Capítulo 5: Inverno, Portanto Mesmo Que Murche
Capítulo 5: Inverno, Portanto Mesmo Que Murche
Existem vários momentos em que se percebe de verdade que a estação mudou, mas o mais marcante deles é a roupa. Uma camisa de manga longa, uma gravata e um blazer. As calças parecem as mesmas do uniforme de verão, mas o tecido é um pouco mais grosso e pesado. De manhã, quando deslizo as pernas para dentro do tecido um tanto pesado, penso: Ah, a estação realmente mudou.
Esta manhã estava especialmente fria. Provavelmente por causa da chuva.
[Del: Lembrem sobre o significado de Shigure que eu comentei anteriormente, uma chuvisca que anuncia o começo do inverno.]
Abri meu guarda-chuva de vinil transparente e saí de casa.
“…………”
Enquanto esperava o trem na plataforma da estação, chequei minhas redes sociais. Era uma busca que já estava se tornando rotina diária — egosurfing . Basicamente nunca reajo a nada, só olho.
Ver posts bons me deixa feliz, e ver posts que não são bons me deprime. Pode ser algo como uma adivinhação. Hoje foi um dia de sorte perfeito, de cinco estrelas.
Com uma sensação refrescante como o ar da manhã cedo, guardei meu smartphone e levantei o rosto.
Naquele instante, meus olhos encontraram os “dela”. Pálpebras sonolentas e olhos claros, um black bob curto com mechas internas cor de hortênsia.
Ao lado dela, estavam coladas estas palavras.
Uma talentosa de 16 anos que toca e canta. Uma nova era do “Rock Depressivo”
YOHILA
EP de Debut Major:
『SHIGURE』
10.11 À VENDA
…É. Não importa quantas vezes eu veja, esse título é simplesmente…
Eu havia dito a ela várias e várias vezes para, por favor, parar porque era vergonhoso.
No entanto, ela teimosamente se recusou a ceder, e chegamos a um compromisso trocando o kanji original ‘詩暮’ para romaji. Mesmo assim, ainda era um pouco vergonhoso.
Mas, bem—
Olhando fixamente para a foto artística exibida em destaque no anúncio da estação, bem na frente da plataforma, estreitei os olhos.
Fico feliz que tenha vendido bem.
Fazia cerca de duas semanas desde a data de lançamento. O EP da YOHILA estreou em terceiro lugar nas paradas musicais principais e alcançou um sucesso massivo, entrando no top 5 do ranking semanal de álbuns nacional. A faixa principal ‘YOU & I’ mantinha uma posição alta em vários serviços de streaming, e sua popularidade estava explodindo no momento.
Existem vários fatores concebíveis.
Em primeiro lugar, a alta qualidade da música. Não há necessidade de discutir isso neste ponto. Eu acreditava que, se chegasse às pessoas, definitivamente ressoaria com elas, e na realidade, a recepção foi excelente.
Em segundo lugar, o fato de JUN, a única membra oficial da YOHILA, ainda ser uma estudante do primeiro ano do ensino médio de 16 anos e uma garota incrivelmente bonita.
Além disso, YOHILA era uma banda mascarada que já havia alcançado um certo nível de sucesso na cena indie.
A resposta quando sua identidade foi revelada foi tremenda, dominando as tendências nas redes sociais com palavras como ‘YOHILA’ e ‘JUN’, capturando a atenção do mundo.
E o tópico que superou até mesmo a YOHILA foi o surgimento repentino de Akagi e o resto da ENDY — incluindo EIMEE — que serviram como banda de apoio da YOHILA no palco do festival cultural.
Ainda fico com arrepios só de lembrar.
No momento em que a cortina do palco subiu e o palco foi iluminado, vozes de perplexidade se ergueram aqui e ali, se espalhando como ondas.
“…Desculpe por fazê-los esperar. Por certos motivos, eu havia me tornado incapaz de me apresentar… mas agora estou bem! Porque todas da banda que respeito e amo, a ENDY, vão me apoiar firmemente!”
No momento em que JUN declarou isso, a confusão das pessoas se transformou em agitação, a agitação em empolgação, a empolgação em choque, e — explodiu.
Nunca tive uma experiência que me fizesse perceber tão agudamente que o som é a vibração do ar.
Os gritos que sacudiam e tremiam a atmosfera eram como se uma bomba sonora tivesse detonado.
“ Fwaaaaaaaaaaaaa!? ” Yamada soltou um grito bizarro, pulando e correndo em direção ao palco.
“Ah… E-Ei!” Yōjirō entrou em pânico, correndo atrás dela. Como se seguindo os dois, uma onda de pessoas avançou para a frente do palco.
Antes que eu percebesse, eu também estava na frente.
Não faço ideia do que aconteceu com a pessoa que estava sentada ao meu lado.
As cadeiras dobráveis alinhadas tombaram e voaram com estrondo, e o ginásio pequeno instantaneamente se tornou um local superlotado, todo em pé.
A partir daí, foi — em uma palavra, ‘o melhor’.
A voz de JUN, mais vibrante do que nunca; a performance da ENDY, que eu experimentava ao vivo pela primeira vez na vida; o ar tão quente que parecia que meus pulmões queimariam só de respirar; a sensação dos corações das pessoas no local derretendo, se unindo e se misturando — tudo foi o melhor.
Especialmente perto do fim, quando JUN entregou o suporte do microfone quase à força e eles tocaram ‘Red Hot Bomb’ com EIMEE nos vocais principais e JUN no coral. Fiquei tão emocionado que acabei como uma Yamada completamente apaixonada que havia ultrapassado seus limites.
A internet, onde vídeos e imagens do show ao vivo foram enviados, estava em um alvoroço ainda maior que o próprio local.
Mesmo agora, duas semanas depois, a empolgação continua com pessoas dizendo que é o retorno da ENDY ou a faísca para sua reunião, o calor não dando sinais de esfriar.
Esse foi o terceiro fator.
O interesse se concentrou em torno do relacionamento e da conexão dela com a banda majoritariamente popular ENDY, contribuindo grandemente para a conscientização e promoção da YOHILA.
—Embora a própria Akagi tivesse apenas dado de ombros e dito:
“Eu achava que já havíamos sido esquecidas há muito tempo… Apenas pessoas que não conseguem largar o passado.”
Durante o show ao vivo, ela realmente parecia radiante, e senti que ela estava curtindo a música do fundo do coração.
Atualmente, parece que Akagi não tem intenção de reiniciar as atividades, mas Kotegawa e as outras membras, assim como vários adultos da indústria, aparentemente estão se esforçando bastante para motivá-la, então eles podem se reunir eventualmente. Isso também é algo para se esperar.
