Capítulo 6: Fim de Verão Entrelaçado Com Você
Capítulo 6: Fim de Verão Entrelaçado Com Você
A sensação era estranhamente semelhante à corrida de longa distância.
Você corre, e continua correndo, em direção a um objetivo definido.
Não pode parar no meio do caminho.
Não pode ir rápido demais, nem devagar demais.
Você mantém um ritmo que combina com você, com calma. Com constância.
Acumula pequenos “passos” e, pouco a pouco, encurta a distância infinita.
Enquanto luta contra si mesmo, que se desgasta a cada passo dado.
Você apenas olha para frente...
e continua se movendo.
☂
“...!”
No momento em que cruzei a linha de chegada, a tensão que havia se acumulado se rompeu, e eu amoleci como uma marionete com os fios cortados. Uma sensação de realização e exaustão.
Afundei na cadeira, soltando um suspiro que parecia expelir minha alma do corpo.
“Acabou...”
O relógio no canto inferior direito da tela do computador marcava cinco da manhã. Fiquei surpreso ao perceber que havia trabalhado sem parar por mais de seis horas.
“………………”
Fiquei atordoado por um tempo, então fui até a janela.
Quando abri as cortinas, o sol da manhã, misturando-se à luz do quarto, queimou suavemente minhas retinas.
Estiquei o corpo, respirando fundo o ar puro.
Os ossos do meu corpo estalaram.
O canto dos pássaros. A cidade, ainda meio adormecida, estava quieta e, de certa forma, pura.
Pensei que este seria um dia bonito e claro.
“—Bem, então.”
Fechei as cortinas que havia acabado de abrir e me virei. Desliguei o computador e disse:
“Hora de dormir.”
Quando estava prestes a configurar o alarme, liguei o celular—
“...!?”
O sono, o cansaço e tudo mais foram varridos.
Pela tempestade de notificações na tela.
[JUN: Shigure!]
[JUN: Não consigo dormir, quero conversar!]
[JUN: ...Não?]
[JUN: Shigure? Oi?]
[JUN: Vou esperar ouvindo “Anminzai” da Yutori…]
[JUN: Shi──gu──re──!!]
[JUN: Você está dormindo...?]
[JUN: Você costuma estar acordado a essa hora. Será que aconteceu alguma coisa...? Estou preocupada…]
[JUN: Meia-noite. Shigure.........]
[JUN: Você não vai responder? Tudo bem.]
[JUN: Se estiver dormindo, vou só te visitar nos seus sonhos.]
Era uma mensagem do LINE que havia chegado logo depois que desliguei o celular para me concentrar na noite anterior. No final da mensagem havia um sticker do Geroppi dormindo com uma folha na cabeça.
Respondi às pressas.
[ Shigure : Desculpa. Meu celular estava desligado.]
Depois de enviar, lembrei que ainda era bem cedo.
Pensando que ela provavelmente ainda estava dormindo, comecei a digitar uma mensagem adicional: “Está cedo, você deve estar dormindo. Eu fiquei acordado a noite toda, mas vamos conversar depois que você acordar!”
Assim que a mensagem que enviei foi marcada como lida, uma chamada entrou. Atendi imediatamente.
“...A-alô?”
“ Higurye .”
Ela devia estar dormindo até agora. A voz de Junna estava arrastada e mole.
“ Funyu ... Bom dia...”
“Bom dia, dorminhoca.”
“—Por que seu celular estava desligado…?”
Assim que pensei isso, ela perguntou de forma repentina e clara. Sua voz estava neutra.
“Você estava... fazendo algo que não queria que eu soubesse se ligasse?”
“Estava, mas...”
“………………”
“Não é o que você está pensando, tá?”
“...Hmm. Então não era lição de casa de verão? Nesse caso—”
“Espera, era nisso que você estava pensando!? Lição de casa... bem, talvez seja parecido.”
“...Algo parecido com lição de casa? O que é?”
“É segredo.”
“ Ehhh ... Estou curiosa.”
Enquanto conversávamos, olhei para o calendário. Agosto. Antes que eu percebesse, as férias de verão já estavam na sus segunda metade.
“Junna. Qual é a data mais próxima que você está livre?”
“Hoje.”
A resposta dela foi imediata. Assenti.
“...Certo. Então vamos nos encontrar à tarde. Quanto ao lugar—”
“Sua casa, Shigure.”
“.........!”
Eu estava prestes a recusar, mas a culpa por ter deixado as mensagens dela sem resposta por tanto tempo e o fato de não nos vermos desde a sessão de gravação selaram meus lábios.
Pensei a respeito . — Meus pais estão no trabalho e minha irmã deve ter turno à tarde. Vou estar sozinho em casa. Nesse caso...
“...Tudo bem.”
“ Eh? ”
Junna pareceu confusa. Mesmo tendo sugerido ela mesma,
“T-tá... mesmo... tudo bem...?” perguntou, tímida.
“Sim,” respondi. “Estava pensando que, se fôssemos nos encontrar, seria melhor em um lugar com menos gente.”
“...!?”
Junna ficou sem palavras, arfando.
Continuei. Minha voz e a mão que segurava o celular estavam firmes.
“Tem uma coisa que eu quero te dar.”
☂
Não consegui dormir nem um minuto até a hora marcada.
À tarde, nos encontramos na saída norte da estação de Kichijoji, o mesmo lugar do nosso primeiro encontro.
O céu estava limpo. Junna, segurando uma sombrinha cor de hortênsia, vestia um look casual: camiseta raglan preta, saia jeans e tênis brancos. Carregava a mochila Vivienne Westwood.
Eu, que havia chegado primeiro, levantei a mão e disse:
“Yo,” e olhei para os pés de Junna.
“...Você comprou aqueles Chaosmiths?”
“Stan Smiths. Não é uma música do ONE OK ROCK.”
[Del: Vou ser franco, estou adorando ONE OK ROCK.]
Trocamos farpas com os papéis invertidos, e Junna olhou para os meus pés.
“Queria combinar com você, Shigure, então comprei... mas,” murmurou baixinho. “Por que... sandálias...”
“...Desculpa. Como é na minha casa, vim bem à vontade.”
Camiseta branca de manga curta, calça easy preta e sandálias esportivas simples. Para mim, vestido como se fosse só dar uma saída rápida ao konbini, “Tá bom, sim.”
