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Capítulo 2: Estudo de Sábado

Amamori Junna É Úmida — novelmania.com.br · All chapters

Capítulo 2: Estudo de Sábado

Estava chovendo desde cedo naquele sábado.

Era uma garoa fina e persistente, mas, ainda assim, quando o tempo fica desse jeito, as pessoas parecem preferir se abrigar em locais fechados. Ikebukuro estava menos movimentada do que eu esperava para um feriado e, enquanto me dirigia ao ponto de encontro, pensei comigo mesmo que teria sido muito mais prático combinarmos de nos ver dentro da estação.

O local escolhido era um pequeno parque no lado oeste da estação. Em um canto da praça, marcada por sua cobertura em formato de anel, avistei um guarda-chuva com estampa de hortênsias florescendo sob a chuva.

“Bom dia, Junna.”

“............”

Aproximei-me sob o meu próprio guarda-chuva e a chamei, mas não obtive resposta.

O guarda-chuva dela estava inclinado para baixo, ocultando seu rosto. Quando espiei a penumbra sob a lona, meus olhos se encontraram com os de Junna. Como eu já imaginava, ela estava se defendendo do mundo exterior com seus fones de ouvido. Junna os retirou.

“─Hum. Shigure... Bom dia.”

“Sim, bom dia.”

Embora fosse fim de semana, tanto Junna quanto eu usávamos nossos uniformes escolares. No lugar do habitual case de guitarra, Junna carregava uma mochila com um design bem único. Vivienne Westwood. Estilo punk.

“...Fiz você esperar muito?”

“Não. Fui dormir um pouco tarde ontem à noite, então acabei acordando depois do horário... Só estou esperando há uns trinta minutos.”

“Mas faltam exatamente trinta minutos para o horário que combinamos...”

Ou seja, ela tinha chegado com uma hora de antecedência. Pontual como sempre.

“─Seis pessoas.”

“Hm?”

“O número de caras que tentaram dar em cima de mim enquanto eu esperava.”

“Tudo isso!? Mesmo você estando de uniforme e debaixo de chuva.”

“Em outras palavras, Shigure... quanto mais você demora, com mais esquisitos eu tenho que lidar, e mais o meu estresse aumenta. De agora em diante, venha me buscar mais cedo, está bem?”

“Seria bem melhor se você apenas viesse no horário certo, sabe?”

Dito isso, alinhei meu guarda-chuva ao dela e parei ao seu lado. Quando olhei para Junna, seus olhos, que pareciam carregar o desejo de dizer algo, fixaram-se nos meus.

“...O que foi?”

“Longe demais.”

Junna murmurou e, sem qualquer aviso, fechou o próprio guarda-chuva.

“Posso entrar?”

Antes que eu tivesse a chance de recusar, ela deslizou o corpo para debaixo do guarda-chuva transparente que eu segurava.

“Me abrigando da chuva.”

“...Você tem o seu próprio guarda-chuva, não tem?”

“Eu prefiro ficar debaixo do seu do que do meu”, disse Junna com a maior naturalidade, sacudindo as gotas de água de seu guarda-chuva fechado.

Senti os olhares curiosos dos pedestres atraídos por um casal que insistia em compartilhar um único guarda-chuva sem necessidade, e me encolhi de vergonha.

“─Céus. Que egoísmo...”

Rápido em desistir de qualquer resistência, inclinei o cabo para evitar que Junna se molhasse ─ e ela se colou ainda mais contra mim. Olhando para a minha mão, ela comentou:

“O adesivo da YOHILA sumiu... Você está me traindo? O seu amor por mim esfriou?”

“Não”, suspirei, olhando para Junna, que me encarava com um ar reprovador. “Meu antigo guarda-chuva de plástico quebrou e foi levado pelo vento naquele tufão de um tempo atrás.”

“...Entendi. Sendo assim, eu te dou um adesivo novo na próxima vez. Tenho alguns guardados em casa.”

“Ah, sério? Eu adoraria ganhar um─”

“Quer vir buscar? Na minha casa.”

“...Não, não. Você pode simplesmente levar para a escola.”

“Não. Se você quiser o adesivo, vai ter que ir até a minha casa.”

O quanto você quer que eu vá à sua casa? Que garota cheia de segundas intenções.

Enquanto discutíamos daquele jeito...

“Eita!? Não acredito que vocês já chegaram... Que rápidos!”

─Yamada apareceu.

Faziam menos de dez minutos que eu havia me encontrado com Junna, e faltavam vinte minutos para o horário combinado.

“E dividindo o mesmo guarda-chuva!? Vocês ficam de namorico bem no meio da rua!” gritou Yamada, apontando na nossa direção com seu guarda-chuva azul-pastel.