A propósito, o fato de Akagi = EIMEE ainda não ter sido descoberta. A ‘Oni Vermelha’ da enfermaria continua sendo a Oni Vermelha, temida e evitada pelos alunos.
“Ei, ei, Kurimoto.”
Quando cheguei à escola, Nakano do time de atletismo falou comigo. Por causa da chuva, não houve treino matinal, mas nos encontramos nos armários de sapatos.
“Consiga o autógrafo da Amamori — da JUN-san pra mim… e peça pra ela escrever ‘Para Nakano-kun ♡’!”
“Claro, mas… ela pode só escrever ‘te mato’.”
Além disso, andando pela escola, tópicos sobre YOHILA e JUN chegavam aos meus ouvidos por todo lado. Coisas como que ela aparentemente foi vista aqui ou ali, ou que alguém supostamente falou com ela, ou que ela aparentemente os ignorou… A maior parte era boato.
E era compreensível. Desde o festival cultural, JUN havia desaparecido dos terrenos da escola, tornando-se uma existência como uma UMA — você ouve rumores sobre ela, mas nunca consegue encontrá-la.
[Almeranto: Uma…? Cavalos? ]
Todos pareciam pensar que ela estava ocupada com o trabalho, mas isso não era verdade. Ela ainda vem para esta escola, e está aqui agora.
É só que ninguém sabe onde ela está.
—Depois da aula em um dia chuvoso.
Visitei secretamente aquele lugar.
A sala de AV no segundo andar do Prédio Oeste.
“Shigure,” JUN — Junna chamou meu nome e me recebeu quando abri a porta silenciosamente.
Pálpebras sonolentas e olhos claros, um black bob curto com mechas internas cor de hortênsia.
A bela garota que vi no anúncio esta manhã estava parada perto da entrada, como uma esposa recém-casada esperando o marido voltar para casa na porta da frente.
“Bem-vindo de volta.”
Até sua fala era como a de uma esposa recém-casada.
Camisa de manga longa e gravata, vestindo um moletom com zíper completo azul-roxo combinando com suas mechas internas, por cima do blazer. Em volta do pescoço, seus fones de ouvido estavam puxados para baixo.
Sorri, e então respondi.
“Sim, cheguei. Junna.”
“Quer jantar? Banho? Ou talvez—”
“Comer e beber é proibido na sala de AV, e não tem banheiro também.”
“É. O que significa que só sobrou uma opção…”
“Conversa fiada.”
“ …Muu .”
Dando um tapinha na cabeça da Junna emburrada, fui para meu lugar habitual no fundo. YOHILA ficou famosa, as estações mudaram, e o ambiente ao nosso redor se alterou.
No entanto, o relacionamento entre ela e eu, para o bem ou para o mal, permaneceu inalterado.
☂
““Feliz Aniversário!””
Os party poppers estouraram com um pop, espalhando fitas finas coloridas arco-íris e confetes. Limpar isso depois vai ser uma dor… pensei, como se fosse problema de outra pessoa.
“Parabéns pelo grande sucesso, JUN-sama!”
“Por favor, pare com o ‘sama’… Muito obrigada, Haruka-san. Não consegui o primeiro lugar, então não é um grande sucesso. Vou conseguir da próxima vez.”
Vestindo uma faixa clichê que dizia ‘Estrela de Hoje’ e uma coroa dourada na cabeça, Junna respondeu casualmente.
“Não, não. Isso é mais que suficiente. Como seu amigo, estou tão orgulhoso!” Yōjirō riu, balançando o party popper que havia disparado junto com Yamada.
“…‘Amigo’?”
“Ainda não fui certificado como amigo…”
“Não liga pra ela, Yōjirō.”
“Kurimoto-kun, você também!”
“Feliz Aniversário!” Yamada animou, preparando um novo party popper e mirando.
— Pop! O conteúdo do party popper foi disparado bem no meu rosto. O cheiro de pólvora fez cócegas no meu nariz.
“…Obrigado. Mas por favor, não atirem essas coisas nas pessoas.”
“Obrigada por ter nascido, Shigure.”
“Você sempre exagera em cada coisinha, Junna.”
Tirando o maço de fitas preso na minha bochecha, soltei um suspiro.
Uma faixa ‘Estrela de Hoje’ idêntica à de Junna estava pendurada no meu corpo, e uma coroa prateada estava na minha cabeça.
Além disso, fui forçado a usar óculos decorados com ‘HAPPY BIRTHDAY’ e velas.
Hoje, 10 de novembro, era o dia em que eu nasci.
Convenientemente caindo num sábado, uma festa de aniversário estava sendo realizada desde o meio-dia, dobrando como uma celebração atrasada pelo debut major da YOHILA e seu sucesso.
“Vocês.”
—Na casa de Akagi.
“Querem beber álcool?”
“Claro que não. Somos menores.”
Enquanto retrucava à brincadeira de Akagi, que segurava garrafas de suco de uva e ginger ale, olhei ao redor da sala.
…É insanamente grande. A sala de estar-jantar, que parecia ter pelo menos trinta tatames, tinha uma parede inteira feita de janelas, e o piso era feito de um material como mármore.
O sofá em forma de L era ridiculamente grande, e o conforto era incrível. A mesa baixa à frente tinha tampo de vidro e estava brilhando de limpa, assim como o chão.
Embora não fosse o último andar, era um quarto num apartamento de luxo super alto perto da estação de Nakameguro — um espaço tão luxuoso que parecia mais um hotel da cidade do que um apartamento.
“Por favor, comam o quanto quiserem.”
“Senão, eu vou acabar comendo tudo!” Kotegawa disse, sentada recatadamente na beira do sofá, guardando seu smartphone e fazendo seus olhos brilharem enquanto olhava para os pratos.
Salada Caesar, peixe & fritas, carpaccio de carne e peixe branco, ensopado em crosta de torta… Os canapés luxuosos até tinham caviar por cima.
Esses eram os motivos pelos quais o apartamento de Akagi foi escolhido como local: ‘Porque transportar a comida cozida seria um saco.’
Deixando de lado a festa de celebração de Junna, isso definitivamente não estava no nível de uma festa de aniversário de estudante do ensino médio. Sentindo-me desconfortável demais para suportar, tirei a faixa, a coroa e os óculos excessivamente festivos.
“Agora então.”
Akagi sentou ao meu lado.
“Vamos brindar?”
“…………Eimi?”
“…Sensei. Você está… um pouco perto.”
Kotegawa, que havia deixado o lugar ao lado dela vazio, encarou Akagi, e eu me encolhi com a proximidade inesperada. Junna, que estava sentada do lado oposto a mim, franziu a testa com irritação.
“Não!”