Junna sorriu e ficou ao meu lado. A sombrinha aberta bloqueou o sol forte de verão.
“Só significa que você baixou a guarda. É minha vez de atacar.”
“...! Junna, não debaixo da sombrinha juntos—”
Quando tentei me afastar, incapaz de aguentar, Junna rapidamente enlaçou meu braço e me puxou para mais perto. Algo macio tocou meu bíceps, e engoli as palavras e a saliva.
Junna aproveitou imediatamente a vantagem.
[Almeranto: Quem deveria estar aproveitando é você.]
“Eu tomei banho antes de sair de casa... tá?”
Uma voz e um cheiro doce, como sorvete derretendo no calor.
Talvez por reação de não nos vermos por mais de duas semanas. Hoje, Junna estava ainda mais agressiva que o normal no corpo a corpo. Se eu baixasse a guarda, estaria acabado. Nocaute instantâneo.
“Estou tão animada...”
Junna apoiou a cabeça no meu ombro e murmurou em êxtase.
“Pelo seu presente, Shigure.”
☂
“………………O que é isso?”
A voz de Junna estava fria e seca. Não havia emoção em seus olhos enquanto ela me encarava, e sua expressão era completamente vazia. Há pouco…
(Junna) “Então essa é a casa da sua família, Shigure. É uma casa bem bonita.”
(Junna) “Eu gostaria de morar em uma casa assim... não agora, mas no futuro.”
(Junna) “O nome do seu cachorro é Saucy? É da banda Saucy Dog?”
(Junna) “Ah!? N-Não... não solte ele da gaiola! T-tenho medo de coisas vivas!”
[Del: Eu também Junna, eu também (zoando só)]
(Junna) “Vamos subir. Para o seu quarto, Shigure. Você já esteve no meu quarto, então é justo.”
(Junna) “Uau. É simples, mas é um quarto legal. Tem um pôster da YOHILA na parede... e um da ENDY. Você está me traindo?”
(Junna) “Eu te perdoo se você me deixar pular na sua cama.”
(Junna) “ …………Hah. inspira*... Funyuu………… Queria ficar assim para sempre.”
Era como se toda a empolgação anterior tivesse sido mentira.
Meu quarto. Junna estava sentada em uma almofada que servia de cadeira de chão, encarando o que estava sobre a mesa baixa. O copo de chá de cevada suava.
Eu estava sentado em seiza de frente para ela e respondi:
“É uma novel.”
Endireitei as costas e olhei diretamente nos olhos de Junna.
“É a primeira novel original e completa que escrevi na vida.”
Anunciei .
O manuscrito impresso tinha um total de 154 páginas. Mais ou menos o tamanho de um livro de bolso.
Junna ergueu o grosso maço de papéis, preso por um clipe duplo, com as duas mãos e inclinou a cabeça.
“...É isso que você queria me dar, Shigure?”
“É.”
Enquanto eu assentia, Junna fez outra pergunta:
“Você quer que eu leia?”
“...Quero.”
“………………Por quê?”
Enquanto inclinava a cabeça de um lado para o outro a cada pergunta, eu contei o que estava pensando.
“Estive preocupado por muito tempo. Sobre se sou o tipo de cara que pode ficar ao seu lado, Junna... se sou uma pessoa digna de estar ao seu lado. Porque não tenho nada de especial. Eu estava procurando algo que me fizesse sentir isso.”
“…………”
Junna ficou em silêncio. Sem expressão, sem reação.
Mas ela me encarava. Como se dissesse: ‘continue’ .
Fechei os olhos e soltei o ar.
“Procurei, procurei... e o que encontrei no final da minha busca foi uma ‘novel’. Meu hobby, junto com a música. O motivo pelo qual eu te conheci, Junna.”
Foi a música que conectou nossos corações, mas antes disso, foi uma novel esquecida que nos uniu.
“Senti que a resposta estava ali. Então...”
Decidi tentar escrever uma.
Cerrei os punhos sobre as pernas e olhei para o maço de papéis que havia entregado a Junna.
“O gênero é diferente, mas pensei que, se eu também criasse algo, poderia te entender melhor, Junna... poderia me aproximar um pouco mais de você. Depois disso, eu simplesmente me desesperei. Me desesperei e me entreguei de corpo e alma à escrita.”
Fiquei de frente para o computador, exatamente como Junna fazia no quarto dela, e digitei freneticamente no teclado do notebook.
E assim começou a primeira obra criativa da minha vida, que foi cem vezes mais difícil do que eu imaginava.
Foi duro. Foi doloroso. Eu queria desistir.
Mas o motivo pelo qual consegui continuar foi o desejo de encontrar aquele “algo especial” dentro de mim, o desejo de ficar ao lado de Junna — e, acho, pela faísca quente que recebi da música de Junna, da música da YOHILA.
A inspiração que as canções e letras dela me deram. Usando isso como guia, escrevi uma história.
Nos dias em que não tinha clube, da manhã até a noite. Abrindo mão do sono, trabalhei nisso sem parar.
“...Foi por isso que você não tem prestado muita atenção em mim ultimamente?”
“É, desculpa... Eu queria terminar antes do fim das férias de verão, de qualquer jeito. Como lição de casa. Senti que não conseguiria seguir em frente de outra forma... Era algo que eu absolutamente precisava fazer, para me convencer de que poderia ficar ao seu lado, Junna.”
“Hmm...”
A reação de Junna foi curta. Mas eu estava confiante.
Confiante de que essa obra iria comovê-la.
E meus sonhos até se expandiam para ganhar um prêmio de revelação, um grande sucesso e uma adaptação para o cinema. Se a YOHILA pudesse fazer a música tema, seria o melhor. Isso, isso sim me tornaria digno de estar ao lado dela.
Então, “—Leia.”
Inclinei-me para a frente. Eu havia passado a noite em claro, mas não sentia sono nenhum. Meu coração estava elevado pela empolgação de ter terminado a novel.
Olhei para os olhos frios de Junna, como um lago congelado, e soltei um suspiro ardente.
“A primeira obra do novelista Kurimoto Shigure, ‘Sua História de Florescimento’ — quero que você seja sua primeira leitora, Junna!”
☂
“Shigure-sensei.”