Aquilo atraiu ainda mais a atenção das pessoas ao redor, e eu tentei apressadamente fazê-la baixar o tom.

“Y-Yamada-san! Sua voz está alta demais...”

“Bom dia, vocês dois.”

Outra voz, vibrante e despreocupada, ecoou. Um estudante alto, segurando um guarda-chuva verde-menta, aproximou-se com um sorriso que chegava a ser suspeitamente amigável.

“Quando vai ser o casamento? A temporada das noivas de junho já passou, mas eu já estou com o meu discurso de padrinho pronto, então é só me avisarem quando for. Vou ficar feliz em celebrar com vocês.”

“Bom dia. Você está cheio de energia para uma manhã tão cedo, Yōjirō. E você sabe que não dá para se casar até completar dezoito anos.”

“............Bom dia.”

Junna, que eu achei que teria entrado na brincadeira de Yōjirō de bom grado, escondeu-se atrás de mim e conseguiu devolver o cumprimento com uma voz tão baixa que parecia prestes a ser abafada por qualquer chuvisco.

“Haha”, riu Yōjirō, enquanto ajeitava os cabelos castanhos-claros levemente ondulados. “O casamento era só brincadeira, claro. Mas vocês já podem ficar noivos... o que acham? Que tal irmos escolher um anel agora mesmo─”

“Cala a boca. Para de provocar, Kuzujirou.”

Yamada acertou Yōjirō com uma cotovelada. Ela deve ter batido com bastante força, porque Yōjirō se encolheu, soltando um “ Guh !?”.

“Desculpa, Junna-chan. Pode fingir que esse cara é feito de vento. Vamos tratá-lo como se ele nem estivesse aqui, tá bom?”

“Entendido, Haruka-san. Mas a sugestão do noivado foi boa. Vou manter isso em mente.”

“─‘Haruka-san’?”

Decidi ignorar a piada da segunda parte, mas o começo me chamou a atenção.

“Você está chamando a Yamada-san pelo primeiro nome agora?”

“Sim, eu descobri que ela não é uma inimiga.”

“...Uma inimiga?”

“Isso é assunto nosso!” Yamada interrompeu, balançando a mão no ar. Ela pressionou o dedo indicador contra os lábios e deu uma piscadela. “Coisa de garotas, sabe como é.”

“Certo. Não compreendo direito, mas estou entendendo.”

“...Será que eu ainda sou um inimigo?” Yōjirō, que tinha sido nocauteado, recuperou-se e levantou-se cambaleando. “Tudo bem. Então eu só preciso aumentar os meus pontos de afinidade neste encontro duplo!”

“─Hã?”

“Um encontro duplo...” Yamada amarrou a cara.

Exasperado, corrigi o rumo da conversa:

“É uma sessão de estudos, okay? Não viemos aqui para brincar,” enfatizei, e comecei a caminhar.

Nosso destino era a escola. Como estávamos no período de testes, algumas salas, como a biblioteca e as salas de estudo, ficavam abertas nos fins de semana para os alunos usarem.

“...Você está bem animado, Shigure”, murmurou Junna, sob o mesmo guarda-chuva. “Apesar de estar quase cochilando ontem.”

“............”

─Foi exatamente por isso que chamei o Yōjirō.

Pensei comigo mesmo, relembrando a sessão de estudos de ontem, onde eu não tinha conseguido me concentrar de forma alguma, imprensado entre duas garotas, Junna e Yamada.

“Ah, isso é o pior... Com ele aqui, não vou conseguir conversar com a Junna-chan direito.”

Em resposta às reclamações sussurradas de Yamada, respondi mentalmente: é por isso mesmo que eu chamei o Yōjirō─

☂

“Certo, perguntinha!”

Pouco depois das nove da manhã. A voz de Yōjirō ecoou pela biblioteca, que havia acabado de abrir e onde o ar-condicionado ainda não tinha começado a fazer efeito totalmente. Foi exatamente no momento em que cada um de nós abria seus cadernos e apostilas, prestes a começar os estudos.

“Como vocês dois, Shigure e Amamori-chan, se conheceram?”

“...A Yamada-san me perguntou exatamente a mesma coisa ontem.”

Olhei para Yamada, que estava sentada diagonalmente à minha frente. Sentada ao lado de Yōjirō, ela encarava fixamente um problema complexo de interpretação de texto em inglês, como se não tivesse ouvido nada.

Junna, ao meu lado, também decorava diligentemente literatura clássica japonesa, fingindo ignorância.

O único que não estava se concentrando era o Yōjirō.