Gritando isso, ela se levantou e enfiou o corpo para sentar entre mim e Akagi. Passando o braço ao redor do meu braço,
“O Shigure é meu. E—”
e passando o outro braço também ao redor do braço de Akagi,
“A Sensei também é minha!”
ela nos puxou de uma vez.

“…!?”
Akagi arregalou os olhos de surpresa, então suas bochechas relaxaram num sorriso.
“Você ficou bem apegada, hein…”
Ela sorriu de forma irônica, parecendo um pouco envergonhada.
Desde os eventos do festival cultural, a atitude de Junna em relação a Akagi havia mudado completamente.
Ela provavelmente já era apegada desde o começo, mas depois de ter sido salva de uma situação desesperadora e de ter compartilhado o palco ao vivo com ela, os freios da hesitação e do constrangimento se romperam, e seu afeto disparou completamente.
Ela não estava apenas se deixando mimar; estava ativamente se esforçando ao máximo para ser mimada.
A ponto de até eu sentir ciúme de Akagi—
“N-Não, ela não é!”
Então, alguém levantou a voz para contestar as palavras de Junna.
“A Eimi é minha, ela é minha!”
Era Kotegawa.
Movendo-se para o lado de Akagi, ela a puxou para si com o braço entrelaçado.
“Não vou te dar ela, JUN-san!”
“Eu não pertenço a ninguém.”
“Kotegawa-san também…”
Enquanto Akagi ficava exasperada com Kotegawa, cujo espírito competitivo ardia ferozmente.
“Eu te amo. Eu te quero… Quero que você se torne membra de apoio da YOHILA!” Junna declarou, olhando para elas com olhos suplicantes depois de soltar os braços e se jogar preguiçosamente para deitar no colo de Akagi e Kotegawa.
“Quê!? Que criatura adorável é essa… Eimi, vamos entrar!”
“Não. Não caia nisso tão rápido, sua idiota.”
“Junna. Chega disso.”
Segurei a mão de Junna e a puxei para cima com força.
“Você já foi rejeitada tantas vezes nesse convite. Não seja egoísta.”
“ …Muu. ”
Junna fez biquinho.
No entanto, talvez tendo desistido obedientemente, ela encostou o corpo no meu. Como se dissesse que tudo bem, dei um tapinha na cabeça de Junna.
“…Ei, Yo-kun. O que eu faço!?”
Yamada, que havia observado atentamente toda a troca, disse para o namorado amigo de infância enquanto limpava a baba que escorria livremente com um lenço.
“Minhas oshis interagindo entre si é precioso demais, acho que vou morrer…”
“Minha oshi número um é você. Continue viva, Haru-chan.”
[Del: Oshi = Pessoa favorita / Idol.]
☂
“Agora, vamos começar — o ‘Quiz de Presente de Aniversário’!”
Depois que todos haviam saboreado deliciosamente a comida feita por Akagi. Com Yamada segurando o punho como um microfone para atuar como MC, o entretenimento começou.
Alinhados na mesa estavam cinco presentes embrulhados. Nós os abriríamos um por um, e era um quiz para eu adivinhar o remetente.
O respondente era eu. Fui forçado a colocar de volta a faixa, a coroa e os óculos depois de tê-los tirado uma vez.
“Se você responder todas as perguntas corretamente, será premiado com o prato de chocolate autografado que diz ‘O Aniversário’, que atualmente decora o bolo feito à mão da EIMEE-sama!”
“Eu ficaria feliz só com o bolo, porém. Feito à mão, hein.”
“Não adicione ‘sama’. Me chame de Akagi-sensei.”
“Se o Shigure não conseguir acertar, eu fico com ele.”
“Não, eu fico!”
“Não, eu vou—”
““ Hã? ””
“…Ah, deixa pra lá. Vocês duas podem dividir ao meio e compartilhar amigavelmente.”
Intimidado pelos olhares de Junna e Kotegawa, Yōjirō recuou desanimado.
Ele parece um cara que tentou se enfiar entre um casal yuri e levou um tapa por isso… pensei, enquanto imediatamente abria o primeiro presente.
O que apareceu foi uma capa de livro cinza simples.
“Isso é… da Yamada-san, não é?”
“Correto! Bem, obviamente você saberia, né?”
“Sim. Agradeço como é fácil de identificar, e eu leio livros mas não tinha uma capa, então estou feliz. Obrigado.”
Agradecendo, parti para o segundo.
Uma embalagem tipo sacola. Dentro havia um cachecol azul estiloso.
“Isso é… do Yōjirō?”
“Correto! Achei que você usaria na estação que está chegando. Tomei a liberdade de escolher um mais longo. O motivo é porque—”
“Eu sei sem você dizer. Obrigado.”
Em seguida, o terceiro. Eu conseguia adivinhar um pouco antes de abrir, mas eram vales-presente.
“Isso é… da Kotegawa-san, talvez?”
Como não interagimos muito, parecia um presente do tipo ‘Não sei do que ele ficaria feliz, então vou dar algo que ele realmente possa usar’.
“Isso está correto. Pensei comigo mesma: ‘Não sei do que ele ficaria feliz, então vou dar algo que ele realmente possa usar.’”
Palavra por palavra, exatamente certo.
“Para constar, tem 100.000 ienes aí dentro.”
“…Isso não é demais?”
“É um token de gratidão por nos dar a oportunidade de subir no palco novamente. Na verdade, é pouco demais.”
“E-entendi… bem, então aceitarei com gratidão. Muito obrigado.”
Dada a quantia, pensei em recusar, mas o olhar de Kotegawa sorridente continha uma pressão inegável, então aceitei obedientemente.
O quarto. A caixinha pequena, do tamanho da palma da mão, continha fones de ouvido sem fio. Era uma obra-prima de alto nível que eu nunca conseguiria comprar sozinho.
“Isso é… da Junna? Não—”
Olhando de relance para o último presente restante, pensei. Se fosse da Junna, ela teria me dado o item ‘combinando’ exato que ela mesma usa. Portanto, a resposta é.
“É da Sensei.”
“Correto.”
Enquanto trazia um bolo que tinha morangos lindamente cortados arrumados como flores num campo nevado de creme branco, Akagi assentiu.
“Ouça a melhor música com a melhor qualidade de som, entendeu?”
“Sim, vou fazer isso com certeza. Muito obrigado.”
Isso faz quatro de cinco. O quinto e último era uma sacolinha amarrada com uma fita azul-roxa, ainda menor que a quarta—
“…É.”
O que havia dentro era uma única chave.
“É da Junna.”
“Correto. É uma chave reserva da minha casa, Shigure.”
☂
“Eu só fiquei curioso de repente, mas…”
A festa agradável havia terminado, e enquanto eu acompanhava Junna para casa.
“Quando é seu aniversário, Junna?”