Cerca de três horas depois que comecei, distraidamente, a atacar a montanha de deveres de verão acumulados. Junna, que estivera lendo a novel em silêncio, mudando de posição na cama,
“...Terminei de ler,” sentou-se e me chamou.
“ O-oh... ”
Soltei a caneta, endireitei as costas e me preparei.
Junna, sentada na beira da cama, continuava tão sem expressão quanto antes. Seus olhos pareciam sonolentos e eu conseguia ver um leve cansaço neles. Em seu colo estava o manuscrito terminado.
Acalmei meu coração acelerado, respirei fundo e perguntei:
“Como foi?”
“…………”
Junna não respondeu imediatamente.
Ela olhou para baixo e, após uma pausa como se escolhesse as palavras,
“Foi incrível.”
“...!”
“Incrivelmente...”
Ela me olhou nos olhos e disse:
“Chato.”
“...!?”
A cena dos meus sonhos — eu e Junna abrindo um livro de bolso com a faixa “Adaptação Cinematográfica Confirmada!” enquanto ela me deixava ouvir uma demo recém-gravada — se estilhaçou em mil pedaços.
“…………………………..Desculpa. O que você disse agora?”
“Foi chato. Incrivelmente, incrivelmente chato.”
“…………Hmm?”
Que estranho. Parece que não consigo escutar direito. Será que fiquei surdo de tanto ouvir música?
Enquanto eu ficava paralisado com os olhos arregalados, Junna continuou sem piedade:
“O gênero é do tipo sobrenatural? Romance? A história de um garoto e uma garota que têm uma ‘flor’ que floresce se alimentando das memórias e emoções no coração das pessoas... A ideia, bem, não acho ruim. O jeito como as habilidades deles são baseadas nas características e linguagem das flores é interessante.”
“...! É-é!? É interessante, né!”
“Mas todo o resto é lixo.”
“………………”
No momento em que minha audição voltou, meu coração foi assassinado.
Fiquei congelado novamente.
“Desculpa, esqueci de colocar vibrato.”
Eu não tinha compostura para retrucar que ela deveria ter dito “oblaat”.
[Almeranto: 'Oblaat' é uma película fina e comestível usada no Japão para embrulhar remédios amargos, cujo significado metafórico é suavizar palavras duras.]
“É medíocre. Meus gostos combinam quase perfeitamente com os seus, Shigure... e eu sou uma garota do tipo ‘Shigure-sempre-tem-razão’, mas mesmo para mim é impossível elogiar isso como ‘interessante’. Especificamente—”
Durante os próximos dez minutos mais ou menos, não consegui ouvir nada.
“—é mais ou menos isso. ...Shigure? Shigure, você está me ouvindo?”
Minha bochecha estava sendo batida de leve. Junna, que havia descido da cama em algum momento, estava de pé na minha frente, olhando para o meu rosto. Olhei para ela com os olhos desfocados e respondi:
“É...”
“Você está bem? Quer um pouco de leite?”
“É...”
“Ele quebrou.”
Enquanto eu respondia com uma voz vazia, Junna suspirou e disse:
“...Shigure. Pronto, pronto.”
Ela começou a acariciar minha cabeça.
“Pronto, pronto, Shigure. Desculpa. Eu exagerei, né?”
Meu coração, que havia morrido com o veneno de Junna, voltou à vida e a luz retornou aos meus olhos.
“—Desculpa. Agora estou bem.”
“Mm.”
Junna tirou a mão. Soltei um suspiro.
Então era disso que Akagi estava falando, ‘ser ferido em uma obra é o mesmo que ter a própria alma ferida,’ ou algo assim. Quase não consegui voltar dessa, sabia?
“Eu pensei... que tinha encontrado.”
A voz que saiu estava, até para mim, pateticamente fraca.
“Não era uma joia, era só uma pedra, né?”
Mais uma vez, lembrei das palavras que Akagi dissera no carro, e baixei a cabeça, desanimado.
“…………Shigure,” Junna disse após um breve silêncio. “Você quer ser escritor?”
“...Não sei.”
Balancei a cabeça fracamente e murmurei:
“Eu só... queria encontrar o que eu tenho... o que é ‘especial’ em mim. Para ficar ao seu lado, Junna—”
“Para ficar ao meu lado?”
“É.”
“………………”
Um longo silêncio. De repente, a presença de Junna se afastou.
“Shigure.”
Levantei o olhar ao som da voz dela e a vi sentada na beira da cama.
Ela deu um tapinha no lugar ao seu lado.
“Aqui. Vem.”
“—Hm. T-tá...”
Levantei da almofada de chão e me sentei ao lado dela.
Naquele instante, Junna diminuiu a distância entre nós e disse, com os ombros se tocando:
“Nós estamos lado a lado.”
“...Não,” me contorci. “Não foi isso que eu quis dizer...”
“É exatamente isso que eu quis dizer.”

A voz e as palavras de Junna eram claras.
Claras e diretas.
“Se você decidir que quer ser escritor por vontade própria, com uma motivação forte vinda de dentro de si, então eu não vou negar. Acho que você deve mirar nisso, sem se abater pela crítica ou avaliação dos outros... mas,” Junna se inclinou e olhou nos meus olhos.
“Se o motivo for o que você acabou de dizer, então você não precisa mirar nisso. Porque mesmo que você não se torne um escritor, você já é especial, Shigure.”
“I-isso não é—”
“Se você diz que não tem, então escute isso.”
Dizendo isso, Junna enfiou um fone de ouvido no meu ouvido. Um com fio.
Uma música começou a tocar.
“...! Isso é...”
“A master recording de ‘Sofrimento & Amor’ que gravamos outro dia.”
Nós dois, Junna e eu, ouvimos a música compartilhando um fone cada.
“Como é?”
“...É uma boa música.”
Foi minha impressão sincera.
“Incrivelmente...”
Fiquei completamente arrebatado por essa música. Me perguntei se alguém como eu era digno dela, que conseguia criar algo tão incrível.
“Não é?”
Junna concordou. E então, “Isso é o seu ‘algo especial’, Shigure.” disse ela com um sorriso para mim, atordoado, e continuou:
“Eu te disse, não disse? Que era o som que você me deu. Eu não criei sozinha. Essa música, essa obra, nasceu porque você estava lá.”
