Capítulo 1: A Chuva Pós-Aula, Nós Dois e Yamada
Capítulo 1: A Chuva Pós-Aula, Nós Dois e Yamada
“ Waaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah! O estresse está se acumulandooooo, waaaaaaaaaaaaaah! ”
Não era “um pouco”.
De pé sobre uma mesa comprida, usando seus sapatos de uso interno, Junna atacava as cordas de uma guitarra desafinada, berrando até ficar rouca.
O volume do mini-amplificador estava no máximo. Uma explosão de som distorcido vibrava pelo ar abafado pela chuva, espalhando-se ferozmente. Parecia uma fera elétrica, brandindo as garras e avançando descontrolada.
Se aquela não fosse a sala de audiovisual, que contava com isolamento acústico, o som teria ecoado por todo o prédio da escola.
“Eu não preciso de amigos, então não vou fazer nenhum? Errado! Eu não consigo fazer! Mesmo se eu quisesse, não consigo! Porque a música é a minha única amiga... Por tanto tempo, a música foi a minha melhor amiga, a única coisa que nunca, jamais me trairia! Eu já esqueci há muito tempo como interagir com humanos... Sem música, sem vida! Sem amigos, minha vida! Eu sou a Bocchi! Bocchi the Rock! Com sofrimento, direto da sala de audiovisual...”
[Almeranto: Isso aqui não é nem referência, isso aqui é inspiração de forma aberta. | Del: Fato kkkkkk.]
Uma narração começou por cima do dedilhar da guitarra. Parece um daqueles trechos falados que às vezes se escutam em músicas de rock.
“...Ufa.”
E bem quando pensei isso, acabou.
Satisfeita por ter posto tudo aquilo para fora, Junna parou de tocar, deixou a guitarra de lado e desceu da mesa. Ela se encolheu, abraçando os joelhos contra o peito.
“Shigure.”
Apoiando a bochecha nos joelhos, ela olhou para cima, fixando os olhos em mim, que continuava de pé.
“Me console...”
“Como desejar, minha garota de coração partido.”
Sentei-me ao lado de Junna e, exatamente como ela queria, comecei a afagar sua cabeça.
Junna soltou um “...Mmm” que parecia demonstrar cócegas, enquanto sua expressão relaxava em um sorriso. Era reconfortante, como observar um filhote de cachorro.
Desde a primeira vez que fiz isso, Junna gostou tanto desses carinhos na cabeça que passou a implorar por eles em qualquer oportunidade.
Fazer cafuné em uma garota parece um pouco clichê, então fico meio hesitante, mas como o humor de Junna melhora num piscar de olhos, acabou virando um recurso bastante útil.
“...Você quer tanto assim fazer amigos?”, perguntei enquanto aproveitava a sensação de seu cabelo fino e macio.
Junna assentiu.
“Sim. Eu só estava bancando a durona quando falei aquilo para a professora, mas eu sei que preciso mudar. Sinto que estou me esforçando ao máximo, do meu jeito. Mas─”
“Não está dando muito certo, né.”
“...É. É como se... as nossas conversas não batessem, e eu ficasse só na superfície. Talvez eu sinta isso ainda mais porque você e eu combinamos bem demais? Não consigo evitar a comparação.”
Junna murmurou, dedilhando as cordas da guitarra que estava deitada na mesa comprida. O amplificador estava desligado, então o som limpo e seco ecoou por cima do barulho da chuva forte lá fora.
“Então acabo dando essas respostas diretas… e frias. Eles provavelmente acham que sou apenas uma garota bonita e entediante, sempre de mau humor.”
“Então você tem consciência de que eles te acham uma garota bonita...”
“A culpa é sua, por sempre dizer que sou fofa.”
“Mas você é fofa.”
“Você tá dizendo de novo...”, Junna resmungou, com o rosto ficando vermelho.
Se os colegas de classe conhecessem esse lado fofo dela, e não apenas a sua aparência, a impressão que eles têm mudaria em um instante.
“Você conseguiu conversar normalmente com a Yamada e o Yōjirō, não foi? Aquela vez em que almoçamos juntos depois que eu te disse para ‘tentar fazer amigos’. Não consegue falar com as pessoas daquele jeito?”
“Impossível. Aquilo foi porque... porque você estava bem ali do meu lado.”
Erguendo a cabeça de cima da guitarra, Junna me encarou fixamente. Ela falou com uma voz mais pura e genuína do que o tom de uma corda desplugada.
“Sem você, Shigure, eu não sou nada.”
“..................”
As palavras de Junna penetraram no meu peito, espalhando uma sensação calorosa.
“Shigure?”
“Huh? Ah, sim... não.”
Cocei minha bochecha corada e quebrei aquele olhar doce e enredado. Continuei a conversa, tentando disfarçar.
“Eu só estava pensando no que deveríamos fazer. Quero dizer, eu ficaria com você, mas nós somos de salas diferentes... e ficarmos juntos demais na frente de todo mundo pode não ser uma boa ideia.”
“Por que não?”
“Por que não...? Bem, você sabe. As pessoas podem entender errado.”
“Que tipo de mal-entendido?”
Ela estava me pressionando. Inclinando-se para espiar meu rosto, ela forçou meus olhos a encontrarem os dela.
“Que tipo de ideia errada eles teriam?”
“...De que você e eu estamos... namorando.”
“Você não quer que pensem isso?”
“N-Não, não é isso─”
“Você não quer?”
“Não, não é isso! Eu não quis dizer como se ‘não quisesse’... Eu quis dizer algo como ‘não é que eu não queira, mas...’. Calma. Não tire conclusões precipitadas.”