“Depois. Agora nós estamos estudando─”

“Ah, qual é, qual é. Não tem problema, não é, Shigure? As nossas notas não são tão patéticas quanto as da Haruka. Nós temos bastante tempo para conversar. Não somos como a Haruka, com aquele cérebro patético de classificação trezentos e poucos─ Ai!?”

Aparentemente, alguém havia pisado no pé dele por debaixo da mesa. Yōjirō soltou um gemido de dor.

“Que barulhento. Fique quieto na biblioteca, seu idiota”, Yamada cuspiu as palavras.

“...Você não é a idiota? ‘Passou-Raspando-com-a-Posição-305’ Haruka-chan.”

“Não me inventa um segundo nome bizarro! É... é verdade, mas...”

“Ora, ora. Eu não era feito de ‘vento’? Não conseguiu se segurar e teve que reagir? Isso não é bom, não com esse tipo de concentração. Você deveria estar aumentando as suas notas, não o seu nível de irritação─ Ai!?”

Yamada pisou no pé dele de novo, e Yōjirō soltou outro grito.

M-Muito barulhentos... — Eu já estava começando a me arrepender de ter chamado o Yōjirō.

Talvez por ser o início de uma manhã chuvosa, quase não havia outros estudantes na biblioteca além de nós. Mas era provável que mais pessoas chegassem em breve. Se isso acontecesse, seríamos um estorvo para todos.

“Ei, vocês dois. Diminuam as brigas ao mínimo─”

“A minha posição foi 319, na verdade...”, murmurou Junna. Com uma voz terrivelmente gélida.

Yōjirō e Yamada, que estavam se encarando com faíscas quase saindo dos olhos, viraram-se para olhar para Junna ao mesmo tempo.

“T-Trezentos e dezenove... Isso é a segunda pior nota da sala!”

“Esta é a primeira vez que conheço alguém com uma classificação mais baixa que a minha... Isso é insano.”

“~~~~~~~~~~!”

Continuando de cabeça baixa, Junna pressionou os lábios com força. Suas mãos, que agarravam o livro didático, estavam tremendo. Yōjirō e Yamada interromperam a discussão e mudaram imediatamente para o modo de controle de danos.

“U-Uma garota avoada é... sim. É fofo, né? É. Quando você chega a esse ponto, é como se tivesse um talento natural para isso, sabe? Dizem que há uma linha tênue entre um tolo e um gênio... não é, Haruka!?”

“É-É verdade! É isso aí, a Junna-chan é uma gênia do próprio jeito dela! Além disso, você quase não ficou em último lugar. Tem alguém abaixo de você, então está tudo bem! Olhe para baixo, não para cima, sabe? Olhe para baixo e sinta-se aliviada, okay?”

“Então o que você está dizendo, Haruka, é que achava que estava na pior posição deste grupo... mas agora que sabe que a Amamori-chan está abaixo de você, se sente aliviada? Isso é terrível.”

“─Huh? Não mande fogo amigo para o meu lado. Morra.”

“............Shigure.”

Junna olhou para mim. Com uma expressão impassível, seus olhos estavam completamente sem vida.

Coloquei minha mão sobre a cabeça dela, fiz um carinho e tentei consolá-la.

“Pronto, pronto. Junna está ocupada com outras coisas, não é? Não tem como evitar.”

“Outras coisas?”

Yōjirō, o único ali que não sabia sobre a situação de Junna como musicista, franziu a testa.

“Tipo ficar de namorico com o Shigure... ou algo assim?”

““Isso mesmo.””

“Não, não é isso.”

“Dois contra um. Está decidido, ela está ocupada ficando de namorico.”

Como Junna e Yamada haviam confirmado juntas, minha negação foi tornada nula e vazia. Tirei a mão da cabeça de Junna e soltei um suspiro.

“Eu não me importo muito, mas se fosse esse o caso, as minhas notas também não deveriam ser tão boas, certo? E além do mais, as provas de meio de semestre aconteceram antes mesmo de eu e a Junna nos conhecermos, então ‘eu e a Junna estarmos de namorico’ não pode ser o motivo das notas baixas. Então, por favor, podemos levar isso a sério e estudar─”

“Shigure.”

Junna me cortou. Ela colocou o dedo indicador sobre os lábios em um gesto de “psiu” e disse:

“Você está sendo barulhento. Por favor, fique quieto na biblioteca.”

Ela me repreendeu com uma audácia descarada. Yōjirō e Yamada assentiram como se dissessem “é isso aí, é isso aí”, dando apoio a ela.

Eles são inacreditáveis...

“─Ah, o Shigure ficou emburrado.”

O murmúrio de Junna chegou aos meus ouvidos, mas ignorei em silêncio. Peguei meus fones, coloquei-os e continuei meus estudos de mau humor.