Ela me contou algo que agora era completamente óbvio.
—Sim, era algo completamente óbvio.
“Quando eu te perguntei o motivo...”
Junna olhou de relance para o manuscrito sobre a cama e continuou:
“Você disse algo como ‘se eu também criasse algo, poderia te entender melhor, Junna... poderia me aproximar um pouco mais de você’. Mas você já vem criando há muito tempo, Shigure.”
A música continuava tocando.
Era o que havia conectado nós dois.
“Porque estamos criando a nova música da YOHILA juntos.”
Algo que nós dois havíamos entrelaçado e criado.
“Junna...”
Aconchegados, ombro a ombro, eu entendi. O que eu vinha procurando desesperadamente, o que eu buscava tanto, estava ali desde o começo.
☂
“Tem uma coisa que você disse que me deixou realmente feliz, Junna.”
A cena mudou do meu quarto para a sala de estar. Estávamos sentados lado a lado à mesa, conversando enquanto comíamos o bolo de frutas que havíamos comprado no caminho.
Junna estava comendo o de pêssego, e eu o misto. Junna, que segurava o garfo na boca e estreitava os olhos de puro deleite, inclinou a cabeça com um “?” e olhou para mim.
“Logo depois que você começou a ir à escola normalmente, você veio me pedir conselho, lembra? Sobre não conseguir fazer amigos, não conseguir conversar com as galera da sua turma.”
“É. Foi depois da aula no dia 4 de julho, né?”
“...O-oh.”
Eu não lembrava a data exata. Mas, “Naquela hora, você me disse: ‘Sem você, Shigure, eu sou inútil’.”
As palavras daquele dia estão claramente gravadas na minha memória.
“Quando ouvi aquelas palavras, pensei: ‘Tenho que estar ao lado dela’ , e fiquei feliz por você parecer precisar de mim... mas…”
Junna rapidamente fez amizade com Yamada, a ponto de se chamarem pelo primeiro nome, e se dava bem com Yōjirō mesmo sem mim na conversa. Tirou o primeiro lugar do ano nas provas, foi uma estrela no festival esportivo — e, por meio disso, aprofundou os laços com os colegas de turma.
E na sessão de gravação, ela não recuou nem um centímetro diante de adultos profissionais e expressou suas opiniões com confiança. Em um mundo no qual eu não conseguia entrar.
Aquilo era deslumbrante e distante.
“Mesmo sem mim, você, Junna, não é inútil de jeito nenhum, né? Quando pensei isso, de repente fiquei ansioso.”
Porque o motivo de eu ter me aproximado de Junna foi simplesmente porque esqueci algo por acaso em um dia chuvoso depois da aula, porque tínhamos gostos parecidos por acaso, e porque eu por acaso ouvia a música dela — a música da YOHILA.
Tudo não passou de coincidência. Por isso:
Será que as coisas triviais que nos uniram também poderiam nos separar com a mesma facilidade...?
Esse pensamento sombrio surgiu de repente, e acho que eu estava desesperadamente tentando encontrar algo que o ancorasse, para que isso não acontecesse.
Em resumo, eu faltava confiança. A confiança de pensar que eu era o único para ela.
“Eu sou, sim,” disse Junna, inclinando-se para olhar meu rosto enquanto eu olhava para baixo.
“Sem você, Shigure, eu realmente sou completamente inútil… Porque…”
Ela me encarou com seu olhar transparente e continuou:
“...Sem você, Shigure, eu provavelmente ainda estaria sozinha, indo para a enfermaria e me trancando no meu próprio mundinho. Foi você quem pegou minha mão e me levou para fora. Por isso, eu não vou soltar.”
Murmurou ela, apertando minha mão com força.
“...Sim.”
Apertei de volta, com a mesma força.
“Agora eu entendi.”
A música que ela me fez ouvir — nossa música — me fez sentir uma conexão definitiva. A ansiedade escura e barulhenta já havia sido dissipada há muito tempo.
“Shigure.”
Junna aproximou a boca do meu ouvido e sussurrou.
Com um hálito doce que ainda cheirava a bolo.
“ Me arruine mais. ”
Disse ela.
“ Me transforme em uma garota inútil, completamente inútil, que não consegue viver sem você. ”
“...! Junna—”
“E em troca,” ela colocou a mão no meu peito, como se quisesse confirmar as batidas aceleradas do meu coração, e sorriu suavemente, “eu vou fazer com que você também não consiga viver sem mim.”
Sua voz e sua expressão eram incrivelmente sedutoras.
“...!?”
Instintivamente tentei me afastar, mas nossas mãos entrelaçadas com força não permitiram. O sorriso de Junna desapareceu e sua expressão ficou séria.
“—Então,” o rosto de Junna se aproximou. Fechei as pálpebras.
………………………
“Vamos ter um encontro todo dia.”
Mas a sensação esperada não veio. Em vez disso, recebi palavras.
Abri os olhos e olhei para Junna. Ela havia se endireitado e voltado a sentar na cadeira, comendo seu bolo de pêssego e disse:
“Todo dia, até o fim das férias de verão.”
“...T-todo dia?”
“Sim.”
Ela assentiu com uma expressão neutra. Mas suas bochechas estavam coradas e suas orelhas brancas tingidas de rosa.
“É um castigo por me trair com uma novel. Para compensar.”
Só restavam cerca de duas semanas de férias de verão. Era verdade que eu havia me dedicado tanto à escrita da novel que passei menos tempo com Junna, então obedeci sem reclamar.
“Tudo bem.”
“...E,” enquanto eu me preparava para o que mais ela poderia aprontar, Junna lambeu o chantilly dos lábios e fez um pedido modesto e verdadeiramente adorável:
“Seu bolo, Shigure. Me dá um pedacinho... Eu digo: ‘aah’?”
Dei um sorriso irônico e levei o bolo, carregado de frutas como kiwi, morango e tangerina, até a boca de Junna.
A expressão impassível de Junna derreteu como um pão de ló fofinho.
“Mm. Delicioso... Mais cem bocadas.”
“Não tem tudo isso. Garota gananciosa.”
☂
Depois de sair de casa antes de minha irmã voltar e de ter acompanhado Junna até a estação.