Enquanto eu entrava em pânico ao ver a luz sumir dos olhos de Junna, ela os estreitou.
“‘Mas’? Mas... o quê?”
“Nós ainda não chegamos lá ”, eu disse a ela, mantendo o tom firme para não ser esmagado pela pressão que ela emanava.
Os olhos de Junna se arregalaram.
“Hum...”
Ela olhou para baixo, suas longas pestanas criando uma sombra.
“...‘ Ainda não?’ Entendi.”
Ela sorriu docemente. Foi um sorriso deslumbrante, como um arco-íris que parecia afastar a escuridão melancólica nascida da nossa conversa anterior.
“Você tem razão... Pouco a pouco, não é? Passo a passo...”
Junna olhou para mim novamente, com os olhos brilhando.
“Não vou me apressar. Vamos levar o tempo que precisar para seguir em frente. Com tudo.”
“...É.”
“Por enquanto, vou parar de mostrar o dedo do meio mentalmente para as pessoas toda vez que me perguntam sobre a minha relação com você, só porque acho isso irritante. De agora em diante, vou responder para eles que ‘ainda não chegamos lá’ também.”
“...É.”
Então esse é o motivo de você não conseguir fazer amigos, é?
☂
“Shigure. Vamos jogar Shiritori de Bandas.”
Junna sugeriu isso enquanto eu mexia no meu celular.
O “Shiritori de Bandas” é um jogo que ela e eu costumamos jogar de vez em quando, já que temos gostos musicais bem parecidos. As regras são as seguintes:
1. Só vale usar nomes de bandas de rock japonês.
2. É preciso falar uma banda que comece com a última letra da banda que a outra pessoa escolheu.
3. Quem falar uma banda que termine com a letra “nn” 「ん」 perde. Também perde quem repetir uma banda que já foi dita.
Até aí, funciona exatamente como um Shiritori convencional, mas...
Antes de falar a próxima banda, você é obrigado a citar pelo menos uma música da banda que a outra pessoa acabou de dizer. Se não conseguir lembrar de nenhuma, perde.
Existe essa regra especial.
Em outras palavras, é um jogo que serve para testar o nosso conhecimento mútuo sobre bandas.
“...Tudo bem.”
Deixei meu celular sobre a mesa e me virei para a Junna no banco comprido. Nem preciso dizer que pesquisar as respostas na internet é estritamente proibido.
“Eu perdi as duas últimas vezes, mas hoje eu vou ganhar!”
“Sem chance, sem chance. Vou acabar com você num piscar de olhos, quero ver você chorar.”
“Você é sadista, por acaso? Eu não vou chorar só porque perdi no Shiritori.”
“Eu sou masoquista. Se eu perder, provavelmente vou chorar. Aí você pode me consolar.”
Ela simplesmente soltou as preferências dela no meio da nossa conversa com a maior naturalidade, mas eu ignorei a provocação de forma sutil e respondi:
“Não vá perder de propósito só porque quer que eu te console.”
“Eu não faria isso. Embora eu possa chorar de mentira só para ganhar um carinho...”
“Se eu souber que é choro de mentira, não vou te consolar.”
“...Snif” , disse Junna, com uma expressão totalmente impassível.
De qualquer forma, voltando ao assunto principal. Após uma partida de pedra, papel e tesoura, ficou decidido que eu começaria.
A banda que escolhi foi, logicamente:
“YOHILA.”
“Você realmente ama ela, não é?”
As bochechas de Junna relaxaram em um sorriso. Eu não começo com eles todas as vezes, mas como a YOHILA é a minha banda favorita, tento usá-la sempre que tenho a oportunidade.
“‘Sofrimento & Amor’... Ainda não foi lançada oficialmente, mas tudo bem por você, né?”
Era a nova música programada para ser a estreia deles em uma grande gravadora, aquela que a Junna — ou melhor, JUN da YOHILA — estava cantando no meio de um tufão.
“Sim, sem problemas”, assenti.
“Estou tão ansioso para ouvir a versão finalizada que só tenho conseguido dormir à noite.”
“Isso é saudável. Eu durmo não apenas à noite, mas pela manhã e à tarde também. Eu gosto da vida noturna, sabe? Sempre fico pensando que seria bom se fosse sempre meia-noite...”
“Você devia colocar esse seu relógio biológico em ordem também, ‘Garota que Ama a Noite’. ”
[ “Só tenho conseguido dormir à noite”: No original, Shigure faz um trocadilho com o nome da banda Yorushika . Foneticamente, a palavra se assemelha a yoru shika (夜しか), que significa “apenas à noite”.
“Gosto da vida noturna”: Junna responde utilizando o nome da banda YOASOBI , cujo significado literal em japonês é yoasobi (夜遊び), ou seja, “vida noturna” ou “sair à noite”.
“Se fosse sempre meia-noite”: Referência direta ao nome da banda Zutto Mayonaka de Iinoni (ずっと真夜中でいいのに), que se traduz literalmente como “Quem dera se fosse sempre meia-noite”.]
Continuamos o nosso jogo descontraído de Shiritori, recheando a partida com conversas casuais. As piadas internas sobre música que soltávamos sempre que podíamos eram o nosso idioma comum.
“...La... LACCO TOWER.”
LACCO TOWER. Uma banda cujas músicas descoladas e letras profundas e literárias contrastam totalmente com o nome fofo. Fiquei um tempo em dúvida sobre qual música escolher, mas─
“‘Sunny After the Rain’ ( Ugo Hare / 雨後晴).”
“...Humpf.”
A sobrancelha de Junna deu um leve espasmo. Eu continuei.
“WANIMA.”