Aproveitando o momento em que o cantarolar dela parou, perguntei.
Caminhando à minha frente, Junna se virou com um “ Nn… ”. Ela havia puxado o capuz do moletom e estava usando uma máscara preta. Isso era para impedir que sua identidade fosse descoberta.
A JUN da YOHILA agora era uma celebridade completa.
Uma musicista talentosa, jovem, de 16 anos. Até ontem, Junna era um ano mais velha que eu.
“…Eu? Eu sou de—”
Junna baixou o capuz, tirou a máscara e se alinhou ao meu lado.
E então respondeu.
“4 de junho.”
“4 de junho…”
Mastigando aquelas palavras, tracei minhas memórias.
A sala de AV depois da aula em um dia chuvoso, a figura de uma garota lendo um livro esquecido flutuou na minha mente.
“Espera… Será que esse é o dia em que você e eu nos conhecemos?”
“É.”
Junna estreitou os olhos e sorriu feliz.
Pensar na garota que eu achava ‘difícil de ler’ quando nos conhecemos como ‘fácil de ler’ agora — é porque ela mudou, porque eu a entendi profundamente, ou ambos?
“…Isso mesmo, Shigure.”
Junna entrelaçou seu braço com o meu, se aconchegando e encostando seu peso em mim.
Pensei no que aconteceria se alguém nos visse assim — mas estávamos longe da estação com quase nenhum movimento de pedestres, e decidindo que a escuridão da noite nos esconderia, deixei pra lá.
“Por isso, para mim, sabe,”
Esfregando sua bochecha carinhosamente contra mim, ela sussurrou com uma voz doce.
“Shigure — te conhecer foi um presente de aniversário concedido por Deus.”
[Almeranto: Ca-ram-ba, essa frase é muito forte, me senti emocionado na hora.]
“…Entendo.”
Meus passos naturalmente pararam.
Então Junna também parou, separando o corpo que havia pressionado contra o meu.
Sob o luar azul pálido, nos encaramos, olhando nos olhos um do outro.
“……………………”
Esperei silenciosamente que ela abrisse a boca. Transmitindo os sentimentos escondidos no meu coração com o olhar, em vez de palavras.
— Estou pronto , transmiti. Se você tiver coragem de ‘mudar’ e dar esse passo, Junna, eu vou responder.
Será que esses sentimentos chegaram até ela—?
“Shigure.”
Junna abriu a boca. Seus olhos marejados,
“Eu…”
e a voz tremendo, ela apertou as mãos entrelaçadas como se em oração.
“Com você, Shigure—”
『 LINE~♪ 』
[Almeranto: Quando tava ficando bom… droga .]
No instante seguinte, um leve som de notificação que destruiu completamente o clima soou. Junna soltou um “ Pyaa !?” e pulou, nervosa.
“U-uma notificação! Eu tinha desligado elas, então por quê…”
No momento em que ela puxou o smartphone e verificou.
“ ……………………Eh? ”
Com uma expressão como se tivesse visto um fantasma, ela congelou completamente.
Curioso, perguntei.
“O que houve?”
“S-Shigure! Isso!”
Em completo pânico, Junna me mostrou o smartphone. Na tela estava o que parecia ser um grupo de chat.
『JUN convidou Natsuki, Minami e Shiori para o grupo. Por favor, aguarde até que os amigos convidados entrem.』
Um histórico de chat com uma data de mais de um ano atrás, e—
『Natsuki entrou no grupo.』
[Almeranto: Tenho um mal pressentimento de que seja apenas por interesse agora que ela está famosa.]
Uma mensagem do sistema que acabara de chegar. No topo da tela, estava escrito YOHILA (2).
“E-E-E-Eu no grupo da YOHILA…”
“Calma.”
Dizendo isso, eu também engoli saliva e encarei a tela do chat. Com as mãos tremendo ao segurar o smartphone, Junna deu uma explicação gaguejante.
“Mesmo depois que todo mundo saiu, eu não deletei, mantive tudo esse tempo… Awawa . Mesmo tendo desligado as notificações gerais, mantive elas ligadas só para você e este grupo, Shigure…”
Junna apertou os olhos com força, esfregou-os vigorosamente e os abriu novamente. Mas naturalmente, a mensagem não desapareceu.
“Natsuki…”
A voz murmurando o nome da ex-membra sacudiu a noite. Enquanto aquela reverberação se derretia, uma nova mensagem chegou. Não era uma inorgânica.
『 Natsuki: Faz tempo.』
Uma palavra simples, mas definitivamente carregada, de uma pessoa viva.
『 Natsuki: Podemos nos encontrar? Algum dia em breve em Tóquio.』
☂
Uma semana depois, eu estava no primeiro andar de um hotel no centro da cidade, não muito longe da Estação de Tóquio — no lounge do lobby.
Do lado de fora das janelas havia um jardim verde e exuberante. A luz da tarde que entrava pelo vidro fazia o espaço brilhante reluzir ainda mais.
Era um lugar maduro demais para estudantes do ensino médio usarem. Se eu não tivesse construído uma resistência a isso na casa de Akagi, talvez estivesse rígido de nervosismo.
Todos os itens do cardápio eram extremamente caros, e havia um código de vestimenta. Vestindo um traje smart-casual — camisa, jaqueta e calças —, murmurei enquanto bebia um café que, para mim, não tinha gosto diferente de qualquer outro.
“…Está quase na hora.”
『S-Sim…』
A resposta veio do fone de ouvido na minha orelha. Não havia ninguém sentado na cadeira à minha frente.
Junna estava no canto perto da janela, enquanto eu estava perto da entrada. Sentados em mesas separadas, conversávamos por uma chamada aberta.
Assim como eu, Junna estava vestida com elegância — uma blusa com laço azul-pálido arroxeado, uma saia até o joelho e óculos sem grau para disfarce. Ela se misturava perfeitamente ao espaço de alto nível e sua postura parecia calma, mas
『…Acho que vou vomitar.』
na realidade, ela parecia estar mais nervosa do que eu.
Não era para menos. Ela estava se encontrando com uma ex-membra com quem tinha uma desavença pela primeira vez em cerca de um ano. Seria estranho se ela não estivesse nervosa.
“Tudo bem. Se algo acontecer, eu ajo para ajudar imediatamente.”
『S-Sim…』
Mesmo dizendo isso, eu esperava que tal situação não surgisse.
Eu não estava envolvido com o passado da YOHILA que Junna e as outras tiveram, e acredito que um estranho não deva se intrometer em problemas entre amigas.
Mesmo assim, se minha presença por perto pudesse dar paz de espírito à Junna e ajudá-la a manter a compostura — foi o que pensei, observando-a do mesmo espaço.