A partir do dia seguinte, como prometido, passei a maior parte do que restava das férias de verão com Junna. Mesmo durante o feriado de Obon, nos dias em que havia treino de atletismo, nos encontrávamos em Ikebukuro logo depois.
“Desculpa a espera, Junna. Para onde vamos hoje?”
“Primeiro, comida.”
“Certo. E depois?”
“Karaokê.”
“Ah, legal. Só conseguimos ir uma vez antes, acredite se quiser.”
“Quero jogar também.”
“No fliperama? Sou bom no UFO catcher. Se tiver algo que você quiser, deixa comigo.”
“E eu quero ver um filme.”
“No cinema? O que está em cartaz agora... Ainda assim, você está bem gananciosa.”
“E um banho.”
“─Hã? Hum... Eu estou suado? Achei que tinha me cuidado.”
“Tem um lugar onde podemos fazer tudo isso de uma vez.”
“...E qual seria?”
“Um motel.”
“Rejeitado.”
“... Hmph .”
Nos dias sem treino, geralmente ficávamos na casa de um de nós.
“Shigure. Hoje, com certeza─”
“Dever de casa, dever de casa! Desse jeito não vamos conseguir terminar...”
“Isso é porque você estava escrevendo uma novel. Uma ruim e chata.”
“...Sabe. Será que você poderia parar de cutucar uma ferida que ainda não cicatrizou?”
“Então me ajuda a estudar. Tem uma coisa que quero que você me ensine.”
“Você, a primeira colocada do ano, quer que eu te ensine? O quê?”
“Educação física e saúde─”
“Não temos dever de casa disso.”
“ Hmph! ”
E atacávamos a montanha de deveres de verão que havia se acumulado.
Também, nos dias em que tínhamos que ir à escola─
“Ei, Shigure.”
“Faz tempo, Yōjirō. Você está bem bronzeado, hein?”
“Estou aproveitando o verão pra valer. Fui à praia com garotas, fiz churrasco e tal. Estava pensando em te chamar também, Shigure─”
“Kuzujirou-san, tenho um pedido. Será que você poderia romper sua amizade com o Shigure?”
“Sim. Decidi não chamar porque sabia que a Amamori-chan estaria junto. Então, por favor, continuemos amigos!”
“Junna... por que você está na nossa sala tão cedo?”
“Para te ver, Shigure. E também... a Haruka-san ainda não chegou?”
“A Haruka está ausente hoje, pelo visto.”
“─Ausente? A Yamada-san?”
“Ela disse que não está se sentindo bem. Acho que está fingindo... sabe como dizem que idiotas não pegam resfriado? Provavelmente ela nem começou o dever de casa de verão.”
“Entendi... que pena. Eu ia convidá-la para ir ao karaokê na volta.”
“Ah, que ótimo! Vou me animar também pela parte da Haruka!”
“Ah, desculpa. O Kuzujirou-san por conta é algo rejeitado para mim.”
“Quê─... N-Não pode ser!”
“Azar o seu, Yōjirō.”
Depois dessa troca, Junna e eu fomos ao karaokê sozinhos.
Por sinal, quando entrei em contato com ela, Yamada estava, como Yōjirō previra, fingindo, e ficou extremamente frustrada por não poder ir ao karaokê com Junna — mas, como Yōjirō também previra, ela estava em sérios apuros com o dever de casa, então decidimos ir novamente depois das férias.
No caminho de volta daquele dia.
A luz intensa do sol havia suavizado, e o céu do oeste estava tingido em um degradê de azul-arroxeado a rosa, como uma hortênsia, em uma noite de verão.
“...Shigure.”
Na cidade ao entardecer, Junna parou de repente.
Nossas duas sombras se alongavam no asfalto. Ela apertou minha mão e, olhando para cima, disse:
“Quero fazer algo típico de verão.”
☂
Existem muitas coisas que vêm à mente quando penso em “coisas típicas de verão”.
Nadar no mar, ir à piscina, festivais de verão, churrascos, acampamentos, quebrar melancia, nagashi-somen... e mais.
Entre elas, se me perguntassem qual é a principal atração, eu responderia assim:
“Um festival de verão.”
E assim, no final de agosto, com as férias de verão chegando ao fim, fiz uma promessa com Junna de ir a um festival de fogos de artifício.
O festival de fogos de artifício de Edogawa.
Normalmente é realizado no início de agosto, mas este ano a data era diferente e estava sendo realizado no quarto sábado de agosto — ou seja, neste fim de semana.
É como se o mundo estivesse nos fazendo um favor — será que estou sendo otimista demais?
...Faz quantos anos que não vou a um festival de fogos?
Eu balançava no trem, envolto em um yukata não muito habitual, relembrando o festival de fogos que minha família foi quando eu estava no ensino fundamental. Poderíamos ter ido com roupas normais, mas como era uma ocasião especial... nós dois reservamos um dia para nos preparar e decidimos usar yukata.
Dito isso, sou o tipo de pessoa que não tem preferência particular por roupas.
Como minha agenda não bateu com a do meu estilista, Yōjirō, acabei escolhendo um barato que encontrei online. O yukata era de um tom simples de tinta clara, e o obi cinza-prateado era do tipo velcro. Era um conjunto em promoção que vinha com geta, uma bolsinha kinchaku e um leque.
...Isso era um pouco triste demais, então troquei apenas o leque por um elegante leque de papel tingido em índigo de uma loja especializada, também online.
Pensei que poderia usar o leque em dias quentes mesmo, então não seria problema gastar um pouco mais.
No trem com ar-condicionado, peguei meu leque caro para todos verem e me abanei.
Estava frio, então logo o dobrei de novo.
Da última vez que fui, só lembro de ter ficado cansado por causa da multidão enorme...
Festivais de fogos na região metropolitana de Tóquio são sempre lotados. Ouvi dizer que fica tão cheio quanto um trem no horário de pico e que até comprar algo em uma barraca de comida é complicado.
Pensei que poderia estar um pouco menos lotado se fôssemos cedo, mas conforme fui aproximando da estação de destino, o número de pessoas de yukata começou a aumentar─
16h. A estação de Ichikawa, onde chegamos, estava bastante animada. A multidão de yukatas coloridos parecia um jardim de flores.
Quando chequei o LINE, tinha uma mensagem de Junna.