“‘Ameagari’.”
“...Ah.”
Dessa vez, foi a minha sobrancelha que espasmou. Junna anunciou a sua próxima escolha em tom de desafio.
“MyGO!!!!!”
“‘Hitoshizuku’─ não, espera, ‘Refrain’.”
“‘Ame’ escrito com o caractere de chuva. Você nunca conseguiria ler de primeira, não é? Também tem...”
Junna pegou uma lapiseira e, no caderno de partituras que ela sempre carrega consigo para anotar as melodias que lhe vêm à cabeça, escreveu “迷星叫”, “影色舞” e “詩暮病” para eu ver.
“‘Mayoii Uta’, ‘Silhouette Dance’... a última... ‘Doença de Shigure?’ Eu não conheço essa música. Como se lê isso?”
“‘Amamori Junna’.”
“Não tinha a menor chance de eu adivinhar essa leitura.”
[ “Amamori Junna” (Leitura alternativa): Junna escreve os caracteres de Doença de Shigure (詩暮病), mas diz que a leitura correta ali é o seu próprio nome. Trata-se de uma brincadeira romântica, sugerindo que ela mesma é a “doença” ou a obsessão de Shigure.]
“...E quanto a ‘Kurimoto Shigure’? Como se escreve?”
Ela perguntou, estendendo-me a lapiseira. Após um momento de hesitação, escrevi:
“.........Assim, eu acho.”
Sem nenhuma criatividade, escrevi ‘Kurimoto Shigure’ como 栗本詩暮. Junna inflou as bochechas.
“Reprovado. Mais mil Pontos de Depressão.”
Os pontos que representavam o nível de infelicidade dela dispararam de uma vez só. Segurei a lapiseira novamente e acrescentei:
“...Você também poderia escrever assim.”
Coloquei “Doença de YOHILA*” logo ao lado de “栗本詩暮”.
[ “Doença de YOHILA”: Shigure rebate escrevendo Doença de Yohila (四葩病), utilizando o kanji 葩 (que significa pétala de flor e faz parte do nome da banda). Ele devolve a provocação romântica, indicando que se considera a “doença” de Junna.]
Junna piscou, surpresa.
“Shigure, você sabe como escrever o kanji para ‘葩’ (pétala de flor)...?”
“Como um grande fã da YOHILA, é claro que eu sei.”
“... Hum . Não são os caracteres que eu estava esperando, mas tudo bem. Aprovado. Menos cinco mil Pontos de Depressão.”
“Esqueça os pontos, a variação das suas emoções é grande demais!?”
Bem, contanto que o saldo final continuasse negativo, acho que não tinha problema.
“Shigure, o Shiritori. É a sua vez, começando com ‘go’.”
“Go... go... GO!GO!7188.”
“E não os Vanillas (go!go!vanillas).”
“É. Mas eu fiquei em dúvida.”
“...Hum?” , Junna me encarou fixamente. Em seguida, ela continuou.
“‘Ame Nochi Ame Nochi Ame’... ‘Ameagari Asphalt Atarashii Kutsu De’... ‘Eiga To Amefuri No Asa’... ‘Kaminari ga Natte Takusan Ame ga Furu Yoru’... ‘Amenohi Dakeno Koi’.”
“Isso são muitas músicas.”
“Chirinuruwowaka.”
[ “Chirinuruwowaka”: O trocadilho original baseia-se no fato de que o “Chi” (ち) vem do número 8 ( hachi ), presente no nome da banda anterior, GO!GO!7188. A banda Chirinuruwowaka foi de fato fundada pela guitarrista e vocalista do GO!GO!7188 após a separação do grupo.]
A banda liderada pela guitarrista e vocalista da extinta GO!GO!7188.
Cruzei os braços, apoiando a mão no queixo enquanto pensava. Dei uma olhada de relance para o celular em cima da mesa.
“Sem olhar no Google.”
“...Eu sei.”
Depois, olhei para a entrada da sala. A porta estava entreaberta. Eu a havia destrancado quando fui ao banheiro mais cedo. Junna me apressou.
“Tempo limite. Dez, nove, oito, sete...”
“‘Fukahi na Haiboku’*.”
“─Hã?”
“Tudo bem eu perder. Não consegui pensar em nenhuma música relacionada à chuva.”
[ “Fukahi na Haiboku”: Tradução livre do título da música Fukahi na Haiboku (不可避ナ敗北), que significa “Derrota Inevitável”.]
Isso não era realmente uma regra do jogo. Mas, em algum momento da partida, nós dois havíamos começado a jogar adotando essa restrição por conta própria.
Junna me lançou um olhar reprovador.
“...Shigure. Você perdeu de propósito, não foi? O motivo de você não ter escolhido os Vanillas foi porque não conseguiu lembrar de uma música de chuva deles, certo?”
“Você está paranoica demais.”
“Você queria perder para eu te consolar...”
“Isso já não é paranoia, é só um palpite selvagem.”
“Pronto, pronto.”
Junna começou a afagar minha cabeça, e eu me contorci com a sensação de cócegas.
“E-Ei, para com isso...”
“Seu cabelo é igual ao de um gato, Shigure. Você fica tão fofo quando está envergonhado.”
“Eu disse para parar.”
“Você está sempre me chamando de fofa, então esta é a minha vingança. Você é fofo, Shigure. Muito, muito fofo.”
“..................”
Fiquei em um silêncio emburrado e virei o rosto para o lado oposto.
Olhando na direção da porta, que agora estava mais aberta do que antes, chamei:
“─Yamada-san!”
Ouvi um som abafado de susto, algo como “ Bffft !?”.