『…Natsuki.』
Como se falasse consigo mesma, Junna pronunciou o nome da pessoa que iria encontrar.
Shimizu Natsuki.
Colega de turma de Junna no ensino fundamental, e ex-tecladista da YOHILA.
De acordo com Junna — ela era uma jovem dama de berço.
Praticava piano desde criança, e tanto sua técnica de performance quanto sua paixão pela música eram só inferiores à de Junna. A sub-líder da banda, e melhor amiga de Junna.
No entanto, desde que saiu da banda, as duas supostamente não haviam conversado direito.
E agora, ela de repente havia pedido para ‘se encontrar’.
Viajando de propósito de sua cidade natal em Aichi até Tóquio só para isso.
Seu objetivo era desconhecido.
Parecia que tudo o que ela havia dito foi: ‘Quero me encontrar e conversar pessoalmente.’
Pelo timing, parecia relacionado ao debut major da YOHILA, mas se o conteúdo era positivo ou negativo ainda não estava claro.
Era óbvio que ela estaria ansiosa, e nervosa também. Enquanto estava na chamada comigo, Junna verificava constantemente seu smartphone.
13:55. Cinco minutos antes do horário marcado. Dirigi meu olhar para a entrada.
Havia uma garota com a aura de uma jovem dama, vestindo um vestido floral rosa e um cardigã branco por cima.
Seu longo cabelo preto era liso e brilhante, e suas feições eram elegantes — soube de relance: Ah, é ela.

[Almeranto: Realmente, um visual de jovem dama.]
Trocando palavras com a equipe, ela olhou na direção do assento onde Junna estava sentada. Junna congelou com a xícara de chá a meio caminho da boca. Vendo isso, a garota assentiu e começou a caminhar.
Ao passar por mim, o cheiro de rosas fez cócegas no meu nariz.
Nossos olhos se encontraram. Seus olhos estreitados.
“…………”
Depois que a garota passou, sussurrei no microfone do fone de ouvido.
“—Junna, relaxe. Sorria.”
『 F-Fuhi… 』
Junna sorriu. Mas como tentou forçar, suas bochechas tremeram, resultando num sorriso ainda mais assustador e antinatural do que o de Yamada quando ela entra no modo otaku nojenta. Talvez eu tenha dado o conselho errado.
『………a… oi…』
A chamada permaneceu conectada.
Os fones de ouvido de alto nível que Akagi me deu eliminavam o ruído ambiente com cancelamento de ruído e captavam até vozes fracas com clareza.
『F-Faz tempo que não nos vemos! Nachuki!』
Ela mordeu a língua. Logo de cara, tropeçou completamente nas palavras. Para Junna,
『Sim, faz tempo.』
A garota — Natsuki respondeu com uma atitude perfeitamente calma e composta, e,
『Junna.』
chamou seu nome, sorrindo graciosamente.
☂
『Parabéns pelo seu debut major.』
『S-Sim… obrigada.』
O smartphone colocado no meio da mesa, entre Junna e Natsuki, captava as vozes delas e as entregava a mim, que estava sentado a uma distância.
Fingindo ler o livro de bolso coberto pela capa cinza, concentrei minha consciência nos fones de ouvido.
『Você ouviu?』
『Sim.』
À pergunta de Junna, após uma breve pausa,
『…Com tanto falatório, naturalmente chegou aos meus ouvidos.』
『Ah, é… é verdade. Chegaria aos seus ouvidos mesmo se você não quisesse, né.』
『……Eu nunca disse que não queria.』
『D-Desculpa…』
『Não precisa se encolher tanto assim.』
Natsuki soltou um suspiro.
Mesmo tendo a mesma idade que Junna, ela falava com ela inteiramente em japonês educado, mas não soava rígido nem excessivamente formal. Provavelmente era apenas o jeito natural dela de falar. Afinal, ela era uma jovem dama de berço.
『Bem, eu entendo como você se sente… Eu mesma agonizei por muito tempo sobre se era certo te contatar depois de todo esse tempo. Mesmo assim, não consegui evitar. Porque as músicas da YOHILA — porque as músicas de JUN foram simplesmente maravilhosas.』
『Sério!?』
『Sim… “YOU & I”, “Youth and Hydrocyanic Acid”, “Grayscale”, “Ginger”, todas são músicas incrivelmente boas. A qualidade certamente justificava o buzz.』
『O-Obrigada… ehehe .』
Mesmo de longe, eu conseguia ver o rosto de Junna se abrindo num sorriso feliz. Sua voz tensa amoleceu.
『Entendi. Então você ouviu elas』, murmurou com sinceridade, como se mastigasse as palavras de Natsuki.
『—As músicas daquele EP.』
Desta vez, ao contrário, a voz de Natsuki ganhou uma dureza.
『Nenhuma delas era uma música cantada sobre nós, era?』
Talvez fosse isso que Natsuki queria perguntar diretamente a Junna ao se encontrarem.
Junna respondeu com um nervoso ‘S-Sim…’.
『São músicas sobre alguém que conheci depois de vir para cá.』
『Você se envolveu com um cara ruim em Tóquio!?』
『N-Não, não é nada disso!?』
Junna negou imediatamente.
『Ele é uma boa pessoa! Uma pessoa realmente, realmente boa.』
『…No entanto, vocês terminaram — mesmo amando tanto ele, Junna, você foi largada e descartada, não foi? Foi isso que as letras pareciam, porém.』
『Ah…』 Junna finalmente percebeu.
『Aquilo foi, hum… tipo minha imaginação, eu acho. Uma ilusão… sobre o quanto eu odiaria se isso acontecesse. Nós nem estamos namorando ainda』, murmurou e confessou, parecendo envergonhada enquanto Natsuki se inclinava para a frente, pressionando por uma resposta.
Natsuki pareceu perplexa e puxou o corpo para trás.
『A-Ah… é… é isso.』
Nossos olhos quase se encontraram então, então rapidamente baixei o olhar para minhas mãos.
『Eu tinha certeza absoluta de que você havia se envolvido com algum cara estranho e sua mente tinha sido destruída. Tóquio é um lugar assustador, afinal.』
『Você estava preocupada comigo?』
『…………』
Natsuki caiu num silêncio emburrado. Então, como se para mudar de assunto,
『Em outras palavras, sua mente não está destruída de jeito nenhum?』
『Eu não diria “de jeito nenhum”. Mas se você perguntar se estou feliz ou infeliz, eu definitivamente estou feliz.』
À pergunta que lhe foi feita, Junna respondeu com firmeza e continuou.
『…É exatamente por isso que estou assustada. Quanto mais feliz e realizada eu estou… mais aterrorizada fico de perder isso. Porque quanto maiores meus sentimentos se tornam, maior será o buraco criado quando eu os perder. Como quando a Natsuki… quando todo mundo saiu da YOHILA.』
『Junna…』
A voz com que Junna falava era dolorosa, e as palavras que escapavam eram como lágrimas.
