aumentou instantaneamente de volume e o cheiro de concreto úmido subiu. Uma nuvem de gotas de chuva como chumbo atingiu meu rosto, e meu cabelo e corpo, que eu acabara de secar, foram encharcados, mas eu não me importei. Cerrei os olhos e encarei a chuva.
Uma hortênsia sendo atingida pela chuva.
Exatamente como aquela imagem, Junna, segurando uma guitarra verde-surf que lembrava uma folha, estava parada sob a chuva forte, sem guarda-chuva.
☂
O terraço era cercado por uma grade alta nos quatro lados. No centro, Junna permanecia de pé, de forma transcendente, de costas para mim. Seu cabelo e uniforme estavam encharcados, mas ela não movia um músculo, contemplando o céu cinzento acima. Era como se estivesse tomando um banho de chuva com a roupa do corpo.
Uma fera espreitando nas nuvens rugiu.
“………………”
Eu não conseguia sequer me mexer, muito menos chamá-la.
Se eu movesse um único dedo, o ar racharia e se estilhaçaria em pedaços — aquela tensão frágil e precária havia congelado minha garganta e meu corpo.
—E então.
Junna, que estivera olhando para o céu, voltou-se para frente e seu braço caído se moveu. Sua mão esquerda agarrou o braço da guitarra e a direita, segurando uma palheta em forma de gota, moveu-se para a frente do corpo. Tive a impressão de ouvir o som de uma respiração profunda sendo tragada.
“...‘Sofrimento & Amor’.”
Junna murmurou baixinho. Sua voz pequena, que poderia ter sido abafada pela chuva, deslizou pelas frestas do temporal e alcançou meus ouvidos. “Yu-u-an-do-ai”... YOU & I? Enquanto eu tentava decifrar o significado das palavras, um clarão cortou o céu próximo. A mão direita de Junna ergueu-se lentamente.
[Del: U&I.]
E no momento em que o estrondo do trovão ecoou.
Como se fosse um sinal, a palheta golpeou as cordas.
Mas som algum saiu. Ou melhor, deveria estar produzindo um som, mas era fraco demais e acabava esmagado pelo barulho da tempestade.
Porque não havia eletricidade.
Uma guitarra elétrica não consegue produzir um som explosivo sem a ajuda da energia; sem um amplificador para converter as vibrações sutis das cordas em um sinal elétrico e amplificá-lo. O som deveria ter se esvaído de forma efêmera — ou ao menos era o que se esperava.
Mas, no instante em que Junna dedilhou as cordas, eu definitivamente senti o som distorcido sendo espalhado. Tive a visão de eletricidade transbordando e faiscando de suas mãos.
Tocando a guitarra desplugada, Junna começou a mover o corpo no ritmo daquele som inaudível.
Seu cabelo preto e úmido voou para trás, revelando a cor da flor escondida por baixo. As solas de seus sapatos escolares batiam contra uma poça, levantando spray. Enquanto tocava, ela inclinou o corpo para frente, como se estivesse se aproximando de um pedestal de microfone, e então—
Ela começou a cantar.
Naquele momento, fui engolido.
A voz de JUN, efêmera, porém poderosa. As letras, típicas da YOHILA, eram abstratas e complexas, mas o sentimento transmitido pela música como um todo era simples.

Amor, amor. Amor, amor, amor, amor.
Amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor!
Como se bilhões de gotas de chuva estivessem despencando, um sentimento avassalador foi colocado na canção e lançado contra mim. Havia uma melancolia sombria como um céu nublado, uma paixão furiosa como uma tempestade e um lamento como o trovão; mas o sentimento, tal qual a chuva torrencial, intensificava-se, recusando-se a ser superado.
E eu fui simplesmente atingido por ela.
“………………”
A música parou.