Junna parou a mão, franziu a testa e olhou para a entrada.
“...Yamada-san?”
“Não fique só espiando, pode entrar.”
“............Shigure?”
Junna me olhava de forma desconfiada, mas esperei em silêncio por uma resposta. Eventualmente...
“C-Com licença”, uma garota atraente com cabelos castanhos claros surgiu, abrindo a porta timidamente.
Com sua maquiagem impecável e saia curta, ela parecia o exemplo perfeito de uma gyaru extrovertida e radiante ─ minha colega de classe, Yamada Haruka.
“...Desculpa. A vibe de ‘mundo próprio de vocês dois’ aqui dentro estava tão forte que eu não tive coragem de entrar, Kurimoto-kun. E-E também─”
Seus olhos, que lembravam um céu azul límpido, travaram em Junna. Então...
“H-Heh heh.”
O rosto de Yamada se contorceu em um sorriso estranho, e uma risada bizarra escapou de seus lábios. Para piorar, conforme entrava na sala, ela topou o dedão do pé no batente da porta, soltando um “Ai!?” e pulando em um pé só, antes de continuar:
“...O-Olá. A-A-A-Amamori-tan! Heh heh heh...”
Ela riu de novo, como se estivesse tentando disfarçar o próprio embaraço.
Por uma rara exceção, Junna ficou totalmente desconsertada, soltando um “Hã?” de pura confusão.
Ela olhou para mim e apontou para Yamada enquanto perguntava:
“............Quem é essa otaku bizarra?”
☂
“─Hum. Então a Yamada-san... gosta da YOHILA...”
Junna disse com uma expressão totalmente impassível após ouvir a história da minha boca, olhando para baixo.
Como a Yamada tinha descoberto sobre a YOHILA a partir da palavra-chave “Rock Depressivo” que eu havia deixado escapar sem querer, escutado as músicas e suspeitado que JUN, a vocalista, era a Junna.
Como ela tinha ficado completamente viciada na música da YOHILA.
E como ela era, na verdade, uma antiga otaku sombria que tinha passado por uma repaginada ao entrar no ensino médio, e que, diante de sua ídola, Junna (JUN), acabava revertendo para o estado de uma otaku bizarra por puro nervosismo...
Yamada, de pé ao lado da mesa, cobriu a boca com as mãos.
“A-A culpa não é do Kurimoto-kun, tá!? Fui eu que decidi pesquisar por conta própria! E-E-E-E-Então, Amamori-tan─”
“Por favor, pare de me chamar de ‘-tan’, é bizarro.”
Yamada parecia prestes a chorar após as palavras venenosas de Junna. Talvez sentindo uma pontada de culpa pela reação dela, Junna continuou, como se estivesse tentando consertar:
“─Quero dizer, a sua personalidade é bizarra, mas eu acho você fofa.”
“─!”
Os olhos de Yamada se arregalaram, e sua expressão de quase choro derreteu-se em um sorriso bobo.
“F-Fofa... Ehehe . A Amamori-ta... san me chamou de fofa... Guhehe. Ueheheheheh. ”
“Ainda é bizarra.”
O rosto de Yamada se contorceu em angústia. Junna recuou um pouco.
“...Mas ainda é fofa.”
“ Dyufufufu .”
“Bizarra.”
“Ai...”
“Fofa.”
“ Fuhehehehe .”
“Bizarra.”
“ Snif... ”
“Pare de brincar com a Yamada-san. Parece até aquela brincadeira de ‘bem-me-quer, mal-me-quer’ com as pétalas de uma flor.”
[Almeranto: Que noia é essa minha gente? Kkkkkkkk.]
A expressão de Yamada mudava a cada vez que Junna repetia “fofa” e “bizarra”.
Quando Junna finalmente murmurou um “...Bizarra-fofa”, Yamada fez uma careta indescritivelmente conflituosa, mas no fim a felicidade deve ter vencido, porque ela soltou uma risadinha contida, um “ Fuhihi ”.
Lá fora, a chuva continuava caindo. Massageei minhas têmporas como se tentasse conter uma enxaqueca.
“─Então”, olhei para Junna e Yamada, uma de cada vez. “O motivo de eu ter chamado você, Yamada-san, foi para sugerir que você se junte a nós nesses ‘Encontros em Dias de Chuva’.”
Anunciei a novidade. Enquanto Yamada soltou um surpreso “O quêêê!?”, Junna apenas franziu levemente a testa.
“D-D-D-D-De jeito nenhum! Isso é honra demais. Alguém como eu não pode simplesmente invadir o precioso tempo de vocês dois a sós...”
“Não precisa ser todo dia. Só de vez em quando já está bom. Se você fizer isso─”
Olhei diretamente para Junna.
“Você não acha que conseguiria se dar um pouco melhor com outras pessoas além de mim, como os seus colegas de classe?”
“Com outras pessoas além do Shigure...”
Junna me encarou fixamente.
“Você está dizendo que eu deveria praticar como conversar com as pessoas?”
Após dar uma olhada para a desconcertada Yamada, ela assentiu de leve com a cabeça.
“............ Huum. Eu entendi.”
“Caramba. Sério!?”
“─No entanto”, Junna ergueu o dedo do meio e acrescentou com uma voz gélida: “Existe uma condição.”
“...Garota, usa a porcaria do dedo indicador…”
“Você tem que acertar todas as perguntas de um quiz de introdução de músicas da YOHILA. Se conseguir, vou reconhecer que os seus sentimentos são genuínos e te dar a aprovação. Essa é a condição para se juntar à nossa ‘Sociedade de Apreciação de Rock Depressivo’.”
“Ah, é... nós tínhamos um clube assim. Espera, eu também faço parte dele?”