[JUN: Cheguei, mas a multidão está insana.]
[JUN: Vão para longe! Povo do verão.]
[Shigure: Acabei de chegar também, mas você está ouvindo Yabai T-Shirts Yasan de yukata?]
Enviei a resposta e estava prestes a procurar Junna — quando parei. Não precisava procurar, porque meus olhos foram automaticamente atraídos por ela.
Na área de catracas da estação, onde muitas pessoas se encontravam. Em um canto, uma única hortênsia fora de época estava florescendo.
“…………”
Um padrão de hortênsia em tecido ecru. Seu obi era lilás claro, e o cordão decorativo com um pingente de flor chamava atenção. Suas geta eram de madeira branca e as tiras eram cor de glicínia. Ela tinha pedicure azul-arroxeado nas unhas dos pés.
Seu cabelo estava preso em um penteado alto, e as mechas internas vivas, cor de hortênsia, se destacavam. Ela não estava usando fones de ouvido.
“Junna.”
“─Mm.”
Junna, que estava olhando para baixo, ergueu a cabeça e olhou para mim. Naquele instante, seus olhos sonolentos se arregalaram e, “Shigure, de yukata...”
“Bom, nós fizemos uma promessa. Seria bem estranho eu aparecer de camiseta ou regata depois de prometermos usar yukata, não seria?”
Na frente de Junna, que piscava sem parar, girei o pulso e abri o leque com elegância, me abanando.
“L-Lin─” A voz de Junna engasgou.
“Lindo! Você, exibindo o único leque caro que provavelmente tem e o movimento que provavelmente treinou bastante em casa, está tão fofo!”
“Isso é além de vergonhoso, é mortificante! Você está tentando me matar de vergonha?”
“Brincadeira. Você está legal, Shigure. O mais legal do mundo.”
“B-bom, isso é vergonhoso o suficiente para me matar de outro jeito... Vou morrer de vergonha.”
Escondi meu sorriso bobo com o leque e olhei novamente para o yukata de Junna. Da cabeça aos pés, atentamente. Em silêncio. Então, Junna foi ficando cada vez mais inquieta e começou a se remexer.
“S-Shigure. Fala alguma coisa.”
“…………”
“Ei. Não fica só me olhando como se estivesse me lambendo, me dá sua opinião.”
“…………”
“Ugh. Ei, eu disse!”
“Bela.”
Eu disse, justo quando a expressão impassível de Junna estava prestes a desmoronar e ela estava no limite.
“A mais bela do universo.”
“...Você está tentando me matar de felicidade?”
Para Junna, que me encarava com o rosto vermelho como um tomate, eu ri e disse:
“Retribuição.”
Então, olhei para o que Junna estava segurando.
“Ei, você trouxe um guarda-chuva?”
“É. Disseram que pode chover à noite... só por precaução? Comprei um que combina com meu yukata. Também serve como sombrinha.”
Dizendo isso, Junna abriu um guarda-chuva japonês azul-arroxeado.
Não era um de verdade, mas um guarda-chuva de vinil no estilo japonês, e combinava perfeitamente com seu yukata.
A previsão do tempo era de sol com nuvens ocasionais.
O céu estava nublado no momento, então não havia necessidade de sombrinha. Mas, “Eu seguro.”
Dobrei meu leque e o guardei no obi, então peguei o guarda-chuva da mão de Junna. Estava consciente dos olhares das pessoas ao redor, mas meu desejo de fazer Junna feliz era muito mais forte.
“...Mm. Obrigada, Shigure.”
Começamos a andar, aconchegados debaixo do guarda-chuva. O cantarolar de Junna viajava no vento e se misturava ao burburinho animado das pessoas e ao leve som das geta.
☂
Por um tempo, fomos carregados pela lenta correnteza de pessoas.
Mesmo faltando quase três horas para o início dos fogos, a margem do rio onde chegamos estava lotada de uma quantidade incrível de gente. Barracas de comida coloridas se enfileiravam ao longo do aterro, com longas filas formadas em frente a elas.
“Eu já esperava, mas isso é insano...”
“...Se a gente se separar, eu morro.”
Junna, agarrada ao meu braço como se fosse um colete salva-vidas, tremia.
Por sinal, a margem oposta do rio é o bairro de Edogawa, em Tóquio, e este lado é a cidade de Ichikawa, em Chiba. O número total de visitantes dos dois lados chega a 1,4 milhão de pessoas. Até o maior festival de rock do Japão tem um público diário de apenas cerca de 50 mil pessoas, então esta é uma escala impressionante.
“Das barracas, o que você quer comer, Junna?”
Tinha gente demais para experimentar tudo que parecia interessante, então decidimos escolher.
“Hmm,” pensou Junna enquanto eu abria o aplicativo de notas no celular. “Maçã do amor. Eu gosto da Ringo-san, afinal.”
“Você mencionou isso quando nos conhecemos... Vamos aproveitar um ‘festival longo e curto’. Mais alguma coisa?”
“Banana coberta de chocolate ou um salsichão. Ou melhor, queria que você me desse na boca.”
“Melhor não.”
“...Que maldade.”
“Geladinho raspado, talvez? Qual sabor você quer?”
“Não gosto de melão nem de limão.”
“Não fala como se fosse nome de unidade musical. Acho que vou querer o Blue Hawaii.”
“Legal. Tem cara de juventude. Então eu vou de ‘Purple Mukade’.”
“Isso é uma música da Syrup16g... Mais alguma coisa? Tem algo que você queira comer de verdade? Tipo uma refeição.”
“Mac and cheese com macarrão em forma de lápis, ou um melon pan tão delicioso que deixa a pessoa louca.”
“Tenho quase certeza, não, tenho certeza absoluta de que não existem barracas com nomes desse tipo.”
E assim, conversamos.
Depois de comprar tudo que queríamos, fomos para o local onde assistiríamos aos fogos.
Eram assentos reservados e pagos para duas pessoas.
Fiquei surpreso por termos conseguido, já que decidimos ir em cima da hora... mas parecia que Akagi havia nos dado.
“Ela aparentemente planejava vir com a Kotegawa-san, mas as agendas não bateram. Ela me deu quando me levou para comprar o yukata.”
Disse Junna enquanto nos sentávamos sobre uma lona plástica azul no declive do aterro.
