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Capítulo 1: Outono, Festival Cultural e o Dias Escolares

Amamori Junna É Úmida — novelmania.com.br · All chapters

Capítulo 1: Outono, Festival Cultural e o Dias Escolares

Eu acho que o outono é uma estação agonizante.

Uma estação de transição entre a vida brilhante e reluzente do verão e o inverno desbotado, onde as plantas murcham e as feras dormem.

Talvez tenha sido por isso que — quando o projeto da Classe 1-8 foi decidido — achei que combinava perfeitamente.

『Meido Cafe』

Um conceito que combinava um maid cafe com uma casa mal-assombrada, brincando com os homófonos “maid” e “meido” (o submundo).

—Era início de setembro, logo após o término das férias de verão. Na escola, os preparativos já haviam começado para o festival cultural que seria realizado no início do próximo mês.

Durante esse período, o tempo das aulas e as horas de treino dos clubes eram reduzidos, e os alunos passavam os dias inteiramente dedicados ao trabalho, utilizando seus intervalos e o tempo livre depois das aulas.

O nosso colégio não era particularmente ativo com atividades de clubes, mas parecia se esforçar muito no festival cultural, e a administração da escola estava cheia de motivação.

A escala dos preparativos por si só era massiva, e um clima de festival já pairava pela escola.

Os corredores, que haviam sido transformados em espaços de trabalho, estavam transbordando de cartazes e adereços inacabados, impregnados com os cheiros fortes de tinta, spray e papelão.

A agitação e as risadas. Como se para substituir o canto das cigarras, que começara a sumir em setembro, estava incrivelmente barulhento. Uma atmosfera inquieta.

Depois da escola. Após vestir meu uniforme de Educação Física, eu estava movendo silenciosamente o meu pincel sozinho no canto da sala de aula, pintando uma imagem do inferno para ser usada como cenário, quando,

“Shigure-kun, Shigure-kun.”

Yamada me chamou. O aroma volátil da tinta acrílica se misturou a uma fragrância cítrica.

“É meio, sabe… super ‘normie’, né?”

“É.”

Deixei escapar um suspiro e lancei um breve olhar de relance para o meu lado.

Yamada Haruka.

Com o cabelo castanho claro e maquiagem pesada, ela não passava de uma gyaru extrovertida baseada apenas em sua aparência, mas, na realidade, era uma ex-introvertida que tinha acabado de fazer sua estreia no ensino médio, e uma otaku convicta que gostava de light novels.

No entanto, a maioria dos estudantes não sabia desse fato.

Porque a própria Yamada queria manter isso em segredo. Portanto,

“É tão espalhafatoso… É exaustivo.”

“Meus ‘pontos de SAN’ — escritos como o valor da sanidade — estão acumulando… haah ”, ela sussurrou bem no meu ouvido para que nossos colegas de classe não ouvissem, já que eu era alguém que conhecia o seu segredo.

“…Yamada-san.”

“Ficar perto de você é tão relaxante, Shigure-kun…”

“Yamada-san.”

Firmei o meu tom de voz e apontei.

“Você está perto demais.”

“…”

Yamada congelou por um momento, mas, “Não é só impressão sua?” Inclinando a cabeça de leve para ignorar o meu aviso, “—De qualquer forma, isso está ficando muito bom!”

Ela sentou no chão com um baque e espiou as minhas mãos. Senti que ela tinha ficado ainda mais perto. Nossos ombros estavam prestes a se tocar.

“O Inferno do Lago de Sangue? A textura do sangue está super realista! Você é bom em pintura também, Shigure-kun.”

“Yamada-san. Por que você está me chamando pelo meu primeiro nome?” perguntei enquanto deslizava suavemente para o lado, me distanciando.

“Por que a pergunta… não pode?”

“Não responda uma pergunta com outra pergunta.”

“…Não pode?”

“Pare de tentar forçar a barra repetindo ‘não pode?’.”

Lancei um olhar severo para Yamada, que me olhava de baixo com olhos de cachorrinho carente.

O rosto de Yamada se abriu em um grande sorriso enquanto ela soltava um “Aha!”.

“Não é como se houvesse algum significado profundo nisso. Chamar um ao outro pelo sobrenome quando somos amigos parece meio distante… sabe? É tipo, eu quero encurtar a distância entre os nossos corações!”

Dizendo isso, Yamada inclinou o corpo mais para perto. Desta vez, nossos ombros se tocaram em cheio. Com o movimento, uma mecha do cabelo dela roçou na minha bochecha.

“Você deveria me chamar pelo meu primeiro nome também, Shigure-kun.”

Como eu parecia incomodado, Yamada insistiu. Seus olhos límpidos se aproximaram de mim.

“Me chame de Haruka.”

“N-Não…”

Falar sem honoríficos é íntimo demais, não é? E, ao mesmo tempo, adicionar ‘-san’ ao primeiro nome de alguém da mesma idade parece estranho… e eu não sou bem o tipo de personagem que usa ‘-chan’ com garotas, pensei, afastando o rosto e desviando o olhar.

“B-Bem, você pode deixar os honoríficos de lado, sabe?”

Yamada aumentou seu sorriso satisfeito. O sorriso que revelava seus dentes brancos e gengivas rosadas me lembrou um carnívoro. O termo “garota carnívora” flutuou na minha mente.

“…Eu ficaria mais feliz com ‘Haruka’ do que com ‘Yamada-san’! Vamos lá, não tem problema, tem? Afinal, você não usa honoríficos com a Jun-chan.”

O céu lá fora estava completamente nublado. Refletindo as luzes fluorescentes, os olhos de Yamada brilhavam intensamente. O vento que soprava pela janela totalmente aberta misturava os cheiros de perfume e resina.

“Eu também—”

“Oookaayy, já chega disso.”

—De repente.

Alguém agarrou Yamada — que tentava aproximar ainda mais o rosto — pelo colarinho da blusa. Desse jeito, ela foi puxada à força para trás, soltando um guincho sufocado.

“ Gweh!? ”

“Não fique no caminho. Em vários sentidos.”

“Yōjirō…”

“Ei, Shigure. Sentiu falta do seu melhor amigo absoluto enquanto eu estive fora?”