Quando dei por mim, a chuva, que estivera tão intensa, havia cessado completamente, e a luz que vertia do céu azul iluminava Junna como um refletor. A visão do mundo úmido refletindo a luz do sol e cintilando era de uma beleza de tirar o fôlego.
Na verdade, eu havia esquecido como respirar e estava apenas observando, em transe. Olhando para a figura de Junna, de pé, encarando o olho do tufão no centro daquele mundo deslumbrante.
“...Shigure.”
Junna murmurou com uma voz que lembrava a primeira gota de chuva caindo do céu em direção à terra. Não havia barulho de chuva para abafar sua voz fraca e tênue, que era diferente de sua voz de canto. Então—
“—Junna!”
Em resposta a ela, finalmente consegui chamar suas pequenas costas.
Os ombros de Junna deram um salto, e ela se virou num sobressalto. Gotas se espalharam das pontas de seu cabelo molhado, e a cor interna de hortênsia apareceu.
“Eh…?”
Seus olhos, geralmente sonolentos, estavam arregalados, como se fossem transbordar. Seus olhos, como um lago no fundo de uma floresta, refletiam a luz do sol e cintilavam.
“H-Há quanto tempo você está aí?!”
Eu não respondi e, avançando pelas poças, caminhei até a atordoada Junna. Então, segurando sua mão fria e encharcada de chuva, eu disse:
“Apenas entre, por enquanto!”
Eu a puxei com força e a conduzi para fora do terraço, onde a luz ofuscante caía, atravessando a porta para a escuridão tênue — e logo em seguida...
O mundo brilhante escureceu, e a chuva começou a fustigar ruidosamente o concreto onde estávamos há apenas um momento.
Como um aplauso estrondoso para a canção dela.
☂
“Bem, vejo vocês depois. Deixem o lugar comigo, seus ratos molhados.”
Akagi disse, seu jaleco desgrenhado esvoaçando enquanto ela saía da enfermaria.
Eram 17h30, aproximando-se do horário limite para os alunos saírem. Todos os outros estudantes já tinham ido para casa há muito tempo, e Akagi era, aparentemente, a última professora.
Quando Akagi saiu da enfermaria para fazer sua ronda e verificar as trancas, apenas Junna e eu ficamos para trás. O ar na sala aquecida estava quente e úmido. O som incessante da chuva continuava. O trovão havia silenciado.
“………………”
Não falamos por um tempo. Sentei-me em uma cadeira dobrável, lendo um livro que estava no meio, e Junna sentou-se na beira da cama, fazendo reparos de emergência em sua guitarra molhada.
Eu havia tirado minha camisa e estava usando apenas uma regata por baixo e a calça do uniforme. Junna, por outro lado, trocara o uniforme pelo agasalho esportivo da escola. Uma etiqueta com o nome “Kurimoto” escrito nela estava costurada em seu peito. Era o meu agasalho.
Eu o havia usado na aula de educação física, mas como não havia outras roupas para trocar, não tive escolha a não ser emprestá-lo a ela. Fiquei imaginando se tinha cheiro de suor—
Sniff, sniff.
—Não cheire isso.
“Tem cheiro de Shigure…”
Fingi que não ouvi. Tentei me concentrar na leitura.
“...O cheiro de traição.”
“Que tipo de cheiro é esse?!”
Eu não podia deixar passar essa. Ao fechar meu livro e retrucar, Junna, enquanto limpava a escala de sua guitarra, disse:
“Eu vi você, sabe.”
Sua voz estava completamente seca.
“Ontem, no caminho para casa, vi você com a Yamada-san. Não consegui ver bem por causa do guarda-chuva, mas você parecia estar se divertindo na conversa… Vocês estavam se abraçando também, certo?”
“A-Abraçando... Foi inevitável. O guarda-chuva da Yamada estava prestes a ser levado pelo vento.”
“Eu sei.”
Junna interrompeu o que estava fazendo. Ela balançou a cabeça, ainda olhando para baixo.