☂

“Que tipo de música você escuta, Kuzujirou-san?”

Enquanto eu estudava seriamente, Junna e os outros continuavam o seu falatório.

Eu me perguntei quem tinha acabado de me dar uma bronca para “ficar quieto na biblioteca”, mas como ainda era início da manhã e a biblioteca estava pouco movimentada, e como havíamos escolhido uma mesa de canto, ninguém veio nos repreender.

O rosto de Yōjirō se iluminou quando Junna lhe fez a pergunta.

“Eu!? Bem, eu escuto─”

“O que quer que a garota em quem você está tentando dar em cima goste, não é? Só para conseguir conquistá-la.”

“Basicamente isso, mas...” respondeu Yōjirō, esquivando-se levemente da provocação de Yamada. “Se estivéssemos falando do meu gosto pessoal, eu diria Nulbarich ou Suchmos... Ultimamente, tenho curtido muito FIVE NEW OLD.”

Deve ter sido uma resposta inesperada, porque Junna ficou em silêncio por um instante.

“Humm...”

O gosto de Yōjirō tendia para um rock com fortes influências de jazz, soul e black music. Era algo estiloso e urbano.

“...Você tem um gosto surpreendentemente bom. Como esperado de um amigo do Shigure.”

“Obrigado. Embora eu não seja apenas amigo dele, sou o melhor amigo... não é, Shigure?”

Yōjirō olhou de relance para o meu lado, mas fingi não notar e continuei movendo a caneta.

Não havia música tocando no ambiente.

“E quanto a você, Amamori-chan? Que tipo de música você escuta?”

“...Coisas como Bungei Tengoku, Regal Lily ou Soutaisei Riron.”

“Ah, legal! É bem o que eu imaginava.”

“Hum─”

A aura rígida de Junna suavizou-se de leve em resposta aos nomes das bandas que ela havia soltado como um teste. Minha caneta parou.

“São todas bandas únicas, com visões de mundo bem distintas. Muito a sua cara, Amamori-chan.”

“─Você as conhece?”

“Sim. Eu adoraria que a Amamori-chan me desse um ‘LOVE Zukkyun’, sabe?”

“............”

Junna olhou para baixo e abriu a boca.

“Morra, seu cafajeste.”

“O quê!? Eu não sou cafajeste... Sou inocente, isso é uma falsa acusação!”

“Não, você é culpado! Tentar dar em cima da Junna-chan é ilegal. A pena é de morte. Vá para o inferno, não para o céu.”

“Fui eu quem recomendou todas essas bandas para ela”, eu disse, soltando um suspiro enquanto deixava a caneta de lado e tirava os fones de ouvido. “Logo depois que as aulas começaram... ‘Pessoas que têm o mesmo gosto musical geralmente se dão bem em outras coisas também’ ─ não é, Junna?”

“Hum. É verdade. O Shigure é o único... zukkyun .”

“Você esqueceu o ‘LOVE’, Amamori-chan? Onde está o am─!?”

Yamada deu um tapa na cabeça de Yōjirō enquanto ele provocava. Junna virou o rosto com um estalo de desdém.

“Kuzujirou, você foi reprovado.”

“N-Não acredito! Por que só eu...”

“O Kuzujirou foi esmagado sem nem conseguir lutar, bem feito! A Junna-chan envergonhada é tão fofa! E o Kurimoto-kun, fingindo estudar enquanto ouve música, mas na verdade bisbilhotando a conversa e ficando com ciúmes do Kuzujirou, é adorável demais. Dyuhuh .”

“O seu lado otaku está aparecendo, Yamada-san.”

“...A sua repaginada do ensino médio já foi desmascarada, Haruka?”

“N-Não foi desmascarada! Fui eu mesma quem revelou!”

“Eu vi você lendo uma light novel na biblioteca...”

“Ah? Era uma daquelas eróticas?”

“Claro que não. Eu vou te dar um soco com o meu próprio punho, Kuzujirou.”

“‘Goo no Ne’ do RAD é uma obra-prima.”

“Né? É tão legal.”

Conforme a nossa conversa florescia, finalmente recebemos uma advertência de verdade da biblioteca. Notei que a chuva havia parado, e a luz solar quente e deslumbrante do verão entrava pelas janelas.

Observando de soslaio a poeira flutuar como plâncton em um mar de luz, permanecemos em silêncio por um tempo, cumprindo nossos deveres como estudantes.

#

☂

Decidimos almoçar em uma lanchonete de hambúrguer em frente à estação. Era sábado, mas como a chuva tinha acabado de parar e entramos bem no momento em que o cardápio estava mudando do café da manhã para o almoço, não estava muito cheio.