Aquele que exibia um sorriso largo para mim era um garoto de aparência refinada, com o mesmo cabelo castanho claro de Yamada.

Kuzumi Yōjirō.

Eu não iria tão longe a ponto de chamá-lo de meu “melhor amigo”, mas ele era um amigo meu, e—

“Kuzujirou!”

Yamada gritou, avançando contra Yōjirō.

“O que você pensa que está fazendo! ‘Não fique no caminho’ é a minha frase!?”

“Não, não, é a minha frase. É a minha frase e a da Amamori-chan.”

“…Hã? O que diabos você sabe sobre a Junna-chan, hein? Continue com essa sua boca grande e eu te janto direto para o inferno, seu bastardo.”

“Suas palavras e suas ações não combinam muito, sabe.”

Yōjirō desviou dos insultos furiosos de Yamada com uma facilidade praticada.

Os dois eram amigos de infância.

“Desculpe por isso, Shigure. A nossa Haruka pode ser um problema.”

“Quem você está chamando de ‘nossa’! Eu vou te esquartejar e te colocar em exposição, seu pedaço de merda!”

“Vou indo na frente e levando essa gata ladra comigo.”

“Sim, por favor, faça isso.”

“Não peça isso para ele! Isso é muita maldade, Shigure-kun!”

Yamada berrou dramaticamente. Tanto Yōjirō quanto eu a ignoramos.

“Pensando bem,”

Ainda segurando Yamada pelo colarinho, Yōjirō falou como se estivesse se lembrando de algo de repente.

“Não temos visto a Amamori-chan por aqui ultimamente, né?”

Exatamente como Yōjirō disse, desde que as férias de verão terminaram, Junna vinha faltando frequentemente à escola, e ela mal participava dos preparativos do festival cultural também.

O motivo era que ela estava ocupada. A YOHILA tinha mudado repentinamente sua política de atividades, e as coisas aparentemente estavam em um estado de caos. Mesmo quando vinha à escola, ela ia embora imediatamente após as aulas.

Eu também não via o rosto dela há uns três dias.

“…É. Parece que ela costuma ficar doente perto da mudança de estações.”

No entanto, como eu não tinha revelado que Junna estava fazendo atividades musicais, disfarcei com uma desculpa qualquer.

Yōjirō franziu as sobrancelhas desconfiado, soltando um “Hum?”.

Mas ele não insistiu no assunto.

A propósito, eu ainda não tinha contado para Yamada — que sabia que Junna era o JUN do YOHILA — sobre a questão da exposição pública. Ela provavelmente só assumia que Junna estava ocupada se preparando para a grande estreia.

“…Agora é a minha chance…” Yamada murmurou baixinho.

“Bem, então, estou voltando para as minhas obrigações no comitê executivo. Você vai ajudar também, Haruka,” disse Yōjirō, arrastando-a para longe.

“DE~~~~ JEITO~~~~ NENHUM~~~~!”

Quando os dois desapareceram da sala de aula e de vista, soltei um suspiro de alívio.

Tinha algo de errado com a Yamada, com certeza.

O senso de espaço pessoal dela já andava desregulado há um tempo, mas, mesmo assim, deveríamos ter protegido e mantido uma distância apropriada como amigos.

Pelo menos até as férias de verão, quando assistimos juntos à sessão de gravação da YOHILA e ela ouviu as minhas preocupações.

…Será que aconteceu algo depois daquilo?

Pensei em perguntar para a Junna, mas decidi não fazer isso.

Escolhendo acreditar que o perfume do sexo oposto que começara a flutuar vindo de Yamada era apenas a minha imaginação fértil, um truque da mente.

☂

— Não era apenas impressão minha.

O comportamento de Yamada vinha escalando dia após dia, tornando-se tão flagrante que eu podia pensar aquilo com total clareza.

“Shigure-kun, Shigure-kun.”

Fosse na sala de aula, no corredor ou no caminho para a escola, ela me chamava em qualquer oportunidade.

“Você já leu a light novel que eu te recomendei? Sim, sim… ‘O Pedaço de Merda Juvenil Sonha com uma Gyaru Brilhante’, ou ‘Aogyaru’ para abreviar!”

[Del: Acho muito interessante como que a relação dela com o Yōjirō foi colocada no título de Bunny Girl.]

Ela jogava conversa fora sem nenhum propósito específico em mente.

Para constar, o livro que Yamada recomendou era uma comédia romântica juvenil onde “um otaku distorcido que rejeita a juventude se apaixona por uma gyaru (uma ex-otaku sombria) que é brilhante tanto na aparência quanto na personalidade” , e os arquétipos do protagonista e da heroína eram exatamente como eu e a Yamada.

[Del: Hum? Então era para ser ele?]

“Além disso, sabe. Ultimamente, eu ando super a fim do gênero netori também. Tipo, se apaixonar pelo par do seu melhor amigo mesmo sabendo que não deveria… algo assim? Ter o coração todo bagunçado e derretido pela culpa e pela imoralidade é simplesmente irresistível. Fuhihi .”

[Almeranto: Praticamente é o que está acontecendo, aparentemente. | Del: Eu sinto que não é isso, é mais provável creio eu que ela esteja tentando desviar a própria atenção do outro cara, com base no epílogo passado.]

O senso de distância dela estava tão próximo quanto o da Junna, e ela estava extraordinariamente afetuosa fisicamente. A maneira como desconsiderava os olhares do público também era a mesma. Como resultado,

“K-Kurimotooooo! Não satisfeito apenas com a Amamori-san, você vai atrás da Yamada-san também… Elas são as duas maiores beldades do primeiro ano!”

“O quão sem limites é esse cara!? Ele está tentando construir um harém!?”

“ Gwaaaaaah!? E-Eu não consigo… Não consigo conter as chamas avassaladoras do meu ciúme! As chamas carmesins estão se tingindo de um preto absoluto, elas vão queimar o mundo junto com a Terra inteira!”

“Espere, a Yamada-san não está saindo com o Kuzumi? E o Kurimoto é próximo do Kuzumi… Arquejo! Será que aquele bastardo do Kurimoto está dando em cima da garota do amigo!?”