O buraco que ainda permanecia escancarado no coração de Junna.
Os fantasmas do palco haviam desaparecido durante o show ao vivo com Akagi e ENDY, mas mesmo assim, o passado não havia sido completamente apagado.
Há apenas uma forma de preencher o buraco no coração dela e exorcizar os fantasmas.
『Ei, Natsuki.』
Junna disse, como se agarrasse a ela. Tirando os óculos, com olhos claros,
『—Vamos fazer de novo juntas?』
como se cantando.
Com emoção tão profunda que só de ouvir apertava meu coração,
『Convide a Minami e a Shiori também, e vamos fazer as pazes nós quatro e recomeçar! Da próxima vez eu vou fazer direito. Não vou pensar só na música, vou considerar adequadamente os sentimentos de todo mundo também. Eu quero… Mesmo agora, eu ainda quero estar numa banda com vocês. Quero existir como uma YOHILA de quatro pétalas, não só uma!』
ela transmitiu seus sentimentos de forma direta. Sua voz em si era tão frágil que parecia pronta para se desfiar e desaparecer a qualquer momento, mas era uma voz sincera que ressoava no coração.
E Natsuki—
『………………………………….』
Não respondeu.
Olhando para baixo, manteve a boca fechada.
『…Ah… hum…』
Talvez pensando que havia jogado emoções pesadas demais de uma vez. Junna apressadamente mudou o tom, continuando suas palavras de forma leve.
『M-Mesmo se uma banda for difícil demais. Pelo menos vamos fazer as pazes, tá? Quero voltar ao relacionamento que tínhamos antes de começar a banda. Como melhores amigas — e amigas!』
『É impossível.』
Uma voz afiada, como uma lâmina, cortou a esperança de Junna.
『…É impossível. O motivo de eu ter vindo te ver não foi para fazer as pazes.』
Um tom frio, completamente seco.
『Foi para dizer adeus.』
Os sentimentos de Junna, seu desejo parecido com uma oração, não a alcançaram e foram impiedosamente despedaçados.
[Almeranto: Veio só pra jogar sal na ferida.]
☂
『………Eh…』
『As músicas da YOHILA são verdadeiramente maravilhosas.』
Para Junna, que havia ficado sem palavras, Natsuki continuou, de forma objetiva, a girar suas palavras.
『Muito mais do que quando éramos quatro. Os resultados falam por si mesmos, não é? A YOHILA atual é superior à Yohila do passado… o que significa. Como banda, o passado foi um erro, e o presente está correto.』
『…! I-Isso —』
Junna tentou negar, mas não conseguiu. Ela hesitou e engoliu suas palavras.
Porque ela estava ciente disso.
Da musicalidade da YOHILA.
Do fato de que a cor das flores é diferente entre o passado e o presente.
De qual delas é reconhecida e buscada.
Junna mesma entendia melhor do que qualquer um.
Quando ela me conheceu, ficou um pouco realizada e agonizou com o fato de que não conseguia mais escrever músicas que soassem “como” YOHILA como resultado — a YOHILA que Junna achava que soava “como” YOHILA era uma única pétala. Não eram quatro.
『…Mesmo assim.』
Uma emoção fraca se misturou na voz inorgânica de Natsuki.
Tristeza, pena, preocupação, simpatia.
『Se você estivesse vivendo dias dolorosos, sofrendo, depressivos como os cantados em suas letras… como ex-melhor amiga, ou talvez como uma das pessoas que te fizeram acabar assim, não seria meu dever te consolar e ficar ao seu lado? Foi o que pensei, e por isso vim te ver, mas…』
O tom de Natsuki ficou frio novamente.
『foi uma preocupação desnecessária… já que você está feliz e realizada no presente.』
—Não há lugar para o ‘eu’ do passado.
Ao declarar isso, Natsuki se levantou.
『Eh!? Espera… N-Natsuki!』
Olhando para baixo para Junna, que estava nervosa e incapaz de se mover,
『Por favor, continue caminhando pelo caminho da música com felicidade, exatamente como você está.』
ela ofereceu aquelas palavras. Não era sarcasmo. Era uma voz suave e quente, transbordando de pura consideração. Era exatamente por isso que acertava fundo.
『Natsuki…』
Para Junna, que permanecia sentada e incapaz de se mover,
『Nós, fantasmas, não teremos mais nenhum envolvimento com você… mas continuaremos te observando de longe. Porque estamos torcendo por você. Junna—』
ela sorriu, e então.
『Adeus.』
Colocando uma nota na mesa para seu chá, ela virou as costas.
E começou a se afastar rapidamente.
Junna—
『………………………………….』
Não se moveu. Atordoada com os olhos arregalados, ela olhava fixamente para as costas da ex-membro que se afastava.
『………………………………….』
“Junna! Você não vai atrás dela? Junna!”
Sem responder aos meus chamados, ela havia parado de se mover como uma estátua de gelo.
“Ei—”
Bem naquele momento, Natsuki passou ao meu lado.
Sua expressão entrou no meu campo de visão. No instante em que isso aconteceu,
“…Não.”
Eu havia me levantado da cadeira.
Pegando minha conta, persegui.
“Eu vou.”
☂
Perdi ela de vista enquanto pagava a conta. Encerrei a chamada com Junna, guardei os fones de ouvido e a procurei.
Encontrei Natsuki quase imediatamente.
Num canto do lobby — ela estava sentada numa cadeira, com a cabeça baixa. Soltei um suspiro de alívio e me aproximei lentamente.
“…………”
Sentei na cadeira ao lado dela e observei seu estado.
Não houve reação. No entanto, ela deveria ter me notado.
Aliviado por ela não ter fugido por enquanto, abri a boca. Como temos a mesma idade, dispensar as honrarias deve estar tudo bem.
“Faz tempo desde o festival cultural.”
Um leve cheiro de rosas chegou até mim. Após um breve momento,
“…Sim.”
Natsuki respondeu.
“Obrigada pela ajuda naquela hora…”
Um vestido floral rosa. Ela não estava usando o boné casquette, mas a roupa era a mesma de quando cedi meu lugar perto da frente do palco no festival cultural.
“Fico feliz que você esteja bem. O show ao vivo ficou incrivelmente selvagem… Eu estava preocupado que você pudesse ter sido esmagada.”
“…Não sou tão frágil assim. Fiquei surpresa e fui arrastada, sim. Mas abri caminho pela onda de pessoas para voltar, e estava fazendo headbanging energicamente na primeira fila.”