“...Eu sei disso. Mas, simplesmente transbordou. O som... os sentimentos. Transbordou como uma inundação, e eu não consegui parar. Não consegui parar...”
Junna cobriu os ouvidos com as duas mãos. Ela não estava usando fones de ouvido. Sua franja caída lançava uma sombra escura sobre seus olhos.
“E o que saiu disso foi aquela música — ‘Sofrimento & Amor’, com ‘sofrimento’ para melancolia e ‘amor’ para afeto.”
A voz de Junna era inorgânica. Como uma guitarra feita de madeira morta e metal frio.
“Eu distorci e quebrei... matei o som lindo que o Shigure me deu. Uma música onde rabisquei meus sentimentos verdadeiros e sujos sobre uma melodia criada ao sobrepor o som feio que transbordou de dentro de mim... É uma música terrível.”
Junna retorceu os lábios em um escarnecimento. Um sorriso vazio e sem emoção.
Lembrei-me da música de Junna que ouvi no terraço. Um sentimento forte por algo precioso e as emoções sombrias que vêm com ele. O medo da perda, o desespero. Era uma canção cheia de pessimismo — como se uma luz deslumbrante e uma sombra profunda existissem ao mesmo tempo e, no final, a luz se apagasse, deixando apenas uma escuridão profunda.
“...A maneira como as flores ‘murcham’ é diferente para cada uma.”
Junna falava fluentemente, acariciando a guitarra em seu colo.
“Cerejeiras se espalham, crisântemos dançam, flores de ameixeira caem, camélias despencam, peônias desmoronam. Hortênsias... se apegam. Dizem que é porque elas murcham enquanto ainda estão firmemente presas ao caule. É uma expressão perfeita, não é? Perfeita para alguém como eu, que não consegue desapegar.”
“Junna...”
“A razão pela qual a YOHILA murchou uma vez foi,”
O ar ficou tenso como uma corda esticada, e a voz de Junna começou a tremer.
“porque eu era pesada demais. Meus sentimentos pela música, por todos, eram pesados demais... Eu os expus com honestidade demais e esmaguei a banda. Meus sentimentos verdadeiros, que eu deveria ter escondido como as pétalas de uma hortênsia... eu os joguei demais para todo lado e tudo quebrou. E eu ainda estou me apegando a isso.”
A voz inorgânica de Junna começou a ser tingida por uma emoção elétrica. Sua voz fraca gradualmente tornou-se mais alta, mais forte e mais aquecida.
“Então, de agora em diante, pensei em suprimir, esconder e matar minhas emoções o máximo possível. Para não esmagar e quebrar as coisas. Fora da música...”
Junna sempre parece sem expressão, sem emoção. Mas não é que ela não tenha emoções, ou que elas sejam fracas. Na verdade, elas são profundas, fortes, intensas e pesadas. É precisamente por isso que ela as mantém engarrafadas. Para não machucar os outros, nem a si mesma. Ela tentou ficar sozinha—
“Mas eu não consegui.”
Uma gota caiu sobre o corpo da guitarra.
“...Não importa o quanto eu tente, isso vaza, transborda. Meus sentimentos pelas coisas que considero preciosas.”
A chuva que cai gota a gota não para.
“Se eu os cuspir, vou profaná-los; se eu os jogar, vou quebrá-los; se eu me apoiar neles, vou esmagá-los... Eu sei disso, mas não consigo conter. É o mesmo com a música. Eu sabia que as pessoas ficariam repelidas se ouvissem uma música que fosse tão crua... mas não pude evitar de criá-la. No momento em que ficou pronta, não pude evitar de cantá-la.”
A imagem de Junna dedilhando sua guitarra e cantando na tempestade voltou para mim. Apenas aquilo foi o suficiente para fazer meu coração se sentir como se tivesse sido atingido por um raio. Levantando seu rosto cabisbaixo, Junna olhou para mim com olhos marejados.