“Está mais para Lixo-moto em vez de Kurimoto. Inaceitável!”

[Del: Obs: Kuzu -moto.]

“Ei, esperem. O motivo da Amamori-san estar tirando um tempo longe da escola não seria…?”

“Certo, vamos acabar com ele. Vamos convocar todos os garotos da escola e formar um esquadrão de subjugação do Lixo-moto!”

Fui mal-entendido de tais formas, atraindo os cenhos franzidos das pessoas. Incapaz de continuar quieto por mais tempo, eu—

“Yamada-san.”

No caminho de volta para casa depois da escola. Enquanto caminhávamos em direção à estação, abri a boca.

Foi em meio a um pôr do sol que fazia o mundo parecer como se estivesse manchado de sangue.

Talvez tivesse ocorrido uma chuva rápida e repentina, pois o asfalto escurecido estava levemente úmido, brilhando como se órgãos internos estivessem refletindo a luz.

“Eu… absolutamente nunca serei abalado por nenhuma outra garota além da Junna,” eu disse a ela com firmeza.

Mesmo que ela achasse que eu estava sendo convencido, e mesmo que o nosso relacionamento se despedaçasse, eu não me importava.

“Se é isso que você está buscando, caia fora,” eu disse, lançando um olhar afiado de relance para Yamada, que caminhava bem ao meu lado.

[Almeranto: Isso aí, corta fora logo.]

“ Eh… ”

Yamada parou de andar.

Ela abaixou a cabeça.

“…………………………………. Fuhi .”

O que eventualmente vazou foi uma risada. Com a cabeça ainda profundamente curvada, lançando uma sombra escura sobre os olhos, Yamada riu com escárnio.

“ Fuhihi… Certo… É isso mesmo… O Shigure-kun ama a Jun-chan tanto, tanto, TANTO , você é dedicado e totalmente sincero, nééé? Eu sei… É, eu sabia… que eu não conseguiria… roubar você agindo dessa forma… Eu sabia desde o começo… hihi… hihihihihi .”

“Y-Yamada-san?”

[Del: Tá coringando. Hm, ela estava querendo só experimentar como seria o novo gênero que está lendo? …Pera… ela quer provocar ciúme ou algo assim na Junna para ele fazer uma nova música???]

O sol estava se pondo. O carmesim que tingia o mundo desapareceu, engolido pela escuridão do índigo.

Em direção a Yamada, que murmurava baixinho como se estivesse falando sozinha e ria com os ombros trêmulos, nutri um inexplicável sentimento de terror.

Quando dei um passo para trás, meu pé estalou ao pisar em uma lata vazia. Com aquele som, Yamada ergueu o rosto.

Era um sorriso radiante e escancarado.

“Desculpe!”

A sombra escura e a intensidade de apenas um momento atrás haviam sumido sem deixar vestígios.

“Eu sou tão sem jeito. Quero dizer, sou uma garota sombria e impopular, sabe. Assim que fico próxima de alguém, eu simplesmente me apaixono instantaneamente, tipo isso? Embora eu soubesse na minha cabeça que você gostava da Jun-chan, Shigure-kun… pensei, tipo, talvez haja uma chance. Fiquei esperançosa e simplesmente perdi o controle totalmente! Tehehe ,” ela disse, coçando a bochecha com um dedo e soltando um “ Haha ” sem jeito.

Yamada sorriu amarelo. Então, ela continuou alegremente.

“Mas… sim, estou bem agora! Entendi que há 120 por cento de chance de não acontecer… então vou desistir graciosamente!”

“…Hum…”

Senti uma sensação de incongruência com aquela vivacidade. Com certeza não era uma alegria falsa. O que era falso não era a sua vivacidade, mas sim os seus sentimentos.

Esses sentimentos por mim que Yamada afirmava nutrir. E se esses mesmos sentimentos fossem uma “mentira” destinada a obscurecer outra coisa—

“— Então, de qualquer forma! Esse é o fim dessa conversa! Vamos voltar a ser amigos saudáveis, Kurimoto-kun.”

Como se para me interromper bem no momento em que eu estava prestes a perguntar, Yamada bateu as palmas das mãos com um estalo e começou a andar. Ultrapassando-me enquanto eu permanecia ali parado, ela se dirigiu para a estação.

Linha Saikyo, Estação Ikebukuro.

Yamada e eu estávamos indo na mesma direção; eu morava em Kichijoji e faria baldeação em Shinjuku, enquanto Yamada morava em Futakotamagawa e faria baldeação em Shibuya. Enquanto esperávamos pelo trem na plataforma:

“……………………”

Yamada e eu permanecemos em silêncio.

Não havia o que fazer, já que aquilo tinha acabado de acontecer, mas era constrangedor.

Yamada estava alinhada atrás de mim, não ao meu lado. Eu estava bem na frente da fila, mexendo no meu smartphone e respondendo a uma mensagem que havia recebido de Junna.

『JUN: Pensando bem, o que a sua sala vai fazer, Shigure? Para o festival cultural.』

『JUN: A minha sala vai fazer uma montanha-russa.』

『Shigure: Uma montanha-russa? Isso é incrível.』

『Shigure: Nós vamos fazer um Meido Cafe.』

『Shigure: Um café temático onde empregadas servem os clientes no inferno.』

Ela leu enquanto eu digitava a mensagem, e uma resposta voltou em um segundo.

『JUN: O que é isso? Que assustador.』

O trem estava chegando.

『JUN: Se você algum dia cair no inferno, Shigure,』

Como não havia portas de plataforma instaladas, dei um passo para trás, ficando dentro do piso tátil amarelo.

『JUN: Fica tranquilo, eu vou correr logo atrás de você.』

—Um calafrio.

Naquele instante, um calafrio tremendo correu pela minha espinha. Não foi em resposta à mensagem de Junna. Foi porque senti uma presença aterrorizante vinda de trás, como se a ponta de uma lâmina estivesse sendo cravada contra as minhas costas, e—

“…!?”

“Ei, vocês dois.”

Quando me virei, Yōjirō estava de pé ao lado de Yamada.