Rindo suavemente das minhas palavras brincalhonas, Natsuki respondeu com um tom leve. Sorri de volta e disse: “Você é durona.” Ela parecia estar mantendo a compostura melhor do que eu esperava. Se fosse assim,
“—E então?”
vamos acabar com o prelúdio aqui.
“Por que você disse aquelas coisas para a Junna?”
Eu fui direto ao ponto.
“Mesmo fazendo uma expressão como aquela.”
“…!…”
Natsuki estava chorando.
Na frente de Junna — ela deve ter se segurado desesperadamente até sair do lounge, mas incapaz de suportar mais, grandes gotas de lágrimas escorriam e corriam pelo seu rosto.
Eu conseguia ouvir o som dela fungando.
“…Como eu pensei. Você estava ouvindo tudo, não estava?”
“Minha culpa.”
“Não… tudo bem. Eu falei sabendo que você estava ouvindo. Talvez eu até quisesse que você ouvisse.”
Enxugando os olhos com um lenço, Natsuki olhou para mim.
“—É você, não é? A ‘boa pessoa’ de quem a Junna estava falando.”
“Assumindo que não estou sendo excessivamente autocentrado?”
“Então, por favor, escute.”
Sorrindo para mim enquanto eu dava de ombros, ela confirmou que Junna não estava atrás dela. Natsuki fechou os olhos e começou a falar.
“Só entre nós… nossos sentimentos verdadeiros.”
☂
“Nós somos…”
“Nós somos as ex-membras da YOHILA. Minami no baixo, Shiori na bateria, e eu no teclado… Éramos colegas de turma no ensino fundamental. Nossa escola é integrada, do fundamental ao médio, então frequentamos a mesma escola também.”
Uma escola integrada do fundamental ao médio. Talvez uma escola particular só para garotas.
Junna chamava Natsuki de ‘jovem dama’, mas a própria Junna também pode ser bastante protegida e rica. Ela tem esse tipo de aura.
“Ainda somos melhores amigas, sem mudanças até agora.”
“…Então por que vocês não fazem as pazes com Junna?”
Sem querer, meu tom se tornou acusatório.
Me contendo, continuei.
“É porque a Junna foi a causa da discórdia e dos problemas da banda? Porque nenhuma das ex-membras pensa bem de Junna —”
“Isso não é verdade!” Natsuki negou imediatamente.
“Eu, Minami, Shiori, todas nós. Mesmo agora… mesmo naquela época quando saímos da banda, nós amávamos a Junna! Amávamos a Junna e a música da Junna. Foi exatamente porque a amávamos que as coisas não deram certo,” ela disse, balançando a cabeça.
“…O que você quer dizer?”
Para minha testa franzida, Natsuki perguntou.
“Você tem alguma experiência estando numa banda?”
“Não.”
“Entendi.”
“Uma banda é ‘multiplicação’. Não é uma simples adição… os membros influenciam uns aos outros, ressoando juntos para tecer e tocar um único som. Por isso, quando membros maravilhosos se reúnem, nasce uma música muitas vezes mais magnífica do que tocar sozinha. No entanto—” ela murmurou, baixando o olhar para os pés com o lenço úmido na mão.
A voz de Natsuki afundou sombriamente, e uma sombra caiu sobre sua expressão.
“Nós não éramos assim. Se Junna era um 10, nós éramos menos que 1… ao multiplicá-la com nossos sons imaturos, estávamos arrastando o nível da banda para baixo.”
“Por isso vocês saíram.”
“Sim. Havia outras razões também, porém… No fundo, todas nós guardávamos esse pensamento. O sentimento patético e a frustração de arruinar a música que amávamos tanto com nossas próprias mãos.”
“Entendi…”
Os sentimentos que Natsuki falava eram algo que eu reconhecia dentro de mim mesmo. Foi quando temi que minha própria existência pudesse mudar a musicalidade da YOHILA para pior.
No fim deu tudo certo, mas se aquilo realmente tivesse acontecido, o que eu teria feito? No final das contas, eu provavelmente teria recuado.
“Junna negou, dizendo ‘Isso não é verdade’… mas na realidade, pouco depois que saímos, a YOHILA alcançou sucesso. Ouvindo a música da YOHILA, que havia mudado completamente de quando éramos quatro, pensei comigo mesma. ‘Ah, verdadeiramente… nós três estávamos segurando a Junna.’”
“…………”
Os sentimentos que Natsuki falava eram algo que eu reconhecia dentro de mim mesmo.
“Mas, ao mesmo tempo… eu também pensei isso. Essa música nunca teria nascido se não tivéssemos tido nossa desavença. As que nutriram e despertaram os sentimentos sombrios e depressivos da Junna foram… nós. Se for assim.”
Natsuki sorriu.
“Nossa existência não foi sem sentido para a Junna… para a YOHILA. Foi o que consegui acreditar. Por isso nós nunca devemos fazer as pazes,” ela disse, com os olhos marejados e a voz tremendo.
“Porque se fizermos as pazes e curarmos as feridas de Junna, o charme dela vai desaparecer. Porque ela perderia a única coisa que conseguimos dar a ela… Engolindo nosso desejo de fazer as pazes, continuamos deixando nosso relacionamento quebrado. Para que a escuridão da Junna não clareasse, para que a chuva dela não parasse.”
Ela despejou os sentimentos verdadeiros escondidos no peito.
Eu simplesmente escutei e os aceitei em silêncio.
“…Entendi.”
“Mas quando ouvi as novas músicas dela — havia uma sombra nelas diferente da nossa. Sentimentos sombrios, pesados, melancólicos. Então, pensei comigo mesma. Talvez agora esteja tudo bem… Mesmo que nosso relacionamento seja consertado e o rancor desapareça, desde que os sentimentos sombrios que servem como fonte da música dela não vão embora. Eu queria fazer as pazes… Mesmo que voltar a sermos membras de banda seja difícil, pelo menos eu queria voltar a ser amigas. Foi o que pensei.”
『 M-Mesmo se uma banda for difícil demais. Pelo menos vamos fazer as pazes, tá? Quero voltar ao relacionamento que tínhamos antes de começar a banda. Como melhores amigas — e amigas! 』
Há pouco, Junna havia expressado exatamente os mesmos sentimentos para Natsuki. No entanto,
“—Até eu ver o show ao vivo da YOHILA e saber da situação atual de Junna.”
A resposta de Natsuki para Junna foi ‘Não’.
Sua voz, que havia sido fria e seca então, estava quente e úmida agora.
“Dentro da Junna, as feridas que infligimos, o buraco que abrimos, ainda estavam lá. Por causa delas, não importa o quão feliz ela esteja agora, não importa o quão realizada ela esteja… ela acaba imaginando perder tudo de novo da mesma forma. Então e se as feridas do passado dela cicatrizarem? Se o buraco for fechado, se as coisas voltarem ao normal, e a Junna perceber que mesmo se algo quebrar, pode ser consertado? A Junna ainda conseguiria criar o mesmo tipo de músicas que criou até agora?”