Garantimos uma mesa para quatro pessoas perto da janela, bem no canto, e sentamos na mesma disposição da nossa sessão de estudos, repondo as calorias que havíamos queimado com junk food que era, basicamente, um bloco de carboidratos e gordura.

“...Shigure, você sabia? Aquela história de que hambúrgueres de peixe vendem bem em dias de chuva”, disse Junna, pegando seu hambúrguer embrulhado em papel azul.

Molhei a boca com a minha cola e peguei meu hambúrguer embrulhado em papel vermelho.

“Não. Qual é a lógica disso...? Chuva é igual a água, água é igual a peixe?”

“Acho que não.”

(Yamada) “A minha teoria é a seguinte! Quando chove, o seu corpo fica frio, então você sente desejo de um pão quente, feito no vapor, e de algo frito! E também, sabe, as pessoas que normalmente não frequentam a loja entram para se abrigar da chuva e acabam pedindo coisas que não pediriam em um dia normal, então...”

(Yōjirō) “Isso foi o que o seu smartphone te disse, né? É incrível, tão conveniente! Até uma bobinha como a Haruka consegue fingir que é inteligente com facilidade ─ opa, passou perto.”

Yōjirō desviou do pé de Yamada que vinha descendo. Yamada rosnou um “ Grrr ” e largou o smartphone que estava usando para colar. Em seguida, ela surrupiou habilidosamente uma das batatas fritas de Yōjirō.

“Ei!? Ladra! Você devia estar comendo a sua salada. Isso anula totalmente o propósito da sua dieta, sabia?”

“Cala a boca. Suas batatas são minhas batatas, e minha salada é minha salada, Kuzujirou. E além do mais, não estou de dieta.”

[Del: É nossa batata.]

“Eu imaginei... Fazer o quê. Para conseguir colocar um pouco de gordura nesses peitos, onde ela realmente faz falta, você devia comer o quanto quiser. Você não tem sorte por eu ser um amigo de infância tão bondoso?!”

“Eba, obrigada. Sendo assim, não vou me segurar... quer dizer, não vou fazer cerimônia!”

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Yamada pegou a caixinha inteira de batatas fritas de Yōjirō e começou a virá-la diretamente na boca aberta.

“Você está comendo demais!”, gritou Yōjirō.

Esses dois estavam sempre brigando.

“Shigure.”

“─Hum?”

“Me dá um pedaço disso aí”

“...Disso aqui?”

O que eu estava comendo no momento era um hambúrguer. Um hambúrguer de frango apimentado por tempo limitado.

“Sim.” Junna assentiu diante da minha pergunta.

“Mas eu já comecei a comer.”

“Sim.”

“É bem apimentado, sabe?”

“Sim.”

“...Você não é muito boa com comida apimentada, é?”

“Sim.”

“Então─”

“Me dá um pedaço.”

“............Está bem, está bem. Aqui.”

Ofereci o hambúrguer de frango, que já tinha duas mordidas, para Junna, que continuava assentindo enquanto me olhava nos olhos. No entanto, ela balançou a cabeça negativamente.

“Minhas duas mãos estão ocupadas, me dá na boca.”

Ela segurava seu hambúrguer de peixe com as duas mãos e abriu a boca em um “aah”.

“...Por que você não coloca ele na mesa?”

[Del: Não não, uma vez que vc pega k hambúrguer, você não solta, se não ele desmancha todo (ou ao menos é uma regra minha)]

Ela balançou a cabeça de um lado para o outro. Quando ficava desse jeito, Junna era teimosa. Ela não daria ouvidos a nada do que eu dissesse, então desisti e, obedientemente, levei o hambúrguer até os lábios dela.

Junna deu uma mordida com sua boquinha, um “aam”, e fechou os olhos para saborear. Como eu já esperava, devia estar bem apimentado, porque o rosto dela ficou vermelho como um pimentão. Depois que ela engoliu, perguntei:

[Del: Yei, a “boquinha” voltou.]

“O que achou?”

“Tem gosto de você, Shigure.”

“O quê!? Não, não tem não!”

As palavras de Junna me fizeram dar conta de que aquilo era um beijo indireto. Enquanto eu virava o rosto, totalmente desconcertado, Junna me ofereceu o seu próprio hambúrguer de peixe.

“...Para você também, Shigure. Vou te dar um pedaço.”

“N-Não. Eu estou─”

“Eu estou te dando.”

Junna não recuou.

Desisti, deixei meu hambúrguer de frango de lado e fiz menção de pegar o hambúrguer de peixe da mão dela, mas ela não soltou.

“Eu vou te dar na boca.”

“Não, eu como sozinho!”

Mas, dessa vez, eu também não recuaria. Meu embaraço tinha atingido o limite, eu não aguentaria mais aquilo.