“Indo para casa juntos de novo hoje, hein? Olhem só como estão se dando bem.”

“Y-Yo-kun…”

Um apelido desconhecido escapou da boca de Yamada. Seus olhos estavam arregalados de surpresa, ainda mais do que os meus, com a boca entreaberta.

“Me faz ficar com ciúmes,” disse Yōjirō, estreitando os olhos em um sorriso frívolo. Mas seus olhos não estavam sorrindo, e a mão de Yōjirō estava agarrando firmemente o pulso direito de Yamada.

Como se ele estivesse parando uma mão que estava prestes a ser estendida.

“……………………”

O trem deslizou para a plataforma, e o vento morno, ainda grávido do calor intenso do verão, fez meu coração oscilar de inquietude.

Eu queria acreditar que era apenas a minha imaginação.

☂

『— A Haruka-san está agindo estranho?』

Naquela mesma noite, eu estava consultando Junna sobre Yamada.

Ouvir a voz de Junna através do smartphone parecia mais inorgânico e frio do que ouvi-la pessoalmente.

『Ela sempre é estranha.』

“Bem, verdade.”

Yamada era uma fã massiva da YOHILA e, na frente de JUN — Junna — ela era especialmente propensa a perder a compostura. Incapaz de manter sua personalidade de gyaru por muito tempo, ela atingia seu limite e revertia para uma otaku esquisita.

“É mais como se ela estivesse agindo ainda mais estranhamente do que o habitual…”

『Estranha como?』

“Hum…”

Perdi as palavras, sem saber o quanto deveria contar.

Deveria ser completamente aberto sobre Yamada ter se aproveitado da ausência de Junna para se aproximar de mim, e até sobre os sentimentos dela?

Ou sobre a plataforma no caminho para casa, como ela quase me empurrou nos trilhos—

“…Na verdade.”

Após sofrer pensando nisso, contei a ela os “fatos” exatamente como eram.

Com a escola fazendo tanto barulho por causa disso, eventualmente chegaria aos ouvidos de Junna de qualquer forma, então achei que seria melhor contar diretamente da minha própria boca.

No entanto, não falei sobre o que aconteceu na estação, mantendo aquilo trancado no meu peito.

Aquilo não era um fato; não passava da minha própria imaginação arbitrária e, se fosse um fato, seria sério demais. Seria um assunto para consultar a polícia, não a Junna.

De qualquer forma.

『……..Hã?』

Tendo terminado de ouvir a minha história, Junna murmurou em voz baixa.

『A Haruka-san, em direção a você… Entendo. Hum…』

Uma emoção que era claramente palpável, mesmo sem ver o rosto dela através da chamada—

『É.』

Exalando raiva, ela cuspiu as palavras.

『Vou cortar os laços com ela.』

“Cortar os laços? Calma lá.”

『Depois de bater nela com a minha Gretsch.』

“Acalme-se.”

『…Será que o baixo seria mais pesado que a guitarra?』

“Eu disse para se acalmar! Isso já foi resolvido. Ela disse que está desistindo graciosamente e que vamos voltar a ser amigos…” eu disse, acalmando a Junna furiosa.

『Impossível. Não confio nela.』

Tentei persuadi-la, mas Junna teimosamente se recusou a ceder.

『…Uma vez que um relacionamento muda, ele nunca volta atrás. Absolutamente não.』

Havia uma forte emoção compactada naquelas palavras.

Provavelmente era por causa do que aconteceu com a YOHILA.

Anteriormente, a YOHILA tinha sido formado por quatro pessoas — mas devido a um desentendimento, três delas saíram e desapareceram. E Junna continuava sozinha agora. A tristeza que Junna continuava a carregar.

Mas era exatamente por isso.

“Se as coisas não vão voltar atrás, não deveria se acalmar e pensar bem sobre o assunto? Sobre o motivo da Yamada-san ter feito algo assim de repente. Antes de cortar os laços com ela?”

『…Não é apenas porque você é atraente demais, Shigure, e ela não conseguiu mais se conter?』

“De jeito nenhum, de jeito nenhum.”

Afirmei. Não era que eu estivesse me rebaixando dizendo que não tinha charme; eu puramente e categoricamente não conseguia imaginar Yamada gostando de mim como alguém do sexo oposto.

Além disso, Yamada era totalmente devotada a Junna. Eu não conseguia encontrar nenhuma razão para ela nutrir sentimentos fortes o suficiente a ponto de querer buscar isso, mesmo ao custo de ser odiada por Junna. Não nas minhas memórias.

[Del: Talvez seja justamente por isso? Mas estou propenso mais a primeira opção que comentei mesmo.]

“Você tem alguma ideia?”

Perguntei a ela novamente.

“Ao longo do último mês ou algo assim. Tipo algo que chamou a sua atenção enquanto conversava com a Yamada-san.”

『Hum…』

Depois que Junna pensou nisso por um tempo,

『— Ah!』

“Hum?”

『Talvez por volta do início de agosto? Na época em que você estava tão obcecado em escrever aquela light novel chata para caramba que não me dava nenhuma atenção.』

“…Poderia não abrir à força uma ferida que está recém começando a cicatrizar?”

『Eu conversei com a Haruka-san sobre composição de músicas. Sobre como as músicas da YOHILA são criadas. As circunstâncias de como a YOHILA se tornou a YOHILA que é hoje, e—』

O catalisador que levou ao nascimento de “VOCÊ & EU”.

[Del: U&I.]

O fato de que o ciúme em relação a Yamada, a ansiedade e o medo de possivelmente perder algo precioso, e uma imaginação desesperadora haviam criado aquela faixa.

『A reação dela na época foi meio estranha… Houve uma pausa muito longa antes de ela demonstrar qualquer alegria. Foi como se estivesse afundando em pensamentos profundos.』

“…! Entendi.”

Ouvindo a história de Junna, aquilo me atingiu como um raio.

A razão pela qual Yamada tinha enlouquecido.

“A Yamada-san queria que você criasse!”

Precisamente por ser um companheiro fã do YOHILA, eu compreendi.

Eu não conseguia evitar compreender.