“...Você ficou repelido, não ficou?”
Um fluxo interminável de lágrimas escorreu por suas bochechas e pingou.
“Você odeia isso, não odeia? Uma mulher que faz músicas como essa, uma mulher tão sombria e pesada... Assim como todas na YOHILA que foram esmagadas e murcharam, tenho certeza de que você também, Shigure—”
“—Sabe de uma coisa,”
Interrompi o grito dela e suspirei.
“...Do que você está falando agora? O que você acha que eu sou?”
Eu me levantei e, fortalecendo a voz, rugi:
“Eu sou um fã da YOHILA, da JUN?!”
Os olhos de Junna se arregalaram.
“Um fã fervoroso! Não tem a menor chance de eu ficar repelido ao ouvir aquela música... Foi incrível. Sombria, pesada e horrível — e, no entanto, linda, e ela te suga. Era a própria essência das músicas da YOHILA que me atraíram!”
“Shigure...”
Quando Junna piscou, as lágrimas que se acumularam em seus olhos transbordaram e escorreram por suas bochechas coradas. Com uma expressão como se estivesse sonhando, ela perguntou:
“—Está tudo bem? Mesmo…? Uma garota tão sombria e pesada...”
“Não é ‘mesmo’.”
Sustentei o olhar dela, agachei-me e peguei a mão fria que repousava sobre a guitarra, apertando-a com força. Como se quisesse ensiná-la que aquilo não era um sonho.
“É porque você é sombria e pesada — é por isso que é de você, Junna, que eu gosto!”
“...!?”
Ao ouvir minhas palavras, o rosto de Junna ficou vermelho como um pimentão. Relembrei a tarde em que caminhamos juntos depois de nos protegermos da chuva. As palavras que eu tive medo de dizer naquele momento. Os sentimentos que suprimi porque não estava confiante de que poderia aceitar minhas próprias emoções, e as dela — porque tinha medo de mudá-la.
Desta vez, com certeza. Os sentimentos que gritei na tempestade, mais uma vez.
“—Junna.”
Como se em resposta aos sentimentos que ela me ensinara através de sua canção.
“Eu—”
Eu estava prestes a dizer, exatamente naquele momento.
“—Desculpe, fiz vocês esperarem.”
A porta da enfermaria abriu com um estrondo e Akagi retornou.
“...!”
Soltei apressadamente a mão que estava segurando, e Junna soltou um ganido curto, “Pyah!?” , e caiu para o lado. A guitarra que estava em seu colo caiu no chão com um baque metálico.
“...? O que há de errado com vocês dois?”
Enquanto Akagi franzia a testa, retruquei em pensamento: “Olha o seu timing!”
No silêncio preenchido pelo som da chuva forte, Junna levantou-se lentamente, pegou sua guitarra e resmungou em uma voz baixa e turva:
“...Talvez eu consiga escrever outra música com as emoções e a melodia que acabaram de brotar em mim neste instante. Uma excepcionalmente intensa.”
☂
“Sabe, recentemente, eu andava travada com a minha composição.”
Junna murmurou, sua voz misturando-se ao som da chuva e da música. A chuva, batendo contra a janela, era soprada pelo vento e se fundia, desenhando um padrão de mármore com as cores do arco-íris ao absorver as luzes da cidade.
“Cada dia era tão brilhante… eu não conseguia escrever letras ou músicas sombrias muito bem.”
Junna e eu estávamos, naquele momento, sendo levados para casa por Akagi.
Os trens estavam funcionando, mas Junna começara a dizer coisas como: “É constrangedor andar de trem de agasalho”, “Não quero molhar mais a minha guitarra” e “Quero saber onde é a casa do Shigure”. Ao que Akagi respondeu:
“...Bem, tudo bem. Se algo acontecesse com a Amamori, o Yo me mataria. Eu levo vocês, já que vou dirigir de qualquer jeito. Amamori primeiro, depois o Kurimoto, pode ser?”