“………………”

“………………”

Ficamos nos encarando por bons dez segundos. Junna finalmente cedeu e soltou a mão.

“... Humpf . Você é tão teimoso, Shigure.”

“Olha quem fala, Junna.”

Soltei um suspiro de alívio e ajeitei o hambúrguer de peixe na mão. O pão feito no vapor era macio e levemente morno. O hambúrguer redondo tinha um pedaço faltando, no formato exato da boca de Junna.

“Bem, então, só uma mordida. Lá vou eu...”

Girei o hambúrguer, evitando a parte que ela já havia mordido.

Uma carranca cobriu a testa de Junna, e ela fez uma expressão azeda de insatisfação.

“...?”

Girei o hambúrguer de volta para a posição original. Então, a expressão de Junna voltou a ficar vazia. Ela parecia estar me dizendo para morder exatamente ali. Resignado, dei uma mordida.

[Del: É tipo pisar na linha e pisar fora da linha, se é que vocês vão pegar a minha referência .]

Fechei os olhos e mastiguei. Não para saborear o gosto, mas para escapar do olhar intenso que estava fixado em mim já há algum tempo.

“...O que achou?”

Sinceramente, eu não saberia dizer. Meu rosto estava tão quente que eu não conseguia sentir gosto de nada. Junna, cujo rosto estava igualmente vermelho, inclinou-se para perto e me pressionou por uma resposta.

“Tem gosto de mi─”

“—É claro que não!?”

“...Ei, Haruka.”

Um dos amigos de infância, que em algum momento havia parado de brigar e agora assistia à nossa interação com um sorriso no rosto, perguntou à outra, que comia o mesmo tipo de hambúrguer que ela.

“O molho teriyaki sempre foi tão doce assim?”

[Del: Que bom que estou tomando meu cafézin agora.]

☂

Depois de terminarmos o almoço, voltamos à escola e descobrimos que o número de alunos na biblioteca havia aumentado drasticamente. Muitos deles provavelmente tinham ido para casa almoçar e retornado à tarde para estudar.

Procuramos por assentos vazios, mas era difícil encontrar um lugar onde nós quatro pudéssemos sentar juntos. Relutantemente, decidimos nos dividir em duplas. O pareamento, é claro, foi…

“Ugh. Prefiro ficar sozinha do que com esse cara.”

“Que cruel. Bem, para mim tanto faz. Se você Haruka conseguir estudar e ser produtiva sozinha, claro. Mesmo que haja coisas que não entenda, não terá ninguém para explicar… E se está confiante de que pode passar nas provas finais, que cobrem um leque maior de temas e têm mais matérias que as intermediárias, então fique à vontade!”

“ Guh…!? Ugh… Tá bom, tanto faz! Eu estudo com você.”

“‘Eu estudo com você’? Não deveria ser ‘por favor, estude comigo’? Você é quem vai ser ensinada. Conheça o seu lugar e repita.”

“—Hã? Não se ache. Ou eu arranco suas orelhas fora, seu desgraçado.”

“Ai ai ai ai!? Não puxa com tanta força, sua idiota!”

“Não me chame de idiota!”

“…Sabe, nesse ponto eles já deram a volta completa e na verdade são bons amigos, né?”

“É, eles deviam só começar a namorar logo.”

Depois de ver Yamada arrastando Yōjirō para longe, Junna e eu ocupamos nossos assentos.

Era uma cabine de estudo, com cada lugar cercado por uma divisória em forma de “U”. Tratava-se de uma mesa individual, mas era larga o suficiente para oferecer bastante espaço, de modo que não parecia claustrofóbico.

—No entanto.

“Finalmente estamos sozinhos, Shigure…”

Depois de colocar a mochila sobre a mesa para garantir seu espaço, Junna arrastou a cadeira e invadiu meu território. As duas cadeiras agora estavam lado a lado, ignorando completamente a distância que deveriam manter.

“…Mas isso aqui é para uma pessoa só, sabia?”

“Você e eu somos duas metades de um todo, Shigure. Um corpo, uma alma. Amor mútuo. Então não tem problema.”

“Acho que só tem problema…”

“Problema? Qual, especificamente?”

“…Está apertado, pra começar.”

“Já é bem largo, então está ótimo.”

“Está perto demais…”

“Não é tão diferente do normal, é?”

“As pessoas ao nosso redor—”

“Tem a divisória, então está tudo bem.”

Ela refutava meus argumentos com uma expressão impassível, de forma calma e lógica.

“…………”

Enquanto eu ficava em silêncio, Junna tirou os materiais de estudo da mochila no espaço ao lado e começou a arrumá-los na minha mesa. Ela endireitou a postura e continuou:

“Além disso, se vamos estudar juntos, a divisória só atrapalha. Fica difícil pedir ajuda, não é?”