“Música mais pesada, mais sombria… fazendo com que você realmente me perca, em vez de ser apenas na sua imaginação! É por isso que ela tentou me tirar de você.”

Não importava quais meios ela tivesse que adotar.

O que vinha movendo Yamada não era afeição por mim, mas sim o seu amor por Junna — pela YOHILA e JUN.

『Eh…』

Junna estava perplexa. Ela estava tão claramente abalada que era óbvio apenas pela sua voz.

『Isso é assustador. Com certeza vou cortar os laços… Na verdade, não deveríamos fugir agora mesmo? Quem sabe o que ela fará se a deixarmos em paz, aquela monstra otaku distorcida.』

“É-é…”

Afinal, eu de fato tinha sentido uma presença perigosa.

Eu queria acreditar que era apenas a minha imaginação, mas depois de saber dos supostos sentimentos de Yamada, não conseguia evitar suspeitar que não era impossível.

Se o Yōjirō não a tivesse parado—

“…Acho que vou tentar consultar o Yōjirō.”

『O Kuzujirou?』

“Sim. Eles são amigos de infância. Se alguém puder ajudar, é ele.”

『…Verdade.』

“Para isso, precisarei explicar a situação detalhada primeiro… Junna, tudo bem se eu contar ao Yōjirō sobre a YOHILA e tudo mais?”

『Sim.』

Do outro lado do smartphone, Junna assentiu.

『Nós vamos anunciar isso em breve de qualquer forma. E o destino do Shigure depende disso.』

“Destino, sério.”

Eu não conseguia rir daquilo como um exagero — e isso não tinha graça nenhuma.

☂

“Eu sei.”

No dia seguinte, no intervalo do almoço. Ao ouvir da minha boca o “segredo” de Junna, Yōjirō respondeu isso e riu despreocupadamente.

“JUN-chan da YOHILA. Eu também já ouvi todas as músicas dela. No geral são sombrias e pesadas, mas o instrumental é incrível, as melodias são marcantes e fáceis de ouvir. E, acima de tudo, os vocais são fantásticos! Tão cheios de emoção! A sensação de ela pegar aquela paixão turbulenta e violenta dentro do coração e arremessá-la contra você com todas as forças é simplesmente a melhor!”

Agitando os hashis, ele compartilhou suas impressões com fluidez.

Estávamos no terraço do Prédio Oeste. Era raro uma escola manter esse local aberto o tempo todo, mas, por ser de acesso inconveniente, quase nenhum aluno o usava para almoçar. Na verdade, não havia mais ninguém ali. Sentados de pernas cruzadas um de frente para o outro, comíamos nossos almoços.

“...Você ouviu isso da Yamada?”

“Não, descobri sozinho.”

“—Quando? Como?”

Parando de comer para perguntar, vi Yōjirō estreitar os olhos.

“Durante as férias de verão. Você e a Haruka saíram juntos uma vez, não foi, Shigure?”

“Foi...”

Ele devia estar falando do dia em que observamos a gravação no estúdio em Nakameguro.

“Eu segui vocês.”

“—Hã?”

Quase deixei cair a almôndega agridoce (feita pela Akagi).

“Você nos seguiu? Desde onde?”

“Da casa da Haruka. Em segredo, para vocês não perceberem.”

“............”

Enquanto eu ficava sem palavras, Yōjirō continuou comendo seu bentō inocentemente, falando como se estivesse apenas conversando sobre o tempo.

“Encontrei a Haruka justamente quando ela estava saindo. Ela estava arrumada demais... então perguntei para onde ia, mas ela ficou toda nervosa e deu uma desculpa claramente falsa tipo: ‘Nada demais’. Fiquei curioso e decidi segui-la.”

“O jeito como você fala é leve, mas o que você fez é bem perturbador.”

“Aí vi que ela ia se encontrar com você, Shigure, e fiquei realmente surpreso! Até pensei em contar para a Amamori-chan depois, então tirei fotos como prova.”

[Del: Azideia.]

Yōjirō me mostrou a tela do celular. Nela havia uma foto perfeitamente tirada de Yamada e eu nos encontrando sob o viaduto em frente à estação e começando a caminhar lado a lado.

Uma rajada de vento passou, e meu corpo estremeceu violentamente.

Por um motivo que não era o frio.

“Quando o destino de vocês acabou sendo uma área residencial, fiquei ainda mais surpreso. Pesquisei no celular e descobri que era um estúdio musical frequentado por profissionais. Não consegui entender nada.”

“Eu é que estou surpreso e sem entender nada aqui.”

“Só fiquei esperando do lado de fora e, depois de um tempo, vocês finalmente saíram.”

“Só fiquei esperando do lado de fora.”

Será que ele realmente ficou ali na chuva durante horas até a gravação terminar?

O que ele é, um detetive em vigilância?

“Alguma coisa simplesmente fez sentido para mim, então, em vez de continuar seguindo vocês dois... decidi continuar esperando do lado de fora do estúdio. No total, acho que umas dez horas. Foi bem cansativo.”

“Isso passa muito de ‘bem cansativo’...”

“Então, depois que o sol se pôs. No momento em que a Amamori-chan saiu carregando uma guitarra ao lado de alguns adultos, eu entendi tudo. Vocês provavelmente tinham ido assistir à sessão de gravação dela. A mente brilhante do grande detetive Kuzumi Yōjirō deduziu a verdade!”

“...Você parece mais um stalker do que um grande detetive. Dá medo.”

“Bem, a partir daí as coisas ficaram complicadas.”

Ignorando completamente o meu terror crescente, Yōjirō soltou um suspiro.

“Mesmo sabendo que a Amamori-chan era profissional, eu não sabia a parte mais importante: o nome dela. Se fazia parte de uma banda ou se era artista solo... e eu não podia simplesmente perguntar.”

Ele ergueu o olhar para o céu e fechou os olhos.

Hoje estava nublado. A previsão dizia que começaria a chover ao anoitecer.

“Depois de investigar um monte de coisas, passei por todos os músicos seguidos pela conta do estúdio nas redes sociais e, de alguma forma, cheguei até a YOHILA. Quando ouvi as músicas, soube imediatamente pela ‘voz’ dela.”