Ficava bem no final, mas a vista era ótima. — Até que é um bom lugar, né?
“...Você é bem querida, hein?”
“Hm?”
“Não, nada.”
A parte sobre as agendas não baterem provavelmente era mentira. Agradeci mentalmente às duas e me sentei ao lado de Junna. O guarda-chuva estava fechado.
Ainda faltava um tempo até o início dos fogos.
“Shigure. Diga ‘aah’, tá? Isso, diga ‘aah~’...”
Fui importunado e eu—
“Tá bom, tá bom.”
Coloquei gentilmente o salsichão, coberto de ketchup e mostarda, na boca aberta de Junna, como um filhote de pássaro.
☂
“...Será que vai chover?”
“Quem sabe. Mesmo que chova um pouco, provavelmente não vai cancelar.”
Depois de terminar a comida das barracas, esperávamos tranquilamente pelo início dos fogos, debaixo do mesmo guarda-chuva. O sol havia se posto atrás das nuvens e o crepúsculo caía sobre a margem do rio.
Não conversávamos muito. Apenas nos aconchegamos, contemplando as luzes da cidade do outro lado do rio, que pareciam vaga-lumes, envoltos no cheiro de grama, terra e água — o aroma da natureza.
Junna inclinou a garrafa de ramune e a bolinha presa dentro tilintou, tocando um som de verão.
Talvez por estarmos debaixo do guarda-chuva — abraçados por uma pequena sombra redonda — eu sentia como se fôssemos as únicas pessoas no mundo, isolados de todo o resto.
Até o burburinho animado do festival parecia distante.
“─Ah. Parece que vai começar.”
“Mhm...”
Junna segurou minha mão e apertou. Eu, segurando o guarda-chuva com uma mão, apertei de volta. Talvez por ter segurado o ramune, sua mão estava fresca e úmida.
Um anúncio para a contagem regressiva ecoou.
Junna e eu também entramos no coro, nossas vozes se harmonizando com as das pessoas no local como em um karaokê coletivo.
““Cinco.””
O aperto em nossas mãos se intensificou.
““Quatro.””
Apertei de volta.
““Três.””
Quando olhei para Junna,
““Dois.””
Nossos olhares se encontraram, pois ela também estava me olhando.
““Um.””
Nós dois sorrimos ao mesmo tempo.
Naquele instante, uma luz vermelha iluminou de repente nossos perfis.
Uma série de sons ecoou e o vermelho se transformou em um vibrante leque de cores.
Quando olhei para trás, um lindo fogo de artifício havia florescido e começava a desaparecer de forma efêmera.
“Uau. Perdi...”
“Eu também...”
Nós nos olhamos e trocamos mais um sorriso irônico.
“Você ficava me encarando, Shigure, então me distraí.”
“Essa é a minha fala. Você que olhou primeiro.”
“...Acusação falsa.”
“Não é.”
“Acusação falsa!”
“Não é.”
Enquanto discutíamos, o próximo fogo começou, então fechamos a boca e olhamos para trás.
Fogos subiam não só do céu, mas também do chão, da margem do rio, e uma luz ofuscante e fumaça coloriam a noite de verão. Era uma obra-prima.
“U-Uau...”
“É.”
“A luz é incrível, mas o som também é. Realmente retumba no peito.”
“É. Parece um bumbo.”
[Del: E assim mais um momento fica gravado no coração — como fogos de artifício.]
Então, a música começou a tocar e os fogos subiam no ritmo do som.
Vermelho, amarelo, azul, verde... o céu noturno era tingido de várias cores, e inúmeras flores desabrochavam e se dispersavam.
E então, uma chuva de faíscas caía.
Uma brilhante chuva de verão.
Era uma visão de tirar o fôlego.
E mesmo assim—
“...Uau.”
Antes que eu percebesse, meu olhar não estava nas flores que desabrochavam no céu distante, mas no perfil da garota bem ao meu lado, cujo rosto normalmente sem expressão agora florescia em um sorriso.
—Ela é mais bonita que os fogos , pensei, de forma simples e honesta.
Era um pensamento comum, adequado para um cara comum como eu. Mas se ela, a pessoa mais especial do mundo, considerasse um cara comum como eu especial...
Então está tudo bem.
Senti que podia pensar assim.
“...?”
Talvez ela tenha sentido meu olhar, pois Junna olhou para mim durante uma pausa nos fogos. Eu rapidamente desviei o olhar para o céu, mas não havia nada para ver, apenas uma tela preta.
Junna deu uma risadinha.
“Você é tão fofo, Shigure.”
“Não me chame de fofo.”
Para mim, que estava exasperado, Junna respondeu cantarolando uma melodia. Era injusto que, quando ela fazia isso, eu me preocupasse com a gravação e não conseguisse dizer nada.
Suspirei e escutei a melodia que o coração dela tecia — a melodia dela... não, a nossa melodia — enquanto observava os fogos que haviam recomeçado a subir.
Com um whoosh , os fogos subiam ao céu e, a cada explosão, memórias de Junna e minhas floresciam como flores.
Muitas delas envolviam chuva.
A coisa que nos uniu e nutriu nosso relacionamento.
Por isso, talvez—
“─Ah.”
Na segunda metade, quando os fogos chegavam ao clímax. Não fiquei particularmente surpreso quando uma chuva forte e repentina começou a cair.
As gotas batiam na superfície do rio, que refletia os fogos, e as pessoas ao redor começaram a se agitar, mas nós, que mantivemos o guarda-chuva aberto, permanecemos calmos, aconchegados em silêncio.
Junna, vestida com um yukata de hortênsia, olhou para o céu noturno enfumaçado e resmungou:
“Será que eu sou uma mulher da chuva?”
“Quem sabe. Eu posso ser um homem da chuva,” respondi, segurando o guarda-chuva cor de hortênsia.
Nós rimos juntos e, envoltos em nossos sons e cheiros favoritos, aproveitamos os fogos de artifício... na chuva.
☂
No caminho de volta, decidimos andar um pouco mais. Para evitar a multidão — essa era a desculpa, mas o verdadeiro motivo era que eu queria ficar com Junna nem que fosse por mais um minuto, mais um segundo.