“B-Bem… isso é… verdade.”

“Então está decidido.”

—Lá vem. O poderoso “então está decidido” dela!

Como a divisória bloqueava a visão dos outros, Junna se pressionou contra mim, nossos ombros se tocando, e sussurrou com uma voz doce e melosa:

“Vamos estudar… tá bom, Shigure?”

Será que foi de propósito que a voz dela se arrastou na palavra “estudar”? Eu apostaria minha vida que sim. — Essa garota dopadora de mentes!

“…Tá bom.”

Eu desisti e suspirei.

Ultimamente eu sentia que estava ficando mais mole com Junna, aceitando seus pedidos com facilidade.

Mas se isso a motivasse a estudar, tudo bem.

Eu engoliria meu orgulho.

“……………………Zzzzz…………”

Uns dez ou quinze minutos depois.

Enquanto eu me concentrava seriamente em um problema de matemática, um peso se acomodou em meu ombro e um cheiro doce invadiu o ar. Uma mecha fina de cabelo fez cócegas em minha bochecha.

Junna havia fechado os olhos e se apoiava em meu ombro, com a cabeça descansando ali.

“Ei, não dorma em cima de mim!”

—Estudar, estudar. Sinceramente, justo quando eu achava que ela estava motivada. Jurei para mim mesmo que não iria mais mimá-la e chamei a Junna adormecida.

“Ei, Junna.”

“…Zzzzz…zzzzz…”

Só minha voz não parecia suficiente para acordá-la, então sacudi seu ombro.

“Acorda.”

“ U-Ugh… ”

“Estudar.”

“…ronc…”

Essa era a primeira vez que eu via alguém dizer “ronc” enquanto dormia.

Confirmei que suas pálpebras fechadas tremiam levemente e encarei seu rosto adormecido.

“Você está fingindo que está dormindo, não é, Junna?”

“…Murmura murmura.”

Essa também era a primeira vez que eu ouvia alguém dizer “murmura murmura” na vida real.

“Não consigo comer nem mais um pedaço…”

“Isso é bem clichê pra se dizer dormindo.”

“‘Mercy Lou’.”

“Essa é uma música da banda Negoto.”

“Uma ovelha literária, duas ovelhas literárias…”

“Hitsujibungaku? Você não está dormindo, está tentando dormir. Acorda!”

“…………Hmph.”

Junna parou de fingir e se afastou de mim. Esfregou as pálpebras de forma teatral e resmungou:

“Eu queria ficar coladinha em você um pouquinho mais.”

“Por isso que você precisa estudar. Se não levar isso a sério, quem vai se ferrar será você.”

“…Eu sei”, disse ela, fazendo biquinho com meu tom sério.

“Mas eu realmente fiquei com sono depois de comer… Estou acostumada com as refeições saudáveis que a Sensei faz… Faz tempo que não como comida junk… meu açúcar no sangue está… disparando.”

A cabeça de Junna balançava para cima e para baixo enquanto ela falava, como se estivesse cochilando.

“Eu tenho… trabalho também…”

“Bom, isso não tem jeito, mas…”

“Mesmo se eu reprovar… a Sensei vai… dar um jeito por baixo dos panos…”

“Isso não vale!? Isso é trapaça!”

Conhecendo Akagi, que tinha a diretora na palma da mão, ela realmente poderia fazer algo. — Não posso mimá-la — pensei, e sacudi seu ombro com mais força.

“Acorda. Vamos. Estudar!”

“…Não consigo… pelo menos, se eu tivesse um “motivo” pra tentar… Ha!”

Junna, que estava prestes a apagar apesar de ser sacudida, abriu os olhos sonolentos de repente.

“Shigure.”

“—Hm?”

“Uma recompensa.”

“…Uma recompensa?”

“Isso.”

Os olhos de Junna brilharam enquanto ela me dizia, e eu franzi a testa.

“Se eu for bem na prova, me dá uma recompensa!”

“ …Hmm. ”

Não era uma má sugestão. O problema era: “Que tipo de recompensa você quer?”

“Mmm…”

Junna fechou os olhos e pensou.

Depois de um longo período de contemplação — tanto tempo que comecei a suspeitar que ela realmente tinha dormido —, Junna levantou o dedo do meio e disse:

[Almeranto: De novo kkkkkkk.]

“Se eu passar em todas as matérias, quero carinho ilimitado na cabeça.”

“É um pedido bem modesto. Claro, tudo bem… mas por que o dedo do meio?” respondi, enquanto resolvia um problema no caderno.