“...Entendo.”

A YOHILA não faz aparições na mídia, mas possui uma conta oficial para anúncios. Mesmo assim, não existe nada ali que remeta a “Junna”. Forçando bastante a interpretação, talvez apenas as cores das hortênsias usadas — a mesma cor das mechas internas do cabelo dela.

[Del: E talvez o JUNna sabe, não?]

Apesar disso, ele conseguiu encontrá-la.

“Você é perturbado. E não só um pouco. Extremamente perturbado.”

“Vou considerar isso um elogio.”

Ao ver minha expressão completamente desgostosa, Yōjirō riu despreocupadamente.

O sorriso que antes eu considerava apenas leviano assumiu uma profundidade insondável.

“Encontrar a YOHILA sem nenhuma pista e usando informações não públicas já é perturbador. E o fato de você ter nos seguido desde o começo também é perturbador.”

“...Você acha?”

“Acho!”

“Qualquer um ficaria curioso sobre a pessoa de quem gosta, não é?”

“Bem, isso é verdade, mas... oi?”

Parei o hashi quando estava prestes a levar o arroz glutinoso com broto de bambu à boca.

“—‘Pessoa de quem gosta’?”

“Sim. Eu gosto da Haruka.”

Ele declarou isso suavemente, com a mesma leveza de quem diz: “O tempo está nublado hoje.”

“Já faz muito tempo. Sempre gostei dela.”

Acrescentou isso também com a mesma leveza de quem comenta: “Parece que vai chover mais tarde.”

O arroz escorregou dos meus hashis e caiu com um ploc .

“...Sério?”

“Sério. Com S maiúsculo.”

Os olhos de Yōjirō estavam sérios.

Seu olhar fixo e inabalável enquanto me encarava lembrava Junna.

Como se emoções escuras, pesadas e úmidas estivessem transbordando dele.

“Por isso eu tenho um ciúme absurdo de você.”

“............”

“Dito isso...”

Seu tom voltou ao normal.

Recuperando a atmosfera leve e despreocupada de sempre, ele deu de ombros.

“Só recentemente decidi expressar meus sentimentos com sinceridade. Acho que foi por volta do fim das férias de verão. Caso contrário, eu não teria me esforçado tanto para fazê-la me odiar. Não sou nenhuma criança do ensino fundamental que implica com a garota de quem gosta... A razão de a Haruka me odiar é porque eu agi deliberadamente para que isso acontecesse.”

“—Como é a conversa?”

Eu não entendi.

“Por quê? Normalmente seria o contrário.”

Você quer que a pessoa de quem gosta goste de você de volta.

Não é esse o pensamento normal e saudável?

Ao ver minhas sobrancelhas franzidas, Yōjirō sorriu amargamente.

“Pois é.”

“Existe uma razão para isso. Uma razão profunda ligada ao passado meu e da Haruka!”

Após esse preâmbulo, ele começou a contar sua história.

A história da amizade de infância entre Yōjirō e Yamada, que brigavam sempre que se encontravam.

☀

Eu — Kuzumi Yōjirō — tenho alguém de quem gosto.

Yamada Haruka.

Uma garota da minha idade que mora no apartamento ao lado do meu.

Aquilo que chamam de amiga de infância.

Desde antes mesmo de conseguirmos formar memórias, antes de entrarmos no jardim de infância, nossas famílias conviviam entre si, e passávamos muito tempo juntos.

“Yo-kun, Yo-kun!”

Ela me chamava por esse apelido e me seguia para qualquer lugar.

Era quieta e tímida, uma garota que não conseguia brincar com ninguém e acabava sozinha se eu não estivesse por perto.

Mas até esse lado dela era adorável.

Como filho único, eu a via como uma irmãzinha.

Quando foi que essa percepção começou a mudar?

Foi quando saímos do jardim de infância?

Quando entramos no ensino fundamental?

Quando chegou a puberdade?

Ou talvez, sem que eu percebesse, já fosse assim desde o começo.

Antes que eu percebesse, ela havia se tornado uma “garota” especial para mim.

Nem família.

Nem apenas uma amiga.

E o mesmo valia para ela.

“Yo-kun...”

A voz chamando o garoto que eu era.

O olhar voltado para mim.

O calor de nossas mãos entrelaçadas.

Coisas doces haviam começado a se misturar a tudo isso.

Tínhamos cerca de dez anos.

Estávamos nos anos intermediários do ensino fundamental.

Nessa idade, não apenas nós, mas também os meninos e meninas ao nosso redor começaram a se interessar pelo sexo oposto, e aqui e ali surgiam casais.

Namorar.

Em outras palavras, tornar-se um casal.

Para nossas mentes infantis, namorar era sinônimo de “casar”, como nossos pais.

Acreditávamos que significava permanecer juntos para sempre, até a morte.

Eu também acreditava que certamente seria assim entre nós.

Mas—

“...Eh? Eles terminaram? O que significa terminar...? Eles ‘romperam relações’...?”

O primeiro casal que surgiu terminou após uma briga apenas um mês depois.

O relacionamento foi destruído.

Os dois eram muito próximos antes mesmo de começarem a namorar.

Viviam rindo juntos.

Mas, de repente, passaram a não se dar bem e, após o término, não trocaram mais uma única palavra.

Tudo isso em apenas um mês.

Tudo o que haviam construído até então se despedaçou facilmente, desaparecendo sem deixar vestígios.

Ao testemunhar aquilo, fiquei aterrorizado.

Aterrorizado com a possibilidade de que eu e ela acabássemos daquele jeito.

O futuro em que passaríamos de amigos de infância para namorados e, por fim, completos estranhos.

...Eu não quero isso.

Eu definitivamente não queria isso.

Se era assim, então—

“ Nhá-nhá , Haru-chan é uma desastrada! Burra! Idiota! Tonta!”

Seria melhor que ela me odiasse.

Porque, assim, nossa relação jamais avançaria.

Eu gostava dela.

E ela gostava de mim.

Se as coisas continuassem daquele jeito, inevitavelmente acabaríamos namorando.

Isso era algo que eu precisava evitar a qualquer custo.