Caminhamos para o leste ao longo da linha Sobu, lado a lado sobre o asfalto molhado pela chuva repentina. O cantarolar dela viajava na brisa noturna, que ainda carregava o cheiro de chuva.
Nossos getas produziam um ritmo saltitante.
Eventualmente, o cantarolar parou e, “...Foi divertido. O festival de fogos.” disse Junna.
“Foi,” assenti.
“Foi o evento mais ‘de verão’ possível.”
“Quero vir de novo no ano que vem.”
“Você está se adiantando...”
“E no ano seguinte também.”
“Eu disse que você está se adiantan—”
“Daqui a cinco anos, dez anos também.”
“Você está se adiantando demais!”
“Daqui a cem anos também.”
Espera, é duvidoso que qualquer um de nós ainda esteja vivo até lá — eu estava prestes a retrucar, mas o perfil de Junna estava sério, então engoli as palavras. Em vez disso, “...Certo.”
Assenti e apertei a mão dela. O guarda-chuva já havia sido fechado há muito tempo, mas nossas mãos continuavam entrelaçadas. Não quero soltar , pensei.
Então, Junna imediatamente apertou de volta. Ela olhou para o céu estrelado e disse:
“Faz menos de três meses que nos conhecemos.”
“Três meses... é pouco. Mas...”
“Parece tanto tempo.”
“—É. Foi longo e intenso.”
Se o tempo que fluiu na minha vida até agora fosse água, então o tempo desde que conheci Junna seria mel. Dias doces e densos. Não consigo deixar de desejar que um tempo assim continue fluindo até o dia da minha morte.
Será que a Junna sente o mesmo?
Não só agora, mas no ano que vem também.
E no ano seguinte, e depois.
Para sempre.
Sem mudar...
—Mas isso é apenas um sonho impossível.
Eu sei.
Assim como não existe chuva que não pare, noite que não termine, estação que não acabe — certamente não existe nada que não mude. O cínico dentro de mim via as coisas assim.
Na verdade, meus sentimentos por ela também mudaram, desde o dia em que nos conhecemos até agora, e até de ontem para hoje.
Eles estão inchando, crescendo maiores e mais fortes.
Tanto que parecem prestes a explodir.
“Junna.”
Debaixo de um poste de luz, parei de andar.
Junna também parou e olhou para mim.
“………………………………”
Em silêncio. Intensamente.
Uma eternidade pareceu passar.
Respirei fundo o ar da noite, que ainda guardava o brilho residual dos fogos...
“─Shigure.”
Sua voz digna interrompeu as palavras que eu estava prestes a dizer.
“Só mais um pouco.”
Ela olhou para baixo, seus longos cílios projetando sombra, e murmurou:
“Só mais um pouco...”
Antes de continuar:
“...Assim está bom. Do jeito que está.”
Ela me disse.
Olhou para mim enquanto eu permanecia congelado, com a boca entreaberta.

“Uma vez que mudamos, não podemos voltar atrás… então…”
As palavras de Junna, ao saírem, pareciam negativas, voltadas para o passado.
Mas não eram.
Nos olhos de Junna, que me olhavam de baixo para cima, uma luz deslumbrante e multicolorida, como fogos de artifício no céu noturno, florescia em plena intensidade.
“Eu ainda quero aproveitar isso.”
“Junna...”
Pisquei, absorvendo seu olhar sincero.
Saboreei suas palavras.
Uma emoção indescritível brotou dentro de mim.
Era como, se tivesse que comparar com algo, o cheiro que se sente ao brincar com velas de São João, ou o som das cigarras ao entardecer, ou esfregar os braços na brisa fresca da noite — um sentimento doce e nostálgico que arranha o fundo do coração no fim do verão.
Pensando no que havia no coração de Junna, sorri.
“Entendi.”
“...É.”
“Então temos que aproveitar ao máximo!”
“S-sim!”
E assim, voltamos a andar.
Enquanto discutíamos nossos planos para o dia seguinte e os dias seguintes. Mesmo que o festival de verão tivesse acabado, o verão ainda não havia terminado, e ainda restava um pouco das férias.
Seria um desperdício não aproveitar.
“─De qualquer forma, você está bem com o trabalho? Não é um período corrido para você…?”
“Está tudo bem. Já fiz a maior parte do que precisava. O resto fica por conta da Kotegawa-san e dos outros adultos.”
Disse Junna, despreocupada, para mim, que estava preocupado.
“Ultimamente, tenho mais músicas transbordando do que consigo dar conta. Não só um EP, como provavelmente conseguiria fazer um álbum completo... uma vez por mês.”
“Uma dúzia de músicas em um mês? Esse é um ritmo sensacional.”
“Graças a você, Shigure.”
Junna se encostou em mim.
Perto demais para quem não eram namorados — mas essa era a nossa distância.
“Você já ouviu falar de ‘comping’, Shigure?”
“...Comping?”
“É um termo musical. É quando você pega as melhores partes de vários takes e combina elas. E então, forma uma única música. É trabalho do técnico.”
“Ah...”
Eu não conhecia o termo, mas era exatamente o que Akagi havia me explicado durante a sessão de gravação. Um cristal de momentos, feito de incontáveis instantes reunidos.
“Minha composição é a mesma. Eu pego as melhores partes dos muitos sons que nascem todos os dias, combino elas e transformo em música.”
“ —Então ”, disse ela. Junna me olhou com olhos brilhantes e, “Vamos ficar juntos bastante a partir de agora, tá?”
Um grande sorriso floresceu em seu rosto.
“Como se estivéssemos empilhando vários takes, vamos empilhar muitos dias e memórias... e tecer os tons que transbordam. Vamos fazer muitas músicas, um álbum de músicas, só para nós dois.”
“…………Sim.”
Ao ouvir aquelas palavras e ver aquela expressão, pensei:
Não existe nada que não mude.
Mesmo assim— mesmo que nosso relacionamento mude no futuro, e que nossos sentimentos um pelo outro mudem.
“─É uma promessa.”
A felicidade vívida deste momento permanecerá pelo resto da minha vida, e a música que nasceu dela permanecerá inalterada, para toda a eternidade.

PLAYLIST DAS MÚSICAS QUE SÂO MENCIONADAS NA OBRA.
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(Crédito para o @Thang por reunir)
Traduzido por Moonlight Valley
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