☂
“Miss Pessimist.”
“...Correto.”
Yamada respondeu no instante exato em que ouviu a introdução, e Junna parou de tocar.
Ela congelou com uma expressão vazia por cerca de cinco segundos antes de mover a mão esquerda pelo braço da guitarra.
“Oxygen-Deprived Mermaid.”
A voz de Yamada sobrepôs-se ao som do arpejo.
Junna, que havia parado de se mover como se um botão de pausa tivesse sido pressionado, murmurou amargurada:
“............Correto. N-Nada mal.”
Seus olhos, geralmente tão calmos quanto um lago plácido, vacilaram, e seu olhar vacilou. A lateral de seus dedos que seguravam a palheta batucou contra o corpo verde-água da guitarra. Em seguida, ela lançou um olhar desafiador para Yamada.
“E quanto a esta?”
“I Can’t Go Back to Asphalt, But…”
“...C-Correto... Mas não tem a menor chance de você acertar esta aqui─”
“Gonna KI☆LL☆ The Guy Who Stole My Umbrella.”
“............Shigure.”
Junna olhou para mim ao seu lado. Sua expressão estava vazia como sempre. No entanto, seus olhos vacilantes e lábios trêmulos denunciavam uma agitação inegável.
“Essa otaku é assustadora.”
“...É. Eu também estou um pouco assustado agora.”
Como ela conseguia acertar todas logo após uma ou duas notas, antes mesmo de uma única frase musical terminar? Mesmo para um maníaco por YOHILA como eu, responder tão rápido seria quase impossível.
A propósito, ela acertou a última perfeitamente também. Era uma canção denpa no estilo “Depression Digi-Rock” que JUN, furiosa após alguém roubar seu guarda-chuva, criou usando ferramentas raras para ela, como autotune e sintetizadores. A música só havia sido lançada na internet e nunca ganhou uma versão física.
[Del: Apesar do Japão ter bons índices quando se trata de roubo, segurança e até devolução de carteira, os guarda-chuvas (em especial os transparentes) são a grande exceção a isto, sendo quase que tratados como um bem comunitário.]
“ ─Humpf . Isso não foi nada.”
Yamada exibia o olhar mais convencido que eu já tinha visto na vida.
“Cada nota que a JUN-sama toca penetra profundamente até a última das minhas células! No momento em que ouço, meu corpo treme, e todas as minhas sessenta trilhões de mitocôndrias gritam a resposta em uníssono!”
“Que jeito bizarro de expressar isso.”
A expressão impassível de Junna finalmente se desfez. Ela agarrou sua guitarra.
“E, além disso, pare com o ‘-sama’...”, ela tremeu. Até mesmo sua fala formal estava falhando.
“ Fwooooooooooah! ”
“...!?”
Junna deu um sobressalto quando Yamada de repente soltou um grito bizarro. Yamada agarrou a cabeça com as duas mãos.
“M-Maldição! Não acredito que fiz isso! Esta era a minha chance de ouvir a JUN-sa... -n tocar ao vivo! Por que... Por que eu respondi instantaneamente!? Eu sou idiota!? Ei, eu sou idiota!? Whooooooooooah! ”

─Bang, bang, bang, bang! Ela começou a bater a testa contra uma mesa próxima, como se estivesse batendo cabeça no ritmo de um rock pesado. — O que diabos há de errado com o estado emocional dessa garota? — Junna ficou completamente aterrorizada.
“Y-Yamada-san! Controle-se─”
“Última pergunta.”
Junna disse calmamente. Antes mesmo que eu precisasse intervir, Yamada ergueu a cabeça.
“─Eh?”
“...Escute”, anunciou Junna, reposicionando a guitarra.
E então, ela tocou.
Era uma música que eu nunca tinha ouvido antes.
Um riff de guitarra afiado ecoou pelo ar abafado, cortando a atmosfera. Era um som rápido, altivo, cheio de velocidade, mas com uma ondulação suave e um tempo flutuante.
Os dedos de Junna manipulavam as cordas com técnicas habilidosas como bends e pull-offs , impregnando as notas de pura emoção.
Era um tom que fazia sentir uma contradição ─ tristeza dentro da alegria, paz dentro da melancolia e desespero marchando lado a lado com a esperança ─ cantando uma melodia lírica.
Uma melodia que, de alguma forma, era familiar.
O cantarolar de Junna me veio à mente. Um rastro dele.
No momento em que os harmônicos distorcidos ressoaram, a “resposta” estalou na minha cabeça.
“...! Essa música─”
Olhei de relance para Yamada. Ela estava de olhos arregalados e boca entreaberta, escutando a performance de Junna em transe. Mesmo depois que a introdução terminou, ela não deu sinal de que responderia.
Claro. Era uma música que ela nunca tinha ouvido antes. Mas...
“‘Sofrimeno & Amor’.”
Eu sabia. Mesmo sem nunca ter escutado aquela faixa antes, eu sabia que música era aquela. A harmonia transparente que havia sido tocada no telhado, naquele dia, naquele exato momento.
Ao ouvir minha resposta, Junna sorriu e parou de tocar.
“...Você acertou, Shigure.”
A tempestade de som cessou, e o silêncio se instalou. O barulho da chuva. As reverberações acariciaram meu coração.
“Impressionante.”
“ ─Humpf .”
Ao ser elogiado por Junna, estampei o meu olhar mais convencido no rosto. Olhei para o lado, na direção de Yamada. Ela estava...
“............O-Oooooooooooooooooh~~~~!”