Para furar o balão de afeto que crescia dentro dela e esvaziá-lo, recorri a todos os meios possíveis.

Zombei de sua falta de jeito.

Peguei no pé de sua personalidade introvertida.

Ridicularizei suas notas ruins.

E repeti continuamente palavras e atitudes cruéis.

“Eu gosto muito de garotas com peitos grandes, sabe? Ah, mas também não posso ignorar uma bunda bonita... Mulheres mais velhas são ótimas, e mais novas também. Não consigo escolher... Ah, já sei! Vou dar em cima de todas e fazer todas se apaixonarem por mim! Sou um gênio? Meu objetivo é montar um harém!”

No ensino fundamental, me aproximei de garotas pelas quais nem tinha interesse, apenas para ganhar deliberadamente a fama de “canalha”.

Como resultado—

“Bom dia, Haruka! Você está na fase de crescimento, mas como está indo? Seu peito... continua sem crescer nada.”

“................................”

Os olhos que me refletiam tornaram-se completamente turvos.

“Morra, Kuzujirou!”

Toda a doçura que antes existia em sua voz desapareceu quando pronunciou meu nome.

“ Bufh!? ”

O calor de nossas mãos entrelaçadas transformou-se no ardor de um tapa no rosto.

Minha bochecha doía.

Ser odiado pela garota que eu amava também doía.

Mas eu suportava.

Escondendo meus verdadeiros sentimentos, ria despreocupadamente.

“Mesmo assim, você continua tão sem graça... Devia abandonar esse visual de garota sombria de antigamente. As tranças pretas e os óculos.”

“Cala a boca. Quem devia parar é você.”

“Parar o quê?”

“De respirar.”

“Eu morreria!”

“É exatamente essa a ideia... Aliás, para qual colégio você vai prestar exame?”

“Está curiosa? Aposto que quer me evitar! Nesse caso, só para te irritar, vou para o mesmo—”

“O contrário. Vou para o mesmo lugar para poder ficar de olho em você e garantir que não faça nenhuma besteira.”

“.........Ah, é.”

Sem nunca ser amado.

Mas também sem jamais ser odiado o suficiente para que nossos laços fossem cortados.

Seguindo adiante sem rumo, desde que nossa relação pudesse permanecer inalterada.

Para mim, isso era suficiente.

‘Vamos, Kurimoto-kun.’

Era o que eu pensava. Que aquilo era suficiente.

☂

“Veja, Shigure... em vez de ser o ‘primeiro’ da pessoa de quem gosto, eu quero ser o ‘último’.”

Depois de terminar de contar sua história com Yamada, Yōjirō apoiou-se na cerca e murmurou.

O céu, recortado pela malha metálica, estava cinzento.

Observando seu perfil mergulhado em sombras, tão diferente do Yōjirō de sempre, perguntei:

“...O último?”

“Isso. O parceiro com quem você passa a vida, a pessoa que permanece ao seu lado até o fim. Mesmo que ambos se apaixonem por várias pessoas e acumulem várias experiências até lá... no final, depois de tudo, é para esse lugar que retornam e onde se estabelecem. Esse tipo de existência.”

Sua voz era tranquila.

Carregada pelo vento fresco do outono, chegou suavemente aos meus ouvidos.

“Eu não quero acabar sendo apenas uma lembrança. Quero continuar sendo o presente para a pessoa que amo... Sou um realista e um pessimista, sabe? Ainda estamos na metade da adolescência, e a vida ainda é longa. Simplesmente não consigo acreditar que um único romance vá durar durante todo esse tempo.”

“...É verdade.”

Sentando-me ao lado dele na base de concreto da cerca, concordei enquanto baixava o olhar.

Não existe nada que não mude.

Meus sentimentos por Junna e os sentimentos dela por mim estão constantemente mudando.

Como o clima.

Como as estações.

Mesmo que as mudanças do dia a dia sejam pequenas, quanto mais tempo se acumular, maiores e mais pesadas elas inevitavelmente se tornarão.

Há dez anos...

Assim como eu, quando tinha acabado de entrar no ensino fundamental, não conseguia imaginar de forma alguma como seria ser um estudante do ensino médio.

Imaginar quem serei daqui a dez anos é uma tarefa monumental.

É algo distante demais.

“Por isso pensei que me tornaria o último dela. Até que chegasse esse momento, bastava manter de forma relaxada uma relação estável como amigos de infância... como amigos. Foi o que pensei. Mas...”

Desviando os olhos do céu distante, Yōjirō olhou para mim.

“Parece que sou um cara mais imaturo e ganancioso do que imaginava. Quando vi a Haruka mudar o visual depois de entrar no ensino médio, receber atenção de outros caras e se aproximar de você... pensei: ‘Ah, eu odeio isso’... ‘Na verdade, eu também quero ser o primeiro dela, e não apenas o último.’”

“E-Eu entendo...”

Desviando os olhos das pupilas que abrigavam uma chama sombria, falei:

“Desculpa. Mas não existe nada entre mim e a Yamada...”

“Eu sei. Eu entendo.”

Yōjirō sorriu amargamente diante da minha tentativa de explicação.

“Mesmo assim. Você também odiaria se eu estivesse ficando muito próximo da Amamori-chan, não odiaria?”

“...Odiaria. Mesmo que não fosse você, eu teria ciúmes de qualquer um.”

“Ha-ha! Nós dois somos caras absurdamente ciumentos, não somos?”

Yōjirō riu e se agachou ao meu lado.

“E você, Shigure?”

Encostando o ombro no meu, perguntou:

“Entre ser o primeiro ou o último da pessoa que ama, se tivesse que escolher, qual seria?”

“Os dois, obviamente.”

“Eu disse se tivesse que escolher. É uma pergunta de um ou outro.”

“..........O primeiro.”

“Oh? E qual o motivo?”

“Não consigo esperar tanto tempo.”

Transformando em palavras os sentimentos ardentes que transbordavam apenas ao imaginar o rosto de Junna, continuei:

“Esperar até o final é impossível. Sinceramente, eu queria avançar nossa relação agora mesmo. Mas, ao mesmo tempo, também existe uma parte de mim que deseja que tudo permaneça como está por mais um tempo.”