“…Não sei.”
Mesmo com a escuridão no coração dela clareada, a chuva parando e estando completamente realizada, a Junna conseguiria continuar criando a música da YOHILA?
Não sei, mas.
Provavelmente—
“Acho que seria impossível.”
Natsuki declarou, enxugando as lágrimas que transbordavam.
“Por isso eu disse que era ‘impossível’. Para me despedir e gravar no coração dela que o que quebrou uma vez… nunca voltará a ser como era. Porque isso— é a única e solitária contribuição que nós, ex-membras, podemos fazer para a YOHILA e a Junna atuais.”
“…Então é assim”, eu disse. Quando estava ouvindo a conversa delas, senti que a atitude de Natsuki mudou repentinamente no meio.
Deve ter sido porque ela percebeu que os ‘fantasmas’ de suas eus passadas ainda permaneciam dentro do coração de Junna.
Porque ela julgou que se os exorcizasse, a música da YOHILA morreria — ela disse coisas que não queria dizer, machucando Junna intencionalmente.
Como se escavasse uma ferida.
Enquanto se machucava no processo.
“Eu amo a Junna, e amo a música da Junna. Elas não estão aqui hoje, mas a Minami e a Shiori também… Nós checamos cada uma das músicas da YOHILA, e compramos todos os lançamentos em áudio. Conseguimos informações dos pais dela e fomos ao show ao vivo juntas… Não tínhamos coragem de falar com ela ainda, então fizemos em segredo para que ela não descobrisse.”
“Por isso você estava usando o chapéu. Como disfarce.”
“…Sim. Encontramos um único assento vazio na primeira fila, nós três jogamos pedra-papel-tesoura, e como vencedora, eu falei com você.”
Lembrei do que aconteceu naquela hora.
Sentada no assento esperando o show começar, Natsuki parecia feliz, alegre, e quando Junna parou de tocar dizendo que ‘não conseguia se apresentar’, ela soou preocupada, com a voz tremendo.
『 ………Jun…na? 』
—Ela disse. Ouvindo aquilo, eu havia pensado que ela não era só uma fã normal. Já que JUN não havia revelado seu nome real. Mas pensar que ela era uma ex-membra.
“Quando a Junna parou de tocar, eu não sabia o que ia acontecer… mas incluindo a aparição surpresa da ENDY, foi o melhor show ao vivo de todos. A Minami e a Shiori também ficaram incrivelmente empolgadas… A viagem de volta de trem-bala foi completamente dominada por conversa sobre o show. Foi exatamente como — logo depois que nós quatro vimos o show ao vivo da ENDY juntas pela primeira vez no ensino fundamental.”
Natsuki estreitou os olhos, como se olhasse para um horizonte distante.
Eu havia ouvido que a ENDY foi o catalisador para Junna começar uma banda. Além do olhar dela provavelmente havia memórias das quatro que eu não conhecia.
“…Aquele show ao vivo no festival cultural. Você esteve envolvido nele, não esteve?”
Voltando o olhar, Natsuki perguntou.
“Quando o show foi interrompido, você não ficou nem um pouco abalado… Mesmo quando a ENDY apareceu, sua surpresa foi zero. A resposta do local e da equipe também foi estranhamente fluida. Estou exagerando ao sugerir que medidas foram tomadas com antecedência, antecipando que a Junna ‘acabaria assim’?”
“Vou deixar isso para sua imaginação.”
“ …Hmm .”
Não importa como ela interpretou minha resposta, Natsuki ergueu uma sobrancelha. Olhando fixamente para mim…
“Pensando bem, ainda não perguntei seu nome… Posso?”
“É Kurimoto. Kurimoto Shigure.”
“Shigure, como em ‘shigure’ de Ling tosite sigure?”
Sinto um senso de déjà vu com essa reação… pensei, enquanto respondia.
“O ‘shi’ de ‘poeta’, e o ‘gure’ de ‘pôr do sol’, faz Shigure.”
“ Oh my . Que nome maravilhoso.”
Essa reação também me deu um senso de déjà vu. A troca quando conheci Junna pela primeira vez.
“Meu nome é Shimizu Natsuki. O ‘shi’ de ‘puro’ adicionado a ‘minazuki’, o nome tradicional para o mês de junho, para escrever Shimizu Natsuki. Shigure-san—”
Me chamando pelo primeiro nome em vez do sobrenome, Natsuki se levantou. Movendo-se de ao meu lado para ficar de frente para mim diretamente,
“Por favor, peço que cuide bem de Junna.”
ela baixou a cabeça profundamente. Mantendo o rosto baixo.
“Em nosso lugar… por favor, fique ao lado dela e a apoie. Ela pode ser um pouco intensa e um pouco difícil, mas —”
“Eu sei.”
Interrompendo as palavras que ela tecia, eu disse.
“—E eu entendo. Planejo fazer isso pelo resto da minha vida se a Junna desejar, então fique tranquila.”
“O resto da sua vida…”
Erguendo o rosto e me encarando atentamente, Natsuki ficou atordoada.
Então, seu rosto de repente se abriu num sorriso.
“ …Hoh? ”
Colocando uma mão sobre a boca, ela riu elegantemente.
“Vocês são um par muito bem combinado de espíritos afins, não são?”
“Quem você está chamando de ‘cara pesado e problemático’?”
“Eu não disse isso.”
Para o meu suspiro, Natsuki continuou a rir.
Suas lágrimas haviam secado.
“—Bem, então.”
Natsuki encerrou a conversa. Atenta à maquiagem arruinada…
“Vou indo agora… Por favor, volte rápido para ela. Tenho certeza de que ela está profundamente machucada. Por favor, cure-a e console-a.”
“…Você não precisa me dizer.”
“Ah, e também.”
Enquanto ela saía —
“Você deve absolutamente, absolutamente nunca contar a ninguém sobre o que conversei hoje, okay? Não para a Junna, claro, nem para mais ninguém. O fato de que nós três ainda realmente, reeeeaaaalmente amamos a Junna e a música da Junna — da YOHILA! Que a amamos profundamente! É um segredo absoluto.”
“…S-Sim.”
Para Natsuki, que falava com bochechas coradas e respiração pesada, sorri ironicamente.
“Vocês, ex-membras da YOHILA, são exatamente como eu e Junna… geralmente bem pesadas e problemáticas, hein.”
PLAYLIST DAS MÚSICAS QUE SÂO MENCIONADAS NA OBRA.
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(Crédito para o @Thang por reunir)
Traduzido por Moonlight Valley
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