Arrebatada pela emoção. Cobrindo a boca com as duas mãos, com lágrimas surgindo nos cantos dos olhos e as bochechas coradas, ela tremia por inteiro.
“Isso é... isso é bom demais... isso é.........”
Seu vocabulário tinha sido aniquilado pela pura intensidade do momento.
“A performance ao vivo da JUN-san... da Amamori-san é genuinamente insana! Haaah ... É a melhor coisa do mundo... Sinto que eu conseguiria viver o resto da minha vida apenas com a energia dessa lembrança, não importa o que aconteça. É esse o nível de insanidade!”
“...Você está exagerando”, disse Junna, exasperada.
Yamada enxugou as lágrimas nos cantos dos olhos e riu.
“Eu não consegui passar, mas... sim. Estou tão satisfeita! Obrigada, Amamori-san, Kurimoto-kun. Por me darem uma oportunidade tão preciosa. Como uma grande fã da YOHILA, continuarei a apoiar vocês a partir das sombras─”
“Espere.”
Quando Yamada fez menção de ir embora, os dedos de Junna seguraram a barra de seu uniforme, detendo-a. Surpresa, Yamada se virou, e Junna olhou para ela com um olhar intenso.
“...A condição para passar é acertar todas as perguntas, mas... esta última era uma música inédita, então não conta.”
“─Huh?”
Yamada ficou com cara de tonta.
“Não conta? Isso significa que─”
“Sim, você passou.”
Junna soltou a roupa dela e assentiu. Com sua habitual expressão impassível, declarou:
“O amor da Yamada-san pela YOHILA, o seu lado otaku, é real... Tanto eu quanto o Shigure não temos escolha a não ser reconhecer isso.”
“Ela tem razão. É incrível o quão profundamente você escutou as músicas dela, considerando que acabou de conhecer a banda. Como outro grande fã da YOHILA, isso me fez perceber que não posso ficar para trás! Você passou com louvor, sem a menor dúvida.”
“...! A-Amamori-san... Kurimoto-kun...”
O rosto de Yamada se desfez em choro e ela abriu os braços como se fosse comemorar, avançando:
“Obrigadaaaaaaaa ─Epa!?”
Ela tentou abraçar Junna, mas foi bloqueada pela guitarra, que foi usada como escudo.
“Espaço pessoal. O seu está com defeito?”
“Olha quem fala, Junna.”
“ Fuhehehehe... ”
Dei um sorriso amarelo diante da resposta de Junna. Uma única gota de sangue escorreu do nariz de Yamada enquanto ela ria, provavelmente por ter batido contra a guitarra.
“...Estou tão feliz. Pensar que posso continuar respirando o mesmo ar que a Amamori-tan... Guehehehehe .”
“Bizarra. Pare com o ‘-tan’. E você está suja.”
Junna empurrou o rosto de Yamada, que estava com o nariz sangrando, para longe e virou a cabeça. Sua voz era monótona e suas palavras eram duras. No entanto...
“...Shigure. Eu posso revogar a aprovação dela?”
A expressão em seu rosto enquanto me perguntava aquilo parecia, de alguma forma, feliz.
☂
“Ei, Jun-chan!”
No dia seguinte, após as aulas. No momento em que Yamada, que viera comigo para a sala de AV, avistou Junna, ela acenou energicamente com a mão e a cumprimentou.
Jun-chan? Elas se aproximaram rápido.
“…Yamada-san. Você veio de novo hoje.”
Ou pelo menos era o que eu pensava, mas Junna continuava a mesma de sempre. Ela tirou os fones de ouvido e respondeu com uma expressão sonolenta e impassível. A linguagem formal que ela supostamente havia abandonado havia retornado.
“ Mmm . Achei que poderia estar incomodando… mas eu queria te ver. Então vim. Ehehe .”
“Nojento.”
A língua afiada dela também continuava intacta. Embora o fato de não ter dito que era um incômodo ou um estorvo sugerisse que ela não se importava completamente.
“…Enfim, você poderia parar de me chamar assim? Se alguém ouvir, pode acabar descobrindo que eu uso o nome JUN.”
“Eh, não tem problema.”
Yamada caminhou até Junna, que havia voltado a olhar para o celular.
“Eu só te chamo de ‘Jun-chan’ quando não tem mais ninguém por perto… É ESPE☆CIAL☆ ”
Enquanto Yamada soprava um beijo na parte do “especial”.
“Nojento…”
Junna disparou outra observação venenosa.
No entanto, Yamada, que aparentemente já havia desenvolvido imunidade, não se abalou e até pareceu satisfeita, soltando um “ Fuhihi ”. — Ela é durona.
“Nojento.”
“Para de ficar dizendo ‘nojento’. Você é um robô de ‘nojento’?”
“Fofo.”
“…!? Jun-cha─”
“Você é fofo, Shigure.”
“Eu!?”
“…zuun… meramera…”
“Não fica com ciúme, Yamada-san…”
“‘ Mela! ’”
“Essa é uma música do Ryokuoushoku Shakai.”
As respostas vinham rápidas e afiadas. Coloquei minha mochila de ombro sobre a longa mesa e, “…………”
Após alguns segundos imóvel, sentei-me na fileira atrás de Junna.
Junna soltou um “Eh?” surpresa.
Em seguida, lançou-me um olhar reprovador.
“─Shigure. Por que você sentou aí?”
Yamada estava sentada na fileira à frente de Junna, e o lugar ao lado dela provavelmente estava reservado para mim. Entendendo isso, o motivo pelo qual eu deliberadamente não sentei ali era…
“Bem, porque…”
“Porque o quê? ”
Não me apresse. — Olhei por cima de Junna, que estava emburrada, para Yamada, que observava nossa troca com um olhar intenso, e continuei.