“...Porque você tem medo da mudança?”

“Hum. Acho que isso faz parte, mas...”

“Uma vez que mudarmos, não poderemos voltar atrás... então.”

“Eu ainda quero aproveitar isso.”

[Del: Que conversa surreal.]

Lembrando das palavras que Junna deixou escapar enquanto voltávamos do festival de verão, falei:

“Quando começarmos a namorar, não poderemos voltar a ser como éramos antes de namorar, certo? Como você disse, a vida ainda é longa, e eu e a Junna acabamos de nos conhecer... então quero aproveitar um pouco mais essa fase antes do namoro. Principalmente se formos namorar por muito tempo daqui para frente. Caso contrário, parece um desperdício.”

“Um desperdício...”

Os olhos de Yōjirō se arregalaram.

Ele piscou algumas vezes e então soltou: “ Pfft .”

“ Hahahaha! Entendi... Eu não tinha pensado dessa forma. Estava me perguntando por que vocês dois simplesmente não começam a namorar logo, mas então vocês tinham uma razão dessas também. Achei que você só estivesse sendo covarde.”

Ele caiu na gargalhada.

Bem, eu entendia perfeitamente por que alguém de fora pensaria: ‘eles deveriam simplesmente começar a namorar logo’.

[Del: Vulgo 99% dos leitores desde o vol 1.]

Afinal, para um garoto e uma garota que ainda não estavam namorando, éramos próximos demais.

Embora, se fôssemos falar disso, nossa relação já fosse estranha desde o momento em que nos conhecemos.

É justamente por isso que quero avançar com cuidado.

“E quanto à ansiedade de tudo acabar? Você não sente isso?”

Parando de rir, Yōjirō perguntou.

“O medo de que algo que você valoriza tanto acabe se quebrando...”

“Sim, eu sinto.”

Enquanto respondia, deixei minha imaginação seguir adiante.

Se eu me tornasse namorado de Junna e depois terminássemos.

Se os sentimentos dela desaparecessem no meio do caminho e ela me deixasse.

“...Com certeza seria tão doloroso que eu desejaria morrer.”

Assim como na letra que Junna escreveu e cantou para “VOCÊ & EU” .

Meu coração seria rasgado e despedaçado.

Talvez eu não conseguisse continuar vivendo.

Mesmo assim—

“Mas, bem... acho que tudo bem. Mesmo que doa tanto a ponto de eu querer morrer, e mesmo que eu realmente acabe morrendo.”

Se o motivo da minha morte fosse o amor, então seria exatamente isso que eu desejaria.

Se for para ser morto pelo amor.

“—Ou pelo menos é o que digo como brincadeira, mas...”

“Isso não parece brincadeira nenhuma! Seus olhos estão completamente sérios! Tem alguma coisa sombria girando dentro das suas pupilas, Shigure!”

Ignorando o alvoroço de Yōjirō, fechei os olhos calmamente.

“Mesmo que nossa relação se quebre e nunca mais possa voltar a ser como era...”

Então continuei:

“Acho que a felicidade que terei recebido até aquele momento será maior do que a dor que sentirei depois.”

E sorri.

Com sentimentos puros e sem fingimento.

“Se for pensar bem, eu já recebi felicidade suficiente para uma vida inteira. Tudo o que me resta agora é retribuir... passando o resto da minha vida fazendo isso.”

—Aquilo que ela busca em mim.

Uma felicidade profunda o bastante para se afogar nela.

Naquele dia, no instante em que Junna declarou que eu era “especial”, tomei minha decisão.

Ansiedade.

Medo.

E até mesmo o desespero que talvez um dia recaia sobre mim.

Enquanto ela continuar me procurando, ignorarei tudo isso e responderei ao seu chamado.

Foi uma declaração semelhante a um juramento.

“........................”

A boca de Yōjirō estava completamente aberta.

“Shigure...”

A expressão que antes continha apenas surpresa começou a se transformar em exasperação.

“Você é absurdamente pesado, não é?”

“...Sou?”

“É SIM! Que história é essa de ‘passar o resto da minha vida’?!”

Levantando-se de um salto, Yōjirō rebateu aos gritos.

Eu não estava tentando ser engraçado.

“.........Mas é... Acho que, se pretende conquistar tanto o primeiro quanto o último lugar, precisa mesmo ter esse tipo de determinação. Certo, já me decidi!”

Batendo nas próprias bochechas com as duas mãos, Yōjirō ergueu o rosto para o céu.

“Eu vou seguir em frente.”

As nuvens cinzentas foram empurradas pelo vento e, entre as aberturas, o céu azul e o sol apareceram.

Banho pela luz deslumbrante, ele estreitou os olhos e declarou:

“Vou me esforçar para avançar minha relação com a Haruka. Conversar com você me fez perceber o quão patético eu estava sendo ao ficar parado e hesitando... Vou tratá-la com sentimentos sinceros e compensar todos os pontos negativos que teve até agora! E vou fazê-la se apaixonar por mim de novo, sem falta. A ponto de—”

Yōjirō baixou o olhar para mim e curvou os lábios em um sorriso.

“Shigure, Amamori-chan, JUN, a música da YOHILA... ela não vai se importar com mais nada além de mim.”

“Yōjirō...”

“Então você também dê o seu melhor, Shigure.”

Ele estendeu o punho firmemente em minha direção e disse:

“Vamos ajudar um ao outro. Como melhores amigos.”

“...Sim.”

Enquanto seu sorriso se aprofundava, eu também sorri e assenti, tocando meu punho contra o dele.

“Mais uma vez, conto com você.”

Melhor amigo.

Estranhamente, aquela relação ingênua e juvenil da qual Yōjirō falava não parecia tão ruim naquele momento.

Será que chegará o dia em que eu também conseguirei chamá-lo assim, do fundo do coração?

A brisa de outono, carregando vestígios do verão, era suave e morna.

Tinha o cheiro de um raio de sol.

PLAYLIST DAS MÚSICAS QUE SÂO MENCIONADAS NA OBRA.

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(Crédito para o @Thang por reunir)

Traduzido por Moonlight Valley

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