“Não. Por favor, deixe o Shigure primeiro, depois eu. Não vou deixar vocês dois sozinhos!”
“Certo, certo”, ela concordara facilmente. E assim, ficou decidido nos levar sob aquela chuva pesada. De acordo com Akagi, ela já planejava fazer isso de qualquer forma; ela realmente era uma pessoa solícita.
Akagi, percebendo nossa conversa no banco de trás, mexeu no visor do áudio e aumentou sutilmente o volume da música. “Rain” , do Pay money To my Pain — uma canção sobre perda.
“...Mas, sabe, acabei de me dar conta. Estou feliz e realizada agora… mas e se isso fosse perdido, o que aconteceria? Eu estava pensando nos velhos tempos.”
Os “velhos tempos” deviam ser a época em que todos os membros, exceto Junna, deixaram a YOHILA. Aquela perda foi o que moldou a Junna atual e a música da banda.
“Quanto maior algo precioso se torna no seu coração, maior e mais profunda é a ferida quando se perde. Quando pensei nisso, a felicidade se tornou assustadora. Não era mais apenas brilho. Quanto mais forte a luz, mais escura é a sombra que ela projeta… e quando percebi isso, consegui escrever de novo.”
“...Entendo.”
Eu ouvi de Akagi que Junna estava em um bloqueio criativo. Tive medo de ser a razão pela qual ela não conseguia escrever, de estar provocando uma mudança negativa, mas talvez fosse apenas uma preocupação infundada da minha parte.
“Sim. No fim… senti que existem coisas que não mudam, mesmo que mudem. Como uma hortênsia continua sendo uma hortênsia, mesmo que a cor de suas flores mude. O fato de eu ser sombria e pesada provavelmente nunca vai mudar. Mas tudo bem, né?”
Junna inclinou-se contra mim. O mais perto que conseguia chegar ainda usando o cinto de segurança. Ela se pressionou contra mim, esfregando a bochecha e o corpo no meu.
“Porque você Shigure disse que estava ‘tudo bem’. De agora em diante, acho que serei um pouco menos reservada e vou expressar mais meus sentimentos.”
A expressão de Junna ao sorrir parecia mais suave, mais quente e tingida por uma emoção mais profunda do que o habitual. Sua voz, também, parecia mais doce. Embora eu sentisse que os sentimentos que Junna têm “escondido” já estivessem vazando e transbordando mais do que o suficiente.
Fiquei atordoado com o calor encostado em mim.
“J-Junna… por que você está tão perto?”
“Porque estou com frio.”
Seu hálito quente fez cócegas no meu ouvido. Sua voz sensual e úmida fez meu tímpano vibrar.
“Me esquenta...?”
“Hã? O aquecedor está ligado. Se estiver com frio, pode pedir para ela aumentar—”
“Está tudo bem, eu me aqueço sozinha. Meu corpo e meu coração.”
Junna envolveu seus braços ao meu redor e me abraçou. Como uma hortênsia que se apega ao caule mesmo depois de murchar.
Eu congelei. Nossos olhos se encontraram pelo espelho retrovisor, mas Akagi apenas semicerrou os olhos e desviou o olhar rapidamente. Então, ela baixou a temperatura do carro. Parecia que ela estava me dizendo para apenas aceitar.
“Shigure.”
Junna apertou os braços e se ajeitou.
“—Fique ansioso pela versão final da música nova, está bem?”
Ela sussurrou, como se estivesse cantando. E então, ao me ver responder com um “...Sim”, ela sorriu pacificamente e fechou os olhos.
[Del: Como eu gostaria de escutar essa música.]
PLAYLIST DAS MÚSICAS QUE SÂO MENCIONADAS NA OBRA. (O autor tem um ótimo gosto)
Spotify
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(Crédito para o @Thang por reunir)
Traduzido por Moonlight Valley
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