“Quando tem outras pessoas por perto, é… meio vergonhoso, sabe? Ficar tão perto assim.”
Quando somos só nós dois, eu já me acostumei e não me incomodo tanto, mas quando tem uma terceira pessoa observando, me incomoda. Não é tão ruim se for alguém mais velha como Akagi, mas fico especialmente consciente dos olhares de pessoas da nossa idade.
Desde aquele alvoroço — o incidente em que Junna começou a vir para a escola normalmente e se tornou o centro das atenções de todo o corpo estudantil — fiquei ainda mais atento a como os outros nos veem e pensam sobre nós.
Ao ouvir minhas palavras, Junna estreitou os olhos.
“Hoh?”
“Então você não detesta?”
“B-Bem… Não, eu não detesto.”
“Só fica com vergonha?”
“…É.”
“Entendi. Nesse caso─”
Junna se levantou e se aproximou. Ela me empurrou mais para dentro do assento.
“…!? Ei, espera!”
“Não,” e ocupou o lugar ao meu lado.
Em seguida, envolveu meu braço com os dela enquanto eu tentava me afastar.
“Vamos te deixar envergonhado,” sussurrou ela. Com uma expressão completamente séria.
“…………”
Embora suas orelhas estivessem levemente avermelhadas.
Ao ver aquilo, Yamada soltou um gritinho.
“ Fwaaaaaaaaaah! ”
“Meu Deus! Jun-chan, que parece fria mas na verdade é grudenta e agressiva, e Kuri-chan, que age de forma legal mas na verdade é tímido… Vocês dois são fofos demais!”
“Quem diabos é Kuri-chan!?”
“Kuri-chan é fofo. Será que eu também deveria te chamar assim?”
“Por favor, não…”
Eu estava ficando cansado de Yamada e Junna começarem a se conectar em um nível estranho.
O ar, que ficava mais abafado conforme o verão avançava, era resfriado pelo ar-condicionado, mas um suor pegajoso e desagradável escorria pelas minhas costas.
“Kuri-chan. O que vamos fazer hoje?” perguntou Yamada.
Antes que eu pudesse responder, Junna o fez.
“─É a ‘Reunião de Relembrar as Memórias que Fizemos Juntos – Edição Junho do Primeiro Ano’. Vamos ouvir as conversas que gravamos em junho e nos imergir no nosso doce passado… não é mesmo, Kuri-chan ?”
“Não vai haver nenhuma reunião desse tipo. Além disso, essa história de ‘eu gravo todas as minhas conversas com você’ não tem graça nem como piada, então por favor pare. E o negócio de ‘Kuri-chan’ também.”
“ Mmm… Tá bom. Vou parar de te chamar de Kuri-chan. Shigure.”
A ênfase que ela colocou em “te chamar de Kuri-chan” foi inquietante, mas tenho certeza de que aquilo também era uma brincadeira. Pelo menos era o que eu queria acreditar.
A maciez e o peso de Junna, que se inclinava contra mim com o braço ainda entrelaçado ao meu. Enquanto eu ficava tonto com seu doce perfume, Yamada perguntou novamente.
“─Então? Kuri…moto-kun. O que vamos fazer de verdade? E o que vocês dois costumam fazer normalmente?”
“Dica. À prova de som, trancados, um garoto e uma garota sozinhos em uma sala selada─”
“Nós basicamente só conversamos,” respondi, ignorando a piada em camadas de Junna.
“Enquanto escutamos Junna praticar violão. Fora isso, compartilhamos coisas que estamos gostando ultimamente, ou assistimos vídeos recomendados? Às vezes assistimos filmes na tela.”
“Mas que paquera, heh .”
“Bom, pra ser sincero, não importa muito o que a gente faz. Desde que eu esteja com a Junna, qualquer coisa é divertida.”
“Que tipo de ostentação é essa, heheheh .”
“S-Shigure… Não fala coisas que fazem meu coração acelerar assim do nada.”
“A Jun-chan envergonhada é tão fofa que eu vou morrer. Tipo, de verdade. Estou tão feliz que vou ter uma parada cardíaca… Jun-chan feliz é tão preciosa que eu não aguento… Estou emocionalmente destruída!”
Assim como o “ heh ” de Yamada havia evoluído para “emocionalmente destruída”, eu trouxe a conversa de volta ao eixo.
“─No entanto, hoje. Tem uma coisa que realmente precisamos fazer.”
“Uma coisa que temos que fazer? O que seria?”
“Não… Eu não quero ouvir.”
Yamada inclinou a cabeça. Eu impedi Junna, que estava prestes a colocar os fones de ouvido, e continuei.
“Precisamos estudar. Para a prova.”
“………………”
A luz nos olhos de Junna e de Yamada se apagou completamente. Não havia som de chuva para preencher o silêncio.
As provas de fim de semestre do primeiro trimestre estavam a menos de uma semana.
☂
Um feixe de sol de verão infiltrava-se pela fresta das cortinas grossas e blecaute.
O tempo estava limpo, e as atividades do clube no período da tarde, que normalmente estariam acontecendo, haviam sido suspensas há dois dias para o período de testes ─ uma semana antes dos exames finais de meio de semestre.
Com qual objetivo? Estudar, é claro.
Não para bater papo.
“Certo, uma pergunta!”
Yamada parou a caneta em movimento e ergueu a mão com energia.
“Jun-chan e Kurimoto-kun, como vocês dois se conheceram!?”
“...Yamada-san─”
“Ele deu em cima de mim bem aqui”, respondeu Junna, cortando a minha advertência. “Um dia, depois da aula, eu estava lendo quando ele de repente começou a falar comigo... e, do nada, ele me tocou.”