Mantendo o dedo do meio levantado, Junna ergueu o indicador e continuou:

“Se eu for melhor que a Haruka-san, quero tempo ilimitado de colo. Você daria?”

“Eu te dar colo? Isso também é bem modesto… Ah. Então são várias condições.”

“Se eu for melhor que o Kuzujirou, quero uma massagem.”

“…E eu que vou dar?”

“Tanto faz. Eu te tocando ou você me tocando.”

“…Entendi. Tá bom, mas ele é surpreendentemente bom na escola. Ficou entre os top 30 da última vez.”

“E, se eu for melhor que você, Shigure—”

Junna, com três dedos levantados, me encarou intensamente. O quarto.

“Você faz uma coisa pra mim, seja o que for?”

“OKAY.”

Respondi imediatamente. Junna piscou, atônita.

“…………Sério?”

“Sim. Se você me vencer no ranking geral, eu faço o que você quiser.”

Assenti com uma expressão tranquila e passei a caneta vermelha pela página. Certo, certo, certo…

“—Ótimo, você deu sua palavra. Eu gravei, então não pode voltar atrás agora.”

“Não grave nossas conversas assim do nada!”

Retruquei para Junna, que me mostrava a tela de gravação do celular, mas eu estava sorrindo. Eu havia acertado cerca de 90% dos problemas de matemática que achei difíceis. Podia esperar uma nota bem boa.

Contando com hoje, só restavam quatro dias até as provas finais. Enquanto Junna tinha ficado em 319º lugar na última prova, eu fiquei em 16º.

Não havia nem uma chance em um milhão de eu perder para Junna—

[Almeranto: Lá vem kkkkkk.]

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☂

“De jeito nenhum.”

─Duas semanas depois. Encarei o resultado final dos exames que havia recebido de volta, murmurando em total descrença.

Aquele pedaço de papel, entregue individualmente a cada aluno, exibia as notas e a classificação geral. Nele, os caracteres brilhavam intensamente:

Classificação: 1

Meu total de pontos nas doze matérias foi de 1150, uma média superior a 95. Minhas classificações individuais por disciplina eram uma sequência repetida de primeiros e segundos lugares. Minha mão, que segurava o papel, estava tremendo.

“...Isso não pode ser real.”

Esfreguei os olhos várias vezes, pensando que estava tendo alucinações, mas o resultado impresso não mudava. Dei um beliscão na minha própria bochecha. Doeu... Não era um sonho.

“Você foi muito bem, Shigure.”

Junna me elogiou. Ergui os olhos.

“Mas eu fui ainda melhor.”

O que saltou diante da minha visão naquele instante não foi a sua habitual expressão impassível ─ mas sim um rosto extremamente convencido e triunfante, radiante de pura alegria.

“Você ficou em nono, e eu fiquei em primeiro, Shigure! Eu ganhei!”

Exibindo um sorriso vitorioso, Junna segurava o papel com os meus resultados em sua mão.

Eu tinha dado absolutamente tudo de mim. E havia alcançado um resultado incrível, garantindo uma posição no top 10 de todo o nosso ano letivo. E ainda assim...

“...Eu não consigo acreditar. Quem diria que a Amamori ficaria em primeiro lugar.”

Akagi-sensei espiou o papel na minha mão e soltou um resmungo de admiração.

“Eu sempre soube que ela era do tipo que conseguia se tentasse, só faltava motivação... mas chegar a esse ponto! Muito bem, Amamori. Isso também vai elevar a minha avaliação como tutora da classe.”

“Eu não fiz isso por você, Sensei”, Junna respondeu com desdém à satisfeita Akagi e, em seguida, fixou o olhar firmemente em mim.

“Shigure. Você se lembra da nossa promessa, não lembra?”

“............Sim.”

Peguei de volta o meu papel e devolvi o dela, ajoelhando-me ali mesmo no chão da sala.

“Se você me vencesse na prova, eu faria uma coisa por você, não importa o que fosse... certo? Que droga, eu perdi de forma justa e limpa!”

Sob os olhos dela, que me olhavam de cima, dava para notar olheiras profundas que nem mesmo a maquiagem conseguia esconder completamente. A intensidade daquelas marcas mostrava que o resultado não se devia apenas ao talento, mas sim ao esforço monumental de Junna.

Por isso, aceitei a derrota sem hesitar. Reconheci o empenho e a vitória dela.

“─Você se esforçou muito. Foi realmente incrível, Junna... Você é fantástica. Vou cumprir a minha promessa. Pode pedir o que quiser de mim, garota número um.”

PLAYLIST DAS MÚSICAS QUE SÂO MENCIONADAS NA OBRA.

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(Crédito para o @Thang por reunir)

Traduzido por Moonlight Valley

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