“Objeção!”
[Del: Objecton! ]
Elevei a voz e lancei um olhar severo de soslaio para Junna ao meu lado.
“O livro que a Junna estava lendo era meu, que eu tinha esquecido. Foi por isso que a chamei; a parte do ‘dar em cima’ é uma falsa acusação. E quanto a tocá-la... ela estava prestes a soltar um spoiler de um livro de mistério que eu ainda não tinha terminado! Eu só cobri a boca dela com a mão por instinto!”
“Mesmo assim, aquela foi a primeira vez que alguém tocou nos meus lábios, então, na prática, você roubou meu primeiro beijo... Essa responsabilidade é mais pesada do que um spoiler, você não acha?”
“Não seja ridícula. De todos os spoilers, os mais hediondos são os truques e a identidade do culpado em um romance de mistério. Além disso, aquilo não foi um beijo. Portanto, sou inocente.”
“Juíza Yamada. O seu veredito?”
“... Hum .”
Yamada fechou os olhos e fingiu refletir com uma expressão solene. Ela bateu com a caneta na mesa e anunciou:
“Eu estou com inveja demais, então os dois são culpados! Eu sentencio vocês a viverem felizes para sempre!”
“Aceito humildemente a minha sentença. — Não é, Shigure?”
“Sim, sim.”
“...Dois ‘sim’ e uma resposta sem entusiasmo. Mais mil e duzentos Pontos de Depressão.”
“A única coisa que você deveria estar aumentando são as suas notas na prova... sabia?” eu disse, soltando um suspiro e apontando para a apostila de matemática em que Junna estava trabalhando.
Em seguida, virei-me para o outro lado e avisei a Yamada-san:
“Yamada-san. Por favor, faça apenas perguntas sobre os estudos.”
Os ombros de Yamada murcharam.
“...Está bem”, disse ela, e começou a memorizar o vocabulário de inglês.
Suspirei novamente e voltei a me concentrar no problema de matemática à minha frente.
Um período de silêncio fluiu pelo ambiente.
A sala de audiovisual após as aulas, sem o barulho da chuva, era silenciosa, e o raspar das pontas das canetas, o farfalhar das páginas sendo viradas, o zumbido do ar-condicionado e o som fraco da respiração de cada um pareciam estranhamente altos e claros.
Shu─
Tentei engolir a saliva que havia se acumulado na minha boca o mais silenciosamente possível. Minha atenção estava focada mais na pessoa ao meu lado do que na apostila em minhas mãos.
Não consigo me concentrar...
Junna à minha direita, Yamada à minha esquerda.
Eu estava prensado entre duas garotas.
Como fomos parar nessa disposição?
Havia dois motivos.
Primeiro, a sala de audiovisual tinha mesas compridas e bancos compridos. Ao contrário das mesas e cadeiras comuns, eles não podiam ser movidos, então, se quiséssemos estudar juntos, tínhamos que sentar lado a lado.
Segundo, Yamada havia recusado sentar-se ao lado de Junna, dizendo coisas como: “É honra demais”, “Eu ficaria nervosa demais” e “Eu não conseguiria estudar absolutamente nada.”
Como resultado─
“...Shigure, a sua mão parou.”
“Tem algo que você não entendeu? Onde, onde?”
Essa situação de “uma flor em cada mão” acabou nascendo. Junna estava me encarando, e Yamada espiava a minha apostila.
“...N-Não liguem para mim.”
As duas estavam perto demais.
O ombro de Junna pressionado contra o meu já era o de praxe, mas por que a Yamada estava tão perto a ponto de nossos ombros quase se tocarem?
Será que o senso de espaço pessoal dela ficou bagunçado porque ela era uma pessoa solitária tentando se forçar a ser extrovertida? A parte problemática é que ela nem sequer tem consciência disso... embora a Junna, que tem total consciência e reduz a distância de qualquer forma, seja um outro tipo de problema.
Uma mistura de um aroma doce e floral com uma fragrância cítrica refrescante provocava o meu olfato. A frágil concentração de um estudante do ensino médio estava sendo completamente desestabilizada.
“─Shigure?”
“─Kurimoto-kun?”
Preocupadas pelo fato de a minha mão continuar parada, Junna e Yamada tentaram espiar o meu rosto pelos dois lados ao mesmo tempo. Eu não aguentei mais e...
“............Estou com sono.”
Enterrei o rosto na apostila, que estava mais da metade em branco, e fingi privação de sono. Senti Junna e Yamada trocarem olhares por cima da minha cabeça.
“E era você quem estava mandando a gente estudar, Shigure...”
“Será que o Kurimoto-kun é, por acaso, um garoto inútil?”
“ Zzz... ”
Incapaz de retrucar, fingi dormir.
Depois disso, meus estudos progrediram a passos de tartaruga e, finalmente, o sinal que indicava o fim do horário escolar ecoou, agitando o ar seco.
-DelValle: Olá leitores, tudo bem? Só estou aqui para informar que os comentários/notas que tem pelo capítulo que não tem o meu nome ou o do Al, são na verdade produzidas pela equipe da Slimey , que é quem cuida da tradução para o inglês, então créditos para eles, blz? Eu só organizei e coloquei as curiosidades nos seus respectivos lugares, acho que pode ser melhor do que encontrar um mucho texto aqui no final sabe. Dito isso, sem mais nem menos, boa leitura!
PLAYLIST DAS MÚSICAS QUE SÂO MENCIONADAS NA OBRA.
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(Crédito para o @Thang por reunir)
Traduzido por Moonlight